"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 3 de maio de 2015

Averróis: Ponte entre culturas

Debate imaginário entre Averróis e Porfirio. Ilustração. Manfredo de Monte Imperiati, Liber de Herbis, séc. XIV.

Seu nome é citado com frequência quando se defende a ideia, absolutamente moderna, de um "Islã das Luzes". A exemplo de Avicena (980-1037), ele encarna a imagem do sábio árabe, tolerante e aberto às trocas culturais, em contraste com aquela de uma expansão muçulmana guerreira e fanatizada. Se a sua notoriedade ultrapassa a de seu equivalente persa na Europa é porque ele contribuiu para a afirmação intelectual do Ocidente cristão.

Filósofo, teólogo, jurista, matemático e médico, Averróis (nome latinizado de Abu al-Wald Ibn Ruchd) nasceu em 1126, em Córdoba. Ele descendia de uma família de juristas que ocupavam a função de cadi, quer dizer, de juiz de paz e de notário. Seu avô tornou-se célebre por importantes trabalhos sobre a jurisprudência islâmica. A juventude de Averróis foi marcada pelo estudo rigoroso do Corão, ao qual se acrescentaram diferentes ciências, entre as quais a medicina, que ele exerceria paralelamente a seu cargo de cadi. Ele interessou-se igualmente pelo saber dos antigos. Abu Yaquib Yusuf, o segundo califa da dinastia dos almóadas (do Marrocos), encomendou-lhe um estudo das obras de Aristóteles. Como não dominava o grego, Averróis trabalhou com traduções que comparou exaustivamente, com o intuito de obter a fonte mais autêntica. Seus comentários de Aristóteles forjaram seu renome, que ultrapassou as fronteiras da Espanha muçulmana (Djazirat al-Andaluz) depois da sua morte. Eles atingiram a Universidade de Paris, onde foram debatidos com ardor. Falou-se até mesmo em uma "querela de Aristóteles", tão áspero foi o debate entre os partidários de Averróis e seus adversários. Tratava-se de determinar se a faculdade de pensar no homem era algo individual ou, como sugeria o andaluz, o reflexo de uma lógica universal. Refutando metodicamente os argumentos de Averróis, Tomás de Aquino lançou-se na batalha metafísica e, aos olhos da Santa Sé, levou a melhor. A partir desse momento, foi o pensamento tomista que animou a doutrina da Igreja.

Em cada um dos três monoteísmos em plena efervescência intelectual no século XIII, distingue-se uma grande figura: santo Tomás de Aquino (1228-1274) para o cristianismo, Moisés Maimônides (1135-1204) para o judaísmo e Averróis para o Islã. Entre todos os teólogos muçulmanos desse período, foi ele o que mais se dedicou a integrar a razão à religião, numa busca de equilíbrio entre o poder espiritual e o poder temporal. Ele distingue a verdade revelada e aquela que se pode atingir por meio da razão. Mas não para opor uma à outra e, sim, uni-las numa busca pela verdade. Em seu Discurso decisivo, ele chega a atribuir um papel indispensável nesse processo ao filósofo, mas reconhece seu caráter elitista.

Evoca-se Averróis para reavivar as cores do brasão do Islã em uma hora na qual as questões de identidade nacional, de laicidade e de integração se tornam outra vez temas ardentes. Sua obra ergue-se como um baluarte contra os fanáticos e abre uma porta ao diálogo entre religiões. Uma árvore que esconde a floresta? Os últimos anos do sábio mostram o quanto seria absurdo idealizar a idade de ouro de al-Andaluz. Se manteve boas relações com Abu Yaquib Yusuf, soberano apaixonado pela cultura, Averróis teve sérias diferenças com seu filho e sucessor, que adotou o integrismo - tendência que põe os princípios religiosos como modelo de vida política e fonte das leis do Estado - e chegou a proibir a filosofia. Ele foi condenado ao exílio em 1197, e seus livros queimados em praça pública. Colocada sob suspeita de heresia, sua obra encontrou melhor ressonância no mundo cristão. Os humanistas do Renascimento, tais como Giovanni Pico della Mirandola, lhe asseguraram um lugar no panteão dos pesquisadores da verdade, ainda que o pensador andaluz fosse condenado pelo papa em 1513.

Averróis continua a alimentar ardentes debates. Em 2008, sua influência esteve no cerne da polêmica suscitada pelo livro de Sylvain Gouguenheim, Aristote au mont Saint-Michel, que discute a forma como a cultura grega se transmitiu ao Ocidente, combatendo a tese da centralidade do papel do Islã nesse processo. A questão posta então era a seguinte: celebrar o papel de Averróis e Avicena significa admitir uma influência do Islã na matriz heleno-cristã que foi transmitida à Europa? É uma questão bastante atual diante dos conflitos políticos e culturais com que nos defrontamos.

Vincent Mottez. Ilustre desconhecido. Averróis. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 127. p. 62-63.

terça-feira, 31 de março de 2015

Antigo comércio

Ânfora que retrata jovens colhendo azeitonas, ca. 520 a.C., Antimenes. Foi na Antiguidade Clássica que a escravidão se tornou um modo sistemático de produção.

"É essencial que cada escravo tenha uma finalidade claramente definida. É tanto justo e vantajoso oferecer liberdade como um prêmio [...]. Também deveríamos deixar que tenham filhos que sirvam como reféns; e, como é de costume nas cidades, não deveríamos comprar escravos das mesmas origens étnicas". O conselho poderia ser dado a qualquer jovem que desejasse administrar escravos na América durante a Época Moderna, mas a admoestação foi dada por um discípulo de Aristóteles em um tratado do final do século IV a.C.

Por muito tempo o continente africano tem sido reconhecidamente o lugar que mais exportou, por séculos, pessoas para servirem de mão de obra escrava para os quatro cantos do mundo. Pesquisas arqueológicas, registros de portos, cartas e tantos outros documentos atestam a violência e a extensão deste comércio. Nem por isso, entretanto, a África pode ser considerada o único berço da escravidão.

Impérios como o egípcio, o assírio e o babilônico tinham como prática recorrente o uso do trabalho compulsório. O código de Hammurabi (1792-1750 a.C.), um conjunto de leis do período babilônico antigo, por exemplo, dedica alguns de seus parágrafos à regulamentação da compra e venda de escravos. Na sociedade babilônica antiga os escravos eram minoria, convertidos a esta condição após se tornarem prisioneiros de guerra em campanhas militares. Havia ainda homens livres que, impossibilitados de pagar suas  dívidas, vendiam esposas, filhos ou a si mesmos como escravos.

Assim como a democracia, herdamos a ideia de escravo-mercadoria mais próxima do que entendemos hoje da Antiguidade Clássica. E foi no auge da civilização grega (entre os séculos V e IV a.C.) e romana (séculos II a.C. a II d.C.), juntamente com o amplo desenvolvimento da Filosofia, da Poesia, do Direito e da Administração, que a escravidão se tornou o modo de produção dominante. As cidades-estados gregas foram, portanto, as primeiras a transformar a escravidão em um sistema de produção sistemático, que serviu de base para as realizações das cidades na Antiguidade Clássica.

Apesar da grande opulência das cidades gregas e romanas, sua economia não estava calcada em uma economia urbana. A oligárquica Esparta, a democrática Atenas e a Roma senatorial baseavam a sua economia no campo, a partir da produção de trigo, azeite e vinho. As cidades gregas foram as primeiras a empregar a mão de obra escrava no comércio e no cultivo de pequenas áreas com escassa população. Os romanos ampliaram ainda mais este uso, utilizando os cativos para o trabalho em grandes áreas de agricultura, o latifundium.

O trabalho livre e o escravo, longe de constituírem uma contradição, eram complementares. De modo geral, poucas atividades eram exclusivamente exercidas por um ou outro. Aos escravos estavam vetadas atividades relacionadas à lei, à justiça, à política, enquanto aos homens livres os trabalhos nas minas e os serviços domésticos não eram permitidos. No final do período republicano romano (509 a 27 a.C.), 90% dos artesãos eram de origem escrava. Já na Grécia do século V a.C., cidades como Atenas, Corinto e Egina tinham uma população escrava maior do que a de cidadãos livres. Em Atenas, por exemplo, havia entre 80 e 100 mil escravos e cerca de 40 mil cidadãos.

Na Grécia os escravos eram capturados através da guerra contra os povos não gregos, chamados por eles de "bárbaros", e da pirataria. Dentro do território, estrangeiros e crianças bastardas também corriam o risco da escravização. Havia lucrativos mercados de escravos, como os de Tanais, Bizâncio e Corinto. As vendas efetuadas em cada cidade-estado deveriam ser tributadas e os comerciantes eram obrigados a informar a respeito dos possíveis "defeitos" de sua mercadoria, como doenças, propensões a fugas, entre outros.

À exceção de Esparta, em que os escravos não podiam ser comprados ou vendidos, de modo geral os cativos eram mercadorias móveis. E, apesar de considerados humanos, mantinham na teoria romana um status quase similar ao dos animais de carga, considerados instrumentum semi-vocale, enquanto os escravos eram um instrumentum vocale.

