"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: os dois papéis da Igreja

Casal dançando e celebrando o amor. Não combinava com o saber produzido pelos homens da Igreja sobre o casamento e a sexualidade.

Com a queda do Império Romano, a Igreja foi a única instituição desse Estado que sobreviveu. Gradativamente ela conseguiu converter os bárbaros à fé cristã e assumir o papel de guia espiritual da sociedade medieval que se constituía sobre os escombros do império.

A Igreja medieval se propunha a desempenhar dois papéis, que nem sempre se harmonizavam. O primeiro, como representante de Deus na terra, era o de apontar o caminho da salvação, do retorno à casa do Pai. Para isso prescrevia uma série de princípios morais, difíceis de serem seguidos na vida cotidiana, uma vez que essa é marcada pelas necessidades materiais e pelas relações de poder.

O segundo papel, como instituição poderosa, rica e com um vasto quadro de funcionários permanentes (o clero) era o de regular a vida social e política, contribuindo para a sua permanência e reprodução. O primeiro papel levava a Igreja a se contrapor à sociedade laica, e o segundo a se confundir com ela, visto que era uma instituição privilegiada na repartição da riqueza e do poder.

Os dois papéis obrigavam a Igreja a se preocupar com o casamento. Era o matrimônio que regulamentava a divisão das mulheres pelos homens e disciplinava, em volta delas, a competição masculina, Era ele que oficializava, socializava e colocava ordem na procriação e na sexualidade.

Ao regulamentar essas forças vitais do ser humano, o casamento tocava no domínio do misterioso e do sagrado. Por outro lado, designando quem eram os pais, o casamento estabelecia os herdeiros e os parentes. Por essa razão o papel da instituição matrimonial variava conforme a posição social e econômica dos herdeiros. Ela não era a mesma para todos os grupos sociais.

O casamento era, portanto, o alicerce do edifício social, um ponto de junção entre o material e o espiritual.

Para manter a ordem social, era preciso que a vida material, incluindo a economia e a política, estivesse ajustada à espiritual, mas houve momentos em que isso deixou de acontecer. Essa contradição levou à mudança.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 222-224.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Cristianismo

O cristianismo antigo tem duas etapas históricas claramente distintas. Houve uma primeira fase em que se difundiu pelas comunidades judaicas da Ásia Menor e do Egito e que “incluía uma grande variedade de vozes, um extraordinário leque de pontos de vista”. Na Síria e no Egito, convivia com seitas judias diversas, antes da fase de predomínio do gnosticismo, em que a doutrina se impregnou de traços do pensamento oriental e do paganismo greco-romano. Era lógico que as diferenças doutrinais não fossem vistas como decisivas a grupos que compartiam a crença de que o fim do mundo estava próximo. Este componente escatológico, herdado da tradição apocalíptica que florescia na Palestina nos tempos de Cristo, foi um elemento fundamental do cristianismo ao redor do ano 200 quando, não tendo chegado o fim do mundo, os cristãos voltaram à vida normal. Desde este momento, as posturas extremas sobre o ascetismo conservaram-se apenas entre os grupos mais extremados do cristianismo oriental. Na cristandade ortodoxa, a norma da castidade absoluta ficou para os “pais do deserto” – os ascetas egípcios ou os eremitas da Síria ou Capadócia -, de quem os monges a tomaram e, só gradualmente e muito mais tarde, generalizou-se no clero secular.

Folio Papiro 46 contendo 2 Corintians, 11:33-12:9 (uma das primeiras coleções do século III das epístolas paulinas)

