"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 25 de maio de 2014

Os ousados precursores

Cena de cópula, vale Camonica, Itália. 
Foto: Luca Giarelli

Cena de cópula, vale Camonica, Itália. 
Foto: Luca Giarelli

A atração sexual entre seres humanos do mesmo gênero remonta provavelmente à pré-história ou ainda antes. [...] O homo sapiens, ou seja, o que já pensava e entendia, deixou alguns vestígios das suas opções sexuais. Nas pinturas rupestres do vale Camonica, nos Alpes italianos, podem ver-se as figuras de dois homens a copular. Essa estação arqueológica pré-histórica tem cerca de 8000 anos e nada nos permite concluir que os dois cavernícolas acabavam de inventar o assunto. A única coisa que sabemos é que, deste então até hoje, os homens e as mulheres com inclinação para fazer amor com parceiros do seu próprio sexo foram uma presença constante na História. 

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 13.


NOTA: O texto "Os ousados precursores" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Art rock made in África

"Arte rupestre da África é a herança comum de todos os africanos, mas é mais do que isso. É patrimônio comum da humanidade. "

Nelson Mandela


A pintura rupestre do continente africano constitui um valioso testemunho da mentalidade mágica dos povos pré-históricos. Suas representações transcendiam objetivos artísticos, cumprindo, primordialmente, um conjunto de funções mágicas de finalidade pragmática: a perpetuação da existência de caça abundante, o alcance do êxito nas guerras e a preservação da capacidade de reprodução da espécie humana. Seu estudo permitiu a reconstituição histórica da vida de povos caçadores, pastores e de civilizações que já haviam adotado a utilização da roda.

As sociedades africanas tradicionais assentavam-se sobre categorias de sexo, idade, relações de parentesco. As divisões baseadas no sexo abrangiam as tarefas e funções de grupo social, manifestando-se já no ritual de iniciação dos jovens e na participação em sociedades distintas e exclusivas. Em geral, cabia às mulheres a tarefa de cultivar a terra, o que as tornava responsáveis pela sobrevivência do grupo, tanto ao nível de subsistência imediata - assegurando a alimentação - como a longo prazo, pela reprodução da espécie. Aos homens pertencia o monopólio das relações com o sagrado e, portanto, a exclusividade das decisões que diziam respeito à coletividade.

Outro elemento regulador da sociedade africana tradicional foi a idade. As gerações apresentavam relações de dominação/subordinação, com preeminência dos mais velhos. Os anciãos possuíam grande prestígio. Existiam também classes de idade: a dos meninos, formada a cada sete anos na época da iniciação sexual; outra reunia os guerreiros solteiros, que só poderiam se casar quando atingissem a terceira classe de idade, por volta dos trinta anos. Todos esses grupos rigidamente estruturados, asseguravam o cumprimento das funções sociais mais significativas segundo as categorias de idade. A passagem de uma classe para outra exigia uma formação complementar, coroada pela realização de um cerimonial específico.

Quando o exercício do poder político é regulado por cerimônias e ritos, o fato geralmente provoca uma ativa criação artística. Tal pressuposto encontra confirmação na África, onde os mais importantes centros de manifestação artística desenvolveram-se junto aos grandes grupos tribais e reinos mais importantes: África ocidental e África central. O domínio do sagrado constitui também ambiente propício às manifestações artísticas. As representações dos ancestrais, os objetos e as máscaras utilizadas pelos membros de associações o atestam. A vida religiosa, assim como as práticas mágicas, é particularmente rica em símbolos materiais e rituais que estabelecem a relação com o sagrado.

Entre os povos primitivos é praticamente inexistente a distância entre o mundo da objetividade e o da subjetividade. Inserido em um ambiente do qual depende de maneira absoluta, o homem primitivo atribui à natureza uma força muito maior do que a sua. As doenças, a morte, os insucessos na caça ou na agricultura, a fome, a seca são acontecimentos que, a um tempo, o desafiam e o submetem. Ser pensante, o homem busca explicar, em termos religiosos, essa força que o domina. Nesse processo de adaptação entre o homem e a natureza, a realidade e a fantasia são fundidas, resultando no aparecimento dos elementos mais conhecidos das religiões primitivas: o culto aos antepassados, as práticas mágicas, o mundo dos espíritos, o animismo e o totemismo.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 31-35. Volume III.

Galeria de imagens:

Homem com arco e flecha e cão. Argélia

Gatos em combate. Líbia

Girafa e homens. Namíbia

Figura com atributos masculinos e femininos. África do Sul

Homens e girafas. Zimbábue

Cavalo e homem armado. Mauritânia

Guerreiro e girafas. Argélia

Tchitundu Hulu. Angola

Detalhe de duas pessoas copulando. Argélia

Mulher e cão. Malawi

Inscrição geométrica. Uganda

Homem lançando lança. Argélia

Figuras brancas com as mãos nos quadris. Tanzânia

Antílope. Marrocos

Homens e animais. Zimbábue

Rinocerontes. Botswana

Homem com arco. Argélia

Quatro homens correndo com equipamentos sobre os ombros. África do Sul

Vaca e animal simbólico. Somália

Camelo. Sudão

Crocodilo. Líbia

Dois homens nus com o pênis ereto. África do Sul

Guerreiro montado em cavalo. Chade

Leão, dois guerreiros com lanças e montados em cavalos. Abaixo, cães, uma mulher e um guerreiro. Nigéria

Arte rupestre. Mali

Homem sentado com as pernas cruzadas. Argélia

Camelo branco montado por guerreiro. Chade

Homem e vaca. Egito

Inscrição rupestre. Gabão

Vacas e bezerros. Etiópia

Elefante, homens e girafas. Quênia

Guerreiro. Nigéria

NOTA: O texto "Art rock made in África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico/antropológico.