Em Roma, os escravos também eram capturados a partir das guerras, que fortaleciam o poder militar do Estado. A existência dessa mão de obra permitia o crescimento econômico e, indiretamente, o recrutamento de tropas urbanas livres para o exército - no século III, por exemplo, foram guerras como as Púnicas (264-146 a.C.) que forneceram a força de trabalho para as enormes terras conquistadas.

O escravismo, entretanto, não foi preponderante em todo o Império romano. Apesar de ser um grande império tributário, os romanos não formavam uma unidade econômica social. Este modelo produtivo foi forte principalmente em parte do mundo grego, absorvido pelos romanos, na Sicília e na península italiana.

A escravidão representava a mais radical degradação do homem, convertido em meio de produção e privado de seus direitos sociais. A separação radical entre trabalho material e liberdade permitia que a completa ausência de liberdade de alguns indivíduos desse lugar à livre participação política de outros. A distinção entre trabalho e liberdade se fazia presente até mesmo na língua. Em grego clássico não havia uma palavra que denotasse o conceito de trabalho manual e intelectual. O trabalho adquiriu um status de culto divino sob a fórmula laborale est orare dos monges letrados.

Se o trabalho passa a ser visto de forma diferente dentro da tradição religiosa, engana-se quem pensa que a Igreja do Baixo Império alterou a antiga tradição da escravidão. Nos escritos de seus patriarcas, desde o apóstolo Paulo, havia uma aceitação unânime da escravidão, por parte da instituição eclesiástica, aconselhando aos escravos a obediência aos seus senhores, e a estes, o tratamento justo para seus escravos - a Igreja era uma instituição proprietária de escravos em grande escala.

A queda do Império Romano no século V e o início da Idade Média não extinguiram o trabalho escravo. Durante vários séculos na Europa conviveram diversas formas de trabalho, coexistindo, além do servo feudal, o escravo e o camponês livre. Na Europa Carolíngia, durante o século VIII, 10 a 20% da população rural eram constituídos por escravos. Na Inglaterra do século XI, os escravos compunham cerca de 10% da mão de obra e eram economicamente relevantes nas regiões mais remotas do oeste. Na Península Ibérica do século XIII (onde estão hoje Portugal e Espanha), a servidão da gleba quase desapareceu devido à grande quantidade de escravos trazidos do sul pelos muçulmanos, que dominavam a região desde o século VIII, lá permanecendo até 1492, ano no qual os europeus chegaram oficialmente à América.

Foi o califado muçulmano na Espanha que incrementou o tráfico de escravos na Europa, fazendo deste continente um importante fornecedor de braços cativos. Estes prisioneiros, de maioria eslava, abasteciam o comércio entre Veneza e o seu império islâmico ao sul do Mediterrâneo. Assim como a África, os povos eslavos serviram de reservatório de escravos para o mundo muçulmano. A palavra "eslavo", aliás, determinou etimologicamente a categoria de pessoas privadas de sua liberdade, originando slave, em inglês, sklaven, em alemão, esclavo, em espanhol, escravo, em português, por exemplo. Capturados em guerras internas ou contra os germânicos, os eslavos eram vendidos para servir de mão de obra na Europa e também nos países muçulmanos. Eram empregados basicamente no exército e na administração. Em alguns casos, eram castrados e enviados para os haréns.

Com uma atuação muito distinta do mundo atlântico-europeu, os escravos do mundo muçulmano tiveram papel de destaque. No Egito, os eslavos, que chegaram como mercadoria dos Bálcãs, atuaram como soldados e administradores na consolidação do Império Fatímida. Um deles fundou o Cairo e a maior universidade do Egito até os dias atuais, a al-Azhar, no século X.

A escravidão, enfim, não foi uma exclusividade africana e, apesar de não se poder afirmar que ela existe desde sempre, pode-se suspeitar de sua existência desde tempos imemoriais. Na Antiguidade, antes de atravessar o Atlântico, ela já havia se consolidado na Europa e também na própria África.

Cristiane Nascimento. Antigo comércio. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 10 / Nº 108 / Setembro 2014. p. 17-19.

sábado, 7 de março de 2015

O Magreb: O Marrocos independente

Dia de mercado fora dos muros de Tânger, Louis Comfort Tiffany

No extremo do mundo muçulmano, um tanto isolado pelas cadeias do Atlas, o Marrocos vivia à parte, submetido, não obstante, às vicissitudes do Islã mediterrânico. O Marrocos era particularmente sensível aos progressos dos cristãos. O acordo com os espanhóis em 1479 deixara aos portugueses o direito exclusivo sobre as costas da África, diante das Canárias. Os portugueses se haviam apoderado de Tânger, de Santa Cruz do Cabo de Suez (Agadir, 1504), de Safi (1508). Partindo de suas praças-fortes, realizavam incursões pelo interior e avançavam até Marráquexe. Havia tribos mouras a eles submetidas e encarregadas de seu reabastecimento em cereais. Em 1497, os espanhóis obtiveram dos portugueses a autorização de ocupar Melilha.

Este recuo do Islã provocou especial ressentimento no Marrocos, onde era intensa a vida religiosa. [...] Tal mundo encontrava-se extraordinariamente excitado e exercia grande influência sobre os fiéis a quem os chefes de zaúias ou xeques enviavam palavras de ordem.

O ódio dos sufis contra os cristãos orientava-se contra a dinastia watasida, incapaz de impedir os progressos dos infiéis, de tranquilizar o espírito dos muçulmanos por meio do corpo oficial dos ulemás. Os xeques sustentaram, contra os Watasidas, todas as revoltas de pretendentes, sendo estas apoiadas, ainda, pelos montanheses berberes insubmissos.

Coube ao Sul desempenhar o papel essencial. Os nômades lançaram-se sobre o Marrocos numa guerra santa. [...]

A dinastia atingiu o seu apogeu quando Ahmed Almansur (o Vitorioso) esmagou a cruzada portuguesa em Alcácer-Quebir (1578). [...]

Almansur manteve relações com a Europa. Na sua corte encontravam-se artesãos europeus, financistas judeus, negociantes cristãos. No seu exército eram numerosos os renegados espanhóis. [...]

Almansur localizara sua capital em Marráquexe, na porta do deserto, para melhor controlar os nômades. Queria conquistar o Sudão, a região do ouro, e criar um vasto império ligado pelas rotas saarianas [...].

[...]

A dinastia sadiana desaparece em 1654, depois que oito sultões, num total de onze, morreram assassinados. As tribos dos nômades e caravaneiros e os grupos de zaúias do Sul, mais intransigentes em matéria de fé, disputaram entre si o Marrocos. [...] Criou-se a dinastia alauita. [...]

O Marrocos, assim, conseguiu estabilizar a situação do Islã frente à civilização cristã no noroeste da África. [...]

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 192-193 e 195. (História geral das civilizações, v. 10).

quinta-feira, 5 de março de 2015

O Magreb: O Estado argelino

Jovens senhoras no terraço em Tânger, Rudolf Ernst

O Estado argelino era governado por um beilerbei designado pelo sultão e suserano dos paxás de Túnis e Trípoli. A partir de 1587, o beilerbei foi substituído por um paxá, constituindo-se Argel, Túnis e Trípoli em Regências. [...] Na realidade, os delegados dos janízaros e dos corsários exerceram o Governo após 1587. [...]

[...] Como o próprio Império Otomano, estas distantes províncias do Magreb foram dirigidas por uma empresa militar de escravos e renegados que exploravam os [...] vencidos. Os "turcos", efetivamente, conquistaram a Argélia, colocaram guarnições nos pontos estratégicos [...]. Os mouros das cidades eram excluídos das funções e do serviço militar, reservados aos turcos de raça ou de "profissão". Frequentemente aliaram-se aos nômades vencidos, aos marabus e aos fanáticos do Islã.

Argel desenvolveu-se. Em meados do século XVI, a cidade contava 60.000 habitantes, renegados na maioria, mais 25.000 cativos cristãos. Em 1650, ultrapassava 100.000 habitantes com 25 a 35.000 cativos. O século XVII foi a idade de ouro do corso, pois os argelinos tiveram a habilidade de acrescentar navios de alto bordo às suas galeras. Em 1615-1616, as presas ultrapassaram 2 a 3 milhões de libras. Os escravos eram objeto do comércio mais lucrativo. Particularmente procurados eram as moças e os rapazes, "cuja sorte era fatal", e os trabalhadores especializados em construção de navios, nos trabalhos portuários e na artilharia. [...] O comércio era ativo. Mercadores europeus instalavam-se duradouramente mediante o pagamento de uma licença à Regência e de direitos de saída. Predominavam os judeus e os marselheses. Após 1685, sofreram a concorrência dos protestantes refugiados do Languedoc. Os europeus exportavam couros, cera, lã, tâmaras, plumas de avestruz, coral, cereais e, de Túnis, esponjas. Importavam armas, vinho e telas. Mas, quando as presas diminuíam, tornava-se necessária a elevação dos impostos, o que provocava perturbações. [...]

