"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Despotismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Despotismo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A ocidentalização da Rússia: Pedro, o Grande e Catarina II

O aparecimento e expansão da Rússia no mundo europeu é um dos fatos fundamentais da história ocidental, no século XVIII. A Rússia tinha sido, até então, quase inteiramente asiática - um Estado oriental, expandindo-se pelo Oriente. Em duas etapas ela se torna uma potência europeia: primeiro com Pedro o Grande e, depois, com Catarina II.

Pedro o Grande, Paul Delaroche


Pedro o Grande. Pertencente à dinastia dos Romanof, que dominava a Rússia desde 1613, Pedro o Grande reinou durante 36 anos (1689-1725). os amigos europeus dos seus tempos de moço determinaram-lhe o rumo dos ideais e das realizações.

Depois de subir ao trono, propôs-se a:

1) Modificar a situação interna: "europeizar" (ou "ocidentalizar") seus súditos.
2) Modificar a situação externa: obter "portos quentes" e estabelecer comunicações livres com a Europa ocidental.

* Realizações internas. Pedro o Grande fez, previamente, uma viagem de estudos pela Europa (1697). Esteve na Holanda onde, como simples operário, trabalhou em estaleiros, estudando as técnicas de construção de navios. Ao seu regresso começou a enorme tarefa. Eis as realizações mais importantes:

1) Modificou os costumes:
- combateu as barbas e cabelos compridos;
combateu as roupas tradicionais, compridas, e propagou o estilo europeu de trajar;
- proibiu a reclusão oriental das mulheres.
2) Fundou escolas e academias.
3) Estimulou a agricultura, a mineração, a indústria e o comércio. Organizou centenas de fábricas. Abriu canais e construiu um grande número de estradas.
4) Organizou a administração oficial.
5) Reorganizou o exército à moda europeia, com grande disciplina; montou estaleiros e criou uma forte esquadra.
6) Submeteu a Igreja ortodoxa russa ao seu domínio pessoal, substituindo o patriarca por um Santo Sínodo.
7) Assegurou seu poder absoluto, abolindo todo traço de autonomia local.
8) Fundou uma nova capital, São Petersburgo (1703), em lugar da velha capital (Moscou).

* Política externa. Fracassou na luta contra a Turquia, mas venceu a Suécia (Poltava, 1709) e conquistou as províncias bálticas. (A paz com a Suécia só foi assinada em 1721).

* Resultados. Para uns, só a ação política foi profunda. A ação civilizadora teria sido superficial. As aparências tinham mudado, mas "o intelecto, os sentimentos e o caráter da nação eram os mesmos."

Para outros "o bem que fez foi, porém, grandemente ultrapassado pelas suas guerras perdulárias e pela crueldade diabólica."

Retrato de Catarina II da Rússia, Fiodor Rokotov


Catarina II. Princesa alemã, inteligente e culta, enérgica e ambiciosa, casou-se com Pedro III (neto de Pedro o Grande), a quem mandou assassinar. Catarina II reinou durante 33 anos (1762-1796). Amiga de Voltaire e Diderot, e de muitos outros sábios e filósofos, foi um dos mais louvados expoentes do despotismo esclarecido.

"Entre as modernas mulheres-momento, é provavelmente Catarina II, aquela 'imperatriz russa de sangue germânico e cultura francesa', a de maior destaque. É difícil avaliar sua influência, visto que ela foi contemporânea de homens-momento também reinantes, como Frederico II, e porque o vagalhão da revolução burguesa tinha já começado no Oeste.

No seu reinado a Rússia expandiu enormemente suas fronteiras. Ela anexou uma de quase 625.000 quilômetros quadrados aos domínios russos. Ao mesmo tempo, a despeito de suas ideias esclarecidas, Catarina fixou mais seguramente as cadeias de servidão das massas russas e retardou o desenvolvimento de forças sociais progressistas por gerações. Com grande sagacidade política, ela secularizou a propriedade religiosa e amarrou a Igreja à coroa tão firmemente que, daí por diante, ela [a Igreja] se tornou primordialmente um instrumento do governo dinástico". (Sidney Hook, O herói na História).

* Política interna. Melhorou a administração pública. Fundou hospitais e orfanatos. Protegeu as letras e as artes. Aboliu a tortura e a pena de morte. Atraiu imigrantes estrangeiros (sobretudo alemães), para colonizarem as regiões meridionais da Rússia (Ucrânia). Mas foi despótica, cruel e duma absoluta falta de escrúpulos.

* Política externa. Catarina II acumpliciou-se com a Áustria (Maria Teresa) e a Prússia (Frederico II), a fim de liquidarem a Polônia. A Polônia foi desmembrada 3 vezes (1772, 1793 e 1795) e seus territórios foram repartidos entre as potências da "tríplice aliança" - Rússia, Áustria e Prússia.

Catarina II lutou, também, contra os turcos. Venceu-os e conquistou as margens setentrionais do Mar Negro. As cláusulas do tratado de paz (Caimárdji, 1774) permitiram aos russos intervir com frequência nos assuntos turcos e foi a origem da imensa influência que a Rússia exerceu, no século XIX, nos Balcás.

BECKER, Idel. Pequena história da civilização ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 410-412.

domingo, 5 de maio de 2013

O despotismo ilustrado em Portugal: Pombal

As novas ideias dos filósofos e economistas da Ilustração difundiram-se por entre as pessoas cultas da burguesia e em alguns setores das classes privilegiadas. Chegaram, mesmo, a influenciar chefes de Estado (monarcas, primeiros-ministros). Alguns destes adaptaram sua política às doutrinas do Iluminismo e tentaram realizar o programa dos filósofos: governar por meio da razão em prol do bem público, a fim de estabelecer "o reino das luzes".

