"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Tempos Modernos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tempos Modernos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de junho de 2017

A Revolta dos Intelectuais

Tortura usada contra bruxas acusadas, 1577.
Johann Jakob Wick

Exaltaríamos o Renascimento na Itália além dos limites se não observássemos que ali, como em outros lugares, a civilização era da minoria, pela minoria e para a minoria.

O homem simples e comum lavrava a terra, puxava carroças ou carregava fardos, labutava do amanhcer ao pôr-do-sol, e à noite não tinha mais forças para pensar; deixava os outros pensarem por ele, assim como os outros o faziam trabalhar. Recebia suas opiniões, religião e respostas aos enigmas da vida do próprio ambiente em que vivia ou herdava-as juntamente com a morada dos ancestrais. Aceitava não somente as fascinantes, confortadoras, inspiradoras e terríveis maravilhas da teologia tradicional, que diariamente lhe eram inculcadas no espírito pelo contágio ou pelas artes, mas acrescentava-lhes demonologia, feitiçaria, presságios, magia, adivinhação e astrologia, compondo a metafísica popular que a Igreja condenava como sendo mais perturbadora do que a heresia. Maquiavel, embora cético em religião, sugeriu a possibilidade de que "o ar esteja povoado de espíritos" e declarou-se convicto de que os grandes acontecimentos são anunciados por sortilégios, profecias, revelações e "sinais no céu".

Entre o povo era particularmente difundida a noção de que Satã e um certo número de demônios menores pairavam no ar e podiam usar poderes sobrenaturais para ajudar os seus fiéis devotos. Uma certa classe de mulheres declarava ter acesso a esses demônios, e através deles a conhecimentos e poderes sobrenaturais. Em 1484, uma bula do Papa Inocêncio VIII proibiu que se recorresse a tais feiticeiras e solicitou à Inquisição que ficasse alerta a essas práticas. O papa não especificou qualquer punição em particular, mas a Inquisição, seguindo o mandamento do Antigo Testamento - "não permitirás que uma feiticeira viva" - fez da feitiçaria um crime capital; e em 1485, só em Como quarenta e uma mulheres foram queimadas por feitiçaria. Essas execuções se multiplicaram: cento e quarenta em Brescia, em 1486; e outras trezentas em Como em 1514, no pontificado do refinado e gentil Leão X.

Queima de três bruxas em Baden, Suíca, 1585. 
Johann Jakob Wick

Nesse ambiente, a ciência marcou passo; na verdade, ficou abaixo do nível que alcançara com Alberto Magno no século XIII. Não pôde desfrutar, como a arte, do apoio unido do laicato e da Igreja. A única ciência próspera foi a medicina, pois pela saúde os homens sacrificariam qualquer coisa menos o apetite. Os médicos foram condenados pelos elevados honorários, e invejados pela sua alta posição social e pelas espalhafatosas roupas escarlates. Destruíram a hostilidade medieval para com a dissecação de cadáveres; às vezes, eclesiásticos os ajudavam. Em 1319, estudantes de medicina em Bolonha roubaram um cadáver no cemitério e levaram-no a um professor da universidade, que o dissecou para instruí-los; foram processados, porém declarados inocentes; e daí em diante as autoridades civis fizeram vista grossa ao uso "em anatomia" de criminosos executados e não reivindicados. Logo a dissecação era praticada em todas as escolas médicas da Itália, inclusive nas escolas papais de Roma. Ainda assim, por volta de 1500, a anatomia só alcançara o conhecimento que Hipócrates e Galeno possuíam na Antiguidade grega e romana.

A cirurgia ficou famosa rapidamente quando o seu repertório de operações e instrumentos aproximou-se da variedade e da competência das antigas práticas egípcias. Por volta de 1500, muitos médicos europeus assimilaram o ideal hipocrático de aliar filosofia à medicina; com facilidade passavam de um assunto a outro, no estudo e no ensino; e alguns, por serem também cavalheiros, constituíram a nata da época.

DURANT, Will. O livro de ouro dos heróis da história. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 307-9.

sábado, 21 de janeiro de 2017

A história da História Antiga 2: A criação do Antigo

Templo de Vesta, Heinrich Bürkel

A partir do século XII, esses textos passaram a ser cada vez mais procurados e difundiu-se, a partir da Itália, a ideia de que eles representavam algo dferente da cultura contemporânea: eram a herança escrita dos antigos. Muitos pensadores, poetas, artistas e curiosos da natureza começaram a debruçar-se sobre esses textos, extraindo os livros originais das grandes compilações manuscritas. A ideia de que tinha havido um mundo "antigo", anterior ao cristianismo, com uma cultura rica e singular, difundiu-se, aos poucos, pelas cortes europeias e pelos literatos. Essa cultura laica, livre do domínio da Igreja, parecia muito adequada aos novos tempos.

Fornecia novos padrões estéticos, novas formas de pensar as relações entre sociedade e Estado, de valorizar a riqueza e o comércio, de projetar novos futuros. Com a divulgação da imprensa, no século XIV, os grandes livros do "mundo antigo" foram reeditados e voltaram à vida. Autores como Homero, Virgílio, Aristóteles, Plutarco, Tito Lívio, Tácito e muitos outros passaram a fazer parte da cultura erudita por quase todo o oeste da Europa. A queda de Constantinopla para os turcos, no século XV, acentuou a redescoberta de textos gregos, ao mesmo tempo que colocou, de forma dramática, a oposição entre a Europa cristã e clássica e o mundo islâmico.

As antigas ruínas, às quais não se prestava atenção, passaram a ser consideradas testemunhos desse mundo "antigo". Edifícios  foram descritos ou desenhados, estátuas e pinturas foram resgatadas, inscrições foram copiadas, moedas foram colecionadas e formaram-se as primeiras coleções de objetos "antigos". O impacto da cultura erudita, dos sábios e das cortes europeias, foi imenso. É a esse processo que se dá o nome equivocado de Renascimento. Não foi um renascer passivo, mas uma reconstrução profunda da memória, com objetivos bem presentes: rejeitar uma parte do passado mais recente, definindo-o como "Idade Média" ou "Idade das Trevas", para construir uma nova identidade, voltada para o presente e para o futuro.

Todos os grandes cientistas e artistas da Europa moderna viveram intensamente esse processo e contribuíram para ele: Copernico, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Cristóvão Colombo, Newton, Galileu, Thomas Hobbes, Camões, Shakespeare seriam impensáveis sem os "antigos". E a lista é infindável. A opção de reconstruir essa memória deixou uma marca profunda no que viria a ser a moderna concepção de Ocidente. A criação do "antigo" foi uma verdadeira revolução cultural que, aos poucos, atingiu todas as camadas da população. O "mundo antigo" tornou-se, assim, um participante ativo e necessário de outras revoluções: políticas, sociais e econômicas, cujas consequências sentimos até hoje.

