"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O termo "Tempos Modernos": uma visão eurocêntrica da História?

Embora, na França, a expressão "Tempos Modernos" seja empregada para, geralmente, designar os séculos XVI, XVII e XVIII, uma explicação é necessária. A consciência de se haver entrado numa era nova foi percebida na Europa Ocidental no decorrer do século XVI.

Todavia, os historiadores estão longe de concordar sobre os limites cronológicos desta era nova. Na França [...] fazemo-la iniciar-se, em geral, em 1492, com a "descoberta" da América. Esta data apresenta o inconveniente de situar-se no meio do Renascimento, que abre os "Tempos Modernos". Certos historiadores, considerando que a Renascença, principia com o despertar das civilizações urbanas no Ocidente se inclinariam por um corte situado no começo do século XIII. Por causa disto, na Inglaterra, prefere-se fixar o início dos "Tempos Modernos" apenas quando a Renascença é dado como realizada, ou seja por volta do ano de 1600.


Carta náutica de Fernão Vaz Dourado, (c. 1520 - c. 1580), integrante de um atlas desenhado em 1571.

Voltados para o progresso, os "Tempos Modernos" não deveriam ter um fim. Entretanto, a historiografia francesa ficou impressionada com o desmoronamento da antiga monarquia, caracterizada por um regime, não somente político, mas ainda econômico e social, que se torna o "Antigo Regime" em relação ao mundo que se crê nascido com a declaração dos direitos do homem de 1789. Para designar este mundo considerado como novo, foi preciso encontrar um outro termo. Os historiadores franceses empregaram o de "contemporâneo", palavra que adquire aqui um sentido particular. Destarte, o ponto de partida da época contemporânea permaneceu curiosamente fixo, ao passo que os "Tempos Modernos", fixados em 1789, se afastam cada vez mais no passado.

Conquanto menos marcados que os franceses pela Revolução, os historiadores dos outros países da Europa distinguem também, em geral, um antigo regime e uma época mais recente, mas as denominações são diferentes. Como é lógico, o termo contemporâneo, para eles, é móvel, pois liga ao presente um passado todo próximo. O termo "moderno" designa, então, um período não acabado, mas incessantemente prolongado. Por causa disto, foram levados a introduzir divisões nesses "Tempos Modernos" destinados a se prolongarem. Os alemães distinguem Frühere Neuzeit e Spät Neuzeit, e os ingleses Early Modern Times e Later Modern Times... Estes termos, certamente menos rígidos que os nossos, se aplicam de maneira precisa ao antigo regime e ao regime novo? Neste caso, sua delimitação variaria segundo os países: 1848, para a maioria dos países da Europa Central; 1860 ou 1917 para a Rússia... De fato, os historiadores ocidentais reconhecem, geralmente, que o fim do século XVIII marca uma etapa importante na história de seus países em consequência do contragolpe das revoluções americana e francesa.

Trata-se, poder-se-á dizer, de modos de ver europeucentristas. Povos que hoje constituem mais da metade da humanidade não foram, em absoluto, subvertidos, no fim do século XVIII e no princípio do XIX, pelos grandes movimentos que afetaram a Europa e seus prolongamentos coloniais. Devemos negligenciar sua presença numa periodização do passado? Eu não penso que este argumento seja de natureza a fazer afastar o fim do século XVIII como termo do nosso período. O Extremo Oriente ou a Índia não têm neste momento, e não terão durante algum tempo ainda, um papel propulsor de primeiro plano na evolução da humanidade.

Outra objeção: o começo do século XVI e o fim do XVIII não representam uma mudança importante na história econômica ou na das condições materiais da vida. O descobrimento da América e o acesso direto dos europeus às Índias só farão sentir seus efeitos no decurso do século XVI, e a revolução da máquina, exceto para a Inglaterra, se situa no decurso do século XIX. Podemos desprezar tais fatos?

É verdade que toda periodização é artificial. [...]

Quando abordamos [a] Antiguidade ou a Idade Média [...] sabemos de antemão que, para compreendermos, nos deveremos desterrar completamente, pois que nos acharemos em presença de um mundo em que os homens viam de maneira diferente da nossa o tempo, o espaço, o domínio da natureza, as relações entre gerações, famílias e classes sociais. [...] Ora, "o homem de Versalhes" está muito longe de nós. Que dizer do homem dos campos ou das pequenas cidades contemporâneas de Lutero? Pois não existe um homem dos Tempos Modernos. Estes três séculos vêem realizar-se uma verdadeira mudança da espécie humana, menos visível e menos precipitada, sem dúvida, que a que assistimos atualmente, porém assaz profunda, uma vez que é ela que prepara esta última. É preciso que nos submetamos a uma série de desterramentos para podermos compreender os homens destes três séculos [...].

