"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Família e sexualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Família e sexualidade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Família e sexualidade na sociedade primitiva

[...] Ao se tornar dependente da carne, o Homo erectus se transformou num parasita das manadas desse jogo - e, portanto, precisava segui-las ou explorar novos territórios onde procurá-las - e era mais provável se estabelecer e se multiplicar em alguns locais do que em outros. Assim, foram estabelecidas as bases de moradia. [...]

A família que vivia na base de moradia também se desenvolvia. A existência desta base já tornou mais provável que a futura família humana fosse muito diferente das famílias animais. Isto ficou mais evidente quando os antecessores do Homo sapiens se tornaram maiores. Por exemplo, cabeças maiores, necessárias para acomodar cérebros maiores, significavam que as crianças seriam maiores antes do nascimento e isto se refletia em mudanças na pelve feminina que permitiram o nascimento de bebês com crânios maiores e também foi necessário um período mais longo de crescimento depois do nascimento para que as crianças amadurecessem. Nenhuma mudança fisiológica na fêmea podia fornecer aos fetos acomodação que os protegesse até a maturidade física. Em consequência, as crianças humanas - diferentes da maioria dos mamíferos, cujos filhotes amadurecem em meses - necessitam de cuidados maternos até bem depois do nascimento. Uma infância prolongada, dependência e apoio às crianças pela família e pela sociedade durante a imaturidade significava que as famílias humanas se desenvolveram de forma muito diferente das famílias dos outros animais. Em parte isto era resultado de uma seleção genética: grandes ninhadas deixaram de ser a maneira pela qual se assegurava a sobrevivência das espécies. Em vez disso, as sociedades humanas aprenderam a dar atenção maior e mais demorada à proteção, à alimentação e ao treinamento dos seus jovens [...]. Apareceram diferenças mais agudas entre os padrões de vida de machos e fêmeas. As mães hominídeas eram muito mais tolhidas do que as mães de outros primatas e os pais passaram a se envolver mais na provisão de comida por meio da caça, o que demandava uma atividade árdua e prolongada da qual as fêmeas não podiam participar facilmente.


Idade da Pedra: o festim, Viktor M. Vasnetsov

Outro resultado da infância prolongada foi que o aprendizado e a memória se tornaram cada vez mais importantes. Com o Homo erectus parece que ultrapassamos outra etapa. O aprendizado consciente e a reflexão sobre o meio ambiente substituíram de alguma forma a programação genética dos antecessores da humanidade. Em algum lugar [...] aconteceu uma mudança, onde a tradição e a cultura - as coisas que os membros de uma comunidade aprendem um dos outros - assumem o lugar da herança fisiológica como fator de seleção evolucionária. É óbvio que a herança fisiológica ainda permanece muito importante. Por exemplo, é claro que importou muito para a futura forma da sociedade humana que um grupo genético particular há muito tempo ainda tenha dado à nossa espécie uma característica sexual única. Entre todos os outros mamíferos, tanto a atração sexual exercida pela fêmea sobre o macho quanto a sua fertilidade restringiam-se a certos períodos. Diz-se que nestas épocas os animais estão "no cio" e nessa condição as suas vidas ficam muito desintegradas. Se precisassem tomar conta de filhos, com certeza não poderiam continuar a alimentá-los. As fêmeas humanas não funcionam assim, e isto é muito importante. Se fossem como os outros animais, os filhotes, de amadurecimento vagaroso, teriam sido negligenciados na infância e dificilmente sobreviveriam. Pode ter levado um milhão de anos mais ou menos para surgir um grupo genético com características sexuais que dispensassem o "estro", como se diz, mas quando isto aconteceu foram enormes as consequências para o futuro desenvolvimento da humanidade, o que afetou a nossa maneira de viver muito mais do que admitimos. O fato de as fêmeas humanas atraírem continuamente os machos humanos (e não apenas em períodos em que cada sexo era regido por mecanismos automáticos de atração) deve ter transformado a escolha individual num fator muito mais importante no acasalamento. É o começo de uma estrada muito longa e obscura que leva a noções posteriores de amor sexual. Junto com a infância mais longa e a menor dependência, possibilitadas por melhor coleta de alimentos, também aponta para uma unidade familiar humana mais estável e mais duradoura - pai, mãe e prole - que permanecem juntos e constituem uma verdadeira comunidade. [...]

[...] A cultura e a tradição pouco a pouco assumiram o lugar da mutação genética e da seleção natural como fonte primária de mudança entre os hominídeos - ou, em outras palavras, o que era aprendido estava se tornando tão importante para a sobrevivência quanto o que era biologicamente herdado. Os grupos com melhor "memória" de meios eficientes de fazer coisas e com crescente poder de refletir sobre elas levariam adiante a evolução humana com mais rapidez. [...]

[...] Tudo o que podemos dizer é que a vida do Homo erectus se parece mais com a dos humanos do que a dos pré-humanos. Fisicamente, o cérebro da criatura era de uma ordem de magnitude comparável à nossa, mesmo que o seu crânio fosse ligeiramente diferente na forma. O Homo erectus fabricou ferramentas de diferentes estilos e em diferentes locais, construiu abrigos, tomou posse de refúgios naturais explorando o fogo e dali saiu para caçar e coletar comida. Fez isto em grupos, mostrando alguma disciplina, e foi capaz de transmitir ideias por meio da fala, fundou uma base de moradia e uma distinção entre as atividades de machos e de fêmeas. Pode ter havido outras especializações: portadores de fogo ou criaturas mais velhas cujas memórias os transformavam em "bancos de dados" das suas "sociedades", e que talvez tenham sido, até certo ponto, sustentados pelos outros.

[...] Quando o Homo sapiens evoluiu a partir de uma ou mais subespécies do Homo erectus, já estavam à sua disposição um novo tipo físico, grandes realizações e uma herança. Os indivíduos chegaram nus ao mundo, mas a humanidade não. Ela trouxe consigo do passado tudo o que a constitui.

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 34-7.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: as ideias da Igreja sobre a mulher

Uma jovem dama da moda, Paolo Uccello

A doutrina da Igreja medieval sobre o casamento baseava-se em ideias que foram se desenvolvendo dentro da própria Igreja ao longo de sua história. Sob influência da tradição e dos desafios de cada momento, essas ideias iam sendo renovadas e atualizadas.

A renovação católica iniciada com o papa Urbano II, no final do século XI, produziu uma atualização das ideias sobre a mulher. Do final do século XII ao final do século XV, os textos que tratavam da mulher, do casamento e da sexualidade se multiplicaram. Eles revelam a necessidade que os homens da Igreja sentiram de impor valores e modelos de comportamento à mulher.

Muitas mulheres tinham participado de movimentos heréticos, e também era grande o número das que entravam para as ordens religiosas. Algumas escreveram sobre seus ideais religiosos. Isso despertou a atenção do clero.

