"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 21 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio X

Déjoces quisera fazer dos medos uma nação. Seu filho Fraorte, ao mesmo tempo que pagava à Assíria tributo de vassalagem, continuava aquela obra submetendo as tribos persas. Com paciência, preparava a luta contra a Assíria.

Deve-se ligar a esse impulso nacional de um povo ariano a prédica de um filósofo medo que, reformando a religião oficial, o masdeísmo, fez dela uma religião de salvação?

Decoração em tumba da religião zoroastrista. 
Província de Sulaymanyah

Zaratustra nascera entre os magos. Após dez anos de solitária meditação, teve a revelação de uma fé depurada cuja doutrina emanava tanto das misérias populares quanto do desejo de unidade que animava o Irã: Zaratustra pedia ao deus Masda que pusesse fim à anarquia feudal tão nefasta ao povo. Pensando ser chegado o momento de agir, o Rei Fraorte lançara-se contra a Assíria - tentativa prematura, pois os medos foram esmagados.

Seu sucessor, o General Ciaxares, foi por seu turno forçado a se dobrar numa prudente vassalagem.

Mas desde -633 esse esforço nacional possuía para os medos o valor de uma tradição. Zaratustra traduzia a confiança deles no futuro. Enquanto o mundo oriental vivia na angústia e nos cemitérios medos, os abutres retalhavam os corpos expostos nas torres, um pensamento se elevava do Irã, como as chamas que no alto das colinas glorificavam o deus ariano da luz - os clarões do petróleo em fogo iluminavam muitas vezes as noites desse país onde sobeja a nafta.

Zaratustra reduzia o ritual à beberagem sagrada que o sacerdote tomava, à água benta e à oferenda dos pães. Suas tendências monoteístas aproximavam-se das do Egito: como este, ele pesava os valores morais na balança das ações que seriam creditadas à alma imortal no curso de suas futuras etapas, inferno, purgatório e paraíso. Zaratustra exaltava o esforço indispensável ao triunfo do bem na luta contra o mal, celebrava o reinado de Deus, o julgamento final que o realizaria e anunciaria um Messias libertador.

Em torno dessa fé, um povo inteiro cobrava esperança: no planalto iraniano, Ciaxares forjava o instrumento do revide, seu exército.

Nesse momento, em eco longínquo para o trágico Oriente assírio, piratas malaios haviam atacado os ainos no Japão e o chefe do clã malaio vencedor fora feito imperador por seus homens após a batalha. Djimon fundara assim a "divina" dinastia japonesa. Esses piratas eram selvagens. Mongóis juntaram-se a eles.

Mas acabavam de se organizar duas forças que desfeririam na barbárie golpes sucessivos: a cavalaria meda e o gênio grego.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 84-5.

sábado, 20 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio IX

O cartaginês Hanão foi, com sessenta navios, até a Guiné, à ilha Fernando Pó, depois de haver contemplado as eurpções vulcânicas do Camerum. Sobre o Atlântico, as trocas entre celtas e cartagineses se intensificavam. As cidades da Jônia enxamearam. Mégara fundou Bizâncio e controla no Mar Negro a importação de trigo. Mileto cria Cízico no Helesponto e regulariza o tráfico com os citas.

Há ali todo um mundo que as cobiças sanguinárias do imperador assírio não atingem. Quando muito ouve ele contar as riquezas pelos mercadores da Lídia que formam na Ásia Menor, na encruzilahada das rotas, entre a Jônia, o Egito e o Eufrates, um ativo Estado comercial.

Assurbanípal entrou em relações com o rei da Lídia, Giges, capitão audacioso que soube fazer de seu país a artéria principal do tráfico de Nínive e Éfeso, por Sardes, sua capital. A Lídia possuía as mais ricas jazidas de ouro, pelo que se tornou um importante centro econômico. Apoiava-se na atividade marítima da Jônia e suas relações com Mileto lhe abriam o mercado egípcio. O Rei Giges enviava colonos ao Mar do Norte e presentes ao Apolo de Delfos: jactava-se de agir e pensar como grego.

Candaules, rei da Lídia, mostra sua esposa escondendo de Giges um dos seus ministros, enquanto vai para a cama. 
William Etty

Foi sob seu reinado que a moeda apareceu em Sardes - estáteres de ouro e de prata - cujo manuseio facilitou singularmente os pagamentos e acelerou as transações. A inovação contribuiu para a prosperidade da Lídia.

Se a posição desse Estado era vantajosa para sua economia, suas vizinhanças imediatas o eram menos. Suas fronteiras estavam à mercê das incursões bárbaras e os bandidos da Capadócia espreitavam as ocasiões que para tal se oferecessem. Giges se aliaria de bom grado à Assíria para resistir a eles. Negociou: a aliança com os assírios assegurou-lhe ao mesmo tempo a saída no Eufrates.

Essa política entretanto não salvou a Lídia: os bárbaros a invadiram pelo Bósforo. Assurbanípal não interveio, pois nesse meio tempo Giges pensara dever tratar com o Egito e formar com ele uma liga dirigida contra a Assíria. Devido a tal erro diplomático, os sucessores de Giges levaram anos para recobrar sua prosperidade.

Assurbanípal mantinha pois a supremacia no Oriente.

Não obstante, semelhante poderio, baseado unicamente na violência, não podia pretender durar. A revolta era alentada em todo o império, inclusive entre os árabes, cujo rei acabava de ser arrastado a Nínive, preso pela mandíbula a uma corrente de cão. Antes de morrer, Assurbanípal calculou sem dúvida o que seria a vingança dos povos: pelo planalto do Irã ela se levantava.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahra Editores, 1964. V. 1. p. 82-4.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio VIII

Em certo momento, os medos tentam aliar-se aos citas e levantar contra a Assíria uma espécie de coalizão ariana; os clãs iranianos não estão unificados e sua aristocracia está em guerra permanente; sua unidade religiosa é fraca, embora todos eles sacrifiquem nas alturas em grandes fogos a seu deus Masda. Seus magos, confraria análoga às dos druidas ou dos brâmanes, não formam um grupamento organizado; além disso, a rivalidade dos medos, instalados ao norte do Irã, e dos persas, fixados ao sul, estraçalha as tribos. Os assírios não terão dificuldade em submetê-los.

Entretanto, um dos chefes medos, Déjoces, teve a habilidade de aceitar a derrota para trabalhar no sentido de estabelecê-los num Estado que seria vassalo da Assíria enquanto os medos não tomassem consciência de sua unidade.

Déjoces, escolhido por sua correção, foi eleito rei. Reuniu as tribos em torno de uma cidade que construiu: Ecbátana, protegendo por trás de sete muralhas concêntricas de ameias coloridas um palácio real de arquitetura militar. Então, lentamente, malgrado a servidão, os medos se revelaram, frente à Assíria, uma nação.

Senaqueribe, após uma insurreição, destruíra a Babilônia a ferro e água e, dessa Babilônia devastada a que chamamos Caldéia, leva suas conquistas à Arábia, até as fronteiras do Egito. Senaqueribe pode bem passar por um rei faustoso, o rei que o protocolo assírio não permite se veja em pessoa. Nínive pode resplender por seus palácios e sem templos de largos afrescos, por suas salas de marfim, de sândalo, de mármore e basalto - mas a guerra é que fez tal riqueza. A guerra é o único tema dessa arte e aí tudo é emprestado pelos países vencidos. O fausto assírio não deve nada a seu trabalho - tudo ao crime e à pilhagem.