A redescoberta do mundo dos antigos não conduziu, de imediato, à produção de uma História Antiga como a entendemos hoje. Um respeito profundo pelos textos em grego e latim, assim como pela Bíblia, impedia a leitura crítica dos textos antigos. Os famosos Discursos sobre a História Universal, escritos pelo francês Jacques Bossuet no século XVII, começavam com Adão e terminavam com Carlos Magno, com o qual findava a História Antiga. Não havia, ainda, uma História científica. Essa começou a se firmar entre os séculos XVII e XVIII. Primeiramente com uma batalha cultural: a dos modernos contra os antigos. Esta se deu em todos os campos do conhecimento, das ciências e das artes. Foi o período da cultura europeia que se costuma chamar de Iluminismo.

GUARINELLO, Luiz Norberto. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013. p. 18-20.

sábado, 4 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 4

[Consequências das iniciativas colonizadoras]


Vista de Sevilha, porta de entrada das Índias, ca. 1576-1600. Alonso Sánchez Coello

Assim que, a partir do século XVI, foram-se desenvolvendo as iniciativas colonizadoras de várias nações europeias, grandes transformações políticas, econômicas, sociais e culturais processaram-se na Europa. Ao mesmo tempo o eixo do comércio deslocou-se dos portos do Mediterrâneo para os do Atlântico. Em Lisboa, Sevilha, Cádiz os produtos e mercadorias coloniais eram comerciados e seguiam para os portos de Antuérpia, principal praça de mercado, Amsterdã, Bordeaux, Londres.

A enorme quantidade de ouro e de prata, introduzida na Europa pelos espanhóis, deu larga projeção política à Espanha permitindo-lhe durante um século custear guerras e comprar alianças com outros países.

Entretanto, começaram a esboçar-se acentuadas rivalidades entre as nações colonizadoras que resultariam em uma série de conflitos internacionais. Por outro lado, a grande quantidade de ouro e de prata derramando-se por toda a Europa provocou importantes modificações econômicas: a cunhagem de moedas, em larga escala, acarretou a desvalorização do dinheiro e uma assustadora alta de preços, particularmente dos produtos agrícolas.

A alta de preços* prejudicou sobretudo os nobres que, participando de questões e conflitos políticos, não controlavam a produção de suas terras; prejudicou também os trabalhadores do campo e da cidade cujos salários não acompanhavam o custo de vida. Beneficiaram-se todos aqueles que produziam, trocavam ou vendiam: os grandes proprietários de terras, os mestres-artesãos, os banqueiros, os comerciantes, isto é, a burguesia.

* A causa principal, quase única, da alta dos preços (que ninguém até agora mencionou) é a abundância do ouro e da prata existente hoje em dia neste reino em escala bem maior do que há quatrocentos anos.

Mas, diria alguém, de onde pode ter vindo, desde então, assim tanto ouro e tanta prata? [...] Os castelhanos, submetendo ao seu poder as novas terras ricas em ouro e prata, abarrotam a Espanha.

Ora, a Espanha que só vive graças à França, vendo-se inevitavelmente forçadas a vir buscar aqui cereais, linhos, tecidos, papel, corantes, livros, artefatos de madeira e todos os tipos de manufaturas, vai procurar para nós, nos confins do mundo, o ouro e a prata. (Jean Bodin, Da República)

Paralelamente a essas transformações econômicas e sociais, a Europa enriqueceu-se culturalmente, ampliando seus conhecimentos a respeito de astros, continentes, plantas até então desconhecidas vindas da América, a respeito de raças humanas e de civilizações até então ignoradas.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 188-9.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 3

[A colonização europeia do continente americano]


Carta geográfica da Nova França, 1612, Samuel de Champlain 

Foi nas Américas que a iniciativa colonizadora dos europeus tomou maior impulso. As riquezas procuradas nas Índias e finalmente descobertas no novo continente atraíram a Europa cada vez mais para as terras do Atlântico.

Franceses
Na América do Norte ocupam, no início do século XVII, regiões do atual Canadá. Posteriormente fundam Québec (1608) e Montreal (1642). Em meados do século XVII expandem-se em direção ao sul dos atuais EUA, descendo o rio Mississipi até o Golfo do México; fundam a colônia da Luisiana, em homenagem a Luís XIII, rei da França, e a cidade de Nova Orléans (1731).

Na América Central estabelecem-se, a partir dos meados do século XVII, nas Antilhas (atuais Haiti, República Dominicana, Guadalupe, Martinica e em outras pequenas ilhas).

Na América do Sul um grupo de protestantes franceses, fugindo a perseguições religiosas em seu país, tentam, sem êxito, estabelecer-se no Brasil fundando a França Antártica (1555) na Ilha de Villegaignon, na baía de Guanabara. Outro grupo análogo funda (1612), no Estado do Maranhão, a França Equinocial, na ilha que batizaram de São Luís em honra ao rei Luís XIII. Expulsos do Brasil, fixam-se na atual Guiana Francesa, fundando Caiena.

Na América do Norte, no Canadá, incorporando à Coroa com o nome de Nova França, exploram intenso comércio de peles, a caça, a pecuária, a agricultura produzindo trigo e forragem (cereais) e gramíneas para alimentação de animais. Na Luisiana cultivam arroz e tabaco.

Nas Antilhas cultivam tabaco, cana-de-açúcar, algodão, em seguida café, cacau, anileira (para produção de substância corante), servindo-se, como na Luisiana, do trabalho de escravos africanos. O comércio de produtos coloniais era monopólio de portos franceses do Atlântico (Ruão, Nantes, La Rochelle e Bordeaux).

Ingleses
Na América do Norte fundam (1584) a primeira colônia que recebeu o nome de Virgínia em honra à rainha Elisabete I, cognominada a Rainha-Virgem.

Um grupo de protestantes ingleses, chamados puritanos, fugindo a perseguições religiosas em seu país, emigram para o continente americano fundando Plymouth e a colônia de Massachusetts. Sucedem-se vários grupos colonizadores, de católicos e de protestantes, dando origem a novas colônias, as quais se agrupam em uma confederação. Até meados do século XVIII a confederação englobava 13 colônias, controladas pela Coroa, mas com certa autonomia local. No século XVIII, como ocorreu na Ásia, os ingleses entram em choque com os colonos franceses e a França é obrigada a renunciar a suas pretensões na América do Norte.

Na América Central tomam pé, até o século XVIII, nas Antilhas ocupando Barbados, as Bahamas, as Bermudas, Jamaica, Antígua e outras.

