"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

As discussões sobre a entrada do homem na América

É sabido que a humanidade não nasceu nas Américas, tendo penetrado nesse continente em algum momento do Pleistoceno final (o Pleistoceno é o período geológico que se estende entre 2.000.000 e 10.000 anos AP, ao qual sucede o período atual, o Holoceno). Mas quando entrou, onde e como? O fenômeno de povoamento do Brasil deve ser considerado no panorama geral da colonização das Américas.

No início do século XX, acreditava-se que antepassados diretos dos asiáticos atuais teriam penetrado recentemente (há poucos milênios) na América do Norte, justificando o aspecto mongoloide da maioria dos indígenas americanos. O francês Paul Rivet tinha, no entanto, observado que a conformação craniana dos homens de Lagoa Santa (MG), já considerados possivelmente os mais antigos restos ósseos conhecidos no continente, se pareciam mais com a dos australianos que com a dos asiáticos. Imaginou, portanto, que teria havido também uma migração para a América do Sul a partir da Austrália, pelo Pacífico meridional. As pesquisas posteriores mostraram que a presença do homem nas ilhas do Pacífico era muito recente, e a ideia foi abandonada.

Em meados do século XX, verificou-se a presença de populações humanas (as primeiras observadas foram chamadas Clóvis, em referência ao nome do sítio onde foram reconhecidas pela primeira vez, e as seguintes, Folsom) na América do Norte desde cerca de 11.500 anos atrás, durante um período mais frio que o de hoje (as temperaturas podiam ser entre 6º e 10º abaixo das atuais). No início, somente se conheciam desses grupos alguns sítios de matança de grandes animais, como mamutes e bisontes de uma espécie hoje extinta. Com as ossadas desses animais apareciam alguns artefatos de pedra, tais como lascas cortantes e pontas de dardo muito sofisticadas. Apresentavam-se, portanto, esses povos como grandes caçadores, especializados na matança de animais de grande porte em zonas abertas - uma prefiguração dos índios históricos que, após terem aprendido a montar os cavalos introduzidos pelos europeus, passaram a caçar os bisontes das grandes planícies.


Somente nos últimos anos foi possível verificar que as populações Clóvis estavam adaptadas a ambientes muito variados, inclusive às florestas do sudeste americano, onde viviam da coleta de vegetais, complementada pela caça a animais de médio e pequeno porte. De fato, já havia grupos bastante diferenciados, que tinham em comum sobretudo técnicas originais de lascamento da pedra para extrair dos blocos de sílex ou obsidiana longas lâminas curvas e para fabricar pontas retocadas bifacialmente com uma delicada preparação para facilitar o acabamento (a canelura, característica das pontas de Clóvis e de Folsom).

Enquanto os caçadores Clóvis parecem ter perseguido os animais maiores com lanças manuais e varas que os obrigavam a chegar muito perto das presas, os Folsom dispunham de um propulsor - vareta com gancho que permite lançar facilmente dardos com forte poder de penetração a cerca de 30m. De qualquer forma, nenhum desses grupos conhecia o arco. os artesãos Clóvis escolhiam com cuidado as rochas de melhor qualidade para produzir seus sofisticados instrumentos, importando-as ou trazendo-as por vezes de centenas de quilômetros de distância.

Até os anos 1990, a maioria dos arqueólogos - sobretudo os norte-americanos - achava que esses chamados paleoíndios haviam sido os primeiros habitantes do continente e que teriam penetrado na América pela Beríngia (uma faixa entre a Sibéria oriental e o Alasca emersa durante boa parte do Pleistoceno). Com efeito, ao longo dos períodos glaciais, as precipitações ficavam retidas, na forma de gelo, nas regiões polares, provocando um déficit hídrico e um rebaixamento do nível do mar (cerca de 120m em relação ao atual, há cerca de 18.000 anos!). Dessa forma, os locais por onde teria acontecido a passagem intercontinental estariam hoje sob o mar, fora do alcance dos arqueólogos.

No entanto, as pesquisas realizadas nos últimos decênios revelaram uma presença humana inquestionável entre 11.500 e 13.000 anos atrás na América do Sul - particularmente no Chile meridional (em Monte Verde), no Brasil central (Lapa do Boquete, em Minas Gerais, e Santa Elina, no Mato Grosso), no Nordeste e na Amazônia (Monte Alegre). Como é consenso quase geral que os primeiros povoadores da América chegaram pela Beríngia, isso significa que estavam presentes na América do Norte já havia milênios, portanto, anteriormente à Cultura Clóvis. Nos últimos anos, sítios como cactus Hill (EUA), com datações entre 12.000 e 25.000 anos, apresentam indícios bastante convincentes de ocupação nesse período, e alguns outros ganham credibilidade também na América do Sul.