Assurbanípal durante uma caçada. Relevo no palácio de Nínive.

Em -666, é sobre o Egito que se lança o exército assírio. Seu rei Assurbanípal, mais educado que seus antecessores, mais indulgente mesmo, não fez senão saquear o Egito; Tebas foi por ele arruinada para sempre.

Assurbanípal reinava sobre o maior império que até então existira, império continental que, apesar de algumas breves improvisações marítimas, não conheceria nada do mar.

Nesse tempo, seus horizontes recuaram bastante.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 82.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio VII

Se seus vizinhos imediatos na Sibéria não tivessem sido os hunos, os mais bárbaros dos mongóis, a China teria aí sem dúvida mais influência.

É certo que a confederação chinesa se mudava agora numa vintena de principados cujos conflitos exauriam a classe camponesa. Mas desde a dinastia dos Tchéus a China conhecia certo progresso intelectual. Em suas cortes feudais, recitavam-se cantos populares, as pesquisas astronômicas eram ativas, estudavam-se os eclipses, a Geometria dominava os fatos essenciais. Quando esse esforço racional se interrompera, a Filosofia se declarara protegida por uma ordem universal ligada à ordem humana e o camponês, sem se perder em especulações sobre o além, pedia a seu labor e ao respeito dos ancestrais a felicidade desta terra que ele conquistava pacientemente às searas.

Os citas não estavam pois totalmente isolados e, se seu nível técnico era ainda rudimentar, os assírios não estavam absolutamente em condições de lhes condenar a barbárie: quando o Rei Sargão II, um general vencedor, franqueou aos assírios o Oriente com que seus predecessores haviam sonhado, esses conquistadores semitas apareceram como o pior povo que já se conheceu.

Ora, desde cerca de dois mil anos, eles tinham vivido em relações constantes com a Suméria e Babilônia. Se Nínive é célebre por suas construções e seus astrólogos, quando Sargão II cria uma biblioteca, se seu palácio de Corsabad é suntoso, é porque da Babilônia e dos hititias lhes vieram os conhecimentos necessários. Eles se mostraram mesmo herdeiros inferiores: não só não realizaram em relação à ciência sumeriana nenhum progresso, como regrediram bem longe em relação à Babilônia: esta prossegue seus trabalhos astronômicos em que se descobre que o movimento dos planetas obedece a leis e se constrói um sistema divino do universo.

A despeito de tais ensinamentos, os assírios têm grandeza ou originalidade apenas na violência; se na arte são excelentes figuradores de animais é porque estes lhes exaltam a brutalidade. Os assírios apenas sabem fazer a guerra. Aperfeiçoaram os instrumentos próprios: suas cotas de malhas, seus aríetes e os capacetes serão modelos.

Quanto a seus crimes, são eles lendários - verdadeira técnica de devastação. Suas cruezas não são uma política de exceção ou um paroxismo de selvageria. São o aspecto essencial da mentalidade assíria, voltada inteiramente para o aniquilamento dos vencidos.

O saque das cidades e os impostos esmagadores eram apenas o prelúdio disso. O rei assírio daz decapitar com método: cabeças e peles humanas atapetam as muralhas de seus palácios. Milhares de prisioneiros são lançados ao fogo ou emparedados vivos, empalados, esfolados vivos. Cortam-se os punhos, os lábios, as línguas dos camponeses e deportam-se os sobreviventes por dezenas de milhas para arrancar às nacionalidades as raízes e eliminar pelo exílio em massa qualquer possibilidade de vingança. Incendeiam-se e arrasam-se as aldeias, abatem-se as árvores e, como a revolta rebente continuamente, o rei assírio ordena que se aniquile uma região.

Foram esses processos que em -722 Sargão II aplicou aos israelitas.

Judeus sendo deportados para o exílio no Império Assírio. 
Relevo do palácio de Nínive.
Museu Britânico. Foto: Osama Shukir Muhammed Amin

Anexou-lhes o país e os deportou para o Leste. Os judeus mergulharam no desespero. Evocando as ideias egípcias a respeito da salvação pelo arrependimento, os judeus imploraram a misericórdia divina. A angústia desse povo expulso da terra prometida onde não havia chegado a durar como Estado e a tradição religiosa do Egito ensinaram-lhe a concepção de um Deus de justiça e de esperança que os profetas Amós, Oséias, Miquéias e Isaías o conjuravam a adorar.

Depois de Damasco e Gaza, Sargão II acometeu o Urartu e os frígios, depois os filisteus. Foi sempre vencedor.

A desgraça de Israel veio a ser a de seus vizinhos. A morte de Sargão não interrompeu essas empresas. Da Mesopotâmia a Tiro, de Jerusalém ao lago de Van, seu filho Senaqueribe devasta o Oriente em meio às convulsões dos povos vencidos. Nenhum parece capaz de resistir a ele mediante uma política coerente, nem mesmo o Egito.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 80-1.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio VI

Os colonos gregos haviam passado dos estabelecimentos agrícolas à fundação das cidades marítimas onde escoavam para entre os bárbaros os produtos da indústria helênica.

O templo de Apolo em Cumes era já célebre. Na Itália, essa irradiação era ainda mais fácil porquanto a emigração asiática lhes mostrava o caminho.

Dançarinos e músicos etruscos. 
Pintura mural na Tumba dos Leopardos. Tarquínia.

Os etruscos haviam fixado seus acampamentos perto das aldeias da Úmbria. Depois a aristocracia etrusca reduzira os camponeses úmbrios à servidão e os fazia desbravar no interior as terras incultas. Pelo vale do Tibre os etruscos internavam-se na Itália, fundando cidades sob o emblema de seu poder, a dupla acha num feixe de madeira. O povoamento ainda insuficiente não permitia a essa confederação urbana organizar todo o país. Mas graças a suas origens, ela dispunha de uma forte indústria do cobre e do bronze, de arquitetos e engenheiros que souberam criar uma rede de caminhos e drenar o solo por meio de galerias curvas subterrâneas. As oficinas de cerâmica mantinham relações com os negociantes de Corinto. Os ritos religiosos dos etruscos evocavam a astrologia do Eufrates, cujos segredos, como a observação do fígado dos animais, eram apanágio de sua aristocracia.

Ideias e técnicas da Ásia iam portanto integrar a Itália na história mediterrânica. Pastores latinos se haviam estabelecido com seus rebanhos sobre uma colina escarpada das bordas do Tibre, o Palatino, e populações vizinhas se haviam juntado a eles: desde sua fundação, em -753, Roma esteve em contato com os etruscos e os gregos, numa região francamente civilizada; recebeu dos mercadores de Cumes e dos artesãos etruscos indústrias e alfabetos, misturando com uma religião e uma língua de origem ariana costumes da Ásia. Esta forneceu assim à Itália suas primeiras artes, suas culturas - a vinha e a oliveira - e transformou a paisagem da península dando-lhe um rosto mediterrânico cujos traços o espírito grego animará. Em -735, Corinto funda Siracusa. Os colonos gregos se talham domínios nas admiráveis terras de trigo da Sicília.

