"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Brinquedo perigoso

O restaurador, William Hemsley 

“Diga-me com o que brincas e dir-te-ei quem és.” Aproveito o mote para falar mal de Barbie, boneca feita, por incrível que pareça, em uma fábrica de brinquedos dirigida por uma mulher e introduzida nos Estados Unidos por outra. São 29 centímetros de plástico que contém a desmesura do mundo. O modelo incomoda, tanto mais quanto conhecemos a história das bonecas. Encontradas em tumbas egípcias ou em ruínas romanas, as pequenas miniaturas tiveram, por muito tempo, sentido mais religioso do que lúdico. Foi em finais do século XVII, que a preocupação com a educação feminina levou, na Europa, à valorização das primeiras bonecas. Na forma de bebês, elas deviam incentivar os cuidados com a prole, reproduzindo os valores familiares. Brincar de boneca foi, até ontem, um exercício para desenvolver os instintos maternos. Bons tempos em que as bonecas tinham sentido educativo.

Qual o sentido de um arquétipo plastificado em pin-up loura, fria como as neves do norte europeu, num país de mestiços, afogados em suor? Nada além de sublinhar o modelo da juventude americana numa sociedade que já engole lixo cultural suficiente, vindo dos Estados Unidos. Para começar, trata-se de impor um estilo de vida “cor-de-rosa” a toda uma geração de meninas, na sua maioria, pobres: roupas, jóias, maquiagem, tudo de mais supérfluo e descartável. A boneca traduz a ideia de que a mulher deve ser tão improdutiva quanto dispendiosa. Seus saltos altos parecem martelar impiedosamente a necessidade de opulência, de despesas desnecessárias, sugerindo ao mesmo tempo a exclusão feminina do trabalho produtivo e, por conseguinte, a dependência financeira do homem. Nossas filhas são precocemente empurradas para o mundo da riqueza. Barbie ensina-lhes a serem consumidoras e consumíveis pelos homens. Na interação da boneca com a criança, a atenção dada ao aspecto exterior reforça a ideia de que a beleza física é a chave da popularidade e, consequentemente, da felicidade: pernas longas, cintura de pilão, traços delicados, cabelos sempre lisos e louros, seios fálicos como foguetes. Preciso lembrar quantas meninas ficam absolutamente frustradas por não serem assim?

O universo de Barbie, sua casa, seu guarda-roupa, seu carro etc. remete à imagem de uma sociedade que é microcosmo de competição e comparação. Seu mundo é feito de valores materiais, do culto ao dinheiro, das compras sem fim. A caricatura étnica da boneca “morena” só faz acentuar o ideal normativo, em que os traços raciais e outros atributos são apagados. Christie, a amiga negra, não representa a diferença, mas alguém que, diante da loura, está fora da norma. Norma que só satisfaz, sublinhe-se, no narcisismo, no cuidado com a aparência, numa feminilidade sem falhas. Pior: Barbie faz pensar numa geração de mulheres clonadas, perfeitas, incompatíveis com a realidade social, o que, do ponto de vista da ilusão, deve confortar muita mãe inconseqüente.

Falo mal da Barbie para lembrar a mães, educadoras, psicólogas e professoras que somos responsáveis pela construção da subjetividade de nossas meninas. Mas a futilidade de Barbie não exclui a sua utilidade de lembrar-nos que temos de lutar por valores melhores do que o dinheiro ou de desejarmos para nossas filhas outra coisa que tornar-se simples mulheres-objeto.


DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2001. p. 46-7.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A herança medieval no Brasil

Bumba meu boi, Portinari

Mesmo no Brasil, que vivia na Pré-história enquanto a Europa estava na chamada Idade Média, muitos elementos medievais continuam presentes. A colonização portuguesa introduziu práticas que, apesar de já então superadas na metrópole, foram aqui aplicadas com vigor, inaugurando o clima de arcaísmo que marca muitos séculos e muitos aspectos da história brasileira. Luis Weckmann detectou com pertinência a existência de uma herança medieval no Brasil, porém limitou sua presença apenas até o século XVII. E, na realidade, ela continua viva ainda hoje nos nossos traços essenciais.

Os dois elementos culturais que enquadram a consciência de nacionalidade são de origem medieval. O nome de nosso país vem da "ilha afortunada" O'Brazil, identificada nos séculos XIV-XV com as Canárias, antes de sê-lo com a América. A tradicional associação da terra descoberta por Cabral com a madeira tintorial aí encontrada (o pau-brasil) desconsidera que a própria madeira tirara seu nome da mítica ilha medieval. O idioma, obviamente, é aquele introduzido e imposto pelos colonizadores, idioma que, como todos os do mundo ocidental, nascera na Idade Média.

Na vida política, a duplicidade de um poder central teoricamente forte e a realidade dos poderes locais atuantes permanece. O ponto de partida, que deixou fundas raízes, foi o sistema de capitanias. Isto é, o sistema usado pelas comunas italianas medievais nas suas colônias do Oriente Médio e das ilhas mediterrâneas, mais especificamente por Gênova, que nos séculos XIV-XV mantinha estreitas relações com Portugal. As primeiras capitanias portuguesas, nas Ilhas Canárias, foram entregues em 1370 a um "capitão" genovês. O funcionamento do sistema foi o mesmo na Idade Média e nos séculos XVI-XVII: cada donatário tinha o usufruto das terras e nelas poderes regalianos como arrecadar impostos, aplicar justiça, convocar milícias. Intermediária privilegiada entre o poder monárquico e os colonos, a figura do donatário gerou no Brasil o personalismo típico das relações medievais, responsável pela fraqueza das instituições políticas brasileiras dos séculos seguintes.

Na vida social, por muito tempo, e ainda hoje em certas regiões, prevaleceu a família patriarcal, que dificulta a transformação do indivíduo em cidadão, dos interesses particulares em interesses gerais e, por consequência, a consolidação do Estado. O patriarca - termo correspondente linguística e funcionalmente ao senior ("o mais velho") feudal - constituía-se em suas amplas terras uma espécie de micro-Estado que produzia quase todo o necessário para a vida de sua população. O patriarca detinha ali poder de vida e morte sobre seus familiares. Dependentes das riquezas e da proteção fornecidas pelo patriarca, os demais habitantes daquela terra também estavam submetidos ao seu poder. Essa organização colonial e imperial transferiu-se para a República, por longo tempo dominada por aqueles aristocracias regionais. Mesmo a democratização recente do país não eliminou ainda o clientelismo e seu pressuposto, a prática do "dando é que se recebe".

No plano jurídico. as normas formalmente derivadas do Direito Romano não escondem a força de um direito consuetudinário informal, paralelo, de um conjunto de ilegalidades socialmente aceitas. Estas quase sempre são praticadas em detrimento do Estado, cotidianamente assaltado nas suas prerrogativas, muitas vezes por dentro, por parte de altos funcionários e dos próprios governantes. Como na época feudal, o Estado brasileiro não é uma "coisa pública" (res publica), é propriedade dos mais fortes e espertos. Ao longo de nossa história pouco se distinguiram as noções de público e privado, da mesma forma que ocorria na sociedade feudal, na qual tudo é privado e ao mesmo tempo tudo se torna público.

No plano econômico, a situação brasileira, fundamentalmente agrária até meados do século XX, denuncia o passado medieval transplantado pelos portugueses e prolongado pelo sistema colonial mercantilista e pelo neocolonialismo industrial. Da mesma forma que o sistema de valores medieval exaltava a aventura do cavaleiro andante, o destemor religioso do cruzado, o espírito de risco do mercador que partia para locais distantes, por muito se desprezou no Brasil o trabalho cotidiano e rotineiro. A ocupação do solo e a exploração das riquezas naturais deram-se, no Brasil "moderno" e "contemporâneo", de forma predatória semelhante à praticada na Europa "medieval". Associada ao caráter agrário da sociedade, a urbanização europeia fora fraca até o século XI, a brasileira até fins do século XIX.

