"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Cordel tupiniquim

O derrubador brasileiro, Almeida Junior


Pindorama terra índia sagrada
pisada
[por Cabral] tomada
[em nome do rei de Portugal] cruz fincada
missa rezada
colonizada
[por gente] degredada
terra plantada
[por gente] escravizada
[gente de arco e flecha] despojada...

Capitães-donatários
erguem vilas
 ricas
 para colonos
frias
 senzalas
 para escravizados
constroem engenhos
trabalhados
por negros
vigiados
                                      sob chicote dos feitores
             levantam casas-grandes
 para senhores
                                              capelas para padres...

Governadores-gerais fincam pelourinhos
[ouve-se burburinhos]
                          para humilhantes castigos.

                “Homens-bons” cobram tributos
injustos
                                 fazem ”guerras justas”
                                                          injustas
                                aos “negros da terra”!

                                         Capitães-do-mato
                     caçam negros fugidos do eito.

              Bandeirantes vergam Tordesilhas.
                     À procura de pedras preciosas
            caçam índios nas missões jesuíticas.

Piratas
e corsários assaltam feitorias
 e vilas.

                             Conjurados mineiros
Conjurados baianos
                          Quantos sonhos enforcados!
                             Tantos sonhos abortados!
             Colônia de casas-grandes e senzalas.
Libertas quae sera tamen.

                       Rio dos vice-reis civilizado
           [pela Corte portuguesa] sifilizado!

Pedro, espada em riste
                             resiste
     Brasil independente.
  - Onde estava o povo?
                   Índios massacrados
                     Negros escravizados
   (In) dependência... para quem?

                Farrapos
                 cabanos
                   balaios
                  sabinos
   malês - escravos
      pobres diabos!
Milícias da Guarda Nacional os massacram!

            Soldados de Caxias atravessam espadas
afiadas
                              nos ventres
                                                           das mulheres
paraguaias.
 Muero con mi Patria!


Aos trancos
e barrancos
imigrantes
 europeus
singram
o Atlântico
trazendo
na bagagem
sonhos
libertários.
Siamo tutti buona gente.

                                     Escravos resistem
                             abolicionistas insistem
                                              abolição vem
     cidadanias negadas ex-escravos tem.
Heranças sombrias!

Exército rebela-se!
     Igreja tolera-se!
           Império de sobrados
e mocambos.
República volver!

                     Deodoro saca a espada.
A massa assiste a cena bestializada:
                               - Era uma parada?

O Rio civiliza-se:
    “Bota-abaixo”!
Povo marginalizado.
Vacina obrigatória.
 Queimam-se bondes!

   Chibata no lombo dos negros
Capoeiras perseguidos
Terreiros invadidos
Sangue na Guanabara!

Conselheiro profetiza:
“o sertão virará um mar de sangue”.

Padim Ciço abençoa
cangaceiros
coronéis
jagunços.

Sertanejos de terras contestadas.
Virgens violadas.

Entre mandacarus
 vagueiam cangaceiros.
                                          Roubam dos ricos.
                           Alimentam os necessitados!

Jagunços armados
garantem votos
 de cabresto
para coronéis poderosos.

Café-com-leite oligárquico:
          artistas se revelam
              tenentes se rebelam.
Antropofagia pau-brasil
 na terra de Macunaíma!

                               O DIP censura
 o Estado Novo tortura.

Graciliano Ramos escreve memórias no cárcere.
Olga agoniza no campo alemão da morte.

                                                                                                                   sorri J uscelino
                                                                                                     renuncia J ânio
                                                                                                      depõe-se J ango
                                                                                                  
Congresso [fechado]
Comunistas [presos]
Artistas (exilados)
Tempos difíceis!

Nos # porões #da ditadura
 carrascos TORTURAM
                arrancam
          confidências
                                                     inconfidenciáveis

                                                                                                          Matam em nome da      
                                                                                                                Tradição
                                                                                                              Família
                                                                                                                       Propriedade


Araguaias
      Caparaós
                                                      guerrilhas libertárias
utopias massacradas!

                                O povo toma as ruas:
                                    - Diretas-Já!

Faz-se constituinte
 prostituinte
        Constituição
 prostituição.

  Jovens caras-pálidas-pintadas
            d’almas lavadas
                 palafitadas.

        Índios
violados
jovens negros pobres
favelados
massacrados
pelas polícias truculentas dos estados

Brasis
de palacetes
cacetes
cassetetes
gentes
sofridas e resistentes!


© 2016 by Orides Maurer Jr.

MAURER JR., Orides. O olhar do historiador: vidas cotidianas. Curitiba: Liberum, 2016. p. 119-125. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

"Brasil" ou "América Portuguesa"?

Mapa de 1565 feito pelo cosmógrafo Giacomo Gastaldi, em que o território já é chamado de Brasil.