domingo, 6 de abril de 2014

As inscrições e pinturas rupestres na África


Pintura rupestre em Tassili

Um importante testemunho sobre a pré-história africana é dado pelas inscrições e pinturas descobertas na região setentrional do Saara. Depois da primeira dessas descobertas, ocorrida em Tint, no ano de 1847, encontraram-se na África setentrional vários outros sítios ricos em amostras da arte pré-histórica. Os motivos mais freqüentes das pinturas rupestres localizadas na região do Grande Atlante, nos montes Tassili e na Líbia eram representados por elefantes, rinocerontes, hipopótamos, búfalos, girafas, crocodilos, felinos e outros espécimes da fauna tropical. Além de animais selvagens, nas pinturas rupestres mais antigas aparecem também exemplares da fauna doméstica, tais como bois e ovelhas, e nas pinturas de épocas posteriores existem representações de cavalos e camelos. As figuras humanas, constantemente reproduzidas pelos artistas pré-históricos da África, apresentam traços semelhantes aos dos desenhos rupestres da região mediterrânea.

Pintura rupestre em Tassili

As inscrições e pinturas rupestres descobertas nos territórios da África meridional possuem muitos pontos em comum com as da Europa pré-histórica. Os exemplares encontrados no centro-sul do continente africano foram gravadas na rocha, e representam animais, motivos geométricos e figuras humanas.

Essas pinturas espalham-se por uma vasta área localizando-se particularmente na Rodésia e nas províncias do Cabo e Orange. Em sua maioria, representam cenas de caça e danças rituais, demonstrando uma grande preocupação com o movimento e a cor. De uma forma geral, as figuras femininas distinguem-se pelas grandes proporções das nádegas, enquanto as masculinas se caracterizavam pelos membros filiformes, pela cintura estreita e pelas costas largas.


Pintura rupestre em Tassili

A superposição de figuras e cores torna difícil determinar com precisão a data desses desenhos rupestres. Contudo, os mais antigos revelam certa analogia com as pinturas e inscrições descobertas no norte da África. Em alguns casos, pequenos arqueiros de pele clara são representados lutando com homens negros de grande estatura, munidos de escudos ovalados. Tais cenas são provavelmente alusivas às lutas dos bosquímanos e hotentotes do sul da África contra os invasores bantu.

Os especialistas acreditam que o mais antigo desses desenhos tenha sido feito por volta de 3000 a.C., sendo portanto contemporâneo das pinturas rupestres do Saara e correspondendo ao período Neolítico europeu. Os bosquímanos continuaram a fazer inscrições e pinturas na rocha até o século XIX, quando interromperam essa tradição devido à invasão de seus territórios por outros grupos africanos e pelos próprios europeus. A partir de então, foram praticamente encurralados em pequenas áreas desérticas do sul do continente, onde se encontram em processo de extinção.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 35-6. Volume 3.

NOTA: O texto "As inscrições e pinturas rupestres na África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Arte rupestre do Brasil: Tradição Nordeste

Embora certas pinturas rupestres talvez tenham sido realizadas já no período anterior, a maioria dos grafismos encontrados em abrigos data provavelmente dos últimos seis milênios antes da Era Cristã. Com certeza não eram obras de "arte" no sentido que damos hoje à palavra. É claro que, durante todos esses milênios e em tantos lugares, algumas pessoas podem ter deixado simples graffitti, e outros desenhos talvez fossem feitos para fins decorativos. No entanto, o mais provável é que a maioria dos grafismos tenha sido feita como afirmação de etnicidade, expressão de uma crença, ato mágico, proclamação política de status, trato ou posse. O reconhecimento da existência de complexos temáticos estáveis ao longo de séculos e milênios levou os arqueólogos a definirem as "tradições" rupestres, nas quais variações menores de uma região para outra permitem reconhecer fácies, ou subtradições, enquanto modificações ocorridas ao longo do tempo permitem sucessivos estilos.

Não se encontram grafismos pré-históricos em todo o Brasil central ou nordestino. Em algumas regiões, faltavam suportes rochosos abrigados, e talvez as populações deixassem suas marcas em árvores, retirando as cascas para criar figuras em negativo - como faziam os índios Bakari no século XIX. Mas mesmo em locais onde existem paredes naturais protegidas, há regiões nas quais a "arte rupestre" é inexistente ou raríssima - como as de Arcos e de Pains, em Minas Gerais -, enquanto no vale do rio Peruaçu e na serra da Capivara é difícil andar ao longo dos paredões além de poucas centenas de metros sem encontrar um painel pintado.

[...]

Os sítios da região de São Raimundo Nonato (PI) serviram de referência para estabelecer a sequência de base do Nordeste brasileiro.

O conjunto de pinturas mais antigo é formado por representações humanas agrupadas em cenas, eventualmente acompanhadas por animais. Esses grafismos definem a Tradição Nordeste, que, segundo as pesquisadoras locais, se teria desenvolvido entre 12.000 e 6.000 anos atrás, no Piauí meridional. Nesse estado, o estilo mais antigo, denominado Serra da Capivara, apresenta figuras monocrômicas cuja cor contrasta com a do suporte natural. As representações humanas mostram cabeças por vezes ornadas com cocar, isoladas, e as figuras parecem assexuadas. Quando estão em grupo, o sexo é indicado de maneira convencional (um traço para o pênis, sempre erguido, e um círculo para a vulva). As personagens são geralmente muito dinâmicas. Formam cenas familiares (dois adultos e uma criança), relações sexuais (casais em várias posições, ou vários homens segurando uma mulher, homens segurando um pênis enorme); caça ao tatu (o animal é segurado pelo rabo) ou ao veado (com uma rede). Uma cena muito característica é conhecida como a "da árvore": várias pessoas, de braços erguidos, rodeiam uma árvore, ou uma delas segura um galho. Figuras antropomorfas também formam correntes, evocando acrobatas. As figuras zoomorfas são sobretudo de cervídeos e emas.

