"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Queremos outro tempo

Cenas de julho de 1830, Léon Cogniet

Ao longo de três dias, em 1830, seis mil barricadas transformaram a cidade de Paris em campo de batalha, e derrotaram os soldados do rei.

E quando esse dia virou noite, a multidão crivou, a pedradas e a bala, os relógios: os grandes relógios das igrejas e de outros templos do poder.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 241. 

sábado, 7 de maio de 2016

Rebeldes jovens

Batalha Soufflot.  
Barricadas na Rua Soufflot em 24 de junho de 1848. 
Horace Vernet

Além dos grandes fatores intelectuais e socioeconômicos que se combinam para produzir um levante revolucionário, forças mais intangíveis geralmente também participam. Por exemplo, a juventude da maioria dos revolucionários é notável. Assumir riscos, seja como manifestante nas ruas, seja como dissidente desafiando um sistema, apesar das altas possibilidades de prisão, tortura, ou mesmo morte, raramente é uma atitude tomada pelos mais velhos, aos quais a vida ensinou a cautela nascida de anos de desapontamento.

Mas se as revoluções raramente são feitas pelos mais velhos, muitos revolucionários que tiveram êxito na tomada do poder envelheceram eles próprios no poder. Às vezes as revoluções são a consequência de um bloqueio de geração causado por gerontocratas que sobem ao poder e frustam ambições normais. A Europa Central em 1848 e de novo em 1989 vivenciou revoluções que tiveram aspectos de um rompimento dramático de uma barreira causada por uma geração agarrando-se ao poder por tempo demasiado.

Tais revoluções geracionais não se referem somente a ambições frustradas, do contrário as multidões nunca se reuniriam. Os mais velhos, que bloqueiam a reforma e os reformadores do poder dentro de um sistema, alimentam fora dele as causas mais profundas de revolução. O apego obstinado ao poder simboliza o bloqueio do regime ao progresso e à esperança.

ALMOND, Mark. O livro de ouro das revoluções: movimentos políticos que mudaram o mundo. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016. p. 14.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A atuação dos jovens e das mulheres nos movimentos revolucionários do século XVIII

A prisão da Bastilha, Henry Singleton

"Foi lá [em Spa] que tive notícias, pela primeira vez, dos acontecimentos que anunciavam o aproximar-se de uma grande Revolução na América [...] O troar do primeiro canhão, disparado nesse novo hemisfério em defesa da bandeira da liberdade, repercutiu em toda a Europa com a rapidez de um raio. Recordo-me que os americanos insurgidos eram chamados bostonianos; sua corajosa audácia eletrizou todos os espíritos, provocou admiração geral, sobretudo entre os jovens, partidários das inovações e ávidos por lutas [...]. Esse movimento, embora parecendo pouco consistente, era notável prenúncio das grandes convulsões que, dentro em breve, abalaram o mundo inteiro, e eu estava longe de ser o único cujo coração palpitava ao rumor do despertar da liberdade, procurando derrubar o jugo do poder arbitrário". (Testemunho do Conde de Ségur sobre a Guerra de Independência americana)

A juventude participou com afinco da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas. Os jovens (das cidades, principalmente) representavam a geração renovadora e liberal, desejosa de destruir tudo o que significasse o Antigo Regime. Foram eles que pegaram em armas para lutar contra os exércitos estrangeiros que ameaçavam invadir a França em 1789.

Os jacobinos perceberam a força política da juventude e procuraram utilizá-la na Revolução. Durante a ditadura jacobina (1793-1794), milhares de rapazes de toda a França, entre 16 e 17 anos, foram enviados a Paris, onde, durante algumas semanas, receberam treinamento militar e lições de patriotismo para se tornarem republicanos autênticos. Os que não atenderam ao chamado dos jacobinos sofreram perseguições e humilhações, como a de serem chamados de hermafroditas. Após a queda de Robespierre, grupos de rapazes favoráveis aos girondinos foram à desforra e espancaram os jacobinos.

A convocação de jovens foi ainda maior nas guerras napoleônicas. Só na França. quase 4 milhões foram chamados às armas. O exemplo estendeu-se ao continente. A partir do início do século XIX, com o argumento de amor à pátria, o recrutamento obrigatório passou a ser adotado em todos os países europeus (exceto na Inglaterra). Difundiu-se a ideia de que todos os cidadãos aptos tinham o direito e o dever de defender a pátria. Nascia uma nova e poderosa arma: o nacionalismo.


Carnot na Batalha de Wattignies, Georges Moreau de Tours

Servir o exército também significava prova de virilidade e porta de entrada no mundo adulto. Vestir o uniforme militar era atingir a maturidade, deixar de ser criança, mostrar coragem e potência sexual. Após o serviço militar, os rapazes estavam prontos para o casamento.

Nem todos, porém queriam servir o exército e usavam de vários meios para fugir dele. Alguns casavam com mulheres velhas, para logo depois abandoná-las em troca de alguma ajuda material. Outros fingiam-se doentes, feridos ou inventavam deficiências físicas, como surdez e dificuldade de visão. Havia ainda os que simplesmente fugiam.

A Revolução Francesa contou também com a atuação das mulheres no papel de agitadoras, ou de "bota-fogo", como se dizia na época. Muitas vezes, foram elas as iniciadoras das manifestações populares. Tocavam os sinos chamando a população, rufavam os tambores nas ruas da cidade, zombava, das autoridades e dos soldados, arrastavam os transeuntes, entravam nas lojas, oficinas e casas forçando os indecisos, incitavam os homens à ação, chamando-os de covardes. Um deputado jacobino chegou a afirmar, em 1793: "As mulheres iniciarão o movimento, [...] os homens virão em apoio às mulheres".


Clube Patriótico das Mulheres, Jean-Baptiste Lesueur e Pierre-Etienne Lesueur

Mas a Declaração de Direitos de 1789 não levou em consideração a luta feminina. Em seu título e artigos, aparece o termo "homens", que na época não se referia à humanidade em geral, mas ao ser humano do sexo masculino. As mulheres foram deixadas de lado. Isso não passou despercebido. Em setembro de 1791, a escritora francesa Olympe de Gouges redigiu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã exigindo o direito das mulheres à participação política. Pregava a libertação feminina contra a tirania dos homens. Afirmava que a exploração da mulher pelo homem é a origem de todas as formas de desigualdade.

Olympe de Gouges acabou guilhotinada em 1793, e suas ideias foram rejeitadas pelo governo revolucionário. As mulheres estavam excluídas das decisões das assembleias, das milícias armadas e das comissões locais. Mesmo assim, não ficaram caladas nem ausentes dos acontecimentos políticos. Como cidadãs sem cidadania assistiam às discussões nas tribunas abertas ao público. E como espectadoras continuaram participando: seus gritos, aplausos ou vaias influenciavam os deputados reunidos. Dessa forma controlavam também a atuação política deles.

