"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Islamismo

O Islamismo, a mais moderna das religiões universais, surgiu na Arábia no século VII em circunstâncias mal conhecidas. Maomé nascera em Meca ao redor do ano 570 de nossa era e havia pregado um monoteísmo, em muitos aspectos, próximo do judaísmo e do cristianismo – que eram conhecidos em seu meio – enfrentando o politeísmo de seu próprio povo. Órfão desde pequeno, foi criado pelo tio Abu Talib que se dedicava ao comércio de caravanas, tendo viajado com ele até 25 anos de idade, quando casou-se com Khadidja, uma viúva rica de 40 anos. Foi ao redor de 611, em meio a uma vida tranqüila e feliz que, uma noite, apareceu-lhe o arcanjo Gabriel e lhe disse: “Lê”. Ele respondeu que não sabia ler e o anjo insistiu: “Lê em nome do criador”, e lhe anunciou que havia sido escolhido para ser o mensageiro de Deus. Sua esposa foi a primeira a converter-se, ao mesmo tempo que seu primo Ali, que casou-se com Fátima, filha de Maomé. Os habitantes de Meca inquietaram-se com esta nova fé monoteísta, que ameaçava as peregrinações aos santuários locais, tornando a situação perigosa para o profeta que, em 16 de julho de 622, fugiu para instalar-se em Medina. Esta viagem, a hégira, é o acontecimento que marca o início da era muçulmana. Foi, então que Muhammad se converteu em um profeta armado e dedicou-se à expansão do Islamismo pela Arábia, até sua morte no ano 632 (ano 10 da hégira).

Alcorão de Al-Andalus (século XIII)

Se, inicialmente, Maomé estava próximo aos judeus que viviam na Arábia, separou-se gradualmente deles, que haviam se aliado com seus inimigos, ao mesmo tempo que se apropriava de suas origens. Abraão foi considerado o fundador de um monoteísmo que havia estabelecido um santuário em Meca (a Ka’Ba, construída por Adão, destruída pelo dilúvio e restabelecida por Abraão) sendo que Jesus era visto como um grande profeta, filho de mãe virgem.

O grande problema do Islamismo, ao morrer Maomé, foi sua sucessão. Muitos eram partidários de que lhe sucedesse Ali, seu primo e genro. Outros queriam que o sucessor, ou califa fosse eleito. Um acordo entre as partes levou à nomeação, como primeiro sucessor, de Abu Bekr, velho companheiro e um de seus sogros (depois da morte de Khadidja, em 619, Maomé chegou a ter 10 mulheres).

O califa já não era um profeta, mas simplesmente um conservador da mensagem de Maomé e o encarregado de expandi-la pelo mundo. Abu Bekr criou um exército e prosseguiu a expansão. Seu sucessor, Omar (634-644), outro sogro de Maomé, conquistou a Síria e concluiu a conquista do Egito. Nos países que conquistavam, os muçulmanos apropriavam-se das terras do Estado e daqueles que não reconheciam a sua autoridade, permitindo, porém, que cristãos, judeus e zoroastrianos continuassem conservando seus bens, sempre que pagassem tributo e não fizessem proselitismo religioso.

Omar foi assassinado por um escravo cristão e um conselho de sábios escolheu, então, como seu sucessor, Othaman (644-656), que fora casado com duas filhas de Maomé e que realizou a compilação do Corão, recolhendo as recordações e testemunhos de todos os companheiros do profeta. Após doze anos de reinado, Othaman morreu, também assassinado. E o quarto califa, e último dos “califas patriarcais”, foi Ali, o mais próximo dos parentes de Maomé (os shariffs ou descendentes do profeta procedem de seus dois filhos) que morreria, por sua vez, assassinado pelo homem que o substituiria, Moaviá, que deu início ao califado hereditário, instalado em Damasco e criou um estado de estilo novo, que já era de um povo em armas, mas que contava com uma administração e um exército profissional.

