"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sangue latino

Zapatistas, José Clemente Orozco

Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos

E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo

E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

João Ricardo / Paulinho Mendonça

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

As transformações da intimidade no Brasil

Messalina, Henrique Bernardellli

Entre os anos 60 e 70 eclodiu o fruto tão lentamente amadurecido: a chamada “revolução sexual”. A liberação significou a busca da realização no plano pessoal e a consciência de que “problemas sexuais” não teriam lugar num mundo “normal”. Ao defender a ideia do “direito ao prazer”, os pais da época fabricaram um tipo de sofrimento: o que nascia da ausência do prazer. Ao mesmo tempo, tinha início a democratização da beleza – graças à multiplicação de produtos, academias de body building, consultórios de cirurgia plástica, etc. -, fato que tanto levou à busca do bem-estar quanto às tensões e frustrações por não encontrar. Junto, mas, lentamente, forjava-se a intolerância à doença, à fragilização dos corpos e ao envelhecimento. Sexualidade em dia e saúde davam-se as mãos. O “direito ao prazer” tornou-se norma. E norma cada vez mais interiorizada. Apenas conformando-se a essa regra seria possível sentir-se feliz, alegre e saudável.

Nessa história, um novo ato abriu-se com o desembarque da pílula anticoncepcional no Brasil. Livres da sífilis e ainda longe da aids , os jovens podiam experimentar de tudo. O rock and roll, feito sobre e para adolescentes, introduzia a agenda dos tempos: férias, escola, carros, velocidade e, o mais importante, amor! A batida pesada, a sonoridade e as letras indicavam a rebeldia frente aos valores e à autoridade do mundo adulto. Um desejo sem limite de experimentar a vida hippie e os cabelos compridos se estabeleciam entre nós. As músicas dos Stones e Bob Dylan exportavam, mundo afora, a ideia de paz, sexo livre e drogas como libertação da mente. Os países protestantes – EUA, Inglaterra e Holanda – consolidavam uma desenvoltura erótica, antes desconhecida. Tudo isso junto não causou exatamente um milagres, mas, somado a outras transformações econômicas e políticas, ajudou a empurrar barreiras.

Nas capitais e nos meios estudantis, os jovens escapavam das malhas apertadas das redes familiares. Encontros multiplicavam-se em torno de festas, festivais de música, atividades esportivas, escolas e universidades, cinemas. Os palavrões, antes proibidos, invadiram a cena, inclusive dos teatros. E o alastramento de boates e clubes noturnos deixava moças e rapazes cada vez mais soltos. Saber dançar tornou-se o passaporte para o amor. “Pode vir quente que eu estou fervendo”, na voz do “Tremendão” Erasmo Carlos e “Gostosa”, na das Frenéticas (“sei que eu sou bonita e gostosa...”), representavam tentativas de adaptação a um mundo novo e esforçadamente rebelde. [...]

Por influência dos meios de comunicação e, sobretudo, da televisão, também o vocabulário passou a evitar eufemismos. Embora nos anos 60 ainda se utilizasse uma linguagem neutra e distante para falar de sexo – mencionavam-se, entre dentes, “relações” e “genitais” -, devagarinho se caminhou para “coito”, “orgasmo” e companhia. Os adolescentes ainda eram “poupados” pelos adultos de informações mais diretas.

As relações no cotidiano dos casais começaram a mudar. Carícias se generalizavam e o beijo mais profundo – o beijo de língua ou french Kiss -, antes escandaloso e mesmo considerado um atentado ao pudor, passava a ser sinônimo de paixão. Na cama, novidades. A sexualidade bucal, graças aos avanços da higiene íntima, se estendeu a outras partes do corpo. As preliminares ficaram mais longas. A limpeza do corpo e o hedonismo alimentavam carinhos antes inexistentes. Todo corpo a corpo amoroso tornava-se possível. No quarto, a maior parte das pessoas ficava nua. Mas no escuro. Amar ainda não era se abandonar. É bom não esquecer que os adultos dos anos 60 foram educados por pais extremamente conservadores.

