"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 3)

Parte 3: Final cor-de-rosa

Depois deste episódio, a influência política do padre Claret aumentou consideravelmente, acompanhado por dois pitorescos agentes do Vaticano: Soror Maria dos Patrocínios, "a freira das chagas", que tinha inventado um falso milagre infligindo a si própria os estigmas de Cristo, e uma estrambólica personagem chamada padre Fulgêncio. Sob o conselho deste trio de religiosos fundamentalistas, Isabel começou a tomar medidas cada vez mais reacionárias, desde que as suas escapadelas adúlteras não chegassem aos ouvidos do papa. O povo começou a expressar abertamente a sua rejeição e os liberais dedicaram-se a plantar conjuras para destronar a rainha. Francisco, que se limitava a fazer a sua vida com os amigos e amantes sem intervir nos assuntos do reino, viu chegada a hora do divórcio. Participou abertamente nas conspirações opositoras, às quais ofereceu apoio institucional e celebrou alvoroçado a revolução de 1868, que obrigou Isabel II a exilar-se em França, embora também tenha seguido o mesmo caminho. Dois anos mais tarde, Isabel abdicou em Paris a favor de Afonso XII, enquanto Francisco, feliz e contente, se dedicou a desfrutar a vida e as suas alegrias durante longos anos. Morreu, já octogenário, nas sua quinta como uma personagem secundária, mas sem lhe negar o mérito de ter sido, desde os tempos do infante dom Jaime, o primeiro a ostentar sem sentimento de culpa a sua condição de gay.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 210.

Galeria de imagens: "Los borbones em pelota", aquarelas atribuídas a Valeriano Domínguez Bécquer & Gustavo Adolfo Bécquer, século XIX.

A la izquierda: Francisco de Asís sosteniendo una pelela; Isabel II en la cama siendo fornicada por el Padre Antonio María Claret; a la derecha, Carlos Marfori. Texto: ¡Oh viejo que estás jodiendo! / al infierno vas cayendo!

Francisco de Asis de Borbon. Texto: "El rey consorte, primer pajillero de la Corte."


Carlos Marfori con una botella de vino; Sor Patrocinio recibiendo el galanteo de González Bravo; Francisco de Asís requiriendo a González Bravo mientras es sodomizado por el Padre Antonio María Claret; en el suelo, dos perritos copulando (no se puede apreciar de qué sexo son los dichos perritos)


Isabel II con su intendente Carlos Marfori. Fco de Asís. A la derecha espera un batallón de guardia.
Leyenda de la acuarela:
Isabel —Espérate a que acabe mi intendente.
Paquita —¡Aguardemos la vez, como en la fuente!


Isabel II fornicando con Carlos Marfori. Texto: "¡Carlos, Carlos, yo lo espero / de tu hidalgo corazón / mételo sin dilación / que ya por joder me muero!"


Viñeta de la saga satírica Los Borbones en Pelota con el pareado "Sentada está en su poltrona, con cetro, chulo y corona"


(Reproducción o ilustración del álbum de láminas satíricas "Los Borbones en pelota")

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: as ideias da Igreja sobre a mulher

Uma jovem dama da moda, Paolo Uccello

A doutrina da Igreja medieval sobre o casamento baseava-se em ideias que foram se desenvolvendo dentro da própria Igreja ao longo de sua história. Sob influência da tradição e dos desafios de cada momento, essas ideias iam sendo renovadas e atualizadas.

A renovação católica iniciada com o papa Urbano II, no final do século XI, produziu uma atualização das ideias sobre a mulher. Do final do século XII ao final do século XV, os textos que tratavam da mulher, do casamento e da sexualidade se multiplicaram. Eles revelam a necessidade que os homens da Igreja sentiram de impor valores e modelos de comportamento à mulher.

Muitas mulheres tinham participado de movimentos heréticos, e também era grande o número das que entravam para as ordens religiosas. Algumas escreveram sobre seus ideais religiosos. Isso despertou a atenção do clero.

Na nova economia que se esboçava nessa época, principalmente com o crescimento do comércio e da vida urbana, as mulheres participavam como produtoras e vendedoras de bens. Mas elas eram vistas apenas como mães, filhas e esposas.

Definir claramente os papéis sociais femininos foi um dos objetivos principais dos homens da Igreja. Eles estavam empenhados em restituir a palavra de Deus, vale dizer, a autoridade do clero, onde ela se achava ameaçada. Os pregadores preocupavam-se com uma espécie de desleixo intelectual e moral, que emanava principalmente das cidades.

Ao falar às mulheres, os homens da Igreja não identificam claramente as destinatárias. Dirigem-se às nobres, às camponesas ou às habitantes da cidade? Aparentemente a todas as mulheres, não importando a posição sexual.

Nota-se, entretanto, um esforço de classificação ao qual não estavam acostumados. A tentativa de classificação oscilava entre a categoria social, o tipo de atividade, a idade etc. Assim, temos as virgens, as casadas e as viúvas. As esposas e as mães. As monjas e as servas. As moças, as mulheres jovens, as de meia idade e as velhas. As mulheres pobres e as prostitutas.

Os discursos têm como eixo a oposição entre o que as mulheres eram e o que deveriam ser. Não podemos esquecer que são discursos de clérigos. Além de serem homens falando sobre mulheres, estavam submetidos às regras do celibato e da castidade. Tendiam a ser tanto mais severos na censura da sexualidade, principalmente da feminina, quanto mais dela estivessem afastados.

Para esses pregadores, as mulheres das categorias sociais superiores eram portadoras, ou deveriam ser, de valores mais elevados. Esperava-se que elas servissem de exemplo para as camadas subalternas e tomassem consciência dos seus altos deveres como nobres. As mulheres pertencentes a categorias sociais mais baixas foram vítimas das principais condenações morais nestes discursos.

Quando a mulher é referida sem a identificação do grupo social ao qual pertencem, aparece como uma criatura de extremos entre o bem e o mal: é a filha de Eva ou a virgem que imita Maria.

Mas, independentemente da categoria social, o espaço da mulher é o doméstico. A única que não pertence a ele é a prostituta, à qual só resta o arrependimento e a penitência.

Os textos mais impressionantes são os que falam sobre as mulheres, e não para elas. Eles demonstram claramente o grande medo que elas despertavam. O medo da mulher é uma das principais características do pensamento medieval. Esse medo levava a um severo controle sobre as mulheres. Controlar e castigar as mulheres era uma tarefa dos homens.

Como há um predomínio do espírito sobre a carne, a pureza seria mais de pensamento do que do corpo, mas na hierarquia da castidade, a virgem de corpo está em primeiro lugar.

Foram estabelecidos, então, três graus possíveis de castidade, de virtude e de perfeição. O ideal de mulher é a virgem que renuncia para sempre ao sexo. As viúvas que renunciam a ele por haverem perdido o marido e não se casam estão em um segundo plano. As casadas, que usam o sexo de forma casta e moderada com a finalidade de procriação, estão em terceiro lugar na escala dos méritos. A castidade vale mais do que a continência.

[...]

Até a sua presença na missa seria arriscada, pois os seus olhares poderiam "incendiar os lugares sagrados".

Os conhecimentos medievais sobre anatomia confirmavam o juízo depreciativo dos homens da Igreja em relação à mulher. A fisiologia da mulher foi objeto de longos debates. A conclusão era a de que ela trazia no próprio corpo as marcas da sua inferioridade e mesmo dos seus malefícios.

O Gênesis é citado para mostrar que a mulher é um ser secundário, um apêndice do homem. Acreditava-se que os órgãos femininos fossem menos aperfeiçoados e fracos, de certa maneira opostos aos masculinos. O corpo da mulher foi considerado com base no modelo masculino e os seus órgãos, classificados de acordo com a finalidade. Os seios, por exemplo, eram vistos apenas pela sua finalidade de aleitamento.

No pensamento medieval, o matrimônio era enfocado na sua finalidade de procriação. Por isso não se falava do prazer sexual, mesmo dentro do casamento. Dessa forma, não existiram no Ocidente cristão condições para o desenvolvimento de uma verdadeira arte erótica.

Ao mesmo tempo, os discursos revelam o medo de um saber feminino sobre o sexo. Saber sempre envolvido em mistério e sempre suspeito de origem demoníaca. Tinha-se medo da mulher durante a menstruação e das que deixaram de menstruar.

As velhas eram consideradas particularmente perigosas. Pensava-se que elas conheciam os segredos do sexo e induziam as mulheres mais jovens ao pecado.

A mulher era vista como um tesouro a ser protegido e preservado, pois era fácil de se perder. Daí a necessidade de reprimir, vigiar e enclausurar. Deus é a cabeça de Cristo; Cristo é a cabeça do homem; o homem é a cabeça da mulher.

As mulheres que desejavam roupas cada vez mais bonitas e caras preocupavam os pregadores. Eles achavam que esse cuidado com a aparência e com o corpo se aproximava da idolatria. A maquiagem e os enfeites foram insistentemente condenados.

