"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Inti Raymi, a Festa do Sol nos Andes

"Hoje, desde que amanheceu, é celebrada a Festa do Sol, o Inti Raymi, nos cerrados e nas montanhas dos Andes.

No começo dos tempos, a terra e o céu estavam na escuridão. Só havia noite.

Quando a primeira mulher e o primeiro homem emergiram das águas do lago Titicaca, nasceu o Sol.

O Sol foi inventado por Viracocha, o deus dos deuses, para que a mulher e o homem pudessem se ver."

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 204.

Galeria de imagens:






quinta-feira, 9 de abril de 2015

A questão indígena na América 5: As políticas de proteção aos indígenas

"Quem é quem aqui na América? Não será aqui porventura o berço onde há cinco séculos se engendra e se forja no sangue que se mescla e se mestiça, não apenas nas cores e tons dos corpos e dos olhos, mas na herança coletiva de suas almas e culturas, de seus arquétipos milenares, mitos, valores, crenças e rituais? Não será aqui o berço de um Novo Mundo, como um dia ele foi chamado? Não como um retorno ao passado indígena da nossa América, mas pela fusão de dois mundos que há um tempo não tão distante se chocaram; pelo resgate de valores e modelos de uma civilização indígena que não morreu, mas permanece como potencial vivo em meio das ruínas de tantas Tenochtitlans.

Porventura, não seria aqui, esta parte adormecida do mundo, o palco de um "Novo Renascimento", no qual os modelos não seriam mais Zeus, Apolo ou Afrodites, mas Quatzalcoatl, Huitzopochtli, Wuiracocha, Tonatzin e Sumé?

Que o anunciem do alto das pirâmides e cordilheiras os deuses-heróis e todos os morubixabas, com todas as quenas e muirakitãns.

Que o revelem, o canto das cachoeiras, o grito das araras e o farfalhar das palmas de buriti. Que todos possam escutar no rufar dos tambores, dos maracás e dos rituais da História, sintetizadores sonorizados cantando sons ancestrais.

Que possamos pressentir nos subterrâneos da Terra-mãe as raízes milenares de povos inacabáveis, sementes de uma humanidade renovada, senhora de um futuro que não podemos ainda perceber.

E que dê um toque de urucum em seu rosto mestiço e comece a ouvir uma canção cheyenne". (BARCELLOS, Maurílio Pereira. América indígena: 500 anos de resistência e conquista. São Paulo: Paulinas, 2002. p. 81-82.)

O discurso da "pacificação" e a defesa da aculturação dos indígenas fizeram parte de sucessivas políticas governamentais, até o início do século XX, quando a discussão sobre a situação do indígena no continente ganhou novos contornos. Intelectuais, movimentos políticos e sociais e as comunidades indígenas se manifestaram exigindo respostas dos governos a problemas que se arrastavam havia séculos.

Um evento que deu visibilidade a esse tipo de manifestação foi o XVI Congresso Internacional de Americanistas, realizado em 1908, em Viena, na Áustria, no qual foram denunciados massacres sistemáticos de indígenas no Brasil. Diante disso, o governo brasileiro se viu pressionado a implantar ações de assistência e proteção às populações indígenas. Para tanto, fundou o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, órgão cuja incumbência era evitar o extermínio dos povos indígenas e solucionar os conflitos.


Cândido Rondon com índios Paresi. Imagem do documentário do Major Thomaz. Sem data.

A direção desse organismo foi assumida por Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958). Militar adepto das ideias positivistas, Rondon havia se destacado pelo sucesso na instalação de redes telegráficas no centro-oeste do país, durante a qual estabelecera contato com diversos povos indígenas considerados hostis, pondo em prática medidas assistencialistas e declarando-os "pacificados". O SPI atuou de forma semelhante, prestando assistência médica, instalando escolas e procurando demarcar terras a fim de minimizar os conflitos. Esse organismo foi extinto em 1967 e deu lugar à Fundação Nacional do Índio (Funai), até hoje atuante.

O Peru também assumiu, oficialmente, uma política de proteção aos indígenas nas primeiras décadas do século XX. Em 1920, a fundação do Comitê Central Pró-Direitos Indígenas e a promulgação de uma Constituição nacional na qual se reconheciam as terras indígenas representaram conquistas importantes para os povos que constituem esse país.

Os Estados Unidos, por sua vez, tornaram-se referência, nesse mesmo período, ao criar leis que favoreciam a autonomia das comunidades indígenas. Em 1934, o governo decretou a Lei de Reorganização Indígena, que incentivava as comunidades a escrever suas constituições e a se autogovernar, ainda que devessem se subordinar a um organismo federal, o Burô de Assuntos Indígenas. Essa medida contribuiu para conferir legitimidade às tradições e aos costumes indígenas.

Em 1940, foi realizado no México o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, que teve o papel de propor diretrizes e princípios norteadores para as ações governamentais voltadas aos indígenas. Tais princípios passaram a ser seguidos por governos de diversos países latino-americanos e orientaram a fundação de alguns institutos indigenistas, como o da Bolívia, em 1941, e o do México, em 1948.

Apesar dessas iniciativas, a proteção aos indígenas, até então, estava vinculada à ideia de aculturação, de acordo com a qual os indígenas deveriam ser educados nos moldes "civilizados" e inseridos no mercado de trabalho, ainda que isso conduzisse ao abandono gradual de suas tradições.

É consideravelmente recente a concepção de que a organização social, a cultura e os distintos modos de vida dos povos indígenas devem ser reconhecidos e respeitados, não cabendo à sociedade envolvente transformá-los ou moldá-los segundo valores que não fazem parte de sua identidade. Em todo o continente, atualmente, há organizações de povos indígenas que lutam por seus direitos, discutem os problemas e as possíveis soluções para garantir a melhora da qualidade de vida e a sobrevivência das novas gerações. (NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 217-218)

Referências:

BARCELLOS, Maurílio Pereira. América indígena: 500 anos de resistência e conquista. São Paulo: Paulinas, 2001. p. 81-82.
NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 217-218.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A questão indígena na América 4: Política de "pacificação" e projetos de integração no Brasil

Índios Munduruku, Hércules Florence

"Branco é pessoa muito triste. Talvez por isso ele faça tanto mal". (Mário Juruna, Cacique xavante)

Em 1808, dom João VI assinou uma carta régia autorizando a "guerra justa" contra os botocudos, nome pelo qual eram conhecidos os Aimoré desde o século XVIII. Pertencentes ao grupo linguístico macro-jê, os Aimoré eram nômades e viviam na região correspondente à dos atuais estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Os botocudos e os Puri eram considerados os principais obstáculos ao avanço de colonização portuguesa, uma vez que, desde 1760, combatiam bandeirantes e colonos que tentavam se instalar na área controlada por eles. Por essa razão, eram constantemente perseguidos e mortos pelos colonizadores, com o aval do governo.

