"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Barão Wilhelm von Gloeden (1856-1931)

Terra do fogo.
Fotografia de Wilhelm von Gloeden

Um fotógrafo gay pioneiro, que usou jovens italianos para recriar imagens da Grécia Antiga. Viveu no exílio em Taormina, na Sicília, ajudando a cidade a se tornar um destino para homossexuais europeus e americanos.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 200. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Sylvia Beach (1887-1962)

Sylvia Beach decorando a vitrine da livraria Shakespeare and Company

Pioneira proprietária de livraria e editora. Beach deixou a América para passar o resto de sua vida em Paris com sua amante Adrienne Monnier. Fundou a livraria Shakespeare and Company e foi a primeira a publicar Ulisses, de James Joyce.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 202.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Lorde Byron (1788-1824)

Lorde Byron em seu leito de morte.
Joseph Denis Odevaere

O maior poeta romântico e bissexual de sua época. Byron foi impelido ao exílio pela sociedade inglesa por causa de suas confissões homossexuais. Admirava profundamente o conceito de Amor Grego. Morreu pela causa da liberdade grega, em Missalonghi.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 200.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Natalie Clifford Barney (1876-1972)

Natalie e Missal.
Alice Pike Barney

Romancista e poeta que se tornou a lésbica americana mais famosa entre as que viviam em Paris no final do século XIX. Natalie fundou um famoso salão literário que durou mais de 60 anos.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos; Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 201. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Damas de Llangollen

Damas de Llangollen: Eleanor Butler (1739-1829) e Sarah Ponsonby (1755-1831).
Richard James Lane

Duas fidalgas anglo-irlandesas que fugiram e, juntas, encontraram a felicidade no exílio em Llangollen, ao norte do País de Gales. Seu lesbianismo discreto e seu estilo de vida idílico atraíram muitos admiradores na sociedade inglesa.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 200.

domingo, 25 de junho de 2017

Edward Carpenter (1844-1929)

Edward Carpenter e George Merrill em 1900.
Fotógrafo desconhecido

Socialista, poeta e precursor do ativismo gay. Carpenter defendia com empenho todas as formas de liberdade sexual. Seu trabalho foi de grande inspiração para que muitos outros fossem honestos quanto a sua homossexualidade.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 201. 

sábado, 24 de junho de 2017

Rainha Cristina da Suécia (1626-1689)

As artes ao redor do busto da rainha Cristina da Suécia.
David Klöcker Ehrenstrahl

O comportamento masculinizado de Cristina, seu travestismo e o amor por uma cortesã provocaram pouca reação na Suécia, mas sua decisão em abandonar seu país e sua religião para viver como católica em Roma escandalizou a Europa do Norte.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 199.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Conde Jacques d'Adelswird Fersen (1880-1923)

Capa da Revista Akademos, publicada pelo Conde Jacques d'Adelswird Fersen em 1909.

Escritor francês que se exilou de Paris depois de ter sido preso e ter caído socialmente em desgraça por causa de um escândalo envolvendo dois garotos. Instalou-se na Ilha de Capri e viveu uma vida abertamente homossexual, atraindo, assim, para a ilha pessoas com sentimentos semelhantes.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 200-1.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teófilo de Viau (1590-1626)

Teófilo de Viau.
Artista desconhecido

Poeta francês e libertino que escreveu sobre o amor entre homens. Foi exilado para a Inglaterra por comportamento sexual em 1619, mas voltou para a França em 1622. Tornou-se uma causa célebre na Europa, após ser novamente preso e sentenciado ao exílio perpétuo.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 199.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Billie Holiday, diva do jazz

Billie Holiday, 1949.
Foto Carl van Vechten

Na tarde de 1º de dezembro de 1955, os 50 mil habitantes negros do bairro de Montgmery, no Alabama, Estados Unidos, estavam em polvorosa. A secretária da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), que lutava pelo fim da segregação racial, Rosa Parks, tinha sido presa por ter utilizado um assento no ônibus, reservado por lei para brancos. Em 1954 o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tinha declarado ilegal a discriminação racial nos colégios. Isso impulsionou a numerosa comunidade negra a empreender diversas lutas contra o racismo. O ápice desse processo se deu no dia do julgamento de Parks. Um boicote geral aos transportes foi marcado, contando com cerca de 90% de participação da comunidade negra local. Rosa Parks foi considerada culpada. O boicote foi ampliado. Nesse cenário, um jovem de 26 anos desponta como uma liderança capaz de aglutinar desejos, anseios por mudanças numa sociedade profundamente desigual. Seu nome era Martin Luther King, ou para alguns posteriormente, como o presidente Barack Obama, apenas o rei. Devido à forte atuação de Luther King, o boicote atingira seu objetivo, e em 13 de novembro de 1956 o Supremo Tribunal confirmava a decisão de um Tribunal Distrital transformando em inconstitucional a separação dos lugares dos ônibus de acordo com as raças. Essas vitórias judiciais vieram com duras e constantes lutas do movimento negro para se tornar reais, chegando ao ponto de o presidente D. Eisenhower ter de enviar tropas de paraquedistas para fazer cumprir o direito dos estudantes negros e brancos a uma educação comum. Foi nesse tumultuado contexto que a mais comovente cantora de jazz, Billie Holiday, narrou sua autobiografia.

Lançada nos Estados Unidos em 1956, a autobiografia, escrita com a colaboração do jornalista William Duft, da musa do jazz Billie Holiday, Lady Sings the Blues, foi fortemente influenciada pelo contexto das lutas raciais, da qual ela foi importante ativista. [...]

Com um estilo único e muito mais ligado ao jazz do que ao blues, a cantora americana Billie Holiday dava às músicas uma interpretação única que envolvia ao mesmo tempo uma técnica muito pessoal e uma dramatização vocal, transformando em belos sons músicas muitas vezes simples. Poucos foram os cantores ou cantoras que conseguiram influenciar músicos instrumentistas tão variados como os clarinetistas Artie Shaw e Tony Scott, o saxofonista Lester Young e os trompetistas Buck Clayton e Miles Davis, este último reconhecido como um dos principais músicos do século XX, além, é claro, de sua forte influência em cantores como Frank Sinatra e Ella Fitzgerald. Por não ter estudado música nem tampouco fazer leitura de partituras, talvez a única grande influência externa à obra de Holiday tenha sido o cinema, de onde tirou seu nome artístico em homenagem a atriz Billie Dove. Essa influência que o cinema exerceu no início desse modelo de canção não é perceptível apenas nas escolhas de Billie Holiday, podemos lembrar que Eunice Waymon adotou o nome Nina Simone em homenagem à atriz Simone Signoret.