Em Argel, bem como em Túnis, encontravam-se entre os corsários as faianças de Delft, os mármores esculpidos da Itália, as sedas e os veludos de Lião e Gênova, os vidros de Veneza, os cristais da Boêmia, as pêndulas da Inglaterra. Os benefícios da pirataria multiplicavam as mesquitas e as fundações pias.

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 190-192. (História geral das civilizações, v. 10).

terça-feira, 3 de março de 2015

O Magreb: As dependências turcas da Argélia e da Tunísia

Escrava nua com tamborim, Frank Buchser

No fim do século XV, por razões análogas às que mais tarde causariam o declínio do Império Otomano, o reino muçulmano do Magreb estava em plena decomposição. [...] Os portos correspondiam a outras tantas Repúblicas organizadas para o corso [...]. Os corsários, soldados da guerra santa contra os cristãos, pilhavam as costas, atacavam os navios, reabasteciam os mouros. Os espanhóis temiam uma coligação entre o Sultão egípcio e os soberanos do Magreb para auxiliar os mouros da Espanha. Os de Granada já haviam sublevado em 1501.

Para suprimir a ameaça que pesava sobre suas comunicações na bacia ocidental do Mediterrâneo, bem como os riscos de desembarque, para garantir a posse das bases necessárias às suas galeras ou a cabotagem que lhes é imposta, os espanhóis lançaram uma cruzada. Sucessivamente, tomaram Mers-el-Quebir (1505), Orã (1509), Bugia (1510), o Penon (Argel) e vários chefes passaram a pagar-lhes tributo. Mas os negócios da Espanha obrigavam-nos a contentar-se com uma ocupação restrita. [...]

Os muçulmanos solicitaram a ajuda de corsários instalados em Djidjeli, os quatro irmãos Barba-Ruiva. Em 1516, Arrudji Barba-Ruiva assenhoreou-se de Argel e encetou a submissão do interior. [...] seu irmão Khair-ed-Din Barba-Ruiva continuou sua obra e fundou a Regência de Argel. Para triunfar dos espanhóis e dos vencidos muçulmanos que procuravam a libertação, prestou homenagem ao sultão Selim [...].

Sufocou uma conspiração dos argelinos e das tribos, tomou Collo, Bona (1522), logo depois o Penon, constituiu em Argel, onde os corsários até então puxavam suas barcas para a areia, um porto que se transformou na principal base dos turcos, cômodo bastante para vigiar e interceptar as rotas do estreito de Gibraltar ao Mediterrâneo oriental, da Espanha do Sul para a Itália meridional e da Sicília. [...]

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 189-90. (História geral das civilizações, v. 10.)

domingo, 1 de março de 2015

O Magreb: A maré dos nômades

Loja de ferreiro em Tânger, Edwin Lord Weeks

Durante os séculos XVI e XVII em todo o Magreb, desde o golfo de Gabes até o Atlântico, espalham-se, ao que parece, os nômades da fé. Foi, certamente, o progresso dos cristãos que provocou esta reação do Islã. Os nômades estariam sendo prejudicados pelo declínio do tráfico das caravanas saarianas, pois os portugueses, e em seguida seus sucessores holandeses, ingleses e franceses, haviam desviado para as costas da África negra o ouro e os escravos. Os nômades são atingidos pelas incursões de pilhagem das guarnições europeias lançadas sobre as costas e, talvez, pelas culturas de cereais destinadas ao comércio com os cristãos. Todo o mal provém dos detestados Rumis. O ódio religioso é atiçado nos centros religiosos dos oásis do sul, longe da corrupção das cidades costeiras, pelos santos marabus secundados por milhares de mouros espanhóis refugiados. E o ódio religioso dirige-se primeiramente contra os citadinos, os sultões e os corsários, cuja prosperidade é uma injúria ao empobrecimento dos nômades e que, em certo sentido, poderiam ser acusados de pactuar com o infiel, pois concordam em entregar os cativos mediante resgate, em comerciar com os cristãos, em lançar mão de seus serviços. Na Argélia e na Tunísia, os nômades fracassam na luta contra a artilharia dos turcos. No Marrocos, periodicamente, uma dinastia do sul apodera-se do governo, sedentariza-o, é forçada, por sua vez, a pactuar com o cristão, resvala pelo harém e é seguida por outra que toma igual caminho.

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 188-9. (História geral das civilizações, v. 10).

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Espanha Muçulmana

Ocupando território espanhol, conhecido então como Al Andalus, os muçulmanos controlaram as terras dos reis visigodos e da Igreja.

Obrigavam os camponeses a pagar um terço da produção. Ao mesmo tempo introduziram inovadoras técnicas agrícolas, que beneficiaram os agricultores. Desenvolveram as atividades comerciais. Cunharam moedas. Exploraram minérios. Construíram estradas e aproveitaram aquelas existentes desde o domínio romano. Edificaram cidades que foram autênticos símbolos da opulência da civilização urbana andaluza, como Sevilha, Córdoba e Toledo.

Torre do Ouro, Sevilha

A longa permanência dos conquistadores muçulmanos deixaria marcas definitivas no Ocidente, e nesse aspecto o papel da Espanha foi o de ser a principal área intermediária. A cultura muçulmana no Ocidente agiu como uma força sintetizadora, levando para as regiões conquistadas o que havia de mais importante em todos os centros da atividade humana, o que havia de mais significativo no conhecimento de chineses, indianos e gregos. Traduzindo as obras dos mais importantes autores da Antiguidade clássica, os muçulmanos transferiam para o Ocidente o conhecimento acumulado durante séculos. Eles contribuíram para o desenvolvimento da cartografia e da astronomia, da química e da medicina, da indústria e do comércio, da arquitetura e da matemática, da filosofia e da literatura. Introduziram no Ocidente os algarismos hindus (hoje chamados arábicos). Desenvolveram a álgebra e a astronomia. Imortalizaram nomes como o do médico e filósofo Averróis, comentarista da obra de Aristóteles. Como o também médico e filósofo Avicena, que teve sua obra enciclopédica, chamada Canon, utilizada durante muito tempo nas escolas europeias de medicina. Como o historiador Ibn Khaldun, que muitos vêem como precursor da abordagem científica da vida social. Como o sábio Al Biruni, que se dedicou a praticamente todas as disciplinas científicas de seu tempo.

O apogeu do islamismo ocidental foi vivido em território espanhol e desmoronou com a Reconquista cristã, concluída no ano de 1492. No entanto, a contribuição deixada pela civilização do Islão representa uma herança que continuou depois disso a beneficiar toda a humanidade e que se prolonga, através da História, até nossos dias.

YASBEK, Mustafá. A Espanha Muçulmana. São Paulo: Ática, 1987. p. 29-30. 

NOTA: O texto "A Espanha Muçulmana" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O significado da Revolução Iraniana

A revolução iraniana concentrou todos as contradições do desenvolvimento histórico do país, em especial em sua fase moderna e contemporânea, como semicolônia dos imperialismos russo e britânico, no século XIX e na primeira metade do século XX, e do imperialismo norte-americano, depois da Segunda Guerra Mundial. A questão democrática (luta contra a monarquia) e a questão agrária, não resolvidas pelo desenvolvimento capitalista raquítico e dependente do país, puseram-se contra o pano de fundo do desenvolvimento desigual e combinado de sua economia, que gerou uma moderna indústria petroleira, e um proletariado que, embora minoritário, ganhou forte poder econômico e político. A classe operária estava concentrada nos centros de produção de petróleo para exportação e na área de serviços de todo tipo, além da indústria dirigida ao mercado interno, concentrada na periferia da capital, Teerã.

Em 1978-79, produziu-se no Irã o vertiginoso desenvolvimento de um movimento revolucionário, no qual, inicialmente, a classe operária lutou pela direção da mobilização de todos os explorados, movimento que desmantelou o Estado e criou uma situação  revolucionária. A revolução no Irã, no entanto, debutou como um vasto movimento democrático dirigido pela burguesia nativa. Esse foi o caráter do movimento em seus inícios, quando tinha seu centro na cidade santa de Qom, onde a hierarquia religiosa xiita se pôs à cabeça da mobilização de massas contra o regime ditatorial do xá. Durante dois anos, o caráter e o ritmo do movimento – sua direção – foram garantidos e controlados pela hierarquia islâmica, financiada pela burguesia comercial e financeira do Baazar.  O enfrentamento entre esse setor e o regime monárquico dominava o centro da cena política, bloqueando uma ação histórica independente das massas.


Manifestação contra o xá, 1978

A intensificação do enfrentamento teve, porém, conseqüência não desejada por nenhuma das frações burguesas ou clericais em disputa: a crescente afirmação do proletariado no interior do movimento democrático e antiimperialista. Uma transformação do processo revolucionário aconteceu quando o proletariado começou a combater com seus próprios métodos (greves, ocupação de fábricas) o regime do xá. A ampliação do combate democrático levou a classe operária a tornar-se mais independente da direção burguesa e religiosa.