Enquanto isso, as reivindicações da família de Ali, que se considerava perseguida, iniciaram a divisão do mundo islâmico entre “sunitas” e “xiitas”, que eram os que não aceitavam o califado hereditário e sustentavam a legitimidade da sucessão de Ali através de uma série de imanes (sacerdotes) ou chefes religiosos ocultos. Os xiitas promoveram diversas insurreições e deram lugar a ramos extremistas, como os ismaelitas.

No Islamismo atual, o grupo mais numeroso é o dos “sunitas” ortodoxos, cujo nome procede de sunnah ou costume, representando mais de 85% dos muçulmanos. Há quatro escolas de pensamento sunita que dominam em diversas zonas do mundo islâmico, reconhecendo-se todas entre si, porém, como ortodoxas. Opostas a elas, estão os “xiitas”, correspondendo a 10% dos muçulmanos (entre eles os do Irã e boa parte do Iraque) que se dividem em três escolas – a dos doze sacerdotes (imanes), a dos cinco imanes e a dos ismaelitas ou dos sete imanes – que divergem na estimativa de quem são os imanes herdeiros secretos e legítimos de Ali. Uma das diferenças mais evidentes entre xiitas e sunitas é que os primeiros admitem a autoridade religiosa de um clero, os mujtabids, cujos membros mais importantes são chamados de aiatolás.

Além destes dois, há outros grupos menores no Islamismo. Os coraixitas são uma seita puritana que descende dos que, na disputa sucessória, não estavam nem como Moaviá nem com os descendentes de Ali, porque pensavam que o califado deveria ser eletivo. Há, também, diversas seitas saídas do xiismo que seguem os ensinamentos de profetas próprios, como os bahai, que têm seiscentos mil seguidores, ou a seita ortodoxa de Ahmadiya, na Índia, que afirma que Jesus Cristo morreu na cruz aos 120 anos, na Índia. O fundador deste grupo, que morreu em 1908, proclamava que ele era o mahdhi, o imã esperado, ao mesmo tempo que era, também, o segundo retorno de Jesus Cristo. Uma das duas correntes em que este grupo se dividiu imita os procedimentos das missões cristãs (ainda que seja violentamente hostil ao cristianismo) e tem meio milhão de seguidores, principalmente na África ocidental: na Nigéria (onde contribuiu para a islamização das tribos yoruba), Guana e Burkina Faso.

Há também dois fenômenos associados, que são demasiado complexos para serem sintetizados brevemente. O “sufismo” é uma forma de misticismo que vai além da simples observação da lei islâmica (a “shariah” ou caminho largo) para buscar a união com Deus através do ascetismo, da prece e da meditação, tendo em Ibn Arabi um dos seus maiores representantes, autor de uma imensa obra escrita, que nasceu em Murcia, em 1165, e percorreu todo o mundo islâmico. As confrarias (turuk) seguem as doutrinas de um líder sufi, de um marabut, que ensinam o “modo de aquiescer a Deus, através de determinados ritos, práticas, exercícios e conhecimentos esotéricos”; reúnem-se junto às tumbas dos santos, fazem jejum e vigílias, praticam a dança (como os “derviches girantes”), recitam “recordações” e alguns consomem haxixe ou ópio para facilitar a chegada ao êxtase. Proibidas na Arábia, as confrarias se expandem por todo o mundo islâmico, incluindo Bósnia e Kosovo, e entre os imigrantes muçulmanos da Europa ocidental.

Os sunitas, o grupo majoritário dos muçulmanos, não têm Igreja nem clero. O fiel tem contato direto com Deus, já que o imane (sacerdote) não faz outra coisa do que dirigir a oração coletiva, não sendo um intermediário entre a divindade e o crente. O Corão é a mensagem de Deus através do qual o arcanjo Gabriel, recordado de memória pelos contemporâneos do profeta e escrito em diversas etapas em um texto de 114 surates ou capítulos, compostos de um número variável de versículos. Não é um texto apenas religioso, mas contém, também, normas jurídicas, morais, políticas ou sociais.

