"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Como se perdem documentos?

Perderam-se numerosos documentos no decurso dos séculos, devido a várias causas: o material empregado era frequentemente pouco duradouro; foram destruídos pelas chamas ou pelos ratos e outros bichos; arruinados por ódio, fanatismo, negligência, ou ignorância; aniquilados por poderem comprometer as classes governantes ou a reputação nacional; faziam o resto catástrofes metereológicas, guerras e revoluções.

O descuido e a ignorância são fatores importantes na destruição de documentos privados e, infelizmente, também de documentos públicos e oficiais nos países onde ainda não existe uma forte tradição histórica. Toda pessoa de certa idade sabe que de vez em quando se torna necessária uma limpeza geral do nosso arquivo pessoal, da qual pode ser vítima também uma carta ou uma anotação eventualmente importante para um futuro historiador. Os documentos públicos, nos países civilizados, estão geralmente bem guardados, mas também eles não estão ao abrigo da ação do tempo, de incêndios, de guerras e revoluções. Foram lastimáveis as perdas de fontes históricas nas épocas de grandes perturbações políticas e sociais: a invasão dos bárbaros no Império Romano; a Queda de Constantinopla; as lutas religiosas nos tempos da Reforma; as guerras civis e externas da Revolução francesa e da época napoleônica; as duas guerras mundiais. Na primeira guerra mundial foi destruída, por exemplo, grande parte da biblioteca de Lovaina; na segunda foi uma das vítimas a célebre biblioteca do Monte Cassino.


O último dia de Pompeia, Karl Briullov

A atos de vandalismo intencional, como costumam ocorrer em tempos de guerras e revoluções, acrescem os chamados "atos herostráticos", atos de destruição proposital feitos por pessoas com o fim de se tornarem célebres. Heróstrato incendiou em 356 a.C., na noite do nascimento de Alexandre Magno, o templo de Diana em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo: não vendo meios de celebrizar-se com um ato heroico, tentou imortalizar-se com um crime horrendo. Nos tempos modernos verificaram-se casos semelhantes, por exemplo em Florença com o vaso de François, e em Londres com o vaso de Portland, mas, ao contrário de Heróstrato que atingiu o seu alvo, os criminosos contemporâneos, em geral, não conseguem perpetuar o seu nome com esses atos anormais. Houve também outros casos de destruição deliberada, originados por desespero ou por ressentimento contra a sociedade, por exemplo no Louvre em Paris.

BESSELAAR, José van den. Introdução aos estudos históricos. São Paulo: EPU, 1973. p. 140-1.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Anúncios nos jornais uruguaios de 1840



Vende-se:

- Uma negra meio boçal, da nação cabinda, pela quantidade de 430 pesos. Tem rudimentos de costurar e passar.

- Sanguessugas recém-chegadas da Europa, da melhor qualidade, por quatro, cinco e seis vinténs uma.

- Um carro, por quinhentos patacões, ou troca-se por negra.

- Uma negram de idade de treze a catorze anos, sem vícios, de nação bangala.

- Um mulatinho de idade de onze anos, com rudimentos de alfaiate.

- Essência de salsaparrilha, a dois pesos o frasquinho.

- Uma primeiriça com poucos dias de parida. Não tem cria, mas tem abundante leite bom.

- Um leão, manso feito um cão, que come de tudo, e também uma cômoda e uma caixa de embuia.

- Uma criada sem vícios nem doenças, de nação conga, de idade de uns dezoito anos, e além disso um piano e outros móveis a preços cômodos.

(Dos jornais uruguaios de 1840, vinte e sete anos depois da abolição da escravatura)

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 77.

terça-feira, 8 de março de 2016

Nagasáqui, 9 de agosto de 1945

Um relatório japonês sobre as bombas caracterizou Nagasaki "como um cemitério sem uma única lápide de pé". Cpl. Lynn P. Walker, Jr.

Às 11h02 min do dia 9 de agosto de 1945, explodiu sobre Nagasáqui a segunda bomba atômica lançada sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial (a primeira fora lançada antes sobre Hiroshima). Paulo Nagai, médico japonês que estava em Nagasáqui na hora da explosão, ficou ferido, mas ainda assim prestou os primeiros socorros aos sobreviventes. O relato a seguir é de sua autoria:

"Todos me chamavam ao mesmo tempo: eram doentes do hospital que tinham sobrevivido, ou melhor, não tinham ainda morrido... Como a explosão se dera na hora de maior movimento, na hora que funcionava o ambulatório para doentes externos, os corredores, as salas de espera, os laboratórios, eram um amontoado de corpos, corpos nus de feridas expostas, corpos nus com a pele em tiras, corpos nus que pareciam de argila pela cinza que aderira a eles. Espetáculo tão tremendo, que não se podia imaginar que se tratasse de seres humanos, nem que semelhante quadro pudesse jamais existir... Dessa alucinante massa de carne, arrastavam-se lentamente aqueles em que existia ainda um sopro de vida; cercavam-me, agarravam-me as pernas: 'Salve-me, doutor' - gemiam eles. Alguns, impossibilitados de falar, exibiam apenas as suas chagas.

[...] Vinte minutos tinham se passado depois da explosão. Toda a região de Urakami ardia em grandes labaredas. O próprio centro do hospital já pegara fogo. Somente a ala direita, ao longo da colina, permanecia intacta. Mas não tínhamos mais material ou ajudantes; era deixar se propagar o incêndio e contemplar o espetáculo medonho: corpos nus cambaleando, tropeçando, continuavam a escalar a colina para fugir da fornalha. Duas crianças passaram, arrastando o pai morto. Uma mulher jovem corria, apertando contra o peito o filho decapitado. Um casal de velhos, mãos dadas, subiam juntos, lentamente. Outra mulher, com as vestes repentinamente ateadas, rolou pela colina abaixo como uma bola de fogo. Um homem enlouquecera e dançava em cima de um telhado, envolto em chamas. Alguns fugitivos voltavam-se a cada passo, enquanto outros caminhavam firme para a frente, apavorados demais para voltar. [...] Por detrás desta gente, as labaredas avolumadas aproximavam-se cada vez mais. Felizes ainda eram esses 10% que escaparam do inferno; os outros, presos e soterrados sob escombros, morriam queimados vivos.

[...] A pressão imediata foi tamanha que, no raio de um quilômetro, todo ser humano que se encontrava do lado de fora, ou num local aberto, morreu instantaneamente ou dentro de poucos minutos. A quinhentos metros da explosão, uma jovem mãe foi encontrada com o ventre aberto, seu futuro bebê entre as pernas. Muitos cadáveres perderam suas entranhas. A setecentos metros, cabeças foram arrancadas e, por vezes, os olhos saltaram das órbitas. Alguns, em consequência de hemorragias internas, estavam brancos como folhas de papel, os crânios fraturados deixavam destilar o sangue pelos ouvidos. O calor chegou a tal violência que, a quinhentos metros, os rostos foram atingidos a ponto de ficarem irreconhecíveis. A um quilômetro, as queimaduras atômicas tinham dilacerado a pele, fazendo-a cair em tiras, dando-lhe um tom marrom avermelhado e deixando à vista a carne sangrenta. A primeira impressão não foi, segundo parece, a de calor, mas a de dor intensa, seguida de frio excessivo. A pele levantada era frágil e saía facilmente. A maioria das vítimas morria com rapidez."