A Europa, essa terra melhor dotada de costas do globo, tornava-se definitivamente marítima e oriental enriquecendo-se com o Mediterrâneo.

O Oriente também corria o risco de se fechar aos fenícios: com a peste, a guerra se fazia até mais dura do que nunca. Os exércitos assírios, após invadirem a Palestina e a Galiléia, ameaçavam os árabes que os cumulavam de presentes. De um momento para outro, Tiro e Sídon podiam ser cortadas de suas caravanas.

Somente a concentração dos citas nas fronteiras do norte retardava a pressão assíria. Os citas eram os mais bem organizados dos criadores nômades que, da Sibéria meridional ao Mar Negro, percorriam as estepes do Turquestão ocidental e da Rússia do sul, com seus cavalos, seus bois e seus carros.

Haviam submetido tribos arianas, os cimérios. O emprego dos estribos tornava-os prestigiosos cavaleiros, ébrios muitas vezes de carnagem e de sua bebida de leite de jumenta fermentado. A ourivesaria de seu arreamento era de um realismo brutal e essa arte se estendia largamente pela estepe até a Sibéria central, entre os ferreiros de bronze, e Minusinsk, no Altai.

Na Ucrânia, os citas se haviam tornado lavradores: os escravos lavraram terra, e vasavam-se os olhos daqueles que se empregavam em trazer o leite. Abastecendo os gregos de peixe salgado, de trigo, de metais preciosos e de âmbar do Báltico, seus chefes participavam do movimento comercial que atingia o Cáucaso por mar e por terra.

Por mar, as expedições helênicas haviam feito entrar na história essas regiões fabulosas, ricas em ouro, aonde, dizia-se, haviam outrora chegado os Argonautas, e a arte geométrica dos gregos já experimentara ali, em suas cores e seus ritmos, o gosto oriental. Por terra, os citas mantinham relações com o Irã, a Mesopotâmia e as tribos mongóis, relações mais violentas, muitas vezes, do que de simples negócio, mas que lhes levavam rudimentos de civilização.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 78-80.

domingo, 14 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio V

Ela detinha já tão bem a bacia oriental do Mediterrâneo que, abandonando as rotas do Norte, cujo segredo lhes havia definitivamente escapado, os fenícios dirigiam seus esforços para o longínquo Ocidente. Para reforçar aí suas bases, os navios de Tiro fundaram Cartago em -814 e dali, alongando suas escalas, ganharam os Açores, a Cornualha e o Báltico. Os cretenses não haviam jamais conhecido esse universo que a chegada dos celtas à Espanha iria aumentar.

Depois de haverem atravessado os Pirineus, esses se fixavam entre os iberos, construíam fortes e traficavam com os fenícios. Um dia, o Império celta encontrou o Mediterrâneo. Esse encontro apressará sua evolução e preicipitará seu avanço sobre os germanos. Os fenícios tinham feito de Cartago o entreposto das riquezas do Sudão e da África central - escravos, peles de animais, penas de avestruz, ouro e marfim; da floresta cerrada, algumas tribos traziam às vezes madeiras preciosas.

Cartago ensinava a equitação aos negros do Sudão, ensinava-lhes a tecer o algodão e a trabalhar o ouro. Encontrava, aliás, na África negra as influências de civilização vindas da Núbia até a Nigéria e reconhecíveis nas línguas, na organização social, na cosmogonia e no número de tradições.

Busto da deusa púnicaTanit. Necrópole de Puig des Molins.

Apesar de os fenícios se empenharem em despistar seus rivais e em fazer mistério de suas carreiras, o monopólio do Mediterrâneo continuava a fugir-lhes: a migração helênica atingia agora a bacia ocidental e aí criava não somente uma concorrência comercial, mas um povoamento estável.

Asiáticos de Anatólia, os estruscos, instalavam-se na Itália; provinham da Cilícia como piratas, embora civilizados pelo contato com Babilônia e os hititas, ao passo que os próprios gregos fundavam cidades no golfo de Taranto, passavam o estreito de Messina e criavam Cumes na costa ocidental da Itália.

Os fenícios não se haviam equivocado a respeito: tratava-se mesmo de um povo inteiro de homens ousados expulsos de sua terra pelo regime da propriedade familial ou pelas rivalidades políticas e que, à procura de terras férteis, ali erguiam templos às divindades agrárias: seu contato ganharia a substância mesma das populações indígenas, modificá-las-ia em seus costumes e segundo um ideal de que Tiro nada sabia.

Era a herança cretense transfigurada pela vitalidade ariana que um clima afortunado levava à plenitude. As lições de harmonia recolhidas de Creta ordenavam na procura do equilíbrio físico a espontaneidade dos jovens que se enfrentavam nos jogos olímpicos. Olímpia era um antigo santuário onde festas fúnebres reuniam os gregos. Desde que estas se tornaram periódicas e acompanhadas de jogos ginásticos, constituíram uma trégua entre os povos gregos, congregando-os em torno de sua paixão comum pelos concursos atléticos.

Em -776 registraram-se oficialmente os nomes dos vencedores e a lista dos atletas foi desde então fielmente conservada.

Esses jogos olímpicos bem cedo pareceram exprimir suficientemente o ideal do mundo grego para que deles se datasse a era das olímpiadas - verdadeira metamorfose do mundo mediterrânico. Os fenícios o viam transformar-se debaixo de seus olhos.

Com razão não haviam eles se preocupado com a confederação militar que Esparta criava no Peloponeso: Esparta não tinha comércio nem marinha, não cuidava de arte nem de pensamento e seu lirismo coral não era mais do que espírito do acampamento. Estes árias em estado bruto que eram os dórios não pareciam nada temíveis a neociantes internacionais.

Mas já ao contrário, eles, misturados por toda parte aos aqueus e formados pelas influências orientais, insuflavam um vigor novo à civilização em que se exaltava a Grécia da Ásia. Corinto, por exemplo, beneficiava-se dessa renovação de tradições que havia outrora recebido diretamente. Se uma casta dória exercia ali o poder, não era como soldados, mas como mercadores enriquecidos pelo tráfico de seus dois portos e pelas relações com a costa asiática. Aquela rivalidade era perigosa; por todas as margens do Mediterrâneo ouviam-se os ecos das rapsódias maravilhosas que recitavam na Jônia a Corporação dos Cantores Homéricos.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1.  p. 76-8.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio IV

A evolução precipitou-se da direção de Atenas por volta de -820. Os proprietários de bens de raiz, depois de terem reduzido a realeza a funções religiosas, substituíram-na por um arconte escolhido por toda a vida dentre eles. O velho palácio micenense da Acrópole real não sobreviveu à monarquia: foi desde então um lugar sagrado onde as famílias nobres conservaram suas residências e fixaram seu governo. A seus pés desenvolveu-se uma cidade de artesãos: o quarteirão dos oleiros, que modelavam uma bela cerâmica de desenhos geométricos, tornou-se uma cidade laboriosa a que chegavam os mercadores da Grécia e da Ásia.