A suna (tradição ou costume) é a segunda fonte de lei e se compõe principalmente dos hadits, os dizeres do profeta quando respondia a perguntas sobre a interprestação de seus ensinamentos, transmitidos oralmente por seus companheiros às gerações seguintes. No século IX, foram compilados e discutidos, atribuindo-se-lhes um grau de veracidade. Há seis recompilações fundamentais dos hadits que são fonte do conhecimento ao lado do Corão.

Os princípios do Islamismo são cinco. A profissão de fé: só Deus é Deus e Muhammad é seu enviado. Esta profissão, dita com sinceridade ante testemunhas, basta para que seja considerado muçulmano. A oração (pregaria) que se faz cinco vezes ao dia, só ou acompanhado, sob a direção de um imane ou sacerdote e na direção de Meca, é um ato supremo e purificador. O zakat o imposto-esmola é obrigatório e se destina a atender aos necessitados. O quarto princípio é o jejum de Ramadan e o quinto, o hadj ou peregrinação a Meca.

O califado fragmentou-se como poder político, porém o grande paradoxo foi que, ao romper-se sua unidade, a homogeneidade cultural do mundo islâmico cresceu (é necessário recordar que a comunidade dos muçulmanos, a umma, não reconhece diferenças de tribo, nação, nem de raça) e sua capacidade de expansão e de integração se multiplicou. Os censos religiosos são sempre discutíveis, mas calcula-se que seu número cresce com rapidez, não só porque os países muçulmanos têm, em geral, natalidades elevadas, mas porque sua religião se expande fortemente no mundo subdesenvolvido.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 309-314.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Cristianismo

O cristianismo antigo tem duas etapas históricas claramente distintas. Houve uma primeira fase em que se difundiu pelas comunidades judaicas da Ásia Menor e do Egito e que “incluía uma grande variedade de vozes, um extraordinário leque de pontos de vista”. Na Síria e no Egito, convivia com seitas judias diversas, antes da fase de predomínio do gnosticismo, em que a doutrina se impregnou de traços do pensamento oriental e do paganismo greco-romano. Era lógico que as diferenças doutrinais não fossem vistas como decisivas a grupos que compartiam a crença de que o fim do mundo estava próximo. Este componente escatológico, herdado da tradição apocalíptica que florescia na Palestina nos tempos de Cristo, foi um elemento fundamental do cristianismo ao redor do ano 200 quando, não tendo chegado o fim do mundo, os cristãos voltaram à vida normal. Desde este momento, as posturas extremas sobre o ascetismo conservaram-se apenas entre os grupos mais extremados do cristianismo oriental. Na cristandade ortodoxa, a norma da castidade absoluta ficou para os “pais do deserto” – os ascetas egípcios ou os eremitas da Síria ou Capadócia -, de quem os monges a tomaram e, só gradualmente e muito mais tarde, generalizou-se no clero secular.

Folio Papiro 46 contendo 2 Corintians, 11:33-12:9 (uma das primeiras coleções do século III das epístolas paulinas)

ενσαργανηεχαλασθηνδιατουτειχουσ
καιεξεφυγοντασχειρασαυτουκαυχασ
θαιδειουσυμφερονμ[ε]νελευσομαιδε
εισοπτασιασκαιαποκαλυψεισκυοιδα
ανθρωπονενχωπροετωνδεκατεσσαρων
θιτεενσωματιουκοιδαειτεεκτοστουσω
ματοσουκοιδαοθσοιδεναρπαγεντατον
τοιουτονεωστριτουουρανουκαιοιδατον
τοιουτονανθρωπονειτεενσωματιειτε
χωριστουσωματοσουκοιδαοθσοιδενοτι
ηρπαγηεισυονπαραδεισονκαιηκουσεν
αρρηταρηματααουκεξονανθρωπωλα
λησαιυπερτουτοιουτουκαυχησομαιυπερ
δεεμαυτουουδενκαυχησομαιειμηενταις
ασθενειαισεανγαρθελωκαυχησομαι
ουκεσομαιαφρωναληθειανγαρερω
φειδομαιδεμητισεμελογισηταιυπερ
οβλεπειμεηακουειτιεξεμουκαιτη
υπερβολητωναποκαλυψεωνιναμη
υπεραιρωμαιεδοθημοισκολοψτησαρκι
αγγελοσσαταναιναμεκολαφιζηινα[μη]
υπεραιρωμαιυπερτουτουτρις[τονκυριον]
παρεκαλεσαινααποστηα[πεμουκαιει]
ρηκενμοιαρκεισοιηχα[ρισμουηγαρ]
δυναμισ[ενασθενειατελειταιηδισταουν]