NAGAI, Paulo. Os sinos de Nagasáqui. São Paulo: Flamboyant, 1956. In: DIAS JÚNIOR, José Augusto; ROUBICEK, Rafael. O brilho de mil sóis: história da bomba atômica. São Paulo: Ática, 1994. p. 48-9.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A Bíblia

Epístolas paulinas, século III

"Mas o Senhor está assentado perpetuamente, já preparou o seu tribunal para julgar. Ele mesmo julgará o mundo com a justiça; julgará os povos com retidão. O Senhor será também um alto refúgio para o oprimido, um alto refúgio em tempos de angústia. E em ti confiarão os que conhecem o teu nome; porque tu, Senhor, nunca desamparaste os que te buscam".
 (Salmos, 9: 8, 9, 10)

[...]


A palavra documento vem do latim, a língua falada pelos antigos romanos. Eles chamavam de documentum o objeto que transmitia uma informação ou que ensinava alguma coisa. Hoje, consideramos documento tudo o que é registrado pelo ser humano por escrito ou por meio de sons ou imagens. Assim, um texto, uma escultura, uma música, uma fotografia, um filme, um objeto de uso doméstico, uma ferramenta são documentos. Eles revelam os costumes, os valores e os acontecimentos da história do ser humano.

A Bíblia é um dos documentos escritos mais antigos que existe. E o mais divulgado e conhecido pela humanidade ocidental, pois é a base da religião judaica e da cristã. Mas, como todo documento histórico, precisa ser investigado. A parte mais antiga da Bíblia chama-se Velho Testamento. Nele encontramos a história da criação do mundo e da humanidade por Deus (no Gênesis), a saída dos hebreus do Egito e sua longa viagem até a Palestina (no Êxodo), a história dos reis hebreus (em Reis) e outras tantas.

[...]

Os textos do Velho Testamento não foram escritos como um único livro e nem em uma única época. Eles são uma coletânea de textos de diversos autores que viveram e escreveram em diferentes momentos entre os séculos X e II a.C. Não se conhecem as datas exatas, pois nenhum dos livros traz o ano em que foi escrito e poucos trazem o nome de seus autores.

Durante séculos, a Bíblia não tinha o formato que hoje conhecemos, com todos os seus livros reunidos e encadernados. Seus textos eram copiados em rolos de papiro, pergaminho ou couro, cada um com um trecho do texto original. Para que coubesse todo o texto, era precisa emendar o papiro ou o pergaminho. Alguns chegavam a ficar com seis a oito metros de comprimento. Eram guardados enrolados e seu transporte devia ser muito incômodo.

[...]

No espaço de oitocentos anos de sua criação, os textos originais do Velho Testamento sofreram perdas, alterações, acréscimos e supressões. Passaram pelas mãos de muitos autores, copistas e tradutores. Essas modificações eram feitas de acordo com o público ao qual o texto se dirigia. A Bíblia é um documento religioso e repleto de exemplos morais e de normas de conduta. Muitas vezes, para reforçar essas lições, o copista ou o tradutor retocava a linguagem original. Por exemplo, foi assim que apareceu em uma versão grega a palavra pecado, que não existia em nenhum texto hebraico.

O Velho Testamento foi escrito originalmente, em sua maior parte, em hebraico antigo e alguns poucos trechos em aramaico. Depois foi traduzido para o grego e daí para as línguas atuais. Nesse caminho de tantas traduções, será que o tradutor usou as palavras corretas? Observe estes exemplos:

"E Deus criou uma criatura terrestre".
"E Deus criou o ser humano".
"E Deus criou o homem".

As três frases trazem mensagens diferentes. Tanto os judeus quanto os católicos e os protestantes estão sempre procurando estudar a Bíblia e descobrir cada vez mais o sentido de sua mensagem.

[...]

A Bíblia registrou relatos feitos oralmente e passados de geração para geração durante séculos. Sua linguagem está recheada de palavras da vida cotidiana, com todos os seus exageros, imprecisões e simbolismos. Assim, por exemplo, quando descreve o dilúvio, o autor afirma que ele foi "universal". Na linguagem de hoje, universal significa todo o cosmo, isto é, o nosso planeta, os astros e as galáxias. Seria difícil imaginar uma enchente nessas proporções. Então, a Bíblia mentiu? Não. Na visão dos homens daquela época, o lugar onde eles viviam era o seu universo: o restante, eles não conheciam e, portanto, não existia para eles.

As palavras da Bíblia são empregadas com sentido aproximado, muitas vezes simbólico. No dia-a-dia nós também usamos muitas metáforas e hipérboles. Por exemplo, quando você fala "todo o mundo estava na festa de fulano", ninguém vai entender literalmente que "todos os habitantes do planeta estavam na festa..." (que festa, hein!). Para nós, é claro que "todo o mundo" significa "muita gente". Agora, imagine essa linguagem lida daqui a alguns séculos. Como ela será compreendida?

Por isso, os textos bíblicos precisam ser interpretados, para serem bem compreendidos. E isso ocorre com qualquer documento escrito. É necessário analisá-lo de acordo com a linguagem da época, com o público ao qual era destinado e com a situação histórica em que ele foi produzido.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 130-3.

sábado, 28 de novembro de 2015

O diário de Anne Frank

Desenho feito por um jovem judeu num campo de concentração. “Tocar a cerca significava morte imediata, ainda assim, as pessoas compartilhavam pão, um sorriso… uma lágrima”, Alfred Kantor, 17 anos.

"Sexta-feira, 9 de outubro de 1942.


Hoje só tenho notícias tristes e deprimentes para lhe contar. Nossos amigos judeus estão sendo levados embora às dúzias. Essa gente está sendo tratada pela Gestapo sem um mínimo de decência. São amontoados em vagões de gado e enviados para Westerbork, o grande campo de concentração para judeus, em Drente. Westerbork parece ser terrível: um único lavatório para centenas de pessoas e muito poucas privadas. Não há acomodações separadas para homens e mulheres e todos têm de dormir juntos. [...]

Fugir é impossível; os internados ficam marcados pela sua cabeça raspada ou pela sua aparência judia.

Se é tão ruim na Holanda, imagine o que não será nas regiões bárbaras e distantes para onde são enviados. Sabemos que a maioria é assassinada. A rádio inglesa fala de morte na câmara de gás.

[...] Boa gente, os alemães! E pensar que eu já fui alemã! Não, Hitler tirou a nossa nacionalidade há muito tempo. Na verdade, alemães e judeus são os maiores inimigos do mundo.

Judeu na janela, Felix Nussbaum

 Quarta-feira, 3 de maio de 1944.

[...] Você bem pode imaginar que não são poucas as vezes que nos perguntamos, desesperados: 'De que adianta esta guerra? Por que não se pode viver em comum e em paz? Para que esta destruição?'

A pergunta é compreensível, mas ainda não encontramos resposta que satisfaça. Sim, para que fabricar aviões cada vez mais gigantescos, bombas ainda mais poderosas e, ao mesmo tempo, casas pré-fabricadas, para reconstrução? Por que gastar milhões diariamente, na guerra, enquanto ninguém dispõe de um centavo para serviços médicos, para auxiliar artistas e gente pobre?