Apesar de afirmarem que a mulher devia ser protegida, os pregadores diziam que ela precisava ter autocontrole. Aconselhavam-na a não se divertir muito, a mostrar-se orgulhosa, comer pouco, dançar com compostura e mover-se com moderação. Alertavam para o perigo da bebida e do ócio. Contra as tentações, prescreviam o trabalho e a caridade.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 232-235.

domingo, 25 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: duas visões cristãs sobre o casamento

Um homem colocando um anel no dedo de uma mulher. Detalhe de miniatura do século XIV. James le Palmer

No início da Idade Média, a tradição cristã fornecia um pequeno número de ensinamentos acerca do casamento. Devido às contradições entre os dois papéis assumidos pela Igreja, havia vozes eclesiásticas dissonantes, todas se baseando na palavra de Deus. Uma doutrina católica sobre o casamento, coerente e uniforme, só se formou lentamente.

Duas concepções do casamento se opuseram com violência na cristandade até cerca de 1100. Como resultado desse conflito, foram instituídos usos e costumes que prevaleceram na sociedade ocidental até pouco tempo atrás.

É possível identificar em Santo Ambrósio (século IV) e Santo Agostinho (séculos IV-V), portanto já no início da Idade Média, os argumentos contra e a favor do casamento.

A primeira dessas concepções, que aparece nos escritos de Santo Ambrósio, foi herdada do cristianismo primitivo. Nela o casamento não é recomendado. Quando muito é tolerado. A vida ascética e o horror à mulher marcavam a vida do cristão ideal. Esse cristianismo foi influenciado pela filosofia greco-romana, que opunha a matéria ao espírito.

Dessa forma o casamento seria um mal em si, pois o marido é forçosamente um pecador. Ao amar com ardor sua mulher, comete pecado. O casamento estaria inevitavelmente manchado pelo prazer sexual, sendo um obstáculo à espiritualidade. Essa concepção opunha a vida terrena à salvação e o clero aos leigos.

A outra concepção do casamento conciliava as necessidades terrenas e as aspirações espirituais. Reconhecendo a importância do casamento no ordenamento social, procurou resgatar os seus possíveis pontos positivos. Os padres procuram salvar o casamento de sua maldição de origem. Para isso se centraram em Santo Agostinho, menos severo de que Santo Ambrósio em relação ao sexo e ao casamento. Em vez de condená-los, era necessário submetê-los ao sagrado.

Nessa concepção, o casamento é positivo por atenuar os defeitos de cada um dos sexos. Nele a mulher perde as suas manhas e o homem a sua brutalidade. E dessa harmonia nascem os filhos. A procriação é colocada como a principal finalidade do casamento.

Nesse conjunto de ideias, não é bom que o homem viva só. A mulher foi feita do homem e eles devem voltar a ser um só no casamento. Todavia, permanece a desigualdade original. A mulher deve estar submetida ao homem, assim como deve sofrer as dores do parto, por uma designação divina.

Santo Agostinho diz que o homem é a parte espiritual e a mulher a parte sensual da condição humana. Por isso o casamento permite a submissão da carne ao espírito. Mas para que isso se efetive, o homem deve superar a fraqueza que levou Adão à perdição e reinar sobre sua esposa.

Depois de um longo processo de elaboração, a Igreja conseguiu firmar uma doutrina e um ritual do casamento.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 224-225.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 3)

O julgamento final (detalhe), Fra Angelico

Todos levantaram-se.

E durante dois dias prepararam-se para a festa. Fariam um ataque-surpresa. Filipe queria que a abadia fosse totalmente destruída pelo mais cruel e violento saque de que a Europa tivera notícias.

Se o castelo de Albey permanecera exatamente igual, o mosteiro de Louvenne, ao contrário, estava muito diferente. Havia sido ampliado em quase dois terços da construção original. Já do lado de fora, podiam ser percebidos ornamentos luxuosos, e, pelos rumores que se escutava, era possível concluir que a festa que se realizava em seu interior devia ser memorável.

Seus homens armados de espadas, pedras e archotes se aproximaram. A ferocidade deles aumentava na medida em que o mosteiro se tornava mais palpável. Fanatizados pela ideia de que sua missão era divina, adquiriam uma nova e poderosa força. Essa era a maior arma que possuíam, embora não tivessem consciência disso.

Enquanto isso, no interior da abadia, com todos ignorantes do que se passava la´fora, a festa prosseguia.

À cabeceira da comprida mesa de carvalho, encontrava-se Samuel Garbois. A sua frente desfilavam faisões, porcos e carneiros, frutas e vinho com fartura. O abade rejubilava-se. Sua abadia ostentava um raro luxo para a época. Com seus 66 anos, era um homem bastante velho, mas vivera o suficiente para ver seu sonho realizado.

O excesso de alimentos e vinho ingeridos criava uma certa sensação de irrealidade. Era um homem obcecado por uma ideia que vira pouco a pouco, ao longo de trinta anos, ser transformada em realidade. Agora que estava tudo concluído, olhava sua obra com certa incredulidade. Era um sonho que se materializava; e agora, o que fazer? Contemplar a obra, apenas isso. Não restava mais nada. Tentava, mas não conseguia esconder uma certa sensação de vazio, apesar de todo júbilo. Eram sentimentos contraditórios que brigavam dentro dele e turvavam sua plena realização naquele dia.

Se pudéssemos penetrar em seus pensamentos, veríamos desfilar em sua cabeça todas as relíquias e tesouros acumulados nesses anos, veríamos pedra por pedra assentada que tornara a Abadia de Louvenne a maior de toda a região.

Veríamos, também, a incômoda certeza de que tudo estava concluído e que não restava mais nada a fazer além de esperar a morte.

Algo de anormal estava acontecendo. Mergulhado em seus pensamentos, não notara que havia uma certa agitação no ar, que trouxe Samuel Garbois de volta ao local onde se encontrava. Estava entorpecido pelo vinho, a visão turvava-se a sua frente, mas percebeu que algo ocorria. Havia uma tensão que fazia com que as pessoas falassem mais baixo, como se estivessem à espera de um grande acontecimento; o ar tornara-se quente e pesado. Começaram os ruídos, no princípio quase inaudíveis, depois fortes demais para se poder ter a ilusão de que era só impressão. O cheiro de fumaça começou a se espalhar e em pouco tempo podia-se ouvir as pessoas tossirem sufocadas, e a fumaça tornou-se tão espessa que a embriaguez do vinho já não era capaz de turvar nada, pois já não se via nada, ou quase nada. Começaram a cair as pedras. Eram tão grandes que cada uma que caía provocava um estrago considerável. As pessoas, apavoradas, começaram a correr sem saber para onde ir, e a maioria acabou seu caminho na ponta de uma espada. Samuel Garbois não se movia. Em algum lugar nesse processo, a razão o abandonara, e através de seus olhos dementes o que se poderia enxergar era a própria visão do apocalipse. Quando viu Filipe parado a sua frente, acreditou realmente que o Dia do Juízo chegara e que os mortos finalmente haviam se levantado.

Filipe olhou para o abade por uns instantes. Aquele homem que sempre causara asco, agora, encurralado naquela cadeira, com os olhos ensandecidos vendo apenas destruição a sua frente, só conseguia lhe despertar pena. Não teve coragem de matá-lo.

Ordenou bruscamente a seus homens que levassem tudo o que pudessem carregar, e o que não pudessem, destruir. Partiram para o Castelo de Albey, onde Filipe pretendia assumir o lugar que era seu de direito, de Senhor do Castelo.

Samuel Garbois olhou ao seu redor. O fogo ainda ardia em alguns pontos. Viu homens estendidos pelo chão. Um rio quente de sangue corria sob seus pés. De seu sonho só restavam escombros. Sentou-se em um banco semidestruído e teve ainda um momento de lucidez, o suficiente apenas para perceber que de medo havia se sujado todo.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo; Clube do Livro, 1988. p. 25-28.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 2)

O juízo final (detalhe), Michelangelo

No fim de uma acentuada curva na estrada, o Castelo de Albey surgiu à sua frente, imenso e sombrio. Estava tudo exatamente como ele se lembrava. Mais umas duas horas de caminhada e chegariam lá.

Para chegar ao castelo teriam que passar próximo à Abadia de Louvenne. Quanto mais se aproximavam, mais Filipe notava que havia ali uma movimentação anormal.

Seguiam seu caminho quando escutavam o barulho de cascos batendo no chão. Assim que avistaram o cavaleiro, Filipe percebeu pelas roupas e ornamentos quem era e de onde vinha.

Ao avistar aquele bando de homens andrajosos e enlameados, de aspecto ameaçador, o cavaleiro tentou recuar, mas já era tarde. Percebeu que havia sido cercado. O aspecto deles não deixava dúvidas: eram saqueadores.

- Não me matem! Eu entrego tudo o que trago comigo!

- Somos muitos e a fome é muito grande. O que traz consigo não é suficiente. Se quer viver dia o que se passa na abadia!

- É uma grande festa. A abadia foi reformada e hoje comemora-se a conclusão das obras, que duraram mais de trinta anos.

- Quem é o abade?

- Samuel Garbois é seu nome. É um homem muito velho e bondoso, que viveu para glorificar Deus com essa obra.

- Às custas de milagres ocorridos no Castelo de Albey há muitos anos, não estou certo?

O outro olhou espantado para aquele que assim lhe falava e que parecia ser o chefe do grupo.

- A história de meu querido irmão, morto há dez anos, tem-se espalhado por fronteiras que não imaginávamos. Sim, foi um verdadeiro milagre, e lamentamos muito a perda de Filie, esse era seu nome. Nasceu marcado para grandes obras, mas a vida o arrebatou muito cedo.

