"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 26 de abril de 2013

A sociedade medieval e a vida cavalheiresca

A sociedade era constituída de homens livres, servos e escravos, Entre os livres se incluíam nobres, clérigos, soldados profissionais, mercadores, artesãos e alguns camponeses. Os servos cultivavam um pedaço de terra da propriedade de um senhor, que lhes dava um arrendamento vitalício e proteção militar. Podia ser expulso à vontade do dono e, ao morrer, a terra só passaria aos filhos com o consentimento do senhor. A pessoa que doava o feudo era um senhor ou suserano, e quem recebia era um vassalo, quer fosse cavaleiro, duque ou conde.

Detalhe do vitral da Catedral Notre-Dame de Chartres: um ferreiro a aplicar a ferradura num cavalo.


Geralmente o rei era o mais importante dos suseranos. Logo abaixo dele estavam os grandes nobres, duques e condes, que podiam dividir e conceder feudos a nobres inferiores, chamados viscondes e barões, que lhes ficavam devendo vassalagem. Alguns servos denominavam-se vilões: eram pequenos fazendeiros que haviam dado suas terras a um vizinho poderoso. Os vilões não estavam ligados ao solo, enquanto que os servos estavam presos a ele e eram vendidos juntamente com a terra a que se ligavam. Os pastores e lavradores eram sempre extremamente pobres. Viviam em míseras cabanas, alugavam-se aos vilões ricos ou faziam trabalhos extraordinários para o senhor feudal.

Fevereiro. As mui ricas horas do Duque de Berry, 1412-1416, Irmãos Limbourg.


Vilões e servos estavam presos a numerosas obrigações. Pagavam anualmente vários impostos em dinheiro ou em espécie: a) a capitação, imposto cobrado por pessoa; b) o censo, pago somente por vilões e homens livres; c) a talha, percentagem sobre o que se produzia nas terras dos vilões e dos servos; d) as banalidades, retribuição paga pelo uso do moinho da vila, tonéis de vinho, forno de pão, etc.

Uma obrigação importante era a corvée. Esta obrigação recaía somente em um homem de cada família e era uma herança de economia mais antiga, na qual as tarefas como abrir estradas e canais, drenar pântanos, eram realizadas pelos camponeses como uma obrigação para com a comunidade ou o rei. Alguns senhores exigiam três dias por semana na maior parte do ano e quatro ou cinco dias por semana na época de aração ou colheita.

Além das taxas menores e um sistema de multas, o servo era ainda obrigado a hospedar gratuitamente o seu senhor. As obrigações eram tão pesadas que dois terços do que o servo produzia não lhe pertenciam. Sua vida era dura, as condições higiênicas péssimas e a alimentação pobre e grosseira. Tinha seus momentos de humor rude e pesado, mas no campo e em casa era homem de poucas palavras e espírito grotescamente solene. Junto ao seu casebre de madeira, de piso de terra batida, ficava a estrumeira que reunia os detritos humanos e dos animais. Em volta havia alguns instrumentos agrícolas e de indústria doméstica.

Servos medievais trabalhando na colheita. Iluminura do Espelho das virgens (século XIII), destinado às freiras noviças.


Não é de admirar que, no anedotário da época, se contasse que o diabo havia excluído os servos por não lhes aguentar o cheiro. Supersticioso, era contudo realista. Conhecia os caprichos impiedosos da natureza e sabia que uma estação seca podia causar-lhe a morte pela fome. As epidemias e a fome foram-lhe sempre companheiras, como haviam sido de seus ancestrais.

A cavalaria. Uma vez que, na maioria dos casos, os invasores bárbaros apareciam montados, exigia-se na Europa defensores que pudessem dispor de cavalos. A cavalaria tornou-se consequentemente mais importante do que a infantaria. Mas a cavalaria não era apenas uma organização militar - era uma instituição.

