segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A Revolução Urbana

A transformação das aldeias neolíticas em cidades populosas, com divisão do trabalho, comércio e artesanato desenvolvidos, organizadas politicamente como Estados, só foi possível devido ao desenvolvimento das forças produtivas observado entre 6000 e 3000 a.C., quando os homens acumularam enorme soma de conhecimentos técnicos: a utilização da força de tração animal - o boi - e dos ventos, o uso do arado, do carro de rodas e do barco a vela, a fundição do cobre e, mais tarde, a fabricação do bronze [...], o desenvolvimento de um calendário aperfeiçoado. A nova economia urbana exigiu a escrita, os processos de contagem e os padrões de medida.

A passagem da Barbárie à Civilização ocorreu primeiramente na faixa geográfica que corresponde ao Oriente Próximo: do Vale do Nilo e do Mediterrâneo Oriental, passando pela Síria e pelo Iraque (Mesopotâmia) até o Planalto Iraniano e o Vale do Indo. Nessas regiões, de vales aluvionais e áreas desérticas e semidesérticas, o trabalho coletivo de um grande número de trabalhadores era a condição necessária para regularizar o curso dos rios, drenar pântanos, construir canais de irrigação, enfim, recuperar o solo para a agricultura.

Sendo regiões cortadas por grandes rios, que anualmente renovavam as terras aráveis, facilitou a sedentarização das populações.

Para se dar a passagem para a nova economia, fizeram-se necessárias a produção e a acumulação de excedentes para alimentar o grande número de trabalhadores empenhados nas obras coletivas, que não produziam diretamente o alimento que consumiam enquanto realizavam aquelas tarefas. Essa reserva de alimentos foi uma das precondições para a transformação da aldeia em cidade, conquistando novos territórios adjacentes, que antes eram pântanos ou desertos.

Além disso, a dependência dessas populações dos canais de irrigação impôs, de certa forma, a solidariedade do grupo: o acesso aos canais podia ser vedado àqueles que violassem as normas vigentes - a água podia ser cortada, os canais fechados. [...]

Com a vida sedentária, aperfeiçoaram-se as habitações, abrindo caminho para a arquitetura. Já antes de 3000 a.C., no Egito e na Mesopotâmia, construíam-se casas de barro. A arquitetura do tijolo, que envolvia a aplicação de princípios de Física e matemática, desenvolveu-se na Síria e na Mesopotâmia.

As comunidades agrícolas do Oriente Próximo passaram a produzir um excedente em relação ao consumo mínimo. Além dessas aldeias de agricultores, haveria, com certeza, grupos de caçadores, pescadores e pastores. Com a produção de excedentes e a diversidade dos produtos obtidos existia possivelmente uma certa interdependência entre aquelas comunidades sedentarizadas e esses grupos seminômades. A troca tornou-se, ao mesmo tempo, necessária e possível. [...] esse intercâmbio - precursor do comércio - foi precondição da Revolução Urbana.

O fator dominante da segunda revolução foi o aparecimento da metalurgia. [...]

A metalurgia alcançou um grande desenvolvimento a partir de 3500 a.C., mas só muito lentamente o metal substituiu a pedra como matéria-prima para a fabricação dos instrumentos de trabalho. [...]

[...]

A invenção da roda, aplicada ao transporte e ao artesanato da cerâmica, em cerca de 3000 a.C., em algumas regiões, provocou uma revolução no transporte de cargas e a transformação do artesanato doméstico da fabricação de potes a mão (praticado pelas mulheres) em um ofício especializado, a cargo dos homens. Os ceramistas tornaram-se especialistas, afastados da tarefa da produção de alimentos, e trocavam seus artigos por uma parte do excedente agrícola. [...]

Técnicas agrícolas no Neolítico: o arado de bois abrindo sulcos onde as sementes lançadas são calcadas pelas patas dos animais. Pintura na tumba de Sennedjem

A introdução dos veículos de rodas, puxados por bois ou outros animais, desenvolveu as comunicações e o transporte de mercadorias, o que teve grande significado na Revolução Urbana. O burro e o jumento, já domesticados no Egito e na Mesopotâmia por volta de 3000 a.C., eram os meios de transporte terrestre mais comuns. Já o cavalo, introduzido no Egito em 1650 a.C., pelos hicsos, juntamente com a roda, era exclusivamente animal de tiro, atrelado a carros de combate. Quanto ao transporte marítimo, os homens aprenderam a construir barcos de tábuas e a usar velas.

A metalurgia, a roda, o carro de bois e o barco a vela parecem ter sido invenções devidas ao homem e certamente fortaleceram a sua posição econômica, cortando as bases econômicas do matriarcado - a cultura da enxada, o transporte de cargas, a fabricação de potes a mão. [...]

As populações que habitavam as regiões do Vale do Nilo, do Tigre e do Eufrates e da Bacia do Indo desde cedo desenvolveram grandes obras públicas, como drenagem de pântanos e construção de diques e canais de irrigação, domesticando as águas e preparando o solo para a agricultura. [...] Devido à fertilidade do solo, aquelas populações tinham alimento abundante, o que tornava possível não só a troca do excedente agrícola pelas matérias-primas indispensáveis, como também abastecer os grupos de mercadores, transportadores e artesãos especializados, que não participavam diretamente da produção de alimentos. Com o tempo surgiu a necessidade de soldados, para proteção às caravanas, e de escribas, especializados no registro das transações mercantis, além de outros funcionários, para cuidarem da administração pública.

[...]

Na época primitiva, a guerra, embora ocasional e em pequena escala, deve ter existido. A necessidade de obtenção de produtos agrícolas pode ter induzido tribos pastoras a se imporem pela força sobre comunidades de agricultores, passando a cobrar a "proteção" sob a forma de tributos em alimentos. A cumulação de riquezas - rebanhos, terras etc. - precondição da Revolução Urbana, talvez se deva, pelo menos em parte, ao saque às populações vencidas, isto é, à guerra.

Uma das instituições econômicas do Estado antigo na Grécia e na Itália - na verdade a base do sistema de produção - era a existência de um trabalhador-mercadoria: o escravo.

[...]

Entretanto, a guerra não era a única fonte de obtenção de escravos. Os mais antigos textos escritos indicam outras formas de recrutamento de trabalhadores. Muitas vezes, comunidades inteiras ou membros mais pobres de uma gens podiam ceder seus serviços em troca de alimento e abrigo.

O comércio e, mais tarde, a escravidão por dívidas (o devedor insolvente era escravizado pelo credor, por um prazo limitado ou não) eram outras maneiras de se obterem escravos.

[...] Nas sociedades escravistas a divisão em classes sociais abrangia, de um lado, os homens livres - grandes proprietários e pequenos produtores - e de outro, os escravos. A necessidade de manter os escravos em submissão e de ampliar o território e de protegê-lo contra os inimigos do exterior fez aparecer na Grécia e Roma antigas o Estado de classes. [...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 121-125, 127.

Um comentário:

  1. Gostei imenso do contributo. Também sou licenciado em História e mestre em Ciência Política e Relações Internacionais- Especialização em Globalização e Ambiente

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.