[...] Não acredito que somente os grandes, os políticos e os capitalistas sejam responsáveis pela guerra. Oh, não! O homem comum é tão culpado quanto eles, senão os povos do mundo já se teriam insurgido, revoltados.

Jovem judeu na rua, Felix Nussbaum

 Sábado, 15 de julho de 1944.

[...] É muito mais duro para nós, jovens, manter a firmeza e as opiniões em tempos como estes, em que os ideais são destruídos e despedaçados, as pessoas, põem à mostra seu lado pior e ninguém sabe mais se deve crer na verdade, no direito e em Deus. [...] Esta é a maior dificuldade destes tempos: surgem dentro de nós ideais, sonhos e esperanças, só para encontrarem a horrível verdade e serem despedaçados.

Realmente, é de admirar que eu não tenha desistido de todos os meus ideais, tão absurdos e impossíveis eles são de se realizar. Conservo-os, no entanto, porque apesar de tudo ainda acredito que as pessoas, no fundo, são realmente boas. Simplesmente não posso construir minhas esperanças sobre alicerces formados na confusão, miséria e morte. Vejo o mundo transformar-se gradualmente em uma selva. Sinto que estamos cada vez mais próximos da destruição. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus sei que tudo acabará bem, toda esta crueldade desaparecerá, voltando a paz e a tranquilidade.

Enquanto isso, é necessário que mantenha firme meus ideais, pois talvez chegue o dia em que os possa realizar.

Sua Anne."

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Rio de Janeiro: Record, s.d. p. 43-4, 187, 217-8.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O olhar de Debret sobre a sociedade escravista

No Rio de Janeiro e em todas as cidades do Brasil, é costume, durante o face a face do jantar conjugal, [...] a mulher se distrair com seus negrinhos, que substituem a família quase extinta dos pequenos carlindogues da Europa. Esses pestinhas, mimados até a idade de cinco ou seis anos, são em seguida entregues à tirania dos outros criados, que os domesticam a chicotadas e os formam, assim, para compartilhar com eles os tormentos e os desgostos do serviço. (Imagem 1)

(Imagem 1) O jantar, Jean-Baptiste Debret

[...] entretanto [o gongá], deixa de fora a ponta do chicote, um enorme açoite inteiramente de couro, instrumento de castigo com que os senhores ameaçavam seus escravos a toda hora. (Imagem 2)

(Imagem 2) Uma senhora brasileira em seu lar, Jean-Baptiste Debret

[...] a necessidade de manter na disciplina uma numerosa população de escravos forçou a legislação portuguesa a incluir, em seu código penal, o castigo da chibata, aplicável a todo escravo culpado de falta grave com respeito a seu senhor...

[...]

Assim, quase todo dia, entre nove e dez horas da manhã, vê-se sair a fila acorrentada de negros a serem castigados, amarrados dois a dois pelo braço, conduzidos sob a escolta da patrulha da polícia até o lugar indicado para a aplicação; pois há pelourinhos fincados em todas as praças mais frequentadas da cidade, para que se alternem os locais em que se aplica essa punição, depois da qual os açoitados são devolvidos à prisão. (Imagem 3)

(Imagem 3) Negro no tronco, Jean-Baptiste Debret

O desenho representa a loja opulenta de um sapateiro português, castigando seu operário escravo; sua mulher mulata, embora ocupada em aleitar o filho. não resiste ao prazer de ver um negro ser castigado. (Imagem 4)

(Imagem 4) Sapataria, Jean-Baptiste Debret

Textos de Jean-Baptiste Debret, extraídos de STRAUMANN, Patrick. (org.). Rio de Janeiro, cidade mestiça. Nascimento da imagem de uma nação. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 15, 61, 97 e 106.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Documento: Combate à vagabundagem na Idade Média

Os mendigos (Os aleijados), Pieter Bruegel, o Velho

"O ano dessa ordenação do rei da França, 1351, está muito próximo do ano em que se iniciou a Peste Negra, a qual teria dizimado cerca de um terço da população europeia. O século XIV foi marcado por uma profunda crise, com a desvalorização da moeda e grandes falências de mercadores e banqueiros. O início da crise é anterior à Peste Negra, mas ela veio agravar a situação já calamitosa. Os motins, as revoltas, o banditismo e a mendicância atormentavam as elites e preocupavam as autoridades.

As medidas do rei João estão ligadas a essa situação de crise. É comum os grupos dominantes tentarem conter os efeitos das crises reprimindo as principais vítimas delas". (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 66.)

João, pela graça de Deus, Rei da França...


1. Porque várias pessoas, tanto homens quanto mulheres, mantêm-se em ociosidade pela cidade de Paris e por outras cidades [...] e não querem expor os seus corpos a fazer qualquer trabalho, antes vagabundeiam uns, e outros permanecem nas tabernas e bordéis; é ordenado que toda feitura de tal gente ociosa ou jogadores de dados ou cantores de rua ou vagabundos ou mendicantes, de qualquer estado ou condição que sejam, tendo ou não ofício, homens ou mulheres que sejam sãos de corpos e membros, se prontifiquem a fazer alguma tarefa de labor, com que possam a vida ganhar, ou evacuem a cidade de Paris e outras cidades [...] dentro de três dias a contar deste pregão. E, se após os ditos três dias aí forem encontrados ociosos, ou jogando dados, ou mendigando, serão presos e levados à prisão a pão, e assim mantidos pelo espaço de quatro dias; e quando tiverem sido libertados da dita prisão, caso sejam encontrados ociosos ou sem bens com que possam manter a vida, ou sem aval de pessoa idônea, sem fraude, para quem façam trabalhos ou prestem serviços, serão postos no pelourinho; e a terça vez serão assinalados na testa com ferro em brasa, e banidos dos ditos lugares.

2. Item, far-se-á empenho junto ao bispo, ou provisor de Paris, e junto aos religiosos jacobinos, franciscanos, agostinianos, carmelitas e outros, para que digam aos frades de suas ordens que, quando pregarem nas paróquias e noutras partes, e também os curas nas suas próprias pessoas, digam seus sermões que quem quiser dar esmolas não o façam a nenhuma pessoa sã de corpo e de membros, nem a pessoa que trabalho possa fazer, com que possa ganhar a vida; mas as dêem a gente cega, aleijadas e outras miseráveis pessoas.

3. Item, que se diga a quem guarda e governa os hospitais ou casas de misericórdia que não se dêem albergue a tais vagabundos, ou tais pessoas ociosas, se não forem aleijados ou doentes passantes pobres, sequer por uma noite.

4. Item, os prelados, barões, cavaleiros, burgueses e outros digam aos seus esmoleres que nenhuma esmola dêem a tais vagabundos, sãos de corpo e de membros.

Ordenação de João, o Bom, promulgada em fevereiro de 1351. Ordenances dos reis de France. Citado por DUBY, Georges. A Europa na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1988. p. 115-8.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Os índios botocudos na visão dos cientistas alemães Spix & Martius

Família de índios botocudos atravessando um rio, Maximilian zu Wied-Neuwied

Johann Baptiste von Spix e Carl Friedrich von Martius foram dois cientistas alemães, o primeiro, zoólogo, e o segundo, botânico, que empreenderam uma longa viagem pelo Brasil entre 1817 e 1820. Suas minuciosas observações se transformaram em uma obra de três volumes, que hoje constituem uma importante fonte para os historiadores que estudam a época.

