"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Bacantes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bacantes. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de novembro de 2013

O escândalo das Bacanais 2: abordagens [um escândalo religioso revelado]

O retumbante escândalo das Bacanais, que foi relatado por Tito Lívio com todos os detalhes, é confirmado no século XVII com a descoberta, na Calábria, de uma placa de bronze com o texto gravado do senátus-consulto, condenando a seita das bacantes em outubro de 186 a.C. É possível dar crédito a esse relato cujos personagens e peripécias se assemelham às intrigas dos melodramas tão apreciados pelos contemporâneos de Tito Lívio? O autor apresenta apenas as peças da acusação, que não procura relativizar. É, portanto, a versão oficial do escândalo que ele nos conta. Apesar de algumas improbabilidades, contudo, o relato de Tito Lívio tem o mérito de ser o único documento literário relativo aos mistérios dionisíacos em Roma.


"Esses charlatães se haviam instalado em Roma, auferindo, do desvio dos espíritos, lucros fáceis [...]"

Triunfo de Baco. Mosaico romano, século II

O affaire das Bacanais revela claramente a propagação em Roma dos movimentos filosófico-místicos a partir do final do século III a.C. Durante os primeiros anos da segunda guerra púnica, os romanos sofreram uma série de derrotas espetaculares que permitem a Aníbal e aos exércitos púnicos ocupar a Campânia. Numerosos italianos do sul da península e da Sicília vão se refugiar em Roma e se misturam com a plebe da cidade. Trazem consigo novos deuses, novas superstições, novas técnicas para conjurar a sorte. Os romanos, desorientados por suas derrotas e temendo que Aníbal se apodere de sua cidade, encontram nessas crenças estrangeiras respostas a suas interrogações sobre o futuro que pode lhes conceder novamente esperança. "Não era mais somente em segredo, escreve Tito Lívio, e dentro das casas que os ritos romanos eram abolidos. Em público, no Fórum, no Capitólio, via-se uma multidão de mulheres não observar nem em seus sacrifícios nem em suas orações aos deuses os costumes de seus pais. Sacrificadores, adivinhos se haviam apoderado de seus espíritos. Seu número aumentou graças à afluência da plebe camponesa expulsa, pela pobreza e pelo medo, de seus campos, que se haviam tornado incultos e perigosos por causa de uma guerra prolongada. Esses charlatães se haviam instalado em Roma, auferindo, do desvio dos espíritos, lucros fáceis e enriqueciam com essas práticas como pelo exercício de um ofício permitido."

Um capricho arquitetônico com uma procissão bacariana, Giovanni Benedetto Castiglioni

As autoridades romanas se inquietam com esses desvios religiosos que ameaçam a ordem. Mandam recolher todos os livros de profecias e as fórmulas de orações para queimá-los em público. Ao mesmo tempo, para restabelecer a confiança nos cultos oficiais, são adotados às pressas novos cultos ou, então, retorna-se aos ritos arcaicos: voto de uma "primavera sagrada" (velha prática do culto a Marte), anseios por santuários dedicados a Mens (deusa da inteligência) e a Vênus Encina (divindade greco-púnica), sacrifícios humanos de um casal de gauleses e de um casal de gregos enterrados vivos, dedicação de jogos a Apolo etc. Essa sequência heteróclita de medidas traduz o embaraço e a impotência das autoridades em dominar a efervescência religiosa dessa época. Além disso, essas intervenções oficiais não podem refrear o sucesso das crenças e dos cultos vindos de outros lugares, importados para Roma mais ou menos clandestinamente. Deuses estrangeiros (o grego Dioniso, o trácio Sabázio) e correntes místicas como o pitagorismo seduzem os romanos que duvidam da eficácia da religião oficial. Todos esses novos movimentos têm como objetivo dirigir-se a cada indivíduo em especial, e não mais à coletividade.

