"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 5 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 5

[As sociedades coloniais americanas]


Escravos trabalhando numa plantação de tabaco na Virgínia, 
ca. 1670, Artista desconhecido



Em busca de novas terras e riquezas, homens brancos, armados de arcabuzes e mosquetes, lançaram-se ao mar em grandes embarcações de madeira, com velas feitas para navegar com qualquer vento e chegaram às costas da América, pouco tempo depois da histórica viagem de Cristóvão Colombo. Eram os espanhóis, que iniciavam, no final do século XV, a Conquista e a Colonização do Novo Mundo. Imagine-se um deles, fazendo parte da tripulação desses navios, vestido em reluzente armadura e montado a cavalo, desembarcando nas ilhas antilhanas, no México ou no Panamá. Sendo um desses aventureiros, sua sede de conquista não teria limites, e então você avançaria até os altiplanos do Peru e da Bolívia, ou penetraria a foz do Nhamundá, em plena Floresta Amazônica, lutando contra lendárias mulheres guerreiras! Em busca do fabuloso Eldorado, atingiria a encantada lagoa de Guatavitá, na Colômbia, ou procuraria em vão a Fonte da Juventude, na Flórida. Talvez descesse ao extremo meridional do continente, atraído pelas riquezas que diziam existir no Rio da Prata.

Poucos povos têm uma história tão fantástica quando a do Novo Mundo. Aqui desenvolveram-se sociedades indígenas que rivalizavam com as antigas civilizações do Egito, da Índia e da China: os astecas, os incas e os maias. Como aconteceu com os conquistadores espanhóis, você certamente se surpreenderia com o elevado grau de cultura desses povos, e provavelmente também se horrorizaria com os seus costumes e sacrifícios religiosos, considerados bárbaros pelos europeus, que, no entanto, não hesitavam em cometer as maiores atrocidades.

Os conquistadores estavam sequiosos de puro e de outras riquezas metálicas, atendendo às suas ambições pessoais e aos interesses da política mercantilista da Coroa espanhola. Revolveram as montanhas do México, do Peru e da Bolívia em busca dos metais preciosos, e encontraram muito ouro e prata. Arrasaram as antigas cidades, templos e monumentos e, em seu lugar, ergueram novas cidades, nos moldes europeus.

Cumpria-se a antiga profecia indígena:

"Um dia virão homens brancos do Leste, com barbas compridas e trarão desgraça."

Com a destruição física e cultural das sociedades indígenas, teve início a Colonização espanhola, que se estenderia por mais de três séculos. A América Espanhola atraía cada vez mais aventureiros, sobretudo por causa das minas de ouro e prata. Não tardou que a mão-de-obra indígena empregada no trabalho minerador e na agricultura fosse reduzida a um regime de servidão coletiva.

O controle da metrópole espanhola era rígido, utilizando o sistema das frotas anuais e dos portos exclusivos. Apesar disso, o contrabando era prática regular, assim como eram frequentes os ataques de piratas e corsários, entre eles o famoso Francis Drake, aos galeões espanhóis carregados de metais preciosos.

Um século depois de descobertas, as minas já apresentavam sinais de esgotamento. Nas áreas onde não havia metais preciosos, organizaram-se grandes plantações de produtos tropicais - cana-de-açúcar, tabaco - com mão-de-obra escrava constituída por negros africanos. O tráfico negreiro foi uma atividade muito lucrativa para os comerciantes europeus, apesar de quase metade dos negros embarcados morrer durante a viagem, devido às péssimas condições de travessia oceânica. Mesmo assim, os que aqui chegavam eram vendidos por preços tão altos que compensavam as perdas sofridas.

Vamos usar novamente a imaginação? Tente agora ver-se como um austero puritano (adepto do Calvinismo), nascido na Inglaterra do século XVII e perseguido pela intolerância religiosa dos Reis da dinastia Stuart. Você, provavelmente, seria um dos Pilgrim Fathers (Pais Peregrinos), fundadores de Plymouth, uma das primeiras colônias inglesas da América do Norte.

Já pensou como teria sido a acidentada viagem ao Novo Mundo? Você cruzaria o Atlântico a bordo do Mayflower, durante quatro a seis semanas, enfrentando tempestades e toda sorte de desconfortos, até alcançar o litoral americano e poder dizer, como um cronista da época:

"O ar a 12 léguas de distância tinha a fragrância de um jardim florido."

Além dos puritanos, membros de outros credos religiosos, como os quakers, presbiterianos e católicos, também se dirigiram à América. A Inglaterra vivia então um período de grande instabilidade social. Artesãos que não encontravam condições de sobrevivência, pessoas desempregadas e camponeses expulsos de suas terras pelos criadores de carneiros esperavam encontrar no novo continente melhores oportunidades.

Como o governo inglês não patrocinou a emigração para a América, essa iniciativa coube a particulares - Proprietários e Companhias de Comércio. Porém, a maior parte dos que cruzaram o oceano não dispunha de recursos para o custeio da viagem. Se você fosse um deles, para viajar com a sua família teria de assinar um contrato de trabalho por um prazo determinado, sem receber qualquer salário, findo o qual a dívida da passagem e da manutenção estaria paga. Era a chamada servidão por dívidas.

Embora os ingleses constituíssem a maioria, também irlandeses, escoceses, suecos, holandeses, franceses vieram para a América do Norte.

"Afinal de contas as terras eram dos indígenas que, não sendo cristãos, podiam ser expropriados, sem que isso fosse considerado pecado..."

A característica dominante do desenvolvimento das colônias inglesas foi a falta de controle efetivo por parte do governo inglês - a chamada Negligência Salutar -, contrariamente ao que ocorreu na América Espanhola. Com exceção das colônias inglesas do Sul, as demais seguiram sua evolução econômica e desfrutaram de consideráveis liberdades políticas. Quando, no século XVIII, essa situação se modificou, devido à intensificação do Pacto Colonial, os colonos se revoltaram e pegaram em armas contra a metrópole.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: As sociedades Americanas e a Europa na Época Moderna. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990. p. 70-2.

sábado, 4 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 4

[Consequências das iniciativas colonizadoras]


Vista de Sevilha, porta de entrada das Índias, ca. 1576-1600. Alonso Sánchez Coello

Assim que, a partir do século XVI, foram-se desenvolvendo as iniciativas colonizadoras de várias nações europeias, grandes transformações políticas, econômicas, sociais e culturais processaram-se na Europa. Ao mesmo tempo o eixo do comércio deslocou-se dos portos do Mediterrâneo para os do Atlântico. Em Lisboa, Sevilha, Cádiz os produtos e mercadorias coloniais eram comerciados e seguiam para os portos de Antuérpia, principal praça de mercado, Amsterdã, Bordeaux, Londres.

A enorme quantidade de ouro e de prata, introduzida na Europa pelos espanhóis, deu larga projeção política à Espanha permitindo-lhe durante um século custear guerras e comprar alianças com outros países.

Entretanto, começaram a esboçar-se acentuadas rivalidades entre as nações colonizadoras que resultariam em uma série de conflitos internacionais. Por outro lado, a grande quantidade de ouro e de prata derramando-se por toda a Europa provocou importantes modificações econômicas: a cunhagem de moedas, em larga escala, acarretou a desvalorização do dinheiro e uma assustadora alta de preços, particularmente dos produtos agrícolas.