Geralmente, o cavaleiro era uma pessoa de origem aristocrática. Os jovens que aspiravam à cavalaria submetiam-se a uma longa e árdua disciplina. Pertencentes por nascimento a uma classe belicosa, recebiam educação essencialmente militar. Aos 7 ou 8 anos o futuro cavaleiro servia como pajém, aprendendo nos castelos as boas maneiras. Aos 12 ou 14 anos passava a escudeiro, a serviço de um senhor, carregando-lhe o escudo, servindo-o à mesa e aprendendo por imitação e experiência a lidar com as armas de guerra. Quando terminava sua aprendizagem ou praticava um ato extraordinário de bravura, era recebido na ordem da cavalaria com um ritual solene. Nas vésperas da cerimônia, jejuava e tomava um banho como símbolo de purificação. Passava a noite na igreja, em prece, e no dia seguinte, depois de ouvir missa e comungar, logo após um sermão sobre seus deveres morais, sociais, religiosos e militares, era armado cavaleiro. O título era concedido pelo senhor, que lhe dava três pequenas pancadas no ombro ou na cabeça com a espada, e às vezes um soco, como símbolo da última afronta que podia aceitar sem desagravo. O novo cavaleiro recebia uma lança, um capacete e um cavalo, distribuía presentes e dava uma festa aos amigos.

Um cavaleiro de Prato (Toscana). Miniatura do século XV, Convenevole da Prato (Carmina regia).


Teoricamente o cavaleiro tinha que ser um herói e um santo. A Igreja, para dominar-lhe o ânimo selvagem, cercou a instituição com votos religiosos. O cavaleiro comprometia-se a falar sempre a verdade, a defender a Igreja e a perseguir os infiéis.

A cavalaria elevou consideravelmente a posição da mulher. Nos romances medievais o cavaleiro está sempre comprometido ao devoir ou serviço da senhora que lhe deu suas cores para usar.

As normas cavalheirescas expressaram, assim, uma aspiração, um ideal, e, se bem que não tenham na prática abolido os abusos dos poderosos e as violências, exerceram sensível influência benéfica sobre os costumes feudais.

A terra e as classes rurais. O senhor feudal podia possuir mais de um feudo. Em troca dos serviços dos servos, dava-lhes terras de arrendamento vitalício. Exercia poderes judiciais e militares sobre seu domínio. Além da administração do feudo, suas preocupações principais eram a caça e ocasionalmente a guerra. Hospedava frequentemente a trocava prodigamente presentes com seus hóspedes.

O interior da residência senhorial era escuro e fechado. Até os fins do século XI os castelos feudais eram de madeira. Posteriormente, pesadas construções de pedra substituíram as antigas habitações, mas não apresentavam muito conforto. As janelas eram pequenas e poucas; a luz artificial era fornecida por candeeiros e tochas. Escadas sinuosas ligavam os andares, em número de três. No segundo pavimento ficava o salão principal que servia de corte de justiça, sala de jantar e quarto de dormir para a maior parte da família. O soalho de pedra era coberto por esteiras de junco ou palha.

As guerras constantes em que se envolviam os nobres por motivos fúteis ou interesses inconfessáveis, provocaram tanta violência, que a Igreja interveio com a Paz de Deus (1041), proibindo, sob pena de excomunhão, a luta em certos dias da semana, geralmente de quinta feira a segunda feira seguinte.

Walther von Klingen (detalhe). Codex Manesse, ca.1305-1315.
 

Com a 1ª Cruzada os nobres adotaram a prática islamítica de fazerem suas roupas, estandartes e armaduras com desenhos heráldicos, sendo interessante notar que no século XII estes emblemas heráldicos foram usados também por abadias, cidades e nações.

SOUTO MAIOR, Armando. História geral. São Paulo: Nacional, 1979. p. 241-244.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Cidades, mercadores, escolas

Desembarque de mercadorias num porto medieval

Até o século XX, os europeus eram, em sua grande maioria, homens do campo. Não se deve esquecer que os atuais camponeses são os herdeiros de 90% da população europeia anterior ao desenvolvimento da indústria nos séculos XVIII e XIX. Mas, na Idade Média, nasceram ou se desenvolveram inúmeras cidades: as mais importantes eram as sedes do poder dos reis e dos príncipes, e também de sua burocracia. Elas tinham principalmente uma importante atividade econômica, com artesãos, mercados e feiras: as da Champagne foram bastante frequentadas nos séculos XII e XIII. Um novo tipo de homem apareceu, o mercador. Os mais ricos mercadores comerciavam em toda a Europa, e até mesmo na Ásia e na África, e eram também banqueiros. Os mais poderosos foram os italianos (florentinos, genoveses e venezianos), os flamengos e os alemães que se agruparam numa grande associação comercial: a Hansa de Londres e Bruges, em Anvers, Hamburgo, Lübeck, Dantzig (atual Gdansk, na Polônia) e Riga. A circulação da moeda de ouro e de prata tornou-se muito importante, mas havia muitas moedas (o florim de Florença e o ducado de Veneza eram as mais renomadas). A troca de moedas era complicada e a ausência de uma moeda única entravou o desenvolvimento de um sistema econômico baseado no dinheiro: o capitalismo.