A segunda etapa da história do cristianismo antigo é a de sua associação com o poder político do Império Romano, que o transformou em um “governo eclesiástico paralelo ao secular”, que com ele colaborava no cumprimento dos decretos imperiais. Seu caráter plural e comunitário desapareceu. O cristianismo transformou-se na Cristandade, que via a si mesmo como uma comunidade unitária e hierarquizada aspirava incluir todos os homens, estendendo seu controle a todas suas atividades.

Desde o primeiro momento, o imperador Constantino deu um sentido político a sua aliança com o cristianismo. A Igreja seria um dos apoios essenciais do império cristão que sobreviveria no Oriente até o século XV. No Ocidente, onde a estrutura imperial ruiu muito antes, a Igreja tentou restabelecê-la com a coroação de Carlos Magno em Roma ou com o papado imperial, que levaria os pontífices romanos a reunir o poder político e a função sacerdotal na sua pessoa, como herdeiros do império.

Nesta nova situação, criada pelo reconhecimento político do cristianismo, não podia permanecer a convivência pacífica das diversas correntes; era necessário eliminar os dissidentes: hereges e cismáticos. Os primeiros dissidentes perseguidos, os donatistas do norte da África, não discordavam na doutrina, mas se opunham à aliança do cristianismo com o poder político; consideravam-se os autênticos herdeiros da Igreja dos mártires e condenavam os que se aliavam ao império, valendo-se da força deste para impor-se nas divergências entre os cristãos. Alguns fiéis optaram por soluções pessoais que não ameaçavam a Igreja hierárquica e eram aceitos por esta, como os amacoretas, que se retiraram para o deserto, ou os monges, que se encerravam em mosteiros para levar vida em comum.

A “oficialização” do cristianismo não deve ser confundida com a cristianização do império, que se produziu a longo prazo e em uma série de etapas. O século IV foi um período de convivência pacífica em que a velha religião continuou a abrir templos, receber subsídios e regular a passagem do tempo com suas festas. Após a fugaz restauração do paganismo por Juliano, a situação começou a ser modificar com Teodósio I, que apoiou o estabelecimento da unidade religiosa através da força: fechou os templos pagãos e condenou os sacrifícios de animais como atos de alta traição.

Apesar das mediadas repressivas, entretanto, os sacrifícios continuariam a ser feitos de forma clandestina. Seriam necessárias perseguições e campanhas militares para acabar com as últimas comunidades pagãs, o que parece não ter acontecido até o século IX (os pagãos tinham, agora, mártires como Hypatia, uma professora de filosofia que foi apedrejada em Alexandria pelos seguidores do bispo). Frente a esta situação, os últimos filósofos pagãos começaram a fugir para a Mesopotâmia, onde estabeleceram uma comunidade que conservou a cultura grega e a transmitiu ao mundo islâmico.

A igreja cristã de Roma não era única. Havia, para começar, a do Oriente, quer dizer, a que seguiu associada ao império (que chamamos de bizantino) e que, depois, esteve associada aos novos poderes que os substituíram: o sultão turco ou os soberanos de cada país nas diversas igrejas nacionais. Houve também uma cristandade asiática muito importante que, no século XIII, se estendia desde o Egito até o mar da China, com núcleos relevantes na Mesopotâmia, Armênia, Cáucaso e Síria, e com conventos na Ásia Central, entre os turcos e mongóis.