Nascida no estado da Filadélfia em 1915, Eleanor Fagan, filha do músico Clarence Holiday e de Sarah Fagan, sua vida foi marcada por traumas e abandonos que a conduziram a um temperamento forte e, muitas vezes, impaciente e rude. Desde quando ainda era muito criança, seu pai saiu em excursão com sua banda e, a partir de então, ficou apenas com sua mãe, que ora a deixava com parentes, ora com vizinhos. Muito cedo começou a trabalhar como empregada e com 10 anos sofreu abusos sexuais de um vizinho, marcando para sempre sua vida. Aos 14 anos passou a morar definitivamente com sua mãe em Nova Iorque, onde começou a prostituir-se. Aos 15, então, começa seu contato mais próximo com a música. Desde cedo, quando trabalhava como empregada, Holiday pagava para escutar discos na casa de uma família. Seu dinheiro era gasto no aluguel de uma vitrola em que pudesse escutar seus discos prediletos, ou, em larga medida, os discos possíveis. Suas principais influências foram a popular cantora da década de 1920 Bessie Smith, conhecida como "A imperatriz do blues", e o trompetista Louis Armstrong, que, mesmo com estilos diferentes daqueles apresentados por Holiday ao longo da carreira, tiveram importância basilar em sua vida. Sua carreira teve início no Harlem, região com várias casas de música onde diariamente se apresentavam os mais variados músicos de jazz dos anos 1930. Depois de alguns anos cantando em casas noturnas, gravou seu primeiro LP com a banda do famoso clarinetista judeu Benny Goodman.

A partir de então sua carreira deslancha, chegando a gravar com as renomadas big bands de Artie Shaw e Count Basie. Seu sucesso passou a representar não só sua vitória pessoal, mas também a vitória do movimento negro contra o apartheid nos Estados Unidos, visto que ela foi a primeira negra a cantar com uma big band.

A música If my heart could talk fala de sonho, amor, e representa parte do que Billie Holiday sempre desejou. Ela teve relacionamentos com vários músicos, cineastas, artistas, e seu casamento foi um desastre, a conduzindo a um rude rompimento e uma profunda depressão. Na década de 1940, já estava presa ao mundo das drogas, sendo detida, processada, tendo shows cancelados e seu cabaret card cassado pela polícia, o que a proibia de cantar em bares que vendessem bebidas alcoólicas. O mundo das drogas, com uma constante pressão da mídia por conta de seus internamentos para tratamento, levou Holiday a um beco sem saída. O alcoolismo e a cocaína enfraqueceram sua já fragilizada saúde, levando Holiday a diversos problemas no fígado e coração. Com 44 anos, em 1959, o mundo perdia a voz mais singular do jazz, que morreu da forma como começou: simples, presa ao medo de não ser lembrada e amada. Holiday morreu com setenta centavos no banco e 750 dólares em notas grandes presos em sua meia. Junto com a cantora francesa Édith Piaf e com o pianista e cantor Ray Charles, foi uma das figuras mais polêmicas e discutidas de sua geração. Desde sua aparição no cinema em New Orleans, onde interpretava a empregada Endie, até suas canções de maior sucesso, como Strange fruit, que conta a história dos linchamentos sumários e das execuções públicas de negros nos Estados Unidos do século XX utilizando-se de metáforas extremamente singulares e chocantes, todos foram rodeados por muitas histórias de uma cantora que falou em forma de vida, uma vida contada e cantada. O compositor e ativista Josh White relembra o quanto Strange fruit era mais do que uma canção para Billie Holiday:

Ouvi o disco de Billie, e era algo tão forte que percebi que a canção [Strange Fruit] deveria ser usada para abrir os olhos das pessoas a certas coisas que não deveriam existir. Não queria lhe roubar nada. Amava sua interpretação da canção, mas queria apresentar Strange Fruit do meu jeito. Expliquei isso a Billie e acho que ela entendeu, depois veio frequentemente ao Café - em geral para o último espetáculo [...]. Por vezes arrastava-se e nem sequer entrava. Vinha de carro ao Village e sentava-se do lado de fora, ouvindo o rádio do carro, em companhia do seu grande boxer, Mister. Então começávamos a rodar de automóvel por todos os locais que ainda estavam abertos [...].

Falar de Billie Holiday, ou melhor, de Lady Day, como a chamava Lester Young, é ao mesmo tempo lembrar-se do quão popular foi o jazz e do quanto alguém conseguiu mergulhar em seu próprio tempo.

Mais do que uma singularidade complexa, Billie Holiday é, sem quaisquer dúvidas, uma das principais representantes da difusão do jazz e do blues nos Estados Unidos do início do século XX. Ultrapassando os núcleos de preconceitos raciais, Billie conseguiu atingir uma gama enorme de ouvintes ainda em vida e, a partir daí, demonstrar as fragilidades da sociedade americana. O famoso historiador inglês Eric Hobsbawn, em seu livro História Social do Jazz, estava correto quando afirmou que o jazz representou, em grande medida, uma forma de inserção social dos negros na preconceituosa sociedade norte-americana. O jazz em sua raiz é uma música popular tanto do mundo rural do sul quanto do urbano do norte. E, segundo o próprio Hobsbawn, algumas de suas caracterísitcas, mais no que concerne ao popular, foram mantidas por toda sua história: a importância da tradição oral na transmissão, a improvisação e velocidade de trocas e execução, dentre outros. Muitos desses aspectos podem até ser pouco reconhecidos no jazz contemporâneo, mas isso só comprova a tese de que é uma arte que não está morta, ao contrário, se mostra em constante desenvolvimento e dinamismo, ainda vinculada diretamente às percepções da sociedade nas quais está inserida.

SOUZA NETO, José Maria Gomes de [et alli]. Pequeno dicionário de grandes personagens históricos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2016. p. 383-87.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Aspásia

Aspásia e Pérciles, José Santiago Garnelo y Alda

Nos tempos de Péricles, Aspásia foi a mulher mais famosa de Atenas.