ενσαργανηεχαλασθηνδιατουτειχουσ
καιεξεφυγοντασχειρασαυτουκαυχασ
θαιδειουσυμφερονμ[ε]νελευσομαιδε
εισοπτασιασκαιαποκαλυψεισκυοιδα
ανθρωπονενχωπροετωνδεκατεσσαρων
θιτεενσωματιουκοιδαειτεεκτοστουσω
ματοσουκοιδαοθσοιδεναρπαγεντατον
τοιουτονεωστριτουουρανουκαιοιδατον
τοιουτονανθρωπονειτεενσωματιειτε
χωριστουσωματοσουκοιδαοθσοιδενοτι
ηρπαγηεισυονπαραδεισονκαιηκουσεν
αρρηταρηματααουκεξονανθρωπωλα
λησαιυπερτουτοιουτουκαυχησομαιυπερ
δεεμαυτουουδενκαυχησομαιειμηενταις
ασθενειαισεανγαρθελωκαυχησομαι
ουκεσομαιαφρωναληθειανγαρερω
φειδομαιδεμητισεμελογισηταιυπερ
οβλεπειμεηακουειτιεξεμουκαιτη
υπερβολητωναποκαλυψεωνιναμη
υπεραιρωμαιεδοθημοισκολοψτησαρκι
αγγελοσσαταναιναμεκολαφιζηινα[μη]
υπεραιρωμαιυπερτουτουτρις[τονκυριον]
παρεκαλεσαινααποστηα[πεμουκαιει]
ρηκενμοιαρκεισοιηχα[ρισμουηγαρ]
δυναμισ[ενασθενειατελειταιηδισταουν]

A segunda etapa da história do cristianismo antigo é a de sua associação com o poder político do Império Romano, que o transformou em um “governo eclesiástico paralelo ao secular”, que com ele colaborava no cumprimento dos decretos imperiais. Seu caráter plural e comunitário desapareceu. O cristianismo transformou-se na Cristandade, que via a si mesmo como uma comunidade unitária e hierarquizada aspirava incluir todos os homens, estendendo seu controle a todas suas atividades.

Desde o primeiro momento, o imperador Constantino deu um sentido político a sua aliança com o cristianismo. A Igreja seria um dos apoios essenciais do império cristão que sobreviveria no Oriente até o século XV. No Ocidente, onde a estrutura imperial ruiu muito antes, a Igreja tentou restabelecê-la com a coroação de Carlos Magno em Roma ou com o papado imperial, que levaria os pontífices romanos a reunir o poder político e a função sacerdotal na sua pessoa, como herdeiros do império.

Nesta nova situação, criada pelo reconhecimento político do cristianismo, não podia permanecer a convivência pacífica das diversas correntes; era necessário eliminar os dissidentes: hereges e cismáticos. Os primeiros dissidentes perseguidos, os donatistas do norte da África, não discordavam na doutrina, mas se opunham à aliança do cristianismo com o poder político; consideravam-se os autênticos herdeiros da Igreja dos mártires e condenavam os que se aliavam ao império, valendo-se da força deste para impor-se nas divergências entre os cristãos. Alguns fiéis optaram por soluções pessoais que não ameaçavam a Igreja hierárquica e eram aceitos por esta, como os amacoretas, que se retiraram para o deserto, ou os monges, que se encerravam em mosteiros para levar vida em comum.

A “oficialização” do cristianismo não deve ser confundida com a cristianização do império, que se produziu a longo prazo e em uma série de etapas. O século IV foi um período de convivência pacífica em que a velha religião continuou a abrir templos, receber subsídios e regular a passagem do tempo com suas festas. Após a fugaz restauração do paganismo por Juliano, a situação começou a ser modificar com Teodósio I, que apoiou o estabelecimento da unidade religiosa através da força: fechou os templos pagãos e condenou os sacrifícios de animais como atos de alta traição.

Apesar das mediadas repressivas, entretanto, os sacrifícios continuariam a ser feitos de forma clandestina. Seriam necessárias perseguições e campanhas militares para acabar com as últimas comunidades pagãs, o que parece não ter acontecido até o século IX (os pagãos tinham, agora, mártires como Hypatia, uma professora de filosofia que foi apedrejada em Alexandria pelos seguidores do bispo). Frente a esta situação, os últimos filósofos pagãos começaram a fugir para a Mesopotâmia, onde estabeleceram uma comunidade que conservou a cultura grega e a transmitiu ao mundo islâmico.