Com efeito, no fim do século XV, entram em contato mundos que até então se tinham ignorado inteiramente. Ora, pela primeira vez na história, o homem constatou qual era a forma da Terra. Ele ainda não sabia que não mais havia descobertas a fazer no globo da mesma importância que a da América. Mas nós, que o sabemos, avaliamos melhor que os contemporâneos de Américo Vespucci a importância de seu tempo na História: o planeta realizou sua unidade.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 5-7.

sábado, 18 de maio de 2013

O significado do adjetivo "contemporâneo"

[...] ser contemporâneo é pertencer ao mesmo tempo, ou seja, ser do mesmo tempo. Um exemplo desse sentido da palavra: "Garrincha, que foi um grande jogador de futebol, foi contemporâneo de Pelé na seleção brasileira de futebol". Outro exemplo: "Cristóvão Colombo, que chegou à América, foi contemporâneo de Pedro Álvares Cabral, que chegou ao Brasil". Mais um exemplo: "Chico Buarque, Milton Nascimento e Gilberto Gil são compositores de música brasileira contemporânea".

Esses três exemplos simples nos ajudam a compreender que Garrincha e Pelé foram companheiros de futebol na seleção brasileira; que Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral fizeram suas viagens de exploração na mesma época e que os três compositores, Chico, Milton e Gil, estão produzindo, cada um no seu estilo, trabalhos que caracterizam a música popular hoje no Brasil.

Observe que, em todos os exemplos, o acontecimento ao mesmo tempo é o fator que marca a contemporaneidade. [...]

Mas em História, quando nos referimos ao período contemporâneo, ou às sociedades do mundo contemporâneo, o significado do adjetivo contemporâneo é um pouco diferente daquele com que a palavra foi empregada nos exemplos anteriores. Em História, para os acontecimentos serem contemporâneos não basta pertencerem ao mesmo tempo, é preciso possuírem algumas características que revelam um determinado modo de ser e de pensar da época. Nem sempre os acontecimentos contemporâneos se deram ao mesmo tempo. Pode até haver uma distância de muito mais de um século entre um e outro acontecimento e, no entanto, serem contemporâneos porque possuem as características próprias que definem aquele grande período histórico.

Assim, o período histórico que fica entre o final do século XVIII e nossos dias é chamado de período contemporâneo porque as sociedades que nele vivem, em geral, possuem algumas características próprias da época. Diferentes das características que marcaram os períodos anteriores: Antiguidade, Tempos Medievais e Tempos Modernos. Vale lembrar, é claro, que essa é uma foram muito ocidental e cristã de enxergar e analisar a História. Muitas sociedades orientais, muitas sociedades africanas jamais poderiam ser estudadas a partir dessa visão ocidental. A trajetória de seus povos foi outra e a visão cristã do mundo não tem sentido entre aqueles que nunca foram cristãos.

[...]

[...] a Idade Moderna chegava ao final porque grandes transformações do século XVIII revolucionaram as instituições políticas, a sociedade, a economia, o pensamento. As características que marcaram todos esses campos durante a Idade Moderna foram sendo transformadas pelas revoluções: a Industrial, a Americana e a Francesa. E as transformações foram tantas que os historiadores passaram a aceitar como contemporânea a História que aconteceu depois porque era muito recente, muito próxima deles naquele tempo.

Na verdade, os historiadores do século XIX chamaram aquele tempo em que estavam vivendo de tempos contemporâneos porque percebiam que se tratava mesmo de uma outra época, diferente dos tempos anteriores às revoluções. Mas hoje, passados mais de 200 anos, será que podemos afirmar que ainda são contemporâneos? Como ficamos diante dessa pergunta?

Encontramos diversas opiniões a respeito desta questão. Muitos historiadores pensam que a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945, e na qual se usou a bomba atômica, mudou muito o mundo e, portanto, depois dela, estamos vivendo um outro período da História. Outros pensam diferente: apontam a chegada do homem à lua em 1969 como sendo o marco de um novo período histórico, que poderia chamar-se Era Espacial. Outros ainda aceitam que entramos em outro período quando os homens inventaram e passaram a usar os robôs que, de fato, são um avanço tecnológico fantástico.

O homem no espaço. O astronauta Edward White flutua suavemente fora da nave espacial Gemini IV, à qual está ligado por uma corda, 160 km acima da Terra.


[...]

Não há uma linha divisória separando um período do outro na História e também não é possível estabelecer uma data que marque o final de um período e o início do outro.

Não há limites rígidos nos processos de mudanças e transformações. Os homens em sociedades, espalhados pelos continentes e vivendo suas próprias experiências, não constroem ao mesmo tempo, nem na mesma intensidade as suas histórias.

Foram os historiadores que, a partir de estudos e análises apoiados nas mais variadas fontes documentais, concluíram que, desde o final do século XVIII até os nossos dias, no Ocidente, vive-se nos tempos contemporâneos.