Greve dos trabalhadores do petróleo, 1978

O centro geográfico do movimento deslocou-se então para as regiões petroleiras de Abadan e para a própria capital, Teerã. Foi a partir da greve geral petroleira de outubro de 1978 que começou a contagem regressiva do governo do xá. E foi também a partir dessa data que começaram a se desenvolver os comitês operários nos centros petrolíferos e no cinturão industrial de Teerã, além de 105 comitês de bairro na própria capital. As ações testemunhavam a vontade do movimento operário de imprimir seu selo de classe à revolução democrática, transformando-a.

Foi a transformação interna da mobilização revolucionária que determinou que a original intransigência da direção khomeneista fosse cedendo lugar à vontade de saída nos quadros do regime, uma transição que preservasse o Exército, mas que incluísse também as frações burguesas que haviam sido excluídas.

A tentativa de conciliação com o antigo regime (que acenara até com a possibilidade de uma monarquia constitucional) foi evidente quando o primeiro-ministro Barzagan confessou a existência de um acordo, do qual um aspecto era a nomeação de Chapour Bakhtiar (membro da Frente Nacional de Oposição) como primeiro-ministro, pelo próprio xá: “Estimávamos que devíamos organizar, depois da partida do xá e da instauração de um Conselho da Coroa, eleições gerais e livres, que teriam aberto a via para a designação de uma Assembléia Constituinte, para transformações radicais, e depois a transferência do poder”. Chapour Bakhtiar, presidente do Conselho, teria apoiado esse projeto, do mesmo modo que os chefes do Exército e da polícia, segundo o bem informado correspondente sur place de Le Monde, em 15 de maio de 1979.


O povo em armas, Teerã, fevereiro de 1979

Mas o movimento proletário expresso na greve geral já possuía um alto grau de independência em relação à direção burguesa, e tinha por trás um colossal movimento de massas. Sua expressão foi a insurreição popular de 10, 11 e 12 de fevereiro de 1979, que quebrou o Exército imperial e assistiu à tomada de armas por parte do povo. Isso liquidou os planos de transformação pacífica da monarquia. “Eu não tinha ainda declarado a guerra santa”, disse Khomeini posteriormente. Por isso, a repressão contra a esquerda e o movimento organizado dos trabalhadores começou imediatamente depois de vitoriosa a revolução democrática antimonárquica, dando papel decisivo às milícias islâmicas. Estas foram depois transformadas em Guardiões Revolucionários, conquistando enorme poder político no novo Estado, com o qual a hierarquia xiita teve que contar. O que, até certo ponto, limita o próprio poder dos mulás.


Soldados em confronto com estudantes revoltosos nos portões da Universidade de Teerã, 1978

Ainda em 1979, quando a direção burguesa queria dar por terminada a revolução, para as massas ela recém-começava. A auto-organização operária se manteve, pelo menos, até 1981 nos principais centros industriais e fez pairar o fantasma de uma segunda revolução, social, mais radical, não só no Irã, mas em toda a região, na Arábia Saudita em primeiro lugar. Os comitês khomeneistas começaram então a competir, inicialmente e depois a chocar abertamente, até mesmo militarmente, com os comitês independentes surgidos da insurreição popular. O confronto estendeu-se desde setembro de 1978 até fevereiro do ano seguinte. O primeiro-ministro Barzagan resumiu a situação nestes termos, dirigidos aos correspondentes estrangeiros: “Vocês não concebem a que fantástica pressão popular estamos sendo submetidos, todos, sem exceção.”

A mobilização revolucionária impediu um acordo pacífico entre a burguesia nacional e o imperialismo, que até mesmo buscou um terreno de entente com a própria hierarquia xiita. Khomeini chegou a afirmar que o fuzilamento de homens do regime do xá tinha função preventiva, pois, caso o novo regime não executasse alguns altos personagens imperiais, “o povo teria realizado um verdadeiro massacre”.


Clérigos e soldados dão as mãos em sinal de amizade, fevereiro de 1979

A força social da classe operária e dos setores mais pobres e explorados, porém, não se transformou em força política independente, pela política carente de independência em relação ao clero xiita ou à burguesia bazaari das principais correntes de erquerda, os fedayyin marxistas, os mujaheedeen islamo-marxistas e, sobretudo (pela sua força nos sindicatos e centros petroleiros) o Tudeh. O partido, dependente da burocracia da União Soviética, revelou uma posição reacionária, por sua política mundial, nos momentos decisivos do enfrentamento antiimperialista (ocupação da embaixada norte-americana em Teerã).

Diante do temor e da fraqueza da burguesia iraniana diante do movimento dos explorados, da dissolução do Exército imperial e da carência de independência política real da classe operária, o clero xiita pôde jogar papel de arbitragem que se estendeu por todo um período histórico, chegando até hoje. Essa arbitragem o pôs à cabeça do Estado islâmico, no qual as instituições representativas, eleitas em escrutínio, estão subordinadas a instâncias não-eleitas (pela maioria da população) próprias à instituição religiosa, configurando um regime de natureza bonapartista-teocrática.

Logo depois da revolução, a guerra contra o Iraque atenuou as suas contradições internas e serviu também como álibi já não só ideológico, mas também militar, para a repressão contra a esquerda e o movimento operário independente. O fracasso do empreendimento bélico iraniano (afinal, o verdadeiro motivo do enforcamento de Saddam Hussein, vinte anos depois) fortaleceu o bonapartismo xiita e deu o lugar central do Estado a sua milícia armada.

A partir de meados da década de 1980, o declínio dos preços internacionais do petróleo acrescentaria um fator econômico à queda do poder da classe operária. Com o desemprego, a queda da renda nacional e as perdas salariais, a luta dos trabalhadores retrocedeu e voltou a seus níveis mais elementares.

Os acontecimentos atuais demonstram que, apesar de suas inúmeras limitações, a revolução iraniana de 1979 alterou decisivamente o equilíbrio político do Oriente Médio, e se projetou como um poderoso fator de crise política mundial. A população do Irã, que era de 34 milhões na época da Revolução Islâmica, pulou para 70 milhões, hoje, sendo que 65% dela tem menos de 25 anos de idade. Esses jovens formam a população mais instruída do país de todos os tempos, pois o índice de alfabetização nunca foi tão alto, tendo passado de 59% para 82%, nos últimos vinte anos. Mas não é fácil ter vinte anos no Irã, hoje: 40% dos jovens estão desempregados.

As novas gerações iranianas encaram novos desafios, que põem novamente o Irã no centro da tormenta política mundial. A “questão iraniana” se projeta para todo o Oriente Médio, demonstrando que a solução dos problemas da própria revolução tem por palco decisivo a arena internacional. Um combate antiimperialista conseqüente terá o efeito de trazer à baila as contradições políticas internas do país e, sobretudo, as suas contradições de classe. A experiência política do último quarto de século será decisiva. De sua assimilação depende a retomada do fio condutor com toda a longa tradição revolucionária do país de Mazdak e Sultanzadé, da reconstituição de seu elo histórico e de classe com a luta socialista dos explorados do mundo todo.

COGGIOLA, Osvaldo. A Revolução Iraniana. São Paulo: UNESP, 2008. p. 139-143. (Revoluções do século 20).

NOTA: O texto "O significado da Revolução Iraniana" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Islamismo

O Islamismo, a mais moderna das religiões universais, surgiu na Arábia no século VII em circunstâncias mal conhecidas. Maomé nascera em Meca ao redor do ano 570 de nossa era e havia pregado um monoteísmo, em muitos aspectos, próximo do judaísmo e do cristianismo – que eram conhecidos em seu meio – enfrentando o politeísmo de seu próprio povo. Órfão desde pequeno, foi criado pelo tio Abu Talib que se dedicava ao comércio de caravanas, tendo viajado com ele até 25 anos de idade, quando casou-se com Khadidja, uma viúva rica de 40 anos. Foi ao redor de 611, em meio a uma vida tranqüila e feliz que, uma noite, apareceu-lhe o arcanjo Gabriel e lhe disse: “Lê”. Ele respondeu que não sabia ler e o anjo insistiu: “Lê em nome do criador”, e lhe anunciou que havia sido escolhido para ser o mensageiro de Deus. Sua esposa foi a primeira a converter-se, ao mesmo tempo que seu primo Ali, que casou-se com Fátima, filha de Maomé. Os habitantes de Meca inquietaram-se com esta nova fé monoteísta, que ameaçava as peregrinações aos santuários locais, tornando a situação perigosa para o profeta que, em 16 de julho de 622, fugiu para instalar-se em Medina. Esta viagem, a hégira, é o acontecimento que marca o início da era muçulmana. Foi, então que Muhammad se converteu em um profeta armado e dedicou-se à expansão do Islamismo pela Arábia, até sua morte no ano 632 (ano 10 da hégira).