Na independência dos Estados Unidos, as mulheres americanas atuaram diferentemente das francesas. Elas não foram às ruas e nem assistiram às assembleias políticas. Como mães e donas-de-casa, participaram dos acontecimentos declarando boicote geral aos ingleses. Pararam de comprar os produtos oferecidos pelos comerciantes da Metrópole, desconsiderando até suas ofertas tentadoras de vestidos e chapéus. Deixaram de usar e consumir até os produtos ingleses que tinham estocado em casa e convenceram seus filhos e maridos a fazerem o mesmo. Ofereceram-se como cozinheiras ou lavadeiras para as tropas americanas. Organizaram-se para recolher fundos em favor da causa da independência.

A brutalidade da guerra de independência afetou profundamente as famílias americanas. As mulheres se viram sozinhas para garantir a sobrevivência dos filhos. Tomaram consciência de sua força, de seu valor e capacidade individual. No após-guerra, criaram associações, frequentemente ligadas às Igrejas, destinadas a socorrer as viúvas e os órfãos. Esses grupos consolidaram uma nova forma de atuação social: o trabalho coletivo em benefício da comunidade.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 98-100.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Em nome da liberdade

A prisão da Bastilha, Charles Thévenin

"Torna-se mister uma vontade una [...] Para que ela seja republicana, há necessidade de ministros republicanos, de um governo republicano. Os perigos internos vêm dos burgueses; para vencer os burgueses é preciso o apoio do povo [...] É necessário que o povo se una à Convenção e que a Convenção se utilize do povo.
As revoluções, três anos decorridos, tudo fizeram em benefício de outras classes, e quase nada ainda, talvez, para as mais necessitadas, para os cidadãos proletários cuja única propriedade é o trabalho. O feudalismo está destruído, mas não para eles; nada possuem nos campos libertados. As contribuições são, agora, repartidas de forma mais justa, mas, devido à sua pobreza, eles permanecem quase inacessíveis ao imposto [...] A igualdade civil foi estabelecida, mas a instrução e a educação não os alcançam... Aqui está a revolução dos pobres [...]". 
(Robespierre. Anotações no seu diário e discurso na seção da Convenção, em julho de 1793. Citado por SOBOUL. Albert. A Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Zahar, 1964. p. 283.)

[...] 


A marcha de protesto do povo de Paris e a tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, derrubaram a monarquia absolutista, os direitos feudais e a sociedade estamental, levando ao fim do Antigo Regime na França. Sob o lema iluminista de Liberdade, Igualdade, Fraternidade foi proclamada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e instalado um governo constitucional. Essas realizações seriam suficientes para caracterizar uma revolução. Mas a Revolução Francesa foi ainda mais ampla e profunda.

A notícia de suas conquistas atravessou fronteiras, influenciando outros povos e nações a lutarem pelos mesmos ideais. Na Europa e na América ocorreram movimentos a favor da liberdade e da igualdade. Indivíduos de diferentes nações se ofereceram para ficar lado a lado com os franceses na construção de um novo Estado. Em 1790, por exemplo, cerca de 36 estrangeiros da própria Europa, da Ásia e da América participaram com entusiasmo das discussões que ocorriam na Assembleia Nacional Constituinte. Metade deles recebeu o título de cidadão francês.

Os norte-americanos presentes na Assembleia representavam oficialmente seu país. Os franceses admiravam a nação americana, pois a viam como exemplo do progresso e das liberdades democráticas. Thomas Jefferson influenciou a redação do projeto da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, e Thomas Paine foi um dos principais redatores da Constituição de 1793. Os demais estrangeiros envolveram-se na luta revolucionária por convicção pessoal. Combateram como voluntários no exército francês ou fizeram doações em dinheiro para armar soldados. Foram ardorosos defensores e propagadores dos ideais revolucionários em suas terras de origem.

[...]

No julgamento do rei Luís XVI, pouco antes do Terror, muitos estrangeiros se assustaram com o extremismo dos jacobinos. Thomas Paine, por exemplo, propôs que fosse dado direito de defesa ao rei e, dias antes da execução, defendeu a abolição da pena de morte. Foram suas palavras: "Minha compaixão pelo homem na infelicidade, seja ele amigo ou inimigo, é igualmente viva e sincera". Não conseguiu convencer os franceses, cujo ódio à monarquia absolutista os fez esquecer as ideias iluministas de tolerância e fraternidade. Luís XVI e sua família foram guilhotinados e, como eles, milhares de franceses de todas as camadas sociais.

Com o Terror, muitos revolucionários estrangeiros ficaram desiludidos. Os norte-americanos decidiram não apoiar mais a França, pois não podiam esquecer a ajuda enviada por Luís XVI à sua própria revolução. Os excessos e o radicalismo do Terror destruíram o clima de fraternidade universal e solidariedade humana existente nos primeiros anos da Revolução Francesa. Restaram o medo, o desespero e a arbitrariedade. O poeta inglês William Wordsworth (1770-1850) escreveu que o Terror lhe revelou "o que o homem pode fazer com o homem".


Caricatura: O zênite da glória francesa, James Gillray

["Esta ilustração é bastante negativa, tem um caráter de sátira. A figura central, com o barrete, símbolo dos revolucionários, tem um aspecto maligno e grosseiro. A personagem está satisfeita com as execuções à sua volta. Porta um violino, talvez para acompanhar com música o espetáculo sangrento que se desenrola ao seu redor".] PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 154


[...]

O perigo de todo radicalismo é a intolerância e o fanatismo. O intolerante não vê o outro e não aceita a convivência com os diferentes. O fanático prega sua verdade e não compreende qualquer outro tipo de explicação. Por isso, o extremista não consegue julgar com clareza e bom senso. A grande maioria dos guilhotinados no período do Terror era gente do povo, homens e mulheres comuns que foram acusados de favorecerem os nobres (por exemplo, serviram como seus criados) ou de não demonstrarem suficiente ardor revolucionário.

Diante de uma multidão enraivecida pelo radicalismo, ninguém tinha coragem de defender o acusado, com medo de acabar sendo apontado como suspeito. A História está repleta de exemplos de radicalismos que, em nome do povo, acabaram fazendo de vítima toda a nação.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 67-8.

sábado, 23 de agosto de 2014

As mudanças no cotidiano na época da Revolução Francesa

Os amotinados de Fouesnant presos pela Guarda Nacional de Quimper em 1792, Jules Girardet

A revolução que provocou mudanças políticas, econômicas e sociais na França também modificou bastante o dia a dia dos franceses. Grande parte do tempo passou a ser dedicado aos debates políticos. Muitas vezes as discussões sobre assuntos políticos se estendiam até a noite. Para garantir a continuidade da discussão, os revolucionários não voltavam para casa. Eles se dirigiam aos cafés, onde continuavam a debater sobre os problemas do governo revolucionário.

Somente ao chegar em casa faziam a principal refeição do dia. Assim, o jantar - antes servido à tarde - passou a ocorrer cada vez mais tarde, quase sempre à noite.

Outra modificação nos costumes propiciada pela revolução foi a participação das mulheres nas discussões políticas. Na fase inicial, muitas mulheres participaram ativamente da revolução. Em pé de igualdade com os homens, estavam presentes nas jornadas militares, manifestações, debates políticos e festas, especialmente no período de maior radicalização da revolução.