O fragmento reproduzido abaixo é extremamente revelador da visão que os europeus tinham das culturas indígenas. Não conseguiam ver nas maneiras de viver dos indígenas alternativas válidas de sociedade. O culturalmente diferente era considerado um sinal de selvageria, bestialidade, atraso.

Os botocudos mereceriam ser tratados como criminosos por "serem ciosos da sua liberdade". Ou perdiam a liberdade e eram integrados à "civilização" como trabalhadores úteis aos colonos e fornecedores de bens, ou seriam tratados como verdadeiras feras selvagens. (PEDRO, Antonio. LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 38.)

Família de botocudos em marcha, Jean-Baptiste Debret

Quando, no dia seguinte, cavalgamos pelo cerrado [...] fomos subitamente surpreendidos por um bando de índios nus, homens e mulheres, que vinham em completo silêncio pela estrada.

[...]

[...] era de horror a nossa impressão, à vista destes homens, que, na sua aparência feia, quase não têm traço de humanidade. Indolência, embotamento e rudeza animal estampam-se-lhes nos rostos quadrangulares, achatados, nos pequenos olhos esquivos; voracidade, preguiça e grosseria, patenteiam-se-lhes nos lábios inchados, na barriga, assim como em todo o torso troncudo e no andar de passos curtos.

[...]

Como depois soubemos, esses botocudos meio mansos do Rio Doce eram transferidos para as colônias do Rio Grande [atual Minas Novas] ou Belmonte [atual Jequitinhonha], a fim de se tornarem menos perigosos nas suas primitivas tabas e para que, depois de terem observado de perto o modo de vida dos colonos e suas instalações, teriam influência favorável sobre os companheiros da tribo, quando regressassem; estavam eles justamente em caminho, de volta para as suas matas preferidas.

[...]

Com presentes e trato bondoso e avisado, o comandante deste distrito [São Miguel, margem direita do Rio Grande] tem conseguido, até aqui, estabelecer relações entre esses selvagens, ainda hoje broncos e até aqui sempre hostis, e os portugueses. Foram fundadas diversas aldeias desses antropófagos, ao longo do rio, e já os botocudos começam a ocupar-se com a lavoura; eles trazem aos colonos, de tempos a tempos, ipecacuanha, papagaios domesticados, peles de onça etc. para permutar com utensílios europeus, e prestam serviços, como remadores, na navegação para a Vila de Belmonte. De fato, ciosos de sua liberdade, ainda não se submeteram aos portugueses [...] contudo, vê o filantropo, com prazer, o contínuo progresso desses filhos das selvas, que, ainda no começo deste século, eram, por decreto real, declarados fora da lei e inimigos do Estado, perseguidos pelas patrulhas e entradas, como feras, e capturados e condenados a dez anos de servidão, ou trucidados com crueldade sem precedentes.

[...]

[...] importa pacificar os botocudos, empregá-los como remadores nesses cursos d' água [...] e assim, pelo mais pacífico de todos os meios , o tráfego comercial, promover a sua civilização gradual.

SPIX & MARTIUS. Viagem pelo Brasil - 1817-1820. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. p. 55-6. v. 2.

domingo, 4 de outubro de 2015

O mundo bárbaro: os costumes

Breviário de Alarico, compilação de leis romanas do reino de Tolosa sob Alarico II (487-507 d.C.). Manuscrito latino, 803-814. Artista desconhecido

Em sua longa existência, o Estado Romano entrou em contato com os mais diversos povos. Muitos desses povos foram vencidos e passaram a fazer parte do Mundo Romano. Outros, no entanto, continuaram fora das fronteiras do Império Romano. Partindo da ideia de que Roma era sinônimo de Civilização, os romanos consideravam bárbaros todos os povos que deles viviam distantemente e falavam outras línguas que não o latim.

Dentre os povos julgados bárbaros pelos romanos sobressaíram os germanos, que, ao penetrarem em massa no Império Romano, contribuíram decisivamente para a formação da sociedade europeia. [...]

[...] Começavam novos tempos, porque a sociedade, resultante da interpenetração de romanos e germanos, evoluiu lentamente ao sentido do feudalismo. E essa transição do escravismo ao feudalismo processou-se do século V ao século X,

A origem dos germanos é discutida. No século III, viviam em terras situadas entre o Rio Reno, os Mares do Norte e Báltico, os Rios Danúbio e Vístula e os Montes Cárpatos: a chamada Germânia.

Seus costumes eram simples. Viviam em aldeias, sendo a caça importante atividade econômica. [...] Praticavam a agricultura, a criação de gado e a pilhagem, como atividade econômica complementar. Desconheciam a escrita, e o comércio era feito à base de trocas, embora muitos germanos, localizados próximos às fronteiras do Império Romano começassem a utilizar moedas. Seu artesanato era rudimentar.

A união de várias aldeias formava uma tribo. As tribos agrupavam-se em povos, como os visigodos, os ostrogodos, os alanos, os vândalos, os alamanos, os suevos, os saxões, os anglos, os jutos, os francos etc.

Em épocas recuadas, sua principal instituição política era a Assembleia dos Guerreiros, que, uma vez por ano, decidia da necessidade, ou não, de empreender uma expedição de guerra. Geralmente, elegia um chefe guerreiro, o chamado Koenig, que os romanos chamaram Rei. A continuidade das guerras permitiu que se consolidasse a autoridade dos Chefes Guerreiros ou Reis.

Sua religião era politeísta: adoravam inúmeros deuses, os quais se identificavam com as forças da Natureza. Odin ou Wotan era o senhor do Céu e deus da guerra e do fogo; Thor, o deus do trovão; Mon, a deusa Lua; Sunna, a deusa do Sol; Fréia, a deusa da primavera e do amor.

"Nas modernas línguas germânicas, o alemão e o inglês, os nomes de alguns dias originam-se dos nomes daquelas antigas divindades. Assim, domingo, em alemão, é Sunntag, e Sunday, em inglês, palavras que significam dia do Sol (Sunna); segunda-feira é Montag, em alemão, e Monday, em inglês, dia da Lua (Mon); sexta-feira é Freitag, em alemão, e Friday, em inglês, dia de Fréia."

Acreditavam os germanos que os deuses moravam no Valhala, para onde iriam os guerreiros valentes, mortos em combate. Para lá seriam conduzidos pelas Valquírias, deusas guerreiras que montavam cavalos alados.

A propósito, veja o depoimento de Amiano Marcelino (320-390), historiador romano, a respeito dos alanos:

"Os alanos são geralmente belos e garbosos. Seus cabelos puxam para louro; o olhar é antes marcial que selvagem. Na rapidez do ataque, nada ficavam devendo aos hunos [...] O gozo que os espíritos mansos e pacíficos encontram em um lazer espiritual, eles colocam nos perigos e na guerra. A seus olhos, o supremo bem é perder a vida em um campo de batalha. Morrer de velhice ou por um acidente é um opróbrio [vergonha], que eles cobrem de horríveis ultrajes. Matar um homem é um heroísmo para o qual não medem os elogios. O mais glorioso troféu é a cabeleira do inimigo escalpado. Serve de enfeite para o cavalo de guerra. Não se vê junto a eles nem templos nem santuário nem mesmo nicho coberto de palha. Uma espada nua, fincada na terra, segundo o rito bárbaro, torna-se o emblema de Marte. Honram-na devotadamente como a soberana das regiões que percorrem."