O que também poderia ser dito de outra maneira: nos tempos de Aspásia, Péricles foi o homem mais famoso de Atenas.

Seus inimigos não perdoavam que fosse mulher e estrangeira, e para acrescentar-lhe alguns defeitos atribuíam a ela um passado inconfessável e diziam que a escola de retórica, que ela dirigia, era um criadouro de mocinhas fáceis.

Foi acusada de desprezar os deuses, ofensa que podia ser paga com a morte. Diante de um tribunal de mil a quinhentos homens, Péricles a defendeu. Aspásia foi absolvida, embora em seu discurso de três horas Péricles tenha esquecido de dizer que ela não desprezava os deuses, mas achava que os deuses nos desprezam e arruínam nossas efêmeras felicidades humanas.

Naquela época, Péricles já havia expulsado a esposa de seu leito e de sua casa e vivia com Aspásia. E por defender os direitos do filho que teve com ela, havia violado uma lei que ele mesmo havia escrito.

Para escutar Aspásia, Sócrates interrompia suas aulas. Anaxágoras citava suas opiniões:

- Que arte ou poder tinha essa mulher, para dominar os políticos mais eminentes e para inspirar os filósofos? - perguntou-se Plutarco.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 50.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Akenaton

Akenaton e Nefertiti fazendo oferendas a Aton. 
Detalhe de relevo, 18ª dinastia.

O início do declínio do Novo Império pode ser atribuído ao reinado de Amenotep IV (1353-1335 a.C.). Amenotep era devoto de um obscuro deus do Sol chamado Aton. No quarto ano do seu reinado, ele elevou Aton à posição de deidade suprema. No ano seguinte, construiu uma nova capital, Aketaton, e mudou o seu nome para Akenaton. A princípio, o faraó apresentou Aton como deus composto de outros dois, Amon e Ra, mas, em 1344 a.C., ele insistiu que, na verdade, Aton era um deus único e que ele, Akenaton, era o único intermediário entre Aton e o povo. Ele ordenou a desfiguração dos templos dos outros deuses em todo o Egito. A reforma religiosa de Akenaton foi extremamente controvertida e provocou profundas divisões políticas em todo o país. Pouco tempo depois da morte do faraó, a antiga religião politeísta foi restaurada, os templos de Aton demolidos e Aketaton, abandonada. Os faraós subsequentes chegaram a ponto de riscar Akenaton da história.

WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M.Books do Brasil, 2015. p. 39.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cleópatra (69-30 a.C.)

Antônio e Cleópatra, Sir. Lawrence Alma-Tadema. Um casal unido por um amor apaixonante


Filha do rei egípcio Ptolomeu Aulete, nasceu no ano 69 a.C.

O trono do Egito havia sido legado a Cleópatra e seu irmão mais velho, porém com a condição de que eles se casassem. Desejando governar sozinho, Ptolomeu Dionísio exilou a irmã.

Quando César entrou em Alexandria, depois de Farsália, Potium, ministro do Egito, tratou-o com desprezo, sublevando contra ele as tropas aguerridas do Egito e a população da própria cidade.

Em represália, César trouxe Cleópatra para a cidade, introduzindo-a secretamente no palácio. Ptolomeu Dionísio não teve outra alternativa senão a de reconciliar-se com a irmã.

Novamente, porém, o rei egípcio revolta-se contra César, morrendo afogado num combate. Cleópatra sobe então ao trono, casando com seu irmão mais jovem.

César ficou ainda alguns meses no Egito. Quando voltou a Roma, mandou vir a rainha, cuja estátua, feita na época, foi colocada no templo de Vênus.

Com a morte de César, couberam a Antônio os negócios do Oriente. Cleópatra seduziu-o, tornando-o instrumento de suas ambições. Quando Roma o chamou, tomado de paixão, Antônio recusou-se a regressar. Otávio volta-se contra o Egito, e Cleópatra foge seguida por Antônio. Depois da batalha de Accio, retornaram à África. Tentam negociar, porém Cleópatra trai Antônio. Otávio marcha sobre o Egito e a bela rainha entrega-lhe Alexandria, fazendo chegar a falsa notícia de sua morte a Antônio, que se mata.

Depois ela tenta seduzir Otávio, mas nada consegue.

Não querendo servir de ornamento ao triunfo de Otávio, Cleópatra suicida-se com seus hábitos reais, a 15 de agosto de 30 a.C.

CARVALHO, Delgado de. História Geral: Antiguidade. Rio de Janeiro: Record, s.d. p. 267.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Robin Hood: a rainha dos bosques de Sherwood

João Pequeno e Robin Hood, Frank Godwin

É Primavera nos bosques de Sherwood. As aves cantam e esquilos correm pelos ramos das velhas árvores. Pelo caminho aberto na floresta avança o anafado frei Tuck desfrutando o ar puro e o sol quente que espreita pela alta ramagem. De repente, ouvem-se alegres risadas e gemidos que vêm duma moita próxima. O frade levanta um pouco o seu hábito, avança em bicos dos pés e, com um gesto rápido, afasta os arbustos, que descobrem um par de robustos arqueiros regozijando-se com as calças pelos tornozelos. Robin dos Bosques e João Pequeno, literalmente surpreendidos, interrompem o seu jogo e olham frei Tuck com cara de caso.

"Então rapazes! - o clérigo repreende-os carinhosamente. - Deixem de travessuras, que daqui a bocado não têm força para puxar o arco..."

A cena anterior é imaginária, mas o cenário e as personagens pertencem à conhecida lenda inglesa de Robin dos Bosques. E até pode ser credível a circunstância narrada, de acordo com os últimos documentos encontrados sobre a figura e as façanhas do pitoresco herói. Como todos lemos em criança ou vimos nos inúmeros filmes dedicados às suas aventuras, Robin dos Bosques era um jovem nobre da Inglaterra do século XII, corajoso protector dos desprotegidos, leal súbdito do nosso conhecido Ricardo Coração de Leão e ardente amante de uma jovem chamada maid (donzela) Mariana. Sabemos já que, quando o rei teve de partir para a Terceira Cruzada, ficou como regente o seu irmão João Sem Terra que, por necessidade da lenda, é pintado como um tirano cruel sem escrúpulos, opressor do povo e presumível usurpador do trono. Robin refugia-se no bosque de Sherwood com um punhado de arqueiros determinados a dedicar-se a atacar os odiados cobradores de impostos, a roubar os ricos para dar aos pobres, a expor ao ridículo João e a seduzir a bela Mariana com as suas proezas. Em suma, um puro protótipo de líder viril, modelo de galã fantasiado por muitas gerações de jovens românticas.