A maior das igrejas cristãs asiáticas foi a nestoriana. Sua origem remonta à Igreja persa, que se tornou independente do Ocidente em 424, rompendo seus laços com Bizâncio. Seu chefe, o catholicos, residia em Ctesifonte, porém a atividade missioneira pela rota das caravanas criou comunidades cristãs desde Java até Azerbaijão. Em 1009, os kerait, o maior e mais culto dos povos mongóis da Ásia central, converteram-se ao cristianismo nestoriano. Mais tarde, seriam dominados por Genghis Khan, que respeitava as religiões dos povos que integravam seu império, não faltando, entre seus sucessores, quem mostrasse simpatia pelos cristãos.

Os mongóis foram, durante muito tempo, a grande esperança do cristianismo do Ocidente. Em 1258, organizaram uma cruzada que reconquistou Alepo e Damasco, onde as tropas vencedoras entraram em 1260 com um general nestoriano mongol na liderança, acompanhado de um príncipe armênio e de um cruzado ocidental. Porém, não encontraram apoio nem nos cruzados de Jerusalém nem no papa de Roma, que preferia a aniquilação dos hereges ao triunfo de um cristianismo plural (de forma semelhante, os cristãos do Ocidente permaneceram, mais tarde, indiferentes à tomada de Constantinopla pelos turcos).

Enquanto que se produzia o grande movimento de fechamento e de intolerância que, de 950 a 1250, converteu a Europa numa sociedade repressora (a perseguição aos judeus, a segregação dos grupos minoritários, o estabelecimento da Inquisição e o uso da tortura judicial), iniciava-se uma grande etapa de florescimento das heresias, que culminou nos séculos XII e XIII, durando até o XV. Era uma conseqüência da crise da igreja e da vontade de reforma que haviam surgido entre o clero e entre os fiéis.

Um dos pontos centrais de oposição à hierarquia da Igreja era a pretensão de impor, ao conjunto da sociedade, o monopólio da interpretação religiosa por parte dos clérigos ordenados, reduzindo o fiel à posição de receptor passivo de uma religião que lhe era transmitida exclusivamente pela via oral. Em seu afã por recuperar a pureza do cristianismo primitivo, os críticos da Igreja retomariam diretamente os textos, especialmente o das escrituras. Por mais limitada que fosse a alfabetização, parece claro que a heresia a havia estimulado com as traduções de textos bíblicos às línguas “vulgares”, como as que sabemos que foram feitas em Languedoc, na França ou na Catalunha, no século XIII.

A história destes movimentos chegou-nos na versão dos seus repressores, que ressaltaram os aspectos doutrinais e os ritos que divergiam dos “ortodoxos”, acrescentando-lhes uma carga de maldade diabólica, ao mesmo tempo que omitiam as queixas dos dissidentes contra a Igreja oficial.

Este é, por exemplo, o caso dos cátaros, que têm sua origem no movimento dos bogomilos da Bulgária, onde se podem encontrar elementos do dualismo oriental – a crença de que o mundo está dominado, ao mesmo tempo, por um princípio do bem e um princípio do mal -, mas que foram perseguidos, principalmente, porque propugnavam um retorno da Igreja à pureza e à pobreza evangélicas e porque davam apoio à resistência dos camponeses contra o feudalismo. O catarismo do Languedoc, que influiu fortemente na Catalunha, defendia uma vida simples de trabalho e abrigava crenças mais próximas do patrimônio da cultura popular do que da teologia romana. Oferecia, aos fiéis, sermões e orações na língua vulgar e, o que era mais importante, o exemplo de uma Igreja que não exigia dízimos, nem excomungava, nem matava como fazia a de Roma e que não estava comprometida com os senhores feudais que oprimiam os camponeses. Representava, por tudo isso, uma ameaça à ordem estabelecida, justificando uma cruzada e repressão feroz.