As cidades foram também centros culturais. Elas criaram as escolas onde se ensinava os filhos dos leigos, sobretudo dos burgueses, a ler, a escrever e a contar. Em algumas cidades, as corporações de mestres e de estudantes fundaram escolas de nível superior: as universidades. Elas existiram na Grã-Bretanha (Oxford, Cambridge), na Espanha (Salamanca), em Portugal (Coimbra), na Boêmia (Praga) e na Polônia (Cracóvia). As duas mais célebres foram Bolonha, para o direito, e Paris, para a teologia. Estudava-se também medicina em Salerno e em Montpellier. Os estudantes e os mestres, que viajavam por toda a Europa de uma universidade a outra, suscitaram uma grande produção de livros manuscritos e inauguraram um novo sistema de promoção quando eram bem-sucedidos nos exames. [...] 

As cidades foram também centros artísticos. A partir do ano 1000, surgiu um novo estilo de arquitetura e de escultura: a arte românica. No século XII, foi nas cidades que a arte gótica sucedeu à arte românica e deixou a luz entrar nas igrejas por grandes janelas, e, sobretudo, a luz colorida, graças aos vitrais. O teatro, que desaparecera desde a Antiguidade, ali renasceu, as festas se multiplicaram, e a mais animada era o carnaval. Na cidade, enriquecia-se, aprendia-se e divertia-se o europeu. Mas houve também muitos pobres e malfeitores. A miséria e a delinquência urbana se desenvolveram.

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 77-79.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O tempo da natureza, o tempo da guerra e o tempo cristão no medievo

A vida cotidiana era marcada pelo tempo da natureza, pelo tempo da guerra e pelo tempo cristão.

É difícil para nós, acostumados a ordenar o nosso cotidiano pelo relógio, entender a vida cotidiana medieval.

A ideia de fim de mundo não atormenta os nossos espíritos. Mas, na sociedade medieval, essa preocupação aumentava de intensidade por ocasião das grandes catástrofes naturais, sociais ou políticas. O pessimismo, no entanto, era acompanhado de uma esperança no triunfo do reino de Deus.

A fronteira que separava as três ordens sociais era rígida, praticamente insuperável. No entanto, os três cotidianos, o do camponês, o do nobre e o do clérigo estavam intimamente ligados.

As tensões e os conflitos sociais podem ser deduzidos por meio das três concepções de tempo que conviveram na Idade Média.

Apesar do esforço da Igreja, os camponeses mantinham-se presos a uma maneira pré-cristã de conceber o tempo. Para o camponês o tempo era cíclico, tudo voltava ao ponto de partida, numa eterna rejeição. Era um tempo natural, biológico e, portanto, não histórico. A cristianização não conseguiu abolir o tempo cíclico do camponês. A sociedade, nessa época, era predominantemente agrária, por essa razão a referência cronológica mais evidente era o tempo agrícola. Tempo do preparo da terra, do plantio e da colheita; tempo da espera e da paciência. Um tempo lento, repetitivo, e doloroso porque era espreitado pela fome. O mundo rural medieval, por ser cíclico, não tinha necessidade de ser datado.


Tempo da natureza: Colheita. Artista desconhecido. Iluminura.

O tempo cristão, do clero, era linear. O passado não tinha retorno. O Gênese (criação do mundo por Deus) e a Encarnação (vinda de Cristo) pertenciam ao passado. Para o futuro aguardava-se o Juízo Final (o final dos tempos com a segunda vinda de Cristo e o julgamento dos homens).


Tempo cristão: Alas exteriores do Altar do Juízo Final, c. 1450. Rogier van der Weyden

Dessa forma, a história caminharia para um final já anunciado pelas Escrituras Sagradas (o Apocalipse), um final terrível, com grandes calamidades. Seria o tempo da salvação, mas também o do terrível acervo de contas. O Apocalipse era ameaçador porque não se sabia quando viria - o sinal podia ser uma calamidade natural ou social.