Já se disse que os historiadores britânicos gostam de demolir mitos da sua própria história, sobretudo quando a derrocada é consequência de assuntos menos santos, que escandalizam o seu rígido establishment. Robin dos Bosques teve o azar de cair nas mãos de Stephen Knight, professor de história da literatura na Universidade de Cardiff. Este senhor realizou um profundo estudo das antigas canções e narrativas sobre o popular arqueiro emplumado e chegou à conclusão que a este interessavam muito mais os músculos atraentes dos seus companheiros João Pequeno ou Will Scarlet, que os encantos femininos da donzela Mariana. ão inquietante afirmação, expressada recentemente numa douta e controversa conferência do autor na Universidade de Glamergan é apoiada por várias baladas do século XIV, primeiros registros escritos da história de Robin dos Bosques. Encontrou versos tão sugestivos como estes:

"Tinha Robin dos Bosques cerca de vinte anos
Quando conheceu João Pequeno;
Um agradável companheiro de viagem
Porque era um jovem alegre e robusto."

A balada não diz expressamente que ambos os jovens eram homossexuais, mas Knight vê nesses documentos claros indícios e ressonâncias homossexuais. "Robin dos Bosques e os seus companheiros viviam isolados numa comunidade exclusivamente masculina, sem participação feminina", explica o estudioso. "A balada contém abundante simbologia erótica e, se não chega a dizer abertamente que o herói era gay, deve-se ao clima moral da época." Segundo Knight, as árvores do bosque são um evidente símbolo fálico, assim como as flechas e as espadas. A isto poderíamos juntar a famosa cena em que João Pequeno e frei Tuck lutam empunhando compridas varas rígidas, em equilíbrio sobre... um grosso tronco que atravessa o rio!

Há também outros aspectos da lenda de Robin dos Bosques que Knight contradiz, baseando-se nas mesmas baladas. Descobriu, por exemplo, que a personagem não tinha origem na nobreza, mas em estratos sociais bastante mais baixos. Filho de um simples alabardeiro de origem campesina, o jovem Robin vagueava pelos bosques de Nottingham e do condado de Yorkshire, comandando uma pandilha de bandoleiros que assaltavam quem se arriscasse a passar por ali. Nunca lhe passou pela cabeça repartir os seus despojos de guerrilha com os pobres, embora tenha ficado famoso pela astúcia e truques para enganar a autoridade.

Tão-pouco parece ser certo que Robin utilizasse a sua astúcia para visitar às escondidas a donzela Mariana, porque nem essa nem qualquer outra donzela são mencionadas nessas fontes como eventuais noivas do herói. Knight sugere que esta personagem feminina foi adicionada no século XVI para dotar a lenda de romantismo heterossexual. O investigador também questiona a relação histórica entre o arqueiro e os reis Ricardo e João, já que se situa a existência de Robin dos Bosques entre um e dois séculos mais tarde. O seu colega Barry Dobson, professor de história medieval em Cambridge, concorda com Knight acerca de as baladas revelarem um Robin dos Bosques pelo menos ambíguo e acrescenta que entre os séculos XII e XIII se fez sentir em Inglaterra maior opressão sobre os homossexuais, muitos dos quais passaram a viver fora da lei em bandos clandestinos.

Apesar de tudo, os investigadores revisionistas não questionaram a existência do ladrão dos bosques, embora assinalem que as baladas sobre as suas aventuras foram enriquecidas por histórias aproveitadas de outras personagens semelhantes ou da própria imaginação dos trovadores, como no caso da inexistente donzela Mariana.

As afirmações de Knight e Dobson não foram muito bem recebidas por quem está actualmente relacionado com a personagem. A secretária da Robin Hood Society, Mary Chamberlain, acusou os investigadores de prejudicarem uma figura admirada em todo o mundo. "As crianças adoram brincar ao Robin dos Bosques", manifestou, "e essas declarações podem provocar muito dano".

Por sua partem o dirigente gay Peter Tatchell afirmou que Robin dos Bosques já estava há demasiado tempo "no armário". "Já é altura", disse, "de as lições escolares reconhecerem a contribuição dos homossexuais na história."

Ainda que o senhor Tatchell tenha muita razão, a contribuição de Robin dos Bosques para a história, independentemente de ser gay ou não, parece discutível. Se João Sem Terra não chegou a usurpar o trono, não foi por causa dos bandos de ladrões dos bosques, mas do ineficaz apoio de Filipe Augusto, da negação do imperador alemão em exigir a abdicação de Ricardo e de outras circunstâncias, entre elas a atitude decidida da rainha-mãe.

O certo é que, se a virilidade de Robin dos Bosques tivesse sido colocada em causa desde o início, esta personagem não teria protagonizado a lenda folclórica inglesa mais emblemática depois da saga de Artur nem reforçado a mítica aura de Ricardo Coração de Leão. Ambos são duas faces, uma guerreira e outra galante, da tradição nacionalista britânica. Esse sentimento de superioridade foi fundamental para justificar a impunidade que se outorgou a si mesma a "pérfida Albion" nas suas correrias e rapinas por todo o mundo.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 110-114.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: amigos para sempre (Parte 3)

Funeral de Alexandre. Artista desconhecido

Nenhum destes episódios, nem outros que se sucederam durante os onze anos que durou a epopeia de Alexandre, conseguiram separar aqueles dois homens que tinham crescido e brincado juntos no palácio real da Macedônia. Heféstion continuou sempre a acompanhar o seu amigo, foi padrinho do casamento com Roxana, aconselhou-o o melhor que pôde e participou nas gloriosas batalhas, mas sempre vigiado por um chefe mais capaz. Esta posição de privilégio provocou muitas vezes a inveja e o ressentimento de pessoas próximas de Alexandre, como era o caso do excelente general Crátero, com quem Heféstion partilhou funções sem nunca chegarem ao entendimento. De acordo com algumas fontes, a diferença consistia em que Crátero era um philobasileus, ou seja, amante do rei e Heféstion um philoalexandrus, ou seja, amante de Alexandre.