Mas era o início do fim dos amores que tinham que parar no último estágio: “quero me casar virgem!”. Deixava-se para trás a “meia-virgem”, aquela na qual as carícias sexuais acabavam “na portinha”. Na moda, a minissaia despia as coxas. Lia-se Wilhelm Reich, segundo quem o nazismo e o stalinismo teriam nascido da falta de orgasmos. A ideia de que os casais, além de amar, deviam ser sexualmente equilibrados começava a ser discutida por alguns “pra frente”. Era o início do direito ao prazer para todos, sem que as mulheres fossem penalizadas ao manifestar seu interesse por alguém.

Elas começavam a poder escolher entre desobedecer às normas sociais, parentais e familiares. Ficava longe o tempo em que os maridos davam ordens às esposas, como se fossem seus donos. Um marido violento não era mais o dono de ninguém, mas apenas um homem bruto. Uma vez acabado o amor, muitos casais buscavam a separação. Outros faziam o mais fácil: tinham um “caso”. E, desse ponto de vista, o adultério feminino era uma saída possível para quem não ousasse romper a aliança.

No pano de fundo, o golpe militar de 1964 e um conjunto de fatos que aceleraram mudanças. Uma política de desenvolvimento foi implementada e pôs o país na rota do “milagre econômico”. Na esteira do progresso, expandiram-se as cidades. Atraídos pelo crescimento da construção civil, migrantes nordestinos provocaram a concentração e a formação de um cinturão de miséria nos grandes centros do Sudeste brasileiro. A classe média deparou-se com uma grande quantidade de novos bens de consumo e com a possibilidade de financiamento de dívidas. A utilização a televisão foi fundamental nesse processo. O Brasil emergira subitamente como um dos mais dinâmicos mercados de TV do terceiro mundo. As compras pelo crediário e as facilidades de aquisição de aparelhos, no período, expandiram o número de domicílios com receptores – em 1960, 9,5% das residências urbanas tinham TV; em 1970, essa proporção passou para 40%. Grandes investimentos foram feitos para implantar as bases de um sistema amplo.

Em meio a isso, os motéis multiplicaram-se. Pornoshops começaram a abrir, discretamente, suas portas. As capas de discos passaram a ser ilustradas com cantoras conhecidas em trajes sugestivos ou de biquíni. O videocassete logo introduziria o aluguel de fitas pornôs, agora assistidas em domicílio. A música popular introduziu versos ao mesmo tempo delicados e libertários, resumindo o espírito da época. Quem não lembra a voz de Ivan Lins cantando a amada “Vitoriosa por não ter / vergonha de aprender como se goza”. Ou o bolero “Latin lover”, de João Bosco, cheio de insinuações murmuradas com sensualidade: “Mas me lembro de uma noite, sua mãe tinha saído / Me falaste de um sinal adquirido / Numa queda de patins em Paquetá / - mostra! Doeu? Ainda dói? A voz mais rouca / E os beijos / Cometas invadindo o céu da boca”. Ou a queixa da mulher mal amada: “Na cama és mocho / Tira as mãos de mim”, em canção de Chico Buarque.

Mas também foram anos de massiva propaganda, de falta de liberdade, de censura e perseguições. Intelectuais, estudantes e artistas resistiram. Houve prisões, tortura e exílios. Foram os anos do slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o” e da música de Dom e Ravel, “Esse é um país que vai pra frente”. O futebol era o grande assunto, bem como “os 90 milhões em ação”.

Foi ao longo dos anos 70, com os movimentos pela valorização das minorias que a questão da mulher começou a mudar de forma. A sexualidade deixava de ser considerada algo mágico ou misterioso que escaparia aos progressos técnicos ou à medicina. A pílula foi aceita por homens e mulheres, não só porque era confiável, mas, sobretudo, por ser confortável. O orgasmo simultâneo passou a medir a qualidade das relações e significava o reconhecimento da capacidade feminina de gozar igual aos homens. Música, literatura e cinema exibiam a intimidade dos casais, democratizando informações: “nos lençóis da cama... travesseiros pelo chão”, cantava Roberto Carlos. Revistas de grande tiragem exploravam questões sexuais, valorizando corpos idealizados, com uma mensagem: “sejam livres”, enquanto nos artigos de fundo seguia-se valorizando o sentimento e a o amor. Já a publicidade erotizava comportamentos para vender qualquer produto. Tudo isso não seria possível sem o poder dos meios de comunicação modernos e uma cultura de massa, capaz de difundir modelos e representações sexuais.