Alcorão de Al-Andalus (século XIII)

Se, inicialmente, Maomé estava próximo aos judeus que viviam na Arábia, separou-se gradualmente deles, que haviam se aliado com seus inimigos, ao mesmo tempo que se apropriava de suas origens. Abraão foi considerado o fundador de um monoteísmo que havia estabelecido um santuário em Meca (a Ka’Ba, construída por Adão, destruída pelo dilúvio e restabelecida por Abraão) sendo que Jesus era visto como um grande profeta, filho de mãe virgem.

O grande problema do Islamismo, ao morrer Maomé, foi sua sucessão. Muitos eram partidários de que lhe sucedesse Ali, seu primo e genro. Outros queriam que o sucessor, ou califa fosse eleito. Um acordo entre as partes levou à nomeação, como primeiro sucessor, de Abu Bekr, velho companheiro e um de seus sogros (depois da morte de Khadidja, em 619, Maomé chegou a ter 10 mulheres).

O califa já não era um profeta, mas simplesmente um conservador da mensagem de Maomé e o encarregado de expandi-la pelo mundo. Abu Bekr criou um exército e prosseguiu a expansão. Seu sucessor, Omar (634-644), outro sogro de Maomé, conquistou a Síria e concluiu a conquista do Egito. Nos países que conquistavam, os muçulmanos apropriavam-se das terras do Estado e daqueles que não reconheciam a sua autoridade, permitindo, porém, que cristãos, judeus e zoroastrianos continuassem conservando seus bens, sempre que pagassem tributo e não fizessem proselitismo religioso.

Omar foi assassinado por um escravo cristão e um conselho de sábios escolheu, então, como seu sucessor, Othaman (644-656), que fora casado com duas filhas de Maomé e que realizou a compilação do Corão, recolhendo as recordações e testemunhos de todos os companheiros do profeta. Após doze anos de reinado, Othaman morreu, também assassinado. E o quarto califa, e último dos “califas patriarcais”, foi Ali, o mais próximo dos parentes de Maomé (os shariffs ou descendentes do profeta procedem de seus dois filhos) que morreria, por sua vez, assassinado pelo homem que o substituiria, Moaviá, que deu início ao califado hereditário, instalado em Damasco e criou um estado de estilo novo, que já era de um povo em armas, mas que contava com uma administração e um exército profissional.

Enquanto isso, as reivindicações da família de Ali, que se considerava perseguida, iniciaram a divisão do mundo islâmico entre “sunitas” e “xiitas”, que eram os que não aceitavam o califado hereditário e sustentavam a legitimidade da sucessão de Ali através de uma série de imanes (sacerdotes) ou chefes religiosos ocultos. Os xiitas promoveram diversas insurreições e deram lugar a ramos extremistas, como os ismaelitas.

No Islamismo atual, o grupo mais numeroso é o dos “sunitas” ortodoxos, cujo nome procede de sunnah ou costume, representando mais de 85% dos muçulmanos. Há quatro escolas de pensamento sunita que dominam em diversas zonas do mundo islâmico, reconhecendo-se todas entre si, porém, como ortodoxas. Opostas a elas, estão os “xiitas”, correspondendo a 10% dos muçulmanos (entre eles os do Irã e boa parte do Iraque) que se dividem em três escolas – a dos doze sacerdotes (imanes), a dos cinco imanes e a dos ismaelitas ou dos sete imanes – que divergem na estimativa de quem são os imanes herdeiros secretos e legítimos de Ali. Uma das diferenças mais evidentes entre xiitas e sunitas é que os primeiros admitem a autoridade religiosa de um clero, os mujtabids, cujos membros mais importantes são chamados de aiatolás.

Além destes dois, há outros grupos menores no Islamismo. Os coraixitas são uma seita puritana que descende dos que, na disputa sucessória, não estavam nem como Moaviá nem com os descendentes de Ali, porque pensavam que o califado deveria ser eletivo. Há, também, diversas seitas saídas do xiismo que seguem os ensinamentos de profetas próprios, como os bahai, que têm seiscentos mil seguidores, ou a seita ortodoxa de Ahmadiya, na Índia, que afirma que Jesus Cristo morreu na cruz aos 120 anos, na Índia. O fundador deste grupo, que morreu em 1908, proclamava que ele era o mahdhi, o imã esperado, ao mesmo tempo que era, também, o segundo retorno de Jesus Cristo. Uma das duas correntes em que este grupo se dividiu imita os procedimentos das missões cristãs (ainda que seja violentamente hostil ao cristianismo) e tem meio milhão de seguidores, principalmente na África ocidental: na Nigéria (onde contribuiu para a islamização das tribos yoruba), Guana e Burkina Faso.

Há também dois fenômenos associados, que são demasiado complexos para serem sintetizados brevemente. O “sufismo” é uma forma de misticismo que vai além da simples observação da lei islâmica (a “shariah” ou caminho largo) para buscar a união com Deus através do ascetismo, da prece e da meditação, tendo em Ibn Arabi um dos seus maiores representantes, autor de uma imensa obra escrita, que nasceu em Murcia, em 1165, e percorreu todo o mundo islâmico. As confrarias (turuk) seguem as doutrinas de um líder sufi, de um marabut, que ensinam o “modo de aquiescer a Deus, através de determinados ritos, práticas, exercícios e conhecimentos esotéricos”; reúnem-se junto às tumbas dos santos, fazem jejum e vigílias, praticam a dança (como os “derviches girantes”), recitam “recordações” e alguns consomem haxixe ou ópio para facilitar a chegada ao êxtase. Proibidas na Arábia, as confrarias se expandem por todo o mundo islâmico, incluindo Bósnia e Kosovo, e entre os imigrantes muçulmanos da Europa ocidental.

Os sunitas, o grupo majoritário dos muçulmanos, não têm Igreja nem clero. O fiel tem contato direto com Deus, já que o imane (sacerdote) não faz outra coisa do que dirigir a oração coletiva, não sendo um intermediário entre a divindade e o crente. O Corão é a mensagem de Deus através do qual o arcanjo Gabriel, recordado de memória pelos contemporâneos do profeta e escrito em diversas etapas em um texto de 114 surates ou capítulos, compostos de um número variável de versículos. Não é um texto apenas religioso, mas contém, também, normas jurídicas, morais, políticas ou sociais.

A suna (tradição ou costume) é a segunda fonte de lei e se compõe principalmente dos hadits, os dizeres do profeta quando respondia a perguntas sobre a interprestação de seus ensinamentos, transmitidos oralmente por seus companheiros às gerações seguintes. No século IX, foram compilados e discutidos, atribuindo-se-lhes um grau de veracidade. Há seis recompilações fundamentais dos hadits que são fonte do conhecimento ao lado do Corão.

Os princípios do Islamismo são cinco. A profissão de fé: só Deus é Deus e Muhammad é seu enviado. Esta profissão, dita com sinceridade ante testemunhas, basta para que seja considerado muçulmano. A oração (pregaria) que se faz cinco vezes ao dia, só ou acompanhado, sob a direção de um imane ou sacerdote e na direção de Meca, é um ato supremo e purificador. O zakat o imposto-esmola é obrigatório e se destina a atender aos necessitados. O quarto princípio é o jejum de Ramadan e o quinto, o hadj ou peregrinação a Meca.

O califado fragmentou-se como poder político, porém o grande paradoxo foi que, ao romper-se sua unidade, a homogeneidade cultural do mundo islâmico cresceu (é necessário recordar que a comunidade dos muçulmanos, a umma, não reconhece diferenças de tribo, nação, nem de raça) e sua capacidade de expansão e de integração se multiplicou. Os censos religiosos são sempre discutíveis, mas calcula-se que seu número cresce com rapidez, não só porque os países muçulmanos têm, em geral, natalidades elevadas, mas porque sua religião se expande fortemente no mundo subdesenvolvido.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 309-314.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

El Diablo es musulmán

Derviches, Jean-León Jérôme

Ya el Dante sabia que Mahoma era terrorista, Por algo to ubicó em uno de los circulos del Inferno, condenado a pena de taladro perpetuo: Lo vi rajado, celebro el poeta en “La divina comedia”, desde la barba hasta la parte inferior del vientre...

Mas de un Papa habia comprobado que las hordas musulmanas, que atormentaban a la Cristiandad, no estaban formadas por seres de carne y hueso, sino que eran um gran ejército de demônios que más crecia cuanto más sufria los golpes de las lanzas, las espadas y los arcabuces.

Allá el año 1564, el demonólogo Johann Wier habia contado los diablos que estaban trabajando em la tierra, a tiempo completo, por la perdición de las almas cristianas. Habia siete miliones cuatrocientos nueve mil ciento veintisiete, que actuaban divididos em setenta y nueve legiones.