A evolução social teve por sua vez outros efeitos. O regime aristocrático avivava as lutas de partidos. Os vencidos dos conflitos anteriores não tinham outro recurso senão a expatriação, e como o direito de velhice igualmente expulsava os moços da terra familiar, a emigração recomeçou com intensidade, acelerada pela atração da viagem, tão viva entre os gregos.

As cidades gregas da Ásia Menor continuaram assim a ser abastecidas de homens empreendedores; depressa foram belas capitais.

Os dórios batalhavam ainda para submeter a Grécia continental e já seus vizinhos asiáticos, com Mileto, Éfeso, Focéia e tantos outros, estavam em plena criação - cidades industriosas que enxameavam suas oficinas nas ilhas do mármore, Naxos e Paros, nos centros metalúrgicos das Cíclades, ricas em ferro, Samos e Creta, povoavam o Oriente Próximo de seus bronzes e baixos-relevos, e imprimiam em tudo o espírito de aventura e de heroísmo que em Esmirna os poemas homéricos celebravam - por isso, bem cedo sua epopéia foi cara aos corações dos gregos.

Héracles e Atena. Vaso ático. Python e Douris.

Formava-se assim entre essas cidades, tomadas da mesma necessidade de vida, uma solidariedade intelectual cujas zonas de influência eram marcadas pelos progressos da língua grega. As costas da Ásia Menor eram a ardente forja onde, de dialetos diversos, se moldava uma língua homogênea.

Como Creta, os gregos da Ásia trocavam a guerra pelo laço dos intercâmbios entre os homens e o fascínio de uma civilização.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 75-6.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio III

Os reis da Assíria dominavam na Babilônia, e sua capital, Nínive, recebia os presentes de todo o vale do Eufrates. Já a Assíria sufocava deles: recomeçara a luta pela posse dos mercados  da Síria, marcada por alternativas de guerras e alianças.

Os soberanos assírios humilhavam os povos vizinhos, rompiam as coalizões, destruíam as aldeias hostis. Em -877, um deles, renovando nas águas do Mediterrâneo o gesto tradicional que simbolizava sua vitória, molhou nelas suas armas ao sul do Oronte. Os tributos de Israel, de Tiro e Sídon afluíram para a escolta real.


Arqueiros assírios. Palácio de Nimrud

Seu sucessor, Salmanazar III, levou a guerra de Damasco ao lago de Van e se atirou contra os medos, clãs arianos que no Irã haviam ficado tão atrasados a ponto de cortarem ainda as rodas de suas carroças em troncos de árvores. Os medos por sua vez pagavam tributo e enviavam ao rei da Assíria seus belos cães amestrados. A guerra se transformava na indústria nacional dos assírios.

Somente a guerra manteve o contato entre esse Oriente convulso e o mundo mediterrânico em que pequenos Estados se organizavam, demasiado frágeis para tentarem restringir as ambições do novo déspota oriental.

Um conflito permanente, aliás, retardava a evolução da Grécia: os dórios haviam-na conquistado aldeia por aldeia e formado nela, por vários sítios, comunidades militares mais ou menos fortes segundo o grau de resistência dos aqueus. Para os dórios, governar limitava-se a submeter.

Em Esparta é que três tribos dórias melhor conseguiram concentrar seus efetivos pela expulsão dos indígenas da cidade e pela construção de uma sociedade à feição de um acampamento, acessível tão-somente aos dórios, sob a autoridade de dois reis, de um senado de vinte e oito membros e de uma assembleia mensal dos espartanos.

Escultura de um hoplita espartano. Museu arqueológico de Esparta.

Dedicada à guerra por suas origens e pela vontade de se manter, essa elite dória se dispensava de qualquer outra tarefa, lançando a da produção aos ombros dos vencidos, que reduziam à escravidão: a estes se chamou hilotas. Viviam sob o temor de uma repressão atroz. Essa organização codificou-a o tio de um rei, Licurgo, que, inspirando-se nas leis cretenses, fixou no rigor delas os princípios dessa aristocracia militar. Quando ela aumentou em número, os espartanos recomeçaram as invasões dórias - diante deles, os habitantes emigravam.

Para o Norte, seu impulso foi menos vigoroso. O militarismo espartano carecia de amplitude; a Tessália e a Beócia jamais lhe sentiram a ameaça. Por isso, o poeta Hesíodo, filho de um grego da Ásia que regressara à terra beócia, podia ali meditar sobre a justiça, celebrar as paciências do labor campesino e exigir da força a obediência a uma regra moral.

A guerra teve igualmente consequências de ordem social.

Diante da invasão dória, desmoronou-se a monarquia absoluta por ter sido impotente para salvar a sociedade micenense. Viram-se então famílias nobres se apossarem das terras, monopolizarem o direito de cidadania e organizarem as magistraturas das cidades. Os camponeses sofreram em toda parte pela avidez dessas famílias: na Ática eles cultivavam-lhes os domínios mediante um sexto da colheita.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964.  V. 1. p. 74-5.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio II

A Europa do Norte continua inóspita, com seu nevoeiro e suas chuvas. Os celtas encontram-se aí em eternos combates com os germanos, contra os quais se fortificaram em Turíngia. Às vezes os rechaçam, sem jamais atravessar o Elba.

Os germanos permaneceram bem primitivos: os landes pobres e as sombrias florestas que eles ocupam predispõem-nos a uma instabilidade perigosda - o movimento do sol orienta suas cobiças e a conquista se tornará a obsessão da sociedade germânica.

Mas por muito violentos que sejam seus contatos com os celtas, os germanos se familiarizam pouco a pouco com a civilização. Os celtas traficam com os mais evoluídos dentre eles, os cimbros e os teutônicos, mercadores de âmbar na costa oriental do Báltico. Os celtas é que lhes ensinaram o governo monárquico, o montar a cavalo e lhes enriqueceram o vocabulário. Em troca, os druidas adotaram o culto solar oriundo da Escandinávia: constroem templos redondos em homenagem ao Sol.

Reconstrução de uma carruagem celta. 
Museu Celta em Hallein. Foto Wolfgang Sauber

No Oriente e no Meio-Dia sobretudo, se produzem os mais largos impulsos. Continuamente os celtas fazem recuar os lígures e nas costas do Atlântico entram em relações com os marinheiros do Mediterrâneo que regressam à Grã-Bretanha. Em pouco se ligaram a essas costas do Oeste. Em seus percursos, cidades se levantaram. Depois distinguiram os Pirineus. Infiltrações de tribos inteiras fundiram-se na direção do Sul.

De século em século, os celtas se aproximavam do Mediterrâneo - progressão lenta como a de sua civilização: têm a Europa por descobrir e ocupar; somente um rude esforço a torna habitável; é necessário que aí tomem pé solidamente; mas essa terra não é ingrata e, após algumas gerações, seu povoamento fará da Europa um enorme reservatório.

Ao lado desses maciços coletivos, o esforço que entre os judeus continua o Rei Salomão está fora de proporção com os meios de que dispõe. Soube reforçar as posições de Israel, enriqueceu como intermediário entre a Índia e os fenícios, fornece a Tiro azeite e trigo e depois de constituir uma cavalaria, mediante a proibição, aos judeus, de cortar os jarrêtes dos cavalos de que se apossavam, organizou o comércio desses animais. Para aumentar seu crédito, procurou ofuscar pelo luxo.