Quando nosso país foi descoberto, ele recebeu diversos nomes. O primeiro foi "Ilha de Vera Cruz", porque o achamento foi feito por uma expedição patrocinada pela Ordem de Cristo, cujas bandeiras ostentavam a Cruz de Malta. Por volta de 1505, quando se viu tratar de algo maior, o território passou a ser chamado de "Terra de Santa Cruz", nome que constava de mapas confeccionados nos primeiros anos. Por essa época, alguns portugueses se lembraram de uma lenda medieval a respeito de uma ilha que teria sido descoberta por São Brandão, nomeada de "Brasil", e relacionaram-na com a descoberta de Cabral. O encontro de uma madeira que produzia uma tinta vermelha muito útil para tingir tecidos, o pau-brasil, consagrou no imaginário popular europeu o nome "Brasil", que daí em diante passou a ser empregado nos mapas da primeira metade do século XVI. Um mapa resgatado por um historiador, por exemplo, já usa o nome "Brasil" em 1514.

A expressão "América Portuguesa" servia para distinguir as terras consideradas portuguesas do nome geral do continente, "América", porque esse sugeriria o direito de posse espanhola, mas foi pouco utilizado na época, bem menos que "Brasil". Assim, consideramos o termo "Brasil" mais adequado para contar a história referente a esse território e seus habitantes.

MESGRAVIS, Laima. História do Brasil colônia. São Paulo: Contexto, 2015. p. 12-13.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 1 - Introdução]

"Não é das menores desgraças o viver em colônias."
Luís dos Santos Vilhena, 1801

"O viver no sertão [...]. Não há um homem capaz, e de probidade, que se queira sujeitar a viver nos sertões no meio de gente tão bruta [...]. A desordem nesta terra está já tão arraigada que até parece ser necessário deixá-la continuar no mesmo estado, assim como a um enfermo já muito arruinado. [...]."
José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, 1799

Feitor punindo escravo, Jean-Baptiste Debret 

Quando os europeus se estabeleceram no continente americano, trouxeram não só suas instituições mas também a religião católica, e impuseram seu rei e suas leis. Apesar disso - e a despeito dos mais de três séculos em que se formou a sociedade colonial -, os habitantes do Estado-nação que veio a ser chamado Brasil continuaram a diferir em tudo dos europeus. Em contrapartida, estes incorporaram elementos nativos e adaptaram suas leis e costumes a uma nova realidade, criada em situação colonial, que alterou profundamente a vida dos habitantes livres e escravos do Brasil. E que resultou no surgimento de uma cultura própria.

No fim do século XVIII, o que era o Brasil? No início desse século, segundo o provérbio registrado pelo jesuíta Antonil, "O Brasil é inferno dos negros, purgatório dos brancos e paraíso dos mulatos, e das mulatas". No apagar de suas luzes, o diagnóstico do jesuíta ainda se aplicava à realidade brasileira. Pois foi diante de um pano de fundo como este que os habitantes da colônia desenvolveram e aprofundaram formas de relacionamento e comunicação específicos, fossem eles brancos, negros, indígenas ou mestiços. Todas permeadas pelo escravismo, pela brutalidade física e moral, sob o olhar vigilante do senhor de engenho, tal como o descreveu Gilberto Freyre em seu clássico Nordeste:

"Impossível imaginá-lo - a esse centauro - fora da rede patriarcal, sem ser o homem a cavalo, chapéu grande, botas pretas, esporas de prata, rebenque na mão, a quem a gente dos mucambos tomava a bênção como a um rei. Do alto do cavalo é que este verdadeiro rei-nosso-senhor via os canaviais que não enxergava do alto da casa-grande: do alto do cavalo é que ele falava gritando, como do alto da casa-grande, aos escravos, aos trabalhadores, aos moleques do eito. O cavalo dava ao aristocrata do açúcar, quando em movimento ou em ação, quase a mesma altura que lhe dava o alto da casa-grande nas horas de descanso."

Além disso, os colonos também criaram novas formas de resistência à opressão proveniente da metrópole e do governo do Vice-Reinado.

A conquista do interior ampliara e diversificara a sociedade por todo o território, cujas fronteiras delineavam-se agora com menor imprecisão. E novas formas de mandonismo e de violência firmavam-se onde a lei, per se autoritária, não alcançava.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 231-2.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Monumento às Bandeiras

Monumento às Bandeiras, Víctor Brecheret

O Monumento às Bandeiras, localizado ao lado do Parque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo, é uma obra de Victor Brecheret (1894-1955). Foi inaugurada em 25 de janeiro de 1953 para comemorar o aniversário da fundação da cidade, embora tenha sido planejada trinta anos antes. Com 12 metros de altura, 50 de extensão e 15 de largura, representa uma expedição bandeirante subindo um plano, com dois homens a cavalo.

Podemos entender o sentido primordial do monumento observando os elementos que o constituem. Dois homens montam cavalos. Uma das imagens representa o chefe português, e a outra, o guia índio. Atrás deles, há um grupo formado por índios, negros, portugueses e mamelucos, que empurram um grande barco, usado pelos bandeirantes nas expedições pelos rios.

As raças podem ser identificadas por detalhes nas estátuas: os portugueses apresentam barba; as figuras nuas, com uma cruz ao pescoço, são os índios catequizados. Orientada em direção ao sertão, a grande escultura representa movimento desbravador: a saga dos bandeirantes. Assim, por associação, esse grupo, constituído por desbravadores portugueses, índios e escravos, é fundador da ordem que deu origem à cidade.