Na nova economia que se esboçava nessa época, principalmente com o crescimento do comércio e da vida urbana, as mulheres participavam como produtoras e vendedoras de bens. Mas elas eram vistas apenas como mães, filhas e esposas.

Definir claramente os papéis sociais femininos foi um dos objetivos principais dos homens da Igreja. Eles estavam empenhados em restituir a palavra de Deus, vale dizer, a autoridade do clero, onde ela se achava ameaçada. Os pregadores preocupavam-se com uma espécie de desleixo intelectual e moral, que emanava principalmente das cidades.

Ao falar às mulheres, os homens da Igreja não identificam claramente as destinatárias. Dirigem-se às nobres, às camponesas ou às habitantes da cidade? Aparentemente a todas as mulheres, não importando a posição sexual.

Nota-se, entretanto, um esforço de classificação ao qual não estavam acostumados. A tentativa de classificação oscilava entre a categoria social, o tipo de atividade, a idade etc. Assim, temos as virgens, as casadas e as viúvas. As esposas e as mães. As monjas e as servas. As moças, as mulheres jovens, as de meia idade e as velhas. As mulheres pobres e as prostitutas.

Os discursos têm como eixo a oposição entre o que as mulheres eram e o que deveriam ser. Não podemos esquecer que são discursos de clérigos. Além de serem homens falando sobre mulheres, estavam submetidos às regras do celibato e da castidade. Tendiam a ser tanto mais severos na censura da sexualidade, principalmente da feminina, quanto mais dela estivessem afastados.

Para esses pregadores, as mulheres das categorias sociais superiores eram portadoras, ou deveriam ser, de valores mais elevados. Esperava-se que elas servissem de exemplo para as camadas subalternas e tomassem consciência dos seus altos deveres como nobres. As mulheres pertencentes a categorias sociais mais baixas foram vítimas das principais condenações morais nestes discursos.

Quando a mulher é referida sem a identificação do grupo social ao qual pertencem, aparece como uma criatura de extremos entre o bem e o mal: é a filha de Eva ou a virgem que imita Maria.

Mas, independentemente da categoria social, o espaço da mulher é o doméstico. A única que não pertence a ele é a prostituta, à qual só resta o arrependimento e a penitência.

Os textos mais impressionantes são os que falam sobre as mulheres, e não para elas. Eles demonstram claramente o grande medo que elas despertavam. O medo da mulher é uma das principais características do pensamento medieval. Esse medo levava a um severo controle sobre as mulheres. Controlar e castigar as mulheres era uma tarefa dos homens.

Como há um predomínio do espírito sobre a carne, a pureza seria mais de pensamento do que do corpo, mas na hierarquia da castidade, a virgem de corpo está em primeiro lugar.

Foram estabelecidos, então, três graus possíveis de castidade, de virtude e de perfeição. O ideal de mulher é a virgem que renuncia para sempre ao sexo. As viúvas que renunciam a ele por haverem perdido o marido e não se casam estão em um segundo plano. As casadas, que usam o sexo de forma casta e moderada com a finalidade de procriação, estão em terceiro lugar na escala dos méritos. A castidade vale mais do que a continência.

[...]

Até a sua presença na missa seria arriscada, pois os seus olhares poderiam "incendiar os lugares sagrados".

Os conhecimentos medievais sobre anatomia confirmavam o juízo depreciativo dos homens da Igreja em relação à mulher. A fisiologia da mulher foi objeto de longos debates. A conclusão era a de que ela trazia no próprio corpo as marcas da sua inferioridade e mesmo dos seus malefícios.

O Gênesis é citado para mostrar que a mulher é um ser secundário, um apêndice do homem. Acreditava-se que os órgãos femininos fossem menos aperfeiçoados e fracos, de certa maneira opostos aos masculinos. O corpo da mulher foi considerado com base no modelo masculino e os seus órgãos, classificados de acordo com a finalidade. Os seios, por exemplo, eram vistos apenas pela sua finalidade de aleitamento.

No pensamento medieval, o matrimônio era enfocado na sua finalidade de procriação. Por isso não se falava do prazer sexual, mesmo dentro do casamento. Dessa forma, não existiram no Ocidente cristão condições para o desenvolvimento de uma verdadeira arte erótica.

Ao mesmo tempo, os discursos revelam o medo de um saber feminino sobre o sexo. Saber sempre envolvido em mistério e sempre suspeito de origem demoníaca. Tinha-se medo da mulher durante a menstruação e das que deixaram de menstruar.

As velhas eram consideradas particularmente perigosas. Pensava-se que elas conheciam os segredos do sexo e induziam as mulheres mais jovens ao pecado.

A mulher era vista como um tesouro a ser protegido e preservado, pois era fácil de se perder. Daí a necessidade de reprimir, vigiar e enclausurar. Deus é a cabeça de Cristo; Cristo é a cabeça do homem; o homem é a cabeça da mulher.

As mulheres que desejavam roupas cada vez mais bonitas e caras preocupavam os pregadores. Eles achavam que esse cuidado com a aparência e com o corpo se aproximava da idolatria. A maquiagem e os enfeites foram insistentemente condenados.

Apesar de afirmarem que a mulher devia ser protegida, os pregadores diziam que ela precisava ter autocontrole. Aconselhavam-na a não se divertir muito, a mostrar-se orgulhosa, comer pouco, dançar com compostura e mover-se com moderação. Alertavam para o perigo da bebida e do ócio. Contra as tentações, prescreviam o trabalho e a caridade.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 232-235.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: os movimentos heréticos

Cena noturna da Inquisição, Francisco de Goya

No século XI, os movimentos denominados heréticos pela Igreja coincidem com as mudanças que ocorriam na época, entre elas o esforço dos chefes de famílias nobres para controlar o casamento, a renovação católica e a degradação da condição feminina.

Podemos ver nesses movimentos uma reação dos oprimidos por essas mudanças: filhos deserdados, mulheres que tinham seus direitos desrespeitados pelos homens, camponeses abastados que começaram a ser explorados por senhores feudais, clérigos que não concordavam com as imposições dos seus superiores, populações urbanas que queriam se livrar das imposições dos senhores.

Os cristãos, leigos e clérigos, que contestavam radicalmente o casamento, considerando-o um impedimento à salvação, encontravam apoio nas práticas monásticas tradicionais, que davam prioridade à vida em comunidade, à castidade e à obediência. Todavia, contrariavam o projeto de trazer o casamento para a esfera religiosa, de tornar sagrada a união matrimonial, para controlar melhor a sua prática.

Em muitas comunidades heréticas, as mulheres eram tratadas como iguais, abolindo-se as diferenças entre os sexos e colocando como ideal para ambos a pureza dos anjos. Esses puros eram um pequeno número, mas atraíam muitos simpatizantes. Aderir aos grupos heréticos era uma forma de reagir contra a intervenção da Igreja nas regras matrimoniais do povo. No fundo significava um protesto contra os privilégios do clero. Os hereges julgavam o clero inútil.