A igreja cristã de Roma não era única. Havia, para começar, a do Oriente, quer dizer, a que seguiu associada ao império (que chamamos de bizantino) e que, depois, esteve associada aos novos poderes que os substituíram: o sultão turco ou os soberanos de cada país nas diversas igrejas nacionais. Houve também uma cristandade asiática muito importante que, no século XIII, se estendia desde o Egito até o mar da China, com núcleos relevantes na Mesopotâmia, Armênia, Cáucaso e Síria, e com conventos na Ásia Central, entre os turcos e mongóis.

A maior das igrejas cristãs asiáticas foi a nestoriana. Sua origem remonta à Igreja persa, que se tornou independente do Ocidente em 424, rompendo seus laços com Bizâncio. Seu chefe, o catholicos, residia em Ctesifonte, porém a atividade missioneira pela rota das caravanas criou comunidades cristãs desde Java até Azerbaijão. Em 1009, os kerait, o maior e mais culto dos povos mongóis da Ásia central, converteram-se ao cristianismo nestoriano. Mais tarde, seriam dominados por Genghis Khan, que respeitava as religiões dos povos que integravam seu império, não faltando, entre seus sucessores, quem mostrasse simpatia pelos cristãos.

Os mongóis foram, durante muito tempo, a grande esperança do cristianismo do Ocidente. Em 1258, organizaram uma cruzada que reconquistou Alepo e Damasco, onde as tropas vencedoras entraram em 1260 com um general nestoriano mongol na liderança, acompanhado de um príncipe armênio e de um cruzado ocidental. Porém, não encontraram apoio nem nos cruzados de Jerusalém nem no papa de Roma, que preferia a aniquilação dos hereges ao triunfo de um cristianismo plural (de forma semelhante, os cristãos do Ocidente permaneceram, mais tarde, indiferentes à tomada de Constantinopla pelos turcos).

Enquanto que se produzia o grande movimento de fechamento e de intolerância que, de 950 a 1250, converteu a Europa numa sociedade repressora (a perseguição aos judeus, a segregação dos grupos minoritários, o estabelecimento da Inquisição e o uso da tortura judicial), iniciava-se uma grande etapa de florescimento das heresias, que culminou nos séculos XII e XIII, durando até o XV. Era uma conseqüência da crise da igreja e da vontade de reforma que haviam surgido entre o clero e entre os fiéis.

Um dos pontos centrais de oposição à hierarquia da Igreja era a pretensão de impor, ao conjunto da sociedade, o monopólio da interpretação religiosa por parte dos clérigos ordenados, reduzindo o fiel à posição de receptor passivo de uma religião que lhe era transmitida exclusivamente pela via oral. Em seu afã por recuperar a pureza do cristianismo primitivo, os críticos da Igreja retomariam diretamente os textos, especialmente o das escrituras. Por mais limitada que fosse a alfabetização, parece claro que a heresia a havia estimulado com as traduções de textos bíblicos às línguas “vulgares”, como as que sabemos que foram feitas em Languedoc, na França ou na Catalunha, no século XIII.

A história destes movimentos chegou-nos na versão dos seus repressores, que ressaltaram os aspectos doutrinais e os ritos que divergiam dos “ortodoxos”, acrescentando-lhes uma carga de maldade diabólica, ao mesmo tempo que omitiam as queixas dos dissidentes contra a Igreja oficial.

Este é, por exemplo, o caso dos cátaros, que têm sua origem no movimento dos bogomilos da Bulgária, onde se podem encontrar elementos do dualismo oriental – a crença de que o mundo está dominado, ao mesmo tempo, por um princípio do bem e um princípio do mal -, mas que foram perseguidos, principalmente, porque propugnavam um retorno da Igreja à pureza e à pobreza evangélicas e porque davam apoio à resistência dos camponeses contra o feudalismo. O catarismo do Languedoc, que influiu fortemente na Catalunha, defendia uma vida simples de trabalho e abrigava crenças mais próximas do patrimônio da cultura popular do que da teologia romana. Oferecia, aos fiéis, sermões e orações na língua vulgar e, o que era mais importante, o exemplo de uma Igreja que não exigia dízimos, nem excomungava, nem matava como fazia a de Roma e que não estava comprometida com os senhores feudais que oprimiam os camponeses. Representava, por tudo isso, uma ameaça à ordem estabelecida, justificando uma cruzada e repressão feroz.