Batalha de Torfou: as mulheres de Tiffauges barram o caminho Vendéens aos amedrontados Mayençais conduzidos por Kleber, Alfred de Chasteignier

Os camponeses em geral mantiveram seus antigos hábitos e costumes, apesar das mudanças revolucionárias que lhes garantiram a posse da terra e a abolição das obrigações feudais. No entanto, o calendário foi alterado pela Convenção e as antigas festas camponeses, como o agradecimento pela colheita e o plantio de árvores em maio, tiveram suas características modificadas. Rituais e símbolos introduzidos pela revolução substituíram os anteriores, de influência católica. A árvore passou a representar a liberdade e a tradicional fogueira era vista como uma queima dos vestígios do Antigo Regime.

Também foram introduzidas mudanças no vestuário de muitos dos franceses. Os participantes mais ativos das jornadas revolucionárias se distinguiam pelo uso frequente de uma espécie de gorro vermelho. Também chamado de barrete frígio, ele era considerado um símbolo da República e do apego à liberdade. O hábito de usar perucas semelhantes às da nobreza foi abandonado por muitos dos revolucionários.

As roupas das mulheres também passaram por mudanças, com o abandono dos vestidos armados e a adoção de longas túnicas que imitavam as vestimentas da Antiguidade grega e romana.

Os novos costumes introduzidos pela revolução afetaram ainda a organização familiar. Houve certa diminuição do poder dos pais sobre seus filhos, pois o governo revolucionário procurava educar desde cedo as crianças nos valores revolucionários. Essa educação era realizada nas escolas, criadas em grande número nesse período.

No entanto, a principal intervenção do governo revolucionário na vida familiar dos franceses daquele período foi a instituição do casamento civil. A cerimônia de casamento passou a ser realizada por um funcionário do Estado, e não mais pelos membros do clero. Além disso, foi bastante ampliado o direito ao divórcio, permitido em casos de insanidade, crimes, agressões físicas, abandono por mais de dois anos ou emigração de um dos cônjuges.

DREGUER, Ricardo; TOLEDO, Eliete. Novo História: conceitos e procedimentos. São Paulo: Atual, 2009. p. 46.


NOTA: O texto "As mudanças no cotidiano na época da Revolução Francesa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A 1ª Guerra Mundial: As revoluções [Parte VI]

Cartaz bolchevique, 1922

No final de 1916, muitas das forças em guerra passavam por um momento de descontentamento tão generalizado que havia a possibilidade de motins. O número de baixas aumentava, as trincheiras no inverno tornavam-se abomináveis e uma vitória absoluta já não parecia ao alcance de nenhuma das partes. O moral baixo das forças armadas contaminava a população civil, e as cartas escritas pelos soldados - mesmo quando censuradas - aumentavam ainda mais as dúvidas em seus lares. O primeiro exército a desintegrar-se poderia determinar o resultado da guerra.

As forças russas foram as primeiras a se enfraquecer. A perda de oficiais no primeiro mês de guerra havia sido alta. Devido ao bloqueio nos Bálcãs e no Estreito de Dardanelos, não chegavam a elas os suprimentos necessários, enviados por seus aliados do além-mar. Muitos soldados russos não possuíam rifles nem calçados e, em diversos pontos da extrema fronteira que ia dos Bálcãs ao Mar Negro, estes vinham sendo obrigados pelos alemães e pelos austro-húngaros a recuar lentamente. A imprensa em Paris e Londres raramente relatava notícias perturbadoras, como o fato de soldados russos, aliados seus, ficarem contentes por tornarem-se prisioneiros de guerra e de quase 1 milhão ter desertado.

Czar Nicolau II revista suas tropas durante a 1ª Guerra Mundial. Foto: Foto: Bruckmann, F

O enfraquecimento do exército agravava a terrível atmosfera de medo e descontentamento na Rússia. O povo, como um todo, era muito patriótico, mas via a nação diante da perspectiva de ser derrotada no terceiro conflito seguido. Após perder a Guerra da Crimeia, na década de 1850, e a guerra contra o Japão, em 1905, a Rússia enfrentava uma situação ainda mais triste. Nenhuma grande nação, no último século, havia sofrido uma derrota tripla.

A família real, foco tradicional da lealdade, desapontou os legalistas. O czar Nicolau II, comandante-chefe das forças armadas, perdia a popularidade a passos largos. Sua mulher, Alexandra, a czarina, também cada vez menos popular, era cativa voluntária do carismático monge Rasputin, cujos poderes curativos pareciam surtir efeito sobre o filho dela. Nas cidades, os suprimentos de comida e combustível eram irregulares. No final de 1916, levantes ocorridos nas indústrias eram frequentes.

Revolucionários protestando, fevereiro de 1917. 
Fotógrafo desconhecido

Com tantos homens no front, a quebra na rotina das atividades econômicas diárias tornou-se aguda. A inflação crescia muito mais do que os salários. Entre 1913 e 1917, o preço da farinha triplicou, o do sal quintuplicou e o da manteiga aumentou mais de oito vezes. Muitas famílias passavam ainda mais fome do que nos períodos de paz, em parte porque as estradas de ferro não davam conta de carregar, ao mesmo tempo, comida e suprimentos de guerra.

Tropas russas esperando um ataque alemão em uma trincheira. Foto: George H. Mewes

Era comum ver longas filas de donas de casa, empregadas e crianças esperando sob neve e granizo no lado de fora das padarias, na esperança de comprar pão. A comida era também escassa na Alemanha e na Grã-Bretanha, mas esses países haviam sabiamente delineado sistemas de racionamento que incluíam todos os cidadãos. A Rússia era diferente. Habilidosa no racionamento da liberdade, a nação foi incapaz de lidar com a tarefa mais simples de racionar farinha e açúcar de modo que todos pudessem ter sua parte. A inaptidão administrativa em muitas esferas da vida nacional causava descontentamento.

O czar tentou suprimir os sinais da revolução retirando oficiais e soldados leais da linha de frente do combate. Os ferroviários se negaram a transportá-los. Em março de 1917, Nicolau II foi obrigado a abdicar. Uma coalizão de cidadãos, incluindo um dos homens mais ricos da Rússia, formou um novo ministério na esperança de vencer a guerra e revitalizar a nação. Reformistas - e não revolucionários - ofereceram esperança. No entanto, seus principais oponentes, membros do extremamente organizado partido bolchevique, haviam decidido que seriam os únicos a dar esperança ao povo.

O líder dos bolcheviques, o intelectual conhecido como Lenin - pseudônimo adotado em 1901 - estava exilado, tendo vivido por períodos variados na Inglaterra, na França, na Áustria e na Suíça. Forte e elegante, era um homem de altura pouco abaixo da média, com testa larga, queixo firme e talento para discursos vigorosos. Lenin traçou estratégias astutas para seu partido e tirou vantagem das poucas oportunidades que se lhe apresentaram. Porém ainda não ousava retornar à Rússia em carne e osso.

Lenin discursando para as tropas do Exército Vermelho, Sverdlov Square, Moscou, 5 de maio de 1920. 
Foto: Goldshtein G.