Na América do Sul estabelecem-se no século XVIII nas Guianas.

Na América do Norte, nas colônias setentrionais (New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island, Connecticut) desenvolvem, em pequenas propriedades, culturas várias (milho, trigo, legumes, macieiras). Dedicam-se à criação de gado, à pesca, à extração de madeiras, à produção de peixe salgado, carne-seca e rum. Nas colônias do centro (Nova York, New Jersey, Pennsylvania, Delaware) desenvolvem, em pequenas e grandes propriedades, o cultivo do trigo, a produção de farinhas, a extração de madeiras, a construção de navios. Nesta região estabelecem-se os comerciantes. Nas colônias do sul (Maryland, Virgínia. Carolina do Sul, Carolina do Norte, Geórgia) domina a grande propriedade, em base de trabalho escravo. Cultivam-se o tabaco, o arroz, mais tarde o algodão (séc. XVIII), e cria-se gado.

Nas Antilhas, com o concurso da mão-de-obra africana, desenvolvem as lavouras de cana-de-açúcar e mantêm intenso comércio com a América espanhola e suas próprias colônias na América do Norte.

Holandeses
Na América do Norte um grupo de protestantes, fugindo a perseguições religiosas nos Países Baixos, funda (1623) o núcleo de Nova Amsterdã (origem de Nova York), que perdem, logo depois (1664), para os ingleses.

Na América Central estabelecem-se nas Antilhas, na Ilha de Curaçao e em outras menores.

Na América do Sul, através da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, tentam estabelecer-se no nordeste do Brasil, antes na Bahia (1624), depois em Pernambuco (1630), onde fundam a colônia da Nova Holanda, de onde são expulsos em 1654. Os holandeses conseguem fixar-se nas Guianas (séc. XVII).

A base da economia holandesa era a cana-de-açúcar, cultura desenvolvida nas Antilhas.

Espanhóis
Na América do Norte, a partir da conquista de Cortés no México, penetram no século XVI em vastas zonas do sul e sudoeste dos atuais EUA (Califórnia, Novo México, Texas, Flórida), formando o Vice-Reinado da Nova Espanha, com capital Cidade do México.

Na América Central ocupam (séc. XVI) praticamente toda a área do continente, dominam nas Antilhas Cuba, Porto Rico, Trinidad e Jamaica (esta última perdida para os ingleses no séc. XVII).

Na América do Sul, a partir da conquista de Pizarro no Peru, ocupam todas as terras ao longo do Oceano Pacífico (à exceção da Patagônia), formando o Vice-Reinado do Peru, compreendendo territórios dos atuais Peru, Bolívia e Chile, com capital em Lima. No século XVIII criam o Vice-Reinado de Nova Granada, compreendendo territórios dos atuais Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá, com capital Bogotá. Estabelecem-se em regiões dos atuais Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, formando o Vice-Reinado do Prata, com capital Buenos Aires.

A penetração do continente americano foi estimulada pela busca e exploração de jazidas de ouro e de prata. Já a partir do século XVI exploram em larga escala as minas de ouro do México e as de prata de Potosí (na atual Bolívia). Na região dos pampas argentinos introduzem o gado bovino e ovino (carneiros), desenvolvendo o comércio de lã e de couro. Desenvolvem também a agricultura explorando plantas nativas (tabaco, milho, mandioca, algodão) e outras provenientes da Europa (limoeiro, laranjeira, vinha, trigo, cânhamo) ou do Oriente (amoreira, cana-de-açúcar, cafeeiro).

Portugueses
Na América do Sul possuem regiões do atual Brasil, com Salvador como capital. Até o fim do século XVIII ultrapassam a linha de Tordesilhas, penetram e ocupam vastos territórios, dando à colônia uma forma geográfica que correspondia aproximadamente à forma do Brasil atual, transferindo a capital para o Rio de Janeiro.

A base da economia portuguesa era essencialmente agrícola. De início a extração da madeira pau-brasil, em seguida o plantio intensivo da cana-de-açúcar. Desenvolvem o cultivo de plantas nativas (milho, mandioca, tabaco, algodão, cacau, baunilha, canela); introduzem o arroz e o linho. Desenvolvem também, a partir do século XVI, a criação de gado bovino e cavalar em várias regiões de sua colônia; iniciam o comércio de couros. No século XVII descobrem e exploram jazidas de ouro (no atual Estado de Minas Gerais) e de diamantes (nos atuais Estados de Goiás e de Mato Grosso).

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 186-188.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 2

[Núcleos europeus no continente asiático]


Vista de Goa em 1509. Atlas Braun e Hogenberg, 1600 

A rota marítima para as Índias, aberta pelos portugueses, e seus vários entrepostos instalados em terras asiáticas, atraíram para o Extremo Oriente outros povos europeus. Primeiramente os holandeses, depois os ingleses e franceses retomaram as rotas portuguesas. A penetração colonizadora inglesa conseguiu impor-se à francesa lançando, até o fim do século XVIII, a base de um futuro império colonial na Índia.


Portugueses
Controlam, até o século XVII, o comércio das Índias Orientais através de entrepostos em Málaca, Java, Sumatra, nas Molucas, da possessão de Macau, das fortalezas de Goa e Diu.

Holandeses
Fundam a Companhia Holandesa das Índias Orientais (início do século XVII). Ocupam Java, fundando Batávia; abrem entrepostos nas Molucas, Célebes, em Sumatra, Málaca, na China e no Japão; ocupam Ceilão, isto é, estabelecem-se nas mesmas regiões em que se achavam os portugueses.

Ingleses
Confiam a iniciativa colonizadora a companhias particulares, controladas pela coroa, como a Companhia Inglesa das Índias Orientais (início do século XVII). Impõem-se na Índia, em Calcutá, Bombaim, Madras e, no fim do século XVIII, entram em conflito com os franceses.

Franceses
Fundam, em meados do século XVII, a Companhia Francesa das Índias; estabelecem entrepostos no Oceano Índico, nas ilhas Bourbon e Maurício; adquirem o território indiano de Pondichéry; abrem entrepostos em vários pontos da costa indiana. Em fins do século XVIII, após disputa com os ingleses, renunciam a maiores pretensões na Índia.

Espanhóis
Ampliam sua iniciativa colonizadora nas Ilhas Filipinas.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 185.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 1

[Os primeiros europeus no continente africano]


Mapa do século XVI mostrando as reivindicações portuguesas para a Guiné e São Jorge da Mina. Cartógrafo desconhecido

Aos descobrimentos geográficos do século XV, que revelaram à Europa novas rotas marítimas*, novas terras, seguiu-se, até o século XVIII, uma vasta iniciativa de penetração colonizadora da qual participaram, por motivos econômicos e políticos, todos os grandes Estados europeus.