Todos estes movimentos religiosos, que se relacionaram e se entrelaçaram sutilmente até chegar a guerra dos camponeses alemães do começo do século XVI, estão estreitamente associados a levantes sociais que torna-se difícil separá-los. O movimento inglês dos lolardos de Wycliffe coincide no tempo, e em alguns de seus protagonistas, com a grande rebelião de Wat Tyler (a revolta de 1381 que propunha liquidar com o feudalismo). Apesar das perseguições que sofreram, grupos de clérigos lolardos continuaram mantendo sua fé em segredo, sobrevivendo por mais de um século até acabar fundindo-se com o protestantismo. Eram, na sua maioria, manifestações de uma religião de artesãos, pregada diretamente nos círculos que liam a Bíblia traduzida em língua vulgar, como ocorria na Itália e na França com a dos valdenses, um movimento que pode ser qualificado de religião dos laicos.

Os escritos de Wycliffe tiveram relação com o aparecimento, na Boêmia, do movimento dos hussitas, de cujas ramificações, uma, a dos taboritas, fazia propostas radicais de transformação social. Enquanto organizavam-se seis cruzadas contra os hussitas, começavam, na Alemanha, movimentos que tinham um duplo componente religioso e social e que culminaram, em 1524, com o início da guerra dos camponeses e o movimento, duplo e paralelo, da Reforma e da Contrarreforma, que não apenas tendiam à renovação do cristianismo, mas à consolidação da ordem social.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 302-306.

domingo, 3 de novembro de 2013

As religiões de salvação

A religião de Zoroastro, que nasceu no Irã talvez antes de 1000 a.C. (da qual restam, hoje somente 130.000 praticantes, dentre os quais os mais conhecidos são os pársis da Índia) introduziu ideias novas no mundo das religiões: a da existência de um princípio do bem e um princípio do mal que se enfrentam (o que denomina-se, comumente, de dualismo que, através do maniqueísmo, chegará a muitas heresias cristãs) e a crença de que, no fim da vida, há um juízo em que são pesadas todas as ações humanas e que, como conseqüência deste juízo, todos os que merecem têm um céu e os que não, um inferno; ao final do mundo haverá, além do mais, um juízo geral e uma ressurreição. Essas ideias sobre a sobrevivência fantasmagórica dos mortos, passaram ao judaísmo e, através deste, ao cristianismo.



A história do judaísmo é difícil de ser seguida pois os textos em que nos baseamos, denominados pelos cristãos de Antigo Testamento, foram compilados e corrigidos muito mais tarde, entre 600 e 100 a.C. Sua religião tinha, inicialmente, um deus supremo, El, até que os seguidores de Moisés conquistaram a terra de Canaã em nome de um novo deus chamado Jeová, uma divindade da tempestade. O reino de Israel foi unificado por Davi, ao redor de 1000 a.C. e seu filho Salomão construiu, na capital Jerusalém, um templo em honra ao deus supremo Iahvé, o que impedia que também fossem venerados outros deuses até que, em 600 a.C., surgiu o movimento que faria de Iahvé o deus único. A religião dos judeus incorporou as ideias de salvação e de um apocalipse, que seria sucedido por um mundo em paz, somente depois do exílio da Babilônia: as ideias de raiz zoroástrica que se desenvolveram nos grupos de Qumran e entre os cristãos, passando a fazer parte de nosso caudal de crenças. Um aspecto importante da evolução religiosa dos judeus foi a confrontação entre o conservadorismo do clero do Templo e a atuação crítica e renovadora dos profetas.

A derrota da resistência judaica à dominação romana iniciou a longa etapa do judaísmo rabínico em que a religião centrada no estudo do Tora (Bíblia hebraica e, especialmente, seus cinco primeiros livros, o Pentateuco, atribuídos a Moisés) e na oração iria converter-se no signo de identidade e o traço de união das comunidades judias, que reforçaram, por este motivo, a observação dos ritos e das normas jurídicas compiladas no Talmud.