A alta de preços* prejudicou sobretudo os nobres que, participando de questões e conflitos políticos, não controlavam a produção de suas terras; prejudicou também os trabalhadores do campo e da cidade cujos salários não acompanhavam o custo de vida. Beneficiaram-se todos aqueles que produziam, trocavam ou vendiam: os grandes proprietários de terras, os mestres-artesãos, os banqueiros, os comerciantes, isto é, a burguesia.

* A causa principal, quase única, da alta dos preços (que ninguém até agora mencionou) é a abundância do ouro e da prata existente hoje em dia neste reino em escala bem maior do que há quatrocentos anos.

Mas, diria alguém, de onde pode ter vindo, desde então, assim tanto ouro e tanta prata? [...] Os castelhanos, submetendo ao seu poder as novas terras ricas em ouro e prata, abarrotam a Espanha.

Ora, a Espanha que só vive graças à França, vendo-se inevitavelmente forçadas a vir buscar aqui cereais, linhos, tecidos, papel, corantes, livros, artefatos de madeira e todos os tipos de manufaturas, vai procurar para nós, nos confins do mundo, o ouro e a prata. (Jean Bodin, Da República)

Paralelamente a essas transformações econômicas e sociais, a Europa enriqueceu-se culturalmente, ampliando seus conhecimentos a respeito de astros, continentes, plantas até então desconhecidas vindas da América, a respeito de raças humanas e de civilizações até então ignoradas.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 188-9.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 3

[A colonização europeia do continente americano]


Carta geográfica da Nova França, 1612, Samuel de Champlain 

Foi nas Américas que a iniciativa colonizadora dos europeus tomou maior impulso. As riquezas procuradas nas Índias e finalmente descobertas no novo continente atraíram a Europa cada vez mais para as terras do Atlântico.

Franceses
Na América do Norte ocupam, no início do século XVII, regiões do atual Canadá. Posteriormente fundam Québec (1608) e Montreal (1642). Em meados do século XVII expandem-se em direção ao sul dos atuais EUA, descendo o rio Mississipi até o Golfo do México; fundam a colônia da Luisiana, em homenagem a Luís XIII, rei da França, e a cidade de Nova Orléans (1731).

Na América Central estabelecem-se, a partir dos meados do século XVII, nas Antilhas (atuais Haiti, República Dominicana, Guadalupe, Martinica e em outras pequenas ilhas).

Na América do Sul um grupo de protestantes franceses, fugindo a perseguições religiosas em seu país, tentam, sem êxito, estabelecer-se no Brasil fundando a França Antártica (1555) na Ilha de Villegaignon, na baía de Guanabara. Outro grupo análogo funda (1612), no Estado do Maranhão, a França Equinocial, na ilha que batizaram de São Luís em honra ao rei Luís XIII. Expulsos do Brasil, fixam-se na atual Guiana Francesa, fundando Caiena.

Na América do Norte, no Canadá, incorporando à Coroa com o nome de Nova França, exploram intenso comércio de peles, a caça, a pecuária, a agricultura produzindo trigo e forragem (cereais) e gramíneas para alimentação de animais. Na Luisiana cultivam arroz e tabaco.

Nas Antilhas cultivam tabaco, cana-de-açúcar, algodão, em seguida café, cacau, anileira (para produção de substância corante), servindo-se, como na Luisiana, do trabalho de escravos africanos. O comércio de produtos coloniais era monopólio de portos franceses do Atlântico (Ruão, Nantes, La Rochelle e Bordeaux).

Ingleses
Na América do Norte fundam (1584) a primeira colônia que recebeu o nome de Virgínia em honra à rainha Elisabete I, cognominada a Rainha-Virgem.

Um grupo de protestantes ingleses, chamados puritanos, fugindo a perseguições religiosas em seu país, emigram para o continente americano fundando Plymouth e a colônia de Massachusetts. Sucedem-se vários grupos colonizadores, de católicos e de protestantes, dando origem a novas colônias, as quais se agrupam em uma confederação. Até meados do século XVIII a confederação englobava 13 colônias, controladas pela Coroa, mas com certa autonomia local. No século XVIII, como ocorreu na Ásia, os ingleses entram em choque com os colonos franceses e a França é obrigada a renunciar a suas pretensões na América do Norte.

Na América Central tomam pé, até o século XVIII, nas Antilhas ocupando Barbados, as Bahamas, as Bermudas, Jamaica, Antígua e outras.

Na América do Sul estabelecem-se no século XVIII nas Guianas.

Na América do Norte, nas colônias setentrionais (New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island, Connecticut) desenvolvem, em pequenas propriedades, culturas várias (milho, trigo, legumes, macieiras). Dedicam-se à criação de gado, à pesca, à extração de madeiras, à produção de peixe salgado, carne-seca e rum. Nas colônias do centro (Nova York, New Jersey, Pennsylvania, Delaware) desenvolvem, em pequenas e grandes propriedades, o cultivo do trigo, a produção de farinhas, a extração de madeiras, a construção de navios. Nesta região estabelecem-se os comerciantes. Nas colônias do sul (Maryland, Virgínia. Carolina do Sul, Carolina do Norte, Geórgia) domina a grande propriedade, em base de trabalho escravo. Cultivam-se o tabaco, o arroz, mais tarde o algodão (séc. XVIII), e cria-se gado.

Nas Antilhas, com o concurso da mão-de-obra africana, desenvolvem as lavouras de cana-de-açúcar e mantêm intenso comércio com a América espanhola e suas próprias colônias na América do Norte.

Holandeses
Na América do Norte um grupo de protestantes, fugindo a perseguições religiosas nos Países Baixos, funda (1623) o núcleo de Nova Amsterdã (origem de Nova York), que perdem, logo depois (1664), para os ingleses.

Na América Central estabelecem-se nas Antilhas, na Ilha de Curaçao e em outras menores.

Na América do Sul, através da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, tentam estabelecer-se no nordeste do Brasil, antes na Bahia (1624), depois em Pernambuco (1630), onde fundam a colônia da Nova Holanda, de onde são expulsos em 1654. Os holandeses conseguem fixar-se nas Guianas (séc. XVII).

A base da economia holandesa era a cana-de-açúcar, cultura desenvolvida nas Antilhas.

Espanhóis
Na América do Norte, a partir da conquista de Cortés no México, penetram no século XVI em vastas zonas do sul e sudoeste dos atuais EUA (Califórnia, Novo México, Texas, Flórida), formando o Vice-Reinado da Nova Espanha, com capital Cidade do México.

Na América Central ocupam (séc. XVI) praticamente toda a área do continente, dominam nas Antilhas Cuba, Porto Rico, Trinidad e Jamaica (esta última perdida para os ingleses no séc. XVII).

Na América do Sul, a partir da conquista de Pizarro no Peru, ocupam todas as terras ao longo do Oceano Pacífico (à exceção da Patagônia), formando o Vice-Reinado do Peru, compreendendo territórios dos atuais Peru, Bolívia e Chile, com capital em Lima. No século XVIII criam o Vice-Reinado de Nova Granada, compreendendo territórios dos atuais Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá, com capital Bogotá. Estabelecem-se em regiões dos atuais Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, formando o Vice-Reinado do Prata, com capital Buenos Aires.

A penetração do continente americano foi estimulada pela busca e exploração de jazidas de ouro e de prata. Já a partir do século XVI exploram em larga escala as minas de ouro do México e as de prata de Potosí (na atual Bolívia). Na região dos pampas argentinos introduzem o gado bovino e ovino (carneiros), desenvolvendo o comércio de lã e de couro. Desenvolvem também a agricultura explorando plantas nativas (tabaco, milho, mandioca, algodão) e outras provenientes da Europa (limoeiro, laranjeira, vinha, trigo, cânhamo) ou do Oriente (amoreira, cana-de-açúcar, cafeeiro).