* O tráfico do Poente (o oeste, o Atlântico) era totalmente desconhecido antes de os espanhóis terem velejado os mares das Índias [...] e de os portugueses, singrando o alto-mar com a bússola, terem-se tornado donos do Golfo Pérsico e, em parte, do Mar Vermelho, e conseguido assim carregar suas naus com as riquezas das Índias e da Arábia vicejante, frustrando os venezianos e os genoveses que iam buscar suas mercadorias no Egito e na Síria, até onde eram trazidas pelas caravanas árabes e persas e vendidas a nós parceladamente e a peso de ouro. (Jean Bodin, Da República)

A penetração tinha como finalidade explorar riquezas minerais, aproveitar riquezas vegetais e estabelecer núcleos europeus em outros continentes. [...] esta iniciativa das nações europeias trouxe enorme transformação econômica e permitiu, alguns séculos mais tarde, o aparecimento, no cenário mundial, de novos países os quais passariam a disputar, com a Europa, a supremacia econômica e política.

As escalas marítimas dos portugueses, ao longo de toda a costa africana, despertaram o interesse dos holandeses e franceses. Enquanto estes se limitaram inicialmente a estabelecer entrepostos comerciais, os portugueses passaram à exploração do comércio escravista, aproveitando-se de um costume já existente entre algumas tribos africanas. O tráfico de escravos, que os árabes já haviam desenvolvido, intensificaram-se a partir do século XVI promovido pelos portugueses e, em seguida, pelos ingleses que se encarregaram de introduzi-los em suas colônias nas Américas. Os espanhóis, embora não participando diretamente do tráfico, compraram a ingleses e portugueses os escravos que introduziram em suas colônias americanas.

Portugueses
Mantêm entrepostos comerciais na Ilha de Zanzibar e em Moçambique, onde iniciam a exploração de jazidas minerais. No século XVII fundam a colônia de Angola.

Holandeses
Estabelecem escalas para seus navios mercantes, fundam em meados do século XVII a colônia do Cabo.

Franceses
No século XVII abrem entrepostos na desembocadura do rio Senegal e na Ilha de Madagascar.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 184.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

As cidades europeias na Idade Moderna

Uma cena de mercado italiano com ruínas de um templo romano, Jan van Buken

Entre o século XVI e o século XVIII, tomou forma na Europa um novo complexo de traços culturais. Tanto a forma quanto o conteúdo da vida urbana, em consequência, foram radicalmente alterados. O novo padrão de existência brotava de uma nova economia, a do capitalismo mercantilista; de uma nova estrutura política, principalmente a do despotismo ou da oligarquia centralizada, habitualmente personificada num Estado nacional; de uma nova forma ideológica, que derivava da física mecanicista, cujos postulados fundamentais haviam sido lançados muito tempo antes, no exército e no mosteiro.

[...]

A tendência fundamental dessa nova ordem só veio a se tornar inteiramente visível no século XVII: então, todos os aspectos da vida afastaram-se do pólo medieval e se reuniram sob um novo signo, o signo do príncipe. A obra de Maquiavel, O príncipe, proporciona mais que uma pista, tanto para a política quanto para o plano da nova cidade, e Descartes, vindo mais tarde, reinterpretará o mundo da ciência em termos da ordem unificada da cidade barroca. No século XVII, as instruções de precursores como Alberti foram finalmente realizadas no estilo barroco de vida, no planejamento barroco, no jardim barroco e na cidade barroca.

[...]

Os símbolos desse novo movimento são a rua reta, a ininterrupta linha horizontal de tetos, o arco redondo e a repetição de elementos uniformes, cornijas, lintéis, janelas e colunas na fachada. Alberti sugeriu que as ruas "torna-se-ão muito mais nobres se as portas forem construídas todas segundo o mesmo modelo, e as casas de cada lado ficarem em linha uniforme, não sendo qualquer delas mais alta que as outras". Essa clareza e simplicidade foram engrandecidas pela fachada bidimensional e pela abordagem frontal; mas a nova ordem, enquanto ainda vivia, jamais obedecida com qualquer coerência absoluta, como a que foi introduzida pelo século XVII, com suas rigorosas regras de composição, suas intermináveis avenidas e suas regulamentações legais uniformes. Na verdade, justamente nessa concessão, nessa fuga à arregimentação, é que os novos construtores renascentistas provam sua dívida para com a ordem medieval. A altura da nova biblioteca de Sansovino, na Piazza San Marco, não é exatamente a mesma do Palácio Ducal. Assim também a altura das edificações ao redor da Piazza Santíssima Annunziatta, em Florença, é apenas aproximadamente a mesma. Por mais rigorosa que seja a ordem da rua renascentista, não chega a ponto de ser rígida e opressiva.

MUNFORD, Lewis. A estrutura do poder barroco. In: A Cidade na história. Belo Horizonte: Itatiaia, 1965. p. 445-449.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O termo "Tempos Modernos": uma visão eurocêntrica da História?

Embora, na França, a expressão "Tempos Modernos" seja empregada para, geralmente, designar os séculos XVI, XVII e XVIII, uma explicação é necessária. A consciência de se haver entrado numa era nova foi percebida na Europa Ocidental no decorrer do século XVI.

Todavia, os historiadores estão longe de concordar sobre os limites cronológicos desta era nova. Na França [...] fazemo-la iniciar-se, em geral, em 1492, com a "descoberta" da América. Esta data apresenta o inconveniente de situar-se no meio do Renascimento, que abre os "Tempos Modernos". Certos historiadores, considerando que a Renascença, principia com o despertar das civilizações urbanas no Ocidente se inclinariam por um corte situado no começo do século XIII. Por causa disto, na Inglaterra, prefere-se fixar o início dos "Tempos Modernos" apenas quando a Renascença é dado como realizada, ou seja por volta do ano de 1600.


Carta náutica de Fernão Vaz Dourado, (c. 1520 - c. 1580), integrante de um atlas desenhado em 1571.

Voltados para o progresso, os "Tempos Modernos" não deveriam ter um fim. Entretanto, a historiografia francesa ficou impressionada com o desmoronamento da antiga monarquia, caracterizada por um regime, não somente político, mas ainda econômico e social, que se torna o "Antigo Regime" em relação ao mundo que se crê nascido com a declaração dos direitos do homem de 1789. Para designar este mundo considerado como novo, foi preciso encontrar um outro termo. Os historiadores franceses empregaram o de "contemporâneo", palavra que adquire aqui um sentido particular. Destarte, o ponto de partida da época contemporânea permaneceu curiosamente fixo, ao passo que os "Tempos Modernos", fixados em 1789, se afastam cada vez mais no passado.