Por fim, em abril de 1917, com o dinheiro e a bênção oficial da Alemanha, Lenin e alguns companheiros viajaram em um vagão ferroviário protegido, deixando o exílio na Suíça, passando pela guerra na Alemanha, atravessando os Bálcãs em uma balsa até a Finlândia russa e chegando de trem a São Petersburgo, onde foram recepcionados alegremente pelos bolcheviques. Liderando as manobras políticas, Lenin trabalhou diligentemente para fundar o que chamava de "uma ditadura revolucionário-democrática do proletariado e da classe camponesa". Seu desejo era realizar uma revolução em seu país natal, para depois estendê-la a outros países. Prosseguir com a guerra não era de seu interesse: na verdade, ele a via como uma distração perigosa. Por isso, o governo alemão secretamente lhe dera dinheiro e o mandara para casa: o sucesso de Lenin serviria a seus propósitos.

Lênin na fábrica Putilov em maio de 1917, Isaak Brodsky

Kerensky, o ministro da Guerra do novo governo, esperava que um último apelo ao patriotismo russo resultasse em vitórias no front oriental. Até mesmo viajou de automóvel com o general Brusiloff pelas linhas de combate, na esperança de incentivar os soldados russos a repelir o inimigo em uma última ofensiva triunfante. O contra-ataque russo falhou. Os alemães avançaram, encontrando cada vez menos resistência. Muitos soldados russos simplesmente se desfizeram de seus rifles. Muitos nem sequer possuíam um rifle.

Na França e na Grã-Bretanha, havia a preocupação de que os bolcheviques pudessem tomar o controle e retirar as forças russas da guerra. Mas talvez a balança pudesse ser desequilibrada se os judeus russos, em grande número e alguns dos quais poderosos dentro dos novos movimentos políticos, fossem convencidos a continuar lutando contra a Alemanha. Uma oferta tentadora foi feita. Em 2 de novembro de 1917, pouco antes de os bolcheviques tomarem o poder, o secretário do Exterior britânico Arthur Balfour declarou que, depois que a guerra terminasse, seu país apoiaria a criação de uma nova pátria judaica na Palestina. Delegados judeus foram enviados a São Petersburgo para anunciar o que mais tarde viria a ser conhecido como Declaração Balfour. O Oriente Médio jamais seria o mesmo, pois Balfour cumpriu a promessa.

Ataque da polícia czarista durante os primeiros dias da revolução de março de 1917. 
Foto: Autor desconhecido

O comandante das forças russas não conseguiu controlar os bolcheviques e outros agitadores, que, em seus dias de maior eficácia, praticamente tomaram as ruas da capital. Lenin, que durante o tumulto retirara-se para um esconderijo na Finlândia, preparou-se para aproveitar o caos que havia ajudado a criar. Retornou a São Petersburgo disfarçado, com a barba cortada e uma peruca cobrindo a calvície. Na noite de 6 de novembro, escreveu uma mensagem urgente aos camaradas mais experientes: "Precisamos a todo custo, na noite de hoje, tomar o governo."

Ao longo da noite, seus homens - preparados pelo hábil Leon Trotsky - tomaram estações de trem, correios, a companhia telefônica, bancos, centrais elétricas, pontes importantes sobre canais e rios e todos os centros nervosos da capital. Em Moscou, o Kremlin foi dominado. No controle de muitas cidades, Lenin se tornou oficialmente o líder do primeiro Conselho de Comissários do Povo.

Embora ela tivesse vencido, o perigo de um contra-ataque por parte de seus inimigos era grande. Os camponeses - os quais formavam a maior parte da população russa - provavelmente se oporiam a um governo comunista. Mas o líder estava um passo à frente. Havia prometido a eles terras gratuitas, embora não acreditasse na propriedade privada. Ao oferecer terras e ao mesmo tempo deixar de pagar aos grandes latifundiários pelas propriedades confiscadas, agradava aos camponeses e aos radicais da cidade. Assim, os comunistas, como passaram a se denominar, tornaram-se promotores do capitalismo rural.

Lenin estava determinado a tirar a Rússia da guerra. Queria paz, para poder construir uma sociedade revolucionária que inspirasse os socialistas de toda a Europa. Ainda assim, a assinatura de um tratado de paz com a Alemanha e a Turquia, em março de 1918, na cidade de Brest-Litovsk, no oeste da Rússia, representou um golpe humilhante para os patriotas russos. Partes do território do país passaram às mãos da Alemanha, da Romênia e da Turquia. Por algum tempo, até mesmo a Ucrânia e a Geórgia foram perdidas, embora tenham sido mais tarde retomadas. Logo a Polônia, a Finlândia e as três províncias bálticas de Letônia, Estônia e Lituânia se tornaram nações independentes. O fato de uma vasta extensão de áreas produtoras de grãos ter saído do domínio de Lenin agravou a escassez de comida na nova terra dos experimentos.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 65-69.

NOTA: O texto "A 1ª Guerra Mundial: As revoluções [Parte VI]" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Revolução Mexicana

O descontentamento com a desigualdade social crescia em todos os setores populares, exprimindo-se de forma mais dinâmica nas greves operárias conduzidas por anarco-sindicalistas e, sobretudo, nos levantes espontâneos de camponeses, comandados por caudilhos; esmagados ambos com a mais feroz repressão. As classes médias urbanas de empregados agitavam-se em movimentos de inspiração liberal e sua facção intelectual pregava a revolução socialista.

Uma situação francamente revolucionária só se criou em 1910, quando a este descontentamento generalizado se somaram dois fatos novos. Primeiro, uma grave dissensão no patriciado político motivada pelo continuísmo de Porfírio Diaz que, aos oitenta anos, pleiteava sua reeleição depois de exercer cinco mandatos presidenciais consecutivos. Segundo, e principalmente, o surgimento de duas lideranças camponesas autênticas: a de Emiliano Zapata, no estado de Morelos, ao sul, e a de Francisco Villa, em Chihuaha, ao norte, ambos à frente de exércitos armados de machetes e escopetas, já não apenas clamando pela devolução das terras aos seus verdadeiros donos, mas expulsando os latifundiários das fazendas e distribuindo a terra aos lavradores.


Pancho Villa - 3º à direita - junto com outros revolucionários em 1913.

Sucedem-se, nas cidades, as proclamações libertárias contra a reeleição e pelo sufrágio efetivo; pelas liberdades públicas, pela educação popular; por todas as reivindicações sociais então em voga, como a jornada de oito horas, o salário mínimo pago em dinheiro, a proteção ao trabalho do menor, a indenização por acidentes de trabalho, a igualdade de pagamento para mexicanos e estrangeiros; e, ainda, pela obrigatoriedade de fazer produtivos os latifúndios por parte dos proprietários, sob pena de confisco para distribuição aos camponeses sem terra.

[...] Simultaneamente, porém, se alastraram as insurreições camponesas cujos líderes, não se contentando com a satisfação das aspirações presidenciais de Madero, exigiam a reforma agrária. Zapata lança o Plan de Ayala, declarando que não deporia as armas até que se devolvesse aos ejidos e aos camponeses todas as terras de que haviam sido despojados pelos fazendeiros. Inicia-se, assim, a verdadeira revolução social mexicana que convulsionaria todo o país e prosseguiria em lutas sangrentas até 1919.