O tempo novo era o período que se iniciou com a vinda de Cristo. O tempo novo era o período que se iniciou com a vinda de Cristo. O tempo antigo era o anterior a essa vinda. Vivia-se, então, um tempo intermediário entre os tempos antigos e a nova era a ser inaugurada com a volta do Messias.

A liturgia cristã relembrava os eventos dessa história no seu calendário anual. O tempo que conduzia a vida cotidiana era determinado por esse calendário religioso controlado pelo clero. O tempo linear cristão convivia com o tempo cíclico tradicional do camponês. Um acabou interpenetrando o outro.

O tempo senhorial, por sua vez, era um tempo militar, marcado pelas conquistas e pela guerra. A memória do passado era constituída pelos feitos militares dos antepassados, que honravam e enobreciam o nome familiar, exemplos que deviam ser seguidos pelos seus descendentes.

Tempo da guerra: Batalha de Muret, 1213. Artista desconhecido. Manuscrito francês.

Esse tempo militar se adequou ao tempo cristão administrado pelo clero. A época das campanhas militares devia se harmonizar com o calendário litúrgico, respeitando os dias santificados pela Igreja.

O tempo da nobreza senhorial também se confrontava com o tempo camponês. Isso ocorria na exigência das obrigações, na cobrança das taxas e prestações.

Assim, na vida cotidiana, os homens da Idade Média usavam referências cronológicas variadas, as quais revelam as estruturas econômicas e sociais da época.

As medidas de tempo são instrumentos de dominação social de grande importância. Quem dominava o controle do tempo reforçava o seu poder sobre a sociedade. A variedade de tempos medievais é, portanto, uma imagem das lutas sociais da época.

PEDRO, Antonio; SOUZA LIMA, Lizânias. História sempre presente. São Paulo: FTD, 2010. p. 313-314. V. 1.

sábado, 11 de agosto de 2012

A herança legada por Eva

Adão e Eva. Iluminura, Manuscrito Hunterian, séc. XII

A mentalidade medieval foi influenciada pelo Gênesis e outros textos bíblicos. O ato sexual converteu-se em pecado porque se cria que através da concepção transmitia-se o pecado original. Eva, como instrumento de Satanás, foi considerada transmissora do pecado e colocada no centro das responsabilidades. Foi durante a Idade Média que começou a tradição pictórica pela qual a serpente era representada com rosto de mulher.

A esta ideia acrescentou-se mais tarde um novo pecado: a vaidade. Numerosas pinturas do século XIV mostram a serpente feminina segurando um espelho no qual Eva se contempla. A mulher aparecia aos olhos medievais como um ser propenso à queda, ocupada somente consigo, com o fim de provocar o pecado do varão.

Para sacerdotes e teólogos medievais, a mulher era ainda, naqueles séculos, o que parecera ser a Crisóstomo: "um mal necessário, tentação natural, calamidade desejável, perigo doméstico, fascinação mortal, o próprio mal que se apresenta disfarçado".

A literatura profana medieval retratava a mulher como alguém débil diante do pecado, irresponsável, traidora e perigosa.

A cultura bíblica, fortemente repressora, fazia que poucos nobres pudessem casar-se. Para aqueles obrigados ao celibato, tanto pela preservação da herança quanto por ordem da Igreja, a figura da mulher era vista como uma constante fonte de perigos, como afirmava Tomás de Aquino:

A mulher é subordinada ao homem em virtude da fraqueza de sua natureza, tanto no espírito como no corpo. [...] O homem é o começo da mulher e é o seu fim, assim como Deus é o começo e o fim de todas as criaturas. [...] a sujeição da mulher está de acordo com a lei da natureza, o que já não se dá com o escravo. [...] Os filhos devem amar ao pai mais do que à mãe.