Pintura rupestre: Lapa do Boquete (MG).
Foto: Pierre Colombel

Alguns arqueólogos acreditam ter encontrado evidências ainda mais antigas da presença humana, mas estas parecem duvidosas. No Brasil, o sítio mais discutido no final do século XX foi o abrigo sob a rocha de Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), amplamente escavado ao longo dos anos 1970 e 1980. Até a base são encontrados carvões, conjuntos de pedras por vezes queimadas, blocos de quartzito toscamente lascados; plaquetas de quartzito com manchas vermelhas caídas da parede foram interpretadas como vestígios de pintura.

No entanto, todos esses elementos estão sob discussão. Um estudo recente dos carvões de "fogueiras", entre os mais antigos, mostrou que eles estão rolados - podem ser oriundos de fogos naturais, sendo depois trazidos pelas enxurradas. Os supostos instrumentos lascados são todos feitos a partir de seixos que até hoje caem no abrigo quando há chuvas fortes, de uma altura de 80m; alguns deles apresentam lascamentos espontâneos parecidos com os que se encontram nos níveis pleistocênicos. Finalmente, as manchas pigmentadas não têm composição diferente da dos escorrimentos naturalmente presentes no paredão, embora uma estudiosa observe que apresentam granulometria mais constante.

Recentemente, datações de mais de 20.000 e 40.000 anos foram obtidas para uma concreção que cobre uma pintura rupestre na mesma região, implicando antiguidade ainda maior dessa figura. Mas a datação direta do pigmento - por um método geralmente considerado mais confiável - indicou a idade de menos de 4.000 anos. Dessa forma, fica difícil acreditar na origem antrópica dos indícios mais antigos do Parque da Serra da Capivara. Em compensação, os vestígios humanos tornam-se evidentes e incontestáveis por volta de 11.000 anos atrás. Nos estados do Mato Grosso e de Minas Gerais, os abrigos de Santa Elina e da Lapa Vermelha foram também achados indícios datados entre 15.000 e 30.000 anos, mas os arqueólogos que os encontraram se mostram prudentes em suas interpretações.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 19-23.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O povo de Luzia: os primeiros americanos

As imagens do crânio de Luzia foram processadas em computador por pesquisadores ingleses.
O crânio foi reconstruído em material sintético e a face de Luzia foi reconstituída em argila. Resultado: fisionomia com olhos arredondados, nariz largo e queixo proeminente. Ou seja, traços negroides.

A agricultura e a domesticação de animais surgiram no Velho Mundo por volta de 10 mil anos. Na América, a produção de alimento, através da agricultura e do pastoreio, surgiu de forma independente pouco mais tarde e só se generalizou por todo o continente nos últimos 4 mil anos. Mesmo assim, até hoje alguns grupos indígenas na América do Sul ainda vivem exclusivamente da caça e da coleta de vegetais silvestres. Exceto nos Andes, onde a lhama e o guanaco foram domesticados, a criação de animais como fonte de alimento não exerceu nenhum papel nas demais regiões do Novo Mundo.

Mesmo para os grupos que adotaram o cultivo de vegetais na América do Sul, a caça e a coleta não deixavam de ter importância. Até hoje os grupos indígenas que cultivam (principalmente a mandioca e o milho) nas terras baixas sul-americanas suplementam sua alimentação tanto com a caça e a pesca, principais fontes de proteína animal, como com a coleta de vegetais, importantíssimos como fonte de vitaminas e outros micronutrientes. O mel também é muito apreciado por esses grupos.

Na verdade, durante grande parte da trajetória evolutiva humana, nossos ancestrais viveram exclusivamente da caça e da coleta, sem produzir alimentos. [...] Por isso, é muito importante para a arqueologia e a antropologia entenderem os detalhes desse estilo de vida.

Existem grandes diferenças entre uma vida de caçador-coletor e uma vida baseada no cultivo de subsistência. Primeiramente, o grau de mobilidade. No geral, os primeiros são mais móveis que os segundos, tendo em vista que viver apenas da caça e da coleta exige grande mobilidade durante o ciclo anual e um território de captação de recursos significativamente maior. A alta mobilidade da maioria dos caçadores-coletores (ou forrageadores) impede a exaustão dos recursos naturais locais, sempre limitados, propiciando ao mesmo tempo grande complementaridade alimentar.