Conquanto menos marcados que os franceses pela Revolução, os historiadores dos outros países da Europa distinguem também, em geral, um antigo regime e uma época mais recente, mas as denominações são diferentes. Como é lógico, o termo contemporâneo, para eles, é móvel, pois liga ao presente um passado todo próximo. O termo "moderno" designa, então, um período não acabado, mas incessantemente prolongado. Por causa disto, foram levados a introduzir divisões nesses "Tempos Modernos" destinados a se prolongarem. Os alemães distinguem Frühere Neuzeit e Spät Neuzeit, e os ingleses Early Modern Times e Later Modern Times... Estes termos, certamente menos rígidos que os nossos, se aplicam de maneira precisa ao antigo regime e ao regime novo? Neste caso, sua delimitação variaria segundo os países: 1848, para a maioria dos países da Europa Central; 1860 ou 1917 para a Rússia... De fato, os historiadores ocidentais reconhecem, geralmente, que o fim do século XVIII marca uma etapa importante na história de seus países em consequência do contragolpe das revoluções americana e francesa.

Trata-se, poder-se-á dizer, de modos de ver europeucentristas. Povos que hoje constituem mais da metade da humanidade não foram, em absoluto, subvertidos, no fim do século XVIII e no princípio do XIX, pelos grandes movimentos que afetaram a Europa e seus prolongamentos coloniais. Devemos negligenciar sua presença numa periodização do passado? Eu não penso que este argumento seja de natureza a fazer afastar o fim do século XVIII como termo do nosso período. O Extremo Oriente ou a Índia não têm neste momento, e não terão durante algum tempo ainda, um papel propulsor de primeiro plano na evolução da humanidade.

Outra objeção: o começo do século XVI e o fim do XVIII não representam uma mudança importante na história econômica ou na das condições materiais da vida. O descobrimento da América e o acesso direto dos europeus às Índias só farão sentir seus efeitos no decurso do século XVI, e a revolução da máquina, exceto para a Inglaterra, se situa no decurso do século XIX. Podemos desprezar tais fatos?

É verdade que toda periodização é artificial. [...]

Quando abordamos [a] Antiguidade ou a Idade Média [...] sabemos de antemão que, para compreendermos, nos deveremos desterrar completamente, pois que nos acharemos em presença de um mundo em que os homens viam de maneira diferente da nossa o tempo, o espaço, o domínio da natureza, as relações entre gerações, famílias e classes sociais. [...] Ora, "o homem de Versalhes" está muito longe de nós. Que dizer do homem dos campos ou das pequenas cidades contemporâneas de Lutero? Pois não existe um homem dos Tempos Modernos. Estes três séculos vêem realizar-se uma verdadeira mudança da espécie humana, menos visível e menos precipitada, sem dúvida, que a que assistimos atualmente, porém assaz profunda, uma vez que é ela que prepara esta última. É preciso que nos submetamos a uma série de desterramentos para podermos compreender os homens destes três séculos [...].

Com efeito, no fim do século XV, entram em contato mundos que até então se tinham ignorado inteiramente. Ora, pela primeira vez na história, o homem constatou qual era a forma da Terra. Ele ainda não sabia que não mais havia descobertas a fazer no globo da mesma importância que a da América. Mas nós, que o sabemos, avaliamos melhor que os contemporâneos de Américo Vespucci a importância de seu tempo na História: o planeta realizou sua unidade.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 5-7.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Descobrimentos e Renascimento

Francisco Pizarro na ilha de Gallo, convidando seus soldados para cruzar a linha traçada no chão, se eles desejassem continuar sua expedição para o Peru, Juan B. Lepiani


A suposição de que a Terra era redonda e a necessidade de comprovação dessa hipótese através de uma viagem são um projeto tipicamente renascentista. [...]

Ao descobrir outras culturas, o homem do Renascimento hierarquizou-as: da civilização à barbárie. Nesse sentido, o humanista constitui-se a partir de uma vontade de domínio e poder sobre todos os povos do mundo.

Desenhar um mapa, construir o império, destruir outras culturas, impor a fé cristã, assinar obras de arte eram atitudes renascentistas.

A América - destruída e construída a partir do padrão europeu - transformava-se em lugar de comprovação da superioridade da cultura europeia. Era necessário construir uma igreja em cima de uma pirâmide indígena. Não podia ser ao lado.

A invenção da perspectiva na pintura é contemporânea às Grandes Navegações. Ao mesmo tempo em que o pintor estudava as possibilidades de criar a perfeição (reprodução) em seus desenhos, os cartógrafos procuravam mapear, com observância rigorosa, todo o globo terrestre. [...]

Os descobridores, ao realizarem sua obra de colonização construindo igrejas e outras edificações necessárias à conquista, e os artistas, pintando ou esculpindo na Europa, consideravam a existência de um único padrão de beleza, uma única religião verdadeira, uma cultura superior a todas as outras. Descobridores e artistas olhavam o mundo de um único ponto e a partir dele destruíam e construíam. [...]

O resultado desse grande esforço renascentista, dessa "plenitude", foi suporem possuir domínio sobre a vida e a morte das populações que consideravam bárbaras. A América conheceu a expressão mais violenta desse sonho de dominação.

Aqui, nesse Novo Mundo, grande parte da população foi morta por aqueles que necessitavam esculpir a sua cultura sobre as populações pré-colombianas. Não foram anos fáceis para a América. [...]

O colonizador, como se fosse um escultor, talhou a América na forma em que havia imaginado. Destruía pirâmides para construir igrejas, derrubava habitações para obter o desenho da praça ou o traçado desejado para as ruas, jogava pedras nos canais para que os cavalos pudessem circular melhor na cidade. Reconstruía-se tudo o que era possível para que o núcleo urbano lembrasse a Europa. [...]

Os indígenas aprendiam a pintar e a construir para que a América, cada dia mais, se apresentasse com as formas, as cores e a vida europeia. Uma multidão de artífices indígenas se esforçavam para imitar o desenho que viam em precárias reproduções trazidas pelos europeus.

Por todos esses motivos analisados, a harmonia presente nos quadros renascentistas transformava-se em desarmonia no Novo Mundo.

SILVA, Janice Theodoro da. Descobrimentos e Renascimento. São Paulo: Contexto, 1991. p. 56-58, 63-64.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Visões da história: o Renascimento

Retrato de Fra Luca Pacioli com um aluno, Jacopo de Barbari

Texto 1
[...] Há certas tendências que parecem permear todas as manifestações da cultura renascentista, como um esforço de metodização e racionalização tanto do real quanto do campo simbólico: uma ênfase contínua nas potencialidades, nos recursos e nos limites do corpo e do espírito humanos, um sabor especial pela liberdade e pelo ato libertador. [...]