Pouco depois, Alexandre nomeou o seu amigo como vizir, alto cargo dos reinos persas que equivalia a algo como primeiro-ministro. Seguindo a tradição da corte aquemênida, Heféstion passou a usar, a partir daquele dia, o báculo engastado de pedras preciosas para admiração da soldadesca e inveja do secretário imperial, Êumenes, cuja birra de zelo teve de ser firmemente reprimida por Magno.

Heféstion e Alexandre cavalgaram juntos, pela última vez, no Verão de 324, num passeio pacífico pelo Elão e pelo Sul da Babilônia para explorar os grandes rios da Mesopotâmia. O itinerário terminou em Ecbátana, capital da satrapia de Média. O sátrapa Atropates ofereceu aos ilustres visitantes um colossal banquete de boas-vindas, em consequência do qual Heféstion ficou gravemente doente. O vizir das argolas de ouro morreu em Outubro desse ano, proporcionando a inconsolável imagem de Alexandre e Dripetis, que choraram abraçados a sua perda. Êumenes, que procurava agradar ao imperador, propôs que o malogrado herói macedônio fosse homenageado como um deus (deve-se dizer que os Gregos nunca tiveram muito clara a ténue linha que separa os homens dos deuses). Comivido, Alexandre aceitou a ideia - quem sabe também a pensar na sua divinização - e Heféstion recebeu as honras sagradas bum funeral solene na Babilônia, até ao seu sumptuoso túmulo protegido por um enorme leão de pedra. O cadáver foi colocado no sarcófago, com o seu precioso báculo e os seus brincos de ouro e o cargo de vizir jamais voltou a ser ocupado por ordem de Alexandre.

A morte de Heféstion provocou mudanças no carácter de Alexandre, acentuando os seus devaneios de melómano e a sua instabilidade emocional. Comparou-se publicamente a Dioniso e a Héracles e exigiu aos seus vassalos o reconhecimento de sua divindade. [...]

"Plutarco escreveu que Alexandre tinha declarado uma vez que, sem Heféstion, nunca teria sido nada, E é verdade. Heféstion era um guerreiro competente, mas carecia do brilho de outros generais como Parménion ou Crátero. Apesar de tudo, ele estava mais próximo do coração do rei, o que tornou a sua vida difícil: todos os oficiais da corte o invejavam, E isso fez dele um homem solitário e completamente dependente do soberano. Por outro lado, Alexandre podia confiar totalmente em Heféstion." (Jona Lendering. Hephastion)

O imperador adoptou a austeridade espartana e nesse mesmo Inverno dirigiu ferozes expedições de castigo contra os rebeldes das montanhas de Luristão. Depois exigiu que todos os reinos, cidades e satrapias do seu império enviassem embaixadores a prestar-lhe vassalagem como divindade. Continuou a enviar tropas de reconhecimento com o objectivo de continuar a expandir o seu império até a Índia e a outras regiões do Oriente. Para estimular os seus generais e cortesãos, em Junho de 323, ofereceu um prolongado e esplêndido banquete na Babilônia, na sequência do qual ficou muito doente com um presumível delirium tremens alcoólico. Faleceu no dia 13 daquele mês, depois de dez dias de agonia profunda, aos trinta e três anos de idade e doze do glorioso reinado.

É interessante assinalar que, como só sucede em casamentos duradouros, Alexandre não sobreviveu muito tempo a Heféstion. Morreu oito meses mais tarde, de uma causa semelhante e em condições muito análogas às do companheiro de toda a sua vida. E se bem que Heféstion não teria sido ninguém sem ele, também é provável que, sem o afecto e a lealdade de Heféstion, Alexandre tivesse sido menos Magno.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 49-52.

sábado, 22 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: o amante desprezado (Parte 2)

Busto de Alexandre Magno. Escultura helenística. Artista desconhecido

Ambos os amigos já tinham passado dos vinte anos, o que, segundo os costumes gregos, extinguia a licença para brincar com o mesmo sexo. Estava na hora de assentar e procurar esposa. Alexandre, para ganhar tempo, ligou-se a uma amante persa chamada Bactrina. Heféstion passou discretamente a segundo plano não só na alcova do amigo, mas também pelas inócuas tarefas diplomáticas que este lhe atribuiu para o manter afastado.

Alguns autores registram um eventual ressentimento de Heféstion por essa indiferença do seu chefe e amante, que o teria levado a protagonizar um acto suspeito de deslealdade. O seu erro consistiu em receber um enviado de Demóstenes quando Alexandre se encontrava no Egipto. O político ateniense, entre outros assuntos, era um declarado inimigo de Alexandre e forte crítico do imperialismo macedônio, que provavelmente estava ao corrente do afastamento de Heféstion. A sua intenção não podia ser outra senão convencê-lo a revoltar-se contra Alexandre, obedecendo a um plano que Demóstenes urdia com outros chefes descontentes. Pelo menos foi o que disse mais tarde o mensageiro, embora não exista qualquer registro de que Heféstion tivesse aceitado juntar-se à conspiração, nem de que Demóstenes estivesse envolvido com a verdadeira conspiração que aconteceu em 330 a.C.

Nesse ano, um grupo de oficiais revoltou-se, mas foi rapidamente reprimido pelos chefes leais a Alexandre. Contudo, dois chefes das falanges da infantaria, Crátero e Ceno, acusaram Filotas, comandante-geral da cavalaria, de conhecer as intenções dos rebeldes e de não o ter revelado ao imperador. Numa primeira fase, Alexandre não deu importância ao assunto, mas Heféstion uniu-se aos denunciantes para exigir que o acusado fosse interrogado sob tortura. E Alexandre, que não quis infligir nova humilhação ao seu velho amigo, aceitou contrariado essa exigência. O tal Filotas, filho de outro brilhante general macedônio chamado Parmênion, era o comandante mais aguerrido e a sua cavalaria tivera um papel decisivo nos combates que proporcionaram a glória e o poder a Alexandre. Não era de estranhar, por isso, que os dois comandantes de infantaria e um amante desprezado o quisessem ver humilhado, torturado e, se possível, condenado à morte.