Entre 1979 e 1985, aumentou a mobilização dos diferentes setores da sociedade exigindo a redemocratização do país, inaugurando novos conflitos e sacudindo o imobilismo das representações de classe.

E, aos trancos e barrancos, discutia-se um novo modelo de feminilidade, mas também, de masculinidade.


PRIORE, Mary del. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011. p. 175-179.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Bossas Novas

Helô Pinheiro, a musa inspiradora de Garota de Ipanema, de Tom Jobim

A euforia desenvolvimentista do governo Kubitschek provocou, além de suas consequências econômicas, novas condições para a criação cultural brasileira. Foi um período fértil para o surgimento das chamadas "vanguardas" artísticas: poesia concreta, neoconcretismo, poesia práxis... E, na música, surgiu um movimento que, já a partir do seu próprio nome, funcionou como uma síntese e um lema dessa época - a bossa nova:

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical.
Eu, mesmo mentindo, devo argumentar
Que isto é bossa nova
Que isto é muito natural.
O que você não sabe, nem sequer pressente,
É que os desafinados também têm um coração
[...]"
(Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça)

Todo esse desenvolvimento, evidentemente, não se processou sem traumas. [...] a inflação e as tensões sociais iriam produzir grandes mudanças no cenário político. Os artistas brasileiros tomaram parte ativíssima em todas essas transformações; e não só como indivíduos, mas também através de sua produção intelectual.

O movimento da bossa nova evoluiu rapidamente na direção da chamada "canção de protesto", que correspondia à poesia engajada ou participante:

Podem me prender
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não.
Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar
Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã, seu doutor,
Estou pertinho do céu.
(Opinião, de Zé Kéti)

Surgiram também autores que colocavam em suas peças a problemática social urbana (como o caso de um Nelson Rodrigues, que já estreara na década de 40) ou rural (como Jorge Andrade e Dias Gomes). O cinema começava a se firmar: em fins da década de 50 e início da de 60, começaram a aparecer os filmes de diretores como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Rui Guerra e outros - o "cinema novo".

Todas essas novidades refletiam, no plano da arte, a crise da sociedade e do regime populista. Os artistas assumiam posições muitas vezes meramente doutrinadoras ou paternalistas em relação ao povo que queriam retratar na sua arte. Um jovem dramaturgo - Oduvaldo Viana Filho - dava, por exemplo, a uma de suas peças o título de "A mais-valia vai acabar, Seu Edgar"... Chocavam-se as tendências nacionalistas com as "entreguistas" na política e, na arte, a polêmica refletia, acirrada. A televisão começava a se tornar o grande veículo de massas que é hoje em dia.

Em tudo isso é importante assinalar o papel desempenhado por um grupo que foi dissolvido por força do movimento político-militar de 64: o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE). Esse grupo representou uma síntese da ideologia populista na área cultural e sua influência estendeu-se até depois da mudança do regime, tanto na música popular (a canção de protesto) como no cinema e na literatura. Na impossibilidade de modificar a realidade através da ação política, essa ideologia acabaria por tomar como um de seus caminhos aquele que foi, depois, chamado ironicamente de "esquerda festiva"...

Com suas diferentes tendências esses intelectuais permanecem participando, de uma maneira ou de outra, na tentativa de dar novos rumos à cultura brasileira. Seja com flores, barquinhos ou violões da bossa nova; seja com amanhãs e liberdades da música de protesto; seja com cangaceiros e marginais do cinema novo:

Dia de luz
Festa de sol
E um barquinho a deslizar
No macio azul do mar
[...]
Sem intenção
Nossa canção
Vai saindo desse mar
[...]
(O Barquinho, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli)