Tradição Nordeste: Toca da Extrema II, Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí

Por volta de 9.000 anos atrás, as cenas de violência se multiplicam: estupros, combates, execução de pessoas amarradas a um poste (complexo Serra Talhada). Finalmente, com o estilo Serra Branca, o movimento desaparece e as figuras tornam-se angulosas, com um grande corpo retangular preenchido por desenhos geométricos eventualmente bicrônicos dos quais se destacam pequenos membros filiformes.

Os dois primeiros estilos da Tradição Nordeste se propagaram fora do Piauí, para os estados do Nordeste, o norte de Minas Gerais, o sul de Goiás e até o Mato Grosso. No Rio Grande do Norte desenvolveu-se uma versão original - chamada "Subtradição Seridó", onde os animais são muito raros (somente tucanos e emas), e as figuras humanas apresentam um bico parecido com o de pássaros. Sua influência alcançou as terras baixas da Bolívia e da Colômbia orientais.

A Tradição Agreste substitui aos poucos a tradição Nordeste e seria a única representada na arte rupestre do sul do Piauí entre 6.000 e 2.000 anos atrás. Trata-se de grandes figuras monocromas, toscamente executadas, representando seres humanos isolados ("bonecões") ou animais pouco naturalistas, por vezes acompanhadas por impressões de mãos. Essa Tradição é considerada intrusiva no sul do Piauí, e seria originária de Pernambuco, onde essas figuras são muito mais numerosas.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 73-77.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Culturas do Paleolítico (de 500.000 a 10.000 anos)

Bisontes. Caverna de Altamira, Espanha

O Paleolítico (Idade da Pedra Antiga ou Lascada) estende-se de 500.000 a praticamente 10.000 anos. Acha-se subdividido em Inferior, Médio e Superior e caracteriza-se pela presença do homem predador, ou seja, o homem como "apanhador de alimentos". Este, aproveitando-se das regiões favoráveis, desenvolveu atividades de coleta sistemática de vegetais, caça aos pequenos animais selvagens etc.

[...]

Cada tipo de tecnologia, desenvolvida nos diferentes períodos, recebe a designação de indústria (indústria de seixos, da lasca, da lâmina ou esquirola e das folhas ou foliácea). É também de tradição quando se refere a uma série de indústrias (tradição nodular, bifacial etc.). Técnicas diferentes, adotadas pelo homem pré-histórico para a confecção de seus instrumentos, produziram, inicialmente, os artefatos lascados e só posteriormente os polidos (técnicas de percussão, pressão e polimento). O material trabalhado era sempre o oferecido pela natureza: seixos, sílex (pedra), osso, madeira, contas, conchas, presas de grandes animais ou algum outro material que não deixou vestígios.

[...]

Os vestígios culturais mais antigos da presença do Homo parecem ser os encontrados no Oriente e no Sul da África, junto a fontes naturais, lagos, planícies etc., em terrenos antigos, sempre associados a restos fósseis, animais e humanos.

* Paleolítico Inferior (500.000 a 150.000 anos). [...] Geograficamente, as regiões habitadas nesse período encontram-se na Ásia, África e Europa, onde foram descobertos e recolhidos os artefatos manufaturados pelos primeiros hominídeos.

a) Homo habilis e os dois espécimes Australopithecus (robustus e africanus). Talvez tenham sido os primeiros seres a adquirir cultura, manufaturando intencionalmente seus instrumentos, encontrados na África (garganta de Olduvai). Esses artefatos, considerados os mais antigos da indústria lítica conhecida, são de pedra e bem rudimentares (seixos, quartzo, sílex etc.).

b) Homo erectus, fóssil humano na sequência evolutiva entre o Australopithecus e o Homo sapiens, tanto no Oriente quanto no Ocidente, desenvolveu atividades que se assemelham: eram caçadores rudes e astutos, utilizando instrumentos manufaturados [...]. No Oriente, as cavernas foram frequentadas periodicamente [...]. Nelas havia ossos humanos e de animais de grande porte (elefantes, bisões etc.). Data daí a utilização do fogo [...]. A indústria lítica do Homo erectus [...] era composta de instrumentos cortantes, pedaços de quartzo rudemente lascados, lascas afiadas, raspadeiras, facas, tipos de machadinhas e o machado de mão com extremidade afiada. [...]

* Paleolítico Médio (de 150.000 a 40.000 anos). Caracteriza-se pela presença do Homo pré-sapiens ou sapiens [...]. A subsistência dependia ainda da caça e da coleta, mas as técnicas de fabricação de instrumentos foram-se aperfeiçoando, permitindo designar esse Homo como sapiens (inteligente). [...]

[...] Os ossos de animais, como elefantes, rinocerontes, bisões, cavalos etc., tinham os mais diferentes usos, desde eficientes furadores até taças obtidas da caixa craniana da rena. [...]

As grutas foram largamente utilizadas como habitação permanente pelo Neanderthalense, conhecido como o "homem da caverna". O uso de grutas foi facilitado pelo conhecimento do fogo [...].

* Paleolítico Superior (40.000 a 12.000 anos). [...] O homem fóssil desse período é o sapiens Cro-Magnon, considerado por muitos como sapiens sapiens. [...]

Na Europa, as culturas do Paleolítico Superior constituem tradições separadas, com características locais [...].

A indústria lítica apresenta-se bem mais aprimorada [...]. Dividem-se em:

a) instrumentos de sílex: pontas de vários estilos, cortadores, raspadores e furadores; buris, propulsores, lanças de pedras pontiagudas, atiradores;

b) instrumentos de osso: furadores e agulhas com orifícios; pontas de arpão etc.

O buril (artefato de pedra mais aguçada e mais rígida que a lâmina) torna-se de grande importância para o artista pré-histórico, que o usa para trabalhar e esculpir o osso e o marfim.

[...] O osso, mais resistente e mais fácil de ser recortado, vai ser aplicado à ponta do arpão (chifre de cervo), que se torna uma arma de grande eficiência, largamente utilizado na caça de grandes e pequenos animais.

[...]

O arco é uma outra conquista desse período [...].