Muchas águas hirvientes han pasado, desde aquel censo, bajo los puentes del inferno. ¿Cuántos suman, hoy dia, los enviados del reino de las tinieblas? Las artes de teatro dificultan el conteo. Estos engañeros  siguen usando turbantes, para ocultar sus cuernos, y largas túnicas tapan sus dolas de dragón, sus alas de murciélago y la bomba que llevan bajo el brazo.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 113-114.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte IV)

O terrorismo internacional

Símbolo do Islã, Produtor 

O terrorismo internacional aumentava e cada ação bem-sucedida parecia inspirar outra. Era a arma preferida dos que estavam em desvantagem militarmente. Os terroristas se aproveitavam da sensação de contentamento e segurança em países poderosos e prósperos, onde, às vezes, instituições liberais davam cobertura a suas ações. A mídia involuntariamente se tornou aliada dos terroristas ao dar-lhes a publicidade que pediam: sem propaganda maciça, o terror não consegue espalhar-se rapidamente.

No final da década de 1940, o terrorismo havia sido usado de modo dramático pelos extremistas judeus em sua luta pelo controle da Palestina. Duas décadas mais tardem eram os extremistas palestinos que começavam a organizar ações terroristas. Em 22 de julho de 1968, em Roma, três palestinos armados subiram a bordo de um avião comercial israelense. No meio do trajeto para Telavive, ameaçaram explodir a aeronave. Cerca de 110 episódios parecidos aconteceram nos vinte anos seguintes, dos quais metade foi iniciada por palestinos, e um quarto, por iranianos e siques. Outra tática, a de esconder bombas nas bagagens dos passageiros, causou a queda de pelo menos 15 aviões.

Professores e pregadores muçulmanos militantes faziam o recrutamento dos terroristas. Na década de 1980, os escolhidos foram para o Afeganistão com a tarefa de ajudar na expulsão dos invasores soviéticos ateus. Quando a guerra do Afeganistão acabou, o ódio foi direcionado contra os norte-americanos cristãos, apoiadores de Israel e disseminadores de uma cultura materialista que seduzia os jovens muçulmanos.

Um desses recrutas era Osama Bin Laden, cidadão da Arábia Saudita - até seu passaporte ser confiscado. Uma das 57 crianças de uma rica família saudita que se ocupava do próspero negócio da construção civil, ele se ressentia dos elos entre seu país e os Estados Unidos. Adversário religioso da família real, considerava seus membros insuficientemente austeros, portanto desqualificados para a tarefa de portar as chaves de Meca. Foi um membro ativo no combate contra as tropas soviéticas no Afeganistão. Residiu por cinco anos no Sudão, outra nação propagadora da fé islâmica, antes de retornar, em 1996, ao Afeganistão, então nas mãos do Talibã. Lá, ajudou no ensino de jovens muçulmanos, tanto nativos quanto estrangeiros, em questões religiosas e nas práticas terroristas. Bin Laden combinava audácia e inventividade. Suas unidades terroristas foram vitoriosas no final da década de 1990, matando 19 soldados norte-americanos na Arábia Saudita, bombardeando duas embaixadas dos Estados Unidos na África Oriental  (cuasando 260 mortes) e matando marinheiros a bordo do navio de guerra USS Cole, próximo ao Iêmen.

Na manhã de 11 de setembro de 2001, 19 passageiros incomuns se preparavam para embarcar em vários voos domésticos prestes a partir da costa leste dos Estados Unidos. Eram todos homens, e nenhum deles pareceria deslocado se estivesse no Oriente Médio. Quase todos tinham passagens de primeira classe ou de classe executiva, o que possivelmente os ajudaria quando fossem interrogados ou revistados por guardas e outros funcionários nos aeroportos de Boston, Washington e Newark. Um deles, ao ser abordado, quase não tinha noção do que lhe perguntavam, tão pequeno era seu conhecimento do inglês. Embora se comportasse de modo estranho e não possuísse as identificações adequadas, acabou obtendo permissão para juntar-se aos outros passageiros.

Os quatro aviões iriam voar até a Califórnia e por isso tinham o tanque cheio. O último decolou às 8h42, quase quarenta e cinco minutos depois do primeiro. Logo no início de cada voo, os 19 passageiros deixaram seus assentos e rapidamente começaram a fazer o que haviam planejado. Apunhalando os golpeando qualquer membro da tripulação que tentasse impedi-los, invadiram as cabines dos aviões e aqueles que tinham experiência em pilotar tomaram os controles à força. Seus colegas mais fortes, com a ajuda de sprays de pimenta e outras substâncias irritantes, mantiveram os passageiros afastados da parte frontal do avião. Todas as ações, planejadas nos mínimos detalhes, foram executadas com inteligência e determinação.

Um dos aviões que tinha saído de Boston, ao aproximar-se do centro de Nova York, rumou na direção das torres gêmeas do World Trade Center e despedaçou os pavimentos superiores da torre norte, provocando um incêndio. Todos os que estavam a bordo morreram. O acontecimento foi tão surpreendente que as primeiras notícias foram confusas ou atenuadas. Na Flórida, o presidente George W. Bush estava prestes a fazer uma visita a uma escola de ensino fundamental, quando recebeu uma mensagem dizendo que o arranha-céu havia sido atingido. Essa primeira informação identificava equivocadamente o avião como um pequeno bimotor.

Em Nova York, as equipes jornalísticas fotografavam a torre de 110 andares em chamas, quando, às 9h03, filmaram um avião atingindo a segunda torre. Este também havia sido sequestrado logo após a partida de Boston. As notícias foram transmitidas ao presidente, que então se encontrava em uma sala de aula lendo histórias para as crianças. Ele rapidamente se pôs a caminho do aeroporto, onde um voo de emergência esperava para levá-lo a Washington. A capital também corria perigo - era alvo de um avião que havia decolado de lá e mudado de direção. Às 9h37, essa terceira aeronave, após sobrevoar os arredores da Casa branca, colidiu contra o Pentágono.

Um quarto avião continuava a caminho de Washington, seguindo uma rota indireta. Seu alvo podia ser a Casa Branca ou o Capitólio. Um grupo de passageiros decidiu corajosamente invadir a cabine do piloto e tomar o controle, mas seu contra-ataque fez o piloto invasor perder o comando ou agir precipitadamente. O avião girou e mergulhou na direção de um campo desabitado na Pensilvânia.

Em menos de uma hora, três aviões haviam atingido edificações simbólicas em Washington e Nova York. O combustível agiu como explosivo e destruição causada pelo fogo foi imensa. Na torre norte do World Trade Center, centenas de pessoas acima do 92º andar morreram instantaneamente e outras centenas ficaram encurraladas, pois tanto os elevadores quanto as escadas estavam bloqueados. O edifício ficou em chamas em vários andares e a fumaça negra subia vagarosamente. A torre sul, a segunda a ser atingida, desmoronou às 9h59, matando todos os civis e as equipes de resgate no interior do prédio, além de pessoas nas ruas. A torre norte, tomada cada vez mais pelas chamas, resistiu por mais meia hora e também desabou. Durante um longo período, a quantidade de baixas pôde ser apenas presumida, até que finalmente se chegou ao número de 2.973 mortes.

Os 19 assassinos, que estavam entre os mortos, eram originários do Oriente Médio, principalmente da Arábia Saudita, antiga aliada dos Estados Unidos. Acreditavam ser servos do Islã. A nação que atacaram fora rotulada por seu líder como "a cabeça da serpente". Depois desse episódio, a serpente ficou mais agitada do que nunca.

Na história moderna, nenhuma grande nação havia sido atingida de modo tão devastador no próprio território durante um período de relativa paz. Os Estados Unidos nunca haviam perdido tantas vidas num ataque em solo norte-americano. O aspecto completamente teatral do episódio fez a conquista da Lua parecer um acontecimento quase sem importância. O fato de a investida contra a segunda torre ter sido vista ao vivo pela televisão em lugares tão distantes quanto a Suécia e a Nova Zelândia tornou o acontecimento ainda mais chocante e espantoso.

No mesmo ano, os militantes empreenderam outro ataque, contra um inimigo asiático inerte e envelhecido. Fora dos limites da pequena cidade de Bamiyan, a oeste de Cabul, a capital do Afeganistão, situava-se uma escarpa íngreme onde duas enormes estátuas haviam sido esculpidas, ao longo de muitos anos, em rocha maciça. Eram imagens de Buda, impressionantemente grandes - uma delas tinha a altura de um prédio de 15 andares. Situadas em uma velha rota comercial que cruzava a cordilheira de Hindukush e ligava a Índia à Ásia Central, as imagens serviam de conforto e inspiração, século após século, a uma interminável procissão de viajantes, muito tempo após a região ter sido ocupada pelos muçulmanos. Em 2001, membros do Talibã decidiram que as estátuas eram um sacrilégio, um insulto ao Islã, e destruíram suas faces e outras partes com canhões e foguetes.