Mas Israel não dispõe nem dos homens nem das possibilidades econômicas para participar verdadeiramente dos intercâmbios do Mediterrâneo.

O Rei Salomão é forçado a aumentar os encargos de seu jovem Estado: multiplica impostos e corvéias. Os ricos pressionam os camponeses, emprestam-lhes e os arruínam para lhes tomar as terras; a pequena propriedade diminui. Salomão, cujo amor às artes custa caro a seu povo, tem de debelar movimentos de revolta. Quando de sua morte, em -935, o antagonismo das tribos se assenhoreia das cóleras populares e o reino de Israel se dissolve: durou sessenta anos, único lampejo de uma unidade nacional em meio às borrascas da anarquia judaica.

Esgotadas, as tribos israelitas se mostram incapazes de fazer obra política e de recriar um Estado judeu. No tumulto de suas intrigas intestinas, veio assaltá-las o perigo assírio: era tarde demais para conjurá-lo.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1.  p. 72-4.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do Império Celta ao Império Assírio I

Imagem: Guerreiro celta. Escultor desconhecido.

Um Império Celta dominava agora a Europa, dos Cárpatos ao Reno, do Danúbio ao Maciço Central.

A exploração do ferro de Halstat, na Áustria, depois a dos minérios da Lorena e de Borgonha forneceram aos celtas um aparelhamento e um armamento tais que, tão logo se estabelecem numa região, eles procedem a amplos roçados e cortam em todos os sentidos na floresta europeia.

Os celtas tomaram gosto pelos trabalhos agrícolas e a terra prospera nos vales onde um clima menos duro os reuniu. Removem o solo com uma charrua de duas rodas puxadas por bois, praticam a agrimensura, recobrem de argila as paredes de suas casas de madeira cobertas de palha, constroem torres de pedras, monumentos megalíticos e salas abobadadas.

A tribo celta possui ainda coletivamente a terra, mas a propriedade tende a se tornar individual e num solo há pouco desbastado não faltam as ocasiões de individualizar os bens: apanágios de chefes, dramas da vingança, fecundidade do rebanho - eis algumas circunstâncias que aumentam a fortuna de uns poucos em detrimento da propriedade coletiva. Os mais ricos guerreiros se juntam em assembleia em volta do chefe militar. Esse elo teria sido bem fraco numa sociedade dispersa por imensos espaços se não houvesse entre seus elementos mais disseminados uma unidade de pensamento muito forte, a do druidismo.

Os druidas formam uma confraria que se recruta por cooptação, resultante do totemismo primitivo que sobrevive na aliança pelo sangue. Sacerdotes, juízes e sábios a um tempo, eles estão isentos de impostos e de serviço militar. Presidem aos sacrifícios religiosos, emitem opinião em justiça, possuem todos os conhecimentos do mundo celta e educam a juventude dos ricos. Vem das regiões mais distantes para se reunirem em concílios junto aos dolmens ou menires, venerados antes deles pelos povos que os celtas submeteram. Conversam sem receio sobre a morte, pois crêem na imortalidade da alma [...] Respeitam a honra individual e seu respeito humano se estende à mulher. O celta é monógamo e admite o divórcio por consentimento mútuo.

As influências da terra penetraram tão bem a sociedade celta que seu culto é agrário. Os santuários são campos de feira. As festas terminam por corridas de cavalos: os celtas são apaixonados por elas. É o cavalo - a principal riqueza - que lhes conserva a mobilidade. Atrelam-nos a ligeiros cabriolés de duas rodas que descem as pitas e penetram por qualquer lugar em que o lenhador tenha aberto uma passagem.

Os roçados asseguram definitivamente ao Império celta seu progresso. Por se mostrarem tão bons pioneiros quanto intrépidos soldados, os celtas avançam de todos os pontos sobre esse continente desconhecido, essa Europa que quanto mais eles possuem, tanto mais os seduz.

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. V. 1. p. 71-2.

domingo, 30 de abril de 2017

A reportagem mais prestigiosa

Vercingetórix joga suas armas aos pés de Júlio César, Lionel Royer

Júlio César foi correspondente de guerra de suas próprias campanhas.

Ele mesmo se encarregou de escrever, para a posteridade, o muito meticuloso relato de suas façanhas.

Sua obra mais famosa se chama Comentários sobre a Guerra Gálica. O tempo transformou em clássico essa exaltação dos méritos militares do autor, que não prestou atenção alguma aos sacrifícios de seus soldados, que jamais se queixavam nem se cansavam.

Júlio César, imperador e deus, repórter de si mesmo, consagrou todo o seu talento literário à homenagem dessa invasão que matou um milhão de gauleses e condenou os sobreviventes à escravidão.

GALEANO, Eduardo. O caçador de histórias. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 123.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O Artemísion de Éfeso

O edifício do Templo de Ártemis em Éfeso.
Hendrik van Cleve

No final do 2º milênio a.C., os jônicos se apoderam da região da Ásia Menor situada entre o Hermos e o Meandro. No fundo de um golfo, perto da foz do Caistro, fundam a cidade de Éfeso. Colocada sobre a estrada real da Lídia, Éfeso se torna rapidamente uma cidade comercial muito importante e o centro financeiro da Ásia Menor. Na região, desde tempos imemoriais, venera-se uma divindade da Terra e da Fecundidade que os gregos comparam de maneira inesperada a sua deusa Ártemis. Uma primeira área cultural é edificada em Éfeso, mas destruída no século VII pelos cimérios.

Ártemis de Éfeso.  
Esta cópia da Ártemis do templo de Éfeso, com seus múltiplos seios e seu corpo encaixado, mostra a estranheza dessa divindade, que não se assemelha à deusa grega da Caça. 
Foto Klaus-Peter Simon

Em 560 a.C., o rei Creso da Lídia se apodera de Éfeso e decide reconstruir um templo esplêndido para Ártemis. Sua ambição é de rivalizar com os dois maiores templos da época, o de Hera em Samos e o de Apolo em Mileto. Para edificar o monumento sobre o solo instável, toma-se por modelo o arquiteto Teodoro, mestre de obras do Heraion em Samos, que tinha mandado colocar peles de carneiro e carvão de lenha sob as fundações. Dois arquitetos cretenses, Quersífron e seu filho, Metagenés, são os projetistas do magnífico Artemísion de Éfeso, em mármore branco azulado, cuja construção demorou quase cento e vinte anos.

Hermes vestindo um manto. 
Detalhe de uma coluna de mármore do Templo de Ártemis, Éfeso. 
Foto Marie-Lan Nguyen

Com seus 155 metros de comprimento e seus 55 metros de largura, o Artemísion é o maior monumento jônico. Nas 127 colunas de 19 metros de altura que cercam o edifício, 36, oferecidas pelo próprio Creso, apresentam a originalidade de ter tambores esculpidos em baixo-relevo. No ano 356 a.C., um desequilibrado, Eróstrates, põe fogo nesse esplêndido edifício, que desaparece completamente. Os efésios se empenham imediatamente na reconstrução do Artemísion, fazendo-o ainda mais belo e maior. Esse templo passa a fazer parte então das sete maravilhas do mundo.