Mas aqui cabe uma ressalva. A maioria das pessoas acredita que o nomadismo, que caracterizava a vida de um grupo de caçadores-coletores, ocorre a esmo, dando a impressão de que eles não têm destino, que estão sempre se deslocando, ou que lhes falta o conceito de territorialidade. Tal cenário não poderia estar mais equivocado. No geral, esses grupos se deslocam dentro de uma macrorregião já conhecida e muito bem "mapeada", em termos de fontes de recursos. Estabelecem também uma relação mítica com alguns marcos desse território, relação esta construída em tempos imemoriais. [...]

Outra diferença, também determinada pela sustentabilidade do meio em que vivem, é de caráter demográfico. Grupos forrageadores, denominados bandos, são sempre muito menores que aqueles que vivem da agricultura, denominados tribos. A produção de alimento permitiu ao homem não só manter coeso maior número de pessoas por aldeia, mas também maior densidade demográfica regional. O cultivo de vegetais aumentou artificialmente (e continua aumentando) a sustentabilidade natural da paisagem, mesmo quando praticado em pequenas roças estabelecidas no meio da floresta.

A divisão sexual do trabalho também é distinta entre esses dois tipos de sociedade. Enquanto entre forrageadores os homens caçam e as mulheres (e muitas vezes as crianças) coletam, entre agricultores de subsistência os homens caçam e ajudam no trabalho mais pesado de preparação de roças (derrubada da mata, limpeza com fogo e destocamento). Já as mulheres cuidam do cultivo, da colheita e do processamento dos alimentos produzidos. A pesca é no geral praticada tanto pelos homens como pelas mulheres e crianças nos dois tipos de sociedade.

Entre os caçadores-coletores, o lascamento da pedra é tarefa exclusivamente masculina, ao passo que entre os cultivadores a fabricação de utensílios de cerâmica é atividade exclusivamente feminina. Salvo algumas exceções, no geral grupos caçadores-coletores não fabricam utensílios de cerâmica, tendo em vista que essas vasilhas dificultariam a mobilidade de que desfrutam, e também pelo fato de que processam muito pouco os alimentos oriundos da caça e da coleta. No geral, é na indústria lítica que os forrageadores imprimem sua identidade étnica. Já a esmagadora maioria dos grupos agricultores fabrica e usa intensivamente recipientes de cerâmica. Tais utensílios são essenciais para estocagem, o processamento e o cozimento dos cereais ou tubérculos cultivados. [...]

É muito difícil saber com exatidão o estilo de vida e como era o cotidiano de Luzia e de seus contemporâneos, já que até hoje nenhum acampamento com mais de 10 mil anos foi escavado em Lagoa Santa. [...]

Mas uma coisa é inquestionável: o povo de Luzia vivia exclusivamente da caça e da coleta, desconhecendo completamente o cultivo de vegetais e a fabricação de vasilhas de cerâmica. Sua indústria lítica era composta quase que exclusivamente de instrumentos de pedra lascada. Muito raramente, poliam uma das extremidades de um seixo, dando-lhe um gume, fabricando assim machados muito toscos.

NEVES, Walter Alves. O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos. São Paulo: Globo, 2008. p. 270-1.

sábado, 17 de setembro de 2011

A Pré-história: das origens até 3000 a.C.

"Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pelos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas." (GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 151.)

Pintura rupestre do povo Sam, África do Sul
"A linguagem da arte é poderosa para as pessoas que a compreendem, e intrigante para quem não a compreende. O que sabemos é que aqui estava a mente moderna em funcionamento, gerando simbolismos e abstrações de um modo que somente o Homo sapiens é capaz de fazê-lo."
(Richard Leakey, paleontólogo)

1. Pré-história: crítica ao termo. Tradicionalmente, costuma-se dividir o processo histórico em Pré-história e História, sendo a utilização da escrita o fato que distingue uma sociedade pré-histórica ou "primitiva" de outra sociedade histórica ou "civilizada".

O estudo da Pré-história trata de aspectos da vida de povos que não tiveram escrita. Alcança um período cerca de cem vezes maior do que o abrangido pela História escrita. Os mais antigos documentos escritos do Egito ou da Mesopotâmia datam aproximadamente de 5000 anos e sabe-se hoje que os primeiros grupos humanos surgiram há mais de 600 ou 500 mil anos! Portanto, tal divisão da História limita o seu próprio campo.