Todos eles se consideravam servidores do Estado, obrigados a trabalhar pelo bem público. Para saber como realizar a felicidade dos seus súditos, o monarca devia ser esclarecido. Mas, para poder governar livremente, em prol do povo, o soberano devia ser absoluto. Os sistemas representativos dos regimes democráticos eram considerados desnecessários e mesmo, "subversivos e perigosos".

As reformas foram realizadas sem consultar o povo, muitas vezes à força. "Tudo para o povo, mas sem o povo". É o que se denomina despotismo esclarecido (ou ilustrado).

Nem todos os "déspotas esclarecidos" foram inteiramente sinceros. Ademais, às vezes não puderam levar à prática as teorias iluministas. Finalmente, nem sempre a realização das reformas deu bons resultados.

Mesmo assim, houve evidentes progressos em muitos setores.

Na segunda metade do século XVIII, o despotismo "esclarecido" esteve em moda em toda a Europa. Entre os estadistas reformadores destacam-se:

José II, da Áustria,
Frederico II, da Prússia,
Catarina II, da Rússia,
Carlos III, da Espanha,
o marquês de Pombal, em Portugal.

* O despotismo ilustrado em Portugal: Pombal. D. João V o Magnânimo (reinado: 1706-1750), exerceu o governo absoluto e nunca reuniu as Cortes. Riquezas fabulosas, provenientes das minas de ouro e diamantes do Brasil, entraram em Portugal. Mas, em lugar de empregá-la no desenvolvimento da economia portuguesa, D. João V esbanjou-as com insensata prodigalidade. O luxo da corte era deslumbrante. Quando morreu, D. João V deixou o Estado mergulhado em dívidas e o povo esmagado pelos impostos.

Sucedeu-lhe D. José I o Reformador, rei de Portugal de 1750 a 1777. Logo que assumiu o trono, escolheu para ministro Sebastião José de Carvalho e Melo - depois marquês de Pombal - que se revelou brilhante estadista, o mais ilustre na história de Portugal.


Retrato do Marquês de Pombal, Louis-Michel Loo e Claude Joseph Vernet


A reconstrução de Lisboa e a repressão das desordens, após o terrível terremoto de 1755, revelaram a energia e as notáveis qualidades de organizador do marquês de Pombal - e deram-lhe prestígio popular. A partir de então, D. José confiou-lhe inteiramente a direção dos negócios públicos.

O marquês de Pombal, ex-diplomata em Londres, partidário das ideias filosóficas do século XVIII, foi um dos mais eminentes representantes do "despotismo esclarecido". Seu governo foi despótico, mas realizou admiráveis reformas, despertando o país de seu letargo depois de dois séculos e dando novo impulso à vida portuguesa:

- fortaleceu o poder real;
- propôs-se opor às classes aristocráticas um povo independente e ilustrado;
- proibiu a exportação de ouro para a Inglaterra;
- reorganizou a instrução pública e reformou a Universidade de Coimbra;
- reorganizou o exército;
- incrementou a agricultura, a indústria e o comércio.

O marquês de Pombal governou o país com mão de ferro, às vezes com crueldade. perseguiu a nobreza em geral. Lutou contra os jesuítas, cuja influência achava prejudicial no governo, e acabou expulsando-os (1759). [A Companhia de Jesus foi suprimida em 1773, por uma bula pontifical de Clemente XIV. Mas foi restabelecida em 1814, pelo papa Pio VII.]

Quando el-Rei D. José I morreu, subiu ao trono D. Maria I, inimiga da reforma e das ideias de Pombal. A rainha demitiu o marquês, imediatamente, e mandou que o processassem. O marquês foi condenado ao desterro da corte; e morreu, amargurado, em 1782. Quase todas as reformas pombalinas foram então anuladas. E Portugal voltou ao antigo regime.

* Reflexos no Brasil. A ação do marquês de Pombal refletiu no Brasil, em vários setores:

- transferiu a capital da Bahia para o Rio de Janeiro;
- libertou os ameríndios e compensou a falta de braços com uma grande emigração de ilhéus (mais de 20.000 vieram dos Açores);
- proibiu a ourivesaria, a fim de evitar o contrabando de joias e de metais preciosos;
- estimulou o comércio, diminuindo os monopólios e criando bancos comerciais (os mais importantes: de Grão-Pará e de Pernambuco);
- cuidou especialmente da administração das minas;
- administrou com eficiência os tesouros do Brasil;
- reformou a administração da Justiça;
- expulsou os jesuítas, aboliu a Inquisição e todos os direitos temporais do clero; 
- organizou um bom exército, equipou uma frota condizente, e reconstruiu as fortalezas do Brasil de acordo com o novo sistema de bastiões de Vauban;
- aboliu todos os direitos dos antigos capitães-mores, que se tinham conservado desde 1534 (as capitanias de Porto Seguro e de Ilhéus foram anexadas à Bahia).

Houve, porém, aspectos negativos na política de Pombal. A expulsão dos jesuítas trouxe prejuízos ao Brasil. Eles se viram forçados a abandonar, no Amazonas, umas 80 povoações que dirigiam e sustentavam. Em substituição aos religiosos, o governo português enviou funcionários leigos, mas estes fracassaram na tarefa. Os aldeamentos decaíram e muitos deles desapareceram completamente.

Além disso, o ensino ficou notavelmente prejudicado em todo o país. A maioria das escolas achava-se nas mãos dos jesuítas, que tinham trazido ao Brasil sua vasta experiência educacional, textos modernizados, mais competente erudição e melhores métodos pedagógicos. A expulsão dos jesuítas provocou o fechamento de grande número de colégios e a perda de excelentes professores. Só muito lentamente foi possível suprir tais lacunas.

BECKER, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 407-409.