Sobre os botocudos, nessa época, circulavam lendas e imagens que os representavam como ferozes e cruéis, o que colaborava para o temor e o ódio dos colonos a esses povos. Entre 1808 e 1821, várias expedições foram enviadas para combatê-los. Em contrapartida, também crescia o número de alianças e acordos entre indígenas e descendentes de europeus.


Família de Botocudos em marcha, Jean-Baptiste Debret

Vários parlamentares defendiam a conversão dos indígenas ao catolicismo a fim de transformá-los em trabalhadores e súditos. Para isso, foi fundada em 1830 a Sociedade de Catequese e Civilização dos Índios. Em 1831, após o imperador dom Pedro I abdicar do trono, o Senado iniciou uma série de debates sobre a questão indígena, que resultaram, nesse mesmo ano, na proibição das guerras justas e na revogação da Carta Régia de 1808.

Para a "pacificação" dos indígenas por meio da catequese, a partir de 1843, o governo patrocinou a vinda de frades capuchinhos da Itália. A adoção dessa política contava com o apoio de intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838. Em sua publicação oficial, a Revista do IHGB, defendiam a aculturação do indígena e sua utilização como mão de obra.

Essa política governamental foi formalizada, em 1845, com a publicação do Regulamento acerca das missões de catequese e civilização dos índios. O governo previa a reunião dos indígenas em missões ou aldeamentos oficiais controlados pelos capuchinhos. Tais instalações seriam gradativamente desfeitas e transformadas em vilas, paróquias ou freguesias quando os indígenas estivessem catequizados. Nessa etapa, as famílias indígenas receberiam lotes de terra, abandonando seu modo de vida comunitário, seus costumes e seus valores, a fim de se tornar "civilizados".

Com a chegada dos capuchinhos, os botocudos foram "pacificados" e transferidos para aldeamentos oficiais, em geral próximos a povoados. No entanto, os indígenas não se limitavam a ocupar as terras previamente demarcadas. Muitas vezes, insurgiam-se contra os religiosos por estes manterem crianças sob sua tutela, nas escolas de internatos. Em 1893, ocorreu um levante de cerca de 700 indígenas, no aldeamento de Itambacuri, em Minas Gerais. Boa parte dos rebeldes foi perseguida e morta.

No sudeste do Brasil, a expansão da cafeicultura e das ferrovias promoveu o extermínio de vários povos. Durante o Segundo Reinado, além dos botocudos, foram objeto da perseguição governamental grupos como os Kaingand (que ocupavam áreas do sul e do sudeste), os Mura e os Munduruku (que viviam na Amazônia), os Kayapó (habitantes da fronteira entre Minas e Goiás) e, já na Primeira República, os Guajajara (que viviam no Maranhão), por dificultarem o processo de expansão e a instalação de missões, latifúndios e povoados.

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 215-217.

domingo, 5 de abril de 2015

A questão indígena na América 3: Política de deportação no México

E eu vejo que o Reino em breve será destruído
Terá fim do México a soberania!
Eis que me afasto e choro
por ter decretado a este país
ser subjugado e totalmente aniquilado.
(Antigo canto fúnebre mexicano)


No século XIX, os governos de diversos países americanos, entre os quais o México, adotaram projetos políticos liberais que, em geral, incluíam a abolição de terras comunais indígenas.

As leis que extinguiam todas as formas coletivas ou corporativas de posse da terra afetaram intensamente as comunidades indígenas. Os vínculos indígenas de alguns líderes do governo, como o presidente do México Benito Juárez (1867-1872), de ascendência zapoteca, não refrearam a promulgação dessas medidas, consideradas, na época, necessárias ao "progresso", pois promoveriam a incorporação dos nativos ao Estado mexicano. Os indígenas, entretanto, não se tornaram pequenos proprietários e se rebelaram contra o governo, que, além de reprimi-los por meio de conflito armado, utilizou, como tática de contenção, a estratégia da deportação em massa.

Tal procedimento foi utilizado com os yaquis, que habitavam o norte do México e acumularam um histórico de revoltas no século XIX.

Após uma tentativa frustrada, na década de 1820, de união com outros povos para conquistar a emancipação de seu território, os yaquis rebelaram-se novamente em 1868. Nesse episódio, 150 indígenas que estavam em uma igreja foram queimados vivos.


Um grupo de cerca de 44 mulheres e crianças yaqui prisioneiros sob guarda, México, 1910. Fotógrafo desconhecido

Após as reformas liberais, os yaquis que viviam no território mexicano iniciaram uma guerra contra o governo em defesa de suas terras, no qual tiveram apoio dos apaches e dos yaquis que haviam emigrado para os Estados Unidos. As tropas federais foram mobilizadas para reprimi-los, mas sofreram seguidas derrotas, até que, em 1896, o governo decidiu empreender a deportação desses indígenas para a península de Yucatán, onde os deportados foram submetidos a trabalho escravo em plantations. Essa solução pôs fim à guerra, mas significou a quase extinção desse grupo indígena.


Um grupo de mais de 30 prisioneiros yaqui escoltados por soldados mexicanos, México, 1910. Fotógrafo desconhecido

Entre 1876 e 1910, o governo de Porfírio Díaz (1830-1915) persistiu na gradual eliminação das terras comunais e na concepção de que era preciso "educar" os indígenas. A situação de miséria e opressão dos camponeses, a maioria de origem indígena, agravou-se. Em reação a essa situação, na virada do século, emergiu um movimento agrário, com grande participação indígena, que foi um dos pilares da Revolução Mexicana desencadeada em 1910.

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 214-215.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A questão indígena na América 2: A política de confinamento nos Estados Unidos

"[...] e imediatamente entrou na tenda onde tinha estado antes, trazendo uma tocha e colocando-a sobre as mantas que cobriam o abrigo, depois que tudo começou a arder [...] e depois que o fogo estava bem pegado, os índios corriam para fora com ar estupefato. E, com efeito, o Todo-Poderoso deixou cair sobre eles tal terror, que fugiam de nós e se atiravam dentro das chamas, onde muitos pereciam. Depois que o forte se queimou inteiramente, foi dada ordem para que todos os soldados saíssem e o rodeassem, o que foi feito imediatamente. O fogo foi ateado a noroeste, a favor do vento; isto fez com que se espalhasse rapidamente pelo forte, para a surpresa do inimigo, e para grande satisfação nossa. Alguns deles subiam à ponta das paliçadas; outros corriam para dentro das chamas; muitos outros, reunindo-se a barlavento, atiravam flechas contra nós; dávamos o troco mandando-lhes carga de chumbo; outros, muito fortes, mais ou menos quarenta, segundo calculamos, morreram pela espada [...] E assim, em pouco menos de uma hora, o que era antes um forte inexpugnável, estava completamente destruído, com perda de 600 ou 700 índios [...]". (Depoimento do Capitão John Mason sobre o extermínio de índios. HUBERMAN, Leo. Nós, o povo. São Paulo: Brasiliense, 1966. p.15.)