[...]

Também um tipo de anzol primitivo foi idealizado [...].

[...]

O Paleolítico Superior caracteriza-se também pelo surgimento de manifestações artísticas [...]. Expressaram-se através da gravura, da pintura, da escultura e da modelagem. Desenhos de animais (cabalo, mamute, cabrito montês, rena, rinoceronte, bisão, leão, vaca etc.), gravados nas paredes das cavernas, figuras femininas esculpidas, baixos-relevos, esculturas em osso, pedra e marfim aparecem sobretudo na Europa Ocidental e no Norte da África.

[...]

O estudo da arte Paleolítica traz à luz aspectos significativos da cultura desses grupos humanos e de suas reações emocionais. Além de ser a expressão da criatividade dos indivíduos, tem finalidades mágicas ou rituais, sendo também utilitária. Acredita-se que da habilidade do artista dependiam as representações magicamente eficazes na espera da caça abundante, por exemplo, ou de saudável procriação (magia da fertilidade). Desenhando, pintando ou esculpindo expressavam essas ideias e sentimentos.

MARCONI, Marina de Andrade; PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia: uma introdução. São Paulo: Atlas, 2010. p. 80-86.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A arte mágica dos homens das cavernas e dos povos primitivos

"Ignoramos como a arte começou, tanto quanto desconhecemos como teve início a linguagem. Se aceitarmos que arte significa o exercício de atividades tais como a edificação de templos e casas, a realização de pinturas e esculturas, ou a tessitura de padrões, nenhum povo existe no mundo sem arte". 
[GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 39]


Veado, c. 15 000 - 10 000 a.C., Altamira, Espanha

Touros, c. 15 000 - 10 000 a.C., Laucaux, França

Bisão ferido, c. 15 000 - 10 000 a.C., Altamira, Espanha

Cavalos malhados e mãos humanas, c. 16 000 - 15 000 a.C., Pech Merle, França

"Os primeiros 'quadros' foram pintados em cavernas, provavelmente 15 000 anos atrás. As pinturas de bisões, veados, cavalos, bois, mamutes e javalis se situam nos recessos das cavernas, longe das superfícies habitadas e da luz do sol. Os arqueólogos especulam que os artistas criavam as figuras para garantir uma boa caça. Muitos animais aparecem trespassados por flechas, e furos nas paredes indicam que os habitantes das cavernas atiravam lanças nos animais desenhados". 
[STRICKLAND, Carol. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 4]

Dança ritual, c. 10 000 a.C., Addaura, Sicília

Pintura aborígene sobre pedra, Austrália

Caçador, c. 6 000 a.C., Çatal Hüyük 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O mundo dos espíritos: animismo e xamanismo

Reconhecendo as forças naturais e sua habilidade de afetar vidas humanas, muitas comunidades humanas primitivas desenvolveram sistemas de crenças baseados na ideia de que os mundos natural e animal eram favorecidos pelo poder espiritual (animismo). No xintoísmo essas forças são chamadas de kami, e podem ter incluído de tudo, desde cachoeiras e montanhas até divindades com características humanas como a Deusa do Sol. Entre muitos povos mesoamericanos, incluindo os zapotecas (cerca de 500 a.C. - 500 d.C.) e os maias, a noção do sopro, a brisa ou espírito animístico incorporado em forças naturais e no mundo natural foi fundamental à sua cosmologia: tudo aquilo que se move deveria ser respeitado como  o reflexo de um criador único, incorpóreo. Essas forças eram, então, personificadas como deuses ou deusas.

Xamã de uma tribo indígena da Amazônia venezuelana.

Comunidades humanas antigas também praticavam o xamanismo, crenças e práticas focadas em indivíduos com habilidades especiais que permitem a comunicação com espíritos. O xamanismo persiste no mundo contemporâneo, em lugares como a Coréia e até mesmo nos Estados Unidos e na África. Xamãs, que podem ser mulheres ou homens, que se pensava que poderiam se comunicar com outros seres antropomórficos ou espirituais em favor da comunidade por meio de transes cerimoniais. Na sociedade coreana moderna, refletindo práticas que podem ser originárias dos primeiros habitantes da península coreana, xamãs femininos realizam cerimônias para dar assistência a seus clientes que buscam ajuda com uma onda de azar ou para garantir um futuro benéfico.

Jorge Nopaltzin Guaderrama. Tradição asteca. Nopaltzin ensina as pessoas a viverem diretamente do coração, incondicionalmente.

Algumas artes rupestres têm sido interpretadas como representações das experiências xamânicas, notavelmente nos exemplos do sul da África, oeste da América do Norte e na Austrália. Entre os povos san do sul da África, acreditava-se que os xamãs influenciavam os rebanhos de elandes, um tipo de antílope que eles caçavam. Imagens de figuras antropomórficas (parte humana, parte elandes) em artes rupestres recentes e antigas podem ser referência às experiências de transes, nas quais os xamãs tornavam-se um elande. De forma semelhante, utilizando evidências etnográficas e arqueológicas, acadêmicos interpretaram artes nas pedras de 4 mil anos, da região do baixo curso do Rio Pecos no sudoeste do Texas e no norte do México, que retratavam figuras antropomórficas atravessando uma abertura em forma de um arco sinuoso que eram a representação pictográfica de uma jornada xamânica dentro do mundo espiritual.

Curandeiro Nez Perce, George Catlin.

Junto à arte rupestre, os artefatos mais antigos que oferecem uma dica sobre as ideias e práticas religiosas da América do Norte são cachimbos com figuras humanas que pareciam estar em transe, esculpidas na parte saliente. Esses cachimbos, datando de 3 mil anos atrás, provavelmente eram usados em cerimônias xamânicas nas quais fumar uma substância produzia um estado de transe que permitia que o xamã entrasse em contato com o mundo espiritual. Os cachimbos surgiram quando os construtores de altares norte-americanos começaram a erguer plataformas nas quais as cerimônias - que presumivelmente deveriam utilizar esses cachimbos - podiam acontecer no alto de grandes montes de terra.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 100-101.

sábado, 17 de setembro de 2011

A Pré-história: das origens até 3000 a.C.

"Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pelos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas." (GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 151.)

Pintura rupestre do povo Sam, África do Sul
"A linguagem da arte é poderosa para as pessoas que a compreendem, e intrigante para quem não a compreende. O que sabemos é que aqui estava a mente moderna em funcionamento, gerando simbolismos e abstrações de um modo que somente o Homo sapiens é capaz de fazê-lo."
(Richard Leakey, paleontólogo)

1. Pré-história: crítica ao termo. Tradicionalmente, costuma-se dividir o processo histórico em Pré-história e História, sendo a utilização da escrita o fato que distingue uma sociedade pré-histórica ou "primitiva" de outra sociedade histórica ou "civilizada".

O estudo da Pré-história trata de aspectos da vida de povos que não tiveram escrita. Alcança um período cerca de cem vezes maior do que o abrangido pela História escrita. Os mais antigos documentos escritos do Egito ou da Mesopotâmia datam aproximadamente de 5000 anos e sabe-se hoje que os primeiros grupos humanos surgiram há mais de 600 ou 500 mil anos! Portanto, tal divisão da História limita o seu próprio campo.

As escritas constituíram-se quando apareceram os primeiros instrumentos de metal e já se encontravam bem desenvolvidas quando surgiram os instrumentos de bronze e se iniciou a vida urbana. Assim, o aparecimento da escrita pressupõe um determinado desenvolvimento das forças produtivas e da capacidade mental dos homens. Mas qual terá sido o benefício social para a massa de um povo, para a classe trabalhadora dessas sociedades onde se elaboraram sistemas gráficos? Essa grande transformação cultural foi aproveitada pela sociedade como um todo? De modo algum. Durante vários milênios, a escrita e também o metal foram privilégios apenas de uma parcela da população. A massa das sociedades permaneceu iletrada até pelo menos a Revolução Industrial dos séculos XVIII/XIX. Assim, na verdade, a cultura "Pré-histórica" coexiste com as chamadas "civilizações". Mas nem por isso se poderá dizer que as sociedades da Idade Média, por exemplo, viviam na Pré-história!

Himbas, Namíbia.
Foto: Rosier

Uma outra descoberta, por certo, foi muito mais revolucionária e muito mais significativa do que a invenção da escrita: o controle do fogo. (AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 100-101.)

2. Estudo da Pré-história. A base para os estudos pré-históricos são as escavações em sítios arqueológicos, que trazem à luz um número cada vez maior de fósseis (literalmente, tirados da terra): resíduos de seres vivos - plantas, animais, ossos etc. - petrificados ou endurecidos, depois de permanecerem por longo tempo soterrados entre as camadas de rochas. Nos sítios, é recolhido também todo e qualquer objeto produzido ou utilizado pelos seres humanos, além da investigação de registros por eles deixados, como pinturas em rochas.

Para esse estudo concorrem diversas ciências voltadas para o conhecimento histórico propriamente dito: arqueologia, antropologia, paleontologia. Além dessas, o estudo de vestígios e registros pré-históricos vale-se de pesquisas de outras áreas e  de técnicas ligadas à investigação da constituição física da Terra e ao conhecimento dos seres vivos, como geologia, geografia e biologia.

Uma das principais contribuições para os estudos da Pré-história vem da química e da radiologia, que possibilitam, por meio de medições dos isótopos radioativos de certos elementos químicos (como o carbono 14), datações cada vez mais precisas dos objetos e vestígios humanos antigos.

Outro recurso empregado pelos estudiosos do passado remoto da humanidade é o da etnologia comparada, que permite estabelecer hipóteses, e mesmo algumas interpretações, a partir do conhecimento sobre os atuais povos iletrados. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 24-25.)

3. Passado presente. Numerosos povos de caçadores atingiram o século XIX e início do século XX, tempo suficiente para serem estudados por etnólogos e antropólogos físicos e sociais. Hoje, as atividades de caça e coleta são representadas pelos bosquímanos, esquimós e aborígenes australianos. Eles abrangem apenas algumas centenas de milhares do total da população mundial, mas fornecem uma possibilidade valiosa e única de compreensão das atividades primitivas humanas.

Senhoras Himba, Opuwo, Namíbia.
Foto: Hans Hillewaert

Estudos recentes revelam estreito relacionamento entre povos caçadores e seu ambiente natural, relativa simplicidade da cultura material (apenas 94 artefatos existem entre os bosquímanos kung), ausência de acúmulo de riqueza individual [...].

As unidades sociais, bandos ou hordas, são pequenas: grupos de familiares e poucos amigos que podem viver e trabalhar em conjunto. Estudos recentes contradizem a visão tradicional da vida de caça como grosseira, embrutecedora e curta, e como uma luta constante contra o ambiente hostil. Com efeito, as exigências de subsistência dos bosquímanos são satisfeitas por um pequeno esforço - talvez até de dois ou três dias de trabalho por semana, para cada adulto; não precisam se empenhar por recursos de alimentação; suas atitudes em relação à propriedade são flexíveis e seus grupos admitem recém-chegados de outros grupos. [...]

Há evidências de que a expectativa de vida nas comunidades de caça e coleta não é necessariamente curta. Doenças infecciosas são raras, já que as pessoas se estendem por diversas terras, tornando mais difícil o contágio entre grupos [...]. (BARRACLOUGH, Geoffrey (coord.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo/Times Books, 1985. p. 35)

4.  O início da vida na Terra. De acordo com os geólogos, a Terra teria tido origem, há cerca de 4 a 5 bilhões de anos, de uma bola incandescente de vapores e gases. De seu resfriamento progressivo formaram-se a atmosfera e a crosta terrestre.