Por quê?

Porque, quando se analisam os acontecimentos históricos em conjunto - aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais -, é possível perceber muitas características dos tempos contemporâneos.

Alguns exemplos: revolução do trabalho industrial, com todas as suas características, circulação de um volume imenso de dinheiro obtido na indústria, o aparecimento e a consolidação das democracias, o crescimento das cidades, o surgimento da classe operária, um modo de expressão da época através da literatura, artes, filosofia e ciências etc.

No entanto, é preciso não perder de vista que nem todas as sociedades passaram pelos mesmos estágios de vida. Enquanto algumas viviam em determinados níveis de desenvolvimento, muitas outras viviam em níveis e direções totalmente diferentes. Essa diversidade de experiências de cada sociedade resultou no quadro geral que presenciamos hoje no mundo contemporâneo.

Um exemplo dessa diversidade de níveis de desenvolvimento pode ser comprovado quando observamos os russos e os norte-americanos desvendando o espaço cósmico, utilizando a mais sofisticada tecnologia inventada, enquanto muitos povos espalhados pela África, em ilhas da Oceania, na América, sequer conseguiram atingir os estágios básicos do desenvolvimento que nos permitissem dizer que estão no mundo contemporâneo.

Naturalmente podemos afirmar que esses povos são contemporâneos nossos porque vivemo no mesmo tempo em que nós vivemos e vice-versa. Entretanto, se considerarmos que as sociedades do período histórico contemporâneo possuem determinadas características, aqueles povos estão muito distantes de nós.

Isso não significa que são melhores ou piores do que nós. Mas significa que vivem a sua história pelos caminhos que conseguiram percorrer, no ritmo de sua cultura e, principalmente, conservando as suas raízes mais ou menos isoladas do movimento do restante do mundo.

GARCIA, Ledonias Franco. Estudos de história: sociedades contemporâneas. Goiânia: UFG, 1998. p. 13-15, 17-18.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A História e o tempo

[...] o grande avanço alcançado hoje pela Humanidade resultou das descobertas e criações que o Homem acumulou no decorrer da sua existência, transmitindo às gerações seguintes conhecimentos e experiências e permitindo que a Humanidade chegasse ao grau de desenvolvimento que tem hoje.

Outra questão importante [...] é a forma como as sociedades estão hoje organizadas, seja no campo social e econômico, seja no campo político. Por que existem pessoas ricas e outras pobres? Por que algumas residem em mansões ou palácios e outras, em casebres ou barracos? Por que alguns só se divertem, enquanto a maioria só trabalha? Se lembrarmos que todos os homens - no início da História da Humanidade - eram iguais, o que explicaria essas enormes diferenças hoje? Em que momento e por que isso aconteceu?

A História é a Ciência que responde a essas questões. Ao reconstituir o passado da Humanidade - como surgiu o Homem, quais as suas descobertas e invenções, como conseguiu dominar a Natureza, como se relacionou e continua a relacionar-se com os outros homens -, a História nos permite analisar o desenvolvimento das sociedades humanas, através dos tempos, e sua projeção para o futuro.

A História não deve ser vista como uma simples sequência de fatos ou de atos de governantes, como Reis, Imperadores, Presidentes da República ou Generais; ela é feita por todos nós, homens comuns, vivendo em sociedade, cujos objetivos fundamentais são a produção e a satisfação pessoal.

Como a História consegue reconstituir o passado da Humanidade?

Como podemos saber da existência de sociedades que já desapareceram há tanto tempo?

Vamos supor que você queira conhecer o passado da sua família até a geração de seus avós ou bisavós. O que você faria para conseguir este conhecimento? Provavelmente, em primeiro lugar, entrevistaria as pessoas mais velhas para estabelecer uma sequência, no tempo, de todos os parentes até você; chamamos a isto árvore genealógica. Depois, seria necessário recorrer a velhos álbuns de fotografias, papéis de família, como certidões de nascimento, de casamento e de óbito, testamentos, contratos de venda... Como você pôde observar, seriam usados documentos escritos e orais.

O historiador procede de forma semelhante. Para reconstituir a História de uma sociedade, recorre a todo tipo de documentação, sinais, vestígios que consegue encontrar: documentos públicos, cartas particulares, monumentos, inscrições, pinturas, esculturas, templos, casas, utensílios domésticos, armas, túmulos, enfim, tudo aquilo que o Homem, em qualquer tempo e em qualquer lugar, usou, produziu ou, até mesmo, destruiu.

Para a História recente, o trabalho é aparentemente mais fácil, pois existem fotos, discos, filmes, livros, fitas de vídeo e uma infinidade de vestígios. Entretanto, se considerarmos a quantidade de habitantes do mundo, o número de países, a diversidade de culturas, as diferentes formas de organização das sociedades, veremos que o trabalho do historiador é imenso e bastante complexo.