O governo estadunidense, apesar de não declarar oficialmente guerra contra os indígenas, mobilizou regimentos de cavalaria para expulsá-los de suas terras a partir de 1778. As últimas terras a ser ocupadas, entre a costa do Pacífico e o rio Mississípi, constituíam o chamado Grande Deserto.

A ocupação de terras indígenas era amparada legalmente. A Lei de Remoção dos Índios, decretada em 1830, determinava a transferência das populações nativas para reservas demarcadas pelo governo, a oeste do rio Mississípi. Essa lei beneficiou, até o final do século XIX, cerca de 600 mil colonizadores, mas não foi suficiente: a pressão exercida pelos colonos que participaram da conquista do oeste afetou também as reservas indígenas. Eles eram atraídos pelas terras próximas a ferrovias ou por lotes mais distantes oferecidos pelo governo por meio do Homestead Act.

Outro impulso à ocupação do oeste dos Estados Unidos que afetou as áreas indígenas foi a descoberta de ouro na Califórnia, em 1848. Entre 1859 e 1876, ocorreu na região um processo de rápido povoamento, acompanhado pela instalação de ferrovias, que obrigou os indígenas a se deslocar em direção ao Pacífico. Simultaneamente, para viabilizar a criação de gado, os estadunidenses promoveram a matança de manadas de búfalos que garantiam a subsistência de vários grupos indígenas.

Indígenas caçando para viver... Caça ao búfalo, com máscara de pele de lobo, George Catlin

... Brancos caçando por lazer. Ilustração para a novela "César Cascabel" (1890), de Jules Verne. Desenho de George Roux

Os navajos, cheyennes, arapahos, shawnees, sioux e apaches, que habitavam o sudoeste dos Estados Unidos, foram alguns dos povos que resistiram mais tempo à colonização. Os apaches, entre 1851 e 1890, travaram conflitos com colonos e tropas estadunidenses na região do Arizona: as chamadas Guerras Apaches.


A luta de Custer, Charles Marion Russel

Um episódio marcante das guerras entre as tropas federais e povos indígenas foi a batalha de Little Big Horn, na região de Montana, em 1876. Nessa ocasião, os líderes indígenas Tatanka Iyotaka - o Touro Sentado (c. 1831-1890) - e Cavalo Louco (c. 1840-1877) lideraram cerca de 3 mil indígenas sioux e cheyennes na batalha contra o Sétimo Regimento de Cavalaria estadunidense. Os indígenas venceram a batalha, mas sofreram intensa repressão do governo, que os perseguiu e autorizou garimpeiros a ocupar suas terras*.

Em 1890, cerca de 400 sioux, principalmente mulheres e crianças, foram massacrados pelas tropas dos Estados Unidos, em Dakota do Sul. Esse episódio não seria o último entre indígenas e estadunidenses. (NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 212-213.)

* "Onde estão hoje os pequot? Onde estão os naragansett, os moicanos e muitas outras tribos outrora poderosas? Desapareceram diante da avareza e da opressão do Homem Branco, como a neve diante de um sol de verão. Vamos nos deixar destruir, por nossa vez, sem luta? Renunciar a nossas casas, a nossa terra dada pelo Grande Espírito, aos túmulos de nossos mortos e a tudo que nos é caro e sagrado? Sei que vão gritar comigo: Nunca! Nunca! (Tecumseh, dos shawnees. BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. São Paulo: Melhoramentos, 1973. p. 19.)


Corrida de canoa perto de Sault Ste. Marie, George Catlin

Referências:

BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. São Paulo: Melhoramentos, 1973. p. 19.

HUBERMAN, Leo. Nós, o povo. São Paulo: Brasiliense, 1966. p.15

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 212-213

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A questão indígena na América 1: A política de extermínio na Patagônia

Epopeia do Chile, Pedro Subercaseaux

"Soldados do Exército Expedicionário ao Rio Negro [...]


Para o assombro de todos os nossos cidadãos, em pouco tempo fizestes desaparecer as numerosas tribos dos pampas, que se faziam crer invencíveis, pelo pavor que o deserto nos inspirava, e que eram como um legado fatal que as gerações  argentinas teriam ainda que transmitir umas às outras, por séculos.

[...]

Dentro de três meses estará tudo concluído. Mas a República não termina no rio Negro: mais além acampam numerosos enxames de selvagens, que são uma ameaça para o futuro e aos quais é necessário submeter às leis e usos da nação [...].

[...] Lá iremos, ainda que se ocultem nos vales mais profundos dos Andes ou se refugiem nos confins da Patagônia. (PASSETTI, Gabriel. Indígenas e criollos: política, guerra e traição nas lutas no sul da Argentina (1852-1885). São Paulo: Alameda, 2012. p. 262-263.)

Esse discurso, proferido pelo general Julio Argentino Roca (1843-1914) ao exército expedicionário argentino, em 28 de abril de 1879, revela a concepção que, no século XIX, os governos dos países da América tinham dos indígenas americanos, considerados um "legado fatal" do qual era preciso livrar as novas gerações.

Esses povos, por sua vez, eram muitos, estavam dispostos a se defender, conheciam bem o território, faziam negócios e estabeleciam alianças com os "brancos".

Como lidar com milhares de indígenas que atrapalhavam o crescimento econômico, o avanço das fronteiras e o branqueamento das populações, segundo as concepções das elites coloniais?

Os conflitos entre criollos e indígenas no território que viria a ser a Argentina se estenderam por mais de três séculos. O oeste e o sul do território eram habitados pelos pampas, ranqueles, pehuenches e tehuelches.

Desde o século XVIII, também viviam nas região os mapuches, que haviam partido do sul do atual Chile em razão do processo de conquista e ocupação militar empreendido pelo governo chileno. A política de expansão e controle executada no Chile recebeu o nome de pacificação da Araucanía e ocorreu entre 1861 e 1883. Expulsos da região onde viviam, os mapuches foram para o território argentino em busca das possibilidades de caçar gado selvagem (o cimarrón) e firmar negócios com os criollos.

Cornelio Saavedra, oficial chileno, em reunião com caciques mapuches durante a primera fase da Ocupacão da Araucanía, Manuel Olascoaga

No território argentino, ao ser gradativamente expulsos das regiões mais férteis dos pampas, os mapuches e vários e vários outros grupos indígenas passaram a sobreviver do gado roubado de estâncias e vendido em diversos mercados informais, em regiões mais distantes. As rotas de compra e venda de gado e outros artigos estendiam-se da costa do Pacífico à costa do Atlântico e eram conhecidas como rastrillados.

Por representar ameaça aos estancieiros, o governo argentino combateu os indígenas dessa região e construiu uma grande rede de fortes para proteger a província de Buenos Aires. Diante dessa situação, alguns grupos indígenas buscaram se aliar a criollos interessados em participar dos negócios feitos nas rastrilladas, ao passo que outros permaneceram em guerra com o governo até o final do século XIX.