Todos estes movimentos religiosos, que se relacionaram e se entrelaçaram sutilmente até chegar a guerra dos camponeses alemães do começo do século XVI, estão estreitamente associados a levantes sociais que torna-se difícil separá-los. O movimento inglês dos lolardos de Wycliffe coincide no tempo, e em alguns de seus protagonistas, com a grande rebelião de Wat Tyler (a revolta de 1381 que propunha liquidar com o feudalismo). Apesar das perseguições que sofreram, grupos de clérigos lolardos continuaram mantendo sua fé em segredo, sobrevivendo por mais de um século até acabar fundindo-se com o protestantismo. Eram, na sua maioria, manifestações de uma religião de artesãos, pregada diretamente nos círculos que liam a Bíblia traduzida em língua vulgar, como ocorria na Itália e na França com a dos valdenses, um movimento que pode ser qualificado de religião dos laicos.

Os escritos de Wycliffe tiveram relação com o aparecimento, na Boêmia, do movimento dos hussitas, de cujas ramificações, uma, a dos taboritas, fazia propostas radicais de transformação social. Enquanto organizavam-se seis cruzadas contra os hussitas, começavam, na Alemanha, movimentos que tinham um duplo componente religioso e social e que culminaram, em 1524, com o início da guerra dos camponeses e o movimento, duplo e paralelo, da Reforma e da Contrarreforma, que não apenas tendiam à renovação do cristianismo, mas à consolidação da ordem social.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 302-306.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O poder: sinopse da história faraônica

Relevo do portal da mastaba de Saqarah

5000-3000 a.C. - Período Pré-histórico (ou Pré-dinástico).  Nos tempos primitivos, o vale do Nilo era habitado por povos nômades, que se agrupavam em clãs, isto é, em grupos cujos membros se consideravam descendentes de um antepassado comum, o qual era venerado como um totem (deus protetor): o lobo, o falcão, o chacal, a seta, etc. A fertilidade do vale fez com que estes clãs nômades se tornassem sedentários. Os clãs uniram-se em grupos maiores, aldeias-estado, que por sua vez deram origem aos nomos¹ (províncias). Os nomos foram fundindo-se e acabaram formando, em meados do 4º milênio, dois grandes reinos: ao sul, o Alto Egito (o longo e estreito vale do Nilo), cujos habitantes veneravam o deus Hórus, representado por um falcão; ao norte, o Baixo Egito (o largo Delta), onde os nomos se agruparam sob o culto do deus Set, representado por um cão.

¹ "Os nomos eram autônomos e dirigidos por um nomarca, que era, simultaneamente, chefe militar, rei e juiz. Quando havia necessidade de superar algum obstáculo como - drenar pântanos, abrir canais de irrigação -, os nomos estabeleciam relações de cooperação. [...]" [NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 51]

Eram duas regiões de forte contraste: o país "das Duas Terras", como diziam os egípcios antigos. "Em todo o curso da história - escreve o erudito egiptólogo Wilson - essas duas regiões se diferenciaram e tiveram consciência da sua diferenciação". E acrescenta: "Quer nos tempos antigos, como nos modernos, as duas regiões falam dialetos diferentes e veem a vida com perspectivas também diferentes".

Os egípcios não eram uma etnia pura. Correspondiam, provavelmente, a um ramo mediterrânico da etnia caucásica; mas apresentaram cruzamentos com negróides, líbios, semitas e diversos povos ocidentais asiáticos.

Neste período pré-dinástico, o desenvolvimento da cultura egípcia foi, quase totalmente, autóctone e interno. Houve, apenas, alguns elementos de evidente influência mesopotâmica: o selo cilíndrico, a arquitetura monumental, certos motivos artísticos e, talvez, a própria ideia da escrita.

Há, nessa época, progressos básicos nas artes, ofícios e ciências. Trabalha-se a pedra, o cobre e o couro (instrumentos, armas, ornamentos, jóias). Há olarias, vidragem; sistemas de irrigação. Vai-se formando o Direito, baseado nos usos e costumes tradicionais - leis consuetudinárias.


