"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Prostituição. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prostituição. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A sexualidade a bordo das naus lusitanas

Nu deitado, Amedeo Modigliani


Em meio a um ambiente conturbado, repleto de privações, a sexualidade a bordo das naus lusitanas era encarada como um tabu e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, com uma liberdade quase nunca observada no reino.

Enquanto em terra havia um tabu com relação à nudez do corpo, entre os homens do mar, habituados à nudez dos nativos das terras descobertas e à sua forma de encarar o sexo mais livremente, a sexualidade era quase libertina.

Nos navios. o ato sexual era quase sempre uma prática coletiva, com a ausência de parceiros fixos e o compartilhamento de objetos sexuais. Práticas consideradas mesmo em nossos dias promíscuas eram corriqueiras nas embarcações. Por vezes, as mulheres disponíveis eram duplamente penetradas, enquanto forçadas a praticar sexo oral e a manusearem, em cada uma das mãos, as genitálias de outros homens, servindo, sexualmente, cinco deles, ao mesmo tempo. Ao redor, outros se masturbavam ou praticavam sexo entre si, aguardando sua vez de participar da bacanal.

Quando não havia mulheres a bordo, os pobres grumetes terminavam servindo sexualmente à marujada, integrados ao sexo grupal. Se a Inquisição caçava os adeptos do homossexualismo em terra, no mar procurava ser mais branda, uma vez que a falta de mulheres a bordo justificava, a seus olhos, os atos de sodomia.

Em terra firme, a Inquisição em Portugal queimava os implicados em atos homossexuais, mas apenas quando reincidentes. Assim, estrangeiros diziam que a Inquisição em Portugal era muito branda se comparada com a atuante na França, na Suíça e na Alemanha, onde se queimavam sodomitas sem remissão.

De fato, muitos eclesiásticos portugueses defendiam a isenção de penas para os praticantes de sodomia, ou pelo menos, que eles não tivessem castigo tão severo. A motivação da defesa era conhecida de todos e tema de piada entre os estrangeiros: os religiosos lusitanos, mesmo os inquisidores, tinham fama de homossexuais ativos. Em certas casas eclesiásticas, onde os jovens aprendiam as ciências e a piedade, eram também iniciados em práticas sexuais homoeróticas, chamadas "relaxações", inspiradas pelo modelo grego que pregava que o verdadeiro amor só podia ser desenvolvido entre pessoas do mesmo sexo, com um homem mais velho conduzindo um jovem pelos prazeres da carne.

Parece que, atendendo aos apelos dos religiosos, sob o disfarce de benevolência que procurava ocultar a natureza homossexual da motivação da piedade, no além-mar os estatutos da Inquisição portuguesa eram mais brandos, embora não se possa negar que atendessem a uma necessidade social, ou seja, viabilizar a aventura marítima portuguesa num contexto de grande disparidade numérica entre homens e mulheres a bordo.

A Inquisição de Goa, por exemplo, recomendava que se evitasse a pena pública para a sodomia, imputando apenas uma penitência oculta, condenando secretamente os praticantes reincidentes, quando pegos em flagrante, ou degredo.

A raridade de mulheres nos navios levava a maioria dos embarcados a satisfazer seu desejo sexual com outros homens. Tais relações, muitas vezes, realizavam-se pela força bruta (posse forçada do corpo dos mais fracos) ou pelo peso das hierarquias, que obrigava os mais humildes a satisfazer as vontades dos seus superiores.

Dentro desse contexto, os grumetes, na hierarquia abaixo dos marinheiros, eram muito visados, a despeito de serem crianças entre 9 e 16 anos. Dada a fragilidade infantil, incapaz de conter os assédios, ou em troca de proteção de um adulto ou de um grupo de adultos, os grumetes eram obrigados a abandonar precocemente, a inocência infantil, entregando-se à sodomia. Quando tentavam resistir, eram estuprados com violência, e, por medo ou vergonha, dificilmente se queixavam aos oficiais, até porque, muitas vezes, eram os próprios oficiais que permitiam ou praticavam tal violência.

Em suma, imperava a lei e a moral do mais forte.

Os marujos eram gente de má fama, tidos como adúlteros, alcoviteiros, amantes de prostitutas e ladrões, capazes de acutilar e matar por dinheiro. A reputação dos soldados não era muito melhor, acrescida da impressão de que não guardavam grande respeito ou obediência com relação aos oficiais superiores. Já os passageiros eram em sua maioria miseráveis, descalços, famintos e desarmados, tendo, portanto, muito pouco a perder. Esse conjunto, nas condições precárias de vida das naus, era capaz de dar origem a criminosos da pior espécie, elementos responsáveis por inúmeras violências a bordo.

O próprio cotidiano, repetitivo, empurrava os tripulantes e passageiros de má índole para a caça de parceiros sexuais como um meio de ver o tempo passar rápido.

O mesmo tipo de sexualidade observada na Idade Média entre as corporações de ofício, quando dividir um parceiro sexual entre os companheiros simbolizava o estreitamento dos laços de amizade e camaradagem, terminou sendo adotado a bordo das embarcações portuguesas do início da Idade Moderna.

A prática sexual do estupro coletivo de uma mulher ou de um garoto por grupos de marinheiros ou soldados não era execrável na época sendo dificilmente punida pela autoridades de dentro e mesmo de fora dos navios.

[...] era comum os marinheiros embarcarem prostitutas clandestinas, enganando-as ou forçando-as a subir a bordo com ameaças e violência. A presença de meretrizes nos navios, muitas vezes, servia para acalmar os ânimos dos homens. Sabendo disso, alguns capitães optavam por fazer com que essas clandestinas pagassem sua passagem com trabalho sexual.

Entretanto, embora as prostitutas a bordo desviassem um pouco a atenção dos homens dos garotos, não impediam o assédio constante às escassas "mulheres de bem", pois, além de o número de mulheres para cada homem estar sempre longe do suficiente, o risco de contrair doenças venéreas, como em terra, criava uma certa aversão às profissionais do sexo. De fato, o contato com essas mulheres representava um grande perigo, já que raramente deixava de premiar os incautos com "lembranças de Vênus", suficientes para amargurar e causar forte arrependimento.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 104-106.

sábado, 3 de setembro de 2016

Vida privada no século XIX

O bebedor de Absinto, Édouard Manet

O aburguesamento do mundo, no século XIX, consolidou-se na construção de novos valores e padrões de concepções e comportamentos, que passaram a condicionar o dia a dia das pessoas, desde as atitudes sociais até os aspectos mais íntimos da vida privada.

O aburguesamento foi, nesse contexto, o estabelecimento de uma moral burguesa como modo final de contestação da dissolução dos costumes aristocráticos que, até certo ponto, caracterizaram o século XVIII. O núcleo desse processo foi a família, cuja constituição dependia da normatização e do controle do casamento. O casamento e a família representavam os espaços de definição dos papéis masculino e feminino. Ao homem, chefe da família, responsável por seu sustento e manutenção, correspondia o espaço público do trabalho, da rua e das atividades políticas. A mulher devia ser do lar. A ela correspondia o espaço privado, local de confinamento, do controle social e da proteção.

No café, Édouard Manet

* Moral burguesa e papel da mulher. O casamento burguês era rigorosamente monogâmico. Mas só se exigia fidelidade da mulher. As experiências extraconjugais eram não só consideradas normais como até estimuladas... para os homens! Os direitos de marido e pai não eram contestados e incluíam a violência. Castigos físicos (surras) nas crianças e nas esposas eram comuns. Quando muito, condenavam-se os excessos, que não eram raros.

A dupla moral burguesa, que admitia a liberdade masculina e impunha a reclusão das moças e senhoras de família, praticamente determinava a existência generalizada da prostituição.