Portugueses
Na América do Sul possuem regiões do atual Brasil, com Salvador como capital. Até o fim do século XVIII ultrapassam a linha de Tordesilhas, penetram e ocupam vastos territórios, dando à colônia uma forma geográfica que correspondia aproximadamente à forma do Brasil atual, transferindo a capital para o Rio de Janeiro.

A base da economia portuguesa era essencialmente agrícola. De início a extração da madeira pau-brasil, em seguida o plantio intensivo da cana-de-açúcar. Desenvolvem o cultivo de plantas nativas (milho, mandioca, tabaco, algodão, cacau, baunilha, canela); introduzem o arroz e o linho. Desenvolvem também, a partir do século XVI, a criação de gado bovino e cavalar em várias regiões de sua colônia; iniciam o comércio de couros. No século XVII descobrem e exploram jazidas de ouro (no atual Estado de Minas Gerais) e de diamantes (nos atuais Estados de Goiás e de Mato Grosso).

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 186-188.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 2

[Núcleos europeus no continente asiático]


Vista de Goa em 1509. Atlas Braun e Hogenberg, 1600 

A rota marítima para as Índias, aberta pelos portugueses, e seus vários entrepostos instalados em terras asiáticas, atraíram para o Extremo Oriente outros povos europeus. Primeiramente os holandeses, depois os ingleses e franceses retomaram as rotas portuguesas. A penetração colonizadora inglesa conseguiu impor-se à francesa lançando, até o fim do século XVIII, a base de um futuro império colonial na Índia.


Portugueses
Controlam, até o século XVII, o comércio das Índias Orientais através de entrepostos em Málaca, Java, Sumatra, nas Molucas, da possessão de Macau, das fortalezas de Goa e Diu.

Holandeses
Fundam a Companhia Holandesa das Índias Orientais (início do século XVII). Ocupam Java, fundando Batávia; abrem entrepostos nas Molucas, Célebes, em Sumatra, Málaca, na China e no Japão; ocupam Ceilão, isto é, estabelecem-se nas mesmas regiões em que se achavam os portugueses.

Ingleses
Confiam a iniciativa colonizadora a companhias particulares, controladas pela coroa, como a Companhia Inglesa das Índias Orientais (início do século XVII). Impõem-se na Índia, em Calcutá, Bombaim, Madras e, no fim do século XVIII, entram em conflito com os franceses.

Franceses
Fundam, em meados do século XVII, a Companhia Francesa das Índias; estabelecem entrepostos no Oceano Índico, nas ilhas Bourbon e Maurício; adquirem o território indiano de Pondichéry; abrem entrepostos em vários pontos da costa indiana. Em fins do século XVIII, após disputa com os ingleses, renunciam a maiores pretensões na Índia.

Espanhóis
Ampliam sua iniciativa colonizadora nas Ilhas Filipinas.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 185.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 1

[Os primeiros europeus no continente africano]


Mapa do século XVI mostrando as reivindicações portuguesas para a Guiné e São Jorge da Mina. Cartógrafo desconhecido

Aos descobrimentos geográficos do século XV, que revelaram à Europa novas rotas marítimas*, novas terras, seguiu-se, até o século XVIII, uma vasta iniciativa de penetração colonizadora da qual participaram, por motivos econômicos e políticos, todos os grandes Estados europeus.

* O tráfico do Poente (o oeste, o Atlântico) era totalmente desconhecido antes de os espanhóis terem velejado os mares das Índias [...] e de os portugueses, singrando o alto-mar com a bússola, terem-se tornado donos do Golfo Pérsico e, em parte, do Mar Vermelho, e conseguido assim carregar suas naus com as riquezas das Índias e da Arábia vicejante, frustrando os venezianos e os genoveses que iam buscar suas mercadorias no Egito e na Síria, até onde eram trazidas pelas caravanas árabes e persas e vendidas a nós parceladamente e a peso de ouro. (Jean Bodin, Da República)

A penetração tinha como finalidade explorar riquezas minerais, aproveitar riquezas vegetais e estabelecer núcleos europeus em outros continentes. [...] esta iniciativa das nações europeias trouxe enorme transformação econômica e permitiu, alguns séculos mais tarde, o aparecimento, no cenário mundial, de novos países os quais passariam a disputar, com a Europa, a supremacia econômica e política.

As escalas marítimas dos portugueses, ao longo de toda a costa africana, despertaram o interesse dos holandeses e franceses. Enquanto estes se limitaram inicialmente a estabelecer entrepostos comerciais, os portugueses passaram à exploração do comércio escravista, aproveitando-se de um costume já existente entre algumas tribos africanas. O tráfico de escravos, que os árabes já haviam desenvolvido, intensificaram-se a partir do século XVI promovido pelos portugueses e, em seguida, pelos ingleses que se encarregaram de introduzi-los em suas colônias nas Américas. Os espanhóis, embora não participando diretamente do tráfico, compraram a ingleses e portugueses os escravos que introduziram em suas colônias americanas.

Portugueses
Mantêm entrepostos comerciais na Ilha de Zanzibar e em Moçambique, onde iniciam a exploração de jazidas minerais. No século XVII fundam a colônia de Angola.

Holandeses
Estabelecem escalas para seus navios mercantes, fundam em meados do século XVII a colônia do Cabo.

Franceses
No século XVII abrem entrepostos na desembocadura do rio Senegal e na Ilha de Madagascar.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 184.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Saberes milenares: o peso da herança indígena na sociedade brasileira

Cabeça de índio, Henrique Bernardelli

O português que veio ao Brasil era um lavrador desvinculado de suas raízes. Deixara na aldeia europeia seus campos de cultura e seus rebanhos, a família e a comunidade, cujo consenso lhe pautava a vida. Nenhuma lealdade o ligava  à nova terra. Vivia como um estranho junto a um povo com que não se identificava e diante do qual não se sentia moralmente obrigado, senão quando compelido por uma força externa, como a Igreja ou o Estado. A distância cultural que separava o colonizador do habitante nativo era imensa. No Brasil não encontrou nenhum dos frutos que conhecia, nenhum animal doméstico a que estava habituado. As técnicas de cultivo da terra a que estava afeito não se aplicavam à floresta tropical.

A superioridade numérica do índio em relação aos minguados contingentes que vinham nas caravelas era avassaladora. Assim, apesar de toda a sua potência guerreira e técnica, os colonialistas tiveram de aprender com eles a viver nos trópicos, a cultivar seus frutos, a comer suas raízes e paulatinamente a criar nichos que começaram a atuar sobre os índios em torno. A esse processo de chamou a tupinização do português no Brasil, por ser a etnia Tupi a prevalecente no litoral, à época da descoberta.

Meio século depois, já se tinham formado na costa alguns núcleos de população que representavam uma primeira combinação, ainda que desordenada, de uma cultura europeia com uma cultura tribal. Na concepção de Darcy Ribeiro, seriam a “protocélula da etnia brasileira”, que conformariam o que se chama hoje “a cultura rústica brasileira”.