Fragmento de relevo do muro do túmulo de Amenemhat e sua esposa Hemet. 12ª dinastia.


3000-2780 - Primeiras duas dinastias (Reino Tinita). A unificação do Egito: Os dois reinos, Alto e Baixo Egito, estiveram em luta durante longo tempo. Finalmente, um famoso (e lendário?) Menés, rei do Alto Egito, conquistou o Baixo Egito, unificou o país e estabeleceu a primeira dinastia. Este período chama-se tinita, por ter sido Tínis a capital do império.

Nesta época, provavelmente, é que surgem a escrita e o calendário de 365 dias.

2780-2400 - Antigo Império (Reino Menfítico). A partir da 3ª Dinastia, os faraós transferiram a capital para Mênfis, no começo do Delta, o que permitiu dominar melhor ambas as regiões do país.

O Antigo Império foi uma época de brilhante civilização. O regime político, porém, era absoluto e teocrático. O chefe era o rei-sacerdote, ou faraó², venerado pelos egípcios como um deus: "o deus vivo". Dedicava-se-lhe tão supersticioso respeito que não podia ser chamado pelo próprio nome; denominavam-no "par-ó" (casa grande, palácio real), de onde deriva o termo "faraó". No começo, o faraó considerava-se um deus Hórus. Mais tarde (desde a 5ª Dinastia), proclamou-se filho divino do deus-sol Rá.

² "'Ele é um deus a quem devemos a vida, pai e mãe de todos os homens, único e sem igual', escreveu um egípcio, funcionário civil do faraó, por volta de 1500 a.C." [Citado em: ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo: da Pré-história à Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100]

Não havia separação entre o Estado e a Igreja. O faraó era o rei e, ao mesmo tempo, o sumo sacerdote. O governo não tinha índole militarista: não existia um exército permanente. A política exterior era de paz e de não-agressão.

A coroação do faraó realizava-se em Mênfis, num templo chamado o "muro branco", em cujas duas faces era proclamado sucessivamente rei do Alto e do Baixo Egito, com a dupla coroa branca e vermelha.

A centralização do regime permitiu a realização de vastas obras de arquitetura e de canalização. Durante a 4ª Dinastia construíram-se as famosas pirâmides de Gizé.


Vista panorâmica das pirâmides de Gizé


2400- 2100 - Primeiro Período Intermediário (anarquia e feudalismo).  No fim do Antigo Império houve revoltas e desordens, provocadas pelos nomarcas (governadores dos nomos ou províncias), que aspiravam à independência. Aumenta o poder dos nobres e decai o prestígio dos faraós. O período caracteriza-se pela anarquia, feudalismo e a invasão das tribos negróides e asiáticas. Mas, do ponto de vista das massas, foi "a época democrática do Egito antigo", um período de igualdade e justiça sociais. O texto que mais claramente expressa a nova tendência à justiça social é o "Relato do camponês eloqüente".

2100-1785 - Médio Império (ou Primeiro Império Tebano).  A autoridade real é restabelecida pelos príncipes de Tebas (11ª Dinastia), que restauram a unidade do país. Este governo central parece mais democrático que o menfítico, pois que as massas vão sendo emancipadas mercê de profundas concessões sociais e religiosas.

A igualdade religiosa propicia a igualdade social e política. Os camponeses e os trabalhadores da cidade tornam-se livres, o que produz excelentes resultados. A 12ª Dinastia assinala o apogeu dessa época: consolida energicamente o reino e mantém bem alto o prestígio internacional do Egito. Senusert III dilata as fronteiras meridionais e contém os núbios. Amenemat III constrói canais e açudes e a vasta represa constituída pelo lago artificial Méris [...]. Época áurea de justiça social e de progresso material e intelectual, o governo da 12ª Dinastia é apontado, por alguns autores, como "o primeiro império democrático da história".