Esse elogio foi esculpido por um modernista, ou seja, um artista engajado no Movimento de Arte Moderna, que em 1922 projetou São Paulo no cenário artístico e cultural brasileiro. A Semana propunha uma arte que não fosse mera reprodução da natureza, como a que buscava o neoclassicismo, mas que resultasse de uma liberdade de pesquisa estética, deixando entrever uma tomada de consciência da realidade nacional.

Hoje podemos questionar a visão sobre a fundação da cidade evocada pelo monumento. O artista valorizou positivamente a atuação dos bandeirantes e não considerou o fato de ela ter significado a exploração e a submissão de índios e negros. O monumento elogiou a valentia, a coragem e o heroísmo, mas pode guardar também a memória de seus opostos: a ordem da cidade fundou-se na violência, na injustiça e na exploração.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 452.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Nações e etnias atribuídas aos africanos escravizados

Escravas negras oriundas de diversas tribos africanas trazidas para o Brasil, Jean-Baptiste Debret

Agrupadas no que os colonizadores portugueses chamaram de minas, cabindas, congos, cassanjes, angolas, benguelas e moçambiques, entre outras designações, estavam pessoas vindas de várias aldeias ou reinos, e falantes de línguas diferentes, apesar de terem alguma semelhança entre si. Mas os comerciantes, administradores coloniais e senhores que punham os escravos para trabalhar não percebiam as diferenças entre os africanos, identificando-os principalmente a partir do porto em que foram embarcados (como Cabinda), da principal feira em que foram comprados (como Cassanje), ou do nome da região onde esses pontos de comércio se encontravam (como Angola).

Mas ao lado desses nomes que identificavam nações, juntando num mesmo grupo pessoas vindas de sociedades diferentes, também apareciam nomes referentes a grupos culturais particulares, como ambundos (habitantes do reino de Dongo), anjicos (como eram chamados pelos portugueses os habitantes do reino Tio), ardas (do reino de Alada) ou hauçás (das cidades-estado do Sudão central). Além dos nomes de nação, atribuídos pelos colonizadores e geralmente adotados pelos africanos, e dos nomes de etnias, que sobreviveram à travessia do Atlântico e continuaram sendo usados na América, havia ainda os nomes criados no Brasil para designar povos com língua, religião ou costumes semelhantes. Assim, malês era o nome dado aos africanos islamizados do Sudão central e ocidental; nagôs eram os iorubás da região do reino de Oió e das cidades-estado costeiras e jejês os que habitavam mais a ocidente, na região do reino de Daomé.

Nomes de nações ou de etnias são sempre formas de atribuir uma identidade particular a um grupo, indicando que ele tem tradições, maneiras de se comportar, de pensar e de falar que lhe são próprias e o distinguem dos outros. Aos poucos diminuíram as diferenças entre os vários africanos escravizados trazidos para o Brasil, onde passaram a conviver entre si e com os senhores de ascendência portuguesa, surgindo então uma cultura afro-brasileira, em que as diferenças étnicas ficaram em segundo plano.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 62.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A questão indígena na América 4: Política de "pacificação" e projetos de integração no Brasil

Índios Munduruku, Hércules Florence

"Branco é pessoa muito triste. Talvez por isso ele faça tanto mal". (Mário Juruna, Cacique xavante)

Em 1808, dom João VI assinou uma carta régia autorizando a "guerra justa" contra os botocudos, nome pelo qual eram conhecidos os Aimoré desde o século XVIII. Pertencentes ao grupo linguístico macro-jê, os Aimoré eram nômades e viviam na região correspondente à dos atuais estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Os botocudos e os Puri eram considerados os principais obstáculos ao avanço de colonização portuguesa, uma vez que, desde 1760, combatiam bandeirantes e colonos que tentavam se instalar na área controlada por eles. Por essa razão, eram constantemente perseguidos e mortos pelos colonizadores, com o aval do governo.

Sobre os botocudos, nessa época, circulavam lendas e imagens que os representavam como ferozes e cruéis, o que colaborava para o temor e o ódio dos colonos a esses povos. Entre 1808 e 1821, várias expedições foram enviadas para combatê-los. Em contrapartida, também crescia o número de alianças e acordos entre indígenas e descendentes de europeus.


Família de Botocudos em marcha, Jean-Baptiste Debret

Vários parlamentares defendiam a conversão dos indígenas ao catolicismo a fim de transformá-los em trabalhadores e súditos. Para isso, foi fundada em 1830 a Sociedade de Catequese e Civilização dos Índios. Em 1831, após o imperador dom Pedro I abdicar do trono, o Senado iniciou uma série de debates sobre a questão indígena, que resultaram, nesse mesmo ano, na proibição das guerras justas e na revogação da Carta Régia de 1808.

Para a "pacificação" dos indígenas por meio da catequese, a partir de 1843, o governo patrocinou a vinda de frades capuchinhos da Itália. A adoção dessa política contava com o apoio de intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838. Em sua publicação oficial, a Revista do IHGB, defendiam a aculturação do indígena e sua utilização como mão de obra.

Essa política governamental foi formalizada, em 1845, com a publicação do Regulamento acerca das missões de catequese e civilização dos índios. O governo previa a reunião dos indígenas em missões ou aldeamentos oficiais controlados pelos capuchinhos. Tais instalações seriam gradativamente desfeitas e transformadas em vilas, paróquias ou freguesias quando os indígenas estivessem catequizados. Nessa etapa, as famílias indígenas receberiam lotes de terra, abandonando seu modo de vida comunitário, seus costumes e seus valores, a fim de se tornar "civilizados".