As aldeias da costa, que serviam de feitorias para dirigir o comércio do pau-brasil, tiravam sua subsistência por métodos antes desconhecidos ao europeu, falavam uma língua indígena, o Tupi, e viam o mundo com olhos diversos. Estes núcleos que se uniram primeiro pelo mar, como se fossem ilhas, depois por terra, é que viriam a constituir o Brasil. Já continham os traços essenciais que caracterizariam o perfil do povo brasileiro: não eram europeus e não eram índios. Aquelas protocélulas tinham a solução de sobrevivência do europeu no trópico: produziam um produto de exportação, o pau-brasil, que lhes garantiria as mercadorias europeias de que necessitavam e da própria terra retiravam as fontes de subsistência.

Já nessa fase, o índio era compelido, cada vez mais, a servir como mão de obra escrava à sociedade de cujos ideais não participava. Até que se tornou obstáculo, porque reteve terras que eram cobiçadas, porque sua hostilidade punha em perigo a vida do invasor e porque a necessidade crescente do escravo e do guerreiro levava o colono a um depoimento cada vez mais exacerbado. A inadaptação do índio ao regime de vida e de trabalho do engenho canavieiro obrigou ao afluxo do escravo negro, dando nova dimensão às “protocélulas” iniciais. Segundo Darcy Ribeiro:

“Os conformadores fundamentais destes núcleos foram a escravidão, como forma de contingenciamento da mão de obra e o sistema de fazendas, em que cada novo núcleo foi estruturado.”

A história do Brasil será daí por diante a aventura desses núcleos pioneiros da Bahia, de Pernambuco, do Rio de Janeiro e de São Paulo em sua luta para não indianizar-se ao mesmo tempo em que se armavam de preconceitos contra os índios.

Dentre os muitos legados indígenas à sociedade que foi constituída em seu território, o mais importante foi, sem dúvida, o do seu sangue e genes. Desde a primeira hora, a mulher indígena foi o ventre em que se gerou a população que ocuparia o imenso território conquistado. Diogo Álvares, ou Caramuru, na Bahia, João Ramalho, em São Vicente, mais tarde, Jerônimo de Albuquerque, ele próprio um “meio-sangue”, em Pernambuco, passaram à história como alguns dos muitos exemplos de uniões poligâmicas de que resultaram os primeiros mamelucos, filhos de pais portugueses e índias. Mamelucos esses que, embora falando a língua materna, alimentando-se da mesma forma que seus antepassados aborígenes, identificavam-se ideologicamente com o pai.

Sinal de batalha de índios Botocudos (Bororos), Jean-Baptiste Debret

As expedições de caça ao índio e de procura do ouro, empreendidos pelos paulistas, eram compostas, em sua maioria, por mamelucos e índios recrutados nas aldeias missionárias. Durante muito tempo, paulista foi sinônimo de mameluco. Mamelucos foram os mais notáveis bandeirantes, como Domingos Jorge Velho, destruidor de Palmares que, para parlamentar com o bispo de Pernambuco, em 1697, precisou levar intérprete. Sérgio Buarque de Holanda, a quem devemos essa informação, menciona alcunhas de paulistas ilustres de origem Tupi, sustentando que

“Sinal, talvez, de que ainda em pleno Setecentos persistia, ao menos em determinadas camadas do povo, o uso da chamada língua da terra.”

Até o século XVIII, segundo o mesmo autor, nas capitanias onde atuaram os jesuítas (São Paulo, Rio Grande do Sul, Pará, Amazonas), a língua da terra predominava sobre o português, principalmente no âmbito familiar, na proporção de três falantes para um. Em São Paulo, os velhos ainda se expressavam em língua geral no começo do século XIX, como notou Hércules Florence, e no rio Negro isso ocorre até hoje.

Mais tarde, a composição da população se modificou. Chegaram mulheres brancas, acirrando-se o preconceito contra a nativa. As uniões regulares, antes incentivadas pela legislação colonial, foram sendo desmerecidas, estancando a entrada de genes indígenas. Já então o português podia prescindir do índio porque tirara dele o fundamental: a fórmula de sobreviver nos trópicos, a aprendizagem de seu método de plantio e as próprias plantas que cultivava, bem como a forma de prepará-las e consumi-las. Também obtivera dele a força de trabalho como escravo, substituído pelo negro nos empreendimentos mais lucrativos; sua combatividade de guerreiro para defendê-lo contra grupos hostis e o invasor estrangeiro; os seus conhecimentos da terra, como guia e como geógrafo. E da mulher indígena, a sensualidade, a servilidade e a fecundidade.

Em razão da ampla extensão territorial em que se implantou a tradição cultural Tupi-guarani – que aproximadamente corresponde ao traçado do mapa do Brasil – foi possível imprimir um perfil uniforme à sociedade brasileira.

Sinal de retirada de índios Botocudos (Bororos), Jean-Baptiste Debret

De então até nossos dias, esse, lastro aborígene da cultura brasileira, sobretudo de base Tupi-guarani, conserva-se em grande parte do Brasil interiorano. Isso pode ser observado pela facilidade com que o sertanejo nordestino, o caiçara paulista, ou, mais propriamente, o caboclo amazônico encontram elementos culturais que lhes são familiares num contexto tribal. Para todos, a base da alimentação é a farinha de mandioca, cultivada e preparada pelos mesmos processos. Na casa indígena encontram vários utensílios domésticos que lhes são familiares, chamados pelos mesmos nomes: o tipiti para espremer o sumo da mandioca brava, o pilão, o ralador, a peneira, os balaios, os abanos, as esteiras trançadas de palha; os jacás, samburás, jamaxis, aturas, para trazer peixe, castanha ou produtos da roça. Reconhecem inúmeros implementos de pesca: o pari, que é a barragem para fechar o igarapé e atrapar o peixe; o juquiá ou covo, que é a armadilha crônica; cacuri, curral para peixe, tracajá ou tartaruga; o puçá, a tarrafa e o jererê, espécies de redes; a pesca com linha e anzol (hoje de aço, antes de fisga de osso) e pelo envenenamento dos peixes com certas folhas saporáceas, como o timbó. Do mesmo modo, são familiares ao caboclo e ao sertanejo certos tipos de embarcação como a ubá escavada em tronco de árvore a fogo; instrumentos de música, como o berimbau; armadilhas de caça, como o mundéu ou o alçapão para quadrúpedes e a arapuca para a caça de passarinhos; utensílios de mesa e de cozinha, como o porongo, a cuia, a gamela, o pote e a panela de barro. E, ainda, inúmeros pratos e quitutes como o mingau, o beiju, o chibé (farinha de mandioca misturada com água e às vezes temperada com fruta), a papa, a tapioca, a paçoca de peixe ou de carne com farinha, carne ou peixe assados no moquém, a muqueca, a quinhapira (molho de carne ou peixe com pimenta-da-terra), a mujeca (pirão de caldo de peixe, com farinha), a saúva ou içá moqueada, o tucupi (molho do sumo da mandioca-brava cozido), a bebida de guaraná, no Norte, a de erva-mate no Sul, o caxixi, “vinho” de mandioca fermentada e de frutas e tantos outros.

Uns e outros utilizam os mesmos produtos da indústria extrativa, como o breu, a almecega, a imburana e outras gomas; plantas tintoriais, como o pau-brasil, o jenipapo, o urucum; diversas fibras têxteis, entre as quais o caroá, o caraguatá, o tucum, o algodão; materiais de construção, como o sapé, o cipó, as folhas e os troncos de palmeiras; e um sem-número de ervas medicinais para pajelança e “mezinhas”.