As mulheres que se atreviam a contestar a ordenação burguesa e machista do mundo eram tratadas como prostitutas ou loucas. A mulher que permanecia solteira e não se tornava religiosa era alvo de estereótipos negativos. Muitas eram internadas pelas próprias famílias em conventos ou asilos para alienados mentais quando seu comportamento fugia dos padrões de moralidade vigente a ponto de "envergonhar" o grupo doméstico a que pertenciam.

Tempos difíceis, Hubert von Herkomer

* Opressão dos pobres. Para a moral burguesa, o principal desvio e contestação era representado pela pobreza. Para o pensamento burguês dominante, ser moral era ser rico. O pobre, portanto, era "imoral", ao qual se reservava a conversão ou a punição. Foram criadas instituições evangélicas (religiosas e leigas) cujo propósito era "converter", moralizando, os pobres. Caso não se convertesse, o pobre era punido, inclusive com a prisão.

A condenação da pobreza representava mais um estigma contra a mulher. Se fosse casada com homem pobre, era obrigada a trabalhar fora, não podendo exercer plenamente sua condição de "mulher do lar".

O aburguesamento do mundo, em especial do europeu, engendrou reações contrárias: mulheres e pobres se calaram. A oposição dos pobres estava presente principalmente nas lutas dos trabalhadores. As mulheres reagiram tanto individual quanto social e politicamente, em instituições e movimentos organizados para enfrentar o poder masculino, dando origem ao feminismo.

* Reação das mulheres. O feminismo, ou luta pelos direitos das mulheres, foi fenômeno típico da segunda metade do século XX. No entanto, suas origens recuam ao final do século XVIII. O movimento pelos direitos das mulheres ganhou expressão política na luta pela conquista do direito de voto, que nas revoluções liberais havia sido universalizado... para os homens!

A luta feminina estendeu-se por todo o século XIX. Em 1882, as várias sociedades feministas formaram a União Nacional das Sociedades em defesa do sufrágio feminino. Muitos homens integraram a luta em prol do voto feminino.

O movimento feminista foi interrompido em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Em 1918, o voto feminino foi concedido às mulheres casadas, às chefes de família e às universitárias com mais de 30 anos. Só em 1928 o direito de voto foi estendido a todas as mulheres maiores de 21 anos, tal como acontecia com os homens.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 370-372.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 5 - Lazer e entretenimento]

As vilas e cidades da colônia concentravam os recursos econômicos e humanos, além de sediarem as instituições civis e religiosas, os tribunais, o tesouro, a burocracia civil e militar. Nelas também moravam os comerciantes, advogados, escrivães e artesãos.

A praça desempenhava importante papel na vida cotidiana, pois era local de encontro e servia de mercado. Em seus tabuleiros, mulheres livres e cativas vendiam produtos perecíveis; e escravos de ganho ofereciam seus serviços. Era também o lugar onde se realizavam as cerimônias públicas, as "festas reais", a comemoração de uma coroação ou o nascimento de um herdeiro do trono, e as festas religiosas. Nela se erguiam o pelourinho e a forca, símbolos do poder do Estado.


Uma família brasileira, Henry Chamberlain

As cidades eram divididas em freguesias - jurisdições eclesiais centradas nas igrejas paroquiais, marcos da vida civil e religiosa. A igreja era ponto de encontro, onde se celebrava a missa, procedia-se aos rituais de vida e morte, às festas do santo padroeiro e onde tinham espaço ainda outras atividades. As paróquias também eram encarregadas de serviços sociais, tais como o cuidado dos doentes e dos pobres, além de outros aspectos da vida cotidiana.

O chafariz era outro ponto importante das vilas e cidades. Lá, ao abastecer-se de água, escravos, criados e homens livres pobres encontravam-se para trocar informações de todo tipo. E a população pobre - tanto livre quanto escrava - também se reunia nas tabernas, onde se vendia cachaça. Em 1650, havia mais de duzentas delas em Salvador.

A vida dos colonos era pacata. Não havia grandes diversões, além da chegada de alguma embarcação, trazendo notícias do reino, ou da celebração de festividades religiosas. As missas eram a principal recreação da população urbana. E a Igreja também era responsável pela divulgação de notícias. Naquela época, por causa da inexistência de jornais, as informações eram obtidas por intermédio dos padres ou dos funcionários metropolitanos. Não é de estranhar que os colonizadores dedicassem tanta energia e dinheiro à construção de igrejas. Nas vilas mais prósperas, as igrejas eram ricamente decoradas.

As mulheres dos senhores não participavam da escassa vida social que havia na colônia. Viviam fechadas dentro de casa e só saíam para frequentar a missa. Calcula-se que, nas minas, apenas 5% das mulheres eram chamadas de "donas" ou "senhoras".

"Por mais enfadonha que fosse a vida das senhoras brancas, ainda assim era, sob a maior parte dos aspectos, mais digna de inveja do que a de seus escravos. [...] Um despacho régio de 1º de março de 1700. denunciando a barbaridade com a qual muitos dos senhores e senhoras de escravos os tratavam, declarava que tais atrocidades se tinham iniciado nas plantações do interior, mas ultimamente se estavam espalhando pelas cidades e vilas. A Coroa condenava particularmente a vergonhosa prática de viverem as senhoras dos ganhos imorais de suas escravas, que não só eram encorajadas, mas compelidas a entregar-se à prostituição. Tal prática mostrava-se censurável extensão do hábito mais comum pelo qual as mulheres escravas tinham permissão para trabalhar por sua própria conta como cozinheiras, costureiras ou vendedoras ambulantes, contanto que pagassem aos seus donos uma quantia fixa sobre ganhos diários ou semanais."

Nas camadas inferiores da população, muitas mulheres livres trabalhavam para garantir a sobrevivência e o sustento de suas famílias: eram cabeças da casa. A prostituição era meio de vida comum para as mulheres pobres. O casamento não era comum entre a população livre, pois, entre outras razões, a Igreja cobrava muito para formalizá-lo. As pessoas viviam juntas, mas não casavam. Enfim, a colônia não oferecia outras possibilidades de suprir as necessidades básicas dessa camada da população.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 236-7.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Condições de vida dos homens livres na América colonial inglesa

Desembarque dos puritanos na América, Antonio Gisbert

Entre as massas trabalhadoras livres das colônias americanas a vida era dura, e a belicosidade generalizada. [...] Para os 70 por cento da população trabalhadora colonial livre as condições de vida eram melhores do que para seus irmãos de classe na Europa, e o grau de mobilidade social era de certo modo maior, mas os dois aspectos evidenciavam-se apenas num sentido relativo. No sentido absoluto, a vida era muito cara, pois os salários mal chegavam para levar mesmo a comida mais simples às bocas do produtor, sua mulher e seus filhos [...].

Nas cidades proliferava a prostituição, eram numerosos os mendigos, os abrigos de pobres viviam cheios, os cortiços já estavam presentes e as centenas de indivíduos que dependiam de ajuda pública para se manterem vivos tinham de usar um emblema denunciando sua condição "degradada".

Nas áreas rurais o passadio mais simples, o abrigo mais rude, a roupa mais grosseira eram a regra para quase todos os que labutavam com as próprias mãos. E nas cidades e nas fazendas os pobres livres trabalhavam como os pobres sempre trabalharam - muito e por muito tempo.

Os ricos viviam na América colonial como viveram em toda parte. Uma casa de cidade e de campo, centenas e milhares de acres; dezenas de empregados e/ou escravos; refeições lautas; festas incessantes; seda e cetim, veludo e pérolas; carruagens e baixela de ouro; peças da moda e música e livros; negócio, alianças, intrigas; altas e poderosas funções; e intensa preocupação com a conservação de tudo isso e em manter a "gentinha" em seu lugar.