A crosta terrestre chegou a seu aspecto atual no decurso de numerosas transformações que se processaram através de bilhões de anos. Essas transformações foram classificadas pelos cientistas em várias eras, acompanhando a formação física da Terra e o aparecimento da vida vegetal e animal.

* Azóica (sem vida). Formação das rochas ígneas (formadas pelo fogo) e de uma atmosfera carregada de gases.

* Arqueozóica (vida arcaica). Primeiras chuvas. Formação de oceanos, numerosos vulcões, altíssimas montanhas. Surgiram as primeiras formas de vida, seres unicelulares, algas marinhas.

* Proterozóica (vida elementar). Formação de rochas sedimentares. Aparecimento de esponjas, corais, primeiras plantas com raízes.

* Paleozóica (vida antiga). Surgiram enormes extensões cobertas por samambaias gigantescas; sua decomposição determinou a formação de grandes jazidas de hulha (carvão mineral). Essa era é também chamada primária, pois nela se iniciou a evolução da espécie animal, - moluscos, peixes, anfíbios, insetos, - favorecida por um clima quente e úmido.

* Mesozóica (vida média) ou secundária. Era de grandes erupções vulcânicas modificando o aspecto da crosta terrestre, levantando algumas das mais altas cadeias de montanhas da atualidade: Himalaia (Ásia), Andes (América do Sul), Rochosas (América do Norte). Evoluíram formas mais complexas de vida: répteis, aves, primeiros mamíferos.

* Cenozóica (vida recente) ou terciária. Nessa era ocorreu grande queda de temperatura, determinando a formação de colossais massas de gelo nos pólos. No hemisfério norte essas glaciações avançaram sobre grande parte da Europa, América e Ásia. Multiplicaram-se os mamíferos, surgindo os chamados primatas, dos quais, na era seguinte, evoluiria o homem.

* Neozóica (vida nova) ou quaternária. Nesta era alternaram-se períodos de glaciações com períodos de intenso calor. Desapareceram certos animais (o mamute, por exemplo), que conhecemos apenas pelos fósseis (restos petrificados de bichos e plantas) encontrados nas diferentes camadas de rochas do nosso planeta; outros animais (rena, alce, bisão) fixaram-se em regiões junto às zonas árticas. Quando cessaram as glaciações o homem já havia surgido e continentes e oceanos já haviam adquirido sua forma atual.

5. A evolução do homem na Terra. Os mais antigos ossos humanos até agora encontrados em várias partes do globo atestam que o homem apareceu há mais de 1.000.000 de anos. Os ossos encontrados apresentam grandes diferenças entre si, mostrando a evolução da espécie humana através dos tempos.


"O aparecimento do Homem sobre a terra é indicado pelos instrumentos que ele faz". 
(Gordon Childe, arqueólogo)

* Zinantropo e Australopiteco, descobertos, pela primeira vez, no século XX, na África. Existiram há cerca de 1,5 milhões de anos e foram considerados muito próximos dos macacos.

* Homem de Java, aí descobertos, pela primeira vez, no fim do século XIX. Existiu de 500000 a 2000000 a.C. e foi considerado o primeiro tipo de homem; conhecido por Pithecanthropus erectus (homem-macaco de pé).

* Homem de Pequim, aí descoberto, pela primeira vez, no princípio do século XX. Foi contemporâneo dos últimos pitecantropos.

* Homem de Neandertal, descoberto, pela primeira vez, na Alemanha, em meados do século XIX. Existiu de 200000 a 50000 a.C.


Representação moderna de família de Neandertais. 
Os Neandertais viveram em áreas do norte e oeste da Eurásia na última Idade do Gelo. Os Neandertais eram caçadores-coletores. Criaram armas e ferramentas de pedra. O mamute-lanoso, o veado com chifres de Bush e o gato de dentes de Sabre são os animais extintos da época do Pleistoceno. O cavalo da Eurásia, o Orix, o Lemming em faixas e o boi-almiscarado são animais que ainda existem. Ilustração: Randii Oliver


* Homem de Cro-Magnon, ou homo sapiens, isto é, homem que raciocina. Descoberto na França, em meados do século XIX, é o antepassado do homem atual.

Além dos restos humanos ainda foram encontrados, nas várias camadas da Terra, utensílios e armas usados pelos homens primitivos, permitindo-nos reconstituir pelo menos em parte o tipo de vida que levaram e acompanhar sua evolução. Conforme as técnicas que o homem foi inventando para viver e sobreviver em seu ambiente, e dele tirar proveito, dividiram-se os longos tempos de sua Pré-história em três períodos: Paleolítico, Neolítico e Idade dos metais.

Neandertais MoustierCharles R. Knight

6. Os grandes períodos da Pré-história. É provável que os primeiros homens se tenham servido de galhos de árvores e pedaços de pau a fim de desenterrar raízes, derrubar frutos, fisgar peixes, matar animais e para se defender. Nada, porém, restou desses instrumentos que o tempo se encarregou de destruir. Os instrumentos mais antigos encontrados em escavações são de pedra, de chifre ou de marfim. Como os objetos de pedra são mais numerosos, chamou-se ao primeiro período da Pré-história de Idade da pedra. E como os diferentes tipos de armas e utensílios eram alguns mais toscos, outros mais aperfeiçoados, dividiu-se a Idade da pedra em pedra lascada, ou Paleolítico, e pedra polida, ou Neolítico. Quando os homens descobriram como fazer uso dos metais teve início a Idade dos metais; e quando, por volta de 3000 a.C., o homem inventou a escrita, podendo assim registrar fatos significativos de sua existência, usos e costumes, teve início a História.

* Paleolítico. Durou desde o aparecimento do Pitecantropo - cerca de 600000 a.C. - até aproximadamente 10000 a.C., quando já aparecera o homem de Cro-Magnon, o homo sapiens.