RIBEIRO, Darcy. As Américas e a Civilização: Estudos de Antropologia da Civilização. Petrópolis: Vozes, 1979. p. 131.

NOTA: O texto "Revolução Mexicana" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Camponeses revolucionários no México zapatista

Aparentemente os camponeses, que constituíam a maioria da população e eram quase todos analfabetos e miseráveis, lutavam unicamente para reconquistar as terras que lhes tinham sido usurpadas pelos latifundiários. O chefe mais importante do movimento camponês, Emiliano Zapata, havia escrito:

A revolução sustentada pelos sulistas definiu, de maneira clara e sem reticências de qualquer espécie, as três grandes bandeiras da questão agrária: restituição de terras ao povo ou cidadãos e expropriação e confisco, por motivo de utilidade pública, dos bens dos inimigos do Plan de Ayala.

Fruto das aspirações camponesas, o ideário zapatista foi exposto, com a simplicidade de seus autores, nesse plano que data de novembro de 1911 e pode ser considerado o primeiro documento revolucionário - excluindo alguns escritos do anarquista Ricardo Flores Magón - que colocou o problema da terra e dos trabalhadores no centro da luta social. Insistentemente se atribui ao movimento zapatista um caráter localista, conservador e até reacionário, por reivindicar um direito comunitário pré-hispânico. Entretanto foi ele que levantou como bandeira insurrecional uma questão nacional, que unia todos os deserdados do país, os milhões de camponeses expropriados e humilhados durante quatrocentos anos. O zapatismo teve o mérito de desencadear a revolução entre as massas camponesas que até aquele momento eram apenas iludidas pelo discurso emocionado dos madeiristas (partidários do general Madero).


Zapatistas no sítio El Jilguero

Em um manifesto de agosto de 1914, os zapatistas colocavam a razão de sua rebelião, da revolução camponesa, em termos de luta de classes:

O camponês tinha fome, era miserável, sofria exploração; e se empunhou armas foi para obter o pão que a avidez do rico lhe negava para apossar-se da terra que o latifundiário, egoisticamente, guardava para si, para reivindicar sua dignidade, ultrajada, perversamente, todos os dias. Lançou-se à revolta não para conquistar ilusórios direitos políticos, que não matam a fome, mas para conseguir um pedaço de terra que lhe possa proporcionar alimentação e liberdade, um lar feliz, e um futuro de independência e engrandecimento.

Contudo, a revolta não visava apenas derrotar o latifundiário, o comerciante, o homem rico, que sufocavam a existência do camponês, mas construir uma sociedade mais justa, igualitária, onde o trabalhador se reencontraria consigo mesmo e com seu próprio trabalho; uma sociedade baseada no trabalho coletivo de indivíduos concretos, que não se deixariam explorar pela classe burguesa. No mesmo documento, os camponeses manifestavam-se contrários a esse tipo de sociedade, ilusória e mentirosa, que os humilha e asfixia, prende-os à miséria e os violenta:

Todas essas belezas democráticas, todas essas grandes palavras com que nossos avós e nossos pais se deleitaram perderam seu poder mágico de atração e sua significação para o povo. Ele já percebeu que com eleições ou sem eleições, com sufrágio universal ou sem ele, com ditadura porfiriana ou com democracia maderista, com imprensa amordaçada ou com libertinagem de imprensa, sempre e de todas as formas, ele continua ruminando suas amarguras, sofrendo misérias, engolindo humilhações infindáveis; por isso teme, com razão que, os libertadores de hoje tornem-se iguais aos caudilhos de ontem que na cidade de Juarez abdicaram de seu belo radicalismo e no Palácio Nacional lançaram ao esquecimento suas sedutoras promessas.

A revolução camponesa, por sua ação e seu ideário, forçou o movimento maderista e em seguida o constitucionalismo carrancista a voltarem-se para a problemática social, reorientando todo o processo mexicano para a ultrapassagem da meta político-administrativa. [...] os líderes constitucionalistas Carranza e Obregón compreenderam que a única forma de neutralizar a revolução camponesa seria a adoção de suas bandeiras, o que lhes permitiria acabar com as lideranças do movimento. Carranza, especialmente, percebeu de imediato o sentido da revolução mexicana como o confronto irremediável entre as duas classes fundamentais da sociedade naquele momento.

A partir dessa constatação, o zapatismo, principalmente, transformou-se em um espinho atravessado na garganta da burguesia. Esta viu-se obrigada a desenvolver um projeto político-social que veio a ser, sem dúvida alguma, o mais poderoso sistema de dominação e controle político de toda a história da América Latina. A "democracia" mexicana, em que o presidente da República, como um monarca de tempos passados decide, entre outras coisas, quem será o seu sucessor, nasceu com a revolução e em consequência da necessidade que a burguesia tinha de esmagar, para sempre, a revolução camponesa.

BRUIT, Hector H. Revoluções na América Latina. São Paulo: Atual, 1988. p. 23-26.

NOTA: O texto "Camponeses revolucionários no México zapatista" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O significado das revoluções

Alguns acontecimentos do passado ganharam destaque e tornaram-se temas polêmicos entre os historiadores. A característica desses acontecimentos é terem sintetizado as inquietações e os sonhos de uma época de maneira emblemática; é terem envolvido multidões, consagrado heróis, rompido com hábitos sociais, embalado desejos de diferentes camadas sociais. A partir deles definiram-se trajetórias decisivas e novos rumos para a História. A esses momentos históricos chamamos de revoluções.


Revolução de 1848 em Berlim. Artista desconhecido

A ideia de revolução envolve ruptura com o passado, introdução do novo, encontro com o futuro. Os revolucionários sentem-se inaugurando uma época diferente; por isso criam-se calendários, criticam-se os antepassados.

Toda revolução busca a realização de utopias. Os agentes da revolução acreditam na transformação social e na idéia de progresso; para eles o presente é sempre melhor que o passado, e o futuro é a possibilidade de uma sociedade próxima da perfeição.

A revolução não se dá sem conflito, uma vez que ela é o momento em que as lutas políticas de cada grupo da sociedade se radicalizam, e a violência pode ganhar dimensões inesperadas. Entretanto, para que uma revolução possa ser considerada vitoriosa, não bastam vitórias em batalhas: é preciso que seu caráter de renovação se consolide.


REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 331-332.

NOTA: O texto "O significado das revoluções" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O significado da Revolução Iraniana

A revolução iraniana concentrou todos as contradições do desenvolvimento histórico do país, em especial em sua fase moderna e contemporânea, como semicolônia dos imperialismos russo e britânico, no século XIX e na primeira metade do século XX, e do imperialismo norte-americano, depois da Segunda Guerra Mundial. A questão democrática (luta contra a monarquia) e a questão agrária, não resolvidas pelo desenvolvimento capitalista raquítico e dependente do país, puseram-se contra o pano de fundo do desenvolvimento desigual e combinado de sua economia, que gerou uma moderna indústria petroleira, e um proletariado que, embora minoritário, ganhou forte poder econômico e político. A classe operária estava concentrada nos centros de produção de petróleo para exportação e na área de serviços de todo tipo, além da indústria dirigida ao mercado interno, concentrada na periferia da capital, Teerã.