Sei
Ninguém deve chorar
Ninguém deve sonhar
Tanta coisa perdida
Sei que esta vida se faz
Só a gente é capaz
De mudar nossa vida
Não sei quanto tempo é preciso esperar
Paz, igualdade, amor, liberdade
Vida que vai nascer
[...]
(Manhã de Liberdade, de Nélson Lins de Barros e Marco Antônio)

- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego não.
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
[...]
(Perseguição, de Sérgio Ricardo e Glauber Rocha, do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol)

Além do mais, a fusão da arte erudita com a popular é cada vez maior. Poetas "literários" fazem parceria com compositores do povo. E, na prosa de ficção, surgiu nessa época um autor que viria recuperar para a literatura os personagens da marginalidade: João Antônio, com seu livro de contos intitulado Malagueta, Perus e Bacanaço (1962).

ALENCAR, Chico et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 372-374.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima..."

Os Mutantes na década de 70: Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias

[...] a arte e a cultura brasileira, a partir de 1964, foram marcadas por uma série de movimentos e contramovimentos, de marchas e contramarchas, de vanguardas que eram logo sucedidas por outras vanguardas. Isso foi uma consequência natural das mudanças que se operavam na sociedade.

A trilha que fora aberta pelo Centro Popular de Cultura da UNE teve muitos seguidores e, nos festivais de música, a canção de protesto extravasava a insatisfação da juventude; o cinema novo trazia à tela a miséria, coisa que inexistia nas "chanchadas" carnavalescas do período anterior, e, no teatro, se destacavam grupos como o Oficina e o Arena, preocupados em encenar os novos autores nacionais.

1968 foi, sob todos os aspectos, marcante. Culturalmente, foi nesse ano que explodiu um movimento partindo da música popular, mas que tinha suas origens no cinema, no teatro e nas artes plásticas: o tropicalismo. As figuras de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, José Carlos Capinam e outros, inspirados em todo esse clima neo-antropofágico (retomada das lições do modernista Oswald de Andrade), assumiram logo a liderança da corrente tropicalista, promovendo uma fusão dos elementos renovadores da bossa nova e da canção de protesto com os conteúdos tidos como de "mau gosto" da cultura brasileira tradicional e incorporando os elementos universais da cultura de massa:

"Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou
O sol se reparte em crises
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou
[...]"
(Alegria, Alegria, de Caetano Veloso)

Por outro lado, as vanguardas "literárias" propriamente ditas chegavam ao extremo de pregar a abolição da palavra, com o poema-processo. Parecia estar-se chegando a um impasse. Enquanto os intelectuais se pretendiam "populares", os meios de difusão de massa, especialmente a televisão, manipulavam o gosto do público e promoviam um tipo de cultura baseado em filmes seriados importados dos Estados Unidos e em programas musicais que decalcavam um tipo de comportamento próprio de uma juventude de países desenvolvidos - o iê-iê-iê, a chamada pop music.

Foi em meio a esse clima cultural - que o teórico canadense Mac Luhan chamou de "aldeia global" - que sobreveio o fato político do Ato Institucional nº 5. As suas consequências marcaram profundamente a fisionomia cultural do Brasil. Primeiramente, houve uma "diáspora" dos nossos artistas e intelectuais (não só muitos deles exilados mas também dispersos em suas próprias propostas criadoras), que passaram por um período de hibernação que só há poucos anos começou a ser rompida. Nossa produção artística entrou numa fase (novamente) escapista: peças de teatro faziam alegorias tão rebuscadas que nem seus próprios autores as entendiam; letras de musicais enveredavam pela pura metáfora ("a calma dos lagos azuis zangou-se e a rosa-dos-ventos danou-se", cantou Chico Buarque de Hollanda); o cinema novo, estrangulado pela censura vigente, morria à míngua, enquanto passava a imperar a pornochanchada.

Os anos do governo do general Médici corresponderam, no campo da criação artística, a uma fase de pouca ou nenhuma renovação. As restrições às manifestações de arte e até mesmo à informação jornalística dificultavam enormemente a expressão. Por outro lado, predominavam músicas ufanísticas (que procuravam divulgar uma imagem de felicidade e euforia) e filmes históricos patrocinados pelo governo.