Além desses elementos, o caboclo identificará vários outros, como a rede de dormir, os bancos, o fumo. Verificará que são comuns a índios e caboclos certos hábitos, como o de tomar banho diário de rio, andar descalço, descansar de cócoras. Chamará pelos mesmos nomes várias plantas, animais, acidentes geográficos e topônimos; temerá os mesmos duendes, utilizando fórmulas comuns para controlar aqueles seres sobrenaturais. Desse modo, índios e interioranos encontram formas de entendimento que vêm do início de nossa formação.

O peso da herança indígena pode ser aquilatado no retrato que faz José Veríssimo dos modos de vida e do sistema adaptativo do caboclo amazônico:

“A casa em que vive aquela gente é pouco mais que a palhoça do antigo bárbaro. Fincam no solo alguns esteios brutos (sem falquejo); os dois da frente ou do meio mais altos de modo a que o teto fique inclinado; apóiam sobre esses esteios algumas varas e sobre estas vão estendendo folhas de palmeiras atadas com cipós. Em regra, tais cabanas só têm duas portas, a da frente e a do fundo. Cercam o exíguo recinto com tapumes de jissaras partidas, cobertas às vezes de barro. Quase sempre há uma única divisão: a que serve de dormitório para o chefe da família. O mais é aberto, tendo no centro a lareira, onde nunca se deixa apagar o fogo. Por cima, chegado ao teto, está o jirau, como nas tendas do índio é a despensa da família. No interior destas cabanas, um ou outro móvel se encontrará mais que aqueles mesmo de que usava o antigo selvagem: balaios, esteira de piri, cuias, vasos de argila, redes ou macas de cipó etc. – tudo refletindo muito mal disfarçada a vida do aborígene. Nessas palhoças, o modo de viver, as relações de família, a economia, o regime doméstico – tudo pouco difere do que se observava na taba do selvagem. O homem come de cócoras como o índio ainda comia; cura-se dos males que o assaltam pelos mesmos primitivos processos; anda sempre descalço; quando viaja com a família, vai sempre adiante; caça, pesca como pescava e caçava o silvícola há quatrocentos anos, tendo demais apenas os petrechos e artifícios que a conquista introduziu; as embarcações de que se serve, nos rios e nas baías; o modo de preparar o roçado e de fazer o plantio; o fabrico de farinha, a moqueação de peixe, etc. – tudo acusa de modo flagrante que no homem simples do sítio, mais ou menos isolado da civilização, subsiste mais ou menos fielmente o que havia de mais ponderoso nas raças nativas.”

Do indígena aproveitou a colonização europeia a técnica de coivara (clarear os campos a fogo), que até hoje não foi substituída por processos mais modernos, constituindo-se numa prática sumamente nociva à economia agrícola. Enquanto o indígena utilizava essa técnica para limpar um pequeno trato de terra, extinguindo, pelo fogo, as pragas, os insetos daninhos e a vegetação rasteira, que à falta de enxada e outros instrumentos de ferro não poderia extirpar, o latifundiário aplica a mesma técnica para fazer extensas plantações agrícolas ou pecuárias. As grandes queimadas inutilizam madeiras preciosas e a terra desprotegida de vegetação é lavada por chuvas e enxurradas, carreando todo o húmus vegetal para o fundo dos rios e lagos. Na Amazônia, as consequências desse desmatamento são muito mais graves. O solo fica exposto à forte insolação e ao peso das chuvas. A superfície endurece, anulando sua permeabilidade. Destrói-se toda matéria orgânica, deslizando os minerais solúveis para as camadas mais profundas da terra, onde não penetram as raízes.

A queima em pequena escala praticada pelo indígena e o apodrecimento de galhos e troncos, deixados sem queimar, devolvem ao solo nutrientes necessários para alimentar os brotos. O revolvimento da terra com arado e trator a danifica irremediavelmente, ao contrário do que ocorre quando o índio usa simplesmente uma estaca de cavar para a semeadura. O cultivo de espécies diversas favorece a recaptura parcial dos nutrientes e evita a propagação de pragas, como acontece nas plantações monoculturas.

Examinados todos os fatores que presidem a adaptação do índio ao ecossistema da Amazônia, a arqueóloga Betty Meggers, numa passagem de seu livro Amazônia, a ilusão de um paraíso, afirma:

“O ponto a ser acentuado aqui é que a agricultura itinerante não constitui um método de cultivo primitivo e incipiente, tratando-se, ao contrário, de uma técnica especializada que se desenvolveu em resposta às condições específicas de clima e solo tropicais”.

Como se vê, desconhecendo embora o uso de instrumentos de ferro, as técnicas agrícolas indígenas eram bastante eficientes e perfeitamente ajustadas às condições de seu meio ambiente. Baseavam-se, como ainda hoje, num saber milenar – o conhecimento objetivo da natureza e suas leis – advindo da observação e da experimentação.

RIBEIRO, Berta. O índio na história do Brasil. São Paulo: Global, 2011. p. 101-5.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Os caminhos da luxúria

Moema, Victor Meirelles

Já no primeiro documento escrito em terras brasileiras, o europeu não escondeu o espanto e o maravilhamento. Em sua carta ao rei, o escrivão Pero Vaz de Caminha registrou aqueles “corpos formosos” e moças “tão bem feitas [...] que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhes tais feições”, lhes faria vergonha “por não terem a sua como a dela”.

Mas um português daqueles tempos não poderia se limitar ao elogio da nudez. Pelo menos não numa carta do rei. Por isso, Caminha reagiu à tentação das índias tão bem feitas condenando a “falta de civilização” daqueles povos, apesar da “inocência” em mostrar as suas “vergonhas”. “O melhor fruto” que havia na nova terra, ele concluía, era “salvar esta gente”. Estava anunciada uma das funções da colonização: a imposição da fé católica. Mas este intuito oficial esbarraria em hábitos bem mais libertários, à medida que os colonos portugueses passaram a se relacionar com as índias.

Os jesuítas não demoraram a desconstruir a impressão inicial de Caminha, segundo a qual os indígenas seriam “folhas em branco” – prontos a receber e a aceitar o que os portugueses quisessem imprimir neles. Um dos empecilhos ao trabalho de catequização eram os costumes poligâmicos daquelas populações que muitas vezes incluíam casamentos entre chefes e as filhas de suas irmãs como suas principais esposas. Essas uniões simbolizavam a manutenção do poder de determinados clãs indígenas dentro das tribos, e eram tão importantes que os jesuítas pediram à Igreja Católica que permitisse a união entre tios e sobrinhos em alguns casos. Era uma forma de manter aqueles homens com apenas uma mulher (a mais importante), abrindo caminho para que aceitassem a monogamia – este sim, um princípio inegociável para os católicos.

Nos primeiros tempos, os próprios colonos utilizaram o casamento como meio de fortalecer as relações de poder, unindo-se às filhas dos homens mais respeitáveis das tribos. Exemplo desses pioneiros foi o lendário João Ramalho, um dos poucos portugueses que sobreviveram aos 30 primeiros anos de colonização. Ele havia deixado esposa em Portugal, mas não titubeou em casar-se com a filha do cacique Tibiriçá. Teve também outras mulheres e constitui uma grande prole, segundo relatou o Padre Manuel da Nóbrega (1517-1570). Seguia os costumes indígenas, andando nu e mantendo relações sexuais com várias índias, o que era compreensível dentro da dinâmica da manutenção do poder das tribos. Outros colonos viviam comportamentos semelhantes. Embora ilícitas, as relações esporádicas eram alternativas atraentes para a população colonial em geral, principalmente entre casais mistos (escravos e livres), porque havia menos interferência dos senhores neste tipo de relacionamento e, portanto, mais liberdade para os cativos fugirem das rédeas do poder senhorial.