Desembarque dos peregrinos em Plymouth, 1620, N. Currier

Essas diferenças eram a obra e a vontade de Deus, porque de outro modo não existiriam. Quem as põe em dúvida demonstra, portanto, sua falta de fé e de crença; quem as põe em dúvida pertence ao Diabo, e deve ser tratado de acordo com isso. Os pobres devem ser postos a trabalhar, e é o medo de morrer de fome que os fará trabalhar.

Quanto aos mendigos e desocupados, é bem verdade, escreve o Reverendo Cotton Mather em 1695 (Riquezas Permanentes), eles "vergonhosamente crescem entre nós, assim como os mendigos que nosso senhor Jesus Cristo expressamente nos proibiu de proteger". Daí sua palavra apostólica: "Que morram de fome".

APTEKHER, Herbert. Uma Nova História dos Estados Unidos Unidos: A Era Colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 53-54.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: a frágil família popular

[...]

O primeiro aspecto a salientar nas organizações familiares populares era o seu caráter instável. A tal ponto que se chegou a duvidar de que essas camadas populares constituíssem verdadeiras famílias.

O número de filhos bastardos, o concubinato, a bigamia, os filhos abandonados, os lares desfeitos, a dificuldade de obter o mínimo necessário para a subsistência, a miséria extrema que levava à mendicância eram evidências da extrema fragilidade das famílias populares.

Negra pobre dando a mão ao filho que leva uma cana na mão, Joaquim Cândido Guillobel

As famílias de escravos, pela própria natureza do regime escravista, eram as mais instáveis e existiam em pouco número. A situação precária em que viviam os negros forros também dificultava a constituição de famílias.

Negro pobre carregando cesto às costas, Joaquim Cândido Guillobel

Assim sendo, a família da gente livre e pobre estruturou-se independentemente dos laços matrimoniais. Tanto na sociedade relativamente urbanizada de Minas Gerais, no auge da economia mineira, como em São Paulo ou no Rio de Janeiro do período imperial, a proporção de casas cujos chefes eram mulheres era muito grande.

Interior de uma casa do baixo povo, Joaquim Cândido Guillobel

A historiadora Laura de Mello e Souza estudou essa camada social na sociedade do ouro, mostrando toda a precariedade em que vivia. Eram homens, mulheres e crianças que viviam nos limites da sobrevivência. Nesse meio os filhos bastardos eram maioria absoluta. A maior parte das uniões era legalmente ilícita e contrária à moral católica oficial.

Os lares chefiados por mulheres sem marido ou companheiro representavam quase a metade dos existentes em Vila Rica na segunda metade do século XVIII.

A taxa de prostituição era alta, e a miséria das mulheres era tanta que as que tinham roupas decentes para se apresentar em público despertavam desconfiança dos fiscais por esse "luxo".

A numerosa camada social situada entre a elite e os escravos tinha como característica fundamental a pobreza e a instabilidade. Tanto que a referida historiadora encontrou na expressão desclassificados do ouro a melhor maneira de defini-los. Nesse meio era quase impossível a constituição de famílias estáveis, qualquer que fosse o modelo delas ou sua forma de organização. Na verdade estamos diante de uma "desorganização familiar", determinada pela extrema precariedade das condições de existência material.

Família pobre em casa, Jean-Baptiste Debret. A imagem mostra uma moradia popular. Uma velha viúva e sua filha viviam na pobreza, mas possuíam uma escrava, cujo trabalho de carregadora de água garantia o sustento das três. Na volta de sua jornada, a escrava traz um cacho de bananas. Falta nesse grupo a figura do pai, marido ou companheiro. Eram numerosos os lares chefiados por mulheres nos meios populares.

Outra historiadora, Maria Odila Leite da Silva Dias, levantou dados que demonstraram que cerca de um terço dos lares paulistanos na segunda metade do século XIX também eram chefiados por mulheres. Famílias que também, na sua maioria, viviam na pobreza.

Mulher negra, Almeida Júnior

Para o Rio de Janeiro, além de dados levantados pela pesquisa acadêmica, temos o registro da literatura. O Cortiço, de Aluísio Azevedo, por exemplo, retrata a instabilidade das famílias populares e a precariedade do seu modo de vida. A obra revela ainda a violência que envolvia a vida cotidiana dos membros das camadas sociais populares e marcava as relações familiares.

PEDRO, Antônio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 252-3.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Hospitais, igrejas e prostíbulos na capital lisboeta na época dos Descobrimentos

As padeiras, José Malhoa

Havia vários hospitais na cidade, uma vez que eram mais do que necessários para abrigar, entre outros enfermos, alguns dos debilitados passageiros e tripulantes que chegavam nos 1.500 navios que demandavam, mensalmente, o porto lisboeta. O maior era o de Todos os Santos, construído no Rossio, em 1492, próximo à principal artéria da cidade, a rua Nova dos Mercadores, onde estavam instaladas as mais importantes casas de comércio de especiarias.

O fado, José Malhoa

A vida espiritual da população era orquestrada por várias igrejas, espalhadas pelas partes alta e baixa da cidade. A mais importante era sede do bispado, a sé de Lisboa, uma catedral gótica, construída em 1150, por ordem de D. Afonso Henriques, sob as ruínas de uma mesquita. Ela seria danificada por dois tremores de terra, no século XIV, e, finalmente, devastada pelo terremoto de 1755, que destruiria boa parte de Lisboa e obrigaria o marquês de Pombal a reconstruir suas ruas, no traçado reto que obedecem ainda hoje.

A religiosidade do povo português, expressa pela imensa quantidade de igrejas, tornava habitual cruzar pelas ruas com procissões ou festejos de santos, ao passo que comemorações profanas estavam terminantemente proibidas.

Os bêbados ou Festejando o S. Martinho, José Malhoa

Entretanto, a principal diversão dos fidalgos era freqüentar bordéis e tavernas. Recusar um convite de um nobre para ter com prostitutas era considerado uma ofensa grave. Outro público que freqüentava com assiduidade o ambiente eram os marujos, sempre famintos de companhia feminina, após meses no mar. A ampla demanda pelo serviço era acompanhada, igualmente, de uma numerosa oferta. Existiam bordéis em número igual ou superior ao de igrejas, enquanto as tavernas talvez somassem o dobro da quantia.

Cena de bordel, Brunswick Monogrammist

Sendo freqüente o vai-e-vem de forasteiros, existiam em Lisboa inúmeras hospedarias. A maioria delas era muito simples, confundindo-se com os bordéis, em cujos quartos não havia mais do que uma cama, uma pequena mesa, uma cadeira, uma bacia com água e um penico, para que os hóspedes mais exigentes cuidassem da própria higiene.

Artistas itinerantes em um bordel, Brunswick Monogrammist

Os fidalgos e marujos que compartilhavam as prostitutas quase sempre eram brindados com as mais diversas doenças venéreas, o que fazia muitos evitarem o contato com profissionais, apesar da grande quantidade de bordéis disponíveis. A alternativa mais “à mão” era cortejarem as muitas senhoras cujos maridos estavam ausentes, servindo nas colônias e nos navios portugueses.

PESTANA, Fábio Ramos. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 45-46.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Nos submundos da Antiguidade: as ruas de Roma e Pompeia

Na época de Plauto ou de Cícero, é no Foro Romano que se concentram todas as atividades da cidade, das mais honrosas às mais equívocas. Na Roma imperial, o Foro parece bem pequeno, ao lado dos magníficos foros imperiais que foram sendo edificados no decurso dos sucessivos reinados. É toda a cidade que se torna um lugar de passeio, de encontros, de tráficos para essa massa ociosa: otários em busca de espetáculos, escroques à caça, parasitas em busca de um jantar, de um patrão acolhedor e generoso. Se acreditarmos nos quadros que os escritores da época imperial nos legaram, a vida cotidiana – para a maioria dos romanos – apresenta-se como uma perpétua busca.