Para facilitar o estudo da História das Sociedades, costumamos estabelecer uma sequência de acontecimentos no tempo - a Cronologia ou Datação.

Nas sociedades ocidentais cristãs, a data de nascimento de Jesus Cristo foi estabelecida como marco. Uma vez estabelecido o momento zero, os fatos históricos são datados em relação a ele, distinguindo-se o que se passou antes e o que ocorreu depois. Nos fatos anteriores, contamos no sentido inverso, indicando sempre a.C., ou seja, antes de Cristo. Os fatos posteriores são contados em ordem crescente, sem qualquer indicação [...].

Há sociedades que adotam uma cronologia diferente. Os muçulmanos usam como marco de seu calendário a Hégira, ou seja, a fuga de Maomé, seu maior profeta, da cidade santa de Meca, ocorrida, segundo o calendário cristão, em 16 de julho de 622. A sociedade judaica tem como marco inicial a criação do mundo [...].

Em História, usamos mais frequentemente três unidades de tempo: o ano, o século (cem anos) e o milênio (mil anos). Os anos são assinalados em algarismos arábicos e os séculos em algarismos romanos. Por exemplo: ano de 1995, século XX. Para identificar a que século pertence certo ano, basta aplicar uma regra prática: somar o número 1 à centena do ano. Vejamos a seguir:

Ano de 1995

19 + 1 = 20 [século XX]

Nos anos terminados em 00, o século corresponde à centena:

Ano de 1900

[século XIX]

A explicação para a regra é simples: do ano 1 ao 100, tivemos o século I, do ano 101 a 200, o século II, e assim por diante.

Para facilitar o estudo das sociedades, é comum dividir a História em grandes períodos, estabelecendo-se a escrita como marco. Assim, seriam consideradas pré-históricas todas as sociedades sem escrita. A História, por sua vez, seria dividida em quatro grandes etapas: a Antiguidade, que iria do aparecimento da escrita ao fim do Império Romano do ocidente (século V); a Idade Média, até o fim do Império Bizantino (1453); a Idade Moderna, até a Revolução Francesa (século XVIII), e a Idade Contemporânea, até os dias atuais.

Esta divisão, muito tradicional, merece críticas, já que considera pré-históricas sociedades de desenvolvimento e organização bastante diferentes, como as comunidades primitivas, que viveram no início da existência do Homem na Terra, e a sociedade inca, muito desenvolvida e de organização bastante complexa, mas que não usava a escrita.

Outra crítica é o fato de cada período ter como marco acontecimentos de importância apenas para as sociedades europeias e não para o conjunto da Humanidade, além de não levar em conta aspectos fundamentais, como a organização dessas sociedades para a produção.

[...]

[...] afirma a professora Vavy Pacheco Borges, em seu estudo O que é História:

"A função da História, desde o seu início, foi a de fornecer à sociedade uma explicação de suas origens. [...] A História se coloca, hoje em dia, cada vez mais próxima às outras áreas do conhecimento que estudam o Homem [...], procurando explicar a dimensão que o Homem teve e tem em sociedade. [...] A História procura, especificamente, ver as transformações pelas quais passaram as sociedades humanas. A transformação é a essência da História [...]. 

Musa lendo pergaminho (provavelmente Clio, a musa da História). Artista desconhecido. Beócia, c. 435-425 a.C.

[...] O tempo histórico, através do qual se analisam os acontecimentos, não corresponde ao tempo cronológico que vivemos e que é definido pelos relógios e calendários. No tempo histórico, podemos perceber mudanças que parecem rápidas, como, por exemplo, os acontecimentos cotidianos: um golpe de Estado que toma o poder e que seguimos nos jornais. Vemos também transformações lentas, como no campo dos valores morais: o machismo, por exemplo, é um valor que impera na maior parte das sociedades que a História estuda, a ponto de se dizer que a História que está escrita mostra um processo praticamente só conduzido pelos homens. No Ocidente [...] surge um questionamento mais constante deste valor milenar. Isto se dá, em grande parte, devido a uma participação maior da mulher no processo de produção: à medida que as mulheres saem da esfera exclusiva do lar e começam a refletir na realidade."

AQUINO, Rubim Santos Leão de et all. Fazendo a História: da Pré-história ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 10-13.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Quem roubou o quê? Tempo e espaço

Desde o início do século XIX, a construção da história do mundo tem sido controlada pela Europa ocidental, que registrou sua presença no resto do mundo como resultado da conquista colonial e da Revolução Industrial. Também os chineses, os indus e os árabes construíram suas histórias mundiais, por sinal com o mesmo caráter parcial [...]. De fato, poucas culturas estabelecem um vínculo entre o seu próprio passado com o passado das outras civilizações. [...] O que caracteriza a postura europeia, assim como a de sociedades mais simples, é a tendência de impor a própria história ao mundo. Essa tendência etnocêntrica é extensão de um impulso egocêntrico na base de grande parte da percepção humana e se realiza pelo domínio de fato de muitas partes do mundo. [...]

