"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 23 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 4

Em 1492, a  civilização mais complexa na América do Norte se encontrava no vale do México. Essas pessoas se autodenominavam mexicas, mas, em anos posteriores, os espanhóis se referiam a elas como astecas. Sua capital, Tenochtitlán, foi construída em uma ilha do lago Texcoco e era maior do que qualquer cidade europeia. Canoas deslizavam por canais em toda parte. Mercadores traziam produtos de milhares de quilômetros de distância. Havia papagaios à venda, mantos de algodão e chocolate quente, tortillas, peru, coelho, peles de animais, penas bonitas de todos os tipos e ouro em pó, cuidadosamente embalado dentro de bicos de penas de ganso. Tenochititlán ostentava zoológicos e jardins de museus cheios de plantas exóticas. Aquedutos traziam água potável à cidade, de montanhas a quilômetros de distância. A religião e a cultura astecas eram tão avançadas e únicas quanto as de qualquer civilização na Ásia ou na Europa.

Buffalo hunt, Karl Ferdinand Wimar

Por trás da cultura de todo grupo, há uma história - isto é, um relato de como um costume começou. Na América moderna, por exemplo, muitas pessoas usam calça jeans azul unida por rebites. Esse é um costume, e tem uma história. Na verdade, dois norte-americanos, Levi-Strauss e David Jacobs, tiveram a ideia em 1873. De maneira similar, alguém, ou talvez um grupo de índios, deve ter pensado em como confeccionar roupas melhores com pele ou uma lança mais afiada - ou teve a ideia de configurar um sistema político em que as pessoas "honoráveis" recebiam reconhecimento especial. Mas nenhum dos povos originários da América do Norte inventou a escrita. Por isso, não temos histórias contando de que modo os indivíduos contribuíram para a maneira como as pessoas viviam, ou sobre os vilarejos que construíram ou as guerras que travaram.

Indian canoe, Albert Bierstadt

Os arqueólogos assumiram a tarefa de descobrir o que aconteceu antes de haver uma história escrita. Seu trabalho de detetive é realmente impressionante, com novos conhecimentos adquiridos a cada ano. Ainda assim, restam muitos enigmas. O que aconteceu com o povo hohocan, que construiu canais? Antes de 1492, a região desértica do Arizona provavelmente abrigou mais índios do que qualquer outro lugar ao norte do império mexica. Por que os canais foram abandonados? O clima se tornou mais quente ou mais seco, dificultando a sobrevivência? Passou a haver pessoas demais vivendo em uma área pequena? Os índios vindos do norte atacaram esses povos? Não sabemos essa história.

Chippewas à la chasse au caribou, Cornelius Krieghoff

Há um enigma similar em torno da única cidade nos Estados Unidos de nossos dias a ter sido construída antes de 1492. Cahokia cresceu à margem do rio Mississíppi onde hoje fica St. Louis. Por volta de 1050, uma praça central, maior do que dez campos de futebol, foi construída à sombra de uma colina de quarenta metros de altura feita pelo homem. Milhares de pessoas viveram lá e ergueram mais de 120 colinas similares. Alguns arqueólogos acreditam que a cidade foi construída, em parte, do assombro religioso depois que uma luz resplandescente iluminou o céu noturno: uma supernova, a explosão de uma estrela morrendo, que foi vista pelos astrônomos chineses em 1054. Mas esta é apenas uma teoria. Tampouco sabemos por que os habitantes da cidade se mudaram, deixando-a deserta na época em que Colombo chegou à América do Norte. Não havia registros escritos.

The War Bonnet, Joseph Henry Sharp

Depois de outubro de 1492, os registros escritos chegaram à América do Norte. Os pássaros voando perto da ilha de São Salvador olharam para baixo e viram algo que nunca tinham visto antes. Sim, como sempre, havia fumaça subindo ao céu, e homens pescando em canoas de tronco. Mas, agora, três embarcações maiores apareceram no vasto oceano azul, com suas velas, gastas pela intempérie, bem estiradas nos mastros. Barcos estranhos com humanos ainda mais estranhos a bordo. As pessoas observando Colombo e seus marinheiros de baixo das árvores da ilha devem ter ficado perplexas. Que roupas estranhas eles usavam! Meias compridas e calças até os joelhos. Casacos acolchoados, quentes e pesados. Quem eram eles? O que sua chegada significava?