O Fórum de Pompeia, Christen Købke

Roma é, antes de mais nada, o barulho: murmúrio, gritos, nada parece poder conter esse rumor confuso que, durante todo o dia, eleva-se das ruas:

“Em Roma, não é possível ao pobre pensar ou repousar. Impossível viver em paz pela manhã por causa  dos professores; à noite, por causa dos padeiros; durante o dia, por causa do martelo dos ferreiros” (Marcial, Epigramas XII, 57).

Assim, é uma barafunda que, da aurora ao pôr do sol, invade calçadas, ruas, pórticos. Uma passagem de uma célebre sátira de Juvenal evoca múltiplos perigos que esperam o pedestre que anda pelas ruas de Roma: as vastas liteiras dos ricos, as carruagens, operários que transportam odres, potes ou grandes vasos contendo vinho e azeite. É bem difícil abrir caminho por entre tais ruelas, que ficam ainda mais estreitas por causa da exposição das mercadorias. A calçada, com efeito, durante o dia, é coberta pelos cavaletes e barracas móveis onde os comerciantes expõem suas mercadorias. Nas estacas que sustentam essas barracas provisórias, são penduradas tanto as garrafas do botequineiro quanto os rolos de papiro dos livreiros. . Domiciano será obrigado a promulgar um édito impedindo os comerciantes de monopolizarem a calçada, instalando nela essas barracas que trazem perigo à segurança dos pedestres. E, por vezes, acima da massa compacta que transita pelas ruas, surge a navalha brandida às cegas pelo barbeiro que está escanhoando seu cliente em meio à algazarra. As ruas de Roma são tão obstruídas, tão invadidas pela população, que um passeio pode ser pago com a própria vida: uma inscrição recorda uma mulher e uma criança de treze anos, esmagadas pela massa que se comprimia perto do Capitólio [...].


Mercado de escravos, Gustave E. Boulanger

A rua não é mais do que um espetáculo: saltimbancos, exibidores de animais amestrados ou charlatães invadem as calçadas; [...]

Se acreditarmos nos escritores romanos que nos deixaram negras descrições dos engarrafamentos da capital, é bem perigoso passear pelas ruas de Roma durante o dia. Todavia, algazarra, tumultos, barulho e poeira nada são, ao lado do que espera o transeunte noturno. Poucos romanos, de resto, se aventuram a atravessar Roma depois do pôr do sol, a não ser acompanhados por uma guarda de escravos armados e munidos de chicotes. Com efeito, reina a escuridão nas ruas da cidade, pois não há iluminação pública.

Além do mais, as ruas estão longe de ser desertas: todos os que não têm o direito de circular durante o dia, as carroças de transporte, os comboios que obstaculizam o tráfego, atravessam ruidosamente a cidade e acordam os habitantes das insulae [...].

Se as ruas do centro da cidade são mais seguras, imagine-se o que ocorre nos terrenos baldios situados na periferia da cidade, ao longo das grandes estradas que saem de Roma para os quatro cantos da Itália. Desde o cair da tarde, sombras suspeitas e furtivas vagueiam, absorvidas em atividades misteriosas. É a zona dos túmulos, dos cemitérios, dos crematórios, zona temida pelos cidadãos romanos e, justamente por isso, transformada em asilo de numerosos marginais.

Quer se destinem ao descanso do passante, a alimentar ou a hospedar o viajante, ou os habitantes da cidade, são muitos os estabelecimentos hospitaleiros no mundo romano. Numerosos testemunhos nos permitem saber que eles se concentram essencialmente nos bairros populares. Em Roma, muitas tavernas se situavam perto do Grande Circo, dos teatros ou anfiteatros, bem como das casas de banho: em suma, em todos os lugares freqüentados pela multidão. Outros também servem como pontos de descanso situados nas portas das cidades: em Pompeia, a “estação” – freqüentada pelos que se encarregam dos transportes pelas estradas – situa-se fora da cidade, perto da porta de Estábias. Lá se reúnem também os arrieiros, os proprietários dos veículos de aluguel e dos mulos alugados aos viajantes.

São geralmente construções modestas: podemos bem conhecê-las por causa dos numerosos albergues que ainda animam as ruas de Pompeia. No interior, uma ou duas salas recebem os clientes; há alguns quartos no andar superior, assim como um jardim, onde os consumidores podem se sentar sob um caramanchão. Muitas dessas tavernas – as termopolia – prolongam-se na rua através de um balcão, no qual são postas as ânforas contendo o vinho fresco ou quente; o passante, que não tem tempo de entrar no estabelecimento para servir-se de uma bebida, pode tomar rapidamente uma taça de vinho e, de pé, comer uma salsicha ou um doce quente.


Cena erótica. Lupanar em Pompeia, Artista desconhecido. Século I d.C.

Tabuletas pintadas ou mosaicos indicam ao interessados os nomes dos estabelecimentos. Alguns proprietários não demonstram grande imaginação, contentando-se em batizar suas tavernas com uma indicação topográfica: “Nos rochedos vermelhos”, “Na pereira”, “No templo de Diana”. Outros, talvez mais esnobes, buscam a originalidade: o albergue “O Elefante”, em Pompeia, é ornado por um desenho que representa um elefante vermelho. O estabelecimento de Heleno, sempre em Pompeia, “A Fênix”, conserva ainda a magnífica tabuleta que lhe deu o nome: uma fênix passeia num cenário floral de grande finura. Abaixo dela, dois pavões enquadram uma frase de saudação: “Também tu deves ser feliz, como a fênix”.


Casal nu na cama. Artista desconhecido. Afresco na Casa della Farnesina, Roma, ca. 19 a,C.

E, como a maioria dos albergues ou tavernas funcionam [...] como locais de prostituição, algumas inscrições indicam que a casa pode oferecer outros prazeres além de beber e comer: um estabelecimento de Roma, certamente muito acolhedor, chama-se “As Quatro Irmãs”. Em “As Filhas de Aselina”, em Pompeia, Aglaé, Maria e Esmirina garantem o serviço, sob as ordens de “madame” Aselina.


SALLES, Catherine. Nos submundos da Antiguidade. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 222-4, 231-2 e 240-2.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Prostituição na Idade Média

A miséria, o desenraizamento de jovens camponesas perdidas nas cidades, a rejeição das moças seduzidas e depois abandonadas, todos esses motivos empurraram para a prostituição mulheres que não escolheram vender o próprio corpo. Houve uma prostituição rural e uma prostituição urbana.

No final da Idade Média, as crises econômicas e as desordens trazidas pelas guerras aumentaram o número dessas mulheres, prostitutas profissionais ou ocasionais. O primeiro aspecto, mais particular e sem dúvida fundador de uma atitude assumida relativamente à prostituição, pode ser encontrado na postura da Igreja. É verdade que as “mocinhas” ditas “amorosas” ou “devassas” eram grandes pecadoras. Mas elas podiam ser salvas caso se arrependessem e mudassem de vida. Uma hipótese era conseguirem se casar; a partir do século XII, a Igreja decretou que desposar uma moça pecadora fazia parte dos anais de obras meritórias. Essas “mocinhas” [ou raparigas] também podiam passar o resto da vida sob a rude disciplina de uma instituição religiosa, pois desde o século XII monastérios de todo tipo, com freqüência ditos de ordem de Maria Madalena, acolhiam mulheres arrependidas.


Casa de banhos no período medieval

O segundo aspecto diz respeito às formas de organização dessas atividades. Em certos lugares, as “casas de moças”, “antros de devassidão” e outros “bordéis” mantidos e controlados pelas próprias cidades, eram instituições que contribuíam para o bom funcionamento de toda a sociedade. A prostituição oficial era vista como um dos meios de controlar os excessos e transbordamentos dos celibatários: clérigos, rapazes para quem o acesso ao casamento e às responsabilidades familiares e profissionais estava por ora fechado. Essa clientela masculina considerava poder fazer essas exigências e admitia satisfazê-las dessa forma.