Como costuma acontecer com os movimentos contestadores da ordem, a heresia, perseguida e destruída, deixou pouca memória. Seus vestígios são encontrados na palavra dos vencedores, dos que a condenaram e destruíram.

As vozes dos vencedores procuraram ligar a heresia à mulher, ser que, na visão católica, era envenenador, instrumento de Satanás, eterna Eva que levava à perdição.

Como muitos hereges recusavam o casamento e o sexo, foram taxados pelos membros da Igreja como hipócritas e mentirosos. Na verdade, diziam os clérigos, praticariam a comunidade sexual, tendo relações com a mulher que estivesse mais próxima, fosse sua mãe ou irmã. Os filhos dessas relações monstruosas seriam queimados em rituais etc. Conhecemos, portanto, as vozes dos que venceram as heresias, mas muito pouco as dos vencidos.

Os bispos da Igreja venceram as heresias e acomodaram os seus interesses aos das altas linhagens nobres. Disso resultou um modelo de casamento e de comportamento sexual que se estabeleceu solidamente na sociedade feudal.

Esse modelo dava ao cristão apenas duas maneiras de lidar com a sexualidade. Como cônjuge, na moderação das relações matrimoniais - seguindo as normas e proibições -, e como dirigente da Igreja, renunciando ao sexo. O casamento seria uma proteção contra o mal.

O convento passou a ser refúgio das esposas repudiadas e das mulheres sem marido, ajudando a resolver a questão da bigamia e a do repúdio à esposa.

A acomodação entre a sociedade e a doutrina da Igreja sobre o casamento trouxe também a aceitação implícita da diferença entre o ensinamento e a prática.

A repressão ao sexo se afrouxava quando os laços do matrimônio não estavam em questão. O pecado era perdoado pela penitência, uma para cada tipo de falta. O pecador reafirmava a sua submissão à Igreja aceitando a penitência. Dava também uma satisfação à sociedade pelo seu erro. A sua prática contribuía, então, para a ordem social.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 231-232.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: a sacralização do casamento

O casamento de Arnolfini,  1434, Jan van Eyck

O conflito entre o clero e a nobreza teve início na fase de desagregação do império carolíngio e se acentuou no século XI, quando o papa Urbano II empreendeu um movimento de reforma na Igreja. Ele se empenhou em combater os maus costumes do clero, principalmente o gosto pelos prazeres do mundo e, sobretudo, pelas mulheres.

[...]

Antes, até o final do século IX, o parentesco era sobretudo horizontal, estabelecendo um grupo formado por parentes consanguíneos e os seus aliados, congregando duas ou três gerações. Nesta forma de estrutura familiar, os homens e as mulheres estavam no mesmo plano.

No decorrer do século X e da primeira metade do XI esse modelo foi substituído por outro, no qual se privilegiava a verticalidade. Recordava-se cada vez mais um maior número de mortos em direção a um antepassado fundador da família. Cada família de nobres imitava, assim, as próprias dinastias de reis.

Nesse novo modelo, o chefe de família reforçava o seu controle sobre os casamentos. Facilitava o matrimônio das mulheres e dificultava o dos homens, pois este aumentaria os laços familiares por via masculina no sentido horizontal. Tentava-se, assim, concentrar o patrimônio nas mãos do primogênito. Foram colocados limites aos direitos de herança e extinguiu-se o antigo direito da mulher de doar bens.

Por esse costume, as mulheres da casa recebiam uma parte do patrimônio, que se transmitia de mãe para filha e de tia para sobrinha. Antes do casamento, também o noivo dava um patrimônio à futura esposa, do qual podia dispor livremente e que lhe garantia o sustento na viuvez ou quando fosse vítima de repúdio. Também esse costume se extinguiu lentamente. O poder e a propriedade se concentravam nas mãos do marido.

O primogênito devia se casar e dar continuidade à família, mas não os irmãos mais novos. Esses eram muitas vezes destinados à carreira eclesiástica ou enviados para longe para buscarem glória e fortuna. A esperança era encontrar uma herdeira, uma filha sem irmãos. Alguns não primogênitos chegavam a ser assassinados.

Essa prática criou uma série de pequenas dinastias rivais e manteve fixo o número de casas aristocráticas.

A mulher ficou mais estreitamente submetida ao homem, mas acentuou-se o medo que as esposas inspiravam aos seus maridos. Era um outro sangue introduzido na casa. Pelo veneno ou pelo adultério, ela poderia comprometer a perpetuação de uma estirpe.

[...]

Aos poucos o conflito foi dando lugar a uma adaptação, uma acomodação entre a nobreza e a Igreja. Com isso o casamento passou para a esfera do sagrado e foi submetido ao controle da instituição eclesiástica.

O movimento reformista católico do século XI visava basicamente a uma mudança nos costumes dos leigos e do clero. Foi uma verdadeira guerra contra o que era considerado vício. Procurou-se impor aos clérigos a sempre pregada abstenção do sexo e aos leigos a moderação, o comedimento.

[...]

O discurso que colocava o homem acima da mulher estabelecia também a submissão dos leigos ao clero, do temporal ao espiritual. Determinava celibato para o clero e casamento sob a autoridade da Igreja para os leigos.

O movimento de renovação acabou em uma definição do matrimônio como monogâmico, indissolúvel e sagrado.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 229-230.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: o confronto entre a moral católica e a moral germânica

Cena de abuso, Ambrogio Lorenzetti

Nos séculos que se seguiram à queda do Império Romano [...], a Igreja esteve empenhada em converter os povos bárbaros ao cristianismo e em estabelecer alianças com os novos donos do poder: os chefes guerreiros, a nobreza bárbara, os reinos que se formavam.

Entre os germânicos, assim como entre os romanos, o casamento situava-se praticamente fora da esfera religiosa, era muito mais civil. Significava um pacto conjugal e obedecia a uma série de formalidades. Seu principal sentido para a nobreza germânica era o de estabelecer alianças entre parentelas. O pacto conjugal mais ligava famílias do que indivíduos.

O auge da aliança Estado bárbaro-Igreja se deu na época carolíngia (séculos VIII e IX), marcada pela estreita cooperação entre o poder temporal e o poder espiritual. Essa aliança [...] fortaleceu a Igreja e a monarquia.

[...]

Os monarcas francos, sagrados pela Igreja, se sentiam na obrigação de implantar na sociedade os ensinamentos cristãos enunciados pelos bispos [...]. O senso de realidade das autoridades eclesiásticas e temporais levava a uma visão do casamento mais próxima da de Santo Agostinho do que da de Santo Ambrósio. Nada se ganharia condenando o casamento e o sexo de maneira radical. Para a ordem pública, o melhor seria moralizar o casamento.

No pensamento medieval, o mal vem do sexo, mas é possível atenuá-lo pela penitência. Os cônjuges deviam ficar afastados um do outro durante o dia, nas noites que precedem os domingos, nos dias de festas e solenidades e nas quartas e sextas-feiras. A abstinência sexual devia ocorrer também em determinados períodos do ano, como, por exemplo, na quaresma.