As escritas constituíram-se quando apareceram os primeiros instrumentos de metal e já se encontravam bem desenvolvidas quando surgiram os instrumentos de bronze e se iniciou a vida urbana. Assim, o aparecimento da escrita pressupõe um determinado desenvolvimento das forças produtivas e da capacidade mental dos homens. Mas qual terá sido o benefício social para a massa de um povo, para a classe trabalhadora dessas sociedades onde se elaboraram sistemas gráficos? Essa grande transformação cultural foi aproveitada pela sociedade como um todo? De modo algum. Durante vários milênios, a escrita e também o metal foram privilégios apenas de uma parcela da população. A massa das sociedades permaneceu iletrada até pelo menos a Revolução Industrial dos séculos XVIII/XIX. Assim, na verdade, a cultura "Pré-histórica" coexiste com as chamadas "civilizações". Mas nem por isso se poderá dizer que as sociedades da Idade Média, por exemplo, viviam na Pré-história!

Himbas, Namíbia.
Foto: Rosier

Uma outra descoberta, por certo, foi muito mais revolucionária e muito mais significativa do que a invenção da escrita: o controle do fogo. (AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 100-101.)

2. Estudo da Pré-história. A base para os estudos pré-históricos são as escavações em sítios arqueológicos, que trazem à luz um número cada vez maior de fósseis (literalmente, tirados da terra): resíduos de seres vivos - plantas, animais, ossos etc. - petrificados ou endurecidos, depois de permanecerem por longo tempo soterrados entre as camadas de rochas. Nos sítios, é recolhido também todo e qualquer objeto produzido ou utilizado pelos seres humanos, além da investigação de registros por eles deixados, como pinturas em rochas.

Para esse estudo concorrem diversas ciências voltadas para o conhecimento histórico propriamente dito: arqueologia, antropologia, paleontologia. Além dessas, o estudo de vestígios e registros pré-históricos vale-se de pesquisas de outras áreas e  de técnicas ligadas à investigação da constituição física da Terra e ao conhecimento dos seres vivos, como geologia, geografia e biologia.

Uma das principais contribuições para os estudos da Pré-história vem da química e da radiologia, que possibilitam, por meio de medições dos isótopos radioativos de certos elementos químicos (como o carbono 14), datações cada vez mais precisas dos objetos e vestígios humanos antigos.

Outro recurso empregado pelos estudiosos do passado remoto da humanidade é o da etnologia comparada, que permite estabelecer hipóteses, e mesmo algumas interpretações, a partir do conhecimento sobre os atuais povos iletrados. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 24-25.)

3. Passado presente. Numerosos povos de caçadores atingiram o século XIX e início do século XX, tempo suficiente para serem estudados por etnólogos e antropólogos físicos e sociais. Hoje, as atividades de caça e coleta são representadas pelos bosquímanos, esquimós e aborígenes australianos. Eles abrangem apenas algumas centenas de milhares do total da população mundial, mas fornecem uma possibilidade valiosa e única de compreensão das atividades primitivas humanas.

Senhoras Himba, Opuwo, Namíbia.
Foto: Hans Hillewaert

Estudos recentes revelam estreito relacionamento entre povos caçadores e seu ambiente natural, relativa simplicidade da cultura material (apenas 94 artefatos existem entre os bosquímanos kung), ausência de acúmulo de riqueza individual [...].

As unidades sociais, bandos ou hordas, são pequenas: grupos de familiares e poucos amigos que podem viver e trabalhar em conjunto. Estudos recentes contradizem a visão tradicional da vida de caça como grosseira, embrutecedora e curta, e como uma luta constante contra o ambiente hostil. Com efeito, as exigências de subsistência dos bosquímanos são satisfeitas por um pequeno esforço - talvez até de dois ou três dias de trabalho por semana, para cada adulto; não precisam se empenhar por recursos de alimentação; suas atitudes em relação à propriedade são flexíveis e seus grupos admitem recém-chegados de outros grupos. [...]

Há evidências de que a expectativa de vida nas comunidades de caça e coleta não é necessariamente curta. Doenças infecciosas são raras, já que as pessoas se estendem por diversas terras, tornando mais difícil o contágio entre grupos [...]. (BARRACLOUGH, Geoffrey (coord.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo/Times Books, 1985. p. 35)

4.  O início da vida na Terra. De acordo com os geólogos, a Terra teria tido origem, há cerca de 4 a 5 bilhões de anos, de uma bola incandescente de vapores e gases. De seu resfriamento progressivo formaram-se a atmosfera e a crosta terrestre.