Em outras cidades, a prostituição era tolerada, as matronas proxenetas e suas meninas tinham o direito de viver em algumas ruas a elas atribuídas, onde podiam exercer seu negócio, sob condição de respeitarem os limites impostos pelas regras urbanas – em particular, o uso de roupas que as distinguissem das demais mulheres e a proibição de usar o mesmo tipo de cintos e joias que as burguesas ou as senhoras da nobreza. Isso permite deduzir que uma parte dessas mulheres podia ter uma autêntica carreira, passível de culminar em um casamento, integrando-as à normalidade social e em uma forma de respeitabilidade e de honra. Também se depreende que os lucros auferidos com essa atividade, em particular os aluguéis e rendas cobrados pelas casas que as abrigavam, eram anotados nos registros censitários e livros contábeis de um capítulo eclesiástico ou abadia. Aliás, os canonistas do século XIII admitiam que os dividendos desse trabalho não eram imorais, sob certas condições (dentre as quais, o fato de as mulheres exercerem essa atividade não por prazer, mas por necessidade).

Muitas vezes, os documentos judiciais associavam a prostituição ao roubo e à vigarice, com as mulheres agindo com a ajuda de seus protetores para enganar os clientes. Constava ainda que o estupro de uma prostituta era crime, que era possível o casamento de uma mulher que já tinha se prostituído, que a justiça considerava a hipótese de um marido vender a esposa quando esta, forçada ao pecado, podia obter a separação legal. O desenvolvimento da prostituição nas cidades, no final da Idade Média, produziu uma desvalorização do trabalho feminino: as vendedoras, as trabalhadoras do setor têxtil, em especial, eram acusadas de maus costumes e seus ofícios eram vistos como uma fachada, que escondia outra atividade – desonesta. (Simone Roux, professora honorária da Universidade Paris VII Vincennes-Saint-Denis)


In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 2: Idade Média. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 15-16.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Prostituição na Antiguidade

Egito. A prostituição era praticada às margens do Nilo, mas não se sabe com que freqüência. A atividade era moralmente condenada; contudo, além das menções de favores sexuais obtidos em troca de dinheiro, encontram-se várias menções a relações sexuais coletivas em papiros ou ostraca, que não deixam dúvidas da existência de casas de prostituição.

Apesar de alguns documentos com relatos eróticos, o Egito não teve prostituição sagrada. As relações, mesmo íntimas, entre uma sacerdotisa e a divindade ocorriam no contexto da relação simbólica de um legítimo casal. (Michel Baud)

Mesopotâmia. A importância social e o papel positivo da prostituição aparecem na epopeia de Gilgamesh. Uma mulher seduz Enkidu e faz com que ele, de bruto selvagem, transforme-se em homem. Quando Enkidu está próximo da morte, amaldiçoa a prostituta que lhe tiraria a inocência. Depois, percebendo o bem que ela lhe trouxera, volta atrás. O exemplo mostra como os babilônios viam essas mulheres. A prostituição não era um setor marginalizado da sociedade mesopotâmica.

Não havia contradição entre a condição de uma prostituta ou de uma mulher dedicada aos deuses, ambas tinham escapado das regras familiares tradicionais. Assim, funcionárias de templos gerenciavam casas de prostituição, e Nanaya, deusa de Uruk, era associada ao erotismo e sexualidade. (Antoine Cavigneaux)

Mundo greco-romano. De acordo com o direito ateniense, o homem que se prostituía (em uma relação homossexual) perdia a capacidade de exercer uma função pública e de freqüentar locais públicos. A violação era punida com a morte. A razão dessas regras está no papel social desempenhado pela pederastia.

Hetaira urinando dentro de um skyphos. Cerâmica, ca. 480 a.C.

Já a prostituição feminina não era punida, pois cumpria uma função útil, a de evitar o adultério. Havia várias formas de se prostituir, e a mais depreciada era a das mulheres que se vendiam na beira das estradas e em bordéis. Aquelas que acompanhavam os homens na sociedade (fechada às mulheres honestas) e tinham certa educação (da qual as mulheres em geral eram privadas) eram chamadas “acompanhantes”. Diante de alguns templos (e em proveito deles), a prostituição sagrada era praticada, mas não há indícios disso em Atenas.

Cliente e prostituta. Cerâmica, ca. 480-470 a.C.

Pelas mesmas razões, a prostituição feminina sempre foi tolerada em Roma. Mas a prostituta era objeto de reprovação social. A prostituição masculina foi proibida por volta da metade do século III d.C. A constituição imperial de 390 d.C. estabelecia que fossem queimados vivos os homens que se prostituíssem nos bordéis da cidade. (Eva Cantarella)


In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 1: antiguidade. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 24.

domingo, 23 de dezembro de 2012

As prostitutas na História


Salão na Rue des Moulins, Toulose-Lautrec

Que a prostituição é popularmente conhecida como a profissão "mais antiga do mundo", todos sabem. E, desde que o mundo é dito civilizado, sempre houve prostitutas pobres e prostitutas de elite. O lado desconhecido dessa história é que a imagem a respeito delas nem sempre foi a que temos atualmente. As meretrizes já foram admiradas pela inteligência e cultura, e também já foram associadas a deusas - manter relações sexuais com elas era necessário para conseguir poder e respeito. As "mulheres da vida" sempre tiveram um lugar na História, mas, ao longo dos anos, seu status passou de respeitável à condenável.

Maria Regina Cândido, professora de graduação e de pós-graduação em História, e coordenadora do Núcleo de Estudos da Antiguidade (NEA), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), explica que a conotação de ser ou não bem-vista pela sociedade é um olhar de nosso tempo sobre as prostitutas. "Na antiguidade, elas tinham seu lugar social bem definido. Era uma sociedade que determinava a posição de cada um, que precisava cumprir bem o seu papel em seu espaço e não migrar de função", diz Maria Regina.

Lá atrás, no período da pré-história, a mulher era associada à Grande Deusa, criadora da força da vida, e estava no centro das atividades sociais, explica Nickie Roberts, no livro As Prostitutas na História. Com tal poder, ela controlava sua sexualidade. Nessas sociedades pré-históricas, cultura, religião e sexualidade estavam interligadas, tendo como fonte a Grande Deusa, conhecida inicialmente como Inanna e mais tarde como Ishtar. Os homens, ignorantes de seu papel na procriação, não eram obsessivos pela paternidade. Foi essa preocupação com a prole que, mais tarde, levou ao surgimento das sociedades patriarcais, com a submissão da mulher.

Por volta de 3.000 a.C., tribos nômades passaram a criar gado e tornaram-se conscientes do papel masculino na reprodução. As sociedades matriarcais da deusa começaram a ser subjugadas. As primeiras civilizações da era histórica desenvolveram-se na Mesopotâmia e no Egito, e nasceram desse levante. Novas formas de casamento foram introduzidas, especificamente destinadas a controlar a sexualidade das mulheres, afirma a escritora. "Foi nesse momento da história humana, em torno do segundo milênio a.C., que a instituição da prostituição sagrada tornou-se visível e foi registrada pela primeira vez na escrita", explica Nickie.

As grandes cidades da Mesopotâmia e do Egito continuaram centralizadas nos templos da Grande Deusa. As sacerdotisas dos templos, que participavam de rituais sexuais religiosos, ao mesmo tempo mulheres sagradas e meretrizes, foram as primeiras prostitutas da História, conta Nickie Roberts. O status dessas mulheres era elevado. Os reis precisavam buscar a benção da deusa, por meio do sexo ritual com as sacerdotisas, para legitimar seu poder. "Nessa época, as prostitutas do mais alto escalão do templo eram, por direito nato, agentes poderosas e prestigiadas; não eram as meras vítimas oprimidas dos homens, tão protegidas pelas feministas modernas", escreve Nickie Roberts.