Em 1833, durante o governo do caudilho Juan Manuel de Rosas (1793-1877), foram empreendidas expedições militares com o objetivo de mapear e dominar o território e exterminar os indígenas que viviam nos pampas úmidos (planícies férteis) e na Patagônia oriental.

Lê-se na legenda: “Expedição nos desertos do Sul contra os índios selvagens, no ano de 1833, executado com o maior acerto e sabedoria por seu chefe o grande Rosas”, Calixto Tagliabúe


Os integrantes das expedições de 1833 atacaram vários grupos indígenas e massacraram os habitantes de muitos tolderias*, mas não eliminaram todos os povos da região. Os resistentes firmaram alianças que resultaram na formação de duas grandes confederações, uma controlada pelos ranqueles e outra pelos mapuches, liderados por Juan Calfucurá (?-1873). Após longa luta, a primeira se rendeu e, depois de estabelecer um acordo com o governo, aceitou a catequese e passou a viver de provisões enviadas pelo Estado. A outra confederação, no entanto, resistiu.

Entre 1864 e 1870, as ações militares foram interrompidas por causa da Guerra do Paraguai. Os indígenas liderados por Calfucurá aproveitaram essa trégua para invadir a província de Buenos Aires, em busca de gado, ouro e provisões.

Paralelamente a esses acontecimentos, ocorria o processo de unificação do Estado argentino, com a incorporação de Buenos Aires à Confederação Argentina, em 1882, e a eleição de Bartolomé Mitre (1821-1906) para presidente. O novo governo empenhou-se no combate aos indígenas.

Em 1877, teve início a Campanha do Deserto, liderada pelo general Julio Argentino Roca. A ação militar recebeu esse nome porque as autoridades consideravam que as terras do sul estavam desertas de colonos e de "civilização". Outro objetivo do governo argentino ao empreender a Campanha do Deserto era impedir que o Chile e a Inglaterra instalassem colônias na região. Durante a campanha, as tropas do exército argentino promoviam ataques-surpresa, no meio da madrugada, às tolderias e massacravam seus habitantes. Em 1879, foram enviados 6 mil soldados, e outras expedições se sucederam até 1885, ano em que ocorreu a rendição do último cacique livre, Valentin Saygueque.

Fragmento do quadro "Conquista do deserto", Juan Manuel Blanes

Ao fim da Campanha do Deserto, o Estado argentino incorporou todo o sul da Patagônia a seu território. Guerreiros sobreviventes foram confinados numa prisão na ilha Martin Garcia, onde morreram de fome e de doenças. Mulheres e crianças foram distribuídas entre famílias ricas de Buenos Aires como empregadas, convertendo-se em mão de obra barata.

Mulheres mapuches (araucanas) no início do século XX. Fotógrafo desconhecido

* Tolderias eram conjuntos de habitações ou povoados indígenas, formados por toldos ou barracas, que eram transferidos de lugar periodicamente.

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 209-212.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cotidiano e violência no Oeste dos Estados Unidos

Riso mata solitário, Charles Marion Russell

As pessoas que migraram para o oeste dos Estados Unidos buscavam novas oportunidades, mas, em geral, o que encontravam era uma uma dura rotina de trabalho. Dedicavam-se a atividades como agricultura, pecuária ou mineração. Em qualquer dessas atividades executavam tarefas pesadas, por não disporem de máquinas e instrumentos e pela necessidade de sobreviver em um ambiente natural muitas vezes árido e inexplorado.


Fumaça de uma 45, Charles Marion Russell

A maioria vivia em casas feitas de toras de madeira ou de torrões de terra amassada. Internamente, peles de animais ou cobertores separavam os cômodos. Eram casas insalubres, sujeitas a ataques de insetos que transmitiam diversas doenças, o que causava constante preocupação, pois praticamente não havia médicos nessa área. Assim, eram comuns doenças como a pneumonia, a tuberculose, a malária e as epidemias de cólera e varíola, que se alastravam facilmente.


Problemas no Camp Cook, Charles Marion Russell

Outra preocupação constante era a violência, já que a grande maioria das vilas e pequenas cidades que se formavam estavam distantes do poder central. Aventureiros em busca de fortuna fácil ou mesmo pessoas que não conseguiam trabalho assaltavam fazendas e aterrorizavam os habitantes do campo e dos povoados. Além disso, eram frequentes os enfrentamentos com os índios, que resistiam à ocupação de suas terras.


O desistente do rebanho, Charles Marion Russell

Em razão do reduzido número de autoridades policiais, a segurança era garantida por comitês de vigilantes escolhidos entre os cidadãos mais respeitáveis. Esses comitês realizavam julgamentos e execuções sumárias de pessoas suspeitas de assalto ou assassinato.


Índios descobrindo Lewis e Clark, Charles Marion Russell

A dura rotina de trabalho era quebrada pela reunião das pessoas em torno da praça da vila ou cidade, aos domingos. As famílias compareciam aos cultos religiosos e se inteiravam das notícias. A grande maioria da população, porém, era formada por homens solteiros, que trabalhavam como mineradores ou como vaqueiros dos grandes ranchos. Estes tinham como lazer jogar cartas, cantar e dançar nos salões ou beber nas tavernas. Apenas nas cidades maiores havia outras atrações, como circos itinerantes e companhias de teatro e de ópera.


Jogo de pôquer, Charles Marion Russell

Mesmo nos momentos de lazer, a violência era uma constante, pois os excessos com as bebidas e a reunião de um grande número de homens aventureiros geravam confusões e brigas. Muitas vezes acabavam em tiroteio e morte, pois era costume os homens andarem armados. Enfim, a violência era uma constante em um meio que reunia pessoas de origens muito diferentes e em geral frustradas pela não realização do sonho de riqueza fácil que motivara sua fixação no Oeste.


Um dia calmo em Utica, Charles Marion Russell

DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 159.


NOTA: O texto "Cotidiano e violência no Oeste dos Estados Unidos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 19 de abril de 2014

19 de abril: Dia do Índio

Moema, Pedro Américo

Leia neste blog:

Pindorama – Os donos da terra

A vida comunitária tupi-guarani: alimentação, guerra, rituais e arte

Ser índio

O masculino e o feminino nas sociedades indígenas

As artes nas sociedades indígenas

Estranhamente o homem branco chegou

O legado cultural indígena na sociedade brasileira
http://oridesmjr.blogspot.com.br/2011/11/o-legado-cultural-indigena-na-sociedade.html

NOTA: Os textos citados acima não representam, necessariamente, o pensamento deste blog. Foram publicados com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 22 de junho de 2013

O porque da vertiginosa conquista hispânica

Cortéz e seus soldados atacam os astecas, Emanuel Leutze

Em um breve tempo de história - mais ou menos meio século - dezenas de milhões de americanos foram dominados por reduzidos grupos europeus. Como aconteceu? Como foi possível isso? O problema intriga os historiadores.

Dizer que as razões que explicam o fenômeno são complexas, é óbvio. Tê-las em nossas mãos, já é mais problemático. Somos capazes de entender o grande drama?