No começo os homens eram nômades, vivendo em busca do alimento pela coleta de frutos, ervas e raízes, comendo insetos, peixes e pequenos animais, às vezes capturados em armadilhas rudimentares. Aos poucos aprenderam a fabricar instrumentos de pedra, sobretudo de sílex, lascando-os com outra pedra. Com os primeiros instrumentos, espécie de machados, puderam caçar animais maiores, atirando sua arma à distância, e foram fazendo novos instrumentos, de acordo com a necessidade: lanças, arpões, anzóis e, mais tarde, agulhas de osso, arcos e flechas. Com o aperfeiçoamento das armas os homens dedicaram-se à caça, e a coleta ficou a cargo das mulheres, das crianças e dos velhos. As peles dos animais mortos serviam de roupa e eram costurados com fios obtidos dos tendões da caça abatida.


Bisão, Loius Agassiz Fuertes

Conforme as regiões habitadas abrigavam-se em cavernas ou em choupanas feitas de galhos, cobertas de folhas. Aos poucos perderam o medo do fogo provocado na natureza por combustão espontânea ou por raios, descobriram sua utilidade e aprenderam a acendê-lo. Passaram a assar a carne e a cozinhar vegetais em sacos de pele. Junto ao fogo se reuniam, descansavam e se protegiam do frio e dos ataques de animais ferozes.


Diálogo de gerações - o elo constante da civilização.
As experiências vividas sempre são úteis aos novos projetos. Os mais velhos abrem frentes de meditação e explicação, sejam no campo dos bens materiais, sejam nas questões do espírito.

* Neolítico. Estende-se de cerca de 10000 até aproximadamente 4000 a.C.; denomina-se também Idade da pedra polida, pois nessa fase os homens aprimoraram os instrumentos de pedra, polindo-os e tornando-os também mais afiados. Fizeram muitos novos utensílios, tais como facas, foices, enxadas e vasilhas para guardar ou cozinhar alimentos. O homem descobriu como utilizar a argila (fim do sexto milênio a.C.), modelando recipientes que eram depois cozidos ao fogo para adquirir resistência; descobriu como tecer fibras vegetais e pelos de animais para fazer roupas mais práticas e adequadas a vários climas, a trançar cestos e balaios, a construir barcos e jangadas escavando ou unindo troncos de árvores.

Instrumentos de trabalho do período Neolítico

Entretanto, a realização mais importante, mais significativa, do homem do Neolítico foi ter dado início à agricultura (ca. 8000 a.C.). As primeiras formas de agricultura desenvolveram-se na Ásia Menor (Mesopotâmia), onde tamareiras, oliveiras, figueiras, macieiras e outras plantas cresciam espontaneamente em grande quantidade.

Observando o ciclo de crescimento das plantas aprendeu a cultivar para produzir e colher cereais, frutos e legumes. Deixou, pois, de ser apenas coletor e caçador e, como agricultor, fixou-se ao solo, tornando-se sedentário. Passou a viver em moradias de pedra, barro, tijolos ou madeira, muitas vezes sobre palafitas, à beira de lagos, agrupadas em núcleos cada vez maiores que formaram as primeiras aldeias, reunidos em tribos - grupos de famílias unidas pelos mesmos interesses e mesmos laços de sangue.

Capturando animais selvagens, para tê-los como reserva alimentícia, aprendeu a domesticá-los e a aproveitar-se do que eles ofereciam, como leite e lã. No fim do Neolítico o homem já havia domesticado o cachorro, o carneiro, a cabra, o boi, o porco, o cavalo e outros animais, segundo as regiões do globo que habitavam. Assim, além de agricultor, tornou-se também criador e desenvolveu o pastoreio.

O Neolítico assinalou grandes modificações na vida dos homens: agricultura e criação permitiram-lhes divisão de trabalho, cooperação entre grupos, uma existência mais organizada, contar com reservas de alimentos e iniciar um tipo primitivo de comércio, baseado em trocas, desenvolver o sentido de propriedade (terras, produtos, animais).

Das regiões da Ásia, onde, nesse período, houve grande aumento de população, a agricultura se irradiou gradativamente em direção à Europa, com migrações de numerosos grupos em busca de novas terras.

* Idade dos metais.  Assim como o homem descobriu, pela observação e o raciocínio, como aproveitar e trabalhar as pedras, pedaços de ossos, chifres de animais e madeira, da mesma forma aprendeu a trabalhar os metais que encontrou no solo. O primeiro metal utilizado foi o cobre (no VI milênio a.C.), de início martelado a frio, depois fundido ao fogo e moldado em forma de barro ou de pedra, para feitura de ornamentos e lâminas de facas. Sendo um metal mole, o cobre não substituiu totalmente a pedra, que continuou sendo usada para instrumentos ou armas que exigiam grande resistência. Mais tarde o homem descobriu a liga do cobre com o estanho, obtendo assim o bronze, metal mais duro, que foi largamente empregado na fabricação de lanças, espadas, capacetes e objetos de adorno. Descobrindo como utilizar o metal, o homem, além de agricultor, pastor e criador, tornou-se também artesão. Esse novo tipo de atividade exigiu nova divisão de trabalho entre os membros das tribos, uma organização social mais complexa. Nasceram, assim, os primeiros pequenos núcleos urbanos que puderam atender às necessidades de uma população em aumento, desenvolver o comércio de matérias-primas e objetos de artesanato, oferecer serviços coletivos - tais como distribuição de água e de cereais - providenciar a construção de fortificações, templos, edifícios públicos.

Com a Idade dos metais deu-se a passagem da Pré-história à História. Através de cerca de 1 milhão de anos o homem evoluiu física e mentalmente, graças à inteligência que lhe permitiu dominar a natureza, passo a passo. Essa evolução, entretanto, não ocorreu ao mesmo tempo no mundo todo. Houve um grande desnível entre os períodos pré-históricos no Oriente e no Ocidente. Também a entrada dos homens na História deu-se em épocas diversas: enquanto a Europa ainda se encontrava na Pré-história, no Oriente já haviam surgido civilizações, precursoras da civilização ocidental.