Com a chegada dos capuchinhos, os botocudos foram "pacificados" e transferidos para aldeamentos oficiais, em geral próximos a povoados. No entanto, os indígenas não se limitavam a ocupar as terras previamente demarcadas. Muitas vezes, insurgiam-se contra os religiosos por estes manterem crianças sob sua tutela, nas escolas de internatos. Em 1893, ocorreu um levante de cerca de 700 indígenas, no aldeamento de Itambacuri, em Minas Gerais. Boa parte dos rebeldes foi perseguida e morta.

No sudeste do Brasil, a expansão da cafeicultura e das ferrovias promoveu o extermínio de vários povos. Durante o Segundo Reinado, além dos botocudos, foram objeto da perseguição governamental grupos como os Kaingand (que ocupavam áreas do sul e do sudeste), os Mura e os Munduruku (que viviam na Amazônia), os Kayapó (habitantes da fronteira entre Minas e Goiás) e, já na Primeira República, os Guajajara (que viviam no Maranhão), por dificultarem o processo de expansão e a instalação de missões, latifúndios e povoados.

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 215-217.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Eleições do ódio

Por Orides Maurer Jr.*

Proclamação da República, Benedito Calixto

“Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.”
(Eduardo Galeano)

Pela primeira vez na história política da sociedade brasileira uma eleição presidencial deixou marcas profundas de ódio, rancor e acirrou os ânimos de toda a sociedade. Por que? Porque nossa tão cantada “democracia” é mero palavrório. A ditadura militar implantada em 1964 e parcialmente finalizada em 1985 foi um momento histórico onde as massas – depois das manifestações pró-Diretas-já - foram alijadas de toda participação popular. As primeiras eleições para presidente pós-ditadura ocorreram ainda através do voto indireto dos congressistas e muito do entulho da legislação anti-democrática permanece, incluindo práticas de tortura.

Historicamente, nosso país se “uniu” para manter as fronteiras nacionais, mesmo tendo alijado de suas terras os povos indígenas, massacrado comunidades quilombolas e pobres. Hoje vemos ressuscitarem movimentos nazi-fascistas como ‘O SUL É MEU PAÍS”, “A RAÇA PAULISTA” e assemelhados sem fundamentação científica, meras cópias de uma das ideologias mais trágicas da história da humanidade. Pobre país o nosso. Continuamos a pagar um preço alto em termos civilizatórios por temos tido uma ditadura que estuprou, torturou, matou e massacrou uma sociedade inteira em nome da ideologia da “ordem e do progresso”.

Temos uma formação étnico-cultural de várias matizes: indígenas, africanas, europeias e, mais recentemente, asiáticas. Formação essa que, em toda a história brasileira, sempre foi escravizada, vilipendiada e manipulada pelas elites.  Na Colônia eram os portugueses; no Império, os britânicos; e na República, os norte-americanos, os europeus e os interesses de todos os bancos internacionais, do agro-negócio, mídias podres e partidos políticos que defendem todos os interesses dos grupos citados.

E as eleições de outubro de 2014 trouxeram à tona a questão do “outro” e os velhos ódios conhecidos em outras plagas que aqui também se aportaram e ganharam força nessa disputa eleitoral. Veja-se, por exemplo, a atual composição político-partidária do Congresso eleito: é o mais conservador e fundamentalista em toda a história republicana, com pautas que colocam o país fora da rota do mundo civilizado.

E, somando-se a todos esses fatores, continuamos vivendo e nos aprofundando numa crise ética que vem desde os tempos coloniais, com escândalos de corrupção, crise sócio-econômica, resultado de um modelo imposto pelos donos do capital internacional que não visa dar conta aos anseios de antigos e novos movimentos sociais e populares.

Um quadro de confronto – sem visão crítica da verdadeira história brasileira - é extremamente perigoso para o esfacelamento de toda a sociedade. A história já demonstrou que todas as sociedades que passaram por uma guerra civil ficaram com feridas abertas até o presente. Um exemplo clássico é a Guerra Civil Norte-Americana, ocorrida na segunda metade do século XIX, cujas sequelas ainda se fazem presente no país que é considerado uma democracia estável e uma das potências mundiais.

Um pequeno grupo fundamentalista, racista, homofóbico, misógino coordena e insufla multidões através das câmaras legislativas estaduais e federais e senado, de seus púlpitos, de suas redes de rádio e TV, jornais, panfletos, revistas, redes sociais... e, por termos uma sociedade manipulada, com pouco grau de senso crítico – haja vista que a própria população não reivindica uma Educação pública de qualidade -, e do mesmo modo para outras questões (saúde, segurança),  acaba buscando refúgio e aceitando as “mentiras” que parecem “verdades”.

Aí mora o perigo. O perigo de jogar irmão contra irmão, Estado contra Estado, levando a uma guerra generalizada e de consequências catastróficas para toda a sociedade, acirrando ainda mais os ânimos. Há outras soluções possíveis. E a principal passa pelos interesses de toda uma sociedade e não de políticos – e partidos, instituições... – com interesses pessoais.