No plano cultural, apesar da globalização neste início de milênio, alguns elementos medievais ainda são visíveis. Artur e Carlos Magno estão presentes com frequência na literatura nordestina de cordel, cujo espírito, temática, transmissão e recepção essencialmente orais prolongam a poesia europeia da Idade Média no Brasil do século XX. Mesmo certas criações eruditas do Nordeste, como os textos de Ariano Suassuna e as músicas de Elomar,, bebem fundamentalmente de fontes medievais. O calendário brasileiro atual tem 14 feriados oficiais, dos quais 11 são de origem medieval. Festas como o Carnaval, no Rio de Janeiro e no Nordeste, o Bumba meu boi, em São Luís do Maranhão, a Procissão de Círio, em Belém do Pará. têm inegáveis raízes medievais.

A religiosidade nacional, sincrética, exacerbada, informal, traz em si diversos traços medievais: as irmandades. o culto a santos não canonizados (caso de Padinho, o padre Cícero), a visão mágica de sacramentos (roubar hóstias consagradas para fazer amuletos foi comum na Europa medieval e no Brasil colonial), o sentimento messiânico-milenarista (como mostram o sebastianismo, Canudos, certos eventos políticos recentes), várias superstições (espelho quebrado, saliva cura e mata, pé direito etc.). O processo de formação do catolicismo brasileiro também lembra o fenômeno na Idade Média. Nesta ocorreu uma cristianização do paganismo e uma paganização do cristianismo, no Brasil uma cristianização do culto africano e uma africanização do cristianismo. A sensibilidade coletiva brasileira é de forte instabilidade emocional, oscilando do pessimismo mais negro ao otimismo mais eufórico, semelhante ao constatado por Marc Bloch na Europa feudal.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 168-170.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Eleições do ódio

Por Orides Maurer Jr.*

Proclamação da República, Benedito Calixto

“Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.”
(Eduardo Galeano)

Pela primeira vez na história política da sociedade brasileira uma eleição presidencial deixou marcas profundas de ódio, rancor e acirrou os ânimos de toda a sociedade. Por que? Porque nossa tão cantada “democracia” é mero palavrório. A ditadura militar implantada em 1964 e parcialmente finalizada em 1985 foi um momento histórico onde as massas – depois das manifestações pró-Diretas-já - foram alijadas de toda participação popular. As primeiras eleições para presidente pós-ditadura ocorreram ainda através do voto indireto dos congressistas e muito do entulho da legislação anti-democrática permanece, incluindo práticas de tortura.

Historicamente, nosso país se “uniu” para manter as fronteiras nacionais, mesmo tendo alijado de suas terras os povos indígenas, massacrado comunidades quilombolas e pobres. Hoje vemos ressuscitarem movimentos nazi-fascistas como ‘O SUL É MEU PAÍS”, “A RAÇA PAULISTA” e assemelhados sem fundamentação científica, meras cópias de uma das ideologias mais trágicas da história da humanidade. Pobre país o nosso. Continuamos a pagar um preço alto em termos civilizatórios por temos tido uma ditadura que estuprou, torturou, matou e massacrou uma sociedade inteira em nome da ideologia da “ordem e do progresso”.

Temos uma formação étnico-cultural de várias matizes: indígenas, africanas, europeias e, mais recentemente, asiáticas. Formação essa que, em toda a história brasileira, sempre foi escravizada, vilipendiada e manipulada pelas elites.  Na Colônia eram os portugueses; no Império, os britânicos; e na República, os norte-americanos, os europeus e os interesses de todos os bancos internacionais, do agro-negócio, mídias podres e partidos políticos que defendem todos os interesses dos grupos citados.

E as eleições de outubro de 2014 trouxeram à tona a questão do “outro” e os velhos ódios conhecidos em outras plagas que aqui também se aportaram e ganharam força nessa disputa eleitoral. Veja-se, por exemplo, a atual composição político-partidária do Congresso eleito: é o mais conservador e fundamentalista em toda a história republicana, com pautas que colocam o país fora da rota do mundo civilizado.

E, somando-se a todos esses fatores, continuamos vivendo e nos aprofundando numa crise ética que vem desde os tempos coloniais, com escândalos de corrupção, crise sócio-econômica, resultado de um modelo imposto pelos donos do capital internacional que não visa dar conta aos anseios de antigos e novos movimentos sociais e populares.

Um quadro de confronto – sem visão crítica da verdadeira história brasileira - é extremamente perigoso para o esfacelamento de toda a sociedade. A história já demonstrou que todas as sociedades que passaram por uma guerra civil ficaram com feridas abertas até o presente. Um exemplo clássico é a Guerra Civil Norte-Americana, ocorrida na segunda metade do século XIX, cujas sequelas ainda se fazem presente no país que é considerado uma democracia estável e uma das potências mundiais.

Um pequeno grupo fundamentalista, racista, homofóbico, misógino coordena e insufla multidões através das câmaras legislativas estaduais e federais e senado, de seus púlpitos, de suas redes de rádio e TV, jornais, panfletos, revistas, redes sociais... e, por termos uma sociedade manipulada, com pouco grau de senso crítico – haja vista que a própria população não reivindica uma Educação pública de qualidade -, e do mesmo modo para outras questões (saúde, segurança),  acaba buscando refúgio e aceitando as “mentiras” que parecem “verdades”.

Aí mora o perigo. O perigo de jogar irmão contra irmão, Estado contra Estado, levando a uma guerra generalizada e de consequências catastróficas para toda a sociedade, acirrando ainda mais os ânimos. Há outras soluções possíveis. E a principal passa pelos interesses de toda uma sociedade e não de políticos – e partidos, instituições... – com interesses pessoais.

Uma sociedade justa, humana, fraterna, solidária deve ser a meta de todo povo brasileiro. Não podemos ficar brigando por motivos vaidosos e mesquinhos. O grande inimigo da nação não é a PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. São os grupos acima citados que governam o país através de seus representantes políticos. A maioria deles eleita pela população. O que fazer? Apenas destituir um Presidente é a solução? Vide o último presidente deposto: Collor.

Por sermos um país de dimensões continentais e de formação étnico-cultural tão diversa e falarmos a mesma língua deveríamos ser o grande exemplo de democracia e convivência pacífica e solidária para o mundo civilizado. E não o contrário.

Que a história seja passada a limpo!

Que prevaleça o bom senso!


* Orides Maurer Jr. é historiador e autor dos blogs "História e Sociedade" e "Private Life".

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Por que globalizar a cultura? [II- Uma revolução cultural rica e abortada]

Cena do filme Deus e o diabo na terra do Sol, dir. Glauber Rocha

Houve um momento em que se reagiu contra essa penetração ideológica estrangeira.

Foi nas décadas de 1950 e 1960 quando o Cinema Novo produziu algumas películas marcantes. Nelas, havia grande preocupação com o conteúdo social. Foram feitos filmes que alcançaram projeção internacional.

É o caso de Rio, 40 graus e Rio, Zona Norte. Ambos tratam da população mais pobre da cidade do Rio de Janeiro. Tiveram a direção de Nelson Pereira dos Santos. Como esquecer O pagador de promessas? Nele, Anselmo Duarte conta a história do caboclo Zé do Burro. É um tema nacional porque mostra o sincretismo religioso dos caboclos e a intransigência da Igreja Católica.

Na época, Glauber Rocha dizia: "Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça." Quem sabe você já assistiu a uma das suas grandes realizações, chamada Deus e o diabo na terra do sol?

Clubes de cinema, congressos e entidades como o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes, lutaram pela valorização de questões nacionais! [...]

O teatro igualmente deu sua contribuição. Multiplicaram-se os teatros de bolso, cobrando ingressos mais baratos. O Tablado, de Maria Clara Machado, o Teatro de Arena, de Gianfrancesco Guarnieri, e o Grupo Oficina valorizaram antigos e novos autores de peças nacionais. Apresentaram muitos textos políticos!

Dessa época são duas das maiores peças teatrais produzidas entre nós: Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, e Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho, o popular Vianinha.

Vianinha, com João das Neves, Augusto Boal e outros, fundou o CPC, em dezembro de 1961. Esse órgão da UNE foi um dos focos dessa revolução cultural. Peças teatrais foram levadas aos sindicatos. Fizeram-se documentários abordando questões econômicas e sociais da realidade brasileira. Distribuíram-se livros, discos e revistas tratando da dívida externa, da reforma agrária e do dia a dia do brasileiro. Editaram-se livros de poesia e de literatura de cordel. Músicas de protesto, como Subdesenvolvido e O povo canta, foram popularizadas.