A gradativa liberação da censura, nos últimos anos do regime militar, permitiu ao menos o levantamento de uma parte do véu que cobria nossas manifestações culturais mais autênticas. Assistimos, então, a um novo surto de criação artística na literatura (compromissada com a problemática social) em que as discussões sobre "vanguardas" ou "não-vanguardas" já não tinham muita razão de ser. A imprensa-alternativa (ou "nanica") começava a ganhar força, com publicações que, através do humor e/ou da denúncia, mostram a cara do Brasil de hoje, além de abrirem campo aos escritores e artistas novos. O cinema, já esgotada a fase da pornochanchada, reencontrava seus caminhos com filmes que conseguem ao mesmo tempo mostrar a nossa realidade e atingir o grande público como: O Rei da Noite; Xica da Silva; Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia; A Queda; Chuvas de Verão; Raoni; Gaijin; Barra Pesada; Pixote, a Lei do Mais Fraco; Bye Bye Brasil; O Homem que Virou Suco; Eles não usam black-tie, entre outros. A música popular abria-se a todas as tendências, incorporando e revalorizando os compositores tradicionais como Nélson Cavaquinho, Adoniram Barbosa e Cartola (falecido em 1980):

"Bate outra vez
Com a esperança o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim...
[...]"
(As Rosas não Falam, de Cartola)

Também neste período, sobretudo na década de 1970, a juventude passou a buscar novas maneiras de veicular sua produção. Surgiu a chamada "geração mimeógrafo", jovens poetas e contistas produzindo e vendendo suas próprias obras, furando o bloqueio das grandes editoras. Na música, revalorizou-se um gênero tradicional como o chorinho e multiplicaram-se os grupos jovens, superando-se a fase em que imperava o iê-iê-iê. Criou-se uma nova forma de fazer cinema, com as máquinas Super-8.

Tudo isso - essa forma "marginal" que as camadas médias intelectuais passaram a utilizar para fazer arte - tinha sua contrapartida em fenômenos também recentes, no que se refere à cultura popular: o do futebol e o das escolas de samba. Estas duas formas de manifestação cultural tinham, cada vez mais, perdido suas raízes autenticamente populares e sido incorporadas a esquemas "industriais" de produção, através do controle financeiro dos grandes clubes e federações esportivas, no caso do futebol, e do controle por contraventores, no caso das escolas de samba. Apesar disso, tanto uma como as outras não deixam de ser elementos importantes de manifestação cultural das camadas populares brasileiras.

A cultura nacional, enfim, procurava se afirmar, no meio de todas essas influências e contra-influências. Podia, às vezes, cair um pouco, diante de golpes mais fortes. Mas, como diz aquele samba, "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima..."

ALENCAR, Chico et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 412-414.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Por que globalizar a cultura? [II- Uma revolução cultural rica e abortada]

Cena do filme Deus e o diabo na terra do Sol, dir. Glauber Rocha

Houve um momento em que se reagiu contra essa penetração ideológica estrangeira.

Foi nas décadas de 1950 e 1960 quando o Cinema Novo produziu algumas películas marcantes. Nelas, havia grande preocupação com o conteúdo social. Foram feitos filmes que alcançaram projeção internacional.

É o caso de Rio, 40 graus e Rio, Zona Norte. Ambos tratam da população mais pobre da cidade do Rio de Janeiro. Tiveram a direção de Nelson Pereira dos Santos. Como esquecer O pagador de promessas? Nele, Anselmo Duarte conta a história do caboclo Zé do Burro. É um tema nacional porque mostra o sincretismo religioso dos caboclos e a intransigência da Igreja Católica.

Na época, Glauber Rocha dizia: "Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça." Quem sabe você já assistiu a uma das suas grandes realizações, chamada Deus e o diabo na terra do sol?

Clubes de cinema, congressos e entidades como o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes, lutaram pela valorização de questões nacionais! [...]

O teatro igualmente deu sua contribuição. Multiplicaram-se os teatros de bolso, cobrando ingressos mais baratos. O Tablado, de Maria Clara Machado, o Teatro de Arena, de Gianfrancesco Guarnieri, e o Grupo Oficina valorizaram antigos e novos autores de peças nacionais. Apresentaram muitos textos políticos!