Foi nesse período, quando os homens começaram a tomar o poder, que também surgiu a hierarquia entre as mulheres do templo, com um escalão de prostitutas de classe alta, que mantiveram seus antigos poderes e privilégios. As harimtu, que trabalhavam fora dos templos, foram as primeiras prostitutas de rua. Ainda assim, a conexão entre sexo e religião persistia, pois as meretrizes da rua continuavam a ser vistas como sagradas, protegidas de Ishtar.

A divisão das mulheres em prostitutas e esposas vem desse início da história patriarcal. Foi na antiga Suméria, por volta de 2.000 a.C., que surgiram as primeiras leis segregando as duas. "Nessa época, já começava a ampliar a lacuna entre as 'boas'- dóceis e obedientes - esposas e as 'más' - sexualmente autônomas - prostitutas", diz Nickie.

A autora explica que a forma patriarcal de casamento, em que o marido literalmente é dono da esposa e dos filhos, aprofundou mais ainda o abismo entre a esposa e a prostituta, na medida em que as instituições religiosas e políticas masculinas foram crescendo. "Ao mesmo tempo, as leis que cercavam as prostitutas e o seu trabalho tornaram- se mais opressivas", conta Nickie. Segundo ela, durante toda a história da Mesopotâmia e do Egito, o sexo era ainda considerado sagrado e, apesar das leis, não havia uma moralidade puritana a estigmatizar as mulheres que se sustentavam vendendo sexo.

Julio Gralha, professor do NEA/UERJ, lembra que a visão sobre as prostitutas da época é pouco documentada de forma escrita, mas pode ser inferida pelas imagens das iconografias. "Pela análise da iconografia, a prostituta existia no Egito e atuava de forma remunerada. Há contos iconográficos, cômicos, em que a prostituta é vista como poderosa, o homem não agüenta. Como aparecem o colar e outros símbolos ligados à deusa, elas são vistas como protegidas. A prostituição não era algo repulsivo ou condenado pela religião", diz Gralha.

Com o passar do tempo, a independência sexual e econômica da prostituta tornou-se uma ameaça à autoridade patriarcal. Por isso, a religião da deusa foi combatida pelos sacerdotes hebreus e, aos poucos, suprimida. Os rituais sexuais viraram pecados graves e as sacerdotisas, pecadoras. "As principais religiões patriarcais que se seguiram - o cristianismo e o islamismo - reconheceram o impacto devastador do estigma da prostituta na divisão e regulamentação das mulheres", explica Nickie Roberts.

A Grécia antiga foi uma típica sociedade patriarcal. As mulheres não podiam participar da vida política e social. No entanto, como aconteceu a todas as sociedades antigas, os primeiros habitantes da Grécia foram povos adoradores da deusa, afirma Nickie. Os deuses masculinos só vieram mais tarde, por volta de 2.000 a.C., com os invasores indo-europeus. As duas culturas fundiram-se e produziram o híbrido que chegou até nós. Basta lembrar que Zeus, divindade suprema indo-européia, casou-se com Hera, poderosa deusa sobrevivente do culto anterior.

A negação total do poder da mulher na sociedade grega é decorrente do governo de uma série de ditadores homens. Sólon, que governou Atenas na virada do século VI a. C., foi o principal deles, tendo institucionalizado os papéis das mulheres na sociedade grega. Passaram a existir as "boas mulheres", submissas, e as outras.

Foi também Sólon quem, percebendo os lucros obtidos pelas prostitutas - tanto as comerciais quanto as sagradas -, organizou o negócio, criando bordéis oficiais, administrados pelo Estado. Neles, havia grande exploração das mulheres, que eram praticamente escravas. Junto com os bordéis oficiais, muitas meretrizes independentes exerciam o seu comércio, apesar da legislação de Sólon. "Pela primeira vez na História, as mulheres estavam sendo cafetinadas - oficialmente. (...) Assim, de mãos dadas, nasceram a cafetinagem estatal e privada", afirma Nickie.

Maria Regina Cândido, historiadora da UERJ, lembra que foi a pressão sobre a terra, com o grande aumento da população grega, que levou Sólon a criar os primeiros bordéis. Isso porque ele trouxe para a região estrangeiros ceramistas, com o intuito de ensinar à população excedente uma nova atividade, já que a agricultura não absorvia mais a todos. "Para que os estrangeiros não molestassem as esposas e filhas de cidadãos gregos, ele criou um espaço de prostituição oficial na periferia da cidade, os bordéis", explica a coordenadora do NEA. Segundo Maria Regina, as prostitutas ficavam em frente ao cemitério, na região do cerâmico, onde estavam instaladas as oficinas dos ceramistas, e também na região do Porto do Pireu, onde eram chamadas de pornes, daí vem a palavra pornografia.

As prostitutas dos bordéis eram estrangeiras, trazidas para a Grécia exclusivamente para cumprir esse papel. Mas muitas mulheres gregas, depois de casamentos desfeitos por suspeita de traição ou outros desvios de comportamento, não viam outro caminho a não ser prostituir-se. Essas, estigmatizadas, juntavam-se às estrangeiras nos bordéis oficiais.

Muitas prostitutas eram cultas e instruídas, e cumpriam o papel de entreter os líderes daquela sociedade. Cobravam alto preço por sua companhia e podiam ou não ceder aos desejos sexuais do cliente. São as hetairae, amantes e musas dos maiores poetas, artistas e estadistas gregos, explica Maria Regina. "As hetairae conduziam seus negócios abertamente em Atenas, trabalhando independentemente tanto dos bordéis do Estado quanto dos templos", diz Nickie.

A prostituição sagrada também sobreviveu, embora timidamente, durante o período da Grécia clássica. Havia templos em toda a Grécia, especialmente em Corinto - dedicado à deusa Afrodite. As prostitutas do templo não mais eram vistas como sacerdotisas, eram tecnicamente escravas. Mas, por serem consideradas criadas da deusa, mantinham a aura de sacralidade e eram homenageadas pelos clientes. [...]

Roma foi diferente da Grécia. Até o início da República, a prostituição não era tão disseminada no território romano. "Roma ainda era muito provinciana, fechada", explica Ronald Wilson Marques Rosa, historiador e pesquisador do NEA/UERJ. A prostituição apenas se difundiu com a expansão militar do império romano e a conquista de escravos. Antes desta expansão, há indícios de que entre os primeiros romanos, que eram povos agrícolas, existia a antiga religião da deusa, diz Nickie Roberts. Ela também afirma que, em tempos posteriores, a prostituição religiosa estava ligada à adoração da deusa Vênus, que era considerada protetora das prostitutas.

Após a expansão militar e territorial, "os escravos eram os prostitutos, tanto homens quanto mulheres. E não havia estigmatização, não era algo mal-visto. Era normal o uso comercial do escravo para a prostituição. E, muitas vezes, eles usavam esse dinheiro para conseguir a liberdade", diz Ronald Rosa.

De acordo com Nickie, Roma foi uma sociedade sexualmente muito permissiva. "Eles escarneciam de qualquer noção de convenção moral ou sexual e desviavam-se de toda norma que houvesse sido inventada até então", afirma. A grande expansão urbana favoreceu o crescimento da prostituição. A vida era barata, e o sexo, mais barato ainda, diz a autora. Prostituição, adultério e incesto permearam a vida de muitos imperadores romanos.