Essa renovação da cultura brasileira sob uma visão nacional também se deu na revalorização do samba. Muito significativa é a crítica apresentada por Wilson Batista e Roberto Martins. Está presente no samba Pedreiro Waldemar. Veja a letra:

Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece
mas eu vou lhe apresentar.
De madrugada toma o trem da circular
faz tanta coisa e não tem casa pra morar.

Em 1960, uma autoridade da cidade do Rio de Janeiro propôs fossem as favelas pintadas. Considerando serem inevitáveis, os barracos nela existentes deveriam ser coloridos. De imediato, Jota Júnior e Oldemar Magalhães deram a resposta:

Favela amarela...
Ironia da vida.
Pintem a favela
Façam aquarela
Da miséria colorida!

Este samba, "Favela amarela", foi bastante cantado no Carnaval de 1960.

Aí veio a longa noite dos generais: a ditadura militar.

A UNE foi fechada. O CPC acabou. A censura e a repressão física chegaram. Muitos acabaram presos. Essa renovação foi sufocada.

Mesmo assim, Zé Kéti ainda conseguiu divulgar seu protesto no samba "Opinião":

Podem me prender.
Podem me bater.
Podem até deixar-me sem comer
que eu não mudo de opinião!

[...] Apesar da influência da Jovem Guarda, foi rica a produção de melodias ligadas às tradições brasileiras. Nos festivais de música popular, realizados nas emissoras de televisão, havia verdadeira guerra entre os sambas e as músicas mais ou menos politizadas. Como titular de programa da TV Record, de São Paulo, desde 1969 destacou-se a Jovem Guarda. Dela participavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia e outros. Em suas músicas, as letras eram românticas ou reproduziam as angústias da classe média. Muitas delas foram feitas para ganhar festivais, pois o grupo também participou do Festival da Música Popular Brasileira, em 1967.

Essa corrente tinha letras despolitizadas. Era um verdadeiro contraste com as músicas de protesto.

De que vale o céu azul
E o sol sempre a brilhar
Se você não vem
E eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você
me aqueça neste inverno
e que tudo mais vá pro inferno.
(Quero que vá tudo pro inferno, canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Outra linha musical "tinha como características a marca regional, o acento nordestino e a ausência de conotação urbana". Essa análise é de Martha San Juan França. [...]

[...]

Foi nesse contexto que explodiu uma reação de grande impacto: o Tropicalismo. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e outros artistas, muitos deles baianos, provocaram verdadeiro escândalo. Por vezes, apresentavam-se acompanhados de conjuntos tocando guitarras elétricas.

Na História social da música popular brasileira, o crítico José Ramos Tinhorão afirma que os tropicalistas renunciaram a qualquer questionamento político-ideológico. Textualmente declara que os tropicalistas "acabaram chegando à tese que repetia no plano cultural a do governo militar no plano político-econômico. Ou seja, a tese da conquista da modernidade pelo simples alinhamento às características do modelo importador de pacotes tecnológicos prontos para serem montados no palco".

[...]

Mesmo assim, Alegria, alegria, de Caetano, e Domingo no parque, de Gil, foram bastante populares na época, principalmente entre os jovens. Para algumas pessoas, aquela música de Caetano era uma crítica à alienação.

Apesar da feroz censura, a resistência à ditadura militar e aos estrangeirismos produziu melodias de grande sensibilidade e beleza. As críticas não deixavam dúvidas da posição política dos autores.

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente, olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo o troco...
(Pesadelo, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós)

Mas as expressões máximas desse período foram certamente Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda, Torquato Neto, Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, Ivan Lins, Taiguara e Jards Macalé. Esses artistas chegaram a ser considerados malditos. Tiveram músicas censuradas. Alguns partiram para o exílio.

[...]

Vandré compôs uma melodia cheia de frases-denúncias e de estímulo à luta: Caminhando - Pra não dizer que não falei de flores. Foi uma loucura em um dos festivais da canção. Centenas de pessoas logo repetiam a letra, entoando a melodia.

Caminhando e cantando
E seguindo a canção.
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos,
De armas na mão.
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição.
De morrer pela pátria
E viver sem razão [...]

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer.

Militares até pediram a prisão de Vandré.

Felizmente, a sensibilidade e a coragem de um punhado de artistas resgatavam os valores e a riqueza da cultura nacional. Eles e muitos outros continuaram a resistir. A denunciar a violência existente.

[...]

Quase ao findar a década de 1970, a censura deixou passar uma canção marcante. Melodia belíssima. Notável interpretação de Elis Regina. Letra de alegorias, mal disfarçando as denúncias e críticas à ditadura existente. Às atrocidades cometidas. Às mulheres viúvas de opositores assassinados. Uma mensagem plena de esperança no amanhã. Na volta da democracia. No retorno daqueles que partiram. Exilados ou banidos.

O bêbado e o equilibrista, canção de Aldir Blanc e João Bosco, em 1979, tornou-se verdadeiro hino do Movimento pela Anistia.

E nuvens
lá no mata-borrão do céu
chupavam manchas torturadas,
que sufoco!
[...] Chora
a nossa pátria-mãe gentil
[...] com a volta do irmão do Henfil
com tanta gente que partiu
num rabo de foguete.
[...] Azar,
a esperança é equilibrista,
sabe que o show de todo artista
tem que continuar.

É fundamental multiplicarmos o número de artistas cada vez mais conscientizados da necessidade de lutar. Lutar contra a globalização da cultura e da sociedade brasileira.

Globalização que, na realidade, é a nova face do imperialismo.

[...]

Não podemos contar com a grande maioria das autoridades. Ela está preocupada em subvencionar os Rock' in Rio, Hollywood Rock, Free Jazz. O domínio da opinião pública pelos meios de comunicação e gravadoras multinacionais busca impor sons musicais contaminados pelo popularesco.

As emissoras de rádio e televisão inundam o país com os sons de conjuntos impregnados por esses sons. [...]

[...] a política dos meios de comunicação não visa apenas a compor gostos, modas. Criar sucessos. Seu objetivo real é alienar. [...]

[...]

Apesar dessa massificação o rap tem invadido as cidades, descendo do morro ou da periferia, com músicas de duvidosa qualidade. Algumas delas, no entanto, constituem verdadeiros protestos políticos e sociais.

Felizmente um Zeca Pagodinho, um Bezerra da Silva, uma Beth Carvalho, um Renato Russo, um Paulinho da Viola, um Nelson Sargento ainda sustentam a bandeira da genuína MPB. Sem perder a beleza da melodia, nem a malemolência do ritmo, suas músicas contêm frases-denúncia da realidade brasileira.

A injustiça impera na face
da Terra
A miséria sempre gera guerra
Por isso existem os conflitos
sociais
E as nossas crianças nas ruas
estão desamparadas
(Juiz de toda humanidade, samba de Bicalho e Capri. Canta Bezerra da Silva)

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 166-175.

domingo, 4 de novembro de 2012

Por que globalizar a cultura? [I - Pra inglês ver]

Forget not me
Of...
I love you!
Abacaxi... whisky
off chuchu...
malacacheta; independence day
no street-flesh me estrepei...
Elixir de inhame
reclame de andaime
mon Paris je t'aime
sorvete de creme...
My girl good night...
oi!
double fight.
Isso parece uma canção de Oeste
coisas horríveis lá no far west.


Coisa mais louca você acabou de ler, não lhe parece?

Verdadeira salada de palavras! Muitas em português! Muitas em inglês! E até em francês!

Esses versos absurdos são de uma música de Lamartine Babo chamada Canção para inglês ver. Composta em 1934, representava uma crítica ao crescente emprego de palavras e expressões estrangeiras no falar do brasileiro.

Era uma denúncia à penetração de uma cultura vinda de fora que superava cada vez mais nossos valores culturais.

O linguajar do brasileiro foi mudando, sendo os filmes feitos em Hollywood um dos meios que contribuíram para essas mudanças.