Dessa época são duas das maiores peças teatrais produzidas entre nós: Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, e Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho, o popular Vianinha.

Vianinha, com João das Neves, Augusto Boal e outros, fundou o CPC, em dezembro de 1961. Esse órgão da UNE foi um dos focos dessa revolução cultural. Peças teatrais foram levadas aos sindicatos. Fizeram-se documentários abordando questões econômicas e sociais da realidade brasileira. Distribuíram-se livros, discos e revistas tratando da dívida externa, da reforma agrária e do dia a dia do brasileiro. Editaram-se livros de poesia e de literatura de cordel. Músicas de protesto, como Subdesenvolvido e O povo canta, foram popularizadas.

Essa renovação da cultura brasileira sob uma visão nacional também se deu na revalorização do samba. Muito significativa é a crítica apresentada por Wilson Batista e Roberto Martins. Está presente no samba Pedreiro Waldemar. Veja a letra:

Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece
mas eu vou lhe apresentar.
De madrugada toma o trem da circular
faz tanta coisa e não tem casa pra morar.

Em 1960, uma autoridade da cidade do Rio de Janeiro propôs fossem as favelas pintadas. Considerando serem inevitáveis, os barracos nela existentes deveriam ser coloridos. De imediato, Jota Júnior e Oldemar Magalhães deram a resposta:

Favela amarela...
Ironia da vida.
Pintem a favela
Façam aquarela
Da miséria colorida!

Este samba, "Favela amarela", foi bastante cantado no Carnaval de 1960.

Aí veio a longa noite dos generais: a ditadura militar.

A UNE foi fechada. O CPC acabou. A censura e a repressão física chegaram. Muitos acabaram presos. Essa renovação foi sufocada.

Mesmo assim, Zé Kéti ainda conseguiu divulgar seu protesto no samba "Opinião":

Podem me prender.
Podem me bater.
Podem até deixar-me sem comer
que eu não mudo de opinião!

[...] Apesar da influência da Jovem Guarda, foi rica a produção de melodias ligadas às tradições brasileiras. Nos festivais de música popular, realizados nas emissoras de televisão, havia verdadeira guerra entre os sambas e as músicas mais ou menos politizadas. Como titular de programa da TV Record, de São Paulo, desde 1969 destacou-se a Jovem Guarda. Dela participavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia e outros. Em suas músicas, as letras eram românticas ou reproduziam as angústias da classe média. Muitas delas foram feitas para ganhar festivais, pois o grupo também participou do Festival da Música Popular Brasileira, em 1967.

Essa corrente tinha letras despolitizadas. Era um verdadeiro contraste com as músicas de protesto.

De que vale o céu azul
E o sol sempre a brilhar
Se você não vem
E eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você
me aqueça neste inverno
e que tudo mais vá pro inferno.
(Quero que vá tudo pro inferno, canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Outra linha musical "tinha como características a marca regional, o acento nordestino e a ausência de conotação urbana". Essa análise é de Martha San Juan França. [...]

[...]

Foi nesse contexto que explodiu uma reação de grande impacto: o Tropicalismo. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e outros artistas, muitos deles baianos, provocaram verdadeiro escândalo. Por vezes, apresentavam-se acompanhados de conjuntos tocando guitarras elétricas.

Na História social da música popular brasileira, o crítico José Ramos Tinhorão afirma que os tropicalistas renunciaram a qualquer questionamento político-ideológico. Textualmente declara que os tropicalistas "acabaram chegando à tese que repetia no plano cultural a do governo militar no plano político-econômico. Ou seja, a tese da conquista da modernidade pelo simples alinhamento às características do modelo importador de pacotes tecnológicos prontos para serem montados no palco".

[...]

Mesmo assim, Alegria, alegria, de Caetano, e Domingo no parque, de Gil, foram bastante populares na época, principalmente entre os jovens. Para algumas pessoas, aquela música de Caetano era uma crítica à alienação.

Apesar da feroz censura, a resistência à ditadura militar e aos estrangeirismos produziu melodias de grande sensibilidade e beleza. As críticas não deixavam dúvidas da posição política dos autores.