1785-1580 - Segundo Período Intermediário (a invasão dos hicsos). Esta é a época mais confusa, e discutida, da história do antigo Egito: um período de invasões e de caos interno. Bandos aguerridos de pastores asiáticos - os hicsos - conglomerados de povos semitas e arianos, invadiram o Egito (através do istmo que o ligava à península do Sinai), venceram os exércitos do faraó e dominaram grande parte do país. Possuíam cavalos e carros de guerra (com rodas); e armas de bronze (ou talvez, mesmo, de ferro), mas bem acabadas e mais fáceis de manejar. Tudo isso explica a sua superioridade bélica e os seus triunfos militares.

Os hicsos talvez estivessem a fugir da pressão dos invasores indo-europeus (hititas, cassitas e mitanianos), sobre o Crescente Fértil.

Com os hicsos, devem ter entrado no Egito, os hebreus. O José bíblico (filho de Jacó e de Raquel, vendido pelos seus irmãos e levado ao Egito) foi, provavelmente, ministro de algum rei hicso. Os hebreus entraram no Egito por volta de 1700 e aí permaneceram uns 4 séculos.

1580-1200 - Novo Império (ou Segundo Império Tebano). Amés I [também chamado Amósis I] iniciou a guerra pela independência e expulsou os hicsos. Começou, então, uma época de poderio e de expansão - o Império propriamente dito. Tendo aprendido com os invasores, os egípcios aperfeiçoaram a sua máquina de guerra: o exército possuía, agora, carros de combate puxados por cavalos.

O Novo Império era belicoso e imperialista. Tutmés III [também chamado Tutmósis III] conquistou a Síria. Fenícios, cananitas e assírios passaram a pagar tributos. O avanço egípcio provocou o choque com os poderosos hititas, da Ásia Menor. O célebre Ramsés II lutou contra eles na batalha de Kadesh (aprox. 1295 a.C.). Não tendo podido vencê-los, assinou com os hititas um acordo (tratado de paz e aliança defensiva), que durou muitos anos. Durante o longo reinado de Ramsés II (1298-1235) construíram monumentos, palácios, canais. Concluíram-se dois templos imponentes: os de Karnak e Lúxor.

Uns 5 anos após a batalha de Kadesh (aprox. 1290 a.C.), iniciou-se o êxodo dos hebreus.

O Novo Império foi considerado pelos egípcios "como uma das épocas mais luminosas da sua história". Seus faraós mais famosos foram Tutmés III e Ramsés II. Todavia, para a sensibilidade moderna, o faraó mais importante é Amenófis IV (reinado: 1372-1354), autor de uma profunda revolução religiosa: a instauração de um culto monoteísta [...].


Cortejo fúnebre. Livro dos Mortos de Ani. 19ª dinastia


1200-652 - Diversas dominações. Decadência. O reinado de Ramsés II foi uma época brilhante da história egípcia. Após Ramsés II começou a decadência: o Egito sofreu invasões, guerras civis e anarquia social. Os "povos do mar" (guerreiros loiros, de etnia indo-europeia) conquistaram o Delta e as costas da Palestina. Depois houve período de domínio líbio e etíope (núbio). Mais tardem sobrevieram os assírios, que dominaram de 671 a 652.

652-341 - Renascimento Saíta. Psamético I consegue expulsar os assírios, readquire a independência egípcia e funda nova dinastia (26ª), que assinala grande renascimento cultural. Estabelece-se nova capital, Saís, no Delta. A restauração continua com Necao (609-594), que intensifica as relações com a Ásia. Ao que parece, ele reabriu o canal que ligava um afluente oriental do Nilo ao Mar Vermelho - fazendo com que este, portanto, se comunicasse com o Mar Mediterrâneo [...]. Hanon, capitão fenício a serviço de Necao, realiza o périplo da África: parte do Mar Vermelho e volta pelo Mediterrâneo, após 3 anos de viagem.

No Delta interior estabelecem-se colônias de mercadores gregos; a mais importante é Naucrátis. Começa a helenização do Egito, embora a influência grega só se exerça nas classes elevadas.