Uma sociedade justa, humana, fraterna, solidária deve ser a meta de todo povo brasileiro. Não podemos ficar brigando por motivos vaidosos e mesquinhos. O grande inimigo da nação não é a PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. São os grupos acima citados que governam o país através de seus representantes políticos. A maioria deles eleita pela população. O que fazer? Apenas destituir um Presidente é a solução? Vide o último presidente deposto: Collor.

Por sermos um país de dimensões continentais e de formação étnico-cultural tão diversa e falarmos a mesma língua deveríamos ser o grande exemplo de democracia e convivência pacífica e solidária para o mundo civilizado. E não o contrário.

Que a história seja passada a limpo!

Que prevaleça o bom senso!


* Orides Maurer Jr. é historiador e autor dos blogs "História e Sociedade" e "Private Life".

sábado, 31 de janeiro de 2015

O espírito do Santo Ofício da Inquisição continua?

[...]


Durante três séculos, o Estado e a Igreja privaram o colono luso-brasileiro da livre crença e da liberdade de consciência, mantendo a colônia sem imprensa, sem universidade, sem ciência, sem novelas, sem arte e sem livros, a não ser aprovados pela Igreja. Foi a Inquisição responsável pela estagnação intelectual da vida colonial, centrando em torno da Igreja, da missa, do sermão, das procissões, todas as diretrizes da vida, e incutindo uma obsessão pelo sentimento de pecado, que marcou todos os homens com o estigma da culpa. [...]

Condenados pela Inquisição, Velázquez

Apesar de todas as promessas de punição, a Inquisição não conseguiu fazer calar as inquietações, a solidariedade e a busca de novas mensagens, e as heresias se propagaram por toda a América. As mais autênticas expressões de fé, não oficiais, permearam toda a história colonial, desaguando algumas fortes, outras apagadas, no próprio século XX.

A América colonial foi vítima da repressão, de perseguições, de extermínios. As políticas totalitárias da Espanha e de Portugal, que anteciparam cinco séculos os totalitarismos do século XX, não podiam reconhecer e tolerar diferenças de pensamento e de fé, uma vez que havia interesses econômicos envolvidos.

Mesmo sem sucesso, milhares de portugueses e espanhóis lutaram, silenciosos, num campo de batalha, espremidos entre um poder absoluto e um universo impregnado de fanatismos, superstições e crendices. A resistência dos colonos conversos, dos índios, dos negros, dos hereges e dissidentes à imposição forçada da religião, dos valores, dos costumes, foi calada e clandestina. Os hereges Garcia da Orca, Antonio José da Silva, Padre Antonio Vieira, Juan de Vives, Frei Luís de Leon, Fernando Rojas e tantos outros foram a verdadeira glória de Portugal e da Espanha, e não seus religiosos, guerreiros e governantes.

O recrudescimento em nossos dias dos nacionalismos, do antissemitismo, dos ódios raciais, dos antagonismos religiosos, da xenofobia, mostra que, apesar de todo o progresso técnico, os homens ainda carregam consigo, viva, a herança destrutiva do passado.

[...]

O Tribunal da Inquisição, Goya

O Santo Ofício da Inquisição, que queimou Giordano Bruno ¹ e perseguiu Galileu ², passou a denominar-se Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Esta Congregação advertiu e puniu numerosos teólogos contemporâneos, que têm questionado diferentes aspectos da doutrina católica e a infalibilidade da Igreja.. Todas as medidas restritivas receberam a aprovação do papa João Paulo II.

¹ O que era semente faz-se erva, e do que era erva faz-se a espiga; do que era espiga faz-se o pão, do pão quilo, do quilo sangue, deste semente e desta embrião, deste homem, deste cadáver, desta terra, desta pedra. (Giordano Bruno, Diálogos)

² A filosofia está escrita neste imenso livro que se nos abre continuamente diante dos olhos (quero dizer o universo), mas não podemos entendê-lo, se antes não aprendermos a compreender a língua e a conhecer os caracteres nos quais está escrito. Está escrito em língua matemática, e os caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas, sem os quais meios é impossível entender humanamente qualquer palavra sua; sem eles é um inútil vagar por escuro labirinto. (Galileu)

Os principais teólogos acusados de heresia foram Edward Schillebeeckx,  professor de Teologia da Universidade Católica de Nijmaegen, Holanda, e Hans Küng, professor de Dogma e Teologia Ecumênica da Universidade do Estado, Tubingen, Alemanha. No Brasil foi acusado e punido o teólogo Frei Leonardo Boff.

Desde 1957 Hans Küng entrou em choque com o Vaticano, por ter posto em dúvida a infalibilidade da Igreja e criticado a debilidade da doutrina papal sobre o controle da natalidade. Küng acredita que a Igreja "devia aprender por seus próprios erros". Chamado a Roma em 1971, para justificar as suas ideias, respondeu que só iria se pudesse ver todo o seu processo e escolher seus próprios advogados. A Congregação recusou. Nessa atitude vemos a repetição do procedimento da Inquisição ibérica, na qual os réus não tinham conhecimento do seu processo e os únicos advogados admitidos eram homens internos da Inquisição. O próprio Küng acusou os membros da Congregação de agirem de acordo com o espírito da Inquisição. Küng também foi punido por dizer que a ressurreição não podia ser um acontecimento histórico, a virgindade de Maria era uma lenda, que não se devia identificar Jesus com Deus e que Jesus nunca se intitulou Messias. O próprio papa João Paulo II, em 18 de dezembro de 1979, declarou que Hans Küng, nos seus escritos, afastou-se da verdade integral da fé católica e portanto não podia mais ser considerado um teólogo católico, nem atuar como tal num papel de professor.