"Falando de modo geral, a prostituição na antiga Roma era uma profissão natural, aceita, sem nenhuma vergonha associada a essas mulheres trabalhadoras", comenta Nickie. A vida permissiva levava mulheres a rejeitar o casamento, a ponto de o imperador Augusto estabelecer multas para as moças solteiras da aristocracia em idade casadoira. Muitas se registraram como prostitutas para escapar da obrigação. O sucessor de Augusto, Tibério, proibiu as mulheres da classe dominante de trabalhar como prostitutas.

Diferente da Grécia, os romanos não possuíam e nem operavam bordéis estatais, mas foram os primeiros a criar um sistema de registro estatal das prostitutas de classe baixa. Isso resultou na divisão das prostitutas em duas classes, explica Nickie: as meretrices, registradas, e as prostibulae (fonte da palavra prostituta), não registradas. A maior parte não se registrava, preferia correr o risco de ser pega pela fiscalização, que era escassa.

Com o declínio do Império Romano, começou a Idade Média. Os invasores, guerreiros bárbaros, organizam a vida não mais em grandes cidades e sim em aldeias agrícolas, que não favoreciam a prostituição como a vida urbana. "As artes civilizadas do amor, do prazer e do conhecimento - o erótico e os demais - desapareceram durante a Idade das Trevas. (...) a antiga tradição de uma sensualidade feminina orgulhosa e exaltadora desapareceu para sempre", afirma Nickie Roberts. A igreja cristã perpetua-se e reprimi a sexualidade feminina, ao censurar a prostituição.

Apesar de condenada, a prostituição foi tolerada pela igreja, que a considerou "uma espécie de dreno, existindo para eliminar o efluente sexual que impedia os homens de elevar-se ao patamar do seu Deus", explica Nickie. A igreja condenava todo relacionamento sexual, mas aceitava a existência da prostituição como um mal necessário. De acordo com Jacques Rossiaud, autor de A Prostituição na Idade Média, "pode-se afirmar, sem receio de erro, que não existia cidade de certa importância sem bordel".

Havia bordéis públicos, pequenos bordéis privados e também casas de tolerância - os banhos públicos. Além disso, continuavam a existir as prostitutas que trabalhavam nas ruas. Em tese, o acesso aos prostíbulos públicos era proibido para homens casados e padres, mas eles encontravam meios de burlar a legislação. Rossiaud escreve que as prostitutas não eram marginais na cidade, mas desempenhavam uma função. Nem eram objeto de repulsão social, podendo, inclusive, ser aceitas na sociedade e casar-se depois que deixassem a vida de prostituta.

A liberdade sexual só era tolerada para os homens. As mulheres casadas e suas filhas, de boa família, deviam temer a desonra. Mas, de acordo com Rossiaud, essa liberdade masculina não sobreviveu à "crise do Renascimento". Houve uma progressiva rejeição da prostituição, que revelava nas comunidades urbanas a precariedade da condição feminina. "Lentamente, a mulher conquistou uma parte do espaço cívico, adquiriu uma identidade própria, tornou-se menos vulnerável", explica Rossiaud. E houve uma revalorização do casal.

Prostituição e violência aparecem pela primeira vez associadas, devido a brigas, disputas e assassinatos nos locais públicos. Autoridades municipais, apoiadas pela igreja, passaram a coibir a prostituição que, a partir de então, "aparecia como um flagelo social gerador de problemas e de punições divinas", afirma Rossiaud. Um após outro, os bordéis públicos foram desaparecendo. "A prostituição não desapareceu com eles, mas tornou-se mais cara, mais perigosa, urdida de relações vergonhosas", diz Rossiaud. Para o autor, foi o "duplo espelho deformante do absolutismo monárquico e da Contra-Reforma" que fizeram parecer "decadência escandalosa o que era apenas uma dimensão fundamental da sociedade medieval."

Na modernidade, segundo Margareth Rago, professora titular do departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora de Os Prazeres da Noite, a prostituição ganhou feições diferenciadas. Isso porque as mulheres conquistam maior visibilidade e atuação na sociedade. Surgiram novas formas de sociabilidade e de relações de gênero, com a criação de fábricas, escolas e locais de lazer e consumo. "Foram outros modos de vida, nos quais a mulher vai ter maior participação", diz Margareth.

Nesse contexto, nasceu o feminismo e a mulher reivindicou o direito de trabalhar e de estudar. O discurso sobre a prostituição ficou forte nesse período e virou debate médico e jurista. "Há um uso, não consciente, da prostituição para dizer que mulher direita não fuma, não sai de casa sozinha, não assobia na rua, não goza. O médico vai dizer que a mulher não tem muito prazer sexual, ela tem desejo de ser mãe. Já o homem tem e, por isso, precisa da prostituta", afirma Margareth.

De acordo com Margareth, é nessa época que as prostitutas passam a ser condenadas como anormais, patológicas, sem-vergonhas; uma sub-raça incapaz de cidadania. E a justificativa vai vir de teorias médico-científicas. "O que acontece é que a medicina do século XVIII usa os argumentos misógenos de Santo Agostinho e de São Paulo, e fundamenta cientificamente o preconceito contra a prostituta", explica Margareth. "Diz que a prostituta é um esgoto seminal, uma mulher que não evoluiu suficientemente. São pessoas que têm o cérebro um pouco diferente, o quadril mais largo, os dedos mais curtos. Criam toda uma tipologia", diz Margareth.

Para a autora de Os Prazeres da Noite, podemos diferenciar a imagem que se construiu da prostituta na modernidade para a visão que temos dela hoje em dia: "Nos últimos 40 anos, mudou muito. O sexo está deixando de ser patológico, de estigmatizar o que pode e o que não pode. Não sei se acontecem mais coisas na cama de casados ou de uma prostituta. A revolução sexual transformou os costumes. Mas a sociedade ainda é conservadora e há forte preconceito contra essas mulheres", diz Margareth.

Patricia Pereira. As prostitutas na História - De deusas à escória da humanidade. In: Revista Leituras da História.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Civilizações do Antigo Oriente

Modelo funerário egípcio: parto de uma vaca. Médio Império, XIIª dinastia (1990-1786 a.C.)

A descoberta do mundo antigo pelas sociedades ocidentais modernas partiu de referências contidas nos textos literários e filosóficos gregos e latinos e na Bíblia.

A partir dessas referências desenvolveram-se dois campos de estudo, que se tornaram a base para o conhecimento da história antiga: a arqueologia e os estudos filológicos e linguísticos, compreendendo decifração e tradução das escritas antigas.

* Arqueologia. Atualmente a arqueologia é um dos mais importantes ramos da pesquisa histórica. Além de exigir profissionais e técnicos altamente qualificados, necessita de grandes investimentos. São as principais universidades europeias e norte-americanas, em geral associadas a museus e grupos empresariais, que realizam as maiores pesquisas arqueológicas, continuando a enriquecer os acervos ocidentais. Apesar de tudo, ela não é exclusividade dos pesquisadores europeus ocidentais e norte-americanos. Estudiosos russos, do Extremo Oriente e da África também têm sido responsáveis por importantes descobertas nessa área.

A arqueologia não se presta, também, apenas ao estudo da Antiguidade. As técnicas e teorias por ela desenvolvidas permitem o estudo de toda e qualquer cultura, das mais antigas às atuais, por meio do conhecimento de suas produções materiais: construções, monumentos, utensílios e objetos. Daí sua importância para o estudo das culturas não letradas.

* Decifração das escritas antigas. A descoberta das antigas civilizações, porém, só se tornou efetiva quando foi possível decifrar e, consequentemente, entender os textos produzidos nas diferentes formas de escrita, nas diversas línguas.

A partir da primeira metade do século XIX, praticamente todas as escritas antigas foram decifradas. Assim, a enorme quantidade de documentos que resistiu a todos os agentes destruidores começou a ser lida e traduzida para as diversas línguas europeias atuais.