Em 525, o rei persa Cambises (filho de Ciro) vence a batalha de Pelúsio e conquista o Egito. Em 404, os egípcios conseguem reconquistar a liberdade, mas são dominados novamente pelos persas, em 341. Encerra-se aqui a história do antigo Egito independente.

Epílogo: 341 a.C. - Da dominação persa aos romanos. Após a segunda dominação persa, sobrevieram a hegemonia grega (Alexandre: 333 a.C.) e a romana (após a morte de Cleopatra: 30 a.C.).³

³ "Durante sua longa história, os egípcios tentaram preservar as formas antigas de sua civilização, reveladas por seus ancestrais e representando, em todas as épocas, aqueles valores imutáveis que eles acreditavam ser o caminho para a felicidade". [PERRY, Marvin. Civilização Ocidental - Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 19]

Quando Alexandre entrou no Egito, foi saudado como um libertador. Fundou Alexandria, que sucedeu Atenas, como centro intelectual do mundo; já no primeiro século de existência lecionavam lá os maiores matemáticos da antiguidade: Euclides, Apolônio, Eratóstenes, Diofanto. Arquimedes passou algum tempo em Alexandria; voltou a Siracusa, mas manteve sempre contato epistolar com a cidade egípcia de sábios.

O Egito pertenceu durante 4 séculos ao Império Romano do Ocidente [...].

BECKER, Idel. Pequena história da civilização ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 24-29.
MARVIN, Perry. Civilização Ocidental - Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 19.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 51.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo: da Pré-história à Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Arqueologia e poder


Pesquisa arqueológica em Bet Shemesh, Jerusalém, Israel

O poeta alemão Goethe descreveu, em 1788, com as seguintes palavras, os sentimentos que experimentara quando da sua primeira visita à Roma:

Também as antiguidades romanas começaram a me agradar. História, inscrições, museus, dos quais antes nada queria saber, tudo se abria diante de mim. O que se passara comigo quanto à história natural, aconteceu também aqui, pois neste lugar condensava-se toda a história do mundo e, desde o dia que fui para Roma, contei um segundo nascimento, um verdadeiro renascimento.

As impressões de Goethe ressaltam que a constituição de uma identidade depende da preservação de lugares com suas evocações à nossa memória, sendo o caso de Roma muito claro, com seus tantos monumentos de fama internacional: diante de tais monumentos o poeta acabou desenvolvendo uma admiração por aquela antiga civilização e reconhecendo-se, como ser humano, herdeiro das realizações daqueles antepassados. [...]

Embora os documentos escritos se prestem a essa reconstrução histórica, sua pouca acessibilidade confere-lhes uma significação consideravelmente menor do que a cultura material, cuja presença física atinge diretamente os membros da sociedade. Na concepção do arqueólogo [...] Karl-Heinz Otto, a arqueologia - ao resgatar os vestígios materiais das pessoas comuns, não apenas das elites, que monopolizaram os documentos escritos por milênios - permite ao cidadão "avaliar o papel dos homens comuns, o papel das massas populares, como agentes e forjadores da história".

O reconhecimento da significação político-ideológica da arqueologia não se restringe a apenas alguns grupos ou tendências. Em fins da década de 1970, um arqueólogo britânico [...], Grahame Clark, considerava que a arqueologia "apresenta questões mais radicais do que aquelas comumente posta pela ciência política ou pela sociologia, pois elas são colocadas numa perspectiva mais ampla", ao tratar das pessoas comuns, dos indígenas, sob uma perspectiva menos enviesada do que a prevalecente nas fontes escritas. Essa abordagem mais ampla da arqueologia engloba toda a história da humanidade [...] assim como permite um acesso ao conhecimento da vida e da história da imensa maioria de analfabetos de todos os tempos.

Qual a relação entre arqueologia, em geral percebida como uma ciência neutra, e a política, ou seja, a esfera das relações de poder? A arqueologia é sempre política, responde a necessidades político-ideológicas dos grupos em conflito nas sociedades contemporâneas. Como afirmou o arqueólogo britânico Clive Gable:

A arqueologia surgiu, de forma gradual, nos últimos duzentos anos como o estudo sistemático do passado. [...] A força motora foi a nova ordem política, social e econômica da Revolução Industrial, primeiro na Europa e depois na América do Norte. Uma reação à arqueologia imperialista foi a fundação do Congresso Mundial de arqueologia, em 1986 e a inovadora série de livros One World Archeology. [...]