Acrescentam-se ainda as três noites após o casamento, o período menstrual, os três meses antes do parto e os quarenta dias após o nascimento dos filhos.

[...]

[...] Por isso não se deve casar por luxúria, mas para procriar. Se a procriação é a finalidade das relações sexuais, a virgindade deve ser guardada até as núpcias, e os que têm esposas não devem ter concubinas. O marido deve respeitar sua mulher e honrá-las como a um ser fraco. Deve também se abster dela quando estiver grávida. A mulher não deve ser expulsa de casa, nem se deve tomar outra. O incesto é pecado grave,

Monogamia, exogamia e repressão ao prazer são os pontos centrais dos ensinamentos.

Apesar desses ensinamentos, nessa fase a Igreja não havia ainda firmado o seu direito de ditar regras para a sociedade no que se refere ao casamento. De acordo com os costumes germânicos e mesmo com a tradição cristã, ele sempre havia sido considerado uma instituição social derivada da lei natural, não das leis sagradas. Os rituais do casamento eram civis e profanos, não religiosos. Era isso que a Igreja queria mudar.

[...]

A desagregação do edifício político que se seguiu ao período carolíngio criou um clima de insegurança. O poder se descentralizou, tornando mais difícil a aliança entre Igreja e nobreza.  Essa desagregação estimulou a reflexão dos homens da Igreja [...].

Esses pensadores procuraram recolher na tradição cristã os elementos para uma nova ação da Igreja, que pretendia combater as violências e atenuar o espírito turbulento da nobreza. [...]

Nessa nova ação, o casamento deveria ser, sobretudo, uma forma de repartir pacificamente as mulheres. Daí a preocupação com dois fatores de violência: o rapto e o divórcio.

Mas, mesmo com essa preocupação do clero, o casamento permanecia sob a jurisdição civil. Não havia uma liturgia matrimonial cristã. [...]

Essa moral cristã em muitos pontos estava de acordo com a moral da elite guerreira germânica sobre o casamento. Ambas concordavam, por exemplo, com a submissão da mulher ao homem, os perigos representados pela sexualidade feminina, a condenação do rapto... A honra de uma família nobre dependia em larga medida da conduta das mulheres, e nisso a Igreja podia prestar importante auxílio.

Em outros pontos, porém, como a condenação cristã do adultério e do incesto, essas duas morais não se harmonizavam.  [...]

A condenação do que a Igreja chamava de adultério contrariava a prática comum da concubinagem entre a nobreza.

Entre os francos, além do casamento legítimo, longamente acertado entre as famílias, o qual garantia a sucessão do patrimônio e dos títulos, havia outros tipos de união. Existia um casamento de segunda categoria, que servia para disciplinar a sexualidade dos rapazes nobres. Era uma união temporária, que podia ser desfeita diante da possibilidade de um casamento mais vantajoso. Neste casamento de segunda categoria, a mulher era mais emprestada do que dada, embora isso fosse feito solenemente, através de um contrato.

Além desse tipo de casamento, era comum a concubinagem, que resultava em um grande número de herdeiros de segunda classe e de filhos bastardos. [...]

A esposa legítima tinha como principal papel garantir a "perpetuação do sangue" e do patrimônio de uma família nobre. Se ela não concebesse herdeiros masculinos, isso já seria motivo mais que suficiente, aos olhos da nobreza, para um novo casamento.

[...] Os casos de incesto listados pela Igreja eram numerosos. As proibições iam até o sétimo grau de parentesco. O parentesco por afinidade também criava impedimento ao casamento, como o de padrinho com afilhada, entre cunhados etc.

Considerava-se que a valentia dos antepassados era transmitida pelo sangue. Daí o cuidado em escolher a esposa, pois dois sangues seriam misturados. Era preferível, então, que a esposa fosse aparentada ao marido. As rigorosas leis da Igreja proibindo o incesto impediam esse tipo de casamento.

Por outro lado, as leis extremamente severas de incesto acabavam neutralizando a proibição do divórcio. [...]

[...]

A tentativa de cristianização do casamento teve uma forte resistência da nobreza porque feria valores e interesses fundamentais dessa classe. Ao que parece foi mais fácil cristianizar o casamento nas camadas inferiores da sociedade, ou seja, entre pessoas que pouco possuíam. O casamento e o comportamento sexual recomendados pela Igreja substituíram as formas mais profanas de acasalamento e a concubinagem.

[...]


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 225-228.

domingo, 25 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: duas visões cristãs sobre o casamento

Um homem colocando um anel no dedo de uma mulher. Detalhe de miniatura do século XIV. James le Palmer

No início da Idade Média, a tradição cristã fornecia um pequeno número de ensinamentos acerca do casamento. Devido às contradições entre os dois papéis assumidos pela Igreja, havia vozes eclesiásticas dissonantes, todas se baseando na palavra de Deus. Uma doutrina católica sobre o casamento, coerente e uniforme, só se formou lentamente.

Duas concepções do casamento se opuseram com violência na cristandade até cerca de 1100. Como resultado desse conflito, foram instituídos usos e costumes que prevaleceram na sociedade ocidental até pouco tempo atrás.

É possível identificar em Santo Ambrósio (século IV) e Santo Agostinho (séculos IV-V), portanto já no início da Idade Média, os argumentos contra e a favor do casamento.

A primeira dessas concepções, que aparece nos escritos de Santo Ambrósio, foi herdada do cristianismo primitivo. Nela o casamento não é recomendado. Quando muito é tolerado. A vida ascética e o horror à mulher marcavam a vida do cristão ideal. Esse cristianismo foi influenciado pela filosofia greco-romana, que opunha a matéria ao espírito.

Dessa forma o casamento seria um mal em si, pois o marido é forçosamente um pecador. Ao amar com ardor sua mulher, comete pecado. O casamento estaria inevitavelmente manchado pelo prazer sexual, sendo um obstáculo à espiritualidade. Essa concepção opunha a vida terrena à salvação e o clero aos leigos.

A outra concepção do casamento conciliava as necessidades terrenas e as aspirações espirituais. Reconhecendo a importância do casamento no ordenamento social, procurou resgatar os seus possíveis pontos positivos. Os padres procuram salvar o casamento de sua maldição de origem. Para isso se centraram em Santo Agostinho, menos severo de que Santo Ambrósio em relação ao sexo e ao casamento. Em vez de condená-los, era necessário submetê-los ao sagrado.

Nessa concepção, o casamento é positivo por atenuar os defeitos de cada um dos sexos. Nele a mulher perde as suas manhas e o homem a sua brutalidade. E dessa harmonia nascem os filhos. A procriação é colocada como a principal finalidade do casamento.

Nesse conjunto de ideias, não é bom que o homem viva só. A mulher foi feita do homem e eles devem voltar a ser um só no casamento. Todavia, permanece a desigualdade original. A mulher deve estar submetida ao homem, assim como deve sofrer as dores do parto, por uma designação divina.