- A grande obra de Filie ainda nem começou, meu caro Francisco, e se lamenta tanto a morte do irmão, por que não procurou salvá-lo dos saqueadores que invadiram o castelo há dez anos, por que não pagou o resgate que exigiam para devolvê-lo, ao invés de abandoná-lo à sua própria sorte? - disse Filipe, afastando o cabelo da testa e que encobria seu sinal de nascença.

- Meu irmão! Então você ainda vive?

Francisco estava pálido de morte. Sentiu no olhar do irmão fúria e ódio gelados que lhe arrepiaram o corpo e lhe esfriaram o sangue.

Filipe não vacilou, e sua mão estava bem firme quando cravou sua espada bem na altura do coração do irmão, antes mesmo que este tivesse tempo de perceber o que acontecia.

Por um momento o silêncio foi total, só sendo cortado pelo barulho da chuva que transformava o vermelho vivo do sangue que corria em vermelho pálido, até se misturar na lama e ser engolido pela terra.

Filipe quebrou o silêncio.

- Se há uma festa na abadia, eu deveria ser o convidado de honra. Vamos, vou reclamar meus direitos.

Seus homens vacilaram. Saquear um castelo, mesmo que fosse a quase inexpugnável fortaleza de Albey, era uma coisa que fariam sem pensar duas vezes. Eram homens duros e desgraçados, que caminhavam dia a dia ao lado da morte, e por esta ser uma presença tão constante não os assustava. Mas saquear uma abadia? Isso eles não poderiam fazer. A abadia era um lugar sagrado, e isso significava ofender a Deus. E se a ira divina se voltasse contra eles? Fazia-os tremer a simples ideia de tormentos inimagináveis que cairiam sobre eles. Não, não iriam.

Estavam acampados próximo à abadia. Filipe pensava exaustivamente numa saída para esse impasse.

Levou instintivamente a mão à testa.

Levantou-se, caminhou com vagar para o centro do acampamento, onde seus homens estavam reunidos em volta de uma pequena fogueira que ameaçava acabar-se a todo instante, pois a chuva prosseguia.

A luz do fogo refletia-se nos olhos de Filipe, que naquele instante parecia terrível e implacável, mesmo a seus homens.

- Trago estampado na testa o sinal sagrado da cruz desde o dia em que nasci. Vocês temem saquear a abadia por ser um lugar sagrado, mas se esquecem de que um sinal divino orienta esta ação. O lugar é sagrado, os homens que o habitam não. Seus atos infames e impuros só têm feito ofender a Deus durante todos estes anos. Cabe a nós, homens escolhidos por Deus, e para provar isso existe o sinal, vingá-lo. Quem se recusa a me seguir se recusa a fazer o que o Senhor ordena. Para esses, os tormentos do inferno estão reservados. Quem quiser me seguir fique de pé, os outros permaneçam sentados.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 22-25.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 1)

[As profecias não se cumpriram. O ano mil chega e o mundo não se acaba, como todos esperavam. pelo menos para alguns, não. Mas a espada do fim dos tempos continua pairando sobre todas as cabeças, e as palavras da autora deste conto parecem querer lembrar isso a cada passagem da narrativa.

O motor principal da vida europeia nesses tempos resume-se à fé religiosa; crer ou não crer. Uma enorme legião de desesperados de um lado; do outro, reis, nobres e sacerdotes manipulando o poder e as riquezas em proveito próprio, num universo à parte, onde o futuro é limitado apenas a cada minuto vivido.]

 O último julgamento (detalhe do painel central do tríptico, com o Arcanjo Michael pesando as almas), Hans Memling

"Então abriu-se no céu o templo
de Deus, e apareceu a arca do
seu testamento no seu templo,
e sobrevieram relâmpagos, e vozes,
e um terremoto, e uma grande
chuva de pedra."
Apocalipse de São João, Capítulo 11, versículo 19.

Filipe olhou para seus homens e deixou escapar um profundo suspiro de desânimo. Caminhavam havia cinco dias em direção ao distrito de Albey. Estavam cobertos de lama de tal forma que mais pareciam bonecos de barro do que gente e nem a chuva incessante que os fustigava durante todo esse tempo conseguia limpá-los.

Famintos e esfarrapados, deixavam-se levar pela simples promessa de que no fim da jornada haveria comida para todos. A fome era um espectro ancestral que pairava sobre a Europa desde gerações incontáveis, mas que de dois anos para cá, com as chuvas ininterruptas, que não permitiam sequer abrir um único rego para semear o trigo, tornara-se mais vivo e presente do que nunca. As pessoas devoravam tudo o que podiam encontrar pela frente, e não era raro encontrar carne humana sendo vendida normalmente nos mercados. Havia até quem, em completo desespero, se atirasse ao chão para comer terra.

Filipe e seus homens não estavam em situação diferente, por isso a ideia de um saque no Castelo de Albey não chegara a assustá-los, pois sabiam que lá haveria fartura de alimentos. Era isso que os fazia mover-se, que os mantinha vivos, que os fazia caminhar, apesar da chuva, da fome, do frio e do medo.

Estávamos no ano de 1033. Há 33 anos, exatamente na entrada do ano mil, nascia em Albey um menino com um pequeno sinal de nascença na testa. Era o primeiro filho homem de Maximiliano e Catarina de Albey.

Filipe, é claro, não se lembrava dos acontecimentos daquele dia. Não se lembrava por exemplo das estrondosas gargalhadas de seu pai, já bastante bêbado, conseguia abafar os gritos de dor de sua esposa prestes a dar à luz. Também não se lembrava da opulenta festa que se realizava no castelo no preciso momento em que nascia. Apenas sabia, porque isso lhe fora contado mais tarde, que seu nascimento provocara grande alvoroço no castelo por causa do sinal de nascença. Era uma pequena cruz vermelha bem no meio da testa. A crença de uns e ambição de outros fez com que isso fosse interpretado como um sinal divino. Havia até quem afirmasse que o menino era Filho de Deus enviado à terra para o Dia do Juízo.

Samuel Garbois, Superior da Abadia de Louvenne, se encontrava no castelo de Maximiliano naquele dia. Era um homem de trinta e poucos anos, a quem a natureza dera, além do excesso de gordura, muita astúcia e um certo apreço mal disfarçado pelas coisas materiais.

Sua grande ambição era poder restaurar e ampliar sua abadia de tal forma que as abadias e mosteiros das regiões vizinhas parecessem insignificantes.

Ao se dar conta do que acontecera, percebeu que chegara sua oportunidade. A ideia era reforçar e explorar ao máximo a crença de que o menino fora escolhido por Deus e que o sinal era a prova de que Ele queria nos dizer algo.

Certa noite em que o abade e Maximiliano jantavam juntos, Samuel Garbois colocou seu plano em prática;

- A fama do pequeno Filipe tem se espalhado rapidamente.

- É verdade. Desde que nasceu não pararam de chegar peregrinos por aqui.

- Eu sei, Maximiliano. Tenho hospedado na abadia homens e mulheres de elevada posição, que vêm de toda parte só para ver o menino. É uma pena que a abadia seja tão pequena e humilde e que necessite de urgentes reformas.

- E por que não as fazem, senhor abade?

- Ah, senhor! A fé é grande, mas as doações pequenas. Não temos recursos suficientes.

Maximiliano ficou em silêncio por instantes. Não lhe parecia bem, em seus domínios, uma abadia tão humilde e necessitada. Ainda mais agora que acontecera um milagre dentro de sua própria casa. E se lhe tivesse sido enviado esse sinal justamente para que ele fosse o realizados de uma grande obra para a glória de Deus? Decidiu fazer grande doação para que a Abadia de Louvenne se tornasse a mais rica da região.

Samuel Garbois sorriu feliz. Iria finalmente realizar seu sonho.

Enquanto caminhava no meio da lama e da chuva, Filipe recordava sua infância.

O Castelo de Albey situava-se na encosta de uma montanha. Era uma imensa fortaleza de pedra cujas fortificações tinham, durante muito tempo, impedido saques e pilhagens.

Desde o nascimento de Filipe uma grande transformação havia ocorrido na vida das pessoas que habitavam o castelo e suas redondezas. Uma atmosfera mística os envolvia, sempre renovada pela constante vinda de peregrinos.

Filipe tinha verdadeiro horror aquelas visitas. As pessoas lhe faziam promessas, pedidos, quase exigiam que fizesse algum milagre para provar que era santo. E ele nunca se sentira santo, apesar da cruz estampada na testa. Suas horas de alegria eram aquelas dedicadas às artes da guerra, quando se iniciou no aprendizado da cavalaria. Seu sonho era tornar-se um grande senhor guerreiro.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 17, 19-22.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A criação do Santo Ofício

A Inquisição foi uma instituição da igreja medieval destinada à repressão da heresia. Originou-se no fim do século XII, quando Alexandre III decretou sanções contra os hereges, e institucionalizou-se no Tratado de Paris (1229), assinado sob o pontificado de Gregório XI, o qual na bula Ille Humani Generis (8 de fevereiro de 1232), confiou a luta contra a heresia à Ordem dos Dominicanos.