Não lhe parece que aquele autor romano se mostra claramente impressionado pelo culto da força e pelo caráter guerreiro dos alanos?

Também as palavras do historiador Tácito (54-130), no seu livro Costumes dos Germanos, revelam como o espírito guerreiro dos germanos impressionava a sociedade romana. Veja, a seguir, como a descrição dos vândalos apresenta este povo como verdadeiros cavaleiros da Morte:

"[...] São selvagens e aumentam sua selvageria natural, emprestando os socorros da arte e do momento. Seus escudos são negros, seus corpos, cobertos de pintura. Para combater, escolhem noites escuras. Só pelo horror e a sombra, que encobrem este exército fúnebre, levam o terror ao inimigo. Ninguém poderia suportar a visita estranha e como que infernal. Pois, em toda a batalha, os olhos são os primeiros vencidos."

Alguns desses povos se haviam convertido ao Arianismo, heresia do Cristianismo [...]. Seria mais um ponto de atrito com as populações que viviam dentro das fronteiras do Império Romano, que desmoronou diante das invasões dos séculos IV e V.

AQUINO, Rubim Santos Leão de. [et alli]. Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 110-11.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O mundo bárbaro: o fim do Império Romano

Invasão dos bárbaros ou Os hunos se aproximando de Roma, Ulpiano Checa

"Repara com que surpresa repentina a morte pesou sobre o mundo inteiro, quando a violência da guerra abateu os povos. Nem o solo rude dos matagais espessos ou das altas montanhas, nem a corrente dos rios, em seus turbilhões rápidos, nem o abrigo que a Natureza proporcionou as cidadelas, os muros, às cidades, nem a barreira formada pelo mar, nem as tristes solidões do deserto, nem as gargantas, nem mesmo as cavernas, sobre os quais pendem sombrios rochedos, puderam escapar às mãos dos bárbaros.

[...] Mas, que aproveita contar a morte de um mundo que desmorona, seguindo a lei ordinária de tudo o que perece? Que aproveita relembrar o número dos que morrem por todo o Universo, quanto tu mesmo vês teu último dia chegar a grandes passos? Quantos males podem causar as espadas, os edifícios que desmoronam, o fogo, o veneno, as torrentes de água? Quanta gente leva a perecer as guerras, a fome, o desencadear das epidemias, a morte, enfim, que, por caminhos diversos se apresenta igual para todos! [...] Em uma corrida [...] nossa vida termina faz precipitarem-se nossos últimos dias."

As palavras anteriores são da autoria de Orêncio, sacerdote e escritor romano, que viveu no século V. Não lhe parece que as palavras estão cheias de angústia e de insegurança? São elas o reflexo da crise, que muitos então viviam. Era o fim de uma época, destruída por forças que não se detiveram diante de nada. Nem obstáculos naturais, nem barreiras levantadas pelos homens do moribundo Mundo Romano conseguiram deter os invasores.

Estes invasores eram os povos bárbaros, como os romanos chamavam os germanos [...].


"As escassas informações existentes sobre os germanos primitivos chegaram até nós através do historiador romano Tácito e de achados arqueológicos, como desenhos em cavernas, gravuras em pedra, utensílios, armas, vestimentas." (HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 125)

"Sua ferocidade supera tudo. Por meio de um ferro, marcam com profundas cicatrizes as faces dos recém-nascidos [...] Têm um corpo grosso, os membros robustos, a nuca espessa. Suas espáduas largas tornam-nos assustadores [...] Os hunos não cozinham, nem temperam o que comem. Nutrem-se apenas de raízes silvestres ou de carne crua do primeiro animal que aparece [...] Entre eles não se usam casa, nem tampouco túmulos. Não encontraríamos nem mesmo uma cabana [...] Cobrem-se de um linho ou de peles de ratazanas do mato, cozidas entre si. Não possuem veste interior, nem roupa para visita. Uma vez que enfiaram a túnica de uma cor desbotada, não a deixam mais, até que ela caia de velha. Cobrem a cabeça com chapéus de abas caídas. Envolvem-se em peles de cabra as peludas pernas [...] A cavalo, dia e noite, é de lá que negociam suas compras e vendas. Não põem pé em terra, nem para comer nem para beber. Dormem reclinados sobre o magro pescoço de sua cavalgadura, onde sonham bem à vontade."

Que sensação lhe provocou a leitura do texto anterior, escrito, em fins do século IV, por Amiano Marcelino, historiador romano? Que sentiria você, se tivesse de enfrentar esse povo que, em seus velozes cavalos, avançava contra sua cidade?

É provável que também fosse tomado pelo mesmo terror vivido pelos romanos, quando souberam da aproximação ameaçadora dos hunos.

De onde vinham esses temíveis cavaleiros? Aos milhares, haviam partido de regiões da Ásia, fronteiriças à China, e iniciado uma caminhada que os levou à Europa. Vivendo da criação de cavalos e da pilhagem, eram nômades bastante primitivos.

Quando chegaram às terras da Europa Oriental, a crueldade dos hunos e a devastação por eles provocada acarretaram um grande deslocamento de povos. Fugindo dos hunos, germanos empurraram-se uns aos outros, acabando por invadir as fronteiras do Império Romano (século IV).

Aos milhares, os visigodos atravessaram o Rio Danúbio, acreditando que estariam protegidos no interior do Império. Com as autoridades romanas fizeram um acordo: protegeriam as fronteiras contra outros invasores, recebendo em troca alimentos, terras e uma elevada soma em dinheiro. Tornaram-se então, federados do Império, prática utilizada, desde o século III, pelos Imperadores romanos: como as legiões romanas eram insuficientes para guarnecer as fronteiras, faziam um tratado (foedus) com um chefe bárbaro, tornando-o aliado ou federado.

Como as autoridades romanas não respeitaram os compromissos assumidos, os visigodos revoltaram-se. Começaram a saquear as cidades dos Bálcãs. O Exército Romano, que tentou contê-los, foi derrotado em Andrinopla (378).

Em 406, vândalos, alanos e servos, em número não calculado, cruzaram o Rio Reno e invadiram a Gália. Também fugiam dos hunos, mas provocaram o pânico e a destruição por onde passaram. Enquanto os suevos e os alanos permaneceram na Península Ibérica como federados, os vândalos deslocaram-se para o Norte da África, onde fundaram seu Reino.

A desagregação do Império Romano acelerou-se com novas invasões:

* os borgúndios também ultrapassaram o Reno e se localizaram a Leste da Gália;
* os saxões e anglos atravessaram o Canal da Mancha e dominaram a Bretanha (atual Inglaterra).

Em meio à crise provocada por tantas devastações, pareceu a muitos habitantes do Império que o fim do mundo estava próximo. E o temor aumentou, quando se espalhou a notícia de que Roma, a antiga capital, fora saqueada pelos visigodos.

O depoimento de São Jerônimo [...] revela o desespero causado pelo ataque a Roma.