Santo Agostinho diz que o homem é a parte espiritual e a mulher a parte sensual da condição humana. Por isso o casamento permite a submissão da carne ao espírito. Mas para que isso se efetive, o homem deve superar a fraqueza que levou Adão à perdição e reinar sobre sua esposa.

Depois de um longo processo de elaboração, a Igreja conseguiu firmar uma doutrina e um ritual do casamento.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 224-225.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: a família germânica

Antiga família germânica, Grevel

[...]

Os bárbaros germânicos se organizavam em comunidades agrícolas e pastoris com um mínimo de desigualdade social. As lideranças guerreiras gozavam de prestígio, mas este não resultava na dominação e na exploração econômica de um grupo social sobre outro. As terras eram periodicamente redistribuídas, o que impedia que as melhores terras se acumulassem nas mãos de algumas famílias.

Todavia o próprio contato com os romanos foi dissolvendo a organização comunitária germânica. A desigualdade econômica e social foi se generalizando: formou-se uma casta de guerreiros hereditários, com privilégios e riquezas.

Com essa mudança, o casamento passou a ter uma nova importância social e política entre os bárbaros germânicos, pois dele dependia a transmissão dos bens acumulados e do poder estabelecido.

Nessas sociedades bárbaras já transformadas pelo contato com os romanos, o casamento podia resultar de três processos: a compra, o rapto e o consentimento mútuo. Assim, do ponto de vista de seu pai, uma mulher era principalmente um bem móvel. Como tal, era vendida, perdida pelo rapto ou usada para fazer alianças. Uma vez constituído o casal, a mulher se tornava companheira do marido.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 222.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: a família romana

Neste afresco romano, uma sacerdotisa do deus Baco dança tocando pratos. Para os romanos, o amor era fonte de prazer e símbolo da vida, incorporado na religião. A moral cristã tentou reverter essa característica. Vila dos Mistérios, Pompeia.

Na Roma pagã as pessoas casavam mais por dever cívico e interesse político do que por amor. O desejo, o amor e a afetividade ocorriam mais fora do casamento do que dentro dele. A procura do prazer pelo homem fora do casamento, desde que não afetasse a ordem social, era considerada normal.

De maneira geral, a mulher estava submetida à autoridade do homem, primeiro como filha e depois como esposa. Mas, como sempre acontece, essa submissão não era absoluta. Na política e no espaço público, o homem romano, aparentemente, decidia tudo, mas no espaço doméstico predominava a mulher, a administradora do lar. Esta possuía uma posição honrosa, mas tanto a lei como os costumes procuravam limitar o seu espaço às fronteiras domésticas.

O poder do marido era contrabalançado de várias maneiras. A figura do pai, por exemplo, ficava acima da do esposo, pois o matrimônio romano era sine manu, ou seja, a autoridade paterna não se transferia ao marido.

Mesmo na casa do pai, a mulher possuía alguma liberdade. Aquelas em idade de casar podiam administrar os seus bens e escolher seu marido. Mas sua ação era restringida pelo padrão duplo que regia o comportamento sexual: o homem tinha liberdade de procurar o prazer fora do casamento, mas a mulher não.

Convém ressaltar que as informações que temos sobre a mulher na sociedade romana antiga se referem quase exclusivamente às mulheres das famílias aristocráticas. Mas é possível saber que as das classes mais baixas, especialmente as escravas, tinham poucas opções de decidirem sobre as suas vidas. Se os seus senhores as achassem atraentes, tornavam-se suas concubinas.

Essa família romana tradicional, na fase de decadência do Império Romano do Ocidente e de ascensão da Igreja (séculos IV e VI), já estava bastante transformada pelo cristianismo. Este deu oportunidade à mulher de se tornar uma pessoa independente, e não somente filha, mulher e mãe de alguém.

Na visão cristã primitiva, as mulheres são seres espirituais com a mesma potencialidade dos homens para a perfeição moral. No entanto, a evolução do cristianismo primitivo para a institucionalização da religião e a formação da Igreja Católica [...] n]ao favoreceu a mulher.

A vitória do cristianismo na sociedade romana dependeu de uma acomodação entre o comportamento dos cristãos e os interesses do Estado. O radicalismo primitivo, que fazia com que as autoridades romanas vissem o cristão como um mau cidadão, teve de ser atenuado. O casamento e a sexualidade, que antes eram tidos como obstáculos à salvação, passaram a ser compatíveis com a religião.

A acomodação entre a moral romana e a cristã no que se refere à sexualidade foi bastante problemática. O amor era visto pelos romanos como sagrado, misterioso, fonte de vida e de prazer. Os primitivos cultos aos deuses romanos da fertilidade e do amor incluíam o uso de símbolos fálicos e relações sexuais entre os que cultuavam esses deuses.

Bem ao contrário, a sexualidade na moral cristã está ligada ao pecado e, como tal, é uma fraqueza a ser vencida no caminho da salvação. Esse cristianismo primitivo considerava de modo negativo o próprio matrimônio e a procriação. O casamento era visto como uma concessão às exigências do corpo. Os prazeres da vida desviaram o crente do verdadeiro caminho.

A vitória do cristianismo, que acabou se tornando a religião oficial do Império Romano, fez com que a visão romana tradicional sobre a sexualidade fosse suplantada pela moral cristã, mas esta teve de alterar o seu radicalismo original para se tornar aceita pela maioria da população.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 219-221.

sábado, 20 de agosto de 2016

Concubinatos multiplicados

A expansão territorial dos séculos XVII e XVIII em direção ao interior da colônia foi motivada pela descoberta das minas de ouro e pelo crescimento da pecuária - nessas áreas, o número de homens era superior ao de mulheres, e os concubinatos, disseminados. A partir de meados do século XVIII, teve início a urbanização da colônia. Esse conjunto de situações promoveu enormes ondas migratórias, que obrigavam os colonizadores a se locomover da costa para o interior da colônia em busca de trabalho e ocupação. Tais deslocamentos alteraram a estrutura demográfica das populações e incentivavam o aparecimento de formas diferentes de família.

A existência de mulheres sozinhas nas cidades coloniais, por exemplo, dava uma característica especial às famílias, que se constituíam, muitas vezes, apenas de mãe, filhos e avós. Como hoje, multiplicavam-se os lares monoparentais com chefia feminina. Algumas dessas famílias incluíam escravos e escravas. Outras, parentes ou compadres e comadres "agregados". Frágeis? Não. Tais arranjos familiares permitiam às matriarcas elaborar agendas extremamente positivas para os seus: casavam filhos e filhas interferindo na escolha do cônjuge, controlavam o dinheiro com que cada membro colaborava no domicílio, punham em funcionamento redes de solidariedade, agiam, sós ou em grupo, quando deparavam com interesses contrariados.