Apoiando-se em Aristóteles e na biologia daquele tempo, Aquino supunha que a mulher contribui para a procriação apenas com matéria passiva, ao passo que o homem contribui com a forma ativa. Por conseguinte, ela é o vaso mais fraco do corpo, do espírito e da vontade. Nela predomina o apetite sexual, ao passo que o homem é a expressão de um elemento mais estável. O homem e a mulher são feitos segundo a imagem de Deus, principalmente o primeiro. O homem é o princípio e o fim da mulher, assim como Deus é o princípio e o fim do universo. A mulher precisa do homem em tudo, ele apenas precisa dela para a procriação. O homem pode realizar todos as tarefas melhor do que a mulher - pode até mesmo cuidar melhor dos afazeres da casa.

Aquino seguia a linha de Agostinho, que escreveu um comentário do Gênesis, no qual explicava que o homem é formado de uma parte carnal, o corpo, e de uma espiritual, a alma, a primeira subordinada à segunda. A parte animal do corpo é subordinada à razão, que é o princípio masculino, enquanto o feminino se identifica com o appetitus, o desejo. Apesar de ser dotada de razão, a parte animal desejosa predomina na mulher, ao passo que no homem predomina o racional, prevalecendo, portanto, o espiritual.

Na contramão dessa ideia, existiu um manuscrito com outra opinião sobre a mulher:

É preferível ser mulher a ser homem, a saber, na matéria: Adão foi feito da argila, e Eva, de uma costela de Adão; [...] na concepção: uma mulher concebeu Deus, o que um homem não pôde fazer; na aparição: Cristo apareceu a uma mulher depois da Ressurreição, a saber, a Madalena; na exaltação: uma mulher é exaltada sobre o coro dos anjos, a saber, a abençoada Maria. [...] São Bernardo até mesmo declara: "É uma grande graça ser uma mulher: mais mulheres são salvas do que homens".

Tal comentário era exceção. Na época prevaleciam escritos como o de André le Chapelain (o capelão) que, em torno de 1186, escreveu um tratado chamado De amore ou de honesquete amandi (do amor ou como amar distintamente), no qual advertiu aos homens que se precavessem até mesmo contra as religiosas: "Não tocá-las, jamais ficar a sós com elas". Já em relação aos clérigos, afirmou que esses se inflamavam com menos rapidez, pois eram homens e tinham melhor controle de suas paixões. Por isso, os chamou de "nobilíssimos", dotados dessa eminente dignidade conferida pela pureza sexual. Em relação aos monges, nem fez alusão, pois já foram juntar-se aos anjos.

ALMEIDA, Rute Salviano. Uma voz feminina calada pela Inquisição. São Paulo: Hagnos, 2011. p. 58-61.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

As mui ricas horas do duque de Berry c. 1413-1489

Considerado por muitos como o mais belo manuscrito ilustrado, As mui ricas horas do duque de Berry é um exemplo perfeito de um Livro de Horas medieval. Esses livros devocionais continham um texto para cada hora litúrgica do dia, além de um calendário, orações, salmos e missas para certos dias santos. As mui ricas horas do duque de Berry foi encomendado por Jean, duque de Berry (1340-1416), um nobre francês que também era irmão do rei Carlos V da França. O duque era um grande conhecedor medieval das artes visuais e um bibliófilo apaixonado. Ele contratou os irmãos Limbourg - Paul (Pol), Herman e Jean (Jannequin) - para que pintassem as belas iluminuras que ilustram os textos. Os três artistas, juntamente com o patrono, morreram antes que o Livro das Horas fosse concluído.


Esta é a ilustração feita para o mês de outubro do calendário, a parte mais famosa do Livro. Em primeiro plano, camponeses aparecem trabalhando na lavoura, enquanto, a distância, podem-se ver os membros da nobreza caminhando ou conversando ao longo do rio Sena, em frente ao palácio real. A imponente estrutura do Louvre é retratada com tantos detalhes que, ao longo dos anos, vários pesquisadores estudaram a imagem a fim de compreender melhor qual era a aparência original da construção. Os elementos aparentemente contraditórios do campo e o luxo da corte são expressos com cores brilhantes, aplicadas com pinceladas delicadas e pigmentos caros.