Pode-se imaginar a desaprovação da Igreja a esse estado de coisas. No século XVI, a Europa impunha-se uma vida regrada sob os poderes religiosos e laico, na qual os desejos deveriam ser refreados pela manutenção de regras de civilidade. Em relação aos hábitos das populações da colônia, valia a máxima de São Tomás de Aquino: era preciso ordenar “paixões e coitos” a fim de manter um equilíbrio indispensável para a conservação da espécie humana.

Na vila de São Paulo, os jesuítas não deixaram de observar – e de se escandalizar – com as relações temporárias e poligâmicas. Além do esforço em batizar e catequizar os indígenas, eles se dedicaram a converter as uniões informais ao matrimônio católico, nem sempre com sucesso. Mesmo sob a vigilância da Igreja Católica e da Inquisição, e sujeitos a sofrerem punições por seu comportamento, João Ramalho e muitos outros continuaram a viver com as índias. Cumpriam o importante papel de povoar um território ainda incipiente em nome da Coroa.

Curioso é que muitos dos primeiros colonos eram degredados por força da Inquisição: haviam sido condenados e enviados à nova terra para purificar seus pecados. Pior do que o degredo para o Brasil, só mesmo a pena de morte. Era um programa de salvação das almas, mas com o risco de que os condenados, em vez de se redimirem, acabassem difundindo suas más práticas e desvios no Novo Mundo. Muitos degredados caíram novamente nas malhas da Inquisição, quando houve a Primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil, no final do século XVI (1591-1595). Entre eles, portugueses que se haviam amancebado com índias.

A violência da catequese jesuíta fazia parte da cartilha do colonialismo moderno. Os índios eram vistos como inferiores, demonizados, forçados a abandonar seus costumes. Seu mundo era desprezado, vigiado e punido pela contrarreforma europeia. “O pecado estava em todas as gentes e lugares”, em “ameríndios luxuriosos, colonos insaciáveis [...] senhores desregrados”, escreve Ronaldo Vainfas em Trópicos do pecado (2010). Os pecados relativos à sexualidade estavam presentes entre os mais perseguidos nas confissões, com a Inquisição buscando relatos minuciosos sobre a realização do “ato carnal” em suas mais variadas formas. Estavam em jogo relações de poder, com a Igreja Católica demonstrando sua supremacia e sua influência junto aos poderes do Estado. Contenção, ameaça e castigo eram as bases dessa política – um lógica bem distante do que viviam, na prática, colonos e escravos, portugueses e índios.

A legislação régia reforçava a necessidade de punição para os crimes sexuais, no sentido religioso do termo. O livro V das Ordenações Filipinas (1604) que incluía legislações de períodos anteriores, previa punições para os que cometessem “pecado de sodomia” (sexo anal), o “cristão que dormisse com infiel” (judeus, muçulmanos ou outros “não católicos”), aqueles, incluindo padres, que entrassem “em mosteiro” e tirassem “freira para dormir com ela”, e os que dormissem com suas parentas, com mulheres casadas, virgens, viúvas honestas, além dos bígamos, entre outros casos. As punições variavam: confisco de bens ou sua perda total, tortura até a morte, prisão, degredo ou queima, até os culpados serem “feitos por fogo em pó”. Mas tudo dependia da condição social dos envolvidos.

O sexo com escravas índias ou negras e com prostitutas era até permitido, ou tolerado, em função da falta de mulheres brancas nas terras recém-conquistadas. As poucas que chegaram até o final do século XVI também ficaram sujeitas à Inquisição, e as confissões sobre os seus “ajuntamentos torpes” indicam pedidos de perdão e misericórdia por terem sido, na maioria dos casos, “falsamente” enganadas por pessoas que, na verdade, lhes queriam mal. A Igreja utilizava as confissões também para conseguir delações. Em 1591, Paula de Siqueira, casada, confessou suas culpas ao visitador da Inquisição Heitor Furtado de Mendonça, afirmando que recebera “cartas de amores e requebros” de outra mulher casada, tendo com ela “ajuntamento carnal [...] como se propriamente [fossem] homem e mulher”. A mulher era Filipa de Souza, que lhe contara, após beber muito vinho, ter “usado o dito pecado com muitas outras moças [...] e também dentro de um mosteiro, onde ela estivera”. Mosteiros e padres eram elementos comuns nas confissões.

Os padres responsáveis pelas paróquias do Império português zelavam pela vigilância dos costumes, mas nem sempre conseguiam escapar dos pecados que deviam combater. Foi o caso do vigário Frutuoso Álvares, de Matoim, no Recôncavo Baiano, que cometera “tocamentos desonestos com algumas 40 pessoas pouco mais ou menos”, o que escandalizou o visitador Heitor Furtado de Mendonça (c. 1550?).

Fosse como fosse, na sociedade colonial, o sexo era uma válvula de escape em resposta àquelas relações opressoras, ora para manter o poder, ora para libertar-se dele.

Milena Fernandes Maranhão. Os caminhos da luxúria. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8 / Nº 93 / Junho 2013. p. 18-20.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A criação de gado no Brasil colonial

Rancho dos tropeiros, Charles Landseer

“Eu venho desde menino
desde muito pequenino
cumprindo o belo destino
que me deu Nosso Senhor:
eu nasci para ser vaqueiro
sou mais feliz brasileiro
eu não invejo dinheiro
nem diploma de doutor...”

“O dono quer ver
a terra plantada
diz de mim que vou
pela grande estrada:
deixem-no morrer
não lhe dêem água
que ele é preguiçoso
e não planta nada!”

Aí estão alguns versos da música Sina, dos cearenses Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra, e de Plantador, do paraibano Geraldo Vandré. Percebemos que a situação do vaqueiro é retratada de uma forma totalmente diferente da do lavrador. Haveria uma explicação histórica para a felicidade do vaqueiro, tão contrastante com a vida do plantador?

Sabemos que a ocupação econômica do Brasil foi feita, principalmente, à base da agro-manufatura do açúcar. A força de trabalho que ampliava os canaviais e movimentava os engenhos era a do negro escravo. Trabalho pesado, obrigatório, sofrido e muito lucrativo para os donos das terras. Trabalho tão explorado que fez muito plantador sair pela “grande estrada”, em busca de coisa melhor.

Nas fazendas de açúcar havia criação de gado, necessário para a alimentação da população local e como força motriz. Com o tempo, esse “gado de quintal” foi considerado antieconômico: ele exigia pastos, tomando terras que poderiam ser muito mais rendosas se cobertas de canaviais. Os rebanhos cresciam, os lucros com a exportação do açúcar também.

[...]

Resistindo ao clima semi-árido, procurando os barreiros de sal, o gado desbravava o agreste e o sertão do Nordeste. Abria caminhos, que se tornaram importantes meios de comunicação na época, como os “Sertões de Fora”, que ligavam a região próxima a Salvador com as imediações de Fortaleza, sem se afastar demais do litoral.

A criação de gado nessa área está muito ligada ao extrativismo salineiro, desenvolvido principalmente no litoral do atual Rio Grande do Norte. O gado fez a prosperidade de Aracati, no litoral do Ceará, com a exportação, no século XVIII, da “carne-do-ceará”. Por sinal, foi um tropeiro cearense, José Pinto, que difundiu no extremo sul as técnicas de charquear a carne, no sal ou no sol.