No mesmo ano, os Budas gêmeos de uma estrada antiga e as torres gêmeas na capital financeira do mundo foram alvo da destruição empreendida pelas ações violentas daqueles que desejavam redenção. Mas só o que ofereciam, ao buscarem tal redenção, era ódio e violência.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 298-303.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte III)

Fervor e petróleo no deserto


Símbolo do Islã, Produtor 

Na Arábia, a família Saud era, havia muito tempo, a protetora do wahhabismo, um credo islâmico puritano. Quem revigorou a fortuna da família no século XX foi o rei Ibn Saud, que na prática fundou a nova Arábia Saudita. Ele era um dos homens mais altos do reino, além de um guerreiro habilidoso. Andava de maneira lenta e digna e suas palavras prendiam a atenção. De acordo com uma interpretação liberal do Alcorão, mantinha quatro esposas, quatro concubinas favoritas e quatro "escravas prediletas". Havia um tipo de escravidão que persistia, com a concordância de Ibnm e um escravo chegou a tornar-se ministro da Fazenda durante seu reinado. A disciplina e o fervor religioso, de acordo com os preceitos do wahhabismo, também tinham a bênção do rei.

A Arábia Saudita, com sua grande extensão de areia em várias tonalidades, não teve valor econômico durante muito tempo. Após a descoberta do petróleo em 1938, a riqueza da nação aumentou, primeiro lentamente, e depois com rapidez. O fato de o país possuir as maiores reservas mundiais do recurso fez crescerem as tentações humanas contra as quais o ramo wahhabi do Islã diligentemente alertava. Mesmo envelhecido, o rei tentou deter o fluxo de licenciosidade que vinha do Ocidente. Até 1951, o futebol esteve banido e os estrangeiros que moravam no país eram proibidos de comprar bebidas alcoólicas.

De todas as nações árabes, a Arábia Saudita era a única aliada tradicional de Washington. Os dois países trabalhavam harmoniosamente, um fornecendo o petróleo, e o outro, proteção militar. Os Estados Unidos produziam cada vez menos o petróleo que consumiam e dependiam cada vez mais da Arábia Saudita. Lá, os norte-americanos residentes tinham de seguir, pelo menos aparentemente, os preceitos puritanos do Islã. Na década de 1980, praticamente não havia judeus entre os norte-americanos que viviam no país; os banhos de piscina mistos eram proibidos nos hotéis; e os membros das forças armadas norte-americanas concordaram em não celebrar missas de Natal nas bases. Tais concessões não pareciam suficientes aos olhos dos muçulmanos mais fervorosos, sempre conscientes de que eram eles os guardiões dos locais sagrados em Meca e Medina. Alguns dos mais veementes desaprovavam até mesmo o próprio governo, vindo a patrocinar terríveis atos de terrorismo.

Próximo post: O Islã no século XX (Parte IV): O terrorismo internacional

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 297-298.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte II)

Divergências entre muçulmanos e cristãos


Símbolo do Islã, produtor  

As concepções do islamismo e do cristianismo haviam se modificado. Seus modos de pensar eram semelhantes em 1900. Nessa época, as nações cristãs zelavam pela instituição da família, eram mais atentas ao uso excessivo do álcool e consideravam o domingo um dia sagrado. Sua atitude em relação às mulheres era mais parecida com a atitude dos islâmicos do que é hoje. Os crimes mais graves eram vistos com mais severidade e frequentemente punidos com a morte. O domingo em Iowa tinha muito em comum com a sexta-feira no Cairo.

Nos cem anos que se seguiram, as nações cristãs se tornaram mais seculares. O modo de vida norte-americano fazia propaganda do álcool e das drogas, além de tolerar aventuras sexuais e a rebeldia dos jovens. Os muçulmanos mais devotos rejeitavam o espírito mercantilista, o consumismo e a moral frouxa que o Ocidente ostentava através da televisão, dos filmes de Hollywood e do estilo de vida das estrelas pop internacionais. O Islã deplorava as rápidas mudanças do Ocidente, e o Ocidente deplorava a lentidão das mudanças no Islã. O Ocidente lamentava a falta de liberdades pessoais do Islã, e o Islã lamentava o que o Ocidente havia feito com a própria liberdade.

Nas décadas seguintes, o Islã vicejou, Hábil em conservar seus fiéis, empenhava-se em atrair mais partidários. As crianças muçulmanas abraçavam a religião dos pais - e as famílias costumavam ser numerosas. Em 1893, os muçulmanos representavam cerca de 12% da população global; exatamente um século mais tarde, esse índice havia chegado aos 18%. Era a segunda religião em número de fiéis, maior que o número de hinduístas e budistas somados. Os cristãos ainda eram mais numerosos, com um terço da população do planeta, mas sua liderança estava sob ameaça.

A resistência do Islã em seus países tradicionais foi ajudada pelo êxito alcançado em outras terras. Os muçulmanos espalharam sua fé por meio de movimentos migratórios. Em 1900, os viajantes que visitavam as cidades em efervescência - Paris, Chicago, Buenos Aires ou Dunedin - encontravam sinagogas com facilidade, mas nenhuma mesquita. Nos Estados Unidos, os muçulmanos eram raros, mas, no final do século, sua população crescia mais rapidamente que a dos judeus. Ao mesmo tempo, em várias cidades inglesas, as mesquitas atraíam tantos fiéis quanto as igrejas cristãs. Em Paris, enquanto as igrejas católicas permaneciam em silêncio, as mesquitas estavam lotadas.

A grande maioria dos muçulmanos vivia de maneira virtuosa e convivia pacificamente com outros credos. Mas em algumas regiões do Islã o zelo religioso excessivo voltava-se para a militância política. No Irã, milhões de muçulmanos rejeitavam o próprio xá e esperavam sua queda. Seu ansioso oponente era Ruhollah Khomeini, o barbudo que ficou conhecido como aiatolá, palavra cujo significado é sinal de Deus. Khomeini fez todas as suas pregações em segurança - durante a década de 1960, no Iraque e, no final da década de 1970, na França. Depois da deposição do xá, em janeiro de 1979, e de sua ida para o exílio, o aiatolá retornou ao país, criando uma república teocrática na qual a pena de morte era largamente empregada em vários casos de dissidência política e religiosa, bem como de crimes comuns.

Com seu fervor e eloquência, ele reunia grandes multidões a céu aberto. Denunciou os Estados Unidos como "o grande satã". Reagindo ao estímulo de seu líder, fanáticos iranianos sequestraram 66 norte-americanos que viviam no país, mantendo quase todos como reféns por mais de um ano. Aproveitando os distúrbios, o vizinho Saddam Hussein, do Iraque, invadiu o Irã. Essa guerra entre as duas potências islâmicas, uma sunita e outra xiita, foi considerada uma das cinco mais mortais de todos os tempos.

Próximo post: O Islã no século XX (Parte III): Fervor e petróleo no deserto

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 294-295 e 297.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Islã no século XX (Parte I)

A riqueza oriunda do petróleo


Símbolo do Islã, Produtor

A Lua, após décadas de escuridão, brilhava mais uma vez sobre países muçulmanos. Na década de 1960, nações que pouco tempo antes haviam se tornado independentes desfraldavam cada vez mais a bandeira na qual se via a Lua crescente e a sombra verde do Islã. Os primeiros triunfos aconteceram no Paquistão, lar da maioria dos muçulmanos indianos, e na república da Indonésia, onde se concentrava a maior população muçulmana do mundo. Nasser, no Egito, e Sukarno, na Indonésia, representavam a nova convicção que se fazia visível em alguns países islâmicos. Apenas vinte e cinco anos antes, quase todos os países islâmicos haviam estado sob o domínio da Europa cristã.

Pela primeira vez em quinhentos anos, as nações islâmicas ocupavam uma posição de barganha em regiões importantes. Tais nações jamais haviam sido exploradoras diligentes de minérios, mas, por acaso, os países que se haviam convertido ao islamismo mais de mil anos antes possuíam a maioria dos campos de petróleo conhecidos. Os ocidentais encontraram o petróleo e os islâmicos se regozijaram, ficando com grande parte dos rendimentos. O Oriente Médio, a África do Norte, a Nigéria e a Indonésia possuíam, ao todo, mais da metade das reservas mundiais de petróleo. Ao mesmo tempo, o rápido declínio no nível das reservas dos Estados Unidos, até então principal produtor do mundo, beneficiou ainda mais os países islâmicos. Outra mudança abarrotou os cofres muçulmanos: na década de 1960, o petróleo se tornava a principal fonte de energia, ultrapassando o carvão.

Em 1973, os principais produtores de petróleo, liderados pelos árabes, aumentaram vertiginosamente o preço do produto, além de impedirem que fosse levado para nações que apoiavam Israel. Com o petróleo atingindo preços recordes, o Oriente Médio foi inundado pelos lucros. Magnatas árabes se tornaram proprietários de algumas das mansões inglesas outrora habitadas por seus antigos dominadores. Muçulmanos começaram a fazer parte da lista das famílias mais ricas do mundo. O Islã se espalhara entre os países mais pobres do globo, mas, pela primeira vez, em séculos, também estava presente em alguns dos mais ricos.