Noel Rosa, talentoso compositor e observador dos costumes de sua época, registrava a mania do brasileiro de falar inglês por influência do cinema. Assim foi no samba "Não tem tradução", que é de 1933.

O cinema falado
É o grande culpado da transformação
[...] A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou.
Mais tarde o malandro deixou de sambar
Dando pinote
E só querendo dançar o fox-trot!

Como verdadeira pororoca, as palavras inglesas invadiram o nosso Brasil, que muitos já escrevem Brazil! E essa invasão de palavras foi paralela à invasão do capitalismo norte-americano! [...]

Atualmente ninguém mais pede lâmina de barbear! Tudo é gilete, marca de produto norte-americano. Máquina de costura virou singer. Corretor agora é liquid paper!

O antigo rabo-de-galo se americanizou e se chama cocktail. Futebol de praia se transformou em beach soccer. Não se pede uma bebida leve, mas sim um drink.

Nos dias atuais, com os progressos da tecnologia, tem aumentado o uso de palavras escritas em inglês. Muitas nem constam de dicionários. É um tal de designer, site, chip, hardware, software, on-line, hackers! Já se fala até em plugar e deletar. São duas palavras aportuguesadas do inglês plug e delete.

Com a televisão então o consumismo de produtos e palavras inglesas mais aumentou. Como aponta Júlia Falivene Alves [...]: "Certos alimentos habituais nos USA, de tanto se tornarem presentes em nossas refeições diárias, foram aos poucos adquirindo aos nossos olhos ares de verdadeiras 'instituições nacionais', comparáveis até ao feijão com arroz e ao café com leite. O consumo de Coca-Cola e de outros refrigerantes, sucos artificiais, catchup, milk-shake, sundaes e outros comes e bebes desse gênero já passou a fazer parte da 'rotina digestiva' de milhões de brasileiros, sobretudo dos que vivem no eixo centro-sul do país."

E tem mais americanice nos bang bang, bad boy, playboy, jeans, beer, disk jockey, care free, long play, compact disk ou CD.

Você liga o rádio e quase que só ouve música norte-americana: rock' n' roll, bebop, jazz, blues, soul, funk, swing. [...]


Elvis Presley, anos 1950


Uma das razões está no fato de as gravadoras serem multinacionais, predominantemente norte-americanas: EMI, Capitol, RCA Victor, CBS, Philips, WEA...

O mais grave é que são tornadas populares músicas que apelam para o breganejo e a breganagem. Nesta, se exaltam o tcham, a dança da garrafa...

[...]

Quem sabe, preocupado com o que está abrindo seus olhos, você não vai acender um cigarro? Não é mais o velho cigarrinho de palha, preparado com suas próprias mãos. Agora o cigarro-veneno que você põe à boca tem um nome estranho! Chama-se Pall Mall, Charm, Free, Hollywood, Marlboro, Carlton!

Essa penetração consumista, nem sempre visível e sempre alienante, representa uma hábil manobra do imperialismo para consolidar a dominação econômica.

Já na década de 1930, essa mundialização do americanismo no Brasil e no mundo, além do cinema falado, começava pela base da própria sociedade: as crianças!

Como pôde isso ocorrer?

Através de histórias em quadrinhos! Nestas, os super-heróis eram identificados com o bem, a justiça, a coragem, a proteção aos mais fracos, o combate ao crime.

E, não por acaso, na sua imensa maioria, esses personagens eram nascidos nos Estados Unidos. [...] Popeye, Batman, Super-Homem, Capitão Marvel, Mandrake, Capitão América eram norte-americanos.

[...]

Você deve estar pensando que havia histórias em quadrinhos bem diferentes. Sem propaganda camuflada. Logo se lembra do Pato Donald, do Mickey, do Tio Patinhas...

Pois bem, esses personagens foram criados por Walt Disney. Este trabalhou para o governo dos Estados Unidos! Suas historinhas não são inocentes! O Tio Patinhas, com seu amor ao dinheiro, no fundo, exalta o capitalismo. Já o Mickey é todo certinho e amigo do chefe de polícia. Identifica-se com a ordem existente e a necessidade de buscar apoio das autoridades. O Pato Donald, solteiro e namorado da Margarida, tem três sobrinhos de pais que nunca apareceram. Parece até que nasceram por geração espontânea, sem relacionamento sexual.

[...]

Em um desenho animado chamado O rei leão pelos estúdios Walt Disney, o leão bom tem pêlo claro. O mau, tem juba negra e pêlo escuro. Seus amigos são hienas, também escuras. E nós, adultos e crianças, achando que desenho animado é coisa inocente!

Antes era o cinema. Isso aumentou com a televisão e o vídeo. Nos programas, nos filmes e até nos desenhos animados. Os Simpsons e os Flinstones são famílias norte-americanas. Passam os valores da sociedade norte-americana. E que valores! Basta ver quanta violência nos filmes! Melhor ainda: reparem a quantidade de filmes norte-americanos mostrados em nossas emissoras de televisão. Ou à disposição em vídeo.

E fica a pergunta no ar: mundialização, globalização da cultura não constituem uma subordinação aos Estados Unidos?

A sociedade brasileira está cada vez mais mcdonaldizada! Qualquer dia, na marcha de aceleramento americanizado, o campo, o sertão, a floresta terão McDonald's para vender hamburger, cheeseburger, McFish, McChicken, com Coca-Cola!

Para Júlia Falivene Alves, "essa espécie de 'segunda pele' que nós brasileiros vestimos tem tornado cada vez mais difícil a procura, a determinação, o reencontro ou a elaboração da nossa própria identidade cultural". [...]

Até que ponto continuaremos a consumir falas, maneiras de vestir, hábitos alimentares, a agir como se norte-americanos fôssemos?

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 157-164.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Independência... para quem?

José Bonifácio, a fundação da Pátria, Eduardo de Sá. 
[Obra idealizando as "três raças" na formação do Brasil]

D. João VI retornou a Portugal mas deixou para governar o Reino do Brasil um príncipe-regente. Era seu filho, um jovem português de 21 anos, D. Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.

Uma das missões de D. Pedro era evitar que o Brasil se separasse de Portugal. Pouco a pouco, no entanto, D. Pedro foi se ligando aos fazendeiros do Sudeste, que tinham progredido com a vinda da Corte e com a abertura dos portos.

Estes fazendeiros, mais alguns funcionários do Reino do Brasil e grupos influentes do Rio de Janeiro e de São Paulo - padres, doutores, jornalistas e oficiais - organizaram um movimento para lutar contra a recolonização do Brasil: era o Partido Brasileiro. Não era um Partido como os de hoje, com ideias colocadas no papel, pessoas filiadas e dirigentes eleitos. Era mais um grupo de pressão que, com o tempo, foi se agarrando a um desejo maior: a independência.

Dentro do Partido Brasileiro havia dois grupos. O mais forte, formado por fazendeiros do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais: era chamado de grupo aristocrata. Seu líder era José Bonifácio. O outro grupo, com menos influência, era o dos democratas. Para esses, a independência só seria completa se o povo pudesse participar no novo governo. Um dos seus maiores líderes era Gonçalves Ledo.

As preocupações com os rumos do Brasil cresciam em Portugal. Afinal de contas, a rebeldia tomava conta do próprio representante do governo português aqui, o príncipe-regente D. Pedro...

- D. Pedro está se perdendo! Ele precisava vir a ilustrar na Europa, pois tem nome comprido e ideias curtas! Está se envolvendo com aventureiros, Majestade!

Corria o ano de 1822: os conflitos cresciam. De um lado, D. Pedro e o Partido Brasileiro. De outro, D. João VI e as Cortes de Lisboa, que desejavam a recolonização do Brasil.

As Cortes não davam sossego ao príncipe-regente: queriam seu retorno imediato, mandaram tropas para cá, substituíram os governos das províncias que não eram fiéis a Portugal. Fizeram de tudo para submeter o Brasil.