Argumentou-se que as armas de fogo e os cavalos aterrorizaram os índios a ponto de paralisá-los. O argumento é inconsistente. Isso explicaria que os 182 homens que Francisco Pizarro colocou em Cajamarca (dos quais só um terço a cavalo) derrotassem em meia hora, talvez mais de 200.000 guerreiros nativos sob o comando do inca Atahualpa? É difícil aceitar isso. Sabemos que os incas - assim como os astecas e outros povos - encaravam a guerra como uma questão permanente; que sua coragem não era inferior à de ninguém, nem à dos soldados barbudos vindos do ultramar, revestidos de couraças e com o raio da morte em suas mãos. Sabemos o que foi a defesa de Tenochtitlán pelos astecas durante dois anos e meio, e não ignoramos que Cortéz venceu, não propriamente porque os arcabuzes e canhões lhe davam superioridade, mas porque contava com um considerável exército de índios que odiavam os astecas.

Não são poucos os historiadores que assinalam o que usualmente chamaríamos "presságios". [...] No Peru, México e outras áreas da América pré-colombiana corriam lendas ou profecias sobre a próxima chegada, do oriente, de deuses bárbaros, em templos flutuantes, montados em centauros terroríficos e treinados no manejo do trovão e do raio.

Sob o reinado de Huayna-Capac, no Peru, determinados fenômenos naturais foram interpretados como o prognóstico de tragédias que se aproximam. Meteoros vermelhos cruzam os céus, terremotos sacodem violentamente a terra e derrubam montanhas, tempestades violentas devastam várias regiões. E, o mais grave: a aparição da lua rodeada por um tríplice círculo luminoso, que intrigará profundamente aos astrônomos do Incário.

O próprio Huayna-Capac, fica impressionado e manda chamar o astrólogo Llayca para decifrar o significado de sinais tão inquietantes. Llayca responde: a) o sangue dos povos do Incário será amplamente derramado; b) uma guerra fratricida acabará com a dominação dos incas; c) todo o conhecido terá um final bem próximo.

Tudo isso - e que posteriormente é confirmado pela conquista - é lido e interpretado por Llayca no tríplice círculo da lua.

A relativa passividade de Montezuma e Atahualpa nos deixa perplexos... O fato de aceitarem a presença dominadora da tropa hispânica não deve ser visto pelo lado da covardia, mas também deve considerar-se a existência de uma convicção solidamente enraizada em suas consciências: a inevitabilidade da tragédia, prevista, anunciada, profetizada.

Ambos os imperadores se submetem, como se desafiar o destino - e os espanhóis parecem representá-lo - fosse absolutamente inútil. O fatalismo inerente às religiões nativas (e não somente a elas, é claro) deve ter jogado um papel decisivo na paralisia que sobreveio repentinamente em seus seguidores. Uma faca de dois gumes.

Talvez o fatalismo tenha sido cultivado pelos grupos dirigentes e pelo imenso setor sacerdotal como uma maneira de incentivar o messianismo: incas e astecas tiveram que representar-se como designados por uma onipotência superior para dominar. Em nome de seus deuses puseram-se a conquistar e subordinar povos diferentes. Em seu nome impuseram tributos, aumentaram riquezas e poder e tornaram válida a dominação de seus próprios povos. A religião foi sendo adaptada a finalidades que hoje estão muito longe de ser conceituadas como sendo exclusivamente religiosas. Muitos esforços e energias foram despendidos para construir o que a posteridade chamou Confederação Asteca e Império Inca. Talvez sem o papel extraordinariamente mobilizador da religião, não teriam adquirido a dimensão que sabemos que tiveram. Mas, assim como o destino revelado pelos deuses mostrava as vitórias, é possível que esse desígnio superior fosse interpretado a partir de determinado momento como o presságio de uma catástrofe desejada pela vontade onipotente.

Não era concebível desafiar o "além" que não podia ser conhecido, fosse ele favorável ou contrário em suas determinações. Insistimos: uma faca de dois gumes, capaz de gerar fantásticas energias coletivas ou paralisá-las.

Mas esse fenômeno não foi unânime, universal. Os araucanos e outros povos (de menor desenvolvimento material e espiritual que os incas e astecas) mostraram grandes resistências. Incorporaram às suas capacidades o uso do cavalo e das armas de fogo, valendo-se disso igual ou melhor que os conquistadores.

O que ocorreu no México e no Peru é significativo. Os mais fortes foram os primeiros a serem derrotados; os mais inaptos resistiram com uma determinação proporcional à suas forças. O recurso ao fatalismo como fator explicativo não parece fora de propósito, mas como veremos, isso não explica tudo. No entanto, recordemos que a ocupação do templo de uma cidade cercada e cobiçada significava a sua derrota e o triunfo de um novo Deus. Quantos deles não aceitaram isso quando da invasão dos conquistadores sem estar militarmente derrotados!

Sabemos também que a vitória dos incas e astecas não terminava com os deuses dos vencidos, ficando esses num plano secundário em relação à divindade triunfadora. Só que para os cristãos conquistadores não significava a mesma coisa: a adoração ao seu Deus implicava em acabar com os deuses dos vencidos. Mais ainda: acabar com os cultos, templos e lugares sagrados. Eliminar tudo isso da consciência dos índios é outra coisa. Nisso, o triunfo foi bem menor, se é que em alguns casos a derrota não foi total. Apagar da consciência de milhões de indivíduos um mundo de significados e crenças que regulavam até os mínimos atos da vida cotidiana, foi infinitamente mais difícil que arrasar os objetos materiais do culto.

Temos agora uma pergunta intrigante: Por que povos menos desenvolvidos resistiram mais ferozmente aos brancos? Seguindo ainda o exemplo dos araucanos, eles nunca constituíram  um império. Formavam um conjunto de tribos que mantinham entre si relações episódicas de paz e guerra, de aliança e ruptura. Talvez por isso sua religião, crenças, consideravam menos o elemento fatalista existente nas religiões dos grandes dominadores. Como não chegaram a um estágio de desenvolvimento ou situação que os levasse a sentir-se dominadores, legitimando esse sentimento mediante a intervenção de uma vontade superior, provavelmente o espaço que isso lhes deu para manifestar sua liberdade foi muito maior. Não precisaram de um Deus para, em seu nome e maior glória, lançar-se à conquista e à subordinação de outros povos. Isso determinou que seu universo religioso excluísse a guerra como algo ditado por uma vontade superior. Os homens brancos não surgiram - nem foram percebidos ou concebidos - como enviados do "além". Eram simplesmente invasores, inimigos brutais, ousados invasores.

Em poucas palavras: crenças que estavam a serviço de uma dominação - e que tendiam a expandir-se e aprofundar-se - representaram, obviamente, as formas mais adequadas para a mobilização das energias conquistadoras. Mas o mandato que elas continham seguramente resultou de um processo histórico que também os araucanos talvez haviam chegado a realizar, transformaram-se no seu contrário em virtude do elemento aguçadamente fatalista e messiânico que continham. Crenças e concepções de tribos mais isoladas deviam conter forçosamente - como condição de sobrevivência - um poderoso fator auto-defensivo.