A decifração das escritas possibilitou um diálogo com as culturas antigas. No entanto, os primeiros pesquisadores muitas vezes conseguiam traduzir as palavras, mas não atinavam com o sentido do texto. Esse problema foi superado quando os estudos linguísticos revelaram que os textos eram poemas e, portanto, seria preciso utilizar os recursos da análise e da crítica poéticas para entendê-los.

* Começo da História. A periodização, convencionalmente adotada, estabelece que o ingresso dos povos na história e na civilização se dá com a invenção de alguma forma de escrita.

- Escrita: Não se sabe ao certo quando surgiu a primeira forma de escrita. O mais provável é que diferentes formas tenham surgido simultaneamente, em lugares distintos. As inscrições mais antigas encontradas até agora são sumérias e egípcias e datam do IV milênio a.C.

No decorrer do II milênio a.C., praticamente todas as sociedades nucleadoras das civilizações antigas já tinham desenvolvido alguma forma de escrita.

A escrita, porém, era um privilégio das categorias socialmente dominantes (desde o início, no âmbito das civilizações, o controle da expressão e da comunicação das palavras e das ideias é um dos instrumentos do poder). A maioria da população permaneceu ágrafa - sem escrita - ou, como se diria hoje, analfabeta.

- Outros requisitos da civilização: O ingresso dos povos na história assinalou-se por outras transformações socioculturais, consideradas também elementos de distinção entre a Pré-história e a Antiguidade:

. a sedentarização do ser humano com o surgimento da agricultura e da criação de animais;
. o uso dos metais, com a metalurgia (bronze e ferro);
. o surgimento das cidades e a organização da vida urbana;
. a organização da sociedade em categorias sociais distintas;
. o surgimento do Estado.

Entre os diversos povos não existe parâmetro fixo para a sucessão dessas mudanças. Assim, se todos os povos ao desenvolverem a escrita já praticavam a agricultura ou eram pastores, nem todos sabiam manipular os metais. Do mesmo modo, o surgimento de uma forma organizada de Estado nem sempre coincidiu com o surgimento da escrita. Além do que, as relações entre os povos sempre produziram alterações nesses processos, não importando em que estágio se encontravam os diferentes grupos humanos.

[...]

* Reinos e impérios. Considerando-se os três conjuntos [...] (Egito, Ásia Ocidental e Extremo Oriente), é possível organizar uma sequência de impérios, mas essas sequência não pode ser linear, nem mesmo quando se trata de um único reino ou império. Os impérios se formaram, cresceram, dominaram outros e desapareceram em meio a uma grande agitação de povos, sociedades e culturas diferentes. Alguns podem ser vistos como sucessores de outros, que foram conquistados ou que deixaram de existir devido a crises internas. Na maior parte dos casos, porém, os impérios foram contemporâneos e se relacionaram (como aliados e/ou rivais).

Os reinos e impérios que se destacaram no mundo antigo oriental foram: Egito faraônico, Suméria, Babilônia, Assíria, Mitani, Hitita, Hebreu (Israel e Judá), Fenícia, Urartu, Frígia, Lídia, Medo-Persa, Índia, China, Japão.


Templo do Sol em BaalbekFritz Max Hofmann-Juan

O Egito faraônico, a Índia, a China e o Japão, apesar da diversidade de características e situações, têm pontos em comum: um relativo isolamento em relação à agitação da Ásia Ocidental e uma extraordinária continuidade. O isolamento acentuou-se no Extremo Oriente e foi relativo no caso do Egito. A continuidade egípcia encerrou-se na Antiguidade, enquanto a do Extremo Oriente, de certa forma, prolonga-se até os dias atuais.

A continuidade da identidade política não quer dizer, porém, homogeneidade ou permanência das características histórico-culturais nem dos sistemas de governo.

O isolamento também deve ser matizado. Acentuado no Extremo Oriente, não impediu que a Índia participasse do contexto asiático-ocidental, por meio do comércio e das invasões que sofreu.

* O Estado. Nas sociedades orientais, o surgimento do Estado esteve ligado à organização religiosa.

O governo caracterizava-se pelo absolutismo autocrático, ou seja, o monarca enfeixava em suas mãos todos os poderes. Esse tipo de governo é genericamente definido como despótico.

Na medida em que Estado e religião eram identificados, o despotismo oriental foi reconhecido como uma teocracia (literalmente, governo de deus). Isso significa uma concepção divina do poder.


Funeral de uma múmiaFrederick Arthur Bridgman

No entanto, nessa concepção a identificação entre o monarca e as divindades tinha formas variadas. O rei podia ser considerado ele próprio um deus, em vida ou depois de morto. Podia também ser concebido como filho de um deus ou como seu representante junto ao povo, ou ser simplesmente o escolhido por um deus. A função do monarca, em qualquer caso, era considerada sagrada. Em todos os ritos religiosos oficiais, o rei cumpria a função de sumo-sacerdote.

A principal exceção ao caráter divino do governante no mundo antigo oriental foram as monarquias hebraicas. Nelas, o rei era apenas o ungido de deus. Sendo a sociedade hebraica monoteísta (crença em um único deus), não faria sentido conceber o rei como um ser divino.

[...]

* Cotidiano: a vida de homens e mulheres comuns. Pouco se sabe sobre a vida cotidiana dos homens e das mulheres comuns que construíram as civilizações orientais antigas. A maior parte dos registros e vestígios existentes, notadamente os escritos, refere-se e foi produzida para atender às elites religiosas, políticas, militares e sociais.

Informações ou, mais precisamente, conjecturas sobre o modo de vida e a cultura popular são extraídas dos registros pictóricos. Trata-se, em geral, de cenas mostrando pessoas comuns na realização de atividades cotidianas ou domésticas, que decoram objetos e monumentos. É preciso assinalar que a vida cotidiana, assim como todas as atividades sociais, também era profundamente relacionadas à religião.


Modelo de cozinha no Egito antigo: trabalhadores fabricando cerveja. XII dinastia (2050-1800 a.C.)

* Mulheres na Antiguidade Oriental. Sabe-se muito pouco também sobre a vida das mulheres na Antiguidade Oriental. De modo geral, elas ficavam restritas às atividades domésticas e pouco participavam do mundo oficial.

Os relatos gregos sobre o mundo oriental apresentam-nas completamente submetidas ao homem. Elas acompanhavam os exércitos nas guerras e sofriam tanto ou mais que os homens os reveses das derrotas: eram massacradas ou estrupadas e escravizadas. Além do mais, as que pertenciam às camadas pobres, tal como os homens nas mesmas condições, eram obrigadas a realizar todos os tipos de trabalho. Nas categorias sociais privilegiadas, embora não sofressem essas mazelas, as mulheres eram, em geral, confinadas em haréns e, qualquer que fosse sua condição - esposa, concubina ou escrava -, viviam isoladas da sociedade.

Na Antiguidade Oriental, a prostituição era comum. Na Ásia Ocidental, constituía uma instituição bastante generalizada, tanto na forma sagrada, quando se apresentava como um sacrifício ritual nos cultos aos deuses ou às deusas do amor e da fertilidade, como na forma profana, quando era um meio de subsistência.


O mercado de casamento da Babilônia,  Edwin Long. 

* O fim da Antiguidade Oriental. [...] ao contrário das civilizações do Extremo Oriente, as milenares civilizações da Ásia Ocidental e do Egito podem ser consideradas extintas.

Os seus antigos territórios, que, com raras exceções, não conservaram sequer os próprios nomes, são habitados por povos diferentes, que falam línguas diferentes e, enfim, desenvolveram processos históricos que não guardam nenhuma identidade com os antigos tempos. As novas civilizações, sobretudo, praticam outras religiões.

A religião era a base das civilizações antigas. Quando seus deuses imortais foram eliminados pelo deus único, dominante, essas bases ruíram e as civilizações que elas sustentavam desapareceram.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 40-48.