As fazendas do interior da Bahia articulavam-se com a região maranhense próxima a São Luís, através dos “Sertões de Dentro”, cujos caminhos acompanhavam o curso do “rio dos Currais” – o São Francisco -, e, também, o Canindé, o Parnaíba e o Itapicuru.

Junto com o gado, o dono do gado. Surgiram as feiras. Elas e as muitas fazendas, também chamadas no Nordeste de “currais”, acabaram por dar origem a vários núcleos de povoamento, como Feira de Santana, na Bahia, Pastor Bons, no Maranhão, e Oeiras, antiga vila da Mocha, no Pará.

Como no litoral, certos homens poderosos, requerendo sesmarias ao rei, iam formando enormes propriedades sertanejas, de léguas e léguas [...]. Guimarães Rosa [...] ao percorrer as veredas do grande sertão, conta que “cada lugar é só de um grande senhor, com sua família geral, seus jagunços mil, ordeiros”.

Onde estaria a felicidade do vaqueiro, cantada por Fagner? Talvez no fato de ele se sentir mais livre que o “cabra do eito” – o trabalhador dos canaviais do litoral. Talvez no fato de ele quase nunca ser escravizado e nem sempre estar sob a vigilância do proprietário. Além disso, “depois de quatro ou cinco anos de serviço começava o vaqueiro a ser pago; de quatro crias cabia-lhe uma; podia assim fundar fazenda por sua conta”.

Tropa de mulas, Jean-Baptiste Debret

Uma fazenda não exigia mais que dez ou doze “fábricas” (vaqueiros). Sempre um se destacava, principalmente quando o proprietário não morava na fazenda. Este “chefe”, além de participar do produto, podia receber um pequeno lote de terra para produzir gêneros necessários à sobrevivência e um salário fixo anual.

Conduzindo os rebanhos, a vida do vaqueiro tinha características de seminomadismo. Claro está que para os descendentes dos indígenas essas tarefas estavam mais próximas do seu mundo: muitos deles eram boiadeiros.

No século XVIII, com a descoberta de ouro no centro da colônia, o gado vacum do Nordeste desce pelo curso dos rios São Francisco, Araguaia e Tocantins para a área do novo extrativismo. O gado ia realizando a integração de diferentes regiões econômicas por ser a única atividade do período voltada para o mercado interno.

A pecuária também reduziu as disputas dentro da própria classe dominante: os proprietários que não conseguiam manter os engenhos tornaram-se fazendeiros de gado.

Nesse processo pecuarista de colonização do sertão ocorrem novos choques com os nativos. Os derrotados são, mais uma vez, os donos naturais daquelas terras. Interiorizaram-se ainda mais, foram escravizados, refugiaram-se nas missões ou tornaram-se capangas dos novos poderosos da região. Em suma, poucos restaram como índios.

Tropeiros negociando um cavalo, Nicolas-Antoine Taunay 

A vida dos primeiros sertanejos era dura: fartura só de carne e leite. A matéria-prima principal para quase todos os utensílios era o couro: nas portas das cabanas, nos leitos, nas mochilas, nas cordas, nas roupas, nos carros de boi que puxavam material de aterro para os açudes, nos recipientes para carregar água, guardar comida ou pisar rapé.

[...]

No Sul, no planalto Meridional, os bandeirantes que arranhavam o litoral logo se estabeleceram, apresando o gado cimarrón – que se reproduzia naturalmente – depois de destruídas as missões dos jesuítas espanhóis. Descendo de São Vicente a Laguna, formam estâncias – sempre maiores que as três léguas de sesmarias estabelecidos por lei... – nos campos de Paranapanema, Curitiba, Guarapuava, Lajes, Viamão e Vacaria.

Descanso de tropeiros, Johann Moritz Rugendas

A mineração atrai as tropas de muares vindas do sul, que serão vendidas em Sorocaba, feira importante localizada no interior do atual Estado de São Paulo, de lá seguindo até as Gerais. Com a introdução do charque, segue também a carne desde Pelotas.

Na pecuária sulina os peões tinham uma vida difícil. Oprimidos por rígidos capatazes – como bem retrata a lenda do Negrinho do Pastoreio – esses índios de origem charrua ou minuana, mestiços ou escravos negros que tinham que estar sempre prontos para lutar pela conquista de novas terras – as “califórnias” – ou contra os ataques de espanhóis, contrabandistas e índios submetidos. Trabalho e guerra eram a tônica das vidas dos primeiros cavaleiros gaúchos.

Também no extremo norte a atividade criatória se desenvolveu, dirigida por jesuítas e mercedários. O gado da ilha de Marajó (o búfalo só foi introduzido em 1870, trocado por bovinos de corte com as Guianas) abastecia a população de Belém e o criado em Roraima sustentava o povoamento fronteiriço, sob constante ameaça de incursões holandesas. No século XVIII, com a expulsão da Companhia de Jesus e a extinção da Ordem de Nossa Senhora das Mercês, essas fazendas passaram para o controle do Estado, que as vendeu a particulares.

Atividade constante, voltada para o mercado interno, com enorme irradiação espacial, unindo diferentes áreas geo-econômicas e quase não utilizando o trabalhador escravo, a pecuária diferiu muito de outras atividades do período colonial.


ALENCAR, Francisco [et all]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 53-56.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O cotidiano nos centros urbanos no início da colonização portuguesa na América

Para além da fortaleza, matriz do núcleo populacional, outros edifícios eram necessários ao cotidiano dos colonos. Com traçados irregulares, herdados da tradição medieval - ao menos até que o barroco passasse a inspirar a planta das redes urbanas no século XVII -, as vilas e cidades tinham como um de seus principais edifícios as igrejas, os conventos e os colégios jesuítas. A espiritualidade individual, considerada essencial para um bom cristão, precisava ser reforçada através de práticas coletivas, em ambientes apropriados e sob as vistas da Igreja.

Sem contarem com saneamento básico, os portugueses no Brasil optaram por criar seus povoados em locais cujo relevo se dividia entre uma parte alta e outra baixa, para que a gravidade e a chuva dessem conta da limpeza das ruas. Salvador era assim, mas nem todos os locais tinham a mesma sorte com a geografia.

Ao lado dos edifícios públicos e administrativos, conviviam, nas regiões portuárias (a grande maioria das primeiras cidades foram fundadas em regiões litorâneas), armazéns e mercados de escravos. Apenas  as cidades maiores, como Salvador, possuíam hospitais e misericórdias para socorrer os doentes que vinham embarcados nas naus da Coroa.


Uma venda em Recife, Rugendas

A Câmara Municipal era um dos poucos edifícios públicos que realmente expressavam a gestão administrativa local. Depois de breve período em que foram nomeados pelos donatários, os vereadores passaram a ser eleitos localmente entre os súditos de cada cidade, acumulando as atribuições executiva, legislativa e judiciária.

O cargo de prefeito ainda não existia. Era o presidente da Câmara que tomava as decisões, que precisavam depois ser referendadas pelos demais vereadores. Ao redor da Câmara, gravitava uma série de funcionários públicos, ouvidores, membros da junta, escrivães, provedores, fiscais e intendentes, nomeados "por dedicação ao reino" e raramente por capacidade de trabalho.

As casas dos particulares, por sua vez, disputavam espaço com comércios, que, a cada dia, iam se instalando para dar conta da distribuição de produtos importados da Europa e mercadorias da terra.