Interior de uma casa do baixo povo, J. C. Guillobel

Havia também as tradições africanas, vindas do Reino do Congo ou de Angola, regiões onde as etnias matrilineares ajudavam a consolidar o padrão da família monoparental, com mulheres na chefia do domicílio. As exigências de um cotidiano difícil moldaram as funções da mulher na vida do casal. Muitas tiveram que tomar a frente dos negócios quando da ausência do parceiro, de sua morte ou partida. Em muitos casos, a casa e o lugar de comércio ou de produção de gêneros se confundiam.

Os filhos das uniões não sacramentadas eram considerados ilegítimos pela Igreja. Para se ter uma ideia de como os índices de ilegitimidade eram elevados, em Salvador, na Bahia, entre 1830 e 1874, quatro quintos das crianças negras e mulatas eram ilegítimas, e, em São Paulo, entre 1745 e 1845, elas perfaziam 39% dos nascimentos. Em Vila Rica, Minas Gerais, em 1804, os ilegítimos eram, em mais de 98%, crianças escravas.

Ao juntar o jornal - espécie de comissão que recebiam por trabalhos cotidianos -, as escravas conseguiam, muitas vezes, comprar a liberdade do companheiro com o qual se casavam. Casais assim formados sobreviviam razoavelmente. Alugavam um quarto em um cortiço ou casinha nos arredores da cidade e criavam os filhos. Para não atrapalhar o trabalho dos pais, as crianças podiam ser educadas por amigos ou parentes, em cujas casas cresciam e aprendiam os primeiros ofícios. Deixar a educação dos filhos a cargo de outras pessoas prenunciava hábitos ainda hoje presentes entre mães pobres. Apesar das medidas legais e do preconceito contra concubinatos, estes predominavam.

DEL PRIORE, Mary. Histórias e conversas de mulher. São Paulo: Planeta: 2014. p. 16-8.

sábado, 23 de julho de 2016

A mulher e a sexualidade na Roma antiga: Entre o amor e a pátria

Virgílio, famoso poeta da época do imperador Otávio Augusto (27 a.C. - 19 d.C.), escreveu Eneida, obra épica que narra a história de Roma. No relato de Virgílio, a origem de Roma e os tempos primitivos de sua história estão baseados em antigos mitos, contados e reelaborados ao longo dos séculos.

Os mitos e as lendas têm um valor inestimável para os historiadores. Podemos dizer que eles revelam os mais profundos valores, sentimentos e anseios de um povo. Dessa forma, estão mais relacionados ao momento em que são narrados do que à época a que se referem. Isso significa que a história escrita por Virgílio traz informações sobre os tempos remotos de Roma, mas principalmente informa sobre os valores romanos do século I do Império.

As duas lendas [...] a seguir permitem identificar as ideias romanas sobre a paixão e os deveres do cidadão para com a pátria e o destino traçado pelos deuses.

A primeira dessas lendas leva o leitor até a guerra de Tróia, ocorrida por volta do século XII a.C. Afrodite, deusa grega do amor, se apaixonou por Anquises, parente do rei de Tróia. Do namoro entre a deusa e o mortal, nasceu Enéias, que, tempos depois, se casou com Creusa. Desse casamento nasceu Ascânio.

A cidade de Tróia, cercada pelos gregos, estava condenada à derrota e à destruição. Enéias conseguiu fugir, salvando seu pai e o pequeno Ascânio, mas abandonou Creusa, a esposa amada. Apesar da crueldade do ato, ele se justifica pelo dever maior de Enéias: foi designado pelos deuses para fundar uma nova civilização na Itália. Para não pôr em risco a sua missão de dar continuidade à sua raça, ele sacrificou a mulher. Em outras palavras, Enéias não se deixou levar pela paixão. O que era a morte de uma mulher diante da tarefa de fundar Roma? Em outros momentos do mito, o dilema se repete, pois Enéias e seus descendentes são obrigados a sacrificar seus amores e sentimentos pessoais para cumprir a missão determinada pelos deuses. O desfecho da história é positivo.

Uma outra lenda narra o drama de Tarpéia, uma moça romana. Uma versão dessa lenda foi escrita por Propércio, que, assim como Virgílio, viveu no século I de nossa era.

Segundo essa lenda, durante uma guerra contra os seus vizinhos sabinos, os romanos ficaram cercados no Capitólio, a colina onde ficava o templo de Júpiter, no centro da cidade. Tarpeio, um dos líderes romanos, tinha uma filha muito bonita chamada Tarpéia, que se apaixonou pelo formoso Tácio, rei dos sabinos. Não conseguindo controlar os seus desejos, Tarpéia traiu o seu povo, indicando uma passagem secreta para o inimigo invadir a cidade. Em troca, o rei sabino aceitaria o amor de Tarpéia. Todavia, depois de obter a informação, o rei mandou matar a traidora.

Namoro - A proposta, Sir. Lawrence Alma-Tadema

Dessa vez o desfecho foi negativo. Segundo o impulso da paixão e esquecendo os deveres para com o seu povo, a jovem romana provocou a sua própria desgraça e colocou em risco a existência da cidade.

As duas lendas têm o mesmo sentido: os sentimentos e as paixões devem estar submetidos aos interesses da pátria. Enéias, o herói, obedeceu essa regra cívica, moral e religiosa. Tarpéia, a traidora, não seguiu esses princípios e foi castigada com a morte.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 213-214.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A mulher e a sexualidade na Roma antiga: Sexualidade, religião e razão de Estado

De acordo com a concepção cristã tradicional, o lugar "normal" de manifestação da sexualidade é o casamento, e a sua função básica é a reprodução. Em nossa sociedade, até recentemente, sexo com o objetivo de prazer era visto de modo negativo, até como pecado.

A sociedade greco-romana da Antiguidade era completamente diferente. Tanto que os primitivos cultos aos deuses e deusas romanos da fertilidade e do amor incluíam o uso de símbolos fálicos e relações sexuais entre os cultuadores desses deuses. Se o Estado romano procurou sempre controlar as manifestações de sexualidade da população, não foi porque ela era considerada um mal em si, mas porque se achava que o amor e o sexo levavam a ações apaixonadas e irracionais.

Confidências, Sir. Lawrence Alma-Tadema

[...] O amor era sagrado, misterioso, impulsivo, além de ser fonte de vida e de prazer. Mas, exatamente por ser tão poderoso, precisava ser controlado em nome da ordem e do interesse público.

A sexualidade é natural e instintiva, mas como os seres humanos são portadores de cultura, ela se manifesta segundo determinadas regras. A essas regras se acrescenta o controle das leis do Estado. Algumas manifestações religiosas que expressavam a cultura do povo romano foram reprimidas pelo Estado. Foi o caso das orgias, como eram chamadas as festas religiosas ligadas ao culto do deus Baco, nas quais aconteciam grandes bebedeiras.