Bacanal, Lovis Corinth

Essas preocupações religiosas se incluem também na luta interna que se origina no seio da nobreza romana perante a expansão do helenismo. Durante a segunda guerra púnica, Aníbal, instalado na região de Cápua, assina tratados com as cidades da Campânia, da Sicília e com o rei da Macedônia. Favoráveis até então aos costumes e aos modos gregos, os romanos veem doravante no helenismo um perigo. Duas correntes antagônicas existem no seio da nobreza. Uns tratam com rigor tudo o que vem da Grécia e pregam o respeito absoluto da tradição nacional. Outros, abertos aos aportes externos, pedem mudança e abertura às influências gregas e orientais. Fabius Maximus Verruscosus, dito Cunctator, durante a segunda guerra púnica, depois Catão, o Velho, no início do século II, reúnem em torno deles os nacionalistas intransigentes opostos a qualquer modificação do mos maiorum (costume dos antepassados) e hostis ao imperialismo romano. Em contrapartida, os filo-helênicos, dentre os quais os mais ativos são os Cipiões e os Emílios, desejam a expansão romana para além das fronteiras da Itália. Muito influentes, no início do século II, levam a guerra contra a Macedônia e, após a vitória de Cinoscéfalos, o filo-helênico Flamínio declara a liberdade da Grécia em 196 a.C. Os conservadores retomam a vantagem a partir de 190 a.C. e não é surpreendente constatar que Catão, o Velho, obtém a censura - a mais alta magistratura romana - no ano que se segue ao escândalo das Bacanais.


Bacantes, Lovis Corinth

O culto de Dioniso é antigo, visto que foi trazido pelos gregos por ocasião da conquista do sul da península no século VII a.C. Depois, tiasos (confrarias mais ou menos secretas consagradas a um deus) se multiplicaram e se difundiram por toda a Itália. O sucesso da seita dionisíaca é garantido pela promessa de imortalidade a seus adeptos. Esses tiasos não conservaram os rituais arcaicos do culto, como as corridas desenfreadas dos bacantes brandindo seus tirsos, dardos encimados por uma pinha, ou o desmembramento com as próprias mãos das vítimas das quais consomem a carne crua. Essas práticas bárbaras não são mais observadas pelos fiéis do deus que se reúnem em pequeno número em santuários onde celebram os ritos de iniciação.

A bacanal, Peter Paul Rubens

Para as bacantes, o menino Zagreus, filho de Zeus e de Semela, foi criado por Hera, que ordena aos Titãs despedaçá-lo e comê-lo. Zeus consegue recuperar pedaços de Zagreus e o regenera, de onde provém o novo nome do deus, Dioniso, "duas vezes nascido". Os fiéis, pela iniciação aos mistérios, podem sair de seu "eu" corporal para se comunicar com o deus numa exaltação mística, o extasis (êxtase), que é obtido pela absorção de vinho e drogas. O futuro iniciado é posto nessas condições pelas danças das mulheres, pelos urros misturados aos sons lancinantes dos tamborins e címbalos. Máquinas de teatro permitem simular as descidas aos Infernos que precedem a descoberta da revelação do deus Baco a seus fiéis e que lhes promete a imortalidade.

A decadência dos romanos, Thomas Couture

Tito Lívio mostra-se pouco preciso sobre as condições de instalação do tiaso de Baco em Roma. Segundo ele, um homem miserável e inculto, "um mesquinho sacerdote grego, um contador de aventuras", vem da Etrúria para fundar uma seita clandestina. Mais adiante, evoca a sacerdotisa campana Pacula Ânia que introduz modificações no ritual. Essas duas origens do tiaso não são incompatíveis. Em 186 a.C., muitos etruscos e habitantes da Campânia se misturaram com a plebe romana. É necessário acrescentar a eles os prisioneiros gregos trazidos para Roma depois da primeira guerra da Macedônia e da expedição na Síria (200-197 a.C.).