Os cronistas não descrevem o tipo de tortura a que foi submetido Filotas, mas o pobre homem acabou por confessar que ele e o seu pai tinham organizado a revolta para ocupar o trono e o comando supremo, no lugar do imperador. O tribunal militar montado por Alexandre sentenciou a execução imediata do réu e Parmênion foi também assassinado após a sua captura pelos homens enviados para o perseguir. Independentemente da verdade desta história, o imperador decidiu que era melhor não alimentar as ambições dos seus subordinados com demasiado poder. E, por via das dúvidas, dividiu a prestigiosa cavalaria em duas partes. Uma ficou sobre o comando do eficiente general Clito e entregou a outra como prêmio a Heféstion, totalmente inexperiente no comando deste tipo de tropa.

Durante os três anos seguintes, batalhou-se pela conquista da Bactriana e da Sogdiana, onde os cavaleiros desempenharam um papel fundamental. Os correspondentes de guerra da época elogiam Clito repetidamente, mas não citam Heféstion uma única vez. Segundo parece, porque Alexandre, que nunca confiou nas aptidões guerreiras do seu amigo, entregou a outro chefe o comando efectivo dos combatentes cavaleiros. E, por fim, a sorte favoreceu Heféstion, porque durante um festim o imperador matou Clito sem qualquer motivo numa discussão de bêbados e ele acabou por comandar a cavalaria.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 47-8.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: um amor na Macedônia (Parte 1)

Alexandre e Heféstion, Andrea Camassei

Alexandre III da Macedônia, apelidado de Magno (o Grande), exemplo insuperável do herói militar da Antiguidade clássica e protótipo da beleza masculina na arte de todos os tempos, foi também um perfeito exemplo de guerreiro bissexual. Os historiadores tradicionais apresentam-no como um guerreiro incansável, obcecado pela conquista do seu império. Os mais ousados chegaram a sugerir que mal tinha tempo para pensar em sexo e que os seus casamentos com várias princesas orientais obedeceram a interesses políticos. Todos são unânimes em afirmar que ele rapidamente se desembaraçava delas para partir para as suas campanhas e raramente voltava a visitá-las. A mais afortunada foi talvez Roxana, filha de um sátrapa de Sogdiana, de quem teve o único filho que se conhece.

Paralelamente a esta imagem de conquistador omnipresente, férreo e um tanto misógino, subsistiu uma discreta e interminável polêmica sobre as verdadeiras tendências sexuais de Alexandre Magno. Se bem que o cerne da questão surgisse da ambígua relação de Alexandre com o seu amigo íntimo e colaborador Heféstion, há quem acredite que também se ligou com outro camarada de armas ou que, em caso de urgência, recorria aos prisioneiros e aos escravos que estavam ao seu serviço. Se, por um lado, parecia que as ocupações da guerra afastavam o jovem imperador das mulheres, por outro, deixaram-no muito unido aos seus homens.

Alexandre nasceu em 356 a.C., em Pela, a antiga capital da Macedônia. Era filho do rei Filipe II, que também teve as suas histórias, e da bela e dominadora Olímpia, princesa do Epiro. O pai andava sempre em guerra, um pouco por todo o lado, para unificar e expandir o seu reino e, por isso, a criança foi criada numa relação muito estreita com a sua sufocante mãe, que o amava com um fervor edipiano. Olímpia, entre beijos e abraços, não podia ter tido melhor ideia do que arranjar-lhe Aristóteles como preceptor, homem tão sábio como disposto a instruir os seus discípulos na diversidade que a vida oferece. O filósofo educou o pequeno Alexandre entre os treze e os dezesseis anos, idade certamente delicada para um jovem que já então tinha como companheiro de estudos e de brincadeiras o seu inseparável Heféstion.

Segundo Anábase, história das campanhas de Alexandre escrita por Arriano, Heféstion pertencia a uma família grega nobre, radicada na Macedônia. O pai, Amintor, fazia parte da colônia de gregos cultos contratados ao serviço do rei Filipe. Estes forasteiros notáveis recebiam tratamento de excepção, o que permitiu a Heféstion, apenas um ano mais novo do que Alexandre, ser educado com ele no palácio real. Filipe morreu em 336 a.C., depois de ter reinado durante duas décadas, e Alexandre sucedeu-lhe no trono com apenas dezanove anos. Incentivado pela sua impetuosa ambição, lançou-se numa vertiginosa campanha para submeter as cidades gregas, o que o obrigou a arrasar a emblemática Tebas. No ano seguinte, influenciados por tão impressionante exemplo, os chefes da Liga de Corinto concordaram em designá-lo comandante e estratego dos seus exércitos. Alexandre deixou como regente da Macedônia o maduro general Antípatro, que tinha sido lugar-tenente de seu pai, e empreendeu uma expedição para Oriente com o objectivo de se apoderar de tudo o que encontrasse pelo caminho.

Não existe notícia histórica de qual foi o papel de Heféstion nessa etapa, mas os cronistas voltam a mencioná-lo na Primavera de 334, quando Alexandre conquista a cidade de Tróia. Apenas o seu nome é citado, como se os contemporâneos já soubessem que era amigo de infância do rei da Macedônia, na época um de seus generais e, por assim dizer, o mais íntimo dos seus camaradas. Dizem as crônicas que Alexandre respeitou a lendária cidade homérica e que ofereceu um sacrifício no túmulo de Aquiles, enquanto Heféstion oferecia o seu próprio no de Pátrocles. Estas homenagens tiveram um curioso simbolismo, pois Homero já sugeria na Ilíada que os heróis troianos tinham sido amantes.