Estas explicações são corretas? Achamos, pelo menos, que elas são plausíveis.

No entanto há outro aspecto que convém destacar e que já foi mencionado. Enquanto dominadores, incas e astecas enfrentavam a resistência silenciosa dos povos que deviam pagar-lhes tributos e que tinham que aceitar imposições ultrajantes como, talvez, aquela que se referia ao deus dos vencedores. Tanto no México como no Peru os espanhóis contaram com a eficaz colaboração de comunidades indígenas que se conservavam independentes, ou que estavam lutando de alguma maneira para livrar-se das garras de um poder alheio. Totonecas e tlaxcaltecas foram providenciais aliados de Hernán Cortéz; também a guerra fratricida no meio inca foi importante para Pizarro e sua tropa. A chegada dos brancos barbudos, com suas armaduras, montados a cavalo e manejando armas de fogo parece ter sido festejada - e ao que tudo indica, o foi no México - como uma ajuda do céu para acabar com o poder que vinha de Tecnochtitlán. E se no final, todos terminaram submetidos aos espanhóis e pagaram um preço duríssimo, é outra história. Os índios, e vamos chamá-los de dissidentes, ignoravam o que os esperava quando a conquista começa. De fato, as duas mais importantes estruturas políticas do continente demonstraram ser muito mais artificiais do que se poderia supor. Baseavam-se na força e na passividade relativa que a religião triunfante conseguia impor - nem sempre, já sabemos - aos vencidos. É bom lembrar que em ambos os casos tratava-se de estruturas políticas relativamente recentes, em processo de construção e afirmação, mais a asteca que a inca. Mas em essência, ambas débeis. A unidade do Incário e da Confederação mexicana eram superficiais, não tendo raízes sólidas e penetrantes nas sociedades. Não existia, em os ambos casos, esse fenômeno a que chamamos Nação. Tribos unificadas através da coação militar e da ideologia religiosa, não perderam contudo sua identidade tribal, caracterizada pela adotação aos seus próprios deuses, mantendo costumes diferenciados, usando idiomas ou dialetos diferentes, preservando a heterogeneidade das aptidões.

Quando a cabeça de ambos os impérios é cortada, a estrutura toda desmorona. O caráter autocrático e extraordinariamente centralizado da dominação, particularmente no Incário, devia resultar no que a história nos ensina. Funcionários, sacerdotes e militares obedeciam as ordens que vinham de cima, começando pelo magistrado supremo laico e religioso, que se prolongava para baixo através de sucessivos estratos de sacerdotes, funcionários e militares que comunicavam as determinações entre si até fazê-las chegar ao povo, as massas de camponeses. Não existia o que hoje chamamos espírito e identidade nacional. Estado e Nação são fenômenos diferentes. Na América pré-colombiana encontramos Estados e só por um abuso de linguagem alguns estudiosos falam de Nações. Geralmente a resistência dos índios é mais uma reação contra a violência dos conquistadores que defesa de uma soberania e uma identidade nacional. Não existe a noção de soberania. O que podemos aceitar é a noção de legitimidade, que será implícita. A maioria dos dominados pelos incas e astecas consideravam a dominação como ilegítima. Não que a tenham tornado explícita, como poderiam fazê-los nossos cientistas políticos atuais. Mas o repúdio sórdido ou manifesto, calado ou espetacular ao poder alheio, e o não reconhecimento deste poder era a maneira de expressar sua falta de legitimidade.

POMER, León. História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 83-85.

domingo, 9 de junho de 2013

O remédio dos bandeirantes

A morte do bandeirante, Antônio Parreiras

A capitania de São Vicente, em cujo litoral se fundou a primeira vila brasileira, logo ficou isolada de outras áreas vinculadas à lavoura de exportação. O Engenho do Senhor Governador não tinha condições de concorrer com seus congêneres nordestinos; a lavoura canavieira ali não iria para frente, ao contrário do que indicava o esforço inicial da colonização. Sua prosperidade (que nunca beneficiou os trabalhadores negros e índios) foi efêmera.

O que explica esse declínio? A distância dos mercados consumidores é um fator que não atraía os capitais mercantis. Durante muito tempo, apenas um barco metropolitano por ano aportou no ancoradouro vicentino. A estreiteza da baixada litorânea e a pobreza de seus solos também não estimulavam os esforços agrícolas. Nessas condições e expostos a ataques marítimos de contrabandistas, os vicentinos subiram a serra do Mar.

Essa transferência de parte da população para o planalto, onde se localizavam as vilas de Piratininga e Santo André da Borda do Campo, resultou em maior isolamento e no aguçamento da pobreza. Para os primeiros paulistas, milho, sal e farinha de mandioca constituíam a dieta principal. Poucas trocas, pequeno consumo, economia de subsistência, com a produção de alguns gêneros similares aos europeus e reduzida exportação para o Rio de Janeiro, em certas épocas. Vida monótona, apagada, a lembrar as velhas aldeias portuguesas, assim era Piratininga:

"Coberto de sapé era tudo o mais: a igreja, a cadeia, a casa do Conselho. Esta, em 1580, caiu, passando a Câmara a reunir-se na casa de um outro vereador. Só em 1585 é que se está em via de construção de nova casa, que serviria também para cadeia." (MOTA, Otoniel. Do rancho ao palácio. São Paulo: Nacional, 1941. p. 10)

A essa pobreza correspondia o isolamento político. É ele que determina o episódio curioso da Aclamação de Amador Bueno, em 1641, quando chega à capitania e à vila de São Paulo a notícia da restauração da monarquia portuguesa. Possivelmente insuflados por espanhóis, que frequentavam muito a região, os paulistas decidiram não aceitar a vinculação com a nova dinastia portuguesa de Bragança. E aclamaram Amador I, rei de São Paulo! Realista - e sem querer ser rei -, Amador teve de se refugiar num convento até que a exaltação autonomista dos seus conterrâneos passasse.

Quem passeia hoje pela capital paulista não imagina que os poluídos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí já representaram a grande esperança dos poucos paulistanos do início do século XVII. Esperança de ganhar o sertão, para encontrar remédio para sua pobreza. A suave inclinação dessas vias fluviais para o interior favorecia isso. Os versos de Guilherme de Almeida, no Monumento aos Bandeirantes, no Ibirapuera, tentam retratar a epopéia:

"Brandindo achas e empurrando quilhas
Vergaram a vertical de Tordesilhas!"


Monumento às bandeiras, Vitor Brecheret 

De início, ainda no século XVI, foi o ciclo do ouro de lavagem. Homens como Luís Martins e Brás Cubas (fundador da vila de Santos) descobrem ouro na própria capitania de São Vicente. Realiza-se a exploração do litoral na direção sul e Heliodoro Eobanos separa do cascalho do leito dos rios o metal precioso, a partir de Iguape. Jerônimo Leitão realiza uma entrada e descobre ouro de aluvião na área onde surgiria logo um núcleo de povoamento, Curitiba, só elevada à condição de vila em 1693.