A rede, Henry Alken

A maioria dos senhores de engenho mantinha uma casa na cidade mais próxima, a despeito de raramente a frequentarem, preferindo ficar a maior parte do tempo na sua casa-grande.

Inicialmente, os edifícios eram construídos com madeira e barro, de maneira muito semelhante à das casas de pau-a-pique existentes ainda hoje no interior do Nordeste, sempre térreas, com linhas rústicas e poucas divisões internas.

Conforme o material foi sendo gradualmente substituído pela alvenaria de pedra, as casas ganhavam pavimento superior e um maior número de cômodos, tentando manter-se sempre o ambiente arejado em meio ao clima quente.

Fossem de barro ou de pedra, a maioria das casas possuía terreiros, quintais e alpendres, os locais prediletos para "ver o dia passar", observando o vai-e-vem de pessoas e mercadorias pelas ruas.

A pouca inclinação ao trabalho duro por parte dos primeiros colonos que chegaram ao Brasil, somada à fartura de mão-de-obra escrava, primeiro indígena e depois africana, e à incorporação do hábito cultural de obtenção do mínimo necessário com a maior facilidade possível, forjou uma sociedade que valorizava o ócio. Aqui, o trabalho era considerado coisa de escravo.


Mulheres escravas, Carlos Julião

A maior parte da população não dispunha de recursos econômicos para mandar fazer móveis de madeira, tampouco sentia necessidade disso. No interior das casas, sendo os móveis escassos, grandes cômodos deixavam amplos espaços livres para que se sentasse no chão, sobre esteiras ou tapetes, um hábito corrente. A rede de dormir fazia as vezes de cama, enquanto caixas e canastras serviam para guardar as roupas, ficando alojadas em suportes e mesas, tipo cavalete. Mesas baixas, condizentes com a posição de sentar-se no chão, eram comuns.


Uma família brasileira no Rio de Janeiro, Jean-Baptiste Debret

Os cupins invadiam constantemente as casas para atacar móveis e madeiramento, estragando tudo pelo caminho, um motivo a mais para que bancos e catres fossem considerados objetos de luxo e distinção, presentes apenas nas casas dos mais ricos, que podiam substituí-los sempre que necessário.

Os colonos portugueses, nos primeiros tempos, comiam como os índios, em vasilhas de barro, usando uma técnica até hoje presente em muitos lugares Brasil afora conhecida como "comer de arremesso", a qual consiste em utilizar quatro dedos para pegar o alimento e levá-lo à boca, com enorme destreza, fazendo inveja aos franceses, que, quando tentavam imitá-los, acabavam sujando rosto, bochechas e barbas.

A mandioca era o principal alimento, por isso mesmo chamada pelos lusos de "pão da terra". A farinha de mandioca era consumida pura ou com carne, legumes e caldos, sendo transformada em pão, biscoito e mingau. Este último especialmente reservado a doentes e crianças. A mistura da mandioca ralada e espremida com um punhado de carimá, uma vez torrada em panelas de ferro, fornecia a chamada "farinha de guerra", mais um hábito da culinária indígena incorporado pelos lusos. Era usada nas viagens e expedições guerreiras, tornando-se, posteriormente, a principal ração dos bandeirantes.

Antes da introdução do feijão e do arroz no Brasil pelos portugueses, outros grãos acompanharam a mandioca à mesa. Um deles era o amendoim, cozido com a casca ou torrado sem ela. Era também aproveitado em doces e confeitos, substituindo as nozes e as castanhas das receitas europeias.

A caça ajudava igualmente a compor uma mesa farta, com capivaras, porcos-do-mato, veados, tatus, cotias e aves silvestres, além, é claro, da apreciada carne de anta. Juntava-se ao banquete a carne de peixe, como em Portugal, um dos alimentos mais populares entre os pobres. Pescados do mar e de água doce eram complementados por siris, mariscos, mexilhões e pelos caranguejos encontrados nos mangues.


Quitandeiras da Lapa, Henry Chamberlain

A enorme variedade de frutas de sabores considerados, então, exóticos também compunha o cardápio dos colonos portugueses: o caju, a banana, o mamão, a jaca, a jabuticaba, a laranja, o limão, o umbu e a predileta da época, o abacaxi, chamado de "ananás" pelos portugueses.

Ricas em vitaminas B e C, cuja carência, em Portugal e a bordo dos navios, fazia-se sentir intensamente, as frutas garantiam uma saúde em muitos aspectos melhor do que aquela observada entre a população do reino e de outras colônias.

Mesmo não possuindo saneamento básico, o fato de os moradores das cidades terem por hábito separar a latrina da casa contribuía para a não-difusão de doenças.

Para além de algumas doenças tropicais, uma das maiores preocupações no quesito saúde entre os lusos era o bicho-de-pé. Classificado pelos colonos como o inseto mais curioso, traiçoeiro e perigoso, o bicho-de-pé era muito temido. Desenvolvia-se nas casas térreas e quintais empoeirados, segundo os cronistas, atacando as pessoas pouco habituadas ao banho e à limpeza, podendo chegar ao extremo de provocar a amputação do pé a partir de sua infecção.

Mas o bicho-de-pé não era o único perigo a rondar os portugueses recém-chegados. Provocavam terror os vários tipos de cobra a rastejarem pelos matos, muitas das quais inadvertidamente invadiam as ruas das vilas. Eram sucuris, boiúnas e jibóias. Um perigo superdimensionado, já que raramente atacavam o homem.

Um foco real de temor eram as diversas espécies de onças negras, ruivas ou pintadas que atacavam desprevenidos, pulando das árvores e invadindo as casas em busca de alimentos. Só se detinham diante de manutenção constante de fogo aceso.

Muito mais perigosas que as formigas convencionais - que também invadiam as casas atrás de açúcar, mordendo as pessoas e causando queimaduras -, as saúvas não estavam presentes nas cidades, mas terminavam interferindo em seu cotidiano ao destruírem as roças de milho e mandioca e as árvores frutíferas que abasteciam as vilas e cidades. Gabriel Soares de Souza chamava as saúvas de "a praga do Brasil".

Quanto ao lazer, no início, as vilas e cidades não possuíam muitas opções, nada que ultrapassasse os festejos dos santos, os jogos de azar, a bebedeira e a fornicação com as indígenas ou negras escravizadas.

O fumo se propagou entre os colonos, a princípio, por seu poder curativo sobre feridas e bicheiras. Tronou-se vício, mas também um lazer, combinado com o espreguiçar em uma rede, ambos hábitos copiados dos indígenas.

Uma outra forma comum de divertimento era a tração exercida pelos gestos e sons dos papagaios, araras e macacos, animais que se tornaram bichos de estimação dos portugueses no Brasil.

Desembarcados em meio a esse ambiente idílico - que contava ainda com a tentação oferecida pela nudez inocente das indígenas -, quando o contrapunham à dura rotina no mar e ao difícil cotidiano no reino, muitos marujos se sentiam tentados a desertar. Queriam se juntar aos colonos e viver no Brasil.

Outros optaram por cumprir seu tempo de serviço e juntar recursos para tentar a sorte nas novas terras, onde se vivia com simplicidade, mas com a possibilidade de ser mais feliz do que na Europa.

A divulgação das pujanças da Terra de Santa Cruz entre os portugueses na África e na Índia contribuiu ativamente para virar o jogo e transformar o Brasil na nova menina-dos-olhos da Coroa e em lugar idealizado para onde se voltavam os sonhos das pessoas comuns.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 202-206.