"Chega-nos do Ocidente um rumor aterrador, Roma é atacada. Os cidadãos resgatam a vida a preço de ouro [...] Depois de terem perdido seus bens, ainda é preciso que percam a vida. Minha voz se estrangula e as convulsões me interrompem, enquanto dito estas palavras. É conquistada a cidade que conquistou o Universo."

Prosseguindo seu avanço devastador, os visigodos abandonaram a arruinada Península Italiana, invadiram e pilharam a Gália, indo fixar-se na Península Ibérica, onde já viviam alanos e suevos.

Parecia que a paz retornara ao Ocidente.

"A ilusão logo se desfez, pois os hunos, chefiados por Átila (439-453), retiraram-se de terras da atual Hungria, devastaram os Bálcãs e, em troca de elevada soma em dinheiro, renunciaram a atacar Constantinopla. Em 451, invadiram a Gália, destruindo tudo, até serem derrotados na batalha de Campos Mauríacos [...] Para deter os hunos, formara-se uma força militar heterogênea composta de legiões romanas e de contingentes de francos, borgúndios, visigodos, saxões e alanos."

Obrigados a se retirarem da Gália, os hunos voltaram-se contra a Península Italiana, assaltando, incendiando e destruindo cidades, escravizando e massacrando populações. Chamado de Flagelo de Deus, Átila liderou seus terríveis guerreiros para mais um saque de Roma. Embora sua carroças estivessem carregadas de riquezas pilhadas, a fome e a peste vitimaram os hunos, que renunciaram ao saque de Roma e se comprometeram a retirar-se da península; recebendo, em troca, vultoso tributo pago pelo Papa Leão Magno (452). No ano seguinte, com a morte de Átila, os hunos se dispersaram ao nomadismo pastoril.

Durante o século V, a desagregação do Império Romano prosseguiu, em meio às destruições causadas pela guerra e pela formação dos Reinos Bárbaros. Na própria Itália, os hérulos, chefiados por Odoacro, depuseram o Imperador Rômulo Augústulo, fato que, no entender de diversos historiadores, marcou o início da Idade Média (476).

Leia o depoimento de Salviano, monge do século V, sobre o fim do Império Romano do Ocidente, atribuindo a queda de Roma a um castigo divino:

"Já que quase todas as nações bárbaras beberam sangue romano e rasgaram nossas entranhas, por que será que nosso Deus entregou o mais poderoso dos Estados e o povo mais rico, que leva nome de romano, ao forte domínio de inimigos, que eram tão fracos? Por quê?

[...] Os acontecimentos provam o julgamento de Deus sobre nós e sobre os godos e os vândalos. Eles aumentam dia a dia; nós descemos cada dia mais. Eles prosperam; nós somos humilhados. Eles florescem; nós fenecemos.

[...] Eu desejaria, se a fraqueza humana permitisse, gritar além de minhas forças, a fim de ser ouvido no mundo inteiro: Ó cidadãos romanos, tende vergonha; tende vergonha de vossas vidas! Poucas cidades estão livres dos antros de perdição, estão totalmente livres de impurezas, exceto as cidades habitadas pelos bárbaros [...] Não é o vigor natural de seus corpos que os capacita a conquistar-nos, nem foi a nossa fraqueza natural a causa de nossa derrota. Que ninguém se convença do contrário. Que ninguém pense de outra maneira. Fomos derrotados, exclusivamente, pelos vícios de nossa vida má."

Os hérulos, no entanto, logo perderam o domínio de Roma e da Itália para novos invasores: os ostrogodos, que organizaram seu Reino na Península Italiana.

Começavam novos tempos...

AQUINO, Rubim Santos Leão de. [et alli]. Fazendo a História: Da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 106-9.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 125)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Memória: o Brasil visto pelos viajantes

"Os escravos eram colocados nas ruas diante das portas dos proprietários [...] deitados ou sentados [...] em número que atingia, às vezes, duzentos ou trezentos. [...] Seu alimento é carne salgada, farinha de mandioca e às vezes banana-da-terra [...] À noite os escravos são conduzidos a um ou mais armazéns e o condutor fica em pé, contando-os à medida que eles passam. [...] O comprador dá a cada um dos escravos recém-comprados um grande pano [...] e um chapéu de palha e leva-os o mais depressa possível para a sua fazenda". 
KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. São Paulo: Nacional, 1942.

As gravuras, os diários pessoais e as cartas são fontes preciosas para os historiadores reconstituírem o passado. Infelizmente, a história do Brasil Colonial contém poucos documentos desse tipo. Certamente contamos com alguma produção literária e artística realizada por membros da elite colonial. Porém, os documentos não-oficiais, escritos por pessoas comuns relatando o seu dia-a-dia, são raríssimos, já que a grande maioria da população colonial era analfabeta. Isso dificulta conhecermos vários aspectos desse período histórico, como a vida familiar, a infância, as paisagens naturais, os animais nativos, as doenças e os remédios caseiros etc.

A maioria das informações que temos sobre os dois primeiros séculos de colonização foram registradas por estrangeiros que estiveram no Brasil como náufragos ou invasores. Os religiosos franceses André Thevet e Jean de Léry, o marinheiro alemão Hans Staden, no século XVI, e os pintores holandeses Frans Post e Albert Eckout, no século XVII, deixaram relatos minuciosos e imagens primorosas do que viram no Brasil: costumes indígenas, animais (para eles) exóticos, plantas e frutas tropicais.

Vista de Itamaracá, Frans Post

Somente no século XIX, as autoridades portuguesas permitiram a entrada de estrangeiros no Brasil. A partir de então surgiram numerosos trabalhos de grande importância científica e artística sobre o Brasil. Inicialmente vieram os ingleses: Thomas Lindley (1802), John Mawe (1807), John Luccok (1808) e Henry Koster (1809). Todos eles escreveram livros sobre sua experiência no Brasil. A descrição do Rio de Janeiro feita pelo comerciante John Luccok (Notas sobre o Rio de Janeiro e Partes Meridionais do Brasil), por exemplo, nos permite conhecer o crescimento urbano da capital entre 1808 e 1818 e nos informa sobre a burocracia existente na alfândega e as atividades comerciais da época.

Com a abertura dos portos, chegaram grupos de cientistas de diferentes nacionalidades, que, acompanhados de desenhistas e pintores, lideraram expedições pelas selvas brasileiras. O zoólogo austríaco J. B. von Spix e seu colega, o botânico Karl P. von Martius, percorreram mais de 20 mil quilômetros pelo interior do Brasil entre 1817 e 1829. Coletaram e desenharam um material gigantesco: plantas, animais (mamíferos, aves) e objetos indígenas. Somente sobre botânica, o trabalho de Spix e Martius rendeu uma obra em quarenta grossos volumes com 3,811 ilustrações, na qual foram classificadas mais de 20 mil espécies de plantas brasileiras, das quais 6 mil eram desconhecidas. Essa obra foi continuada após a morte de Martius, levando 66 anos para se completar.

Bonnetia anceps, Karl P. von Martius

O francês Saint-Hilaire, entre 1816 e 1822, viajou mais de 12 mil quilômetros pelo sertão, em lombo de mula, a pé ou em frágeis canoas indígenas. Realizou uma obra grandiosa sobre a flora brasileira em nove volumes. Para os historiadores, seus relatos têm uma importância especial: eles abrangiam também aspectos sociais, históricos e culturais sobre o Brasil da época.