Na tarde do dia 7 de setembro essa luta teve o seu desfecho. Quando descansava de uma viagem às margens do riacho Ipiranga, perto da cidade de São Paulo, o príncipe recebeu um ultimato das Cortes. Elas exigiam, mais uma vez, o seu regresso. Influenciado pelo Partido Brasileiro de José Bonifácio, D. Pedro desobedeceu e preferiu romper de vez com o governo de sua terra natal:

- Laços fora, soldados! As Cortes perseguem-me, chamam-me com desprezo de "rapazinho" e "brasileiro". Pois verão agora quanto vale o "rapazinho"! De agora em diante, nossa divisa será: "Independência ou Morte"!

Independência e mortes, que fique bem claro. Depois do grito do príncipe, algumas de nossas províncias transformaram-se em sangrentos campos de batalha. No Grão-Pará, Maranhão, Piauí, Bahia e Província Cisplatina (atual Uruguai) as tropas brasileiras, com a ajuda de muita gente do povo, tiveram que expulsar, com armas na mão, as forças portuguesas que não aceitavam a independência.

Ao príncipe, porém, não interessava que o rompimento fosse total. Afinal, quem governava Portugal era seu pai... E era preciso ter cuidado com os republicanos, que queriam a independência e a cabeça do rei! Era necessário, pois, formar um governo moderado, que confirmasse a separação, mas garantisse a "ordem" e a autoridade.

O homem forte do país que nascia era José Bonifácio, mas ele não tinha as mesmas ideias de Tiradentes, nem dos revolucionários baianos:

- Nunca fui nem serei realista puro, mas nem por isso irei me abrigar debaixo das esfarrapadas bandeiras da suja e caótica democracia.

Assim nascia o país Brasil. De um lado, homens como José Bonifácio, ligado aos "aristocratas". Eles formavam o grupo de maior influência no governo do imperador D. Pedro I, pois tinham conseguido enfraquecer mais ainda os democratas, muitos dos quais foram presos ou expulsos do país. De outro, a numerosa massa de trabalhadores escravos e livres, sem voz nem vez. A independência não mudou a vida desses milhões de brasileiros!

A independência também não acabou com o domínio inglês por aqui. Maria Grahan, uma inglesa que visitou a nova nação, comentou em seu livro sobre o Brasil: "Os habitantes em geral, mas especialmente os comerciantes estrangeiros, estão bem satisfeitos por verem as tropas de Lisboa despedidas".

As mercadorias chegavam do Reino Britânico em grande quantidade. Em cada porta de loja, o anúncio:

SUPER FINO DE LONDRES:
algodão estampado, panos largos,
louças de barro, ferragens de Birmingham.

Assim nascia o Brasil independente...

E a escravidão acabou? Os governantes seriam eleitos pelo povo, como já acontecia nos regimes republicanos? Terminaram os latifúndios, que deixavam muita terra nas mãos de uns poucos donos? A produção aumentou, alimentando melhor o povo ao invés de ficar no açúcar e ouro para exportação? Surgiram fábricas e manufaturas? A vida cultural se dinamizou, com o surgimento de artistas nossos, que levassem para todos a arte popular?

Ou ficava tudo como dantes no quartel de Abrantes?

ALENCAR, Chico et alli. Brasil Vivo 1: uma nova história da nossa gente. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 83-84.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Corpo a corpo com as mulheres

Jovens mulheres tomando banho, Henri-Pierre Picou 

Produto social, produto cultural e histórico, nossa sociedade fragmentou o corpo feminino e o recompôs, regulando seus usos, normas e funções. Nos últimos cem anos, a mulher brasileira viveu diversas transformações físicas. Viu ser introduzida a higiene corporal, que alimentada pela revolução microbiológica transformou-se numa radicalização compulsiva e ansiosa. Acompanhou a invenção do batom, em 1925, do desodorante, nos anos 1950. Nos anos 1920, cortou os cabelos "à la garçonne", gesto sacrílego contra vastas cabeleiras do século XIX. O aprofundamento dos decotes levou-a a aderir à depilação. O espartilho, graças ao trabalho feminino nas fábricas, diminuiu e se transformou em sutiã para possibilitar maior movimentação dos braços. "Manter a linha" tornou-se um culto. A magreza ativa foi a resposta do século XX à gordura passiva da belle époque. O jeans colado e a minissaia sucederam, nos anos 1960, o erotismo da mão na luva e das saias no meio dos tornozelos característicos dos anos 1920. Com o desaparecimento da luva, essa capa sensual que funcionava ao mesmo tempo como freio e estímulo do desejo, surgiu o esmalte de unhas. No decorrer do século XX a mulher se despiu. O nu, na mídia, nas televisões, nas revistas e nas praias, incentivou o corpo a desvendar-se em público, banalizando-se sexualmente. A solução foi cobri-lo de cremes, vitaminas, silicones e colágenos. A pele tonificada, alisada, limpa, apresenta-se idealmente como uma nova forma de vestimenta, que não enruga nem "amassa" jamais. Uma estética esportiva voltada ao culto do corpo, fonte inesgotável de ansiedade e frustração, levou a melhor sobre a sensualidade imaginária e simbólica. Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho. "Liberar-se" tornou-se sinônimo de lutar, centímetro por centímetro, contra a decrepitude fatal e, agora, culpada, pois o prestígio exagerado da juventude tornou a velhice vergonhosa.

O corpo feminino passou também por uma revolução silenciosa nas últimas três décadas. A pílula anticoncepcional permitiu-lhe fazer do sexo não mais uma questão moral, mas de bem-estar e prazer. A mulher tornou-se, assim, mais exigente em relação ao seu parceiro, vivendo uma sexualidade mais ativa e prolongada. Entre os sexos surgiram normas e práticas mais igualitárias. A corrente de igualdade não varreu, contudo, a dissemetria profunda entre homens e mulheres na atividade sexual. Quando da realização do ato físico, desejo e excitação física continuam percebidos como domínio e espaço da responsabilidade masculina. O casal raramente reconhece a existência e a autonomia do desejo feminino, obrigando-o a esconder-se atrás da capa da afetividade. A famosa "pílula azul", o Viagra, só veio a reforçar o primado do desejo masculino, explicitando uma visão física e mecanicista do ato sexual, reduzido ao bom funcionamento de um único órgão. Revanche masculina contra o "domínio de si" que a pílula anticoncepcional deu à mulher?

O espaço privado no qual tais mudanças se impuseram também mudou. A brasileira saiu do campo e veio para a cidade. Teve de mudar o corpo e alma. Em meio à solidão da grande cidade, ao trânsito, à corrida contra o relógio, aprendeu a sonhar com a emoção do sentimento sincero, com o fantasma da interação transparente e fusional. Leu preferencialmente romances e livros de auto-ajuda, sempre à espera de um príncipe encantado que a levasse de volta ao século XIX. Mas aprendeu também que, neste mundo de competição e trabalho, os sentimentos intensos demais provocam horrível embaraço, e que as lágrimas e a dor devem se submeter a implacável discrição afetiva; a um tal de "self control". Sob o choque da modernidade capitalista, ela viu igualmente a família se modificar. A crescente dissolução de casamentos que duram cada vez menos, o aumento de divórcios que não impedem ninguém de recomeçar constituíram-se em novo cenário para as relações afetivas. É o fim de um mundo constituído por vastas parentelas, famílias enormes, sobrinhos e afilhados reunidos nos domingos para o almoço; onde residem tensões mas também, e sobretudo, solidariedades. Ocupando cada vez mais os postos de trabalho, a mulher vê-se na obrigação de buscar um equilíbrio entre o público e o privado. Tarefa fácil? Não. O modelo que lhe foi oferecido como exemplo, até bem pouco tempo atrás, era o masculino. O modelo feminino de supermulher dos anos 1980, calcado sobre um modelo de forte investimento profissional e de competição, era o de "um homem como nós", como diriam alguns patrões. Mas a "executiva de saias" não deu certo. Isso porque são numerosas as dificuldades e os sacrifícios da mulher quando ela quer conciliar seus papéis familiares e profissionais. Ela é obrigada a utilizar estratégias complicadas para dar conta do que sociólogos chamam de "dobradinha infernal". A carga mental em que se constituem as imbricações e sucessões de atividades profissionais, o trabalho doméstico, a educação dos filhos é mais pesada para ela do que para o homem. Quando quer investir profissionalmente, ela acaba por hipotecar sua vida familiar ou usar todo tipo de astuciosa bricolagem, sacrificando o tempo livre que teria para seu prazer e seu lazer e que poderia ser vivido na esfera doméstica. Muitas mulheres, menos afortunadas, são assim empurradas para uma pesadíssima jornada de trabalho

O diagnóstico das revoluções femininas no século XX é, por assim dizer, ambíguo. Ele aponta para conquistas, mas também para armadilhas. No campo da aparência, da sexualidade, do trabalho e da família houve conquistas, mas também frustrações. A tirania da perfeição física empurrou a mulher não para a busca de uma identidade, mas de uma identificação. A revolução sexual eclipsou-se diante dos riscos da aids. A profissionalização, se trouxe independência, trouxe também estresse, fadiga e exaustão. A desestruturação familiar onerou sobretudo os dependentes mais indefesos: os filhos. Como lidar com essas tensões? Em países onde tais questões já foram discutidas há algum tempo, a resposta veio como proposta para o século XXI: uma nova ética para a mulher. Que ética seria essa?