O nome de Heféstion volta a perder-se, enquanto a história registra o avanço de Alexandre na conquista das cidades costeiras da Ásia Menor, e reaparece na decisiva batalha de Issos, em Novembro de 333.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 43-44 e 46.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 3)

Parte 3: Final cor-de-rosa

Depois deste episódio, a influência política do padre Claret aumentou consideravelmente, acompanhado por dois pitorescos agentes do Vaticano: Soror Maria dos Patrocínios, "a freira das chagas", que tinha inventado um falso milagre infligindo a si própria os estigmas de Cristo, e uma estrambólica personagem chamada padre Fulgêncio. Sob o conselho deste trio de religiosos fundamentalistas, Isabel começou a tomar medidas cada vez mais reacionárias, desde que as suas escapadelas adúlteras não chegassem aos ouvidos do papa. O povo começou a expressar abertamente a sua rejeição e os liberais dedicaram-se a plantar conjuras para destronar a rainha. Francisco, que se limitava a fazer a sua vida com os amigos e amantes sem intervir nos assuntos do reino, viu chegada a hora do divórcio. Participou abertamente nas conspirações opositoras, às quais ofereceu apoio institucional e celebrou alvoroçado a revolução de 1868, que obrigou Isabel II a exilar-se em França, embora também tenha seguido o mesmo caminho. Dois anos mais tarde, Isabel abdicou em Paris a favor de Afonso XII, enquanto Francisco, feliz e contente, se dedicou a desfrutar a vida e as suas alegrias durante longos anos. Morreu, já octogenário, nas sua quinta como uma personagem secundária, mas sem lhe negar o mérito de ter sido, desde os tempos do infante dom Jaime, o primeiro a ostentar sem sentimento de culpa a sua condição de gay.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 210.

Galeria de imagens: "Los borbones em pelota", aquarelas atribuídas a Valeriano Domínguez Bécquer & Gustavo Adolfo Bécquer, século XIX.

A la izquierda: Francisco de Asís sosteniendo una pelela; Isabel II en la cama siendo fornicada por el Padre Antonio María Claret; a la derecha, Carlos Marfori. Texto: ¡Oh viejo que estás jodiendo! / al infierno vas cayendo!

Francisco de Asis de Borbon. Texto: "El rey consorte, primer pajillero de la Corte."


Carlos Marfori con una botella de vino; Sor Patrocinio recibiendo el galanteo de González Bravo; Francisco de Asís requiriendo a González Bravo mientras es sodomizado por el Padre Antonio María Claret; en el suelo, dos perritos copulando (no se puede apreciar de qué sexo son los dichos perritos)


Isabel II con su intendente Carlos Marfori. Fco de Asís. A la derecha espera un batallón de guardia.
Leyenda de la acuarela:
Isabel —Espérate a que acabe mi intendente.
Paquita —¡Aguardemos la vez, como en la fuente!


Isabel II fornicando con Carlos Marfori. Texto: "¡Carlos, Carlos, yo lo espero / de tu hidalgo corazón / mételo sin dilación / que ya por joder me muero!"


Viñeta de la saga satírica Los Borbones en Pelota con el pareado "Sentada está en su poltrona, con cetro, chulo y corona"


(Reproducción o ilustración del álbum de láminas satíricas "Los Borbones en pelota")

domingo, 9 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 2)

Parte 2: A rainha dissoluta e o seu marido gay


Retrato do rei Francisco de Bourbon, rei consorte de Espanha por seu matrimônio com a rainha Isabel II de Espanha. Artista desconhecido 

A cerimônia nupcial celebrou-se com grande pompa e circunstância no dia 10 de Outubro de 1846, com Francisco de Assis adornado e enfeitado com as suas melhores vestes e a rainha resplandecendo, vaidosa, nos seus corpulentos dezasseis anos acabados de completar, ambos com um ar de resignação no olhar húmido. O povo de Madrid celebrou como convinha o primeiro casamento de uma rainha desde o de Isabel com Fernando, em 1496, que, para cúmulo, se tinha celebrado em segredo. Nessa noite, depois de terminados os festejos, ouvia-se pelas ruas uma cantoria desafinada e jocosa que descrevia assim o casal real: "Isabelona, tão frescalhona e dom Paquito, tão 'mariquito'".

Dentro do palácio, os protagonistas confirmavam a cançoneta. Francisco de Assis apresentou-se na alcova real com uma camisa tão carregada de bordados e rendas, que provocou o sarcástico comentário que abre a Parte 1. A noite não deu para muito mais e, na manhã seguinte, saíram ambos com forçados sorrisos de circunstância. O passar das semanas, que se transformou em meses, não trouxe qualquer novidade ao ventre da rainha e pela corte começou a correr o rumor que Francisco, para além das suas particulares tendências, também era impotente. Uma criada de quarto ventilou a confidência de o real esposo não ter força no seu... e que o tinha visto a urinar sentado na sanita. O engenho popular não tardou a inventar uma nova rima a esse respeito:

"Paquito adocicado,
De creme parece ser;
Até urina sentado
Tal como uma mulher..."

Apesar de continuar a enfeitar-se, Francisco de Assis tentou manter uma atitude prudente e formal no desempenho do papel de marido real. Também é provável que, de vez em quando, tentasse uma cópula, cujo fruto teria contentado a corte, o povo e talvez a própria interessada. Mas Isabel não tinha nascido para piloto de ensaios e as suas hormonas, em pleno desenvolvimento, pediam-lhe outro tipo de guerra. Lançou-se numa vida cada vez mais libertina, oferecendo o seu corpo adolescente e robusto às alegrias que não encontrava com Francisco. Talvez ele tivesse suportado com alívio esta situação se a rainha tivesse mantido a compostura em público. Contudo, Isabel não só não dissimulava a sua conduta adúltera, como também se permitia censurar o marido, gozando com os seus cornos, a sua impotência e os seus gostos afectados.

Alguns meses depois do casamento, Isabel II tomou por amante o general Francisco Serrano, duque da Torre, ministro da Guerra e herói da guerra carlista. Numa recepção do palácio, Serrano soltou um comentário ofensivo sobre a situação conjugal de Francisco, que não perdoou a Isabel tê-lo aplaudido ruidosamente. A partir deste incidente, quebrou-se a trégua entre ambos, que passaram a ocupar quartos separados. A rainha aproveitou a ocasião para aumentar escandalosamente a lista de amantes, incluindo o seu professor de canto, o compositor de zarzuelas Emilio Arrieta; o sedutor profissional Emilio Marfiori, a quem nomeou conselheiro do reino e ministro do Ultramar; o aristocrático duque de Bedmar e, entre muitos outros, o oficial de engenharia catalão Puig i Moltó, presumível pai de Afonso XII.