Outra importante expedição científica foi a organizada pelo barão alemão George H. von Langsdorff. Com uma equipe de 34 homens, percorreu 16 mil quilômetros em duas expedições realizadas entre 1824 e 1829, coletando milhares de amostras de plantas. Um dos pintores da expedição era o francês Hércules Florence. Entre mais de 200 gravuras suas, destacam-se as imagens de povos indígenas, que, hoje, são usadas como referência aos antropólogos pela riqueza de detalhes das pinturas corporais, arte plumária, objetos, armas etc.

Índios guaná, Hércules Florence

Outro pintor que acompanhou Langsdorff foi o alemão J. M. Rugendas. Depois de desligar-se da expedição, percorreu sozinho muitas províncias brasileiras, retratando aspectos da natureza e da sociedade. Retornou ao Brasil duas vezes (em 1831 e em 1847). Realizou milhares de aquarelas, desenhos e esboços sobre o Brasil, sua gente, suas cidades e suas paisagens. Seu livro Viagem Pitoresca através do Brasil tem um imenso valor artístico e documental.

Enterro, J. M. Rugendas

Entre os diários estrangeiros, merece destaque o da inglesa Maria Graham. Mulher culta, observadora, esteve duas vezes no Brasil (em 1821 e em 1823) e tornou-se amiga da imperatriz Leopoldina (esposa de d. Pedro I). Seu livro Diário de uma Viagem ao Brasil é um documento valioso sobre nossa vida social e política no início da Independência.

Em 1816, por iniciativa de d. João VI, chegou ao Brasil a Missão Francesa, um grupo de 46 artistas e mestres artesãos franceses, com o objetivo de ensinar pintura e escultura. Muitos deles apoiaram Napoleão e, com sua derrota, não encontravam ambiente para trabalhar na França. Eles influenciaram por diversos anos o gosto artístico da aristocracia brasileira. J. B. Debret participava do grupo e acabaria ficando quinze anos no Brasil. Quando voltou a Paris, em 1831, publicou sua Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, no qual retratou em belíssimas gravuras indígenas, florestas, escravos, artesãos, aristocratas, militares, autoridades, cenas urbanas e rurais e acontecimentos políticos.

Escravas negras oriundas de diversas tribos africanas trazidas para o Brasil, J. B. Debret

As obras desses estrangeiros são de grande importância para os estudiosos. Ainda hoje, os especialistas consultam suas observações, seus desenhos minuciosos e a classificação que fizeram de plantas, macacos, insetos, aves etc. Para os historiadores são uma fonte inesgotável de informações sociais e políticas. Grande parte desse valioso material encontra-se espalhada por museus e bibliotecas da Áustria, Alemanha, Rússia, Polônia, Inglaterra e França.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 122-5.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A vida na corte do reino de Daomé no século XVIII

Gezo, rei do Daomé, Frederick E. Forbes

Diversos mercadores europeus que realizaram negócios nos portos da Guiné deixaram relatos detalhados de suas experiências pessoais e dos povos com que mantiveram contatos. O comerciante inglês de escravos, Robert Norris, descreveu em detalhes a magnitude da corte do rei Tegbessu, sucessor de Agadjá, e os sinais de obediência demonstrados por seus súditos, durante a visita ao Daomé em 1772:

"Preparei-me para a visita ao rei, mandando desembrulhar uma bela liteira e um órgão portátil que mandara vir de Juda (Uidá): enviei esses dois presentes ao palácio do rei [...].

[...] Ao chegar diante do rei, expliquei-lhe a maneira de utilizar a liteira, que disse ser mais cômoda que aquela espécie de padiola de que ele se servia habitualmente. Nessa altura, ele mandou chamar uma dúzia de servidores encarregados de o transportar, que se aproximaram caminhando de quatro; em obediência aos desejos do rei, entrei na liteira, ensinei-lhes como deviam proceder e eles foram experimentando, um a um. Nesta altura, o rei manifestou a vontade de passear também na liteira e deu várias voltas à corte, em meio aos gritos e aclamações dos ministros e de sua esposa. O coche era muito elegante: tinha assentos de marroquim vermelho e era forrado de seda branca. Ele ficou encantado e divertia-se muito a abrir e fechar as cortinas, que lhes pareceram uma invenção muito engenhosa; finalmente, no meio de uma grande euforia, mandou eunucos para substituir os homens que transportavam a padiola; a porta que dava para os seus aposentos foi aberta e ele mandou que o levassem até junto das suas mulheres, para que elas vissem o belo presente que acabou de receber.

[...] O rei sentou-se em meio aos gritos e aclamação do povo, debaixo da tenda, numa cadeira de braços muito bonita, coberta de veludo carmesim, e enfeitada com esculturas e dourados.

Vi desfilar uma guarda de cento e vinte homens armados de grandes mosquetes e marchando aos pares; seguiam-lhe quinze filhas do rei, muito belas, acompanhadas de cinquenta escravos; depois delas, vinham, em ordem regular, umas atrás das outras, setecentas e trinta das suas esposas, transportando provisões e licores para um festim que iria realizar-se na praça do mercado. Eram seguidas de uma escolta de oitenta mulheres armadas, batendo em tambores. Nessa altura, foi posta uma mesa onde almocei enquanto a procissão continuava a passar. Vi aparecer seis batalhões de setenta mulheres cada um, à cabeça dos quais marchava, abrigada por um guarda-sol, uma favorita: impediram-me de vê-la tapando-a com o guarda-sol e com uma espécie de grandes escudos de couro, cobertos de seda vermelha e azul. Todas aquelas mulheres divertiam o rei com suas canções e danças, à medida que passavam. Nunca esperei ver tamanha variedade e tão grande profusão de tecidos de seda, de pulseiras de prata, de joias e corais, de colares valiosos e de ricos enfeites." Fonte: NORRIS, Robert. Memoirs of the Reign of Bossa-Abadce; with an Account of a Journey to Abomey in 1772. Apud COQUERY-VIDROVICH, Catherine. A descoberta da África. Lisboa: Edições 70, 2004, p. 148. (Lugar da História)

MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 75-76.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Popol Vuh, o livro sagrado dos maias

Uma página do Popol Vuh, Escribas maias desconhecidos

Na antiga língua maia, "Popol" significa reunião, comunidade, casa, junta; e "Vuh", árvore de cujo corte se fazia papel, por extensão, livro. Popol Vuh é o mais precioso relato - e legado - da antiguidade americana; é o livro sagrado dos índios que habitavam uma região onde hoje é a Guatemala. É em essência um conjunto mítico e teogônico, dividido em três partes: a primeira é uma descrição da origem do mundo e da criação do homem; a segunda trata das aventuras dos jovens semideuses Hunahpu e Ixbalanqué no reino sombrio de Xibalbay; e, finalmente, a terceira parte refere-se à origem dos povos indígenas da Guatemala, suas guerras e emigrações, com o predomínio dos quíchua-maias até pouco antes da conquista espanhola. O livro teria sido escrito no começo do século XVI, possivelmente em pele de veado, e foi transcrito para o latim em 1542, por frei Alonso Del Portillo de Noreña. A versão espanhola apareceu em 1701, feita pelo frei Francisco Ximenex.