A crosta terrestre chegou a seu aspecto atual no decurso de numerosas transformações que se processaram através de bilhões de anos. Essas transformações foram classificadas pelos cientistas em várias eras, acompanhando a formação física da Terra e o aparecimento da vida vegetal e animal.

* Azóica (sem vida). Formação das rochas ígneas (formadas pelo fogo) e de uma atmosfera carregada de gases.

* Arqueozóica (vida arcaica). Primeiras chuvas. Formação de oceanos, numerosos vulcões, altíssimas montanhas. Surgiram as primeiras formas de vida, seres unicelulares, algas marinhas.

* Proterozóica (vida elementar). Formação de rochas sedimentares. Aparecimento de esponjas, corais, primeiras plantas com raízes.

* Paleozóica (vida antiga). Surgiram enormes extensões cobertas por samambaias gigantescas; sua decomposição determinou a formação de grandes jazidas de hulha (carvão mineral). Essa era é também chamada primária, pois nela se iniciou a evolução da espécie animal, - moluscos, peixes, anfíbios, insetos, - favorecida por um clima quente e úmido.

* Mesozóica (vida média) ou secundária. Era de grandes erupções vulcânicas modificando o aspecto da crosta terrestre, levantando algumas das mais altas cadeias de montanhas da atualidade: Himalaia (Ásia), Andes (América do Sul), Rochosas (América do Norte). Evoluíram formas mais complexas de vida: répteis, aves, primeiros mamíferos.

* Cenozóica (vida recente) ou terciária. Nessa era ocorreu grande queda de temperatura, determinando a formação de colossais massas de gelo nos pólos. No hemisfério norte essas glaciações avançaram sobre grande parte da Europa, América e Ásia. Multiplicaram-se os mamíferos, surgindo os chamados primatas, dos quais, na era seguinte, evoluiria o homem.

* Neozóica (vida nova) ou quaternária. Nesta era alternaram-se períodos de glaciações com períodos de intenso calor. Desapareceram certos animais (o mamute, por exemplo), que conhecemos apenas pelos fósseis (restos petrificados de bichos e plantas) encontrados nas diferentes camadas de rochas do nosso planeta; outros animais (rena, alce, bisão) fixaram-se em regiões junto às zonas árticas. Quando cessaram as glaciações o homem já havia surgido e continentes e oceanos já haviam adquirido sua forma atual.

5. A evolução do homem na Terra. Os mais antigos ossos humanos até agora encontrados em várias partes do globo atestam que o homem apareceu há mais de 1.000.000 de anos. Os ossos encontrados apresentam grandes diferenças entre si, mostrando a evolução da espécie humana através dos tempos.


"O aparecimento do Homem sobre a terra é indicado pelos instrumentos que ele faz". 
(Gordon Childe, arqueólogo)

* Zinantropo e Australopiteco, descobertos, pela primeira vez, no século XX, na África. Existiram há cerca de 1,5 milhões de anos e foram considerados muito próximos dos macacos.

* Homem de Java, aí descobertos, pela primeira vez, no fim do século XIX. Existiu de 500000 a 2000000 a.C. e foi considerado o primeiro tipo de homem; conhecido por Pithecanthropus erectus (homem-macaco de pé).

* Homem de Pequim, aí descoberto, pela primeira vez, no princípio do século XX. Foi contemporâneo dos últimos pitecantropos.

* Homem de Neandertal, descoberto, pela primeira vez, na Alemanha, em meados do século XIX. Existiu de 200000 a 50000 a.C.


Representação moderna de família de Neandertais. 
Os Neandertais viveram em áreas do norte e oeste da Eurásia na última Idade do Gelo. Os Neandertais eram caçadores-coletores. Criaram armas e ferramentas de pedra. O mamute-lanoso, o veado com chifres de Bush e o gato de dentes de Sabre são os animais extintos da época do Pleistoceno. O cavalo da Eurásia, o Orix, o Lemming em faixas e o boi-almiscarado são animais que ainda existem. Ilustração: Randii Oliver


* Homem de Cro-Magnon, ou homo sapiens, isto é, homem que raciocina. Descoberto na França, em meados do século XIX, é o antepassado do homem atual.

Além dos restos humanos ainda foram encontrados, nas várias camadas da Terra, utensílios e armas usados pelos homens primitivos, permitindo-nos reconstituir pelo menos em parte o tipo de vida que levaram e acompanhar sua evolução. Conforme as técnicas que o homem foi inventando para viver e sobreviver em seu ambiente, e dele tirar proveito, dividiram-se os longos tempos de sua Pré-história em três períodos: Paleolítico, Neolítico e Idade dos metais.