Mas o campo da divergência é também prodigiosamente rico. Diferença no espaço, entre o Quattrocento italiano antigótico e o Renascimento flamengo, todo assentado sobre o gótico. Diferenças no tempo entre, por exemplo, a produção da arte italiana dos séculos XIV, XV e XVI. Diferenças simultâneas entre homens contemporâneos e conterrâneos, como Leonardo e Michelangelo [...]. É possível considerar como unidade homogênea um movimento que incorpora tanto Giordano Bruno quanto Inácio de Loyola, Rafael quanto Hieronymus Bosch, [...] Maquiavel quanto Erasmo de Rotterdam, Erasmo quanto Lutero? [...]

Não há, portanto, uma experiência histórica renascentista, há várias. Não há um Renascimento, há múltiplos. [...] SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento. São Paulo: Editora da Unicamp/Atual, 1987. p. 73. (Discutindo a história).

Paisagem com  a queda de Ícaro, Pieter Brueghel, o Velho

Texto 2
Na Idade Média, ambas as faces da consciência - aquela voltada para o mundo exterior e a outra, para o interior do próprio homem - jaziam, sonhando ou em estado de semivigília, como que envoltas por um véu comum. [...] o homem reconhecia-se a si próprio apenas como raça, povo, partido, corporação, família ou sob qualquer outra das demais formas do coletivo. Na Itália, pela primeira vez, tal véu dispersa-se ao vento; desperta ali uma contemplação e um tratamento objetivo do Estado e de todas as coisas deste mundo. Paralelamente a isso, no entanto, ergue-se também, na plenitude de seus poderes, o subjetivo: o homem torna-se um indivíduo espiritual e se reconhece como tal. BURCHARDT, Jacob Christoph. A cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 145.


O festim dos deuses, Giovanni Bellini

Texto 3
Embora o termo Renascimento subsista, aplicado a um momento ou a um conjunto de manifestações da cultura ocidental, existem hoje mais dúvidas quanto à sua precisão do que no século passado. A tendência atual dos historiadores orienta-se para uma desconstrução desta unidade conceitual e para a análise de suas contradições. [...]

Uma das primeiras dúvidas que surgem no estudo do Renascimento é a da cronologia. Rupturas radicais entre Idade Média e Renascimento, Renascimento e Reforma, Renascimento e Contrarreforma, Renascimento e Barroco, Renascimento e Maneirismo tendem a ser amenizadas. [...]

[...] Se o único sentido do Renascimento fosse o da aproximação do Ocidente cristão com a Antiguidade, esse período não se diferenciaria em nada da Idade Média.

A Antiguidade greco-romana nunca se ausentou do imaginário medieval. [...]

Fundamental, no entanto, é o fato de a sociedade europeia dos séculos XIV ao XVI ter sido suficientemente criativa e peculiar para não necessitar impor-se através de mitos póstumos. Ela própria gerou sua mitologia, numa interação de novidades e continuidades, mais nascimentos do que renascimentos. Michelangelo não vivia em Roma a.C. e sabia muito bem disso. QUEIROZ, Tereza Aline P. O Renascimento. São Paulo: Edusp, 1995. p. 15-16, 20. (Acadêmica, 2).

sábado, 17 de maio de 2014

O homem do século XVI: a afetividade

Cena de aldeia com a pousada (taverna) São MIguel, Pieter Brueghel, o Jovem

Se os tipos físicos são mais diversificados do que hoje, provavelmente o fato é ainda mais verídico no que respeita aos tipos psíquicos. Entre homens tão diferentes e tão estreitamente acantonados, os contatos, salvo vizinhança imediata, só poderiam ser rudimentares e esporádicos. Foram necessários dois séculos para ser estabelecida uma diplomacia europeia. As relações com os mundos exteriores só eram desejadas em caráter de exceção, salvo sob forma de conquista, por causa da confusão de estruturas sociais e políticas e, também, das diferenças de grau no controle de si e da diversificação das formas de afetividade.

Bordel, Joachim Beuckelaer

- O controle de si.  Somente este controle permite a organização e a manutenção de uma ordem social. Entre certos povos, tal controle não é, provavelmente, senão passividade.

Conhece-se melhor o caso dos europeus. O francês do princípio dos Tempos Modernos, bem como seus vizinhos, nos aparecem grosseiros e lascivos, instáveis, emotivos, impulsivos, suscetíveis de sentimentos singularmente violentos. Cupidez e concupiscência são mal refreadas. Assassinatos, crimes passionais, premeditados ou não, violações e raptos são relativamente frequentes em todos os níveis sociais. O clero evita a duras penas tais excessos. Os sentimentos mais elevados, fé religiosa, honra, têm um aspecto visceral e tomam, na ocasião, uma expressão feroz como o testemunham as guerras de religião e os duelos.


Rixa de camponeses, Pieter Brueghel, o Jovem

A crueldade da época nos surpreende. A vista do sangue não provoca repulsa. Atrai, de preferência. Corre-se a assistir as execuções capitais, acompanhadas de grande variedade de suplícios. Encontra-se o mesmo exagero na desesperança e nas penitências livremente consentidas.

Nasce, sem dúvida, na Itália, um tipo de homem superior novo, o cortesão, descrito por Baldassarre Castiglione em um livro célebre desse título (1528), cujo controle de si constitui uma das maiores virtudes, acrescido da distinção das maneiras e da cultura sem afetação. Todavia, tal controle de si é odioso à maioria dos franceses. Contribuiu mais tarde à impopularidade da Corte de Valois.

As paixões individuais mudam-se depressa em paixões coletivas. A peste, o anabatismo, a Guerra dos Camponeses são a oportunidade de "emoções" populares e de matanças generalizadas.

- A sociabilidade. As relações com o próximo correm, amiúde, o risco de serem relações de força. Infeliz do homem só, já o disse a Bíblia; podemos ajuntar: e da mulher sozinha.


Camponeses felizes do lado de fora da taverna "O cisne", Pieter Brueghel, o Jovem

A criança não suscita nenhum interesse por si mesma. Entre os grandes, os nobres, os burgueses, o filho representa o futuro da linhagem. Respeita-se no ancião o benefício da experiência, que ele pode fornecer, e a proximidade do céu na qual talvez se encontre. A caridade, altamente proclamada como uma virtude e um dever, é exercida no interesse do doador e não daquele a quem é dirigida. Os mendigos são tolerados, mas à condição de que não sejam estranhos à localidade.