É necessário um pensamento mais crítico para combater o inevitável caráter etnocêntrico em qualquer tentativa de descrever o passado ou o presente do mundo. Isso significa, primeiramente, ser cético quanto à pretensão ocidental de ter inventado atividades e valores como democracia ou liberdade. Em segundo lugar, significa olhar para a história a partir da base e não de cima para baixo (ou do presente). Em terceiro lugar, dar o peso adequado ao passado não europeu. Em quarto, é necessária a consciência de que até mesmo a espinha dorsal da historiografia - a localização dos fatos no tempo  e espaço - é variável, objeto de construção social, por isso, sujeita a mudança. Portanto, não se trata de categorias imutáveis que emanam do mundo na forma como são apresentadas na consciência historiográfica ocidental.

As dimensões atuais de tempo e espaço foram estabelecidas pelo Ocidente. Isso porque a expansão através do mundo requereu controle temporal e mapas que emolduraram a história, tanto quanto a geografia. É claro que todas as sociedades têm alguns conceitos de espaço e tempo, em torno dos quais organizam seus cotidianos. Esses conceitos tornaram-se mais elaborados (e mais precisos) com o advento da leitura e da escrita, que proveu a capacidade para precisar ambas as dimensões. Foi a invenção da escrita na Eurásia que deu, para a maioria de suas sociedades, vantagens consideráveis, em comparação com a África oral, por exemplo, no cálculo do tempo ou na criação e desenvolvimento de mapas e não alguma verdade inerente à maneira de o mundo estar organizado em termos de espaço e tempo.

* Tempo. O tempo nas culturas orais era contado de acordo com fenômenos naturais: a progressão diária do sol, sua posição na esfera espacial, as fases da lua, o transcorrer das quatro estações. Faltava a contagem numérica da passagem dos anos. Isso requeria a noção de um ponto de partida fixo, em uma era. Essa contagem veio somente com a escrita.

O cálculo preciso do tempo, no passado e no presente, também foi apropriado no Ocidente. As datas as quais a história depende são medidas antes e depois do nascimento de Cristo (a.C. e d.C. ou a.e.c. e e.c. para sermos mais corretos). O reconhecimento de outras eras, relativas à Hégira, aos hebreus ou ao ano novo chinês, está relegado às margens da historiografia acadêmica e do uso internacional. Um aspecto desse roubo do tempo foi certamente as concepções de século e milênio propriamente ditas, de novo, concepções de culturas escritas. [...]

A monopolização do tempo não ocorre somente com a era que tudo inclui, definida pelo nascimento de Cristo, mas também com a contagem cotidiana de anos, meses e semanas. O ano, propriamente dito, é uma divisão parcialmente arbitrária. Nós usamos o ciclo sideral (calendário solar), outros usam uma sequência de 12 períodos lunares. É uma escolha mais ou menos convencional. Em ambos os sistemas, o início do ano, isto é, o Ano Novo, é absolutamente arbitrário. Não há, de fato, mais "lógica" no ano sideral, adotado pelos europeus, que na contagem lunar dos países islâmicos e budistas. O mesmo acontece com a divisão europeia dos meses. A escolha é entre anos arbitrários ou meses arbitrários. Nossos meses têm pouco a ver com a lua, enquanto os meses lunares do Islã são definitivamente mais lógicos. Há um problema para todo sistema calendárico de integrar anos estelares ou sazonais com meses lunares. No islamismo, o ano é ajustado aos meses; no cristianismo acontece o contrário. Nas culturas orais, tanto a contagem sazonal quanto a lunar podem operar independentemente, mas a escrita impõe certo compromisso.

A semana de sete dias é a unidade mais arbitrária de todas. Na África, pode-se encontrar o equivalente à semana de três, quatro, cinco ou seis dias, com seus mercados correspondentes. Na China eram dez dias. As sociedades sentiram necessidade de uma divisão padrão menor do que o mês para marcar o cotidiano dos mercados locais, distintos das feiras anuais. A duração dessas unidades é completamente convencional. A noção de um dia e uma noite corresponde claramente à nossa experiência diária. Entretanto, a divisão suplementar em horas e minutos, em nossos relógios e nossas mentes, é arbitrária.