Neandertais MoustierCharles R. Knight

6. Os grandes períodos da Pré-história. É provável que os primeiros homens se tenham servido de galhos de árvores e pedaços de pau a fim de desenterrar raízes, derrubar frutos, fisgar peixes, matar animais e para se defender. Nada, porém, restou desses instrumentos que o tempo se encarregou de destruir. Os instrumentos mais antigos encontrados em escavações são de pedra, de chifre ou de marfim. Como os objetos de pedra são mais numerosos, chamou-se ao primeiro período da Pré-história de Idade da pedra. E como os diferentes tipos de armas e utensílios eram alguns mais toscos, outros mais aperfeiçoados, dividiu-se a Idade da pedra em pedra lascada, ou Paleolítico, e pedra polida, ou Neolítico. Quando os homens descobriram como fazer uso dos metais teve início a Idade dos metais; e quando, por volta de 3000 a.C., o homem inventou a escrita, podendo assim registrar fatos significativos de sua existência, usos e costumes, teve início a História.

* Paleolítico. Durou desde o aparecimento do Pitecantropo - cerca de 600000 a.C. - até aproximadamente 10000 a.C., quando já aparecera o homem de Cro-Magnon, o homo sapiens.

No começo os homens eram nômades, vivendo em busca do alimento pela coleta de frutos, ervas e raízes, comendo insetos, peixes e pequenos animais, às vezes capturados em armadilhas rudimentares. Aos poucos aprenderam a fabricar instrumentos de pedra, sobretudo de sílex, lascando-os com outra pedra. Com os primeiros instrumentos, espécie de machados, puderam caçar animais maiores, atirando sua arma à distância, e foram fazendo novos instrumentos, de acordo com a necessidade: lanças, arpões, anzóis e, mais tarde, agulhas de osso, arcos e flechas. Com o aperfeiçoamento das armas os homens dedicaram-se à caça, e a coleta ficou a cargo das mulheres, das crianças e dos velhos. As peles dos animais mortos serviam de roupa e eram costurados com fios obtidos dos tendões da caça abatida.


Bisão, Loius Agassiz Fuertes

Conforme as regiões habitadas abrigavam-se em cavernas ou em choupanas feitas de galhos, cobertas de folhas. Aos poucos perderam o medo do fogo provocado na natureza por combustão espontânea ou por raios, descobriram sua utilidade e aprenderam a acendê-lo. Passaram a assar a carne e a cozinhar vegetais em sacos de pele. Junto ao fogo se reuniam, descansavam e se protegiam do frio e dos ataques de animais ferozes.


Diálogo de gerações - o elo constante da civilização.
As experiências vividas sempre são úteis aos novos projetos. Os mais velhos abrem frentes de meditação e explicação, sejam no campo dos bens materiais, sejam nas questões do espírito.

* Neolítico. Estende-se de cerca de 10000 até aproximadamente 4000 a.C.; denomina-se também Idade da pedra polida, pois nessa fase os homens aprimoraram os instrumentos de pedra, polindo-os e tornando-os também mais afiados. Fizeram muitos novos utensílios, tais como facas, foices, enxadas e vasilhas para guardar ou cozinhar alimentos. O homem descobriu como utilizar a argila (fim do sexto milênio a.C.), modelando recipientes que eram depois cozidos ao fogo para adquirir resistência; descobriu como tecer fibras vegetais e pelos de animais para fazer roupas mais práticas e adequadas a vários climas, a trançar cestos e balaios, a construir barcos e jangadas escavando ou unindo troncos de árvores.

Instrumentos de trabalho do período Neolítico

Entretanto, a realização mais importante, mais significativa, do homem do Neolítico foi ter dado início à agricultura (ca. 8000 a.C.). As primeiras formas de agricultura desenvolveram-se na Ásia Menor (Mesopotâmia), onde tamareiras, oliveiras, figueiras, macieiras e outras plantas cresciam espontaneamente em grande quantidade.

Observando o ciclo de crescimento das plantas aprendeu a cultivar para produzir e colher cereais, frutos e legumes. Deixou, pois, de ser apenas coletor e caçador e, como agricultor, fixou-se ao solo, tornando-se sedentário. Passou a viver em moradias de pedra, barro, tijolos ou madeira, muitas vezes sobre palafitas, à beira de lagos, agrupadas em núcleos cada vez maiores que formaram as primeiras aldeias, reunidos em tribos - grupos de famílias unidas pelos mesmos interesses e mesmos laços de sangue.