A diáspora, que dispersou os judeus e espalhou sua cultura, dividiu a cultura rabínica em dois grandes ramos, a dos askenazies, no centro e leste do continente e a dos sefarditas, na Península Ibérica, que contribuíram em grande medida para o florescimento místico da cabala que, após a expulsão dos sefarditas da Espanha em 1492, alimentou as correntes de esperança messiânica que culminaram, no século XVII, com o aparecimento, na Turquia, de um homem nascido em Esmirna em 1626, Sabatai Zeti, que se proclamava o Messias esperado, abalando as comunidades judaicas europeias.

Após o fracasso do “sabatismo” – o pretenso Messias foi obrigado, pelos turcos, a converter-se ao Islamismo – as esperanças apocalípticas que ele alimentara conservaram-se em um substrato cabalístico – sabatista que influiu nas duas correntes divergentes do haisidismo piedoso e puritano (nascido na Europa do leste e que tem hoje, seus grupos mais representativos em Nova York) e do “frankismo”, que combinava o gosto por aspectos esotéricos do cabalismo com uma preocupação ilustrada (com personagens como Moses Dobruska, um sabatista que militou com os jacobinos na Revolução Francesa e foi guilhotinado com Danton, em 1794).

No transcurso dos séculos XIX e XX, as correntes modernizadoras conduziram, em grande parte, o judaísmo europeu a uma direção secularizadora que culminara com o sionismo, em que a velha esperança messiânica transformou-se na vontade política da refundação de um Estado de Israel.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 300-301.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

As grandes religiões do Oriente

O hinduísmo é uma das grandes religiões antigas que chegaram até o presente, sendo, também, uma das que apresentam maior diversidade interior. Seus textos sagrados mais antigos, os Veda (“saber”), contêm hinos que datam de, ao menos, mil e quinhentos anos antes de nossa era e se referem aos deuses dos indo-europeus, como o deus do céu, Dyaus Pitar, que é o Zeus dos gregos e o Júpiter dos romanos (o nome provém de uma voz que significa “luz celestial” e deu lugar, também, a nossa palavra “dia”). Porém, o hinduísmo sofreu uma grande transformação com a introdução das ideias da reencarnação, liberação e yoga entre os anos 800 e 400 a.C., numa época caracterizada por um novo conjunto de textos sagrados, os Upanixades ou “ensinamentos secretos”, complementando o corpo inicial dos Veda, escritos numa língua que havia se tornado incompreensível para os fiéis, com textos de uma grande diversidade que vão desde códigos, como as Leis de Manu, até as duas grandes epopéias do Mahabbarata e o Ramayana, ou a vasta literatura dos Puruna, dedicados geralmente a deuses concretos e a seus mitos particulares.

No hinduísmo, havia uma grande multiplicidade de deuses – diz-se que até 330 milhões -, entre os quais se distinguiam três figuras principais – Brahma (o Criador) e suas duas manifestações complementares Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor) – com suas respectivas deusas consortes, concebidas como manifestações pessoais de força criativa (o pensamento indiano considerava a fêmea como ativa e o macho como mais passivo). Os deuses podiam receber diversos nomes (assim Vishnu seria, em diversos “avatares” ou encarnações, Rama ou Krishna) e aparecer em numerosas variações locais, de maneira que o hinduísmo poder ser interpretado como um politeísmo extremo ou como uma espécie de panteísmo que venera, mais que deuses distintos, formas diversas da divindade.