A história escrita estava chegando à América do Norte - história escrita, rabiscada em jornais, impressa em livros, armazenada em baús pesados ou enfiada em bolsos. Nada voltaria a ser como antes.

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 13-5.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A história da História Antiga 4: Um novo olhar para o passado

Escavação do Templo de Ísis em Pompeia, Pietro Fabris

Na segunda metade do século XIX, a História Antiga recebeu um novo impulso, proveniente da História Natural e do surgimento da Antropologia, da Sociologia e da Arqueologia. Abriram-se novos campos para o conhecimento das Ciências Humanas: a sociedade, a família, a comunidade, a economia, a cultura e a religião. O grande marco dessas concepções foi, sem dúvida, o livro de Charles Darwin, A origem das espécies, publicado em 1859. Mas Darwin era apenas parte de um movimento mais amplo.

A partir dos anos de 1860, a própria noção de tempo sofreu uma mudanã drástica. Para fornecer um contraponto, em 1654, o bispo anglicano Ussher havia calculado a criação da terra no dia 4 de outubro de 4004 a.C. Foi essa noção de um tempo curto que as ciências, no final do século XIX, aniquilaram. Séculos e milênios se abriram. Não apenas para a evolução da vida, mas também para a transformação do próprio homem e da sociedade humana. O homem primitivo, que antes era visto apenas como um contemporâneo atrasado, passou a fazer parte da História de todos os homens. Toda a História passou a ser vista pelo ângulo da evolução, pelas etapas da evolução, pela noção de mudança e de progresso.

A própria ideia de evolução não era nova. Em 1774, o alemão Johann Winckelmann havia publicado sua História da arte da Antiguidade, influente até hoje, na qual organizava a arte grega em períodos e descrevia seu desenvolvimento até o que considerava seu ápice: a arte ateniense do período clássico (século V a.C.). Em 1825, um arqueólogo dinamarquês, Christian Thomsen, havia organizado as coleções de objetos do Museu Nacional da Dinamarca, recolhidas de sepulturas, segundo o que acreditava serem três períodos do desenvolvimento da tecnologia do homem pré-histórico: a Idade da Pedra, a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. O catálogo de Thomsen foi extremamente influente, tendo sido traduzido para várias línguas. Criou uma forma de organizar o passado que [...] ainda é importante.

Essas ideias, no entanto, só se tornaram hegemônicas entre o final do século XIX e o início do XX. As mais importantes foram: a ideia de evolução, a de civilização, a de progresso e a da superioridade da Europa sobre o resto do mundo. Elas estão intimamente ligadas ao desenvolvimento tecnológico e à expansão imperialista das potências europeias sobre o planeta. Foi no bojo delas que se desenvolveu outra ideia, que teria consequências dramáticas: a da superioridade racial dos europeus.

Foi nesse período que a História Antiga se tornou o início de uma linha progressiva de civilização. Graças às descobertas arqueológicas no Egito e na Mesopotâmia e à decifração dos hieróglifos e da escrita cuneiforme, alguns estudiosos colocavam o início dessa linha no Oriente Próximo, como o grande historiador alemão Eduard Meyer. Sua História universal foi a última a conseguir reunir, num todo, as Histórias do Egito, da Mesopotâmia, da Grécia e de Roma. Outros historiadores, a maioria, preferiam iniciá-la com o "milagre" grego. Foi então que se consolidou a ideia de que a História do Ocidente era o centro da História Universal e que a Europa capitalista representava o ápice da História mundial, a verdadeira civilização, cujo destino era o de expandir sua cultura superior para o restante do planeta. O Império Romano foi também repensado como instrumento de civilização ocidental. Com suas conquistas, o Império romanizara antigas regiões bárbaras, levando a elas a possibilidade de receberem e aceitarem a civilização greco-romana.

GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013. p. 21-3.

sábado, 17 de dezembro de 2016

A civilização micênica: organização política, social e econômica

Afresco representando guerreiros armados com capacetes de dente de javali em uma carruagem dual, ca. 1350 a.C., Pilos. Artistas desconhecidos

A importância da herança cretense recolhida pelos micênicos é de tal ordem que, para evitar as repetições inúteis, nos ateremos às diferenças, apesar de