A conduta libertina de Isabel trouxe-lhe inevitavelmente problemas com o Vaticano, que chegou a ameaçá-la veladamente com a excomunhão. O assunto sanou-se graças aos bons ofícios do padre Antonio María Claret, confessor da rainha e futuro santo, que utilizou toda a sua influência junto de Pio IX. Isabel  prometeu emendar-se e devolveu à Igreja uma série de propriedades e prerrogativas perdidas com os governos liberais. A Santa Sé estabeleceu uma concordata com Espanha, em 1851, e diz-se que, quando um cardeal recordou ao pontífice a fama da rainha, este concordou sorridente e suspirou enquanto assinava. "Si, puttana; má pia".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 208-9.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 1)

Parte 1: Matrimônio por impotência

Por amor de Deus, Francisco, usas mais rendas que eu!
(Isabel II, na sua noite de núpcias)

 Retrato de Francisco de Assis Bourbon, Federico de Madrazo y Kuntz

Francisco de Assis de Bourbon era o secundogénito desta nobre casa, que teve a sorte de se casar com uma rainha e o azar de esta ser sua prima Isabel II de Espanha. Muito mulher, em todos os sentidos, para que um marido homossexual e bastante efeminado pudesse levar com alguma dignidade um matrimônio de aparência por razões de Estado. O pobre Francisco, Paquito como todos lhes chamavam, tentou honestamente no início, mas sem conseguir dissimular de todo os seus adornos. Mas Isabel também não perdeu tempo. Pouco depois do casamento, lançou-se numa vida imprópria de qualquer senhora e muito menos de uma rainha. Os seus coquetismos públicos, a sua enorme colecção de amantes, as suas piadas cortantes sobre o seu efeminado marido, que o faziam corar de vergonha e o indignavam ao mesmo tempo, deterioravam tanto a sua imagem pública como a paciência do forçado cônjuge. O confronto levou a uma ruptura, nem se dando ao trabalho de manterem as aparências, e Francisco começou a tramar uma elaborada vingança.

Quando, em 1822, Francisco de Assis de Bourbon nasceu no palácio de Aranjuez, foi para fazer parte de uma família complicada.

O pai, o infante Francisco de Paula, tinha sido oficialmente o herdeiro da coroa, embora nunca tivesse chegado a reinar. A revolta de Aranjuez de 1808, que motivou a abdicação de Carlos IV, destituiu o seu primogénito a favor do irmão mais novo, que subiu ao trono como Fernando VII. A razão evocada pelos amotinados e referendada pelas Cortes de Cádis foi a de Francisco de Paula não ser, na verdade, filho de Carlos IV, mas do odiado favorito Godoy e da rainha Maria Luísa. O presumido bastardo ficou na incómoda posição de infante despeitado e ressentido, com o título de consolação de duque de Cádis. Francisco cresceu nesse ambiente paterno de rancor surdo, refugiado no amor e nos excessivos mimos de sua mãe, Luísa Carlota de Nápoles. Ao chegar à puberdade, era um menino muito bonito, baixo e gordo, de maneiras efeminadas e uma constante obsessão pela roupa requintada, pelos perfumes e adornos extravagantes. Algum tempo depois, os mexericos da corte já lhe atribuíam o seu primeiro amante na figura do duque de Baños, com quem Francisco exibia a sua afetada elegância em locais de diversão frequentados pela aristocracia e pela nova classe política.

Entretanto, sobreveio a restauração de Fernando VII, que não honrou o seu cognome de O Desejado ao derrogar a constituição liberal de 1812 (a famosa "Pepa") e provocar com isso uma série de revoltas que o obrigaram a estabelecê-la e a admitir um governo liberal. O triénio progressista terminou abruptamente com a invasão dos "Cem mil filhos de São Luís", uma tropa francesa enviada pela Santa Aliança para repor o regime absolutista. Em 1829, Fernando VII casava-se com Maria Cristina de Bourbon, que lhe deu uma filha chamada Isabel. Para que ela pudesse herdar o trono, o rei aboliu a tradicional Lei Sálica, que excluía as mulheres da sucessão, o que causou a indignação dos sectores conservadores ultracatólicos, que começaram a plantar a candidatura do infante Carlos, irmão de Fernando e, até então, legítimo herdeiro. O soberano faleceu em 1833 e Maria Cristina apressou-se a coroar a filha e a assumir a regência.

Isabel II tinha três anos de idade quando foi proclamada rainha de Espanha, com o desacordo dos ultramontanos que desencadearam a chamada primeira guerra carlista. Em 1840, as tropas reais obtém uma difícil vitória, comandadas pelo hábil e ambicioso general Baldomero Fernández Espartero. A rainha-mãe cede-lhe então a regência, que termina três anos depois com a declaração da maioridade de Isabel. Por volta dos treze anos, a rainha era uma menina gorda e caprichosa e, ao mesmo tempo, um tentador partido político para todos os grupos internos e numerosos governos europeus. Todos começaram a procurar-lhe um noivo, atendendo aos vários interesses em causa.

Entre os aspirantes com mais possibilidades estavam Leopoldo de Saxe-Coburgo, favorito da rainha-mãe; Carlos Luís Bourbon, conde de Montemolín, proposto pelos franceses, e Pedro de Bragança, filho do rei de Portugal, que na altura teria apenas oito anos. Mas os reinos patrocinadores vêem os seus candidatos recusados uns atrás dos outros. Surge então a ideia de organizar o duplo matrimónio de Isabel II e de sua irmã, a infanta Maria Luísa, com dois noivos que compensassem as diferenças políticas e dinásticas no teatro europeu. O rei de França, Luís Filipe de Orleães, aproveita e monta um maquiavélico plano. Os seus agentes em Espanha asseguraram-lhe que Francisco de Assis era homossexual e diz-se que a própria Luísa Carlota confirmou em segredo esta condição do seu filho, com a esperança de o rapaz se esforçar e lhe dar um neto que pudesse reinar. Luís Filipe, mais céptico, acredita ser pouco provável que isso ocorra e concretiza a sua proposta: Isabel casar-se-á com Francisco, que é um Bourbon, e a infanta Maria Luísa, com António de Orléans. Se, como era de esperar, a rainha e o seu cônjuge não tivessem descendência, a Casa de Orléans passaria a deter a coroa de Espanha.

Maria Cristina aceitou esta opção para consolidar as suas delicadas relações com a França e o matrimônio recebeu a aprovação do governo e das cortes. A única que se opôs frontalmente ao casamento foi a própria noiva que, de acordo com as crónicas, caiu num histérico ataque de choro e ameaçou abdicar, gritando: "Com Paquito não! Com Paquito não!".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 204-8.