O triunfo de Baco, Nicolas Poussin

Tito Lívio faz também uma análise interessante dos "danos" causados pelas cerimônias da casa do Aventino. A vizinhança começa a se queixar do barulho noturno dos adeptos de Dioniso. Na esteira dos comentários, os bacantes são acusados de liberar seus instintos perversos em uniões proibidas. Uma vez que os rumores crescem a respeito, eles são vistos como trapaceiros, falsificadores de testemunhos e de testamentos e, por fim, criminosos que encobrem, pela algazarra de seus gritos e de seus instrumentos de música, os urros de suas vítimas. Não é muito original, pois nisso se vislumbra o arsenal habitual das calúnias que cercam as sociedades secretas.

Dioniso segurando um cântaro. Cerâmica grega.

A rapidez da reação de Postúmio prova que ele já conhece há mais tempo a seita dos bacantes e refletia a respeito dos meios a utilizar para erradicar o culto dionisíaco. É mais que provável que ele faça parte dos conservadores e que tenha se aproveitado da aventura de Ebúcio e de Híspala para pôr, de maneira espetacular, um freio à penetração das crenças estrangeiras em Roma. É provável que o tiaso do Aventino não tivesse mais que uma dezena de fiéis, sem dúvida inofensivos. Ao demonizar os bacantes em seus discursos perante o Senado e o povo, consegue fazer com que todos os romanos aceitem a campanha de depuração desse grupo religioso acusado de tramar contra a ordem da cidade.

Dioniso. Mosaico romano

A repressão é terrível, primeiramente em Roma, depois em toda a Itália. Para evitar serem acusados, muitos denunciam seus parentes e seus vizinhos. Homens e mulheres se suicidam para escapar do castigo, Outros tentam fugir de Roma, mas são detidos pelas patrulhas que vigiam as portas da cidade. Todos os negócios em curso são interrompidos para dar lugar a tribunais de exceção. Mais de 7 mil pessoas, homens e mulheres de todas as condições sociais, são detidas em Roma e seria caso de se questionar quantas delas realmente pertenciam à seita dionisíaca. Aqueles que se contentaram em repetir as fórmulas sagradas são encarcerados, os culpados de libertinagem, de crimes e de trapaças são condenados à pena capital. As mulheres são devolvidas a seus pais ou a seus maridos para que sejam mortas na casa deles em virtude do arcaico direito do páter famílias. Na Itália, a investigação dura mais de cinco anos e se traduz também por milhares de condenações. Um senátus-consulto regulamenta com toda a severidade o culto de Baco para impedir a reconstituição dos tiasos: interdição das reuniões secretas e dos juramentos, limitação da assembleia a cinco pessoas: três mulheres e dois homens.

Mosaico romano: Baco, Arianna, Sileno e Sátiro. Século II d.C.

O escândalo das Bacanais assinala provisoriamente um duro golpe à penetração do helenismo em Roma. Por meio dele, a parte mais conservadora do Senado impôs de maneira sangrenta o retorno aos valores nacionais.

SALLES, Catherine. (Dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 238-239.

sábado, 9 de novembro de 2013

O escândalo das Bacanais 1: o acontecimento

A repressão brutal de que são vítimas as bacantes de Roma traduz as tensões da política romana no início do século II a.C. O ocorrido revela também a importância dos movimentos religiosos estrangeiros que penetram em Roma de maneira clandestina.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

O cônsul Postúmio Albino está realmente embaraçado. Na véspera, um jovem romano de boa família, Ebúcio, veio, sem testemunhas, fazer-lhe revelações surpreendentes. Os propósitos do adolescente são um tanto confusos, mas ele, na verdade, acusa sua mãe e seu sogro de terem querido iniciá-lo nos mistérios de Baco. Ebúcio conta que, quando pôs a par disso sua mulher, a cortesã Híspala, esta logo explodiu em imprecações e denunciou uma maquinação secreta armada contra o jovem. Ela lhe conta que, muito jovem ainda, acompanhou sua ama até o santuário de Baco. No local ela assistiu a toda espécie de infâmias, em particular ao estupro de adolescentes, que são violentados pelos sacerdotes ao som de tamborins e de címbalos. Impressionado com o relato de sua mulher, Ebúcio disse a sua mãe que recusava a iniciação, e seu sogro, exasperado, expulsou-o de casa. O jovem se refugiou na casa de sua tia paterna Ebúcia, que o aconselhou a contar tudo ao cônsul.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