É que os franceses e seus vizinhos, bastante gregários, constituem células sociais elementares, comunidades rurais, paróquias, muito fortes. Essas comunidades não são entidades, porém sua existência é sentida como a dos organismos vivos, corpos com cabeça e membros. O estrangeiro, o horsain, suscita apenas desconfiança e torna-se facilmente um bode expiatório, sobretudo se não fala a mesma língua, não pratica a mesma religião (judeus), ou exerce, além do mais, uma atividade distinta da do conjunto do corpo (negociante, banqueiro). Então, o ódio que o persegue é endêmico.

Não obstante, solidariedades supralocais são provocadas entre nobres, servidores do soberano. O espírito de corpo, anima determinados ofícios além dos limites da cidade. Os reis da França e da Inglaterra, combateram-se durante muito tempo e, por ser diferente do que veio a tornar-se em consequência, o sentimento nacional existe em seus dois povos.

- A vida e a morte. Estes dois termos não têm o mesmo valor de hoje em dia. A vida é demasiado curta para a maioria dos homens e a duração de todas as idades da vida é diminuída. O homem do século XVI se faz adulto e se desgasta muito cedo. Entre os povos menos resignados, a violência das paixões traduzem uma pressa de viver.

O apego à vida está incessantemente aguilhoado pelo espetáculo cotidiano da morte. Considera-se normal um casal perder a metade de seus filhos numa tenra idade. Somente os pais que perdem um filho único, esperado arrimo de sua velhice, podem, decentemente, afligir-se em público.

No mundo cristão, a morte reveste-se de grande importância, não tanto pelo fato de marcar o termo da vida terrestre, mas porque abre as portas para a vida eterna. Deste além, o homem forma uma representação demasiado concreta e vive-a intensamente quando ela vem ao seu espírito. Esses chamamentos do além suscitam, em todos os níveis, o desejo mais ou menos constante de sacrificar-se. Há, no ocidental do século XVI uma "predominância do afetivo sobre a inteligência" (R. Mandrou). Esta preponderância existe nas relações sociais como, também, nas tentativas de ultrapassagem.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 19-21.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: a afetividade" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A ocidentalização da Rússia: Pedro, o Grande e Catarina II

O aparecimento e expansão da Rússia no mundo europeu é um dos fatos fundamentais da história ocidental, no século XVIII. A Rússia tinha sido, até então, quase inteiramente asiática - um Estado oriental, expandindo-se pelo Oriente. Em duas etapas ela se torna uma potência europeia: primeiro com Pedro o Grande e, depois, com Catarina II.

Pedro o Grande, Paul Delaroche


Pedro o Grande. Pertencente à dinastia dos Romanof, que dominava a Rússia desde 1613, Pedro o Grande reinou durante 36 anos (1689-1725). os amigos europeus dos seus tempos de moço determinaram-lhe o rumo dos ideais e das realizações.

Depois de subir ao trono, propôs-se a:

1) Modificar a situação interna: "europeizar" (ou "ocidentalizar") seus súditos.
2) Modificar a situação externa: obter "portos quentes" e estabelecer comunicações livres com a Europa ocidental.

* Realizações internas. Pedro o Grande fez, previamente, uma viagem de estudos pela Europa (1697). Esteve na Holanda onde, como simples operário, trabalhou em estaleiros, estudando as técnicas de construção de navios. Ao seu regresso começou a enorme tarefa. Eis as realizações mais importantes:

1) Modificou os costumes:
- combateu as barbas e cabelos compridos;
combateu as roupas tradicionais, compridas, e propagou o estilo europeu de trajar;
- proibiu a reclusão oriental das mulheres.
2) Fundou escolas e academias.
3) Estimulou a agricultura, a mineração, a indústria e o comércio. Organizou centenas de fábricas. Abriu canais e construiu um grande número de estradas.
4) Organizou a administração oficial.
5) Reorganizou o exército à moda europeia, com grande disciplina; montou estaleiros e criou uma forte esquadra.
6) Submeteu a Igreja ortodoxa russa ao seu domínio pessoal, substituindo o patriarca por um Santo Sínodo.
7) Assegurou seu poder absoluto, abolindo todo traço de autonomia local.
8) Fundou uma nova capital, São Petersburgo (1703), em lugar da velha capital (Moscou).

* Política externa. Fracassou na luta contra a Turquia, mas venceu a Suécia (Poltava, 1709) e conquistou as províncias bálticas. (A paz com a Suécia só foi assinada em 1721).

* Resultados. Para uns, só a ação política foi profunda. A ação civilizadora teria sido superficial. As aparências tinham mudado, mas "o intelecto, os sentimentos e o caráter da nação eram os mesmos."

Para outros "o bem que fez foi, porém, grandemente ultrapassado pelas suas guerras perdulárias e pela crueldade diabólica."

Retrato de Catarina II da Rússia, Fiodor Rokotov


Catarina II. Princesa alemã, inteligente e culta, enérgica e ambiciosa, casou-se com Pedro III (neto de Pedro o Grande), a quem mandou assassinar. Catarina II reinou durante 33 anos (1762-1796). Amiga de Voltaire e Diderot, e de muitos outros sábios e filósofos, foi um dos mais louvados expoentes do despotismo esclarecido.

"Entre as modernas mulheres-momento, é provavelmente Catarina II, aquela 'imperatriz russa de sangue germânico e cultura francesa', a de maior destaque. É difícil avaliar sua influência, visto que ela foi contemporânea de homens-momento também reinantes, como Frederico II, e porque o vagalhão da revolução burguesa tinha já começado no Oeste.

No seu reinado a Rússia expandiu enormemente suas fronteiras. Ela anexou uma de quase 625.000 quilômetros quadrados aos domínios russos. Ao mesmo tempo, a despeito de suas ideias esclarecidas, Catarina fixou mais seguramente as cadeias de servidão das massas russas e retardou o desenvolvimento de forças sociais progressistas por gerações. Com grande sagacidade política, ela secularizou a propriedade religiosa e amarrou a Igreja à coroa tão firmemente que, daí por diante, ela [a Igreja] se tornou primordialmente um instrumento do governo dinástico". (Sidney Hook, O herói na História).

* Política interna. Melhorou a administração pública. Fundou hospitais e orfanatos. Protegeu as letras e as artes. Aboliu a tortura e a pena de morte. Atraiu imigrantes estrangeiros (sobretudo alemães), para colonizarem as regiões meridionais da Rússia (Ucrânia). Mas foi despótica, cruel e duma absoluta falta de escrúpulos.

* Política externa. Catarina II acumpliciou-se com a Áustria (Maria Teresa) e a Prússia (Frederico II), a fim de liquidarem a Polônia. A Polônia foi desmembrada 3 vezes (1772, 1793 e 1795) e seus territórios foram repartidos entre as potências da "tríplice aliança" - Rússia, Áustria e Prússia.