Bryan Doubt. As mui ricas horas do duque de Berry. In: FARTHING, Stephen. (Org.). Tudo sobre arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011. p. 132-133.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Tapeçaria de Bayeux (1066-1077)

A tapeçaria de Bayeux é uma obra de bordado, única por seu tamanho e pelos eventos que retrata. Trata-se de um relato da vitória de Guilherme, duque da Normandia, sobre o rei Haroldo I da Inglaterra, triunfo que deu ao normando a alcunha de "Guilherme, o Conquistador". Estão representados os acontecimentos que levaram à Batalha de Hastings em 14 de outubro de 1066, a começar de 1064, quando o velho rei da Inglaterra, Eduardo I, o Confessor, que não tinha filhos, mandou seu cunhado Haroldo à Normandia, França, para oferecer o trono inglês a Guilherme. Em janeiro de 1066, Eduardo aparentemente prometeu o trono a Haroldo e morreu. Em poucos meses, Guilherme reuniu suas forças e invadiu a Inglaterra, onde derrubou o novo rei em Hastings. [...]

A tapeçaria é composta de nove seções desiguais de pano de linho da mesma largura. A concepção, as inscrições, o uso da narrativa e a incorporação de temas animais são típicos da arte românica do norte da Europa. As inscrições em latim tornam provável que sua criação tenha sido supervisionada por um clérigo. As cores usadas - marrom, verde-bronze, azul-negro ou azul-escuro e amarelo - raramente se relacionam à natureza, indicando, ao contrário, a gama de tinturas disponíveis à época. Acredita-se que a peça tenha sido feita no sul da Inglaterra, possivelmente por freiras arregimentadas por Odo, bispo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme, o Conquistador.

Carol King. Tapeçaria de Bayeux. In: FATHING, Stephen. Tudo sobre arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011. p. 110-111.

Rei Eduardo. O chefe inglês Haroldo.

A Igreja. Haroldo e a sua tripulação navegam para a costa do território do conde Guy.

Haroldo é preso...

pelo chefe Guy.

Haroldo e Guy conversam.

O mensageiro se aproxima do duque William.

O mensageiro leva Haroldo até o duque William.

William chega a seu palácio com Haroldo.

William e seu exército atravessam o rio Cuesnon.

Haroldo é puxado para fora da areia.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Os nórdicos (vikings)

Ferreiro. Decoração de casa viking

Os nórdicos pagãos há muito vinham moldando a história das Ilhas Britânicas e do limite norte da cristandade. Provavelmente devido a uma superpopulação, os escandinavos começaram a se deslocar, a partir do século VIII. Equipados com barcos compridos, com remos e velas que podiam atravessar mares e rios rasos, e com pesados cargueiros que podiam abrigar grandes famílias, seus bens e animais por seis ou sete dias ao mar, eles se lançaram para implantar uma civilização que se estenderia da Groenlândia até Kiev. Os noruegueses colonizavam. Os suecos, que penetraram na Rússia e que sobrevivem nos registros como varegos, ocupavam-se mais do comércio. Os dinamarqueses encarregavam-se da maior parte dos saques e da pirataria. Mas nenhum desses povos teve o monopólio de nenhuma das características das migrações escandinavas, e os que participaram são chamados tradicionalmente, e de forma indiscriminada, de vikings (viquingues), palavra que significa "corsário ou "pirata".

Arrasto do Volokut, Nicholas Roerich 

O feito mais espetacular dos nórdicos foi a colonização. Substituíram totalmente os pictos nas ilhas Órcadas e Shetland, e dali estenderam os seus domínios até as ilhas Faroé (anteriormente inabitadas), exceto por uns poucos monges irlandeses e seus rebanhos) e a ilha de Man. Este assentamento foi mais duradouro e profundo do que na Escócia e na Irlanda continentais, onde começou no século IX. Contudo, a língua irlandesa registra a sua importância ao adotar palavras nórdicas no comércio, e Dublin foi fundada pelos vikings como um entreposto comercial. A colônia mais bem-sucedida de todas foi a Islândia. Ali, também, ermitãos irlandeses precederam os nórdicos, que só chegaram em grande número no fim do século IX. Logo haveria dez mil nórdicos islandeses, vivendo da agricultura e da pesca, em parte para a própria subsistência, em parte para produzir peixe salgado que podiam negociar. Nesta época foi fundado o Estado islandês, e reuniu-se pela primeira vez o "Althing" (mais um conselho de homens importantes da comunidade do que o primeiro "parlamento" europeu, como seria visto posteriormente).