Em 1978-79, produziu-se no Irã o vertiginoso desenvolvimento de um movimento revolucionário, no qual, inicialmente, a classe operária lutou pela direção da mobilização de todos os explorados, movimento que desmantelou o Estado e criou uma situação  revolucionária. A revolução no Irã, no entanto, debutou como um vasto movimento democrático dirigido pela burguesia nativa. Esse foi o caráter do movimento em seus inícios, quando tinha seu centro na cidade santa de Qom, onde a hierarquia religiosa xiita se pôs à cabeça da mobilização de massas contra o regime ditatorial do xá. Durante dois anos, o caráter e o ritmo do movimento – sua direção – foram garantidos e controlados pela hierarquia islâmica, financiada pela burguesia comercial e financeira do Baazar.  O enfrentamento entre esse setor e o regime monárquico dominava o centro da cena política, bloqueando uma ação histórica independente das massas.


Manifestação contra o xá, 1978

A intensificação do enfrentamento teve, porém, conseqüência não desejada por nenhuma das frações burguesas ou clericais em disputa: a crescente afirmação do proletariado no interior do movimento democrático e antiimperialista. Uma transformação do processo revolucionário aconteceu quando o proletariado começou a combater com seus próprios métodos (greves, ocupação de fábricas) o regime do xá. A ampliação do combate democrático levou a classe operária a tornar-se mais independente da direção burguesa e religiosa.


Greve dos trabalhadores do petróleo, 1978

O centro geográfico do movimento deslocou-se então para as regiões petroleiras de Abadan e para a própria capital, Teerã. Foi a partir da greve geral petroleira de outubro de 1978 que começou a contagem regressiva do governo do xá. E foi também a partir dessa data que começaram a se desenvolver os comitês operários nos centros petrolíferos e no cinturão industrial de Teerã, além de 105 comitês de bairro na própria capital. As ações testemunhavam a vontade do movimento operário de imprimir seu selo de classe à revolução democrática, transformando-a.

Foi a transformação interna da mobilização revolucionária que determinou que a original intransigência da direção khomeneista fosse cedendo lugar à vontade de saída nos quadros do regime, uma transição que preservasse o Exército, mas que incluísse também as frações burguesas que haviam sido excluídas.

A tentativa de conciliação com o antigo regime (que acenara até com a possibilidade de uma monarquia constitucional) foi evidente quando o primeiro-ministro Barzagan confessou a existência de um acordo, do qual um aspecto era a nomeação de Chapour Bakhtiar (membro da Frente Nacional de Oposição) como primeiro-ministro, pelo próprio xá: “Estimávamos que devíamos organizar, depois da partida do xá e da instauração de um Conselho da Coroa, eleições gerais e livres, que teriam aberto a via para a designação de uma Assembléia Constituinte, para transformações radicais, e depois a transferência do poder”. Chapour Bakhtiar, presidente do Conselho, teria apoiado esse projeto, do mesmo modo que os chefes do Exército e da polícia, segundo o bem informado correspondente sur place de Le Monde, em 15 de maio de 1979.


O povo em armas, Teerã, fevereiro de 1979

Mas o movimento proletário expresso na greve geral já possuía um alto grau de independência em relação à direção burguesa, e tinha por trás um colossal movimento de massas. Sua expressão foi a insurreição popular de 10, 11 e 12 de fevereiro de 1979, que quebrou o Exército imperial e assistiu à tomada de armas por parte do povo. Isso liquidou os planos de transformação pacífica da monarquia. “Eu não tinha ainda declarado a guerra santa”, disse Khomeini posteriormente. Por isso, a repressão contra a esquerda e o movimento organizado dos trabalhadores começou imediatamente depois de vitoriosa a revolução democrática antimonárquica, dando papel decisivo às milícias islâmicas. Estas foram depois transformadas em Guardiões Revolucionários, conquistando enorme poder político no novo Estado, com o qual a hierarquia xiita teve que contar. O que, até certo ponto, limita o próprio poder dos mulás.


Soldados em confronto com estudantes revoltosos nos portões da Universidade de Teerã, 1978

Ainda em 1979, quando a direção burguesa queria dar por terminada a revolução, para as massas ela recém-começava. A auto-organização operária se manteve, pelo menos, até 1981 nos principais centros industriais e fez pairar o fantasma de uma segunda revolução, social, mais radical, não só no Irã, mas em toda a região, na Arábia Saudita em primeiro lugar. Os comitês khomeneistas começaram então a competir, inicialmente e depois a chocar abertamente, até mesmo militarmente, com os comitês independentes surgidos da insurreição popular. O confronto estendeu-se desde setembro de 1978 até fevereiro do ano seguinte. O primeiro-ministro Barzagan resumiu a situação nestes termos, dirigidos aos correspondentes estrangeiros: “Vocês não concebem a que fantástica pressão popular estamos sendo submetidos, todos, sem exceção.”

A mobilização revolucionária impediu um acordo pacífico entre a burguesia nacional e o imperialismo, que até mesmo buscou um terreno de entente com a própria hierarquia xiita. Khomeini chegou a afirmar que o fuzilamento de homens do regime do xá tinha função preventiva, pois, caso o novo regime não executasse alguns altos personagens imperiais, “o povo teria realizado um verdadeiro massacre”.


Clérigos e soldados dão as mãos em sinal de amizade, fevereiro de 1979

A força social da classe operária e dos setores mais pobres e explorados, porém, não se transformou em força política independente, pela política carente de independência em relação ao clero xiita ou à burguesia bazaari das principais correntes de erquerda, os fedayyin marxistas, os mujaheedeen islamo-marxistas e, sobretudo (pela sua força nos sindicatos e centros petroleiros) o Tudeh. O partido, dependente da burocracia da União Soviética, revelou uma posição reacionária, por sua política mundial, nos momentos decisivos do enfrentamento antiimperialista (ocupação da embaixada norte-americana em Teerã).

Diante do temor e da fraqueza da burguesia iraniana diante do movimento dos explorados, da dissolução do Exército imperial e da carência de independência política real da classe operária, o clero xiita pôde jogar papel de arbitragem que se estendeu por todo um período histórico, chegando até hoje. Essa arbitragem o pôs à cabeça do Estado islâmico, no qual as instituições representativas, eleitas em escrutínio, estão subordinadas a instâncias não-eleitas (pela maioria da população) próprias à instituição religiosa, configurando um regime de natureza bonapartista-teocrática.

Logo depois da revolução, a guerra contra o Iraque atenuou as suas contradições internas e serviu também como álibi já não só ideológico, mas também militar, para a repressão contra a esquerda e o movimento operário independente. O fracasso do empreendimento bélico iraniano (afinal, o verdadeiro motivo do enforcamento de Saddam Hussein, vinte anos depois) fortaleceu o bonapartismo xiita e deu o lugar central do Estado a sua milícia armada.