Catarina II lutou, também, contra os turcos. Venceu-os e conquistou as margens setentrionais do Mar Negro. As cláusulas do tratado de paz (Caimárdji, 1774) permitiram aos russos intervir com frequência nos assuntos turcos e foi a origem da imensa influência que a Rússia exerceu, no século XIX, nos Balcás.

BECKER, Idel. Pequena história da civilização ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 410-412.

domingo, 5 de maio de 2013

O despotismo ilustrado em Portugal: Pombal

As novas ideias dos filósofos e economistas da Ilustração difundiram-se por entre as pessoas cultas da burguesia e em alguns setores das classes privilegiadas. Chegaram, mesmo, a influenciar chefes de Estado (monarcas, primeiros-ministros). Alguns destes adaptaram sua política às doutrinas do Iluminismo e tentaram realizar o programa dos filósofos: governar por meio da razão em prol do bem público, a fim de estabelecer "o reino das luzes".

Todos eles se consideravam servidores do Estado, obrigados a trabalhar pelo bem público. Para saber como realizar a felicidade dos seus súditos, o monarca devia ser esclarecido. Mas, para poder governar livremente, em prol do povo, o soberano devia ser absoluto. Os sistemas representativos dos regimes democráticos eram considerados desnecessários e mesmo, "subversivos e perigosos".

As reformas foram realizadas sem consultar o povo, muitas vezes à força. "Tudo para o povo, mas sem o povo". É o que se denomina despotismo esclarecido (ou ilustrado).

Nem todos os "déspotas esclarecidos" foram inteiramente sinceros. Ademais, às vezes não puderam levar à prática as teorias iluministas. Finalmente, nem sempre a realização das reformas deu bons resultados.

Mesmo assim, houve evidentes progressos em muitos setores.

Na segunda metade do século XVIII, o despotismo "esclarecido" esteve em moda em toda a Europa. Entre os estadistas reformadores destacam-se:

José II, da Áustria,
Frederico II, da Prússia,
Catarina II, da Rússia,
Carlos III, da Espanha,
o marquês de Pombal, em Portugal.

* O despotismo ilustrado em Portugal: Pombal. D. João V o Magnânimo (reinado: 1706-1750), exerceu o governo absoluto e nunca reuniu as Cortes. Riquezas fabulosas, provenientes das minas de ouro e diamantes do Brasil, entraram em Portugal. Mas, em lugar de empregá-la no desenvolvimento da economia portuguesa, D. João V esbanjou-as com insensata prodigalidade. O luxo da corte era deslumbrante. Quando morreu, D. João V deixou o Estado mergulhado em dívidas e o povo esmagado pelos impostos.

Sucedeu-lhe D. José I o Reformador, rei de Portugal de 1750 a 1777. Logo que assumiu o trono, escolheu para ministro Sebastião José de Carvalho e Melo - depois marquês de Pombal - que se revelou brilhante estadista, o mais ilustre na história de Portugal.


Retrato do Marquês de Pombal, Louis-Michel Loo e Claude Joseph Vernet


A reconstrução de Lisboa e a repressão das desordens, após o terrível terremoto de 1755, revelaram a energia e as notáveis qualidades de organizador do marquês de Pombal - e deram-lhe prestígio popular. A partir de então, D. José confiou-lhe inteiramente a direção dos negócios públicos.

O marquês de Pombal, ex-diplomata em Londres, partidário das ideias filosóficas do século XVIII, foi um dos mais eminentes representantes do "despotismo esclarecido". Seu governo foi despótico, mas realizou admiráveis reformas, despertando o país de seu letargo depois de dois séculos e dando novo impulso à vida portuguesa:

- fortaleceu o poder real;
- propôs-se opor às classes aristocráticas um povo independente e ilustrado;
- proibiu a exportação de ouro para a Inglaterra;
- reorganizou a instrução pública e reformou a Universidade de Coimbra;
- reorganizou o exército;
- incrementou a agricultura, a indústria e o comércio.

O marquês de Pombal governou o país com mão de ferro, às vezes com crueldade. perseguiu a nobreza em geral. Lutou contra os jesuítas, cuja influência achava prejudicial no governo, e acabou expulsando-os (1759). [A Companhia de Jesus foi suprimida em 1773, por uma bula pontifical de Clemente XIV. Mas foi restabelecida em 1814, pelo papa Pio VII.]

Quando el-Rei D. José I morreu, subiu ao trono D. Maria I, inimiga da reforma e das ideias de Pombal. A rainha demitiu o marquês, imediatamente, e mandou que o processassem. O marquês foi condenado ao desterro da corte; e morreu, amargurado, em 1782. Quase todas as reformas pombalinas foram então anuladas. E Portugal voltou ao antigo regime.

* Reflexos no Brasil. A ação do marquês de Pombal refletiu no Brasil, em vários setores:

- transferiu a capital da Bahia para o Rio de Janeiro;
- libertou os ameríndios e compensou a falta de braços com uma grande emigração de ilhéus (mais de 20.000 vieram dos Açores);
- proibiu a ourivesaria, a fim de evitar o contrabando de joias e de metais preciosos;
- estimulou o comércio, diminuindo os monopólios e criando bancos comerciais (os mais importantes: de Grão-Pará e de Pernambuco);
- cuidou especialmente da administração das minas;
- administrou com eficiência os tesouros do Brasil;
- reformou a administração da Justiça;
- expulsou os jesuítas, aboliu a Inquisição e todos os direitos temporais do clero; 
- organizou um bom exército, equipou uma frota condizente, e reconstruiu as fortalezas do Brasil de acordo com o novo sistema de bastiões de Vauban;
- aboliu todos os direitos dos antigos capitães-mores, que se tinham conservado desde 1534 (as capitanias de Porto Seguro e de Ilhéus foram anexadas à Bahia).

Houve, porém, aspectos negativos na política de Pombal. A expulsão dos jesuítas trouxe prejuízos ao Brasil. Eles se viram forçados a abandonar, no Amazonas, umas 80 povoações que dirigiam e sustentavam. Em substituição aos religiosos, o governo português enviou funcionários leigos, mas estes fracassaram na tarefa. Os aldeamentos decaíram e muitos deles desapareceram completamente.

Além disso, o ensino ficou notavelmente prejudicado em todo o país. A maioria das escolas achava-se nas mãos dos jesuítas, que tinham trazido ao Brasil sua vasta experiência educacional, textos modernizados, mais competente erudição e melhores métodos pedagógicos. A expulsão dos jesuítas provocou o fechamento de grande número de colégios e a perda de excelentes professores. Só muito lentamente foi possível suprir tais lacunas.

BECKER, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 407-409.