[...]

A ligação entre arqueologia e política apresenta-se, contudo, sempre mediatizada. Não se trata apenas de justificar certas relações de poder, ou de fortalecer certas ideologias, mas de legitimá-las pela presença de testemunhos materiais que dêem sustentação científica a essas pretensões. [...]

A criação e a valorização de uma identidade nacional ou cultural relacionam-se, muitas vezes, com a arqueologia. Neste caso, predominam com frequência os interesses dos grupos dominantes mediados pela ação do Estado. Assim, por exemplo, a importância ideológica da arqueologia em Israel, bem como a grande participação de voluntários nas escavações e na preservação e exibição do material arqueológico, explica-se pela busca de identidade entre o atual Estado judeu e a antiga ocupação hebraica da Palestina.

A primazia cronológica da entrada dos judeus na região em relação aos filisteus serve como potente justificativa de sua reocupação pelos primeiros. [...]

[...]

A exploração e a valorização dos territórios nacionais implicam, também, um relacionamento particular entre a arqueologia, a sociedade e os grupos no poder. Trata-se, em geral, da incorporação de monumentos e objetos numa prática de valorização e transformação econômica da paisagem. [...]

[...]

[...] Um dos objetivos da New Archeology americana era, explicitamente, estudar modos de domínio da natureza por parte dos antigos habitantes indígenas, para permitir a utilização desse conhecimento no planejamento da futura exploração econômica das regiões estudadas pelos arqueólogos, na forma da implantação de indústria ou agricultura mecanizada capitalista.

De maneira geral, a arqueologia tem privilegiado os artefatos dos segmentos dominantes das sociedades estudadas como objetos admiráveis, justamente, pelo seu caráter elitista. [...] Pode-se, contudo, estudar a cultura material tanto de exploradores como de explorados, os objetos únicos e aqueles feitos em série.

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[...] A partir da descolonização, a apropriação dos vestígios arqueológicos passou a ocorrer por mecanismos econômicos. Assim, com a expansão dos mercados de peças arqueológicas, a saída - em geral ilegal - de objetos da "periferia", países subdesenvolvidos, para o "centro", países desenvolvidos, efetua-se, primordialmente, pela venda das peças no mercado internacional. Isso significa que, à expropriação do período colonial, seguiu-se uma nova fase na qual a transferência do patrimônio arqueológico adquiriu, via mercado, uma capa de legalidade.

A arqueologia pode, contudo, ser usada por grupos subalternos na luta por seus direitos ou para criticar as injustiças e opressões sociais. Dois exemplos vêm logo à mente: a arqueologia preocupada com as relações de gênero e a que trata das relações étnicas e raciais com propostas claramente anti-racistas. [...]

Assim, por exemplo, estudos têm permitido mostrar como a cultura material ligada às mulheres, no mundo industrializado, foi usada para a liberação feminina. A pletora de máquinas domésticas, da lava-roupas à batedeira, nessa concepção, foi imprescindível para que as mulheres pudessem entrar no mercado de trabalho e adquirir, em poucas décadas, destaque e, mais importante, independência econômica. A relação entre homens e mulheres [...] foi, portanto, resultado, em parte ao menos, da cultura material voltada à satisfação das mulheres.

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Outro bom exemplo de uso político do estudo da cultura material relaciona-se à luta contra o racismo e a opressão étnica. Assim, por exemplo, a defesa dos direitos de indígenas e afro-descendentes, nos Estados Unidos e alhures, tem contado com a concorrência da arqueologia preocupada com a valorização desses grupos étnicos. A arqueologia, também, tem mostrado como todas as sociedades do passado foram [...] resultado de fusão cultural, com mistura biológica e de costumes, desmistificando a própria noção de "pureza étnica". Enfim, todos somos beneficiários dessa arqueologia humanista, que visa combater as opressões.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 99-106.