Caçadores de bugres retornando com escravos presos nas matas de Curitiba,  Jean-Baptiste Debret 

Essa expansão bandeirante à cata de ouro teve efeitos colonizadores no litoral do Paraná e de Santa Catarina. Seguidores dos primeiros vicentinos prosseguem explorando a região e fundam as vilas de Paranaguá, São Francisco do Sul, Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) e Laguna, a partir da segunda metade do século XVII.

A importância desse ouro aluvionário é atestada pela própria medida administrativa tomada pela metrópole, instalando entre 1608 e 1612 a repartição Sul (separada do Estado do Brasil) e decretando o Código Mineiro, ainda no início do século XVII, pelo qual o governo garantia para si a quinta parte da produção e autorizava a fundição do ouro em barras em casas especiais.

O surgimento desses núcleos coincide com o declínio da atividade do garimpo. A pecuária vai manter a ocupação.

[...] é prática comum das áreas com poucos recursos a escravização do nativo. Em São Vicente isso sempre aconteceu. Os colonos, muitas vezes, estimulavam as malocas - expedições de índios para aprisionar e escravizar índios inimigos. Essa reação acaba virando um grande negócio.

Entre 1617 e 1641 a Holanda monopoliza o fornecimento de escravos ao Brasil. A Companhia das Índias Ocidentais controla as praças de São Jorge da Mina, São Tomé e São Paulo de Luanda, gerando grande escassez de mão-de-obra nas áreas fora do controle flamengo. Quem tem monopólio impõe os preços.

O índios torna-se mercadoria altamente valorizada e mais uma vez os paulistas vão vislumbrar a possibilidade de curar sua pobreza: é o ciclo da caça ao índio. Mais uma vez os choques com os jesuítas vão se acirrar. Um dos momentos importantes desse atrito é o movimento ocorrido em São Paulo do campo de Piratininga, em 1641, quando os colonos indispostos com a Companhia de Jesus tentam realizar a "botada dos padres fora", além de aclamar seu rei.

O nativo das missões, acostumado ao trabalho agrícola em regime semi-servil, será o objeto da ação dessas bandeiras comandadas pelos vicentinos. Elas mobilizavam toda a vila, onde só permaneciam mulheres, crianças e velhos. É importante destacar que os índios são o maior contingente: no ataque à região missioneira de Guairá, em 1629, Antônio Raposo Tavares e Manuel Preto comandam 69 brancos, 900 mamelucos e 2.000 índios auxiliares. É a guerra fratricida na terra de Pindorama.

"Os paulistas, conhecidos também pelo nome de mamelucos, tinham levado a cabo pequenas expedições contra guaranis, desde 1618. Em 1628 e nos anos seguintes marcharam com autênticos exércitos. Caíram primeiro de surpresa sobre a redução de Encarnación, que devastaram. Os trabalhadores dispersos pelos campos foram postos a ferro e levados; os recalcitrantes, massacrados. As crianças e os velhos muito fracos para seguirem a coluna em marchas forçadas, foram igualmente mortos pelo caminho." (Relatório dos jesuítas Duran e Crespo, apud LUGON, C. A República Comunista Cristã dos Guaranis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968. p. 46)

As reduções dos jesuítas espanhóis foram as escolhidas para o ataque. Elas acompanhavam a ocupação castelhana no oeste do atual Paraná, onde desde o século XVI existiam a Ciudad Real del Guairá e a Villa Rica del Espírito Santo. Em 1631 também elas são destruídas. Após os primeiros ataques, devastadores, favorecidos pela omissão das autoridades espanholas em função da vigência da União Ibérica, os jesuítas migram e formam novos aldeamentos, a sudoeste do atual Mato Grosso do Sul e centro-oeste do atual Rio Grande do Sul. Ali desenvolvem a criação do gado bovino e eqüino.

A partir de 1632, as missões do Itatim, Tape e Uruguai são atacadas pelas bandeiras paulistas, forçando a retirada dos jesuítas para a margem direita do rio Uruguai.

Com o fim da União das Monarquias Ibéricas e o conflito luso-espanhol (1640-1668), Felipe IV dá ordens aos jesuítas de se armarem. Mas as vitórias que eles conseguem a partir daí se explicam mais pelo declínio do interesse na mão-de-obra. As praças africanas, nessa mesma época, estavam sendo reconquistadas pelos portugueses.

Em 1648, ano da retomada de Angola, Raposo Tavares volta a Itatim e realiza seu périplo, através do vale amazônico, retornando por via marítima a São Vicente. Percorrera 10.000 quilômetros durante três anos. Dos 1.200 componentes da sua bandeira, apenas 58 chegaram a Santo Antônio do Gurupá, nas proximidades de Belém. O pior, para o velho sertanista, era não ter conseguido aproximar-se de Potosí nem encontrado a tão sonhada prata...

Desvalorizado o escravo índio, rareado o ouro de lavagem, nunca encontrada a prata, os vicentinos buscam outras atividades. Uma delas está transcrita na Resolução do Conselho Ultramarino, organismo criado após a restauração Bragantina, para melhor explorar as colônias portuguesas: "o contrato que se fez é terem a sua assistência nos mesmos Palmares, para dali fazerem guerra aos negros levantados, sendo esta a causa principal para que foram chamados."

Trata-se do ciclo do sertanismo de contrato. Grandes proprietários pecuaristas, senhores de engenho do Nordeste e autoridades coloniais contratam vicentinos para a ação repressiva contra o principal obstáculo ao progresso colonizador: a resistência das tribos indígenas e dos negros aquilombados.

As primeiras lutavam pela sua permanência na terra, ameaçada pela expansão das plantações de cana-de-açúcar e pela pecuária extensiva. A desigualdade bélica determinou o extermínio de muitas comunidades primitivas rebeladas, como foi o caso dos Cariri, na Guerra dos Bárbaros ou do Açu. A repressão foi comandada por Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso. Na dizimação dos autóctones também se destacou um não-vicentino, rendeiro da Casa da Torre, Domingos Afonso Mafrense, alcunhado "o Sertão".


Domingos Jorge Velho, Benedito Calixto

Quanto aos quilombos, caracterizavam claramente a luta dos escravos pela sua liberação e geravam uma reação violenta dos opressores, que viam nos mocambos uma ameaça a toda a estrutura colonial. A contradição entre os escravos e senhores chegou ao clímax na epopéia de Palmares. 

[...]

De fato, os negros de nenhum modo retornaram para as fazendas de seus ex-senhores. Após quase um século de lutas, o vicentino Jorge Velho, à frente de grande tropa, destruiu o último do quilombo.

No século XVIII, na região das Minas Gerais, as colunas do bandeirante Bartolomeu Bueno do Prado destruíram o quilombo do rio das Mortes.