Cenas da vida cotidiana viking, Martin Mörck 

   

No século X seguiram-se colônias na Groenlândia, onde os nórdicos estiveram por quinhentos anos e depois desapareceram. Da descoberta e do assentamento mais a oeste sabe-se muito menos. As Sagas, poemas heróicos da Islândia medieval, falam da exploração da Vinland, terra onde os nórdicos encontraram uvas selvagens e onde teria nascido uma certa criança (cuja mãe depois retornou à Islândia e foi novamente para o exterior, até Roma, como peregrina, antes de se estabelecer num reino altamente santificado na sua terra natal). Há razoáveis indícios para se crer que o assentamento descoberto na Terra Nova seja norueguês. [...]

Na tradição da Europa Ocidental, as atividades coloniais e mercantis dos vikings sempre foram obscurecidas pelo seu terrível impacto como saqueadores. Tinham hábitos muito grosseiros, e costumavam açoitar seus prisioneiros, como a maioria dos bárbaros. Os religiosos ficaram duplamente aterrorizados, como cristãos e vítimas, mas também por ataques às igrejas e aos mosteiros; os vikings achavam alvos especialmente atraentes as concentrações de metais preciosos e comida, convenientemente propiciadas por estes lugares. Mas os vikings não foram o primeiro povo a destruir mosteiros na Irlanda. Contudo, o seu impacto na cristandade do norte e do oeste foi indiscutivelmente apavorante. Primeiro atacaram a Inglaterra, em 793, e a Irlanda dois anos depois. Na primeira metade do século IX os dinamarqueses começaram a apavorar a Frísia, ano após ano, e as mesmas cidades foram saqueadas repetidas vezes. Então atacaram a costa francesa. Em 842, Nantes foi saqueada após um grande massacre. Poucos anos depois, um cronista franco lamentava que "a interminável multidão de vikings não parasse de crescer". Cidades bem interiores, como Paris, Limoges, Orléans, Tours e Angoulême, foram atacadas. Logo a Espanha e os árabes também sofreriam: em 844 os vikings atormentaram Sevilha. Em 859 atacaram de surpresa Nîmes e saquearam Pisa.


Embarcação viking

Estas terríveis incursões mudaram totalmente os povos que as sofriam, especialmente os francos a oeste. Não era possível prever os ataques-surpresa dos vikings às regiões litorâneas, nem resistir a eles. A devastação que eles causavam lançou novas responsabilidades sobre os magnatas de diversas regiões: o controle central e real se desmoronou, e os homens procuraram cada vez mais o senhor local em busca de proteção. Nem todos os esforços dos governantes para enfrentar a ameaça viking fracassaram. Os vikings podiam ser (e foram) derrotados, se atraídos para combates maciços em terra. E no conjunto os principais centros do Ocidente cristão foram defendidos com sucesso, mas os governantes muitas vezes tiveram de pagar o que os ingleses chamaram de Danegeld, um tributo para que eles se retirassem.

Funeral de um nobre viking, Henryk Siemiradzki

A Inglaterra logo se tornou um importante alvo. Por volta do século IX, seus reinos pagãos haviam sido amplamente cristianizados. [...] De tempos em tempos um ou outro reino inglês fora suficientemente forte para se desviar dos demais, mas nenhum conseguiu se manter sozinho diante da onda de ataques dinamarqueses a partir de 851, que acabaram ocupando dois terços do país e estabelecendo vastos assentamentos. Nesta conjuntura, o rei de Wessex salvou os anglo-saxões de uma recaída no paganismo e de serem incorporados à esfera cultural escandinava.

[...] Os dinamarqueses foram mantidos num reino unido durante meio século de turbulência [...]. Aconteceu uma nova ofensiva viking e foram pagas enormes somas de Danegeld. [...] Houve uma grande e última invasão norueguesa à Inglaterra, em 1066, mas foi dizimada na Batalha da Ponte de Stanford.

A civilização escandinava deixou importantes legados à Europa: por exemplo, o ducado da Normandia e a literatura das Sagas. Mas afinal foi apenas um episódio. Nas terras conquistadas, os nórdicos gradualmente se mesclaram com o resto da população [...].  Os "normandos", como são conhecidos, instalaram na Inglaterra uma nova família real e uma nova aristocracia em 1066, mas em poucos séculos sua casa real e sua aristocracia também se tornaram inglesas.