Capturando animais selvagens, para tê-los como reserva alimentícia, aprendeu a domesticá-los e a aproveitar-se do que eles ofereciam, como leite e lã. No fim do Neolítico o homem já havia domesticado o cachorro, o carneiro, a cabra, o boi, o porco, o cavalo e outros animais, segundo as regiões do globo que habitavam. Assim, além de agricultor, tornou-se também criador e desenvolveu o pastoreio.

O Neolítico assinalou grandes modificações na vida dos homens: agricultura e criação permitiram-lhes divisão de trabalho, cooperação entre grupos, uma existência mais organizada, contar com reservas de alimentos e iniciar um tipo primitivo de comércio, baseado em trocas, desenvolver o sentido de propriedade (terras, produtos, animais).

Das regiões da Ásia, onde, nesse período, houve grande aumento de população, a agricultura se irradiou gradativamente em direção à Europa, com migrações de numerosos grupos em busca de novas terras.

* Idade dos metais.  Assim como o homem descobriu, pela observação e o raciocínio, como aproveitar e trabalhar as pedras, pedaços de ossos, chifres de animais e madeira, da mesma forma aprendeu a trabalhar os metais que encontrou no solo. O primeiro metal utilizado foi o cobre (no VI milênio a.C.), de início martelado a frio, depois fundido ao fogo e moldado em forma de barro ou de pedra, para feitura de ornamentos e lâminas de facas. Sendo um metal mole, o cobre não substituiu totalmente a pedra, que continuou sendo usada para instrumentos ou armas que exigiam grande resistência. Mais tarde o homem descobriu a liga do cobre com o estanho, obtendo assim o bronze, metal mais duro, que foi largamente empregado na fabricação de lanças, espadas, capacetes e objetos de adorno. Descobrindo como utilizar o metal, o homem, além de agricultor, pastor e criador, tornou-se também artesão. Esse novo tipo de atividade exigiu nova divisão de trabalho entre os membros das tribos, uma organização social mais complexa. Nasceram, assim, os primeiros pequenos núcleos urbanos que puderam atender às necessidades de uma população em aumento, desenvolver o comércio de matérias-primas e objetos de artesanato, oferecer serviços coletivos - tais como distribuição de água e de cereais - providenciar a construção de fortificações, templos, edifícios públicos.

Com a Idade dos metais deu-se a passagem da Pré-história à História. Através de cerca de 1 milhão de anos o homem evoluiu física e mentalmente, graças à inteligência que lhe permitiu dominar a natureza, passo a passo. Essa evolução, entretanto, não ocorreu ao mesmo tempo no mundo todo. Houve um grande desnível entre os períodos pré-históricos no Oriente e no Ocidente. Também a entrada dos homens na História deu-se em épocas diversas: enquanto a Europa ainda se encontrava na Pré-história, no Oriente já haviam surgido civilizações, precursoras da civilização ocidental.

* Os paleoíndios no continente americano. "Escavações feitas numa caverna com as paredes pintadas, próximo a Monte Alegre, na margem norte do Amazonas, trouxeram à tona descobertas tão importantes (...) que valeram a seus autores a capa da respeitada revista norte-americana Science. Foram encontrados lascas de pontas de lança e de outras ferramentas, carvão de acampamentos humanos e restos de alimentos, como frutas e animais, além de pedras pintadas que atestam a presença de culturas indígenas no local durante 1 200 anos, a partir de 11 mil anos atrás, mesma época dos primeiros vestígios humanos na América do Norte". (Trecho do artigo de Martha San Juan França publicado em O Estado de S. Paulo, 18 abr. 1996.)

"No final do período Paleolítico, o continente americano já era habitado por diversos povos, chamados paleoíndios. Esses povos, de modo geral, eram caçadores e coletores que sobreviviam praticando a caça, a pesca e a coleta de frutos e raízes.

Na região Norte do continente, os grupos de paleoíndios eram experientes na fabricação de ferramentas de pedra, e suas pontas de lança eram talhadas com grande habilidade. Eles eram especializados na caça de grandes animais, como os mamutes.


Artistas Cro-magnon pintando mamutes em Font-de-GaumeCharles R. Knight

A América do Sul também era povoada nessa época. A região de Lagoa Santa, no atual estado de Minas Gerais, por exemplo, era habitada por paleoíndios.