Atualmente, na maioria dos países do mundo há uma separação entre religião e Estado. As pessoas são livres para praticar a religião que quiserem, e o Estado não obriga ninguém a ter uma religião. Ela é, portanto, um assunto privado. O casamento, embora tenha caráter sagrado para várias religiões, para o Estado é um contrato civil: duas pessoas assumem uma série de deveres e direitos recíprocos.

Na Antiguidade greco-romana não havia essa separação, pois o próprio Estado tinha um caráter sagrado. Dessa forma, era normal que o Estado controlasse a religião. A autoridade religiosa máxima em Roma era exercida por um funcionário público, o Sumo-Pontífice.

Em todas as sociedades o casamento tem uma importância geral e coletiva. É o casamento que constitui as famílias e cria a responsabilidade de determinados adultos em relação às crianças. Esses adultos ficam responsáveis pela educação e socialização das crianças.

Todavia, apesar de ser de interesse público, o casamento é visto por nós como assunto pessoal, de interesse privado. Conscientemente ninguém casa para cumprir deveres cívicos, servir a pátria e colaborar com o bem público. Nós sempre associamos casamento ao amor. Duas pessoas se casam porque existe um sentimento de amor entre elas.

Nesse aspecto, a sociedade romana antiga também era muito diferente, pois em Roma se casava mais por dever cívico e interesse político do que por amor. O desejo, o amor e a afetividade se davam mais fora do casamento do que dentro dele.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 211-212.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: a frágil família popular

[...]

O primeiro aspecto a salientar nas organizações familiares populares era o seu caráter instável. A tal ponto que se chegou a duvidar de que essas camadas populares constituíssem verdadeiras famílias.

O número de filhos bastardos, o concubinato, a bigamia, os filhos abandonados, os lares desfeitos, a dificuldade de obter o mínimo necessário para a subsistência, a miséria extrema que levava à mendicância eram evidências da extrema fragilidade das famílias populares.

Negra pobre dando a mão ao filho que leva uma cana na mão, Joaquim Cândido Guillobel

As famílias de escravos, pela própria natureza do regime escravista, eram as mais instáveis e existiam em pouco número. A situação precária em que viviam os negros forros também dificultava a constituição de famílias.

Negro pobre carregando cesto às costas, Joaquim Cândido Guillobel

Assim sendo, a família da gente livre e pobre estruturou-se independentemente dos laços matrimoniais. Tanto na sociedade relativamente urbanizada de Minas Gerais, no auge da economia mineira, como em São Paulo ou no Rio de Janeiro do período imperial, a proporção de casas cujos chefes eram mulheres era muito grande.

Interior de uma casa do baixo povo, Joaquim Cândido Guillobel

A historiadora Laura de Mello e Souza estudou essa camada social na sociedade do ouro, mostrando toda a precariedade em que vivia. Eram homens, mulheres e crianças que viviam nos limites da sobrevivência. Nesse meio os filhos bastardos eram maioria absoluta. A maior parte das uniões era legalmente ilícita e contrária à moral católica oficial.

Os lares chefiados por mulheres sem marido ou companheiro representavam quase a metade dos existentes em Vila Rica na segunda metade do século XVIII.

A taxa de prostituição era alta, e a miséria das mulheres era tanta que as que tinham roupas decentes para se apresentar em público despertavam desconfiança dos fiscais por esse "luxo".

A numerosa camada social situada entre a elite e os escravos tinha como característica fundamental a pobreza e a instabilidade. Tanto que a referida historiadora encontrou na expressão desclassificados do ouro a melhor maneira de defini-los. Nesse meio era quase impossível a constituição de famílias estáveis, qualquer que fosse o modelo delas ou sua forma de organização. Na verdade estamos diante de uma "desorganização familiar", determinada pela extrema precariedade das condições de existência material.

Família pobre em casa, Jean-Baptiste Debret. A imagem mostra uma moradia popular. Uma velha viúva e sua filha viviam na pobreza, mas possuíam uma escrava, cujo trabalho de carregadora de água garantia o sustento das três. Na volta de sua jornada, a escrava traz um cacho de bananas. Falta nesse grupo a figura do pai, marido ou companheiro. Eram numerosos os lares chefiados por mulheres nos meios populares.

Outra historiadora, Maria Odila Leite da Silva Dias, levantou dados que demonstraram que cerca de um terço dos lares paulistanos na segunda metade do século XIX também eram chefiados por mulheres. Famílias que também, na sua maioria, viviam na pobreza.

Mulher negra, Almeida Júnior

Para o Rio de Janeiro, além de dados levantados pela pesquisa acadêmica, temos o registro da literatura. O Cortiço, de Aluísio Azevedo, por exemplo, retrata a instabilidade das famílias populares e a precariedade do seu modo de vida. A obra revela ainda a violência que envolvia a vida cotidiana dos membros das camadas sociais populares e marcava as relações familiares.

PEDRO, Antônio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 252-3.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: a família patriarcal

Uma família brasileira, Henry Chamberlain

 [...]

Até o começo do século XIX, a vida urbana no Brasil era desprezível. A cidade do Rio de Janeiro, que já era capital da colônia 45 anos quando chegou aqui a Família real, era uma cidadezinha de ar empesteado pelo mau cheiro das latrinas e das águas paradas. As ruas eram irregulares e na maioria delas não se sabia onde terminava a área privada e começava a pública. Não havia uma verdadeira sociedade urbana no Brasil do início do século XIX.

Escravos carregando barril de vinho, Henry Chamberlain

A caracterização da família patriarcal brasileira de raízes coloniais foi feita pelo sociólogo Gilberto Freyre, na sua clássica obra Casa-grande & Senzala, publicada em 1933. Era uma família poligâmica, cujo chefe, geralmente um homem branco, tinha um poder quase absoluto sobre os que viviam na sua propriedade, a começar por sua mulher e seus filhos e chegando aos escravos. Para ele todas as relações sexuais eram possíveis. Escravos e agregados não tinham condições de opor resistência aos seus desejos e vontades. Essa liberdade sexual dos patriarcas deu origem a numerosos filhos bastardos, os quais compunham a camada social e racial típica da nossa sociedade colonial: a dos mulatos.

As mulheres brancas, esposa e filhas do patriarca, pelo contrário, estavam submetidas a um rigoroso controle. A fidelidade da esposa e a castidade das filhas deviam ser preservadas de maneira absoluta.

[...]

Um funcionário do governo sai a passeio com a família, Jean-Baptiste Debret. A imagem mostra uma tradicional família patriarcal brasileira, embora se trate de um funcionário do governo, e não de um típico grande proprietário. Conforme nos informa o próprio Debret, era costume nessa classe a família caminhar em fila. O patriarca segue na frente seguido pelos filhos. Atrás a esposa e a sua escrava mulata, que serve de criada de quarto, a ama-de-leite e a escrava dessa ama. Depois temos o escravo doméstico do senhor, seguido de um jovem escravo que está aprendendo o serviço e de outro, comprado recentemente.