Uma ética baseada em valores absolutamente femininos. Me explico. De Mary Wollstonecraft, no século XVIII, à Simone de Beauvoir nos anos 1950, o objetivo do feminismo foi provar que as mulheres são "homens como os outros" e devem, consequentemente, beneficiar-se de clientes iguais. Todavia, numerosas vozes levantaram-se, no final do último milênio, para denunciar os conteúdos abstrato e falso dessas ideias. Elas nunca levaram em conta as diferenças concretas entre os sexos, incentivando as mulheres a conformar-se a um modelo concebido por e para homens. Para lutar contra a subordinação das mulheres, essa nova ética considera que não se deve implicitamente adotar os valores masculinos para parecer-se mais aos homens. Mas que se deve, ao contrário, repensar não somente a indiferença em relação aos interesses femininos, mas, sobretudo, o desprezo pelas virtudes tradicionalmente femininas.

[...]

Entre a herança dos anos libertários de 1968 e o desenvolvimento de um pensamento pós-moderno, os valores ditos "femininos" fizeram sua intrusão e são cada vez mais apreciados socialmente. A negociação e a mediação como modos de resolução dos conflitos são preferíveis ao autoritarismo, até nas práticas de certos dirigentes políticos. A cooperação e a solidariedade, sobretudo a assistência ao outro, esvaziam o espírito de competição e egoísmo. A educação pedagógica toma o lugar, pouco a pouco, das antigas formas de disciplina repressivas. Nas sociedades ocidentais, esse processo de "feminização" começou a aparecer tanto na organização do trabalho quanto nos modos de vida, nas formas de consumo ou de comunicação. Eis porque começamos a ver na propaganda a publicidade de "homens voltados para a vida privada", desejosos de se apropriar do que era considerado um atributo das mulheres. Não há dúvida que aquelas que o filósofo Edgard Morin descreveu como "as agentes secretas da modernidade" tornaram-se as principais personagens das mudanças estruturais em nossas sociedades.

A passagem do século XX para o XXI parece marcar uma ruptura na história da invisibilidade das mulheres. Só lhes falta uma participação maior na representação política. [...]

PRIORE, Mary Del. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2001. p. 99-102, 105.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Somos ou não somos racistas?


Eis a questão que desafia legisladores, intelectuais, cientistas e historiadores há mais de um século, em uma nação que é tão mestiça quanto desigual.
por Sílvia Capanema P. de Almeida



O jornalista e cientista social Ali Kamel publicou o livro Não somos racistas (Nova Fronteira). Trata-se, como o subtítulo indica, de "uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor". O livro defende a ideia de que compomos uma nação predominantemente mestiça e que o racismo existe como manifestação minoritária e não institucional, sendo a pobreza o principal problema do país. Pretende criticar as reivindicações do movimento negro e os projetos de adoção de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras.

Do outro lado do debate, há vozes que defendem a tese de que o elogio da mestiçagem brasileira tem caráter ideológico, tendendo a esconder o racismo existente no país e a exclusão do negro ao longo dos cinco séculos de formação do Brasil. Esse é o pensamento do antropólogo Kabengele Munanga em seu Rediscutindo a mestiçagem no Brasil (Autêntica, 2004) 

Para se situar nessa discussão, seria interessante compreender o contexto dos períodos anterior e posterior à abolição. O processo de abolição não pode ser resumido ao 13 de maio de 1888. Por trás da data histórica, o comportamento da população negra no país mostra a existência de uma realidade muito mais complexa. Por um lado, antes mesmo da abolição, ser negro já não significava mais exatamente ser escravo. Pesquisas recentes apontam que apenas 5% do total da população negra ou parda do país era escrava às vésperas da extinção da escravidão. O grande número de alforrias por reconhecimento, laços pessoais e familiares, compras, entre outros fatores, mostrava que já havia muitos negros e mestiços vivendo além da escravidão, principalmente no meio urbano. Além disso, as fugas e formações de quilombos, muitos dos quais apoiados pela população pró-abolição, também já contribuíam para uma relativização da identificação do negro como escravo nos últimos anos do império. Um sujeito de cor negra ou parda poderia ser escravo, mas também livre ou liberto, como indicam as categorias dos censos do período.


Por outro lado, a tão famosa Lei Áurea assinada pela princesa Isabel não significou a igualdade em termos de inclusão e cidadania para negros e ex-escravos, ainda que as diferenças não fossem registradas pela legislação, pelos códigos e regulamentos institucionais de maneira geral a partir dessa data. Para muitos negros, pardos e outros, o lugar social marcado inicialmente pela escravidão não seria modificado em pouco mais de um século e algumas gerações. Na ausência de qualquer programa de integração dessa população pobre e praticamente analfabeta, boa parte desse contingente de cidadãos e seus herdeiros permaneceu excluída dos bens materiais e culturais durante muitos anos. 

Depois do 13 de Maio, muitas famílias continuaram como mão-de-obra nas mesmas fazendas onde tinham sido escravas. Alguns indivíduos migraram para os grandes centros urbanos, em muitos casos reforçando o número de subempregados ou "desocupados", segundo a terminologia da época, e lotando os cortiços e favelas que se formavam nas cidades. Alguns outros adquiriram consciência da sua condição e associaram-se para denunciar a situação e defender seu lugar na sociedade, como no caso da Guarda Negra, espécie de milícia que procurava proteger a liberdade dos negros e a personalidade da princesa Isabel, e da imprensa de identidade negra, que denunciava o problema e funcionava como um espaço de sociabilidade para essa população. 

Posteriormente, já nos anos 30, a fundação da Frente Negra Brasileira (FNB) iria politizar a discussão, buscando um espaço para o negro na esfera política. Tudo isso indica que havia mais diversidade do que se acreditava na inserção do negro na sociedade brasileira do pós-abolição. Esse passado de escravidão iria marcar também o debate em torno da construção da nação e do Estado brasileiro. Já em meados do século XIX, intelectuais, legisladores e cientistas mostraram-se preocupados com o perfil e a composição da sociedade brasileira, e com os modelos e projetos possíveis para a construção do país.

Muitas das construções institucionais iniciadas com d. João VI e d. Pedro I foram incrementadas no Segundo Reinado. D. Pedro II era um monarca ilustrado e incentivador das artes e da ciência, tendo certa vez afirmado, parodiando o rei absolutista francês Luís XIV, "a ciência sou eu". Nesses governos, sobretudo após a independência, foram criados institutos de estudo e expandidas as universidades e academias, lugares onde se debatia sobre qual seria o projeto de sociedade possível e desejado no Brasil. Apesar da resistência de alguns setores, o fim da escravidão era tido como inexorável. 