No início, esse tribunal de exceção combateu sobretudo os cátaros do Languedoc (século XIII), mas se transformou logo num instrumento de perseguição a todos os inimigos - reais ou supostos - da Igreja Católica. Desse modo, a Inquisição lutou, no decorrer dos séculos XIV e XV, contra os templários, os espirituais (seita que esperava uma segunda vinda do Espírito Santo), os judeus, os wicletistas e hussitas (que pregavam uma reforma da Igreja na Inglaterra e na Boêmia, respectivamente). A partir do século XVI, as atividades da Inquisição concentraram-se na Espanha e na Itália, em lutar contra as ideias da Reforma e da Renascença. Em 1545, o papa Paulo III instituiu a Congregação da Inquisição ou Santo Ofício, com sede na Espanha.

A Inquisição espanhola teve seu início oficial com uma bula de Sisto IV, datada de 1º de novembro de 1478, plenamente aprovada pelos Reis Católicos. O primeiro tribunal da Inquisição espanhola foi instaurado em Sevilha, com a finalidade de fiscalizar especialmente os "conversos" - judeus convertidos à força ao catolicismo.

Em outubro de 1483, frei Tomás de Torquemada foi nomeado Grande Inquisidor de Castela, Aragão, Leão, Catalunha e Valência. Suas Instruções  (normas para conduzir processos da Inquisição) eram tidas como lei do reino no final do século XV. O Grande Inquisidor era sempre aprovado pela Santa Sé, os outros juízes eram nomeados pelo rei.

A Inquisição espanhola perseguia, além de hereges, bruxas, assassinos, sodomitas, polígamos e diversos outros "criminosos". Não há dúvida de que a Inquisição encontrou na Espanha sua terra de predileção. Passou para Portugal, por decisão de Dom João III e do papa, em 1536, para ali combater os judeus que tinham fugido da Espanha. Além do judaísmo, o tribunal português considerava crimes o luteranismo, o maometismo, a feitiçaria, a bigamia, a pederastia etc. No século XVI, a Inquisição estendeu-se às colônias espanholas da América, atingindo também o Brasil.

Um auto-de-fé no povoado de San Bartolomé Otzolotepec, Artista desconhecido

O processo inquisitorial tinha regras cujo essencial se desenrolava da seguinte maneira: três ou quatro sacerdotes inquisidores chegavam a um lugar suspeito de ter núcleos de heresias. Reunindo o povo na Igreja, faziam uma pregação solene e apocalíptica, exortando os culpados à confissão espontânea. Um "mês de tolerância" ou "tempo de graça" era geralmente concedido para que os "criminosos" confessassem sua culpa, Depois desse prazo, vinham as denúncias, abertas ou anônimas, e os acusados eram conduzidos pelo cura local e pelas testemunhas ao inquisidor. Todo cristão, sob pena de excomunhão, devia denunciar os suspeitos de heresia que conhecesse ou que tivesse ouvido falar.

Começavam então os interrogatórios, sem advogados, sem revelação do nome de quem denunciava e sem uma relação dos crimes apontados. A Inquisição dava, no entanto, valor especial à confissão dos culpados. Nos casos de confissão espontânea, o réu sofria apenas uma pequena penitência. Caso contrário, era submetido a tortura, autorizada oficialmente por documentos pontifícios. Os juízes podiam escolher entre a flagelação, o garrote (estrangulamento operado lentamente, sem suspensão do corpo), a polé ou roldana e os tições acesos. Na maior parte dos casos, os reús, extenuados, confessavam-se culpados de todas as possíveis formas de heresia.

Em cerimônias chamadas autos-de-fé, verdadeiros dias de festa, as sentenças eram pronunciadas publicamente, na presença de autoridades seculares e religiosas, numa praça onde se reunia o povo. A Igreja aplicava diretamente as penas de prisão perpétua, de confiscação de bens, remetendo ao "braço secular" os casos de pena de morte, quase sempre na fogueira. Havia ainda marcas de infâmia (cruzes amarelas sobre as vestes do condenado), peregrinações obrigatórias, destruição de propriedades e de casas e até mesmo exumação dos mortos, cujos crimes de heresias só foram conhecidos após a morte.  

As Grandes Religiões. São Paulo: Abril Cultural, 1973. v. 3, p. 442-443.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O cristianismo e o poder da Igreja na Idade Média

Durante o período das grandes invasões, terminada a missão da Roma imperial, começou a missão da Roma cristã, cidade onde, segundo as tradições religiosas, o apóstolo São Paulo teria lançado os fundamentos da Igreja.

A formação de vários reinos germânicos provocou em toda a Europa desordem administrativa, caos econômico e político, bem como o enfraquecimento de antigos valores culturais.

Nesse quadro agitado e confuso, apenas a Igreja cristã conseguiu assegurar certa ordem e disciplina, proteger e socorrer populações indefesas, assumindo papel político de destaque, preservando da destruição o legado cultural greco-romano. A partir desse momento, a Igreja, com sede principal em Roma, denominou-se católica, isto é, universal.

* Organização da Igreja. A partir do século II, de acordo com a expansão cada vez mais intensa da fé cristã e o contínuo aumento de congregações de fiéis, tornou-se necessário dar à Igreja uma organização uniforme, capaz de estruturá-la de forma disciplinada e hierárquica.

A paróquia constituía a menor congregação de fiéis, a ela pertencendo os moradores de pequena zona urbana ou rural. O centro da paróquia era a igreja, nome dado à basílica onde se celebrava o culto religioso. Dirigida por um padre (pároco), aí eram ministrados os sacramentos, oficiadas missas, pelo menos aos domingos - com acompanhamento de hinos - realizadas as grandes festas cristãs, Natal, Epifania ou Reis, Páscoa, Assunção, Pentecostes.

Na igreja paroquial eram também guardadas as relíquias trazidas por fiéis de suas peregrinações a lugares santos, na Palestina, a túmulos de apóstolos ou mártires.

A diocese agrupava, sob a direção de um bispo, várias paróquias, sendo sua sede um núcleo urbano de projeção. O bispo, que gozava também de grande prestígio político, providenciava a distribuição de esmolas e alimentos aos necessitados e, em caso de perigo, assumia a direção da cidade. Em cada antiga província romana um arcebispo dirigia os bispos encarregados das dioceses e os reunia, duas vezes por ano, em Concílios, onde eram tomadas decisões visando a assegurar unidade de fé e unidade de ação.

O Papa. Todos os bispos, inicialmente, eram chamados papa, isto é, pai; a partir do século V, porém, esse título passou a ser reservado unicamente ao bispo de Roma, tido - na qualidade de chefe da maior congregação cristã - como sucessor de São Pedro. A primazia do bispo de Roma custou a ser aceita, mas em fins do século VI foi reconhecida pelos bispos do Ocidente, graças sobretudo à ação enérgica, ao senso administrativo seguro e à habilidade política do papa Gregório o Grande, disciplinando a estrutura da Igreja, definindo a forma do culto, controlando a obediência dos chefes religiosos.

Através de uma estrutura cada vez mais firme e centralizada, enriquecida por grandes doações de terras, a Igreja foi assumindo papel político preeminente e consolidando gradativamente seu poder. Para tanto contribuiu também o movimento monástico, que se desenvolvera paralelamente ao movimento organizador das instituições eclesiásticas.

* Os monges e os mosteiros. O movimento monástico começou no século IV e, partindo do Oriente, expandiu-se rumo ao Ocidente. No período das invasões, muitos cristãos, homens e mulheres, procuraram refúgio e tranquilidade em uma vida rude e simples, afastada de aglomerações urbanas, e formaram comunidades isoladas, vivendo da oração, da caridade dos fiéis e do trabalho agrícola de seus membros.

Assim surgiram os primeiros conventos e mosteiros, dirigidos por um abade, nas comunidades masculinas, ou uma abadessa, nas femininas. Em 525 São Bento fundou, na Itália, o mosteiro de Monte Cassino e criou a Ordem Beneditina (de Benedictus, seu nome em latim). A fim de garantir disciplina e ordem à vida comunitária, estabeleceu normas que serviram de modelo para posteriores reformas da vida monástica e para outras ordens religiosas aparecidas mais tarde (Cistercienses, Cluniacenses, Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas, Clarissas, Agostinianos. Segundo a regra beneditina, os monges eram obrigados ao voto de pobreza, castidade, obediência a seus superiores; e os mosteiros deviam bastar-se a si mesmos: possuir terras para cultivo e pastoreio, pomar, horta, poço e construções reunidas em torno de uma área central - claustro - a igreja ou capela, a cozinha, o refeitório, as oficinas, as celas (diminutos dormitórios individuais). Frequentemente os mosteiros davam assistência a gente de fora, mantendo um hospital e uma hospedaria para abrigo de viajantes.


Cistercienses no trabalho em um detalhe da vida de São Bernardo de Claraval, Jörg Breu, o Velho

O papel dos mosteiros, na Idade Média, foi muito importante dos pontos de vista religioso, econômico e cultural.

Do ponto de vista religioso, o movimento monástico, em sua expansão pelo Ocidente, contribuiu para cristianizar os povos germânicos. Dos mosteiros partiram monges missionários para fundar novas comunidades religiosas em terras distantes, nelas difundindo os ensinamentos cristãos: São Patrício (Irlanda), Santo Agostinho (Inglaterra), São Bonifácio (Germânia) e muitos outros. E foi nos mosteiros que se formaram as personalidades de grandes figuras do clero, destinadas a alcançar especial projeção em sua época.