Na segunda metade do século XVII, a situação de Portugal é crítica: o Tratado de Haia (1661) legalizou a perda da maior parte das suas colônias no Oriente; a Guerra de Restauração contra a Espanha (1640-1668) levou ao fim o lucrativo direito de asiento; as alianças europeias forçam o Estado português a fazer grandes concessões comerciais à Inglaterra, à França e às Províncias Unidas.

O Brasil, agora a principal área colonial lusa, será objeto de grande atenção por parte de Dom João IV, Dom Afonso VI e Dom Pedro I. O sonho era o mesmo dos tempos de Pero Vaz de Caminha, Martim Afonso, Tomé de Souza, Brás Cubas: a descoberta do Eldorado...

Animadas com o declínio da produção mineral na América Espanhola, as autoridades portuguesas incentivam a retomada das pesquisas minerais aqui. A depreciação do açúcar no mercado europeu determina a busca de outras atividades mais lucrativas.

Assim, em 1674 parte na direção do rio das Velhas a bandeira chefiada pelo mais rico e poderoso patriarca paulista, Fernão Dias Pais.

"Doenças, acidentes, deserções, combates com os índios iam dizimando paulatinamente a tropa. [...] Num dos momentos mais difíceis da aventura, o filho bastardo de Fernão, José Pais, compreendeu que a única maneira de retornar à casa seria matando o obstinado líder da bandeira. Mas Fernão descobriu a conspiração e quem morreu - enforcado à vista do arraial - foi José. E com ele seus companheiros de conjura." (MOREIRA DOS SANTOS, C. Jornal do Brasil, Caderno B, 27/04/1974)

O fracasso de Fernão não desanimou outros vicentinos como Garcia Rodrigues e Borba Gato. Em 1695, o governador do Rio de Janeiro comunica à corte a descoberta das primeiras minas, realizada por Antonio Rodrigues Arzão. Borba Gato vai descobrir mais tarde jazidas em Sabará. Sete anos depois, Bartolomeu Bueno [...] repete o feito em Goiás.


Partida da monção, Almeida Junior

As dificuldades desses desbravadores do interior brasileiro estão contadas no relato de um padre participante das monções (bandeiras fluviais que penetravam pelo Tietê, paraná e Pardo) na direção centro-oeste, citado por Capistrano de Abreu em Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil: "depois de comidos os cachorros e alguns cavalos, fiz 35 sermões sem mudar de tema, animando a todos que não esmorecessem, certificando-lhes para diante dos rios de muitos peixes, campos de muitos veados, matos de muita caça, mel e guarirobas".

ALENCAR, Francisco et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 58-63.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Conquista da América IV: A reação indígena

Sem caírmos nos radicalismos da Leyenda Negra, que atribui aos espanhóis as maiores atrocidades na América, não se pode negar que o comportamento do conquistador foi sempre violento: matou milhares de indígenas, saqueou suas riquezas, explorou sua força de trabalho, desestruturou o mundo nativo mediante uma conquista que não foi unicamente militar, mas também racial, religiosa, econômica, cultural e política.

"Quantas cidades arrasadas, quantas nações exterminadas, quantos milhões de povos passados a fio de espada, e a mais rica e bela parte do mundo transtornada pela negociação de pérola e de pimenta." 
(Trecho dos Ensaios de Michel Montaigne, escritor francês do século XVI. ROMANO, R. Os Mecanismos da Conquista Colonial: Os Conquistadores. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 89.)

A violência, contudo, foi exclusiva do espanhol? Ou será que portugueses, ingleses, holandeses, franceses e outras sociedades conquistadoras agiram de maneira diferente, seja na América dos séculos XVI e XVII, seja na África e Ásia Oriental nos séculos XIX e XX?

A reação do indígena não foi idêntica nas comunidades que entravam em contato com o espanhol.

Em alguns casos o indígena mostrou-se amistoso e chegou a se aliar ou a se submeter sem muita resistência ao conquistador. "A vitória de Cortez sobre Montezuma [...] só pode ser compreendida se lembrarmos a aliança do conquistador com Xicontécati, chefe dos Tlaxtaltecas, inimigos tradicionais dos mexicanos [...] Na conquista do Peru, Pizarro, por sua vez, será muito ajudado pela aliança que fará com o cacique Quilimasa." (ROMANO, R. op. cit. p. 16.)

Mesmo entorpecido pelo fatalismo cosmogônico de suas crenças que concebiam a vida como uma contínua destruição ou pelo retorno inevitável de deuses ao mundo que haviam criado, o indígena lutou como pôde contra o conquistador. Mesmo aterrorizado pelos efeitos de novidades incompreensíveis ao seu contexto mental (como o cavalo, as armas de fogo, as armaduras de aço etc.), o indígena utilizou todos os recursos de suas técnicas guerreiras e de armamentos primitivos, cuja inferioridade mais se evidenciava quando confrontados com o equipamento bélico do invasor.

É certo, porém, que inúmeros grupos indígenas despertaram o pavor do espanhol diante do efeito mortífero de flechas envenenadas, arremessadas por exímios arqueiros ou projetadas pelas temíveis zarabatanas. No Caribe, em Tucumán (Argentina) e no País dos Mojos (Amazônia) muitos conquistadores tombaram atingidos mortalmente por flechas envenenadas.

Nos Pampas, para neutralizar os cavalos que transportavam os guerreiros brancos, os indígenas inventaram a boleadeira que até hoje é usada pelos gaúchos: arremessadas nas pernas do animal, nelas se enroscavam e provocavam a queda do cavalo e do seu cavaleiro, prontamente atacados pelos nativos.

Em muitas regiões recorreram os indígenas ao emprego de cabaças contendo pimenta ou folhas verdes queimadas; a fumaça desprendida provocava ardência nos olhos e momentaneamente reduzia a visão, o que era aproveitado pelo índio para se engajar em combate corpo-a-corpo com o espanhol.


Cavalaria guaicuru, Jean Baptiste Debret.


Se na maioria das vezes os nativos acabaram derrotados, nem sempre o branco saiu vencedor. Os araucanos do Chile, os peles-vermelhas dos atuais EUA, os guaicurus do Chaco, os charruas do Uruguai e outros grupos mais não hesitaram em abandonar seus anteriores padrões culturais e aprender a utilizar o cavalo para melhor resistir e atacar o conquistador. Os charruas, por exemplo, eram excelentes canoeiros e pescadores antes de adotarem padrões de vida baseados no nomadismo predatório equestre. Os araucanos, que tiveram em Lautaro um dos seus principais dirigentes, tornaram-se excelentes cavaleiros e, mediante ataques fulminantes e guerras de guerrilha, destruíram sistematicamente os estabelecimentos criados pelos espanhóis no Chile meridional: sua tenaz resistência obrigou os invasores a assinar o Tratado de Quillin, reconhecendo a soberania araucana sobre as terras ao sul do Rio Bio-Bio (1641).

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das Sociedades Americanas. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990. p. 69-70.