As diferentes formas de calcular o tempo nas sociedades com escrita tinham uma estrutura religiosa, usando como ponto de referência a vida do profeta, do redentor, ou a criação do mundo. Esses pontos de referência mantiveram-se relevantes, e os do cristianismo - resultado das conquistas, colonização e dominação do mundo não somente para o Ocidente, como também para o mundo -, a semana de sete dias, o domingo de descanso, os feriados de Natal, Páscoa, Dia das Bruxas, são agora internacionais. Isso aconteceu apesar de, em muitos contextos, no Ocidente, haver se propagado um conceito secular - a desmistificação do mundo, segundo Weber, a rejeição da mágica, segundo Frazer - que agora afeta grande parte do mundo globalizado.

A continuada relevância da religião na vida cotidiana é frequentemente incompreendida tanto por observadores como por participantes. Muitos europeus enxergam suas sociedades como seculares e suas instituições como não discriminatórias de um credo ou de outro. O véu muçulmano  e a quipá dos judeus podem ser permitidos ou não nas escolas; serviços religiosos livres são a regra; o estudo das religiões tenta ser comparativo. Nas ciências, nós pensamos na liberdade de questionar o mundo e tudo o que ele contém como condição de existência. Religiões como o islamismo, por outro lado, são muitas vezes criticadas por deterem as fronteiras do conhecimento, embora tenham uma tendência racionalista. Até o momento, a mais avançada economia do mundo, em termos científicos e econômicos, é fortemente marcada por uma religião fundamentalista e uma profunda ligação com o seu calendário religioso.

Modelos religiosos de construção do mundo permeiam todos os aspectos do pensamento e em tal extensão que, mesmo tendo sido abandonados, seus traços continuam a determinar nossa concepção de mundo. Categorias espaciais e temporais, originadas de narrativas religiosas, são de tal forma fundamentais e disseminadas como determinantes para nossa interação com o mundo, que nós tendemos a esquecer sua natureza convencional. [...]

Voltando às medidas do tempo, os relógios, exclusivos das sociedades letradas, foram obviamente uma contribuição importante. Eles existiam no mundo antigo na forma de relógios de sol e de água. Monges medievais usavam velas para registrar a passagem das horas. Dispositivos mecânicos complexos já haviam sido usados na China. Mas a invenção do relógio mecânico, que faz o tique-taque, foi uma descoberta europeia do século XIV. [...] Relógios mecânicos, que, para alguns filósofos, se tornaram o modelo de organização do universo, foram no final incorporados em relógios portáteis, o que facilitaria a consulta individual. Isso também levou tais filósofos a desprezar povos e culturas que obedeciam ao "tempo africano" e não conseguiam se adaptar à demanda do emprego regular em fábricas e nas organizações de larga escala. Eles não estavam preparados para a "tirania", "a escravidão ao salário" do horário comercial.

[...]

Há outro aspecto mais geral com relação a essa apropriação do tempo: a caracterização da percepção ocidental de tempo como linear e da oriental como circular. [...] na China, à parte o cálculo de eras de longa duração, há um cálculo circular de anos de curta duração a partir do qual o nome do ano ("ano do macaco") circula de modo regular. Não há nada precisamente semelhante no calendário ocidental, a não ser os meses que se repetem, e na astrologia baseada no zodíaco caldeu, que mapeia o espaço celeste, na qual esses meses adquirem significado característico como nos anos chineses. No entanto, mesmo nas culturas orais, em que a contagem do tempo é inevitavelmente mais simples, acham-se tempos lineares e circulares. A contagem linear é parte intrínseca das histórias de vida que se movem do nascimento à morte. Com o tempo "cósmico" há uma tendência maior à circularidade, uma vez que o dia segue a noite e uma lua segue outra. Qualquer ideia de cálculo exclusivo a ser feito de modo linear em vez de circular é equivocada e reflete nossa visão de que o Ocidente é avançado e voltado para o futuro e o Oriente, estático e atrasado.

* Espaço. As concepções de espaço também têm seguido definições europeias. Elas foram profundamente influenciadas pelo uso não tanto da escrita, mas das representações gráficas que se desenvolveram junto com a escrita. Claro que todos os povos têm algum conhecimento espacial do mundo em que vivem, do mundo ao redor e do céu, acima. [...]

Os continentes propriamente ditos não são noções exclusivamente ocidentais. Eles se mostram instintivamente como entidades distintas, exceto pela divisão arbitrária entre Europa e Ásia. Geograficamente, Europa e Ásia formam um continuum, a Eurásia; os gregos fizeram distinção entre as margens do Mediterrâneo no Estreito de Bósforo. Apesar de terem fundado colônias na Ásia Menor desde o período arcaico, a Ásia nunca deixou de representar o "outro histórico" na maioria dos contextos: a terra de religiões e povos estranhos. Mais tarde, religiões "mundiais" e seus seguidores, cobiçando o domínio do espaço e do tempo, tentaram definir oficialmente a nova Europa como cristã. Isso apesar do histórico de contatos com a presença de seguidores do islamismo e judaísmo no continente e apesar, também, da insistência de contemporâneos europeus (em contraste com outros povos) em adotar uma atitude leiga e secular diante do mundo. Enquanto o relógio dos anos clica para um tempo distintamente cristão, o presente e o passado da Europa são vistos como "a formação da Europa cristã" nos termos de Trevor-Roper.