O poder do patriarca se manifestava fora do seu círculo familiar, estendendo-se para toda a sociedade. Isso se dava pelo clientelismo, ou seja, pela criação de laços pessoais de dependência e fidelidade, decorrentes da capacidade do patriarca de prestar favores, dar proteção e trabalho. Dessa forma, os homens livres, pobres ou remediados, formavam a clientela do grande proprietário.

Senhora brasileira em sua cadeira, Henry Chamberlain

A família de escravos ou a dos homens livres pobres e até mesmo a família conjugal de nossa época não escaparam da influência desse modelo patriarcal de família.

[...]

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 247-248.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

"Teúdas e manteúdas" no Brasil imperial

[...] até o período em que se deu a Independência, vivia-se na América portuguesa num cenário com algumas características invariáveis: a família patriarcal era o padrão dominante entre as elites agrárias, enquanto, nas camadas populares rurais e urbanas, os concubinatos, uniões informais e não legalizadas e os filhos ilegítimos eram a marca registrada. A importância das cidades variava de acordo com sua função econômica, política, administrativa e cultural. Alguns números ilustram os contingentes demográficos: São Paulo contava com cerca de 20 mil habitantes, Recife, com 30 mil, Salvador, com 100 mil, e o Rio de Janeiro, graças à vinda de portugueses seguindo d. João VI em seu exílio tropical, era a única a contar com mais de 100 mil residentes. A população urbana, contudo, crescia, alimentando uma forte migração interna (campo-cidade) e externa (tráfico negreiro). Apesar dos problemas de abastecimento, higiene e habitação, as cidades atraíam pela enorme oportunidade que ofereciam de mobilidade social e econômica.


Quando a América ainda era portuguesa, cochichos, piscadelas e sinais com os dedos: sedução pela janela. Huma história, 1822. Henry Chamberlain

Com todas essas transformações, é bom não perder de vista que, de acordo com vários viajantes estrangeiros que aqui estiveram na primeira metade do século XIX (Saint-Hilaire, Tollenare, Debret, Rugendas, Koster, Luccock, Maria Graham), a paisagem urbana brasileira ainda era bem modesta. Com exceção da capital, Rio de Janeiro, e de alguns centros onde a agricultura exportadora e o ouro tinham deixado marcas – caso de Salvador, São Luís e Ouro Preto -, a maior parte das vilas e cidades não passava de pequenos burgos isolados com casario baixo e discreto, como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Mesmo na chamada corte, o Rio de Janeiro, as mudanças eram mais de forma do que de fundo. A requintada presença da Missão Francesa pode ter deixado marcas na pintura, ornamentação e arquitetura. Mas as notícias dos jornais Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822) e Idade de ouro do Brasil (1811-1823), órgãos da imprensa oficial, ou mesmo a inauguração do Real Teatro de São João, onde se exibiam companhias estrangeiras e onde soltavam seus trinados artistas como a graciosa Baratinha ou as madames Sabini e Toussaint, não eram suficientes para quebrar a monotonia intelectual. Além do popular entrudo e dos saraus familiares, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical.


O importuno, Almeida Junior

Os viajantes que por aqui passaram na primeira metade do século XIX concordavam num ponto: "a moralidade reinante no Rio de Janeiro se apresenta bem precária", como dizia o mineralogista inglês Alexander Caldcleugh. Já o francês Freycinet queixava-se dos vícios de libertinagem. Afinal, tratava-se de um país onde "não e difícil encontrar-se todo tipo de excessos". E seu conterrâneo Arago cravava: "o Rio era uma cidade onde os vícios da Europa abundavam". Eles tomavam como vícios os concubinatos e adultérios, correntes sobretudo nas camadas mais pobres da população, em que se multiplicavam as "teúdas e manteúdas". Para a chamada "poligamia tropical" não faltaram explicações associadas ao clima quente, como a dada por J. K. Tuckey:

"Entre as mulheres do Brasil, bem como as de outros países de zona tórrida, não há intervalo entre os períodos de perfeição e decadência; como os delicados frutos do solo, o poderoso calor do sol amadurece-as prematuramente e, após um florescimento rápido, deixam-nas apodrecer; aos quatorze anos tornam-se mães, aos dezesseis desabrochou toda a sua beleza, e, aos vinte, estão murchas como as rosas desfolhadas no outono. Assim a vida das três destas filhas do sol difere muito da de uma europeia; naquela, o período de perfeição precede muito o de perfeição mental, e nesta, uma perfeição acompanha a outra. Sem dúvida, esses princípios influenciam os legisladores do Oriente em sua permissão da poligamia; pois na zona tórrida, se o homem ficar circunscrito a uma mulher precisará passar quase dois terços de seus dias unido a uma múmia repugnante e inútil para a sociedade, a não ser que a depravação da natureza humana, ligada à irritação das paixões insatisfeitas os conduzisse a livrar-se do empecilho por meios clandestinos. Essa limitação a uma única mulher, nas povoações europeias da Ásia e das Américas, é uma das principais causas de licenciosidade ilimitada dos homens e do espírito intrigante das mulheres. No Brasil, as relações sexuais licenciosas talvez igualem o que sabemos que predominou no período mais degenerado do Império Romano."

Outra explicação, dessa vez dada pelo conde de Suzanet, em 1825, afirmava que as mulheres brasileiras gozavam de menos privilégio do que as do Oriente. Casavam-se cedo, logo se transformando pelos primeiros partos, perdendo assim os poucos atrativos que podiam ter tido. Os maridos apressavam-se em substituí-las por escravas negras ou mulatas. "O casamento é apenas um jogo de interesses. Causa espanto ver uma moça, ainda jovem, rodeada de oito ou dez crianças; uma ou duas, apenas, são dela, outras são do marido; os filhos naturais são em grande número e recebem a mesma educação dos legítimos. A imoralidade dos brasileiros é favorecida pela escravidão e o casamento é repelido pela maioria, como um laço incômodo e um encargo inútil. Disseram-me que há distritos inteiros em que só se encontram dois ou três lares constituídos. O resto dos habitantes vive em concubinato com mulheres brancas ou mulatas."

"Nascer do outro lado dos lençóis" era o eufemismo empregado para designar bastardia. E não foram poucas as famílias assim constituídas. João Simões Lopes, o visconde da Graça, estancieiro, comerciante e chefe do partido conservador em Rio Grande, tinha uma vida nada convencional na segunda metade do século XIX. Casado, mantinha na mesma rua em que morava, três casas abaixo, sua amante. Quando sua esposa deu à luz um filho, quase na mesma semana nascia-lhe outra da "teúda e manteúda" Vicência Ferreira Lira. Teve, com cada uma delas, dez filhos, sendo pai de doze de um primeiro casamento do qual ficou viúvo. O arranjo não causava discórdia. Nas missas de domingo, a legítima esposa ficava de um lado da igreja e a concubina, do outro. Todos muito devotos!

DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011. p. 62-65.

NOTA: O texto "Teúdas e manteúdas no Brasil imperial" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.