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente, olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo o troco...
(Pesadelo, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós)

Mas as expressões máximas desse período foram certamente Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda, Torquato Neto, Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, Ivan Lins, Taiguara e Jards Macalé. Esses artistas chegaram a ser considerados malditos. Tiveram músicas censuradas. Alguns partiram para o exílio.

[...]

Vandré compôs uma melodia cheia de frases-denúncias e de estímulo à luta: Caminhando - Pra não dizer que não falei de flores. Foi uma loucura em um dos festivais da canção. Centenas de pessoas logo repetiam a letra, entoando a melodia.

Caminhando e cantando
E seguindo a canção.
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos,
De armas na mão.
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição.
De morrer pela pátria
E viver sem razão [...]

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer.

Militares até pediram a prisão de Vandré.

Felizmente, a sensibilidade e a coragem de um punhado de artistas resgatavam os valores e a riqueza da cultura nacional. Eles e muitos outros continuaram a resistir. A denunciar a violência existente.

[...]

Quase ao findar a década de 1970, a censura deixou passar uma canção marcante. Melodia belíssima. Notável interpretação de Elis Regina. Letra de alegorias, mal disfarçando as denúncias e críticas à ditadura existente. Às atrocidades cometidas. Às mulheres viúvas de opositores assassinados. Uma mensagem plena de esperança no amanhã. Na volta da democracia. No retorno daqueles que partiram. Exilados ou banidos.

O bêbado e o equilibrista, canção de Aldir Blanc e João Bosco, em 1979, tornou-se verdadeiro hino do Movimento pela Anistia.

E nuvens
lá no mata-borrão do céu
chupavam manchas torturadas,
que sufoco!
[...] Chora
a nossa pátria-mãe gentil
[...] com a volta do irmão do Henfil
com tanta gente que partiu
num rabo de foguete.
[...] Azar,
a esperança é equilibrista,
sabe que o show de todo artista
tem que continuar.

É fundamental multiplicarmos o número de artistas cada vez mais conscientizados da necessidade de lutar. Lutar contra a globalização da cultura e da sociedade brasileira.

Globalização que, na realidade, é a nova face do imperialismo.

[...]

Não podemos contar com a grande maioria das autoridades. Ela está preocupada em subvencionar os Rock' in Rio, Hollywood Rock, Free Jazz. O domínio da opinião pública pelos meios de comunicação e gravadoras multinacionais busca impor sons musicais contaminados pelo popularesco.

As emissoras de rádio e televisão inundam o país com os sons de conjuntos impregnados por esses sons. [...]

[...] a política dos meios de comunicação não visa apenas a compor gostos, modas. Criar sucessos. Seu objetivo real é alienar. [...]

[...]

Apesar dessa massificação o rap tem invadido as cidades, descendo do morro ou da periferia, com músicas de duvidosa qualidade. Algumas delas, no entanto, constituem verdadeiros protestos políticos e sociais.

Felizmente um Zeca Pagodinho, um Bezerra da Silva, uma Beth Carvalho, um Renato Russo, um Paulinho da Viola, um Nelson Sargento ainda sustentam a bandeira da genuína MPB. Sem perder a beleza da melodia, nem a malemolência do ritmo, suas músicas contêm frases-denúncia da realidade brasileira.

A injustiça impera na face
da Terra
A miséria sempre gera guerra
Por isso existem os conflitos
sociais
E as nossas crianças nas ruas
estão desamparadas
(Juiz de toda humanidade, samba de Bicalho e Capri. Canta Bezerra da Silva)

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 166-175.

quinta-feira, 22 de março de 2012

África


"[...] Minha negritude não é uma pedra / E sua surdez arremessada contra o clamor do dia / Minha negritude não é uma gota d`água morta  / Sobre o óleo morto da terra  / Minha negritude também não é uma torre ou uma catedral  / Ela mergulha na carne / vermelha do solo  / Ela mergulha na carne ardente do céu  / Minha negritude perfura a / aflição de seu sossego correto." [Aimé Césaire, poeta da "Negritude"]