Concepções de espaço, no entanto, não foram influenciadas pela religião com a mesma intensidade que as do tempo. Ainda assim, as localizações de cidades sagradas como Meca e Jerusalém determinaram não só a organização dos lugares, a direção da adoração, como as vidas de muitos povos que tinham como objetivo  peregrinar para esses lugares sagrados. O papel da peregrinação islamita, um dos cinco pilares dessa religião, é bem conhecido, e afeta muitas partes do mundo. Mas no passado, os cristãos também peregrinavam para Jerusalém e a liberdade de fazer tais viagens foi uma das razões para a invasão europeia (as Cruzadas) do Oriente Médio no século XIII. Jerusalém foi também um forte pólo de atração para o retorno de judeus durante a Idade Média, e ainda mais a partir do crescimento do sionismo e do violento anti-semitismo desde o final do século XIX. Essa questão espacial, fortemente apoiada por algumas potências ocidentais, de Israel ser o lar destinado ao retorno massivo de judeus para a Palestina, resultou em tensão, conflito e guerras, que têm varrido o Mediterrâneo oriental nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a concentração de bases ocidentais na península arábica é vista como sendo a razão da ascensão da militância islâmica nessa região. Desse modo, a religião "mapeia" o mundo para nós em parte de forma arbitrária, mas esse mapeamento adquire significados poderosos relativos a identidades, durante o processo. A motivação religiosa inicial pode desaparecer, mas a geografia interna que ela gerou permanece, é "naturalizada" e pode ser imposta aos outros como sendo de certo modo parte da ordem material das coisas. [...]

Porém, os efeitos da colonização ocidental são evidentes. Quando a Inglaterra se tornou uma potência mundial, as coordenadas de espaço passaram a se basear no meridiano de Greenwich, em Londres; as Índias Ocidentais e grande parte das Índias Orientais foram criadas por interesses europeus, sob a orientação do colonialismo e expansionismo europeus. [...] Como Fernandez-Armesto assinala, na primeira metade do presente milênio, o Islã ocupou uma posição mais central e estava bem situado para oferecer uma visão da geografia mundial. Exemplo é o mapa-múndi de Al-Istakhi, produzido na metade do século X e visto da Pérsia. O Islã foi posicionado no centro da expansão e da comunicação, permanecendo a meio caminho entre a China e o mundo cristão. [...]

Mapa de Al-Istakhi

Mercator (1512-94) de Flandres foi um dos geógrafos premiados com a chegada em Florença de uma cópia grega da Geografia de Ptolomeu vinda de Constantinopla e escrita em Alexandria no século II e.c. O tratado foi traduzido para o latim e publicado em Vicenza, tornando-se uma referência da geografia moderna. Fornecia uma grade de coordenadas espaciais que podiam ser estendidas em um globo, com linhas numeradas a partir do equador, para latitude, e a partir das ilhas Fortunate, para longitude. Esse trabalho chegou na época da primeira circunavegação do globo e do advento da imprensa, fatores importantes para o desenvolvimento da cartografia. [...]

[...]

Cartografia e navegação envolveram o cálculo do espaço do céu e da terra. Todas as culturas têm algum modo de ver o céu. Mas seu mapeamento foi desenvolvido pelos homens de letras babilônios e mais tarde pelos gregos e romanos. Esse conhecimento desapareceu da Europa durante a Idade das Trevas mas continuou a ser impulsionado no mundo árabe, na Pérsia, Índia e China. O mundo árabe em particular, usando matemática complexa e muitas observações novas, produziu excelentes mapas estelares e ótimos instrumentos astronômicos, como o astrolábio de Muhammad Khan ben Hassan. Foi a partir dessa base que os avanços europeus nessa área foram possíveis.

Até séculos recentes, a Europa não ocupava uma posição central no mundo conhecido, apesar de tê-lo feito temporariamente com a emergência da Antiguidade clássica. Somente a partir da Renascença, com as atividades mercantis no mar Mediterrâneo e depois no Atlântico, é que a Europa começou a dominar o mundo. Primeiro com a expansão do comércio, depois pela conquista e colonização. Essa expansão levou a noção de espaço desenvolvida no curso da "Idade da Exploração" e a noção de tempo desenvolvida no contexto da Cristandade a serem impostas ao resto do mundo. [...]