Vários aspectos podem ser apontados como tendo contribuído para esse fim: as pressões internacionais, o fortalecimento do capitalismo industrial e a necessidade de mão-de-obra livre e consumidora, as idéias igualitárias oriundas do pensamento iluminista, a própria ação dos escravos, que manifestaram diferentes modos de resistir, por meio das fugas, dos quilombos e das revoltas durante todo o século XIX e em várias partes do mundo. A título de exemplo, a revolta de negros escravos que massacraram seus senhores tomando o poder na colônia francesa de São Domingos, hoje Haiti, ainda no início do século XIX, apavorava o imaginário dos grandes proprietários brasileiros. Definitivamente, as elites brasileiras não gostariam que o Haiti fosse aqui. Além disso, pode-se dizer que extinguir a escravidão era uma exigência do mundo dito civilizado e corresponder a essa demanda seria fundamental para colocar o Brasil no ritmo do progresso, de acordo com os conceitos da época.


As negociações entre os interesses de diferentes setores fizeram a abolição ser fruto de um processo gradual. Uma lei de extinção do tráfico foi assinada já em 1831, a partir de uma exigência inglesa. Porém, não chegou a ser aplicada, tendo surgido daí a expressão "para inglês ver". O tráfico só seria abolido de maneira efetiva em 1851, com a lei Eusébio de Queirós. Com o fim desse comércio, a grande mudança no país foi a acentuação do tráfico interno. Tornou-se mais comum do que nunca a venda de escravos das fazendas do Nordeste para o Sudeste cafeeiro, acompanhando o deslocamento do eixo da economia para essa região. Em 1871, foi promulgada a Lei do Ventre Livre, e, apesar do caráter moderado desta, os fazendeiros perceberam que não nasceriam mais escravos no Brasil. A escravidão estava com os dias contados. O "problema" da integração do negro na sociedade brasileira apenas começava. 

Seria o Brasil um país de negros e mestiços? Será que isso combinaria com a noção de país civilizado de padrão europeu que se pretendia para a ex-América portuguesa? Essas eram algumas questões sobre a identidade brasileira que intelectuais, médicos e cientistas sociais se colocavam no fim do século XIX e início do XX. O pensamento dominante na época era fortemente influenciado pelo evolucionismo e pela teoria de seleção natural de Charles Darwin. Esse biólogo britânico, observando o comportamento das espécies animais, desenvolveu uma teoria que explicava a modificação e evolução das espécies por meio de um processo de melhor adaptação ao meio, que seria sintetizada pela expressão "a lei do mais forte". Seu trabalho teve grande influência no pensamento moderno, sobretudo no que se refere à secularização, exterminando a idéia de que o homem teria sido criado por Deus. Porém, para alguns outros homens de ciência daquele tempo, o evolucionismo poderia também se aplicar ao comportamento humano, o que foi chamado de darwinismo social. 

Segundo as mais expressivas concepções dessa corrente, não somente o negro tende a ser visto como ser inferior ao branco na escala da evolução como o mestiço apresenta em si um problema. Alguns pensadores do darwinismo social chegaram a insinuar que o mestiço seria também infértil. Daí a origem da palavra mulato, termo oriundo de "mula", híbrido nascido do cruzamento do cavalo com o jumento. A explicação ideológica para isso seria a tentativa de desestimular as relações inter-raciais. No contexto brasileiro, a hibridação seria inevitável. Como a historiografia demonstra, o número de mulheres brancas vindas para o território brasileiro foi sempre inferior ao de homens, sendo a mestiçagem conseqüência disso. Seria preciso que os nossos cientistas e intelectuais pensassem em outros modelos.

Dentro dessa concepção, um dos primeiros a tentar identificar, qualificar e diagnosticar o elemento afro-brasileiro foi o escritor, sociólogo e jurista Sílvio Romero, que entendia que o destino da população brasileira era tornar-se branca, já que na mestiçagem o tipo racial mais numeroso tende a prevalecer. Romero acreditava que o branco seria favorecido pelo fim do tráfico e pelo aumento da imigração de trabalhadores europeus. 

Outro brasileiro que se dedicou à questão nesse contexto, o médico e antropólogo Raimundo Nina Rodrigues, discordou da tese de Romero. Para ele, não seria possível estabelecer no Brasil uma civilização a partir da mistura entre o branco, o negro e o índio. Estes últimos eram tipos inferiores e não poderiam contribuir para tal ideal civilizacionista. Nina Rodrigues acreditava que a mistura entre raças diferentes criaria indivíduos fracos, que não se identificariam com o modo de viver de nenhuma das duas raças, gerando um tipo inferior. Acreditava que o Estado deveria legitimar as diferenças, para tratar de maneira mais adaptada "superiores" e "inferiores".


Essas propostas não foram utilizadas pela República, na Constituição de 1891 e nos Códigos Civil e Penal da época, que não faziam mais distinções entre "negros", "brancos" ou "pardos". Todos eram cidadãos. O problema seria a pobreza, a vadiagem, a mendicância e a capoeiragem, contravenções punidas pelos artigos 391 a 404 do Código Penal de 1890. Para o direito brasileiro, não era desejável haver uma população desocupada, sem dinheiro e sem lar. Os indivíduos nesse estado, muitos dos quais negros ex-escravos ou descendentes de escravos, poderiam ser enviados a diversas instituições, como às colônias correcionais ou mesmo ao Exército e à Marinha. Não foi o pensamento do darwinismo social que vigorou na concepção dessa legislação, mas com certeza estavam presentes as idéias de ordem e em grande parte a mentalidade higienista. Observa-se, além disso, que o estímulo dado pelo governo brasileiro à imigração de trabalhadores europeus no fim do século XIX e início do XX foi em grande parte justificado pela ideologia de branqueamento da população.

Nos anos 30, enquanto as idéias eugenistas voltavam à moda na Europa, sobretudo a partir da experiência do nazismo alemão, no Brasil tendia-se para uma nova compreensão da sociedade, para uma abordagem culturalista. Já havia uma corrente de valorização do mestiço como representante da identidade brasileira desde a década de 1870, porém seria com o sociólogo Gilberto Freyre que esse modo de pensar ganharia maior expressão.

Em seu clássico Casa-grande e senzala, Gilberto Freyre compõe uma história social e cultural do Nordeste agrário e escravista durante o início do período colonial, o que corresponde à fase de predomínio da economia açucareira. Nesse contexto, o menor número de mulheres e o caráter conciliador do colonizador português favoreceram o desenvolvimento da mestiçagem no país, diminuindo a distância entre a casa-grande e a senzala. O mulato seria o elemento de conciliação entre os extremos existentes. Além disso, Gilberto Freyre aposta na mestiçagem como o principal traço da identidade brasileira, fazendo uma leitura positiva da hibridação. Estão lançadas as bases para a ideologia da "democracia racial", posteriormente apontada como um mito pelas releituras de Gilberto Freyre.

Esse pensamento parece ter sido bem aceito pelo Estado e pela população brasileira. Ao mesmo tempo que a idéia de democracia racial foi incorporada pelo senso comum e colaborou para a construção da própria identidade nacional, o Estado e as instituições receberam com boa vontade essa teoria. A crença numa contribuição igualitária do índio, do negro e do branco participa do mito fundador do Brasil. Além disso, essa igualdade também favorece o estabelecimento do Estado brasileiro que sempre se desejou: sob a impressão de que há igualdade entre as cores e diferenças, cria-se um código comum, evitando-se conflitos e embates. Dessa forma, o Brasil se parece mais com aquilo que gostariam que fosse, já sabendo como ele é.

Sílvia Capanema P. de Almeida. Somos ou não somos racistas?  In: Revista História Viva. Novembro 2006.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Religião, sexo e família

Coleta de esmolas para a Igreja do Rosário, Debret

[...] a religião funcionava, como justificativa última da escravidão, na medida em que tudo o que acontecia com o escravo seria para o seu bem, para a salvação de sua alma. Mas era importante que também o escravo fosse cristão: abandonando sua religião de origem ele perderia um importante referencial de sua vida como homem livre e adotando o catolicismo teria como se conformar com sua condição. Assim, o escravo não apenas podia ser católico, ele tinha que sê-lo.

[...] A religião, no período da escravatura, deveria ser um freio para os revoltados, um consolo para os desanimados, uma esperança para os desgraçados, um alento para os fracos, como se dizia na época.