A partir de meados da década de 1980, o declínio dos preços internacionais do petróleo acrescentaria um fator econômico à queda do poder da classe operária. Com o desemprego, a queda da renda nacional e as perdas salariais, a luta dos trabalhadores retrocedeu e voltou a seus níveis mais elementares.

Os acontecimentos atuais demonstram que, apesar de suas inúmeras limitações, a revolução iraniana de 1979 alterou decisivamente o equilíbrio político do Oriente Médio, e se projetou como um poderoso fator de crise política mundial. A população do Irã, que era de 34 milhões na época da Revolução Islâmica, pulou para 70 milhões, hoje, sendo que 65% dela tem menos de 25 anos de idade. Esses jovens formam a população mais instruída do país de todos os tempos, pois o índice de alfabetização nunca foi tão alto, tendo passado de 59% para 82%, nos últimos vinte anos. Mas não é fácil ter vinte anos no Irã, hoje: 40% dos jovens estão desempregados.

As novas gerações iranianas encaram novos desafios, que põem novamente o Irã no centro da tormenta política mundial. A “questão iraniana” se projeta para todo o Oriente Médio, demonstrando que a solução dos problemas da própria revolução tem por palco decisivo a arena internacional. Um combate antiimperialista conseqüente terá o efeito de trazer à baila as contradições políticas internas do país e, sobretudo, as suas contradições de classe. A experiência política do último quarto de século será decisiva. De sua assimilação depende a retomada do fio condutor com toda a longa tradição revolucionária do país de Mazdak e Sultanzadé, da reconstituição de seu elo histórico e de classe com a luta socialista dos explorados do mundo todo.

COGGIOLA, Osvaldo. A Revolução Iraniana. São Paulo: UNESP, 2008. p. 139-143. (Revoluções do século 20).

NOTA: O texto "O significado da Revolução Iraniana" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Revolução Francesa (1789-1799)

A Revolução Francesa (1789-1799) foi o grande marco na história política da Europa moderna. Ela representou grandes rupturas com o poder real e o fim da sociedade estamental. Dela surgiram vocabulários, projetos políticos, códigos legais, novas noções de justiça, o voto universal masculino, a ideia de escola pública e até mesmo um novo sistema métrico.


Sans-culotteLouis Léopold Boilly. 
Os sans-culottes (literalmente, sem culote) eram assim chamados por não usarem as roupas típicas dos nobres, caracterizados por um calção curto (culote) e meias brancas até a altura dos joelhos. Eles andavam armados e tiveram grande importância em todo o desenvolvimento da Revolução Francesa. 
 
A crise financeira e as diferentes insatisfações sociais podem ser apontadas como pontos importantes do período pré-revolucionário. A estrutura da sociedade francesa apresentava um mundo “desigual em direitos”, separada em clero, nobreza e terceiro estado. A maior parte da população pertencia ao terceiro estado, responsável pela sustentação econômica do país. No entanto, o primeiro e o segundo estado detinham antigos privilégios, tais como direito a pensões e isenções de impostos, além de poderem ocupar cargos políticos.


Charge representando o terceiro estado carregando o clero e a nobreza nas costas.

Desse modo, a população custeava a França, seu aparelho burocrático, bancava o luxo da corte e patrocinara duas guerras em que o país se envolveu: a Guerra dos Sete Anos [...] e a Independência dos Estados Unidos [...]. Ao mesmo tempo, os membros do terceiro estado não tinham direitos políticos nem eram considerados cidadãos.

Luís XVI, rei desde 1774, consultou seus ministros. A solução era fazer o primeiro e o segundo estados pagarem impostos. Com o intuito de discutir esse problema, foi marcada a Assembleia dos Notáveis, em fevereiro de 1788. Sem que houvesse resolução, Luís XVI convocou os Estados-gerais, reunidos em maio do ano seguinte no Palácio de Versalhes.

Em junho de 1789, o terceiro estado se reuniu em Assembleia Nacional, e Luís XVI propôs uma reforma. A revolução já estava em curso. A proposta foi recusada, e uma Assembleia Constituinte foi formada. O historiador Georges Lefebvre batizou esse momento de “o grande medo”. No dia 4 de julho de 1789, houve a queda da Bastilha, em que a população invadiu uma antiga prisão, símbolo do poder real. No mês seguinte, no dia 26, foi publicada a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, documento-chave que propunha a igualdade de direitos.


A tomada da BastilhaHenri Paul Perrault.
"[...] Em tempos de revolução nada é mais poderoso do que a queda de símbolos. A queda da Bastilha, que fez do 14 de julho a festa nacional francesa, ratificou a queda do despotismo e foi saudada em todo o mundo como o princípio da libertação. [...] a queda da Bastilha levou a revolução para as cidades provincianas e para o campo. [...]" HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. p. 79-80.

Em 1791, ficou pronta a primeira Constituição revolucionária, marcada pelo fim dos privilégios feudais. Sem rumo e poder, Luís XVI tentou fugir, a fim de organizar exércitos e armar a contrarrevolução. No entanto, foi preso em agosto de 1792, em Varenne. Em setembro, foi organizada a República Jacobina, marcada pela figura de Robespierre e pela formação do Comitê de Salvação Pública. O regime do “Terror” usaria todos os meios para manter os jacobinos no poder. O uso da guilhotina e a morte de milhares de franceses marcaram a radicalização da revolução. O próprio rei foi julgado e executado em janeiro de 1793. A rainha Maria Antonieta, em outubro do mesmo ano. Danton e Marat, líderes revolucionários, também foram executados.

No ano de 1794, os girondinos retomaram o poder, e o próprio Robespierre foi executado. O governo do Diretório, entre os anos de 1795 e 1799, marcou a fase final do movimento, antes da ascensão de Napoleão Bonaparte, no célebre golpe de 18 Brumário.

A Revolução Francesa marcou o início da Idade Contemporânea, o fim do absolutismo e dos privilégios feudais e ajudou, certamente, a formar os alicerces do Estado liberal e democrático a partir de um novo conceito de revolução: a ruptura com a ordem e a proposta de algo novo.

Marcus Vinícius de Morais. Revolução Francesa. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 59-60.

NOTA: O texto "Revolução Francesa (1789-1799)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Revolução Americana (1776-1783)

A Inglaterra se envolveu em uma série de conflitos, a maioria contra a França. Durante o final do século XVII e todo o XVIII. Em todas essas guerras, homens das 13 colônias inglesas na América foram requisitados para defender as possessões britânicas contra os franceses, que sempre buscavam alianças com nações indígenas, oferecendo terras a eles.

Um dos exemplos mais conhecidos foi a Guerra dos Sete Anos (1756-1763). Mesmo com a vitória inglesa, a guerra causou enormes prejuízos aos cofres britânicos. Para reequilibrar seu orçamento, a Coroa passou a cobrar pesados impostos das colônias.

Paralelamente, a Inglaterra iniciava a Revolução Industrial e necessitava, cada vez mais, de matéria-prima e mercados consumidores para seu crescente potencial produtivo, para o qual as 13 colônias tinham papel fundamental.