A justa Antia levando suas companheiras para o templo de Diana em Éfeso.
Joseph Paelinck

SALLES, Catherine (dir.). Larousse das civilizações antigas 2: Da Babilônia ao Exército Enterrado Chinês. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 129.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Arquitetura monumental: as pirâmides de Gizé

A Grande Esfinge e as pirâmides de Gizé, David Roberts

Para garantir sua imortalidade, alguns faraós mandaram erigir gigantescas construções que lhes serviam de última morada. Nelas era depositada a múmia do soberano, que acreditava estar, assim, desfrutando da mesma grandiosidade que havia conhecido em vida. A Quarta Dinastia foi a idade das grandes pirâmides. Dessa época é o conjunto construído nos arredores de Gizé, do qual fazem parte as pirâmides de Queóps, Quéfren e Miquerinos, e a monumental esfinge esculpida num único bloco de calcário, com o corpo de leão e a cabeça do rei Quéfren. 

História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 4. V. 1.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A arte micênica

Afresco: "A dama de Micenas", ca. 1300-1200 a.C., Acrópole de Micenas. Artistas desconhecidos

Com base no testemunho das únicas provas arqueológicas, a religião parece diferir pouco da religião cretense. Porém, uma vez mais, a leitura das preciosas tabuinhas veio ressaltar as ideias recebidas. Elas permitem identificar os nomes dos principais deuses da Grécia do primeiro milênio: Zeus e Hera, Poseidon, Hermes, Atenas, Artemis, Dioniso talvez, e um Paiawon (Paian, epíteto que será encontrado associado ao Apolo clássico) recebem suas oferendas com regularidade. Também é verdade, uma Potnia, a mestra, em que muitos são tentados a ver a continuação da Grande Mãe cretense, que divide seu poder com as divindades celestes, e a Demeter clássica.

Fragmento de um mural de Orcomeno, retratando a deusa guerreira com capacete de dentes de javali, no centro do culto em Micenas, século XIII a.C. Artistas desconhecidos

Outra diferença atestada, ao contrário, pela arqueologia: uma atenção mais viva ao culto dos mortos, pelo menos com relação aos das famílias principescas. Essa mudança desencadeou o desenvolvimento de uma arquitetura funerária, em grande parte nova.

Houve, a princípio, as "tumbas de poço", cujo agrupamento em círculos de pedras eretas [...] constitui a originalidade de Micenas.

Por volta de 1500 a.C., surgem as "tumbas com câmara" e, por fim, "com cúpula". Perpendicularmente ao flanco de uma colina, entalhavam um corredor de acesso e, depois, uma escavação de forma circular, leitos de pedra, notavelmente dispostos, reforçavam as paredes e, estreitando-se, formavam o teto da escavação; em seguida, era tudo fechado, não se deixando ao ar livre senão o corredor que terminava numa porta. Bastaria, para dar uma ideia da amplitude dos trabalhos realizados mencionar que o corredor alcança 25 metros de comprimento, e a cúpula, 15 metros de diâmetro, bem como de altura.

Era nessas "colméias" ou em sepulturas laterais que depositavam os cadáveres, por vezes em grande número. Tratar-se-ia de sacrifícios humanos celebrados durante as exéquias? Em alguns casos, nada nos autoriza a excluir essa hipótese. De qualquer forma, o morto continuava a viver. Fossas sacrificais, no solo dos corredores, fornecem-nos ossadas de animais e oferendas feitas ao defunto. Numa das tumbas de poço, descobriram-se máscaras de ouro que reproduzem, incluindo, os traços do falecido. Esses túmulos proporcionaram-nos armas, jóias, peças de ourivesaria, facas, navalhas, objetos dos mais variados. Em fins do século XIX, as descobertas de Schliemann provocaram a estupefação universal. Mais tarde verificaram-se novas descobertas, algumas célebres, como a das taças de ouro de Váfio, no sul do Peloponeso, outras que mereciam esta celebridade, como as de Dendra, na Argólida [...].

Em toda essa ourivesaria, nem as matérias-primas, nem a técnica, nem o sentido ornamental, nada revela mudanças reais em relação à arte cretense. O mesmo acontece com a maioria das outras artes, principalmente a pintura, cujos afrescos ornavam as paredes dos palácios. Acentuavam-se certos temas. como o da guerra - no começo, pelo menos - e da caça. Mas as tendências estéticas permaneciam as mesmas. Constatamos, sem surpresa. que elas continuaram a inspirar os artistas cretenses, cuja produção se escoava para a Grécia, e que, por bem ou por mal, lá foram trabalhar; formaram aí discípulos que lhes permaneceram fiéis.

Ao contrário, os micênicos introduziram inovações na arquitetura civil, muito importantes por si mesmos e de eficácia mais duradoura do que as que vemos na arquitetura funerária.

Concernem elas sobretudo à casa, adaptada a um clima menos meridional. Enquanto em Creta o teto era construído sob a forma de terraço, aqui edificavam-no em duplo declive, a fim de permitir o escoamento mais rápido das águas pluviais, menos raras. Além disso, o lar podia ser móvel em Creta, onde o frio era menos intenso. Mas devia ser fixo para os homens vindos de outras latitudes e dotados de outros costumes. Sua fixação deu origem ao elemento essencial da casa, o mégaro. Esse não esperou os Aqueus para surgir no mundo mediterrânico. Encontramo-lo nas ruínas de "Troia II", que data do III milênio, e na Tessália e Beócia, no início do II milênio; talvez se originasse no norte da Ásia Menor, tendo chegado à Europa pelo norte do Egeu. Mas foram os micênios que estabeleceram o seu tipo definitivo e generalizaram a sua adoção: apareceu nas Cíclades por volta de 1500 a.C. e, em seguida, em Creta.

Constitui um corpo de edifício retangular. Para o exterior, depois das colunas que suportam a parte avançada do telhado, há um vestíbulo que recebe ar e luz. Uma parede atravessada por uma porta separa-o de uma grande sala, o mégaro propriamente dito, compartimento aquecido por lareira fixa, redonda, instalada no centro. Não existe chaminé (para a fumaça), mas há uma abertura no telhado, em sentido vertical, sustentada por quatro colunas que enquadram a lareira. Assim aquecido, esse cômodo se torna, naturalmente, o compartimento nobre, o mais decorado, aberto aos hóspedes. É nele que os poemas homéricos situam os banquetes, e será no mégaro do palácio de Ítaca que Ulisses brandirá seu arco contra os pretendentes. Será também do mégaro que derivará o templo grego.

Assim, tendo a casa doravante um centro, os outros elementos organizavam-se como seus anexos. O mesmo de verificou nos palácios que, devido à sua importância, comportavam dois ou até três cômodos com lareira. Apresentaram, pois, um aspecto de desordem menos inextricável. O pátio central regularizou-se, com pórticos e vestíbulos enquadrando as portas. Mesmo sem as fortificações, as ruínas de Tirinto são as de uma nobre vivenda.