O senhor deveria ser entendido como um pai, severo e duro, temido e respeitado, que tudo fazia para o bem dos seus filhos. [...] a par da exploração material, acenava-se com a igualdade espiritual; conviviam o fato da miséria terrena e o ideal do paraíso celeste; argumentava-se com o infinito àqueles que só enxergavam suas cadeias; acenava-se com um assento à mesa de Deus aos miseráveis que engoliam sua comida nojenta de cócoras; falava-se de plenitude aos carentes, de calor aos que tinham frio, de alegria aos tristes, de alívio aos sofridos.

Tudo isso, porém, só poderiam obter se cumprissem o seu dever. Porque a virtude do homem - dizia a religião para o escravo - estava em trabalhar duro para o seu sustento; em conformar-se e se manter manso [...]; em submeter-se à ordem vigente, em respeitar o senhor e em arrepender-se das faltas [...].

O escravo era batizado logo que chegava ao seu local de trabalho - fazenda ou cidade - recebendo um nome "cristão". Devia esquecer a forma pela qual era chamado no seu lugar de origem. A atribuição de um novo nome e o batismo representavam a transformação do cativo em escravo, isto é, o início do trabalho compulsório. Assim, era de se esperar uma identificação feita pelo escravo, entre o poder e a religião. [...]

A religião, ensinando a mansidão e o conformismo, não se afinava com os movimentos de revolta em qualquer nível, ativos e passivos.

Por outro lado, não se pode negar que a grande massa de escravos ia se adaptando, tanto à sua condição quanto à religião. As formas de repressão desenvolvidas pelos senhores tinham por objetivo exatamente desestimular qualquer tipo de revolta ou reação contra si. [...] (Há exceções notáveis aqui, entre as quais a importante revolta dos malês, ocorrida na Bahia, assim como o candomblé e a capoeira como formas de resistência.)

Jogo de capoeira, Rugendas

No decorrer dos anos, o catolicismo imposto aos escravos vai sofrer alterações significativas, digerido tanto pela cultura trazida por eles da África, quanto pela prática social no Brasil. O chamado sincretismo religioso é uma das formas que distinguem a religião dos escravos daquela dos senhores. [...]

Por outro lado, valores morais apregoados pela religião eram sabidamente desobedecidos pelos senhores. Com toda a propalada preocupação em manter unida a família, o escravismo foi um elemento profundamente desagregador de uniões permanentes. Primeiramente porque separava, sem a menor cerimônia, casais que porventura viessem unidos da África. Depois, porque a desproporção entre homens e mulheres trazidos não era de molde a propiciar ligações permanentes. Na verdade, as condições de vida nas senzalas e a existência de uma mulher para quatro ou cinco homens estimulava o caráter transitório das ligações.

[...]

Conscientes do problema que representava a presença de muitos homens sem mulher, os senhores, na prática, estimulavam uniões transitórias, realizadas, frequentemente, apenas com o seu beneplácito, sem as bênçãos da religião - que, aliás, fechava os olhos para o fato. Mais comum ainda era a escrava ter filhos de vários homens, sem mesmo se envolver em ligações transitórias oficializadas pelo senhor.

Quando, excepcionalmente, a cerimônia religiosa ocorria, os sacramentos eram cumpridos pelo padre como formalidade desagradável e não como ato de fé. Considerava-se o ato como um luxo e não como decorrência da formação religiosa ministrada aos negros desde a infância.

Não se levam em consideração esses elementos quando, com enorme carga de preconceito, pretende-se atribuir aos negros características como leviandade nas relações pessoais e promiscuidade sexual. Na verdade, isso não tem, evidentemente, nenhum fundamento biológico, ou mesmo social: era fruto de constrangimento a que eram submetidos, à sua condição.

Interior de uma casa do baixo povo, Guillobel

Mesmo porque os senhores se utilizavam da situação para dar vazão à sua atividade sexual geralmente bastante reprimida em casa. Com efeito, o papel da esposa branca e legítima era apenas o de dar filhos ao seu marido [...]. Limitada em seus movimentos às fronteiras da residência do casal, pouco fazia. Desde menina tinha um bando de negrinhas a segui-la, atentas às suas ordens. Não se abaixava para levantar um lenço do chão, crescia balofa e vadia. Casava-se cedo, cedo começava a procriar. Evitava o "terrível" pecado original do prazer nas relações sexuais: na verdade, isso lhe era implicitamente vedado. Tinha como modelo a própria mãe de Deus, Maria, e supunha-se que deveria chegar perto de Maria como mulher virtuosa. Engordava após o parto e dificilmente voltava às curvas originais - com vinte anos já era uma matrona.

Não é difícil agora, numa época de menor repressão sexual imaginar a frustração dessas verdadeiras matrizes, utilizadas para procriar sem prazer. [...]

Quanto ao senhor, contudo, não há dúvidas. Cumpria com sua mulher branca as obrigações de reprodutor e marido, mas voltava-se às escravas para o prazer sexual. Entregava-se às negras e mulatas com todo o empenho, buscando usufruir delas a satisfação que não encontrava em sua formal cama de casado. O mito das mulheres quentes, atribuído, até hoje, às negras e mulatas pela tradição oral, decorre do papel que lhes era designado pela sociedade escravista. O historiador José Alípio Goulart recolheu [...] duas quadrinhas populares que consagram o caráter de objeto sexual dado às escravas bonitas:

Preta bonita é veneno
Mata tudo que é vivente;
Embriaga a criatura,
Tira a vergonha da gente.

Mulata é doce de coco,
Não se come sem canela.
Camarada de bom gosto,
Não pode passar sem ela.

Por seu turno, para as escravas, uma relação com o patrão poderia reverter em vantagens dentro da sua condição. Sabe-se de violências sexuais atrozes praticadas por senhores e feitores contra as negras escravas. [...] Mas não se pode negar que, diante da possibilidade de melhorar de condição [...] e vislumbrando também a possibilidade de ter um filho livre, a escrava acabasse cedendo ou, até mesmo, seduzindo o seu senhor. Ela sabia que quanto melhor fosse o seu desempenho sexual, mais oportunidades ela teria de prender o senhor, de reverter e até inverter a relação de poder, num ato que era também uma forma de vingança contra a sinhá e expectativa de tratamento privilegiado. Se conseguisse engravidar, via perspectivas de seu filho vir a ser libertado e incluído como agregado à grande família do senhor.

[...]

Às vezes - e muitas - a vingança saía pela culatra. Ofendida em seu amor próprio, a senhora utilizava-se de sua posição e torturava cruelmente a escrava, a ladra de seu homem. Assim morreram muitas jovens escravas, algumas das quais nem sequer quiseram dormir com o patrão, mas viram-se constrangidas a concordar com uma relação que, na sua condição de propriedade alheia, dificilmente conseguia evitar.

De qualquer forma, os documentos registram numerosos testemunhos das incursões que os senhores faziam às suas senzalas, com ou sem o consentimento das sinhás, com ou sem a aprovação das escravas: a multidão de mulatos, filhos de negras retintas; o grande número de agregados que aparecem nas famílias, sem papel definido, mas geralmente exercendo funções de confiança do senhor, e às vezes sendo por eles lembrados nos testamentos; e manumissões, de outras formas inexplicáveis, provavelmente fruto de promessas feitas durante o ato do amor com a mãe do libertado.

A partir de meados do século XIX, a propaganda abolicionista iria revelar vários aspectos da promiscuidade sexual, usando-a como argumento contrário à escravidão, acrescentando, já agora com o apoio de certos setores "progressistas" da Igreja, que ela "corrompia a família brasileira". Só então a legislação tratou de evitar a separação entre cônjuges, de estimular a união duradoura, de impedir a venda de filhos menores de 15 anos, entre outras medidas. [...]

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[...] as relações inter-raciais eram muito complexas, não se reduzindo à já caricata presença da matronal mãe preta: produtora de leite sempre à mão e anjo de guarda das traquinagens dos garotos brancos.

Como consequência da relação senhor/escrava, ou por meio de ligações que ocorreram e ainda ocorrem entre negros e brancos livres, a miscigenação racial tem sido muito intensa no Brasil. [...]

PINSKY, Jaime. A escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2019. p. 56, 58, 60, 62, 64-66.