Do ponto de vista econômico, os mosteiros, através do trabalho organizado e metódico de seus membros, sobretudo na lavoura, muito contribuíram para melhorar a economia enfraquecida de várias regiões da Europa e para a formação de aldeias e lugarejos.

Do ponto de vista cultural, foram os mosteiros, durante séculos, os únicos centros conservadores da cultura antiga. Monges copistas transcreveram sobre pergaminho textos clássicos gregos e romanos, "iluminando-os", isto é, ornando-os com iluminuras. Possuindo bibliotecas próprias, os mosteiros eram também centros de ensino: neles eram educados rapazes, exercitando-se na leitura e na escrita ou preparando-se para a carreira eclesiástica; neles muitos aprendiam diversos ofícios, neles eram aperfeiçoadas técnicas agrícolas. Por longo tempo, até o florescimento da vida urbana e a fundação das primeiras universidades, os mosteiros foram a única instituição transmissora de cultura e de informações valiosas que chegaram até nós sob a forma de relatos históricos, as Crônicas e os Anais.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 126-9.

sábado, 31 de janeiro de 2015

O espírito do Santo Ofício da Inquisição continua?

[...]


Durante três séculos, o Estado e a Igreja privaram o colono luso-brasileiro da livre crença e da liberdade de consciência, mantendo a colônia sem imprensa, sem universidade, sem ciência, sem novelas, sem arte e sem livros, a não ser aprovados pela Igreja. Foi a Inquisição responsável pela estagnação intelectual da vida colonial, centrando em torno da Igreja, da missa, do sermão, das procissões, todas as diretrizes da vida, e incutindo uma obsessão pelo sentimento de pecado, que marcou todos os homens com o estigma da culpa. [...]

Condenados pela Inquisição, Velázquez

Apesar de todas as promessas de punição, a Inquisição não conseguiu fazer calar as inquietações, a solidariedade e a busca de novas mensagens, e as heresias se propagaram por toda a América. As mais autênticas expressões de fé, não oficiais, permearam toda a história colonial, desaguando algumas fortes, outras apagadas, no próprio século XX.

A América colonial foi vítima da repressão, de perseguições, de extermínios. As políticas totalitárias da Espanha e de Portugal, que anteciparam cinco séculos os totalitarismos do século XX, não podiam reconhecer e tolerar diferenças de pensamento e de fé, uma vez que havia interesses econômicos envolvidos.

Mesmo sem sucesso, milhares de portugueses e espanhóis lutaram, silenciosos, num campo de batalha, espremidos entre um poder absoluto e um universo impregnado de fanatismos, superstições e crendices. A resistência dos colonos conversos, dos índios, dos negros, dos hereges e dissidentes à imposição forçada da religião, dos valores, dos costumes, foi calada e clandestina. Os hereges Garcia da Orca, Antonio José da Silva, Padre Antonio Vieira, Juan de Vives, Frei Luís de Leon, Fernando Rojas e tantos outros foram a verdadeira glória de Portugal e da Espanha, e não seus religiosos, guerreiros e governantes.

O recrudescimento em nossos dias dos nacionalismos, do antissemitismo, dos ódios raciais, dos antagonismos religiosos, da xenofobia, mostra que, apesar de todo o progresso técnico, os homens ainda carregam consigo, viva, a herança destrutiva do passado.

[...]

O Tribunal da Inquisição, Goya

O Santo Ofício da Inquisição, que queimou Giordano Bruno ¹ e perseguiu Galileu ², passou a denominar-se Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Esta Congregação advertiu e puniu numerosos teólogos contemporâneos, que têm questionado diferentes aspectos da doutrina católica e a infalibilidade da Igreja.. Todas as medidas restritivas receberam a aprovação do papa João Paulo II.

¹ O que era semente faz-se erva, e do que era erva faz-se a espiga; do que era espiga faz-se o pão, do pão quilo, do quilo sangue, deste semente e desta embrião, deste homem, deste cadáver, desta terra, desta pedra. (Giordano Bruno, Diálogos)

² A filosofia está escrita neste imenso livro que se nos abre continuamente diante dos olhos (quero dizer o universo), mas não podemos entendê-lo, se antes não aprendermos a compreender a língua e a conhecer os caracteres nos quais está escrito. Está escrito em língua matemática, e os caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas, sem os quais meios é impossível entender humanamente qualquer palavra sua; sem eles é um inútil vagar por escuro labirinto. (Galileu)

Os principais teólogos acusados de heresia foram Edward Schillebeeckx,  professor de Teologia da Universidade Católica de Nijmaegen, Holanda, e Hans Küng, professor de Dogma e Teologia Ecumênica da Universidade do Estado, Tubingen, Alemanha. No Brasil foi acusado e punido o teólogo Frei Leonardo Boff.

Desde 1957 Hans Küng entrou em choque com o Vaticano, por ter posto em dúvida a infalibilidade da Igreja e criticado a debilidade da doutrina papal sobre o controle da natalidade. Küng acredita que a Igreja "devia aprender por seus próprios erros". Chamado a Roma em 1971, para justificar as suas ideias, respondeu que só iria se pudesse ver todo o seu processo e escolher seus próprios advogados. A Congregação recusou. Nessa atitude vemos a repetição do procedimento da Inquisição ibérica, na qual os réus não tinham conhecimento do seu processo e os únicos advogados admitidos eram homens internos da Inquisição. O próprio Küng acusou os membros da Congregação de agirem de acordo com o espírito da Inquisição. Küng também foi punido por dizer que a ressurreição não podia ser um acontecimento histórico, a virgindade de Maria era uma lenda, que não se devia identificar Jesus com Deus e que Jesus nunca se intitulou Messias. O próprio papa João Paulo II, em 18 de dezembro de 1979, declarou que Hans Küng, nos seus escritos, afastou-se da verdade integral da fé católica e portanto não podia mais ser considerado um teólogo católico, nem atuar como tal num papel de professor.

Os crimes contra a moral, que foram sempre preocupação central da Igreja, e deram motivo à constante pela Inquisição espanhola e portuguesa, também recebem atualmente, da Congregação para a Doutrina da Fé, um especial interesse. Autores como o reverendo Charles Curran, professor de Teologia Moral da Universidade Católica de Washington, D.C., autor de Sexual and Medial Ethics e Tradition in Moral Theology (Notre Dame University Press, 1978 e 1979, respectivamente), o jesuíta John J. Mc Neill, autor da obra The Church and the Homossexual (Sheed, Andrews and McMeel, 1976) e o reverendo Anthony Rosnik, coautor de Human Sexuality: New Directions in American Though (Paulist Press, 1977), foram seriamente advertidos e criticados pela Congregação.

Os pensadores religiosos estão divididos hoje, como estiveram divididos durante a Inquisição ibérica.

NOVINSKY, Anita. A Inquisição. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 7-9, 103-5. (Coleção Tudo é História, 49).

terça-feira, 25 de março de 2014

Argumentos de la fe

O círculo mágico, John William Waterhouse

Durante seis siglos, en varios países, la Santa Inquisición castigó a los rebeldes, a los herejes, a las brujas, a los homosexuales, a los paganos…

Muchos fueron a parar a la hoguera; y con leña verde ardieron los condenados al fuego lento. Y muchos más fueron sometidos a tortura. Éstos eran algunos de los instrumentos utilizados para arrancar confesiones, corregir convicciones y sembrar pánicos:
el collar de púas,
la jaula colgante,
la mordaza de hierro que evitaba gritos incómodos,
la sierra que lentamente te partía por la mitad,
los torniquetes estrujadedos,
los torniquetes aplastacabezas,
el péndulo rompehuescos,
la silla de pinchos,
la larga aguja que penetraba en los lunares del Diablo,
las garras de hierro que desgarraban la carne,
las pinzas y tenazas calentadas al rojo vivo,
los sarcófagos con clavos adentro,
las camas de hierro que se estiraban hasta descoyuntar las piernas y los brazos,
los azotes de puntas de ganchos o de cuchillas,
los toneles llenos de mierda,
el brete, el cepo, las poleas, las argollas, los garfios,
la pera que se abría y desgarraba la boca de los herejes, el culo de los homosexuales y la vagina de las amantes de Satanás,
la pinza que trituraba las tetas de las brujas y de las adúlteras,
el fuego en los pies
y otras armas de la virtud.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 92-3.


NOTA: O texto "Argumentos de la fe" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

As sacanagens clericais no Brasil colônia

Velho entrega a uma jovem uma carta de amor no desenho de Carlos Julião. Amor cortês para as brancas, mãos nos peitos para as negras: as investidas variavam de acordo com os "tipos" de mulheres.

O padre Manuel da Nóbrega chegou à Bahia em 1549, à frente de seis inacianos, inaugurando a presença jesuítica na colônia. Em 1553, não teve como esconder seu desalento com a conduta do clero colonial. “A evitar pecados esse clero não veio”, escreveu a outro padre. Queixou-se de que os padres viviam amancebados com as índias, chamadas por ele de “negras da terra”, alegando que eram suas escravas! Além disso, absolviam todo tipo de lubricidade, sem dar qualquer penitência. Era caso de “chorar”, escreveu Nóbrega.

É claro que ele se referia ao clero secular, não aos quadros da Companhia, “soldados de Cristo”, que levavam a sério a militância apostólica. Quando não a levavam, eram expulsos. Já os “clérigos do hábito de São Pedro” não tinham a mesma formação dos jesuítas ou de outros frades regulares. O paradigma deste julgamento, em todo caso, a moral cristã, em sua versão católica: sexo é coisa má, só tolerável no matrimônio, e só de vez em quando, para procriar os filhos de Deus.