* Os paleoíndios no continente americano. "Escavações feitas numa caverna com as paredes pintadas, próximo a Monte Alegre, na margem norte do Amazonas, trouxeram à tona descobertas tão importantes (...) que valeram a seus autores a capa da respeitada revista norte-americana Science. Foram encontrados lascas de pontas de lança e de outras ferramentas, carvão de acampamentos humanos e restos de alimentos, como frutas e animais, além de pedras pintadas que atestam a presença de culturas indígenas no local durante 1 200 anos, a partir de 11 mil anos atrás, mesma época dos primeiros vestígios humanos na América do Norte". (Trecho do artigo de Martha San Juan França publicado em O Estado de S. Paulo, 18 abr. 1996.)

"No final do período Paleolítico, o continente americano já era habitado por diversos povos, chamados paleoíndios. Esses povos, de modo geral, eram caçadores e coletores que sobreviviam praticando a caça, a pesca e a coleta de frutos e raízes.

Na região Norte do continente, os grupos de paleoíndios eram experientes na fabricação de ferramentas de pedra, e suas pontas de lança eram talhadas com grande habilidade. Eles eram especializados na caça de grandes animais, como os mamutes.


Artistas Cro-magnon pintando mamutes em Font-de-GaumeCharles R. Knight

A América do Sul também era povoada nessa época. A região de Lagoa Santa, no atual estado de Minas Gerais, por exemplo, era habitada por paleoíndios.

[...] Viviam em bandos reunidos em torno de um líder. Dominavam o fogo e tinham técnicas rudimentares de construção de utensílios de pedra lascada, como pontas de lanças e lâminas de quartzo capazes de cortar couro e carne.

Ao contrário do que normalmente se imagina, os paleoíndios não moravam em cavernas, e sim em locais abertos onde havia água corrente disponível [...]. Nesses locais, a vegetação farta e a presença de animais silvestres garantia uma alimentação balanceada entre vegetais e carne de caça. As cavernas eram usadas como abrigos pelos caçadores e, provavelmente, para a realização de rituais religiosos e fúnebres. Embora fossem nômades, cada grupo movia-se dentro de um território próprio, que conheciam detalhadamente – o que facilitava a busca de alimentos. [...]

A arqueologia também nos mostrou, mais recentemente, que os [habitantes] do Brasil paleoíndio tinham respeito por seus mortos, depositando-os em abrigos de pedra – o que garantiu sua conservação ao longo dos milênios". [...] ROMANINI, Vinicius. “O Brasil de Luzia”. In : Os caminhos da Terra, ano 12, n. 151. São Paulo: Peixes, novembro/2004. p. 48.

7. A cultura na pré-história. O homem pré-histórico legou-nos interessantes testemunhos da sua cultura, através de gigantescos monumentos de pedra e pinturas em cavernas.

"Quase por toda parte do Mundo o homem primitivo escavou, gravou ou pintou nas paredes rochosas dos seus abrigos ou grutas: na África Meridional, Central ou Setentrional; nas regiões ocidentais dos Estados Unidos; na Oceania, na Austrália e em muitas outras regiões. Todas essas manifestações de arte rupestre não datam da mesma época; de fato, muitas vezes os arqueólogos podem emitir hipóteses sobre a sua data; todavia, em numerosos pontos do globo, essa arte primitiva apresenta caracteres comuns." (E. M. Upjohn et alii. História mundial da arte. Lisboa: Bertrand, 1965. v. 1. p. 32-33.)

Os monumentos de pedra parecem ter significado religioso, ligando-se ao culto dos mortos. São de dois tipos, conhecidos pelos nomes de menirs (pedra comprida, em língua bretã) e dólmens (mesa de pedra, também em língua bretã).


Os megálitos são os mais antigos monumentos da humanidade. Os círculos de Stonehenge [Grã-Bretanha] estão talvez ligados a um culto solar ou lunar.

O homem da Pré-história criou ritos mágicos para auxiliá-lo a vencer a natureza e o medo do desconhecido. Esses ritos buscavam favorecer a caça, trazer chuvas, estações propícias, fartura de alimentos. Foram os ritos mágicos favorecedores da caça que provavelmente deram início às primeiras manifestações artísticas, desenhadas e pintadas nas paredes e no teto de cavernas, com carvão, tintas minerais e vegetais, representando animais como o mamute, o touro, o javali, a rena, o cavalo.

Caça de búfalos, Tassili n' Ajjer, Saara - Argélia

Apareceram também estatuetas, sobretudo imagens femininas, representativas da fecundidade, da natureza fértil; gravuras em pedra, osso, marfim; cerâmicas pintadas ou decoradas com motivos geométricos.


Vênus de Laussel. Relevo em pedra calcária, datado de 20000 - 18000 a.C. e encontrado na região de Dordonha, França. Havia uma forte presença feminina na religião, uma vez que a fertilidade da terra/natureza era identificada com a fertilidade da mulher. A chamada Vênus de Laussel faz parte de uma série de representações do mito da fecundidade. Essas figuras femininas têm como características o ventre inchado, seios e nádegas grandes e quadris largos.

Na Idade dos metais multiplicaram-se os desenhos geométricos no artesanato, aperfeiçoou-se a representação das figuras humana e animal. Em certas regiões do Oriente Médio construíram-se templos em homenagem a várias divindades; e, também no Oriente, nasceu, sobre placas de argila, a escrita pictográfica.


AQUINO, Rubim Santos Leão de et alii. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 100-101.
BARRACLOUGH, Geoffrey (coord.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo/Times Books, 1985. p. 35.
GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 151.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 2-8.
NEVES, Joana. História Geral - a construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 24-25.
ROMANINI, Vinicius. “O Brasil de Luzia”. In : Os caminhos da Terra, ano 12, n. 151. São Paulo: Peixes, novembro/2004. p. 48.
UPJOHN, E. M. et alii. História mundial da arte. Lisboa: Bertrand, 1965. v. 1. p. 32-33.