Os crimes contra a moral, que foram sempre preocupação central da Igreja, e deram motivo à constante pela Inquisição espanhola e portuguesa, também recebem atualmente, da Congregação para a Doutrina da Fé, um especial interesse. Autores como o reverendo Charles Curran, professor de Teologia Moral da Universidade Católica de Washington, D.C., autor de Sexual and Medial Ethics e Tradition in Moral Theology (Notre Dame University Press, 1978 e 1979, respectivamente), o jesuíta John J. Mc Neill, autor da obra The Church and the Homossexual (Sheed, Andrews and McMeel, 1976) e o reverendo Anthony Rosnik, coautor de Human Sexuality: New Directions in American Though (Paulist Press, 1977), foram seriamente advertidos e criticados pela Congregação.

Os pensadores religiosos estão divididos hoje, como estiveram divididos durante a Inquisição ibérica.

NOVINSKY, Anita. A Inquisição. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 7-9, 103-5. (Coleção Tudo é História, 49).

sábado, 3 de janeiro de 2015

Saberes milenares: o peso da herança indígena na sociedade brasileira

Cabeça de índio, Henrique Bernardelli

O português que veio ao Brasil era um lavrador desvinculado de suas raízes. Deixara na aldeia europeia seus campos de cultura e seus rebanhos, a família e a comunidade, cujo consenso lhe pautava a vida. Nenhuma lealdade o ligava  à nova terra. Vivia como um estranho junto a um povo com que não se identificava e diante do qual não se sentia moralmente obrigado, senão quando compelido por uma força externa, como a Igreja ou o Estado. A distância cultural que separava o colonizador do habitante nativo era imensa. No Brasil não encontrou nenhum dos frutos que conhecia, nenhum animal doméstico a que estava habituado. As técnicas de cultivo da terra a que estava afeito não se aplicavam à floresta tropical.

A superioridade numérica do índio em relação aos minguados contingentes que vinham nas caravelas era avassaladora. Assim, apesar de toda a sua potência guerreira e técnica, os colonialistas tiveram de aprender com eles a viver nos trópicos, a cultivar seus frutos, a comer suas raízes e paulatinamente a criar nichos que começaram a atuar sobre os índios em torno. A esse processo de chamou a tupinização do português no Brasil, por ser a etnia Tupi a prevalecente no litoral, à época da descoberta.

Meio século depois, já se tinham formado na costa alguns núcleos de população que representavam uma primeira combinação, ainda que desordenada, de uma cultura europeia com uma cultura tribal. Na concepção de Darcy Ribeiro, seriam a “protocélula da etnia brasileira”, que conformariam o que se chama hoje “a cultura rústica brasileira”.

As aldeias da costa, que serviam de feitorias para dirigir o comércio do pau-brasil, tiravam sua subsistência por métodos antes desconhecidos ao europeu, falavam uma língua indígena, o Tupi, e viam o mundo com olhos diversos. Estes núcleos que se uniram primeiro pelo mar, como se fossem ilhas, depois por terra, é que viriam a constituir o Brasil. Já continham os traços essenciais que caracterizariam o perfil do povo brasileiro: não eram europeus e não eram índios. Aquelas protocélulas tinham a solução de sobrevivência do europeu no trópico: produziam um produto de exportação, o pau-brasil, que lhes garantiria as mercadorias europeias de que necessitavam e da própria terra retiravam as fontes de subsistência.

Já nessa fase, o índio era compelido, cada vez mais, a servir como mão de obra escrava à sociedade de cujos ideais não participava. Até que se tornou obstáculo, porque reteve terras que eram cobiçadas, porque sua hostilidade punha em perigo a vida do invasor e porque a necessidade crescente do escravo e do guerreiro levava o colono a um depoimento cada vez mais exacerbado. A inadaptação do índio ao regime de vida e de trabalho do engenho canavieiro obrigou ao afluxo do escravo negro, dando nova dimensão às “protocélulas” iniciais. Segundo Darcy Ribeiro:

“Os conformadores fundamentais destes núcleos foram a escravidão, como forma de contingenciamento da mão de obra e o sistema de fazendas, em que cada novo núcleo foi estruturado.”

A história do Brasil será daí por diante a aventura desses núcleos pioneiros da Bahia, de Pernambuco, do Rio de Janeiro e de São Paulo em sua luta para não indianizar-se ao mesmo tempo em que se armavam de preconceitos contra os índios.