Nóbrega teria razão ao criticar, em meados do século XVI, os padres que vinham pastorear almas no Brasil? Do ponto de vista da Igreja, tinha toda a razão – e ainda teria se vivesse no século XVII ou no XVIII.

Basta ler a confissão do padre Frutuoso Álvares, o primeiro a se apresentar ao visitador do Santo Ofício, na Bahia, em 29 de julho de 1591. Disse que nos últimos 15 anos tinha cometido “tocamentos torpes” com 40 pessoas, “abraçando, beijando”, a começar por um jovem de 18 anos. Contou que, neste caso, “tocou com as mãos” em sua “natura”, isto é, no seu pênis, provocando, por duas vezes, “polução” (gozo) no “membro viril” do rapaz.

A linguagem oficial da época é, aliás, saborosa. O pênis era chamado de “natura”, “membro viril”, “membro desonesto”. Desonestidade, por exemplo, era palavra muito usada para designar lubricidade, sensualidade ou simplesmente sacanagem. Nos documentos de época já aparece a expressão “fazer as sacanas”. No caso dos tocamentos em que padre Frutuoso era perito, também havia uma expressão em parte familiar: “jogar as punhetas”.

Padre Frutuoso, vigário no Recôncavo da Bahia de Todos os Santos – todos eles! – foi o primeiro a confessar que “fazia sacanas” no Brasil desde o tempo em que serviu na Madeira – a ilha, vale dizer. Estimou em cerca de 100 parceiros, “pouco mais ou menos”, o número de rapazes (sempre jovens) nos quais jogara “as punhetas”. Devem ter sido uns 200 ou 300.

Nóbrega tinha razão ao criticar os padres seculares? Há vários outros exemplos nos papéis inquisitoriais. Padre Jacome de Queiroz também se apresentou, de sua própria iniciativa, ao visitador, para confessar que tinha sodomizado duas índias. Alegou que o fez sem querer: como tinha tomado muito vinho, ao achegar-se às meninas, “errou de vaso” e, ao invés de penetrar no “vaso natural”, como devia (?), meteu seu “membro desonesto” no vaso traseiro, por vezes grafado no documento, em latim, vas preposterum.

O mais incrível neste caso é que o visitador mal ligou para o fato de que as índias em causa eram meninas, uma de 6, outra de 7 anos. Hoje seria caso de pedofilia e abuso sexual de menores. Na época, não passava de sodomia. A questão era saber em que vaso o padre mete seu “membro viril” e se o fez por escolha ou por acidente. O grande historiador francês Phillipe Áries esclarece: nesta época, as pessoas viam as crianças como “pequenos adultos”.

Devemos deduzir, desses exemplos, que a lascívia dos padres era típica do clero secular? Nada disso. No século XVIII, o frei franciscano Luís de Nazaré, vigário nas Minas, alegava ser exorcista sem sê-lo e, quando sabia de moças adoecidas e melancólicas, apresentava-se para curá-las, expulsando o demônio. De Bíblia na mão e com seu membro viril à mostra, jogava o “jogo dos punhos”, esfregando o sêmem pelo corpo da “possuída”. Preso pelo Santo Ofício, alegou que fez tudo por luxúria, não por acreditar que o sêmem era capaz de expulsar demônios. Acrescentou que as mulheres do Brasil eram tolas e acreditavam em qualquer coisa. A Inquisição só não disse “tudo bem” porque cassou as ordens sacras do frei.

Também no século XVIII, outro frade regular, pertencente à Ordem das Mercês do Pará, preferia rapazes. Gostava, em particular, de oferecer seu “vaso traseiro” e como por vezes o “vaso sangrava”, ele dizia que estava menstruado. Numa palavra: o frade das Mercês dizia que era mulher, disfarçada de frade. Ele acrescentou, como frei Luís de Nazaré, de Minas, que também os rapazes do Brasil eram tolos e acreditavam em tudo.

Voltando aos padres seculares e aos heterossexuais, Lara Lages, em sua tese de doutorado, tratou dos solicitantes as turpia. Quem eram? Padres, em geral seculares, que no ato da confissão, ou a propósito dela, “cantavam” as mulheres, quando não avançavam nelas. Muitos alegavam que, sendo eles padres, não havia pecado no avanço. Deus perdoava. Outros, tratando com mulheres casadas, diziam que eles, padres, eram ricos, e poderiam regá-las muito mais que seus maridos. A subversão da doutrina católica era total.

O mais interessante, porém, é que havia uma gradação “sociológica” nas investidas dos solicitantes ad turpia: com mulheres “brancas e honradas”, eles vinham com uma conversa amorosa, tipo amor cortês. Um deles mandou uma florzinha entredentes pelas grades do confessionário. Mas com mulheres negras, escravas ou forras, cortesia zero: mãos nos peitos, mãos debaixo da saia.

Trópico dos pecados? Sim. Prova de que a Igreja era conveniente com sodomias, pedofilias e abusos sexuais? Só conhecemos tudo isso porque a Igreja Católica tinha aparatos de vigilância e punição dos padres que subvertiam a moral cristã. Punia alguns. Os papéis da Inquisição dão a prova. Os jesuítas, por sua vez, quase não aparecem como réus nesses escândalos: Ad majorem Dei Glorium – tudo pela glória de Deus. Ou, como diria Gilberto Freyre: “donzelões intransigentes”.


Ronaldo Vainfas é professor da Universidade Federal Fluminense e autor de Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8, nº 93, junho 2013. p. 21-22.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Reformas e dissidências

Em 1521, produziu-se a ruptura de Lutero com Roma. O ponto fundamental de sua reivindicação, compartilhado pelas três grandes correntes reformadoras “respeitáveis” (luteranos, calvinistas e anglicanos), era que se devia considerar a Bíblia como a autoridade máxima em matéria de fé (por isso, era necessário traduzi-la nas línguas vulgares, com o objetivo de colocá-la  ao alcance dos fiéis), sem deixar que sua mensagem se mediatizasse com tradições de qualquer tipo. Consideravam, ainda, que a graça de Deus era a única fonte de salvação, sem que as penitências, procissões e indulgências (que consistiam na “compra” do favor divino), nem as missas para os defuntos tivessem qualquer tipo de validade. Calvino iria mais além ao negar que o homem pudesse ganhar a salvação com suas obras e afirmar que Deus já havia eleito previamente quem desejava salvar: que os homens estavam predestinados.

O Muro dos Reformadores. Da esquerda à direita: Guilherme Farel, Calvino, Teodoro de Beza e John Knox

Além destas correntes da “reforma dos príncipes” – como foi denominada pela dependência estabelecida entre reformadores e poderes públicos – houve, entretanto, outra “reforma comunal”, que propunha a autonomia da comunidade local, ao menos nas questões religiosas. A fé era considerada nestes casos como uma questão pessoal, que não podia ser colocada sob o controle de uma Igreja ou de um Estado, e os fiéis exigiam o direito de nomear e destituir seus pastores. Os anabatistas, chamados assim porque consideravam que o batismo devia ser recebido – ou tornar a ser recebido – na idade adulta, com a plena consciência, liam, no evangelho, o prognóstico de uma sociedade mais fraternal e igualitária, propugnando ideias de renovação social que chegariam, inclusive, a uma proposta de comunhão de bens, como a que se quis estabelecer no “reino dos santos” de Münster, primeiramente, ou nas comunidades que tentaram reconstruir a nova Jerusalém na Moravia. Todos estes grupos foram ferozmente perseguidos tanto por católicos quanto pelas correntes reformadas “respeitáveis”, assustados, uns e outros, pela ameaça radical que representavam. O conformismo político e social das correntes da “reforma dos príncipes” levou à reação da chamada “segunda reforma”, que expressava a reação dos grupos que queriam ir mais além. O florescimento de seitas radicais – quakers, ranters, partidários de quinta monarquia, etc. – durante a revolução inglesa do século XVII seria seguido, no século XVIII e princípios do XIX, pela dos diversos grupos dissidentes que fundaram igrejas dos pobres contra a Igreja oficial do Estado e dos ricos. O mais importante destes grupos, que recolheu elementos da herança cultural dos anabatistas da Moravia, foi o metodismo de John Wesley; porém, na Inglaterra, e principalmente nos Estados Unidos, apareceu uma série de grupos no século XIX que compartiam projetos comunitários com uma visão profética que anunciava a iminente “segunda vinda” do Messias.

A Igreja de Roma, por sua parte, realizou sua própria reforma no Concílio de Trento (1545-1563), convocado para “assegurar a integridade da religião cristã, para a reforma dos costumes, a concórdia entre os príncipes e os povos cristãos, e para lutar contra as empresas dos infiéis”. A fixação das regras, iniciada com a redação de um catecismo que compreendia e explicava as “verdades da fé”, seria seguida por uma campanha de reconquista interior que se desenvolveu especialmente no século XVIII, com um número considerável de missões rurais que tentavam conseguir o enquadramento das massas camponesas numa ordem regular de vida controlada pela paróquia.