O Budismo se baseia na vida e nos ensinamentos de Siddartha Gautama (século VI a.C.), chamado Buda o Iluminado, que ensinou a forma de superar a miséria da existência e de chegar a um estado de iluminação por meio de um processo de purificação moral e intelectual. O ensinamento de Buda, transmitido de forma oral e recolhido, mais tarde, nos textos da “cesta tripla” ou “tripitaka”, não é, estritamente, uma religião – não contém a ideia de um deus ou ser supremo que controle o universo -, mas sim uma regra de vida que ensina a forma de libertar-se das baixezas e sofrimento da existência indo até à extinção ou nirvana.

O fato em si de que o Budismo não tenha um dogma nem uma autoridade religiosa – Buda não deixou nenhum sucessor pessoal -, ocasionou que sua expansão tenha se produzido de acordo com modalidades diferentes. No Sri Lanka, manteve-se em sua maior pureza o Budismo Theravada, que estabeleceu o que se chamou de um “misticismo sem deus”, no qual se utilizam técnicas de lavagem cerebral semelhantes às dos contemplativos islâmicos ou cristãos para chegar a um estado de libertação pessoal. Na Índia, ao contrário, desenvolveu-se, a partir do século VII de nossa era, o chamado Budismo Vajrayana ou Mantrayana, que poria a ênfase em ritos mágicos e sacramentais e na recitação de “mantras” ou fórmulas sagradas. Esta modalidade, que na Índia foi assimilada gradualmente pelo hinduísmo (o que explica que o Budismo acabou ali), foi a que se difundiu no Nepal e no Tibete, onde após o enfrentamento armado entre duas facções religiosas, acabou constituindo uma teocracia que destituiu a monarquia, dando o poder político e religioso aos 14 Dalai Lamas que foram se sucedendo, desde Gedun Truppa (1391-1475) até Tenzin Gyatso (nascido em 1935). A expansão pela China, Vietnã, Coréia e Japão fez com que o Budismo se associasse, nesses países, a outras tradições religiosas, dando origem a correntes originais, como o zen japonês.

A China é descrita, geralmente, como “a terra das três religiões”, referindo-se ao confucionismo, ao Taoísmo e ao Budismo. Entretanto, o confucionismo não é propriamente uma religião, mas uma norma social e de conduta, ainda que inclua manifestações de culto, especialmente aos antepassados. Não tem dogmas, nem clero, nem templos, nem monastérios, o que explica que seja confundido com a cultura tradicional chinesa. O Taoísmo religioso, que não deve ser confundido com o filosófico, é uma religião popular com uma hierarquia clerical, liturgia, textos sagrados e um panteão de deuses santos. Não tem uma organização nem um credo unificados, mas apresenta uma espécie de federação de comunidades, em sua maior parte laicas, que tem especial importância em Taiwan e em Hong Kong. O Budismo, que se difundiu na China a partir do século II de nossa era, o fez através de variantes ecléticas, próximas da prática do Taoísmo. A religião popular, o que melhor se pode qualificar como “religião chinesa”, formou-se com um conjunto de ideias e de práticas provenientes tanto do Taoísmo, como do Budismo e da “religião do Estado”, convencionalmente denominada de confucionismo (uma combinação normal seria, por exemplo, a de tomar as normas do confucionismo como guia da vida cotidiana, recorrer ao Taoísmo para os ritos de purificação e dos exorcismos, e ao Budismo, para a celebração dos funerais).

Resta, ainda, o xintoísmo japonês, que não é outra coisa do que um amálgama de religiões tradicionais anteriores à chegada do Budismo, tendo vivido longamente associado a este, já que a doutrina e o culto xintoísta eram compatíveis. A restauração Meiji de 1868 quis convertê-lo em uma religião nacional, unida ao culto do imperador, porém teve que acabar aceitando a coexistência das “três religiões” (xintoísmo, Budismo e cristianismo) e perseguindo as seitas extremistas e as novas religiões. Apesar do imperador ter sido “desdivinizado” em 1945, como conseqüência de sua derrota na Segunda Guerra Mundial, os japoneses continuam participando das festas e dos ritos xintoístas, como se fossem atos de uma cultura que lhes é própria.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusc, 2000. p. 295-298.