COSTA, Flávio Moreira da. Uma flor misteriosa, solitária, na imensidão da América adormecida. In: _________ (Org.). Os melhores contos da América Latina. Rio de Janeiro, Agir, 2008. p. 15.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Entre a cruz (religião) e a espada (guerra): a conquista da América pelos europeus

Funeral de Atahualpa, Luis Montero

DOCUMENTO 1
A cruz realizou um trabalho complementar à espada. Um conjunto de circunstâncias de ordem religiosa entre algumas nações indígenas facilitou a tarefa dos dominadores, já que tanto no México como no Peru uma série de profecias e sinais asseguravam a chegada iminente de novos deuses. E os europeus, manipulando o imaginário destes povos, não tiveram dúvidas em se apresentar como tais. O domínio do sagrado sobre o profano se materializou até nas construções das igrejas católicas, ao se aproveitar algumas pirâmides e templos como alicerces para a edificação de suas catedrais. [...]

Juan de Zumáraga, primeiro arcebispo do México, se orgulhava, em uma carta de 1547, de que seus sacerdotes haviam destruído até então mais de 500 templos indígenas e queimado cerca de 2 mil ídolos. Ele próprio ajudou a incinerar os arquivos existentes em Texcoco. O mesmo fez o bispo de Yacatán, Diego de Landa, ao atirar ao fogo purificador os manuscritos maias - único povo da América pré-colombiana que havia criado uma escrita -, fazendo com que se destruíssem os principais documentos históricos e literários. [RAMPINELLI, Waldir José. A falácia do V Centenário. In: ________. OURIQUES, Nildo Domingos (Org.). Os 500 anos: a conquista interminável. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 30-31.]

A tortura de Cuauhtémoc, Leandro Izaguirre

DOCUMENTO 2
O Almirante Colombo encontrou, quando descobriu esta ilha Hispaniola, um milhão de índios e índias [...] dos quais, e dos quais nasceram desde então, não creio que estejam vivos, no presente ano de 1535, 500, incluindo tanto crianças como adultos, que sejam naturais, legítimos e da raça dos primeiros índios [...]. Alguns fizeram esses índios trabalhar excessivamente. Outros não lhes deram nada para comer como bem lhes convinha. Além disso, as pessoas desta região são naturalmente inúteis, corruptas, de pouco trabalho, melancólicas, covardes, sujas, de má condição, mentirosas, sem constância e firmeza [...]. Vários índios, por prazer e passatempo, deixaram-se morrer com veneno para não trabalhar. Outros se enforcaram pelas próprias mãos. E quanto aos outros, tais doenças os atingiram que em pouco tempo morreram [...]. Quanto a mim, eu acreditaria que Nosso Senhor permitiu, devido aos grandes, enormes e abomináveis pecados dessas pessoas selvagens, rústicas e animalescas, que fossem eliminadas e banidas da superfície terrestre [...]. [OVIEDO, Gonzalo Fernandes de. In: ROMANO, Ruggiero. Mecanismos da conquista colonial. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 76.]

Cortez e seus soldados lutando contra os astecas em Tenochtitlán, Emanuel Leutze

DOCUMENTO 3
O relato desse primeiro encontro com Atahualpa foi feito por diversas testemunhas oculares [...]. Por meio de seu testemunho, a cena aparece para nós, hoje, como um confronto entre duas visões incompatíveis do mundo: de um lado, a de um soberano para quem a própria natureza do poder que encarna proíbe a comunicação direta com seus súditos e o recurso a mediadores; do outro, a de dois hidalgos espanhóis, Soto e Hernando Pizarro, para os quais os reis são interlocutores diretos a despeito de sua majestade. Quebrando sistematicamente as barreiras rituais que os separam do Inca, apagando os códigos de polidez e de hierarquia, os conquistadores vão marcar uma primeira vitória sobre um homem fechado em sua dignidade solar. Pois, mais do que as armas, são os gestos e as palavras que vão solapar a solenidade do Filho do Deus Sol, anunciando o fim de império do qual o Inca era a chave-mestra. [...] [BERNAND, Carmem; GRUZINSKY, Serge. História do Novo Mundo: da descoberta à conquista, uma experiência europeia (1492-1550). São Paulo: Edusp, 1997. p. 499-500.]

Entrada dos espanhóis em Guadalajara, Jalisco. Forças tlalcaxtecas acompanham os espanhóis liderados por Cristóbal de Olid, 1522. Escriba asteca desconhecido.

DOCUMENTO 4
A atitude de Colombo para com os índios decorre da percepção que tem deles. Podemos distinguir, nesta última, duas componentes, que continuarão presentes até o século seguinte e, praticamente, até os nossos dias, em todo o colonizador diante do colonizado. Estas duas atitudes já tinham sido observadas na relação de Colombo com a língua do outro. Ou ele pensa que os índios (apesar de não utilizar estes termos) são seres completamente humanos com os mesmos direitos que ele, e aí considera-os não somente iguais, mas idênticos e este comportamento desemboca no assimilacionismo, na projeção de seus próprios valores sobre os outros ou então parte da diferença, que é imediatamente traduzida em termos de superioridade e inferioridade (no caso, obviamente, são os índios inferiores): recusa a existência de uma substância humana realmente outra, que possa não ser meramente um estado imperfeito de si mesmo. Estas duas figuras básicas da experiência da alteridade baseiam-se no egocentrismo, na identificação de seus próprios valores com os valores em geral, de seu eu como o universo; na convicção de que o mundo é um. [TODOROV, Tzvetan. A conquista da América. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 51.]

A batalha de Otumba, Artista desconhecido

DOCUMENTO 5
Essa trilogia - doenças, desunião dos indígenas e o aço espanhol - responde por boa parte do resultado da Conquista. Basta remover um de seus elementos para que a probabilidade de fracasso das expedições lideradas por Cortés, Pizarro e outros fique muito alta [...].

Um quarto fator também desempenhou um papel importante: a cultura bélica. Por exemplo, os astecas foram prejudicados por certas convenções de batalha ignoradas pelos hispânicos. Os métodos de guerra astecas salientavam a observação de cerimônias que antecediam as batalhas - que eliminavam a possibilidade de ataques de surpresa - e a captura de inimigos para posterior execução ritual, em vez de matá-los no ato [...]. Por fim, a Conquista espanhola só pode ser plenamente compreendida se situada no contexto histórico mais amplo da expansão ultramarina. Essa história mais ampla não fala de uma superioridade espanhola, ou mesmo da Europa Ocidental, mas aborda, ao contrário, um complexo fenômeno da história mundial que transcende as peculiaridades da Conquista espanhola das Américas [...]. [RESTALL, Mattew. Sete mitos da conquista espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 240-242.]

A captura de Atahualpa, Juan Lepiani


DOCUMENTO 6
[...] Vieram os Dzules* que transformaram tudo. Eles ensinaram o terror, eles secaram as flores, sugando até ferir a flor dos outros para poderem fazer sobreviver a própria... Não havia entre eles nem grande sabedoria, nem palavras, nem ensinamentos. Os Dzules não vieram senão para mutilar o sol! E os filhos de seus filhos permaneceram entre nós, que deles não recebemos senão amargura. [ANÔNIMO. Chilam Balam de Chumayel. In: GENOROP, Paul. A civilização maia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 103.]

* Conquistadores espanhóis.