Dentre os muitos legados indígenas à sociedade que foi constituída em seu território, o mais importante foi, sem dúvida, o do seu sangue e genes. Desde a primeira hora, a mulher indígena foi o ventre em que se gerou a população que ocuparia o imenso território conquistado. Diogo Álvares, ou Caramuru, na Bahia, João Ramalho, em São Vicente, mais tarde, Jerônimo de Albuquerque, ele próprio um “meio-sangue”, em Pernambuco, passaram à história como alguns dos muitos exemplos de uniões poligâmicas de que resultaram os primeiros mamelucos, filhos de pais portugueses e índias. Mamelucos esses que, embora falando a língua materna, alimentando-se da mesma forma que seus antepassados aborígenes, identificavam-se ideologicamente com o pai.

Sinal de batalha de índios Botocudos (Bororos), Jean-Baptiste Debret

As expedições de caça ao índio e de procura do ouro, empreendidos pelos paulistas, eram compostas, em sua maioria, por mamelucos e índios recrutados nas aldeias missionárias. Durante muito tempo, paulista foi sinônimo de mameluco. Mamelucos foram os mais notáveis bandeirantes, como Domingos Jorge Velho, destruidor de Palmares que, para parlamentar com o bispo de Pernambuco, em 1697, precisou levar intérprete. Sérgio Buarque de Holanda, a quem devemos essa informação, menciona alcunhas de paulistas ilustres de origem Tupi, sustentando que

“Sinal, talvez, de que ainda em pleno Setecentos persistia, ao menos em determinadas camadas do povo, o uso da chamada língua da terra.”

Até o século XVIII, segundo o mesmo autor, nas capitanias onde atuaram os jesuítas (São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará, Amazonas), a língua da terra predominava sobre o português, principalmente no âmbito familiar, na proporção de três falantes para um. Em São Paulo, os velhos ainda se expressavam em língua geral no começo do século XIX, como notou Hércules Florence, e no rio Negro isso ocorre até hoje.

Mais tarde, a composição da população se modificou. Chegaram mulheres brancas, acirrando-se o preconceito contra a nativa. As uniões regulares, antes incentivadas pela legislação colonial, foram sendo desmerecidas, estancando a entrada de genes indígenas. Já então o português podia prescindir do índio porque tirara dele o fundamental: a fórmula de sobreviver nos trópicos, a aprendizagem de seu método de plantio e as próprias plantas que cultivava, bem como a forma de prepará-las e consumi-las. Também obtivera dele a força de trabalho como escravo, substituído pelo negro nos empreendimentos mais lucrativos; sua combatividade de guerreiro para defendê-lo contra grupos hostis e o invasor estrangeiro; os seus conhecimentos da terra, como guia e como geógrafo. E da mulher indígena, a sensualidade, a servilidade e a fecundidade.

Em razão da ampla extensão territorial em que se implantou a tradição cultural Tupi-guarani – que aproximadamente corresponde ao traçado do mapa do Brasil – foi possível imprimir um perfil uniforme à sociedade brasileira.

Sinal de retirada de índios Botocudos (Bororos), Jean-Baptiste Debret

De então até nossos dias, esse, lastro aborígene da cultura brasileira, sobretudo de base Tupi-guarani, conserva-se em grande parte do Brasil interiorano. Isso pode ser observado pela facilidade com que o sertanejo nordestino, o caiçara paulista, ou, mais propriamente, o caboclo amazônico encontram elementos culturais que lhes são familiares num contexto tribal. Para todos, a base da alimentação é a farinha de mandioca, cultivada e preparada pelos mesmos processos. Na casa indígena encontram vários utensílios domésticos que lhes são familiares, chamados pelos mesmos nomes: o tipiti para espremer o sumo da mandioca brava, o pilão, o ralador, a peneira, os balaios, os abanos, as esteiras trançadas de palha; os jacás, samburás, jamaxis, aturas, para trazer peixe, castanha ou produtos da roça. Reconhecem inúmeros implementos de pesca: o pari, que é a barragem para fechar o igarapé e atrapar o peixe; o juquiá ou covo, que é a armadilha crônica; cacuri, curral para peixe, tracajá ou tartaruga; o puçá, a tarrafa e o jererê, espécies de redes; a pesca com linha e anzol (hoje de aço, antes de fisga de osso) e pelo envenenamento dos peixes com certas folhas saporáceas, como o timbó. Do mesmo modo, são familiares ao caboclo e ao sertanejo certos tipos de embarcação como a ubá escavada em tronco de árvore a fogo; instrumentos de música, como o berimbau; armadilhas de caça, como o mundéu ou o alçapão para quadrúpedes e a arapuca para a caça de passarinhos; utensílios de mesa e de cozinha, como o porongo, a cuia, a gamela, o pote e a panela de barro. E, ainda, inúmeros pratos e quitutes como o mingau, o beiju, o chibé (farinha de mandioca misturada com água e às vezes temperada com fruta), a papa, a tapioca, a paçoca de peixe ou de carne com farinha, carne ou peixe assados no moquém, a muqueca, a quinhapira (molho de carne ou peixe com pimenta-da-terra), a mujeca (pirão de caldo de peixe, com farinha), a saúva ou içá moqueada, o tucupi (molho do sumo da mandioca-brava cozido), a bebida de guaraná, no Norte, a de erva-mate no Sul, o caxixi, “vinho” de mandioca fermentada e de frutas e tantos outros.