De resto, o espírito geral era certamente outro. Menos fantasia: essa apenas tinha livre curso na decoração. Fazendo um esforço no sentido da majestade exterior, que fora negligenciada pelos cretenses, os reis micênicos revelavam novamente que não eram avessos à exibição da força.

Pintura mural no Palácio de Tirinto, representando um homem dançando em cima de um touro, ca. 1890. Ilustração do arqueólogo Heinrich Schliemann

No mesmo espírito, compraziam-se em executar obras grandiosas, que pareciam ultrapassar a escala humana. A fim de construírem suas fortalezas e "colméias", os engenheiros conseguiam manejar enormes blocos de pedra. Por mais canhestra que seja a tentativa de escultura na pedra e da escultura monumental - antes desconhecidas dos cretenses, mas que, também nesse caso, abordavam temas cretenses - por mais disformes, frouxos e pesados que sejam os corpos das duas feras da "Porta das Leoas", em Micenas, tratava-se, não obstante, de uma inovação que se ligava ao gosto dos Aqueus por um estilo grandioso, deliberadamente ostentatório. Pela primeira vez fora do continente asiático e do Egito, concebiam-se obras tão grandiosas, com intuito ao mesmo tempo ornamental e religioso. Do ponto de vista estético, esse esforço abortou. Do ponto de vista técnico, teve êxito, e, com certeza, não foi fácil a tarefa de elevar esse bloco, e a formidável padieira que o sustém sobre os pés-direitos.
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Afresco: "Mulher de Micenas", ca. 1300 a.C., Micenas. Artistas desconhecidos

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 49-52. (História geral das civilizações, v. 2)

sábado, 17 de dezembro de 2016

A civilização micênica: organização política, social e econômica

Afresco representando guerreiros armados com capacetes de dente de javali em uma carruagem dual, ca. 1350 a.C., Pilos. Artistas desconhecidos

A importância da herança cretense recolhida pelos micênicos é de tal ordem que, para evitar as repetições inúteis, nos ateremos às diferenças, apesar de tudo sensíveis, entre as duas civilizações, isto é, limitar-nos-emos às novidades que constituem a contribuição dos Aqueus. Esses, com efeito, não as devem à região onde viveram. Entre a Grécia meridional e Creta, a natureza apenas introduz matizes, dos quais o mais importante provém dos rigores ocasionalmente mais acentuados do inverno: nada que pudesse modificar seriamente as condições de existência. Além disso, as civilizações que se haviam manifestado na Grécia até o momento de sua chegada transmitiram-lhes pouca coisa e não dispunham, aliás, senão de muito pouco para legar-lhes: nada que pudesse rivalizar com a civilização cretense. Se, nessas condições, eles se recusaram a calcar inteiramente sua organização e sua vida na dos cretenses, foi porque trouxeram consigo ideias, costumes e hábitos, ao mesmo tempo próprios aos indo-europeus e a homens que viveram longamente em outras áreas, sobretudo, nesse caso especial, nas regiões setentrionais.


Afresco de carruagem, ca. 1200 a.C., Tirinto. Artistas desconhecidos

* Os princípios belicosos. A novidade transparece, de início, na organização política e social, pois os vestígios materiais deixados pelos grandes deste mundo em nada se assemelham aos de Creta.

Os palácios e as grandes tumbas põem-nos em presença de uma pluralidade de príncipes. Esses existiam em Micenas e Tirinto, dois pontos da Argólia, pouco distantes entre si. Mas sua celebridade não deve permitir que esqueçamos a existência de outros, em lugares diversos: na própria Argólida, no oeste e no sul do Peloponeso, na Acrópole de Atenas, na Beócia. A esses estabelecimentos dispersos faltava um Cnossos, incontestavelmente superior a todos. A excepcional riqueza de Micenas em ouro talvez se deva apenas ao acaso dos achados arqueológicos, atestada somente pelos objetos, não é acompanhada de qualquer proeminência na arquitetura e na decoração; mesmo nos poemas homéricos, onde a lembrança da realidade é ampliada pela imaginação, Agamenon, rei de Argos, ou seja, de Micenas, é apenas temporariamente "rei dos reis", em vista de determinada expedição.

O contraste surge ainda mais nítido quando consideramos os palácios em si mesmos. Antes de tudo, são fortalezas, edificadas numa posição cuja defesa é facilitada pela natureza, mais frequentemente numa eminência que se eleva acima da planície local. O acesso é proporcionado por meio de rampas cortadas em ziguezague, portas, escadas cavadas na rocha e poternas secretas. Em parte alguma poupou-se a pedra para a construção desses muros que os gregos denominarão "ciclópicos", tão formidáveis lhes parecerão os blocos que os compunham: na Beócia, numa ilha (Gla) do Lago Copais, a muralha mede 3 quilômetros de periferia; em Tirinto, nos muros de 6 metros de espessura, abrem-se casamatas.

Impossível, em tais condições, pensarmos numa realeza única, ainda que essa concedesse a vassalos poderosos - senhores "feudais", diz-se frequentemente, porque as fortalezas evocam os burgos medievais - certas partes de seu território. Tanto em princípio como de fato, trata-se de príncipes independentes, entre os quais devemos imaginar rivalidades e, portanto, guerras. A hipótese de uma preponderância honorífica, reconhecida a um deles e que justificasse o seu comando nos empreendimentos coletivos, apóia-se apenas na Ilíada. É possível que a Argólida acabasse por predominar; mas Micenas e Tirinto subsistiram lado a lado, e sua coexistência duradoura, em tal proximidade, coloca um problema insolúvel.

Vemos, na realidade, que esses príncipes amam e praticam com frequência a guerra. Fazem-se sepultar com suas armas, capacetes, pesadas espadas que feriam de ponta e de gume, adagas e piques; pelas representações figuradas, conhecemos também suas couraças e escudos, a princípio muito grandes, abrigando o homem como numa torre, e depois, mais manejáveis, arredondados e de menores proporções. Nos intervalos dos combates, exercitavam, assiduamente, a força física na caça, da qual bem mais do que a arte cretense, que já não as ignorava, a arte micênica da época nos transmitiu cenas de violenta energia. Seu ouro, ao menos em parte, provém de rapinagens. Tudo indica que esses indo-europeus, chegando ao sul da Grécia após mil aventuras desconhecidas, abrindo caminho entre povos há muito sedentários, conservam suas predileções belicosas, combinando-as apenas com o sentido de beleza luxuosa, adquirido no contato com os cretenses. Entre eles, o poder ostenta e usa a força, e das mais brutais.


Fragmento de mural representando guerreiros com capacetes de presa de javali, século XIII a.C., Orcomeno. Artistas deconhecidos

* A aristocracia e as classes trabalhadoras. A sociedade sofreu o contragolpe desse estado de coisas.