Próximo post: O Islã no século XX (Parte II): Divergências entre muçulmanos e cristãos

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 293-294.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O mundo mediterrâneo às vésperas das Cruzadas 1: o mundo islâmico

“Já havia muito tempo que essas duas irmãs, essas duas metades da humanidade, a Europa e a Ásia, a religião cristã e a muçulmana, tinham-se perdido de vista, quando foram postas face a face pela Cruzada e olharam uma para a outra. O primeiro olhar foi de horror”. 
(Jules Michelet, Histoire de France)


Batalha entre cruzados cristãos e cavaleiros árabes, artista desconhecido.

Ao final do século XI, o espaço mediterrâneo dividia-se entre o mundo islâmico, o Império Bizantino e o mundo cristão ocidental. O Oriente muçulmano e bizantino, governado por verdadeiros Estados, era sede de uma civilização secular brilhante, enquanto o Ocidente cristão mal acabara de sair da barbárie em que mergulharam as invasões e o retrocesso econômico.


[O mundo islâmico, um imenso espaço de unidade incontestável] Estendendo-se da Índia à Espanha, sua unidade era extraída da preeminência do Islã e da língua árabe. Era igualmente caracterizado pelo número e pelo esplendor de suas cidades, especialmente na Síria e na Mesopotâmia, onde a tradição da vida urbana remontava a milênios. Todas essas cidades apresentavam o mesmo aspecto, tendo no centro uma mesquita e mercados e, nas capitais, um palácio para o governador. Tinham muralhas e uma cidadela. Populosas e industriosas, sedes de comércio internacional ou distantes de centros de intercâmbios regionais, elas figuravam entre as maiores cidades do mundo e podiam ter até centenas de milhares de habitantes. Cenários da vida da elite, afirmavam desde sempre um desejo de autonomia com relação ao governo central e a seu representante local.

[Depois da morte de Maomé, todos os territórios dominados pelo Islã foram reunidos sob a autoridade de um chefe religioso e político - o califa] Depois de um apogeu sob os omíadas e sob os primeiros abássidas, o califado conheceu um longo declínio político. Sofreu os efeitos da secessão das regiões mais distantes e foi obrigado a enfrentar a contestação de sua legitimidade por dissidentes no seio do islamismo. Aos sunitas, que defendiam a legitimidade do califado abássida, se opunham os caridjitas e sobretudo os xiitas. Estes últimos estimavam que o califado deveria ser devolvido a um descendente de Ali, genro do profeta, mas se dividiam em ismaelitas e duodecimanos. Nos séculos X e XI, os ismaelitas eram os mais poderosos. Na África do Norte, os fatímidas, que eram ismaelitas, se proclamaram califas, conquistaram o Egito e fundaram O Cairo – “A Vitoriosa” -, e depois tomaram caminho de Bagdá para derrubar os abássidas. Mas, não conseguindo ultrapassar Alepo, se contentaram em alcançar a Síria meridional.

A essa contestação radical do poder se acrescentaram imposição de tutela ao califado abássida pelos vizires bouyidas que prestavam obediência aos xiitas, a intervenção de mercenários na sucessão do califado e mesmo as dissidências regionais nas vizinhanças de Bagdá, na Síria do Norte e no norte da Mesopotâmia. O califado foi ficando, cada vez mais, acantonado em um papel puramente espiritual.

[A entrada dos turcos seljúcidas em Bagdá, em 1055, parece dar início à reconstituição da unidade islâmica] Os turcos, que viviam como nômades nas planícies da Eurásia, foram convertidos ao islamismo no século X. Dentre eles, os seljúcidas adquiriram importância particular por meio das lutas conduzidas contra os principados muçulmanos do norte do Irã. Toghrul-Beg, seu chefe, se impôs ao califa de Bagdá, e outorgou a si mesmo o título de sultão, que lhe dava autoridade temporal, tendo como missão o restabelecimento da unidade do califado e a predominância do sunismo. O principal objetivo era, portanto, a derrubada do califado fatímida. Entretanto, os sultões não detinham o controle total de suas tropas, pois as tribos turcomanas, cujas tendências à autonomia eram acentuadas, estavam interessadas sobretudo em pilhar e se apropriar dos territórios percorridos por suas tropas. Sob este ponto de vista, a Síria e a Mesopotâmia absolutamente não lhes agradavam, uma vez que era proibido efetuar operações de pilhagem contra muçulmano e o clima tórrido dessas regiões não era adequado para seus rebanhos.

[Os turcos obtém uma vitória importante sobre Bizâncio em Mantzikert, em 1071] A Anatólia bizantina, em compensação, era um lugar ideal. Além disso, o sultão Alp Arslan precisou comandar contra o Império Bizantino – que as incursões nascentes dos turcomanos obrigaram a uma contra-ofensiva – uma grande batalha em Mantzikert. Traído por seus inimigos internos, o imperador Romano IV Diógenes foi completamente derrotado e feito prisioneiro. Alp Arslan, que não desejava se deixar desviar de seu objetivo por uma guerra contra Bizâncio, libertou o prisioneiro imperial. Enquanto isso as tribos turcomanas, a favor da guerra civil em que soçobraria Bizâncio, desferraram-se contra toda a Anatólia até o mar de Mármara.

[Mas os seljúcidas fracassaram em sua tentativa de unificação] Os sultões conseguiram reunificar sob sua autoridade o califado abássida, mas não tiveram sucesso em reduzir o califado fatímida e, sobretudo, depois da morte de Malik Shah, sucessor de Alp Arslan, em 1092, o sultanato, por sua vez, começou a se fragmentar. Para sucedê-lo, uma amarga competição opôs seus irmãos e seus filhos. A Síria e a Alta Mesopotâmia dependiam nominalmente do sultanato da Pérsia, cuja sede ficava em Bagdá e coube a Barkyaruq. Nas principais cidades foram implantados emirados efetivamente autônomos e governados por atabegues, termo turco designando os tutores dos príncipes seljúcidas, geralmente chefes militares. Em parte alguma a fragmentação foi tão grande quanto na Alta Mesopotâmia e na Síria: Alepo e Damasco pertenciam respectivamente, a sobrinhos de Malik Shah; Trípoli era governada por um civil, o cádi; Sheizar, pela dinastia árabe dos munqidhitas; Mosul, por Kerbogha; e a região de Diyar Bakr, pelos ortoquidas. No final do século XI, instalou-se a seita ismaelita dos Assassinos nas montanhas de Ansariye. Mais que por suas crenças, eles se caracerizavam por sua profunda hostilidade ao sunismo e pela prática do assassinato. Os adeptos observavam uma obediência absoluta ao grão-mestre. Abrigados em verdadeiros ninhos de águia, conseguiram preservar sua independência.

[Os turcos não colonizaram a Síria, cuja população permaneceu árabe] Etnicamente, eles eram uma minoria que pouco a pouco foi assimilada pelo elemento árabe. Suas divisões, portanto, se sobrepuseram a outras, mais antigas, de ordem regional: a oposição entre a Síria do litoral e a Síria interior, entre Alepo, Damasco e a Palestina. Oposição também de ordem confessional: os sunitas dominavam a Síria do Sul e a Palestina; os xiitas, a Síria do norte, onde recebiam reforço dos Assassinos. Os drusos, presentes no Líbano, constituíam uma seita derivada do cisma: não acreditavam na morte, em 1021, do sexto califa fatímida, Al-Hakim, que havia proclamado sua divindade. Ainda se mantinham numerosos os elementos não muçulmanos na população e, dentre eles, judeus e cristãos se beneficiavam de um estatuto particular: "povos da Bíblia", eram considerados como sendo crentes do mesmo deus, mas faltava-lhes a revelação suprema e derradeira, a de Maomé. Os judeus se disseminaram nas cidades da Síria do Norte e da Palestina, mas se reagruparam sobretudo em Jerusalém. Os cristãos mais numerosos são os sírios ortodoxos, ou seja, jacobitas, que são monofisistas: podemos encontrá-los tanto nas regiões do campo como nas cidades, particularmente na Síria do Norte e na Alta Mesopotâmia. Os gregos ortodoxos, na verdade sírios que foram helenizados na época bizantina, mas que se tornaram cada vez mais arabizados, quase não aparecem nas cidades. E, finalmente, encontramos maronitas no monte Líbano, monges georgianos, armênios gregorianos, também monofisistas.

Esta diversidade da Síria produziu dois efeitos opostos. De um lado, ela constituiu uma fraqueza, pois talvez pudesse ser causa de divisão, mas de um outro lado, tornava indispensável a coexistência com a diferença e permitia contatos e associações que, em outros lugares, na mesma época, eram impossíveis. Não se pode, portanto, ficar surpreendido com o fato de que, depois de uma expansão ideológica e conquistadora inicial, o Islã tenha renunciado ao jihad, ou à "guerra santa", nesta Síria que a tradição considerava como a terra do jihad.

TATE, Georges. O Oriente das Cruzadas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 15-24.