Uns e outros utilizam os mesmos produtos da indústria extrativa, como o breu, a almecega, a imburana e outras gomas; plantas tintoriais, como o pau-brasil, o jenipapo, o urucum; diversas fibras têxteis, entre as quais o caroá, o caraguatá, o tucum, o algodão; materiais de construção, como o sapé, o cipó, as folhas e os troncos de palmeiras; e um sem-número de ervas medicinais para pajelança e “mezinhas”.

Além desses elementos, o caboclo identificará vários outros, como a rede de dormir, os bancos, o fumo. Verificará que são comuns a índios e caboclos certos hábitos, como o de tomar banho diário de rio, andar descalço, descansar de cócoras. Chamará pelos mesmos nomes várias plantas, animais, acidentes geográficos e topônimos; temerá os mesmos duendes, utilizando fórmulas comuns para controlar aqueles seres sobrenaturais. Desse modo, índios e interioranos encontram formas de entendimento que vêm do início de nossa formação.

O peso da herança indígena pode ser aquilatado no retrato que faz José Veríssimo dos modos de vida e do sistema adaptativo do caboclo amazônico:

“A casa em que vive aquela gente é pouco mais que a palhoça do antigo bárbaro. Fincam no solo alguns esteios brutos (sem falquejo); os dois da frente ou do meio mais altos de modo a que o teto fique inclinado; apóiam sobre esses esteios algumas varas e sobre estas vão estendendo folhas de palmeiras atadas com cipós. Em regra, tais cabanas só têm duas portas, a da frente e a do fundo. Cercam o exíguo recinto com tapumes de jissaras partidas, cobertas às vezes de barro. Quase sempre há uma única divisão: a que serve de dormitório para o chefe da família. O mais é aberto, tendo no centro a lareira, onde nunca se deixa apagar o fogo. Por cima, chegado ao teto, está o jirau, como nas tendas do índio é a despensa da família. No interior destas cabanas, um ou outro móvel se encontrará mais que aqueles mesmo de que usava o antigo selvagem: balaios, esteira de piri, cuias, vasos de argila, redes ou macas de cipó etc. – tudo refletindo muito mal disfarçada a vida do aborígene. Nessas palhoças, o modo de viver, as relações de família, a economia, o regime doméstico – tudo pouco difere do que se observava na taba do selvagem. O homem come de cócoras como o índio ainda comia; cura-se dos males que o assaltam pelos mesmos primitivos processos; anda sempre descalço; quando viaja com a família, vai sempre adiante; caça, pesca como pescava e caçava o silvícola há quatrocentos anos, tendo demais apenas os petrechos e artifícios que a conquista introduziu; as embarcações de que se serve, nos rios e nas baías; o modo de preparar o roçado e de fazer o plantio; o fabrico de farinha, a moqueação de peixe, etc. – tudo acusa de modo flagrante que no homem simples do sítio, mais ou menos isolado da civilização, subsiste mais ou menos fielmente o que havia de mais ponderoso nas raças nativas.”

Do indígena aproveitou a colonização europeia a técnica de coivara (clarear os campos a fogo), que até hoje não foi substituída por processos mais modernos, constituindo-se numa prática sumamente nociva à economia agrícola. Enquanto o indígena utilizava essa técnica para limpar um pequeno trato de terra, extinguindo, pelo fogo, as pragas, os insetos daninhos e a vegetação rasteira, que à falta de enxada e outros instrumentos de ferro não poderia extirpar, o latifundiário aplica a mesma técnica para fazer extensas plantações agrícolas ou pecuárias. As grandes queimadas inutilizam madeiras preciosas e a terra desprotegida de vegetação é lavada por chuvas e enxurradas, carreando todo o húmus vegetal para o fundo dos rios e lagos. Na Amazônia, as consequências desse desmatamento são muito mais graves. O solo fica exposto à forte insolação e ao peso das chuvas. A superfície endurece, anulando sua permeabilidade. Destrói-se toda matéria orgânica, deslizando os minerais solúveis para as camadas mais profundas da terra, onde não penetram as raízes.

A queima em pequena escala praticada pelo indígena e o apodrecimento de galhos e troncos, deixados sem queimar, devolvem ao solo nutrientes necessários para alimentar os brotos. O revolvimento da terra com arado e trator a danifica irremediavelmente, ao contrário do que ocorre quando o índio usa simplesmente uma estaca de cavar para a semeadura. O cultivo de espécies diversas favorece a recaptura parcial dos nutrientes e evita a propagação de pragas, como acontece nas plantações monoculturas.

Examinados todos os fatores que presidem a adaptação do índio ao ecossistema da Amazônia, a arqueóloga Betty Meggers, numa passagem de seu livro Amazônia, a ilusão de um paraíso, afirma:

“O ponto a ser acentuado aqui é que a agricultura itinerante não constitui um método de cultivo primitivo e incipiente, tratando-se, ao contrário, de uma técnica especializada que se desenvolveu em resposta às condições específicas de clima e solo tropicais”.

Como se vê, desconhecendo embora o uso de instrumentos de ferro, as técnicas agrícolas indígenas eram bastante eficientes e perfeitamente ajustadas às condições de seu meio ambiente. Baseavam-se, como ainda hoje, num saber milenar – o conhecimento objetivo da natureza e suas leis – advindo da observação e da experimentação.

RIBEIRO, Berta. O índio na história do Brasil. São Paulo: Global, 2011. p. 101-5.