Ao mesmo tempo que retrocedia a causa da Reforma na Europa, a Igreja católica empreendia a conquista religiosa da América, onde, aliada ao poder político da monarquia espanhola, protagonizou a “conversão” forçada dos povos indígenas, num processo que foi além do terreno das crenças, já que implicou na transformação completa da vida dos novos cristãos dentro do marco político colonial, submetidos a uma autoridade que controlava a vida e a consciência com os mesmos métodos repressivos. A expansão fora da Europa permite explicar que o catolicismo romano tenha, hoje, maior número de adeptos que a soma das demais denominadas religiões cristãs.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 306-309.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O golpe de 64 e a ditadura militar 3: a repressão

A verdade ainda que tardia (detalhe de painel instalado na Câmara), Elifas Andreato

O líder comunista Gregório Bezerra tinha 63 anos ao ser preso pela polícia particular do usineiro Zé Lopes. O fato ocorreu nos primeiros dias de abril de 1964, no interior de Pernambuco. Transferido para Recife, Gregório foi espancado pelo coronel Villocq Viana e pelos seus soldados, no quartel do Exército. Recebeu socos, pontapés e pancadas com barras de ferro. Obrigaram-no a caminhar descalço sobre ácido jogado no chão. Com os pés em carne viva, amarrado pelo pescoço com três cordas, puxado por soldados, teve de desfilar pelas ruas da capital pernambucana.

O coronel Villocq Viana comandava a exibição, mostrando ao povo o "comunista traidor da pátria". O ex-chefe de polícia Waldenkolk Wanderley, tomando a corda de um soldado, gritava: "Este é o comunista que queria destruir o lar de vocês. Agita agora, traidor". E desabavam socos e pontapés sobre o prisioneiro.

O povo assustou-se; mulheres desmaiaram. O coronel Villocq Viana levou o cortejo até a sua casa, para exibir o "traidor da pátria" à esposa. O homem ensanguentado, porém altivo, respondia às pancadas e insultou com uma pergunta: "É esta a civilização cristã e ocidental?" Seu comportamento impressionou a mulher, que caiu numa crise de choro. Irritado, o coronel aumentou o volume dos gritos e a força das pancadas.

A agressão a Gregório Bezerra foi o prenúncio do que aconteceria no Brasil: prepotência da polícia particular dos poderosos, tortura dentro dos quartéis e histerismo da "nova autoridade" exibido ostensivamente como patriotismo. Mas um prenúncio ainda tímido: tudo iria piorar.

Os primeiros meses pós-golpe ficaram marcados pela detenção de aproximadamente 50 mil pessoas. Os militares realizaram uma "operação pente-fino": de rua em rua, de casa em casa, procuravam suspeitos, livros, documentos, qualquer coisa que ligasse os acusados ao governo anterior ou à "subversão". Não se prendiam "culpados", mas todos os que não podiam provar inocência. Poucos líderes sindicais e estudantis escaparam da repressão.

O interrogatório era acompanhado de espancamento, que endurecia a "periculosidade" da vítima. Dessa forma, sofriam mais os inocentes e os completamente ignorantes da nova política - por não terem o que esconder, não mentiam, diziam que não sabiam de nada e, por isso, tornavam-se altamente suspeitos pela sua "resistência".

Nas primeiras semanas depois do golpe, a imprensa (ainda sem censura plena) noticiava timidamente as violências. Mas a revista Time informou ao mundo a existência da Operação Limpeza, assegurando que se prendiam em média 10 mil pessoas por semana. A imprensa internacional divulgou a situação do Brasil e já em setembro de 1964 - seis meses após o golpe - as entidades internacionais dos direitos humanos começavam a denunciar o regime militar brasileiro.

Prendeu-se tanto que as cadeias foram insuficientes. O Maracanã virou presídio; navios da Marinha receberam  centenas de "subversivos". Os quartéis em todo o Brasil lotaram de prisioneiros. A impunidade estimulou o uso da tortura. Cometeram-se tantos abusos que até a imprensa brasileira começou a denunciá-los. O governo Castelo Branco, geralmente apresentado como "democrático", prometia investigar, enquanto a violência ia se incorporando ao cotidiano nacional.

Em 1968, o AI-5 impôs à imprensa a mais brutal censura da história do Brasil. Absolutamente nada que "ofendesse" o governo podia ser noticiado. A partir daí, a violência tornou-se um método de dominação. Todos os jornais, inclusive os que apoiaram o golpe, foram censurados e alguns de seus diretores, presos.

O "Exército de Caxias" chegou a um rebaixamento moral que os militares talvez pensassem jamais ser possível. Em abril de 1968, explodiu uma bomba tão forte no saguão de O Estado de S. Paulo que arrebentou os vidros dos edifícios localizados em um raio de 500 metros. As autoridades atribuíram o atentado às "forças de esquerda", usando o fato para justificar o aumento da repressão e da censura. Dez anos depois, descobriu-se que a explosão havia sido preparada e executada pelo Estado-Maior do II Exército.

Seguiram-se outros atentados planejados pelo II Exército para culpar a esquerda, entre eles um idealizado pelo general Jaime Portela, chefe da Casa Militar da Presidência da República. Em 20 de agosto de 1968, um grupo de soldados da Força Pública de São Paulo explodiu uma bomba em um estacionamento em frente do Deops. A operação era tão secreta que o seu líder foi torturado por engano nas dependências do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic): pressionado, Aladino Félix [...] confessou ter agido sob as ordens do general Portela.

Os atentados de direita multiplicaram-se, alguns com o objetivo claro de intimidar políticos, artistas ou intelectuais, outros para incriminar as esquerdas. O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) atacou livrarias, teatros, cinemas e escolas.

Um dos mais espetaculares atentados projetados pelo governo - ou por militares intimamente ligados ao poder - acabou frustrado pela recusa de um oficial em executá-lo. Em 1968, o brigadeiro João Paulo Penido Burnier, chefe de Gabinete do ministro da Aeronáutica, Márcio de Souza Mello, planejou explodir o gasômetro do Rio de Janeiro, com o auxílio do Para-SAR. Milhares de pessoas morreriam, mas, segundo o brigadeiro Burnier, o atentado seria necessário para "salvar o Brasil do comunismo", instigando o ódio da população contra os "subversivos", que levariam a culpa pelas mortes.

O capitão-aviador Sérgio Miranda de Carvalho, encarregado de executar o plano, negou-se a cumprir a missão e ameaçou denunciá-la, caso Burnier pretendesse levá-la adiante com outros oficiais. O plano frustrou-se, mas o capitão Sérgio foi afastado da Aeronáutica, em 1969, acusado de "louco".

Só em 1978 a verdade veio à tona, graças ao depoimento do brigadeiro Eduardo Gomes, em defesa do capitão Sérgio. O brigadeiro confirmou que se preparava "a explosão do gasômetro, a destruição de instalações de força e luz, [que seriam] posteriormente atribuídas aos comunistas". Em seguida ao pânico, viria a segunda etapa:

[aconteceria] sumariamente, a eliminação física de personalidades político-militares, o que, no seu entendimento [do brigadeiro Burnier], possibilitaria uma renovação nas lideranças nacionais. A execução de tal plano aproveitar-se-ia do momento psicológico em que as passeatas e agitações estudantis perturbavam a ordem pública.

O ano-chave da institucionalização da tortura foi 1969. Nesse ano, com a intensificação da guerrilha e dos assaltos a bancos por grupos de esquerda, deu-se início à organização metódica da repressão. Aperfeiçoou-se o uso psicológico da violência. Surgiram as "salas especiais", munidas de aparelhagem de tortura: cadeiras e camas eletrificadas, paus-de-arara etc. Paralelamente, aprimoram-se os meios legais e os tribunais que encobriam a tortura. Médicos e legistas apresentavam os violentados como indivíduos gozando de plena saúde e os assassinados na tortura como vítimas de "morte natural". Os cadáveres que não podiam ser escondidos apareciam em terrenos baldios ou eram sepultados anonimamente ou, ainda, informava-se que aquelas pessoas haviam morrido atropeladas.

Para fazer tudo isso, não bastou a imposição do autoritarismo - o regime precisou, também, "limpar" as Forças Armadas dos elementos mais democráticos ou que simplesmente sentiam pudor de compactuar com as violências. Onze dias depois do golpe, o Exército já computava 122 oficiais expulsos, sob a acusação de serem "contra-revolucionários" e centenas receberam advertência pela sua conduta revolucionária "fraca". Os militares punidos eram considerados oficialmente "mortos": perdiam os seus direitos, e as suas esposas ganhavam pensão de "viúva". Até 1967, as Forças Armadas expurgaram 1.228 oficiais, sendo 510 do Exército, 374 da Aeronáutica e 344 da Marinha.

Enquanto isso, o Inquérito Policial Militar (IPM) de cada estado recorria aos mais curiosos argumentos. Edson Germano de Brito, por exemplo, foi condenado porque o seu comunismo era um "mal de família". No IPM de Goiás, consta que ele era "notoriamente comunista [...] aliás, parece mal de família, pois isso ocorre com todos os Germano do estado de Goiás". [...]

Para assegurar a repressão, importavam-se vários técnicos norte-americanos. Um desses especialistas, Dan Mitrione, ficou bastante conhecido. Ele sequestrava mendigos nas ruas de Belo Horizonte e os levava aos quartéis, para servirem de cobaia: torturava-se para ensinar a policiais e militares brasileiros os princípios da tortura "científica". Dan Mitrione, que no tempo da ditadura foi nome de rua em Belo Horizonte, acabou morto no Uruguai pelos tupamaros (extremistas de esquerda).