[...] Viviam em bandos reunidos em torno de um líder. Dominavam o fogo e tinham técnicas rudimentares de construção de utensílios de pedra lascada, como pontas de lanças e lâminas de quartzo capazes de cortar couro e carne.

Ao contrário do que normalmente se imagina, os paleoíndios não moravam em cavernas, e sim em locais abertos onde havia água corrente disponível [...]. Nesses locais, a vegetação farta e a presença de animais silvestres garantia uma alimentação balanceada entre vegetais e carne de caça. As cavernas eram usadas como abrigos pelos caçadores e, provavelmente, para a realização de rituais religiosos e fúnebres. Embora fossem nômades, cada grupo movia-se dentro de um território próprio, que conheciam detalhadamente – o que facilitava a busca de alimentos. [...]

A arqueologia também nos mostrou, mais recentemente, que os [habitantes] do Brasil paleoíndio tinham respeito por seus mortos, depositando-os em abrigos de pedra – o que garantiu sua conservação ao longo dos milênios". [...] ROMANINI, Vinicius. “O Brasil de Luzia”. In : Os caminhos da Terra, ano 12, n. 151. São Paulo: Peixes, novembro/2004. p. 48.

7. A cultura na pré-história. O homem pré-histórico legou-nos interessantes testemunhos da sua cultura, através de gigantescos monumentos de pedra e pinturas em cavernas.

"Quase por toda parte do Mundo o homem primitivo escavou, gravou ou pintou nas paredes rochosas dos seus abrigos ou grutas: na África Meridional, Central ou Setentrional; nas regiões ocidentais dos Estados Unidos; na Oceania, na Austrália e em muitas outras regiões. Todas essas manifestações de arte rupestre não datam da mesma época; de fato, muitas vezes os arqueólogos podem emitir hipóteses sobre a sua data; todavia, em numerosos pontos do globo, essa arte primitiva apresenta caracteres comuns." (E. M. Upjohn et alii. História mundial da arte. Lisboa: Bertrand, 1965. v. 1. p. 32-33.)

Os monumentos de pedra parecem ter significado religioso, ligando-se ao culto dos mortos. São de dois tipos, conhecidos pelos nomes de menirs (pedra comprida, em língua bretã) e dólmens (mesa de pedra, também em língua bretã).


Os megálitos são os mais antigos monumentos da humanidade. Os círculos de Stonehenge [Grã-Bretanha] estão talvez ligados a um culto solar ou lunar.

O homem da Pré-história criou ritos mágicos para auxiliá-lo a vencer a natureza e o medo do desconhecido. Esses ritos buscavam favorecer a caça, trazer chuvas, estações propícias, fartura de alimentos. Foram os ritos mágicos favorecedores da caça que provavelmente deram início às primeiras manifestações artísticas, desenhadas e pintadas nas paredes e no teto de cavernas, com carvão, tintas minerais e vegetais, representando animais como o mamute, o touro, o javali, a rena, o cavalo.

Caça de búfalos, Tassili n' Ajjer, Saara - Argélia

Apareceram também estatuetas, sobretudo imagens femininas, representativas da fecundidade, da natureza fértil; gravuras em pedra, osso, marfim; cerâmicas pintadas ou decoradas com motivos geométricos.


Vênus de Laussel. Relevo em pedra calcária, datado de 20000 - 18000 a.C. e encontrado na região de Dordonha, França. Havia uma forte presença feminina na religião, uma vez que a fertilidade da terra/natureza era identificada com a fertilidade da mulher. A chamada Vênus de Laussel faz parte de uma série de representações do mito da fecundidade. Essas figuras femininas têm como características o ventre inchado, seios e nádegas grandes e quadris largos.

Na Idade dos metais multiplicaram-se os desenhos geométricos no artesanato, aperfeiçoou-se a representação das figuras humana e animal. Em certas regiões do Oriente Médio construíram-se templos em homenagem a várias divindades; e, também no Oriente, nasceu, sobre placas de argila, a escrita pictográfica.


AQUINO, Rubim Santos Leão de et alii. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 100-101.
BARRACLOUGH, Geoffrey (coord.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo/Times Books, 1985. p. 35.
GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 151.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 2-8.
NEVES, Joana. História Geral - a construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 24-25.
ROMANINI, Vinicius. “O Brasil de Luzia”. In : Os caminhos da Terra, ano 12, n. 151. São Paulo: Peixes, novembro/2004. p. 48.
UPJOHN, E. M. et alii. História mundial da arte. Lisboa: Bertrand, 1965. v. 1. p. 32-33.