Apesar da manifesta vontade de imitação, as menos nas representações figuradas que podiam lançar mão de temas anacrônicos, a vida da Corte foi menos brilhante do que em Creta. As mulheres adotam, para suas vestes, penteados e enfeites, as modas de Cnossos e, em Micenas, um afresco mostra-nos algumas exibindo-se no teatro, no primeiro plano de seus camarotes. Mas abandonam as acrobacias e cabe pensar que diminuiu sua liberdade de atitudes exteriores. Na realidade, a vida no coração dos redutos fortificados que constituíam os palácios - menos de 150 metros de comprimento por menos de 50, em Tirinto - não devia ser alegrada por cerimônias muito galantes. Na realidade, também por causa de seu papel militar, o homem, isto é, o guerreiro, devia impor-se sem dificuldade na vida social. Por analogia com outras sociedades indo-europeias e guerreiras, transpondo-se igualmente alguns traços tomados às sociedades homéricas, imaginaríamos, de bom grado, a existência de grupos de "companheiros" ligados ao príncipe por amizade pessoal, quando não por juramento. Mas isso já seria ultrapassar os limites da nossa documentação direta.

O mesmo de verifica com as relações entre as classes dirigentes e as classes trabalhadoras. Encastelados nas elevações, os palácios lembram-nos abrigos de onde os senhores vigiam e exploram o trabalho de seus servos na planície. Tanto mais quanto surge o problema das relações com mas populações anteriores, cuja conquista não poderia determinar o seu total desaparecimento físico: somos tentados a representar seus sobreviventes e sua posteridade submetidos a um estatuto de estrita dependência. Mas a nossa única certeza é a de que uma muralha externa cerca ao mesmo tempo o palácio e a cidade. Ora, essa muralha possui, muitas vezes, um comprimento restrito (750 metros, em Tirinto; um pouco mais de 1200 em Micenas), o que reduz a pouco a superfície da cidade. Nessas condições, o restante da população dispersava-se pelo campo, ou antes, instalava-se no sopé da colina, correndo para trás dos muros em caso de alerta a fim de se refugiar.

A decifração das tabuinhas escritas em linear B veio ressaltar e completar uma imagem sobre a qual, em dúvida, haviam sido projetadas as recordações de Homero. Elas fazem aparecer uma sociedade hierarquizada, tendo a seu comando um Rei (wa-na-ha = anax em grego clássico e não basileus, que designa "funcionários" locais de escalão inferior) e um "comandante de tropas", mestres de impostos, altos dignitários e responsáveis locais, sacerdotes e sacerdotisas ligados aos santuários e, sem dúvida, comunidades aldeãs (damos). Detalham as tarefas dos escravos e as atividades das profissões (têxtil e couro, madeira e metais, armas e cerâmica, além de ungüentos e perfumes). Mostram os lugares de criação de gado ovino e uma agricultura cuja distribuição de tarefas é ainda discutida, mas que assegura aos chefes e ao clero importantes entregas de trigo e azeite.

* O comércio e a riqueza. O acúmulo desses produtos agrícolas e artesanais nos palácios explica como tais Estados e tal sociedade conheceram a riqueza e a expansão. Lentamente, é verdade, e segundo o exemplo de Creta, que acabaram por suplantar após cerca de dois séculos de aprendizado. Mas sua atividade econômica tomou grande impulso depois da destruição de Cnossos.

Construíram-se estradas e mesmo portos. Os habitantes das fortalezas, todas situadas a certa distância do litoral, não se encontravam tão afastados da costa que não pudessem vigiar a vida marítima e, até mesmo, dela participar. A princípio, praticaram a pirataria e, em seguida, dominaram o mar, passando as expedições comerciais a substituir as incursões de pilhagem. Viagens longínquas, por vezes, somado ao que provinha do Cáucaso e chegando em maiores quantidades, o estanho ocidental facilitou a fabricação do bronze; continuaram a importar - por intermédio de quem? - o âmbar do Báltico, ignorado pelos cretenses, mas cujo pálido e misterioso reflexo os indo-europeus aprenderam a apreciar no decorrer de suas permanências nórdicas. Mas os navios micênicos também singraram os mares próximos; os achados de objetos característicos, que nos fornecem informações seguras, atestam a importância e a ampla dispersão da produção metalúrgica e da cerâmica. Vindos do norte, de um clima mais rude, levaram à Grécia a fíbula metálica que lhes permitia prender as mais pesadas vestimentas: os mediterrâneos adotaram-na. Seus bronzes, suas jóias, suas pedras gravadas e, sobretudo, sua cerâmica com uma decoração cada vez mais estilizada, tendendo ao geometrismo, são encontrados em numerosos lugares: na Sicília e na Itália do Sul, nas Cíclades, na costa da Ásia Menor, em Chipre e, por fim, na Fenícia, onde Minet el-Beida, o porto de Ugarit-Ras Chamra, lhes servia de entreposto tão ativo, que nos é lícito considerá-lo uma espécie de colônia de onde a exportação atinge certos pontos do vale do Eufrates.

Espólio de guerra e pirataria, tributos, indústria e comércio: o resultado foi a riqueza. No mundo grego, nenhum lugar forneceu aos arqueólogos tanto ouro quanto Micenas (14 quilos antes dos achados de 1952). Os gregos guardaram a lembrança desse fausto: nos poemas homéricos, "rica em ouro" é o epíteto de Micenas, despojada com o tempo, transformada num simples povoado do território de Argos. De fato, só com o período helenístico e com o lançamento em circulação dos tesouros persas, verificar-se-á, numa região que o produz, um afluxo análogo do mais precioso dos metais.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 42, 45-9. (História geral das civilizações, v. 2)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cleópatra (69-30 a.C.)

Antônio e Cleópatra, Sir. Lawrence Alma-Tadema. Um casal unido por um amor apaixonante


Filha do rei egípcio Ptolomeu Aulete, nasceu no ano 69 a.C.

O trono do Egito havia sido legado a Cleópatra e seu irmão mais velho, porém com a condição de que eles se casassem. Desejando governar sozinho, Ptolomeu Dionísio exilou a irmã.

Quando César entrou em Alexandria, depois de Farsália, Potium, ministro do Egito, tratou-o com desprezo, sublevando contra ele as tropas aguerridas do Egito e a população da própria cidade.

Em represália, César trouxe Cleópatra para a cidade, introduzindo-a secretamente no palácio. Ptolomeu Dionísio não teve outra alternativa senão a de reconciliar-se com a irmã.

Novamente, porém, o rei egípcio revolta-se contra César, morrendo afogado num combate. Cleópatra sobe então ao trono, casando com seu irmão mais jovem.

César ficou ainda alguns meses no Egito. Quando voltou a Roma, mandou vir a rainha, cuja estátua, feita na época, foi colocada no templo de Vênus.

Com a morte de César, couberam a Antônio os negócios do Oriente. Cleópatra seduziu-o, tornando-o instrumento de suas ambições. Quando Roma o chamou, tomado de paixão, Antônio recusou-se a regressar. Otávio volta-se contra o Egito, e Cleópatra foge seguida por Antônio. Depois da batalha de Accio, retornaram à África. Tentam negociar, porém Cleópatra trai Antônio. Otávio marcha sobre o Egito e a bela rainha entrega-lhe Alexandria, fazendo chegar a falsa notícia de sua morte a Antônio, que se mata.

Depois ela tenta seduzir Otávio, mas nada consegue.

Não querendo servir de ornamento ao triunfo de Otávio, Cleópatra suicida-se com seus hábitos reais, a 15 de agosto de 30 a.C.

CARVALHO, Delgado de. História Geral: Antiguidade. Rio de Janeiro: Record, s.d. p. 267.