Como decorrência da Guerra dos Sete Anos, a Inglaterra iniciou uma política de repressão econômica que objetivava controlar a economia das colônias. Uma série de leis e taxações foi promulgada pela Coroa e amplamente questionada pela população das 13 colônias.

Para o professor Bernard Baylin, essas leis apenas contribuíram para instigar um sentimento de indignação que já existia entre os colonos. Por meio de panfletos que circulavam por todas as colônias, os principais intelectuais mostravam sua insatisfação contra a metrópole. Atos de protesto e boicotes a produtos ingleses ocorriam por toda parte. Ao contrário da Revolução Francesa, o objetivo não era instaurar uma nova ordem sociopolítica, mas manter as liberdades existentes antes do controle rígido da Inglaterra.


Boston Tea Party, Nathaniel Currier

Unidos mais por um sentimento anti-inglês que por nacionalismo, os colonos convocaram, em 1774, o Primeiro Congresso da Filadélfia. Diante da contínua negação de representatividade no Parlamento inglês e de ações militares intimidadoras, organizou-se um novo congresso, ainda na Filadélfia, onde foi assinada a Declaração de Independência, no dia 4 de julho de 1776.

Essa declaração, redigida por Thomas Jefferson, inspirada no teórico inglês John Locke e no Iluminismo, é uma manifestação da jovem burguesia, enfática nos direitos de liberdade, da busca da felicidade pessoal e da defesa da propriedade.


Declaração de Independência, John Trumbull

A luta de independência foi dirigida por George Washington e contou com o apoio de voluntários franceses e material bélico fornecido pela Espanha. Em 1783, a independência foi finalmente reconhecida pelos ingleses, por meio do Tratado de Paris.

Com o fim da Revolução Americana de Independência, era preciso organizar um novo país, juntando 13 estados no continente americano. A nova nação adotava como nome o princípio que a gerara: Estados Unidos da América. Mesmo assim, como escreveu Joyce Appleby, demoraria uma geração para criar a noção de ser americano e absorver os novos valores republicanos e de independência.


Luiz Estevam de O. Fernandes. Revolução Americana. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 58.

NOTA: O texto "Revolução Americana (1776-1783)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Revolução Inglesa (1640-1688)

Pensada originalmente como um termo astronômico por Nicolau Copérnico, a palavra “revolução” apareceu pela primeira vez no campo político, no decorrer do século XVII, a fim de designar o longo processo histórico iniciado na Inglaterra, em 1640, com a Revolução Puritana, seguido pela restauração monárquica de 1660 e concluído com a solução conciliadora da Revolução Gloriosa, no ano de 1688.

Por meio dessas três fases, a Revolução Inglesa trouxe consigo uma transformação sem precedentes na história da humanidade, liberando as forças modernizadoras do modo de produção capitalista das entranhas de um sistema feudal em decadência.

O processo revolucionário inglês apresenta-se, assim, como um modelo de transição ao capitalismo industrial, primeiramente de forma violenta, em 1640, logo depois, em 1688, de maneira conciliatória. Um processo que, ao término de meio século de lutas entre monarquia e Parlamento, por meio de uma solução monárquica constitucional, conseguiu criar a condição primordial para o crescimento econômico de orientação capitalista: a estabilidade política sob a nova direção de uma classe burguesa que tomou para si o poder estatal, fortalecendo-o em suas relações internas com outras classes sociais e em suas relações externas com outras nações.

Nesse contexto, realizando em termos práticos as orientações da teoria política liberal, a burguesia consolidou seus valores fazendo uso de uma monarquia limitada em seus poderes, isto é, o clássico mote do rei que reina mas não governa, pois quem dava as cartas a partir de então era a burguesia revolucionária.


Execução do rei Carlos I. Artista desconhecido.

E foi exatamente fundamentado no ideário liberal recém-nascido que os revolucionários ingleses do século XVII apresentaram ao mundo a primeira grande carta de direitos da modernidade – o Bill of Rights.

Por seu intermédio, a ideia de cidadania veio à tona, associada ao entendimento de que os indivíduos deveriam ter seus direitos garantidos e tutelados pelo Estado, sendo este responsável pela defesa e proteção das liberdades civis dos cidadãos: liberdade de pensamento e expressão, de ir e vir, religiosa, de propriedade etc.

Com isso, a Revolução Inglesa rompeu com a noção de que os indivíduos tinham apenas deveres a prestar ao soberano, inaugurando uma autêntica era dos direitos que seria devidamente ampliada em termos universalizantes com as duas outras grandes revoluções políticas que lançaram as bases da modernidade: a Francesa, de 1789, e a Americana, de 1776.


Marco Mondiani. Revolução Inglesa. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 60-61.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Operários

Setor constituído pela proletarização de agricultores sem terra, em virtude dos “cercamentos” (enclousures) intensificados na Grã-Bretanha e na Europa ocidental durante o século XVIII, essa massa de despossuídos iria constituir a mão de obra fabril durante a Revolução Industrial. Por extensão, o termo passou a designar, particularmente, os trabalhadores manuais fabris no mundo inteiro.

No século XVIII e parte do XIX, por operário entendia-se o trabalhador desqualificado, sem ofício, ou seja, aquele que não passara pelo sistema de aprendizado dos ofícios manuais regido pelas corporações controladas pelos mestres de ofício. Portanto, o termo comportava uma noção de inferioridade hierárquica dos trabalhadores manuais desqualificados com relação aos qualificados.


Greve, Boris Kustodiev

Nos anos 1830, na Europa ocidental, começou a ser empregada a designação de cunho político “classe operária”, que englobava tanto trabalhadores qualificados quanto não qualificados, como integrantes de um todo, compartilhando interesses e uma identidade comum. Fenômeno similar ocorreu no Brasil na década de 1870. Essa inovação na terminologia refletia a necessidade de formas de atuação e organização capazes de superar as divisões e os interesses setoriais, que se concretizou sob a forma de organizações sindicais gerais, mas também por organizações políticas que pretendiam representar os interesses do operariado, como os partidos que se designavam como operários, trabalhistas, socialistas e, já no século XX, comunistas. Desse modo, na Europa, houve uma clara associação entre o surgimento e crescimento de partidos desse tipo e o crescente peso social do operariado, que constituía a base de apoio dessas organizações.

O peso do operariado também foi decisivo em uma série de movimentos e revoluções, como: as revoluções de 1830 e 1848 na Europa; o movimento cartista (que pretendia a ampliação dos direitos políticos) na Grã-Bretanha nas décadas de 1830-40; a Comuna de Paris de 1871; as revoluções russas de 1905 e 1917; os movimentos grevistas, ocupações de fábricas, levantes e revoluções que atingiram vários países do mundo ao final da Primeira Guerra Mundial. E vários desses movimentos, particularmente a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, foram feitos em seu nome.

Em fins do século XIX, em virtude das transformações operadas no mundo do trabalho, não faltaram discussões acerca da desaparição do operariado. Porém, ao mesmo tempo que setores industriais perderam peso e o número de trabalhadores empregados nessas indústrias diminuiu, esse período assistiu também ao ressurgimento de condições de trabalho semelhantes aquelas encontradas sob a Revolução Industrial

Claudio Batalha. Operários. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 4: Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 15.