É impossível para Postúmio submeter Ebúcio a um interrogatório, por causa de sua qualidade de cidadão. O cônsul manda de volta o jovem para a casa de sua tia e começa uma investigação discreta junto de sua própria sogra, Sulpícia. Esta garante que Ebúcia é uma pessoa irrepreeensível e, a pedido de seu genro, convida a velha senhora à sua casa. Postúmio chega então de improviso na casa de Sulpícia, depois leva habilmente Ebúcio para a residência. Ebúcia, em lágrimas, logo revela que a mãe e o padrasto de seu sobrinho desviaram a herança deste e que, para evitar prestar contas de tutela, tramaram sua iniciação nos mistérios de Baco.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

A segunda fase da investigação pode começar. Sulpícia desempenha novamente a intermediária e convida Híspala a sua casa. A cortesã fica aterrorizada ao entrar na casa de Sulpícia: o cônsul, cercado de seus colaboradores e de sua guarda de litores, a espera e a intima a informá-lo sobre tudo o que ela sabe sobre as cerimônias dionisíacas. Sabendo dos castigos infligidos aos iniciados que revelarem os ritos secretos dos mistérios, Híspala começa negando tudo. Postúmio a ameaça, trata-a brutalmente, usa de chantagem. A jovem desmorona e revela finalmente tudo o que sabe das bacantes.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

Seu local de reunião é um pequeno santuário construído num bosque sagrado situado aos pés do Aventino, perto do rio Tibre. Durante vários anos, somente as mulheres participaram dos mistérios, três vezes por ano e durante o dia.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

Uma nova sacerdotisa, Pacula Ânia, vinda da Campânia, modificou profundamente os ritos. Iniciando seus dois filhos, ela abre o culto aos homens. Doravante as cerimônias ocorrem à noite, cinco vezes por mês. Ela decidiu também não admitir mais iniciados que tiverem ultrapassado os 20 anos. A partir do momento em que os homens e as mulheres se encontram misturados, os mistérios degeneram em cenas de libertinagem, acobertadas pela noite que permite qualquer tipo de licenciosidade. Muitos homens violentam com toda a impunidade os jovens iniciados. Alguns, agitando-se como possessos, proferem oráculos. As mulheres, vestidas de peles de animais e com os cabelos desgrenhados, correm para o Tibre para nele mergulhar tochas ardentes que saem da água acesas. Nas profundezas do santuário estão máquinas infernais, nas quais são jogados aqueles que não querem fazer juramento ou se entregar à libertinagem.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

Vários pontos da declaração da Híspala são particularmente inquietantes. Ela afirmou que "não considerar nenhum ato como sacrilégio é nesse meio o ápice da perfeição religiosa". Ora, essa atitude é oposta à religião tradicional de Roma que se baseia numa série de proibições. Híspala revelou também que as bacantes "formam um segundo povo de Roma", pelo número e pela composição social: há homens e mulheres, crianças e anciãos, nobres e escravos. Enfim, escolhendo iniciados extremamente jovens, os bacantes amolecem e pervertem os jovens, futuros soldados romanos.


Pintura mural da mansão dos Mistérios em Pompeia, século I a.C.

Postúmio possui os elementos que permitem tornar público o escândalo. Põe em segurança seus dois informantes, depois se dirige ao Senado para revelar o perigo que ameaça Roma. Os senadores decidem pela abertura de um inquérito extraordinário em Roma e na Itália. Os dois cônsules mandam a polícia esquadrinhar a cidade, arrombando todas as portas fechadas. Os sacerdotes dionisíacos são detidos, as reuniões são proibidas. O escândalo das Bacanais, que precisamente mal inicia, vai desencadear uma campanha de repressão com uma violência desconhecida até então.

Próximo post: O escândalo das Bacanais 2: abordagens

SALLES, Catherine. (Dir.) Larousse das civiizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 234-235.