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 358-362.

sábado, 3 de março de 2012

A Cavalaria medieval

Era perfeitamente natural que os guerreiros profissionais da Idade Média procurassem estabelecer algum tipo de organização em vista do seu comum benefício e proteção. Foi dessa necessidade de organização que nasceu a instituição da cavalaria.

É muito pouco o que sabemos acerca das origens da cavalaria. Porém, à medida que esse sistema se desenvolveu, deu ao mundo algo de que este muito precisava - uma regra definida de conduta que suavizava os costumes bárbaros da época e tornava a vida mais fácil do que fora no decorrer dos quinhentos anos da Idade das Trevas. Não foi tarefa fácil civilizar os rudes pioneiros que haviam passado a maior parte de sua vida lutando contra os maometanos, os hunos e os normandos. Muitas vezes, eles recaíam nos velhos hábitos; depois de fazer toda espécie de juras de caridade e compaixão pela manhã, quando chegava a tarde passavam todos os seus prisioneiros pelo fio da espada. O progresso, porém, é o fruto de um trabalho lento e incansável, e por fim até mesmo os mais inescrupulosos dentre os cavaleiros foram obrigados a obedecer às regras dessa "casta" ou a sofrer as penas de sua desobediência.

Essas regras eram diferentes nas diversas regiões da Europa, mas sempre tinham por base as ideias de "serviço" e "fidelidade ao dever". Na Idade Média, o serviço ao próximo era visto como algo nobre e belo. Ser servo não era uma desgraça, desde que você fosse um bom servo e não relaxasse no trabalho. Quanto à fidelidade, numa época em que a vida dependia do cumprimento fiel de muitos deveres desagradáveis, era a principal virtude dos homens de guerra.

Por isso, pedia-se ao jovem cavaleiro que jurasse fidelidade a Deus e ao rei, na qualidade de servo de ambos. Ele prometia, além disso, ser generoso para com aqueles cujas necessidades fossem maiores do que as suas próprias. Comprometia-se a ser humilde em seu comportamento pessoal, a jamais gabar-se de suas realizações a ser amigo de todos os sofredores (com exceção dos maometanos, a quem se esperava que matasse sem hesitar).

Em torno desses votos, que não eram outra coisa senão os Dez Mandamentos expressos em palavras compreensíveis para o povo daquela época, constituiu-se em complicado sistema de etiqueta e comportamento. Os cavaleiros procuravam pautar a própria vida pelo exemplo dos heróis da Távola Redonda do Rei Artur e da corte de Carlos Magno, acerca dos quais cantavam os trovadores. Tinham a esperança de ser corajosos como Lancelot e fiéis como Rolando. Portavam-se com dignidade e pronunciavam palavras belas e cuidadosas a fim de que pudessem ser reconhecidos como verdadeiros cavaleiros, por humilde que fosse o corte de sua túnica ou o tamanho de sua bolsa.

Dessa forma, as ordens de cavalaria tornaram-se escolas de boas maneiras, daquelas boas maneiras que são o óleo da máquina social. "Cavalaria" passou a ser sinônimo de "cortesia", e o castelo feudal mostrava ao resto do mundo quais as roupas que as pessoas deviam vestir, como deviam comer, como deviam convidar uma dama para dançar e mais mil e um pequenos pontos de comportamento cotidiano que ajudam a tornar a vida interessante e agradável.

Torneio de cavalaria. Afresco no Castelo de Malpaga.

À semelhança de todas as instituições humanas, também a cavalaria estava fadada a perecer assim que perdesse a sua utilidade prática.

As cruzadas [...] foram seguidas por uma grande ressurreição do comércio. As cidades cresceram da noite para o dia. Os habitantes das cidades ficaram ricos, contrataram bons professores e logo igualaram-se aos cavaleiros. A invenção da pólvora privou o chevalier trajado de armadura das vantagens de que antes gozava, e o emprego de mercenários na guerra passou a impossibilitar que as batalhas fossem travadas com todos os requintes e delicadezas dos torneios de xadrez. O cavaleiro tornou-se supérfluo. Logo passou a ser visto como uma figura ridícula, dedicado a ideias que já não tinham nenhum valor prático. [...]

VAN LOON, Hendrik Willem. A história da humanidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 160-162.