Mas sem só mendigos se transformavam em cobaias. Vários estudantes também "colaboraram" com o aprendizado dos torturadores. Maurício Vieira de Paiva, 25 anos, foi torturado de acordo com sequências fotográficas, em aula para cem militares das Forças Armadas, "sendo instrutor um tenente Hayton", segundo o seu depoimento, em 1970. Isso aconteceu em todo o Brasil: jovens e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres caíram vítimas do processo.

Há centenas de depoimentos sobre as torturas nos arquivos da Justiça Militar e de entidades de defesa dos direitos humanos. Eles descrevem os mais variados métodos: o pau-de-arara, a cadeira-do-dragão, a pimentinha, o afogamento, a geladeira, os choques elétricos e até o emprego de insetos e animais (no Rio de Janeiro, usava-se uma jibóia chamada Miriam). O livro Brasil: nunca mais - Um relato para a história traz uma extensa coleção de relatos e denúncias comprovadas sobre a prática da tortura.

[...] No Nordeste, os latifundiários aproveitaram-se da situação para satisfazer as vinganças mais cruéis. Em Tempo de Arraes, Antonio Callado fala de "um chifre de boi com a ponta cortada". Conforme um camponês relatou ao escritor, o tal chifre seria usado para a aplicação de um clíster (introdução de substância líquida por via anal) nos subversivos:

É o chifre de clíster do feitor Valentim. Gostava de matar gente pela traseira. Ele tinha uma receita para quando pegasse o deputado Julião: creolina, sebo e pimenta. Para Arraes, salitre derretido, sebo e óleo de mamona.

A bestialidade estava liberada.

[...] A tortura como método conseguiu matar o homem no homem: deixava marcas tão profundas que, depois, se tornava difícil querer viver. Para alguns dos torturados, a indignidade do outro - o torturador - atingia-os de tal modo que era impossível continuar pertencendo àquela humanidade.

Em uma brutal ironia, a ditadura apelou ao "suicídio" quando não tinha como explicar os seus crimes. A primeira vítima fatal da tortura (conhecida oficialmente) foi o tenente José Ferreira de Almeida, da Força Pública de São Paulo. A repressão registrou a sua morte como "suicídio". Em 1975, aconteceu em São Paulo a Operação Jacarta, liderada pelo secretário da Segurança coronel Erasmo Dias. Visava prender vários suspeitos de subversão. Entre eles, foi detido o jornalista Vladimir Herzog, que morreu em consequência das torturas. Os órgãos de segurança informaram que ele "suicidou-se". Outro que morreu nas torturas, o operário Manoel Fiel Filho, também apareceu nos documentos oficiais como "suicida". Nos três casos, provou-se posteriormente a farsa - nenhum cometeu suicídio, todos morreram sob tortura.

Alguns aspectos da repressão atingiram tal dramaticidade que escaparam ao controle da ditadura, estimulando o povo a solidarizar-se com as vítimas e dar forças à oposição.

Em 28 de março de 1968, a Polícia Militar invadiu o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Alegou-se que os estudantes que tomavam refeições no local pretendiam manifestar-se contra os Estados Unidos, diante da sua embaixada. Os soldados atiraram, feriram alguns estudantes e mataram Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos. A notícia espalhou-se rapidamente pelo Rio. Organizaram-se passeatas e protestos. O corpo do estudante foi velado na Assembléia Estadual. A repressão preparou-se para conter os manifestantes.

No dia seguinte, milhares de pessoas acompanharam o enterro do secundarista. À noite, os estudantes voltaram às ruas, carregando tochas e cantando o Hino Nacional em surdina. Tentaram fazer uma vigília diante da Assembléia, mas acabaram expulsos pela polícia.

O enterro do jovem marcou a "virada" do povo: a ditadura era francamente antipatizada. A emoção tomou conta do Rio. Cerca de 30 mil pessoas assistiram à missa de sétimo dia de Edson Luís, na Igreja da Candelária. Terminada a missa, o povo saiu e sofreu uma carga da cavalaria: golpes de "espada em prancha", "cutucadas" de baionetas e "atropelamentos" pelos cavalos. Segundo um relato do Jornal do Brasil:

Mulheres, velhos e crianças corriam em todas as direções, e os cavalarianos desembainhavam as espadas, enquanto os outros usavam cassetetes. Todo o dispositivo policial montado na Candelária foi acionado e começou a espancar os populares. Os cavalarianos atiravam seus animais sobre a multidão.

Tentava-se intimidar o povo. Sem resultado: à tarde, realizou-se nova missa e o bispo dom José de Castro Pinto, de mãos dadas com populares, formou um círculo em torno da igreja, para impedir o ataque da cavalaria. Ao fim da missa, o povo saiu em passeata, com o bispo e os padres à frente.

A morte de Edson Luís e os acontecimentos seguintes tiveram uma grande importância: "jogaram" a Igreja para o lado dos estudantes e da oposição. A partir daquele momento, o que já acontecia em setores isolados do catolicismo passou a ser uma política quase oficial: a Igreja, quando não se posicionava ostensivamente contra a ditadura, pelo menos condenava as violências e defendia os perseguidos, sem se importar com a sua cor política.

A Igreja forneceu um dos principais contingentes que enfrentou a ditadura: sacerdotes e leigos aliaram-se à Ação Popular (AP) e apoiaram outros grupos de luta armada, inclusive marxistas, como exemplifica a ligação dos dominicanos com Mariguela.

Centenas de católicos, inclusive de padres, acabaram torturados e mortos em todo o Brasil. Entre os casos mais trágicos, encontra-se o de frei Tito, torturado cruelmente pelo delegado Fleury e equipe. Depois de resistir à destruição do corpo, frei Tito sucumbiu à tortura psicológica. Uma pequena frase do seu depoimento, em Memórias do exílio, revela o seu desespero: "Só havia uma solução: matar-me".

Livre das perseguições, convalescendo na França, frei Tito não suportou a lembrança das torturas e suicidou-se, em 1974, aos 29 anos. O seu suicídio foi, na verdade, um assassinato a distância, uma consequência das torturas que o delegado Fleury infligiu-lhe na prisão.

O aparelho de repressão lançou mão de todos os meios - um deles, o da difamação, marca registrada dos regimes fascistas. Logo após a morte de Mariguela, o jornal O Globo encarregou-se da infâmia: "Eles [os dominicanos]  traíram sua fé passando para o comunismo, depois traíram o comunismo entregando Mariguela; são os novos Judas".

[...]

Frei Tito encarna uma tragédia revolucionária. Mas milhares de outros sofreram revolucionariamente a tragédia de libertar o Brasil de um tempo de fúria e de trevas.

A morte de Bacuri é outro emblema da brutalidade. O governo militar informou que Bacuri, nome de guerra de Eduardo Leite, morreu ao fugir da prisão e resistir à polícia. Mentira: ele tinha sido torturado da forma mais brutal. Furaram os seus olhos, quebraram as suas pernas, cortaram as suas orelhas. A equipe do delegado Fleury, torturava-o diariamente. Executaram-no com uma machadada, na véspera da sua libertação, que ocorreria no resgate de presos após um sequestro. Seu corpo foi entregue à família. Ao abrirem o caixão, amigos e parentes depararam com o horror: um rosto sem olhos e orelhas - ele não tinha rosto.

Se não existissem milhares de outros, Tito e Bacuri bastariam para demonstrar do que uma ditadura é capaz.

A ditadura não poupou nem as crianças. Prendeu o menino Eduardo, de 4 anos, junto com a sua mãe, a professora Maria Madalena Prata Soares. Torturou o carpinteiro Milton Gaia Leite, a sua esposa e os seus filhos, de 5 e 6 anos. Provocou abortos em dezenas de mulheres. E fez do estupro uma norma, conforme  relatou Inês Etienne Romeu:

A qualquer hora do dia ou da noite sofria agressões físicas e morais, "Márcio" invadia minha cela para "examinar" meu ânus e verificar se "Camarão" havia praticado sodomia comigo. Este mesmo "Márcio" obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante este período foi estrupada duas vezes por "Camarão" e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros.

Enquanto cometia esses atos, a ditadura mostrava-se ao povo como guardiã da "civilização cristã" contra o "comunismo ateu". Forjava depoimentos e quebrava de tal modo a resistência psicológica de alguns presos que eles se apresentaram na televisão, durante o governo Médici, como "terroristas arrependidos", dizendo que eram bem tratados e que a esquerda cometia atrocidades.

Um balanço ainda precário registra a prisão de 50 mil pessoas. Pelo menos 20 mil sofreram torturas. Além dos 320 militantes da esquerda mortos, outros 144 continuam "desaparecidos". No fim do governo Geisel, existiam cerca de 10 mil exilados. As cassações atingiram 4.682 cidadãos. Foram expulsos das faculdades 243 estudantes.

[...] A ditadura militar morreu lentamente a partir do desmascaramento do "milagre econômico". Começou a agonizar no governo Figueiredo. Já era cadáver no período Sarney. Foi enterrada precariamente nas eleições de 1989.

Hoje, há democracia.

Isso basta?

CHIAVENATO, Júlio José. O golpe de 64 e a ditadura militar. São Paulo: Moderna, 2006. p. 176-188.