* Periodização. O "roubo da história" não é somente de tempo e espaço, mas do monopólio dos períodos históricos. A maioria das sociedades parece fazer alguma tentativa de categorizar seu passado nos termos de largos e diferentes períodos de tempo mais ligados à criação da humanidade do que do mundo. Os esquimós pensam que o mundo sempre foi como se apresenta, porém, na vasta maioria das sociedades, os homens de hoje são vistos como sendo os primitivos habitantes do planeta. A ocupação do planeta começou por algo parecido com o "tempo do sonho" dos nativos australianos; entre os LoDagga do norte de Gana, os primeiros homens e mulheres habitaram a "velha terra" [...]. Com o advento da "linguagem visível", da escrita, aparentemente criamos uma periodização mais elaborada: a crença numa Era Dourada anterior ao Paraíso, quando o mundo era um lugar melhor, mas que os humanos tiveram de abandonar por causa de seu comportamento incorreto. É o oposto da ideia de progresso e modernização. Alguns imaginaram uma periodização baseada nas mudanças na natureza das principais ferramentas usadas pelos homens como pedra, cobre, bronze, ou ferro - uma progressiva periodização das Idades do Homem adotada por arqueólogos europeus do século XIX como um modelo científico.

Recentemente, a Europa se apropriou do tempo de forma mais determinada e o aplicou ao resto do mundo. Claro, a história mundial precisa ter uma estrutura cronológica única, se quiser ser unificada. Acontece que o parâmetro internacional é basicamente cristão, assim como os feriados mais importantes - Natal e Páscoa - são celebrados em órgãos internacionais como as Nações Unidas. E também é esse o caso das culturas orais do Terceiro Mundo que não foram incluídas nos parâmetros das religiões mais importantes; Alguma monopolização é necessária na construção de uma ciência universal como a astronomia. A globalização compreende uma medida de universalização. Não se pode trabalhar com conceitos puramente locais. Assim, apesar de o estudo da astronomia ter tido sua origem em outro lugar, mudanças na sociedade de informação, particularmente na tecnologia de informação na forma de livro impresso (que, como o papel, veio da Ásia), passaram a significar que o desenvolvimento da estrutura do que se chama ciência moderna é ocidental. Nesse caso, como em outros, globalização significa ocidentalização. [...] Os conceitos de história e de ciências sociais, apesar de eruditos lutarem pela "objetividade" weberiana, são mais próximos do mundo em que eles foram concebidos. Por exemplo, os termos "Antiguidade" e "Feudalismo" são definidos num puro contexto europeu, atentos ao desenvolvimento histórico particular desse continente. Os problemas surgem quando se pensa sobre a aplicação desses conceitos em outros tempos e lugares [...].

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A linearidade é um constituinte da "avançada" ideia de "progresso". Alguns viram essa noção como peculiar ao Ocidente, e de certa forma o é, podendo ser atribuída à rapidez das mudanças ocorridas principalmente na Europa desde a Renascença [...].  A maioria das religiões escritas continha a ideia de Idade de Ouro, Paraíso, ou Éden, de onde a humanidade teve de se retirar. Essa noção envolveu um olhar para trás tanto quanto, em alguns casos, um olhar à frente para um novo começo. Mesmo em culturas orais foi encontrado a ideia de Paraíso. [...] Só com o advento da secularização, depois do Iluminismo, vamos encontrar um mundo regido pela ideia de progresso [...].

Uma das hipóteses básicas de uma boa parte da historiografia ocidental é que a flecha do tempo avança com um aumento equivalente em valor e proveito na organização das sociedades humanas, isto é, o progresso. A história é uma sequência de estágios, cada um proveniente de um anterior e seguindo em direção ao próximo, até, no marxismo, finalmente alcançar o estágio "superior" com o comunismo. Embora a leitura eurocêntrica da direção da história não acolha esse tipo de otimismo milenarista, para a maioria dos historiadores, o momento da escrita aproxima-se do objetivo final do desenvolvimento da espécie humana [...]. 

[...] Toda a história mundial foi concebida como uma sequência de fases constituídas por eventos ocorridos só na Europa Ocidental. Por volta de 700 a.e.c., o poeta Hesíodo imaginou as eras passadas do homem começando por uma Idade de Ouro e sendo sucedida pelas Idades de Prata e Bronze, passando por uma era de heróis, até chegar à atual Idade do Ferro. [...] No entanto, desde a Renascença, historiadores e eruditos têm adotado outra abordagem. Começando com a sociedade arcaica, a periodização das mudanças na história mundial em Antiguidade, Feudalismo e Capitalismo é virtualmente europeia. O restante da Eurásia ("Ásia") seguiu um curso diferente: com suas políticas despóticas , constituiu o "excepcionalismo asiático". Ou em termos contemporâneos, fracassou em alcançar a modernização. [...]

GOODY, Jack. O roubo da história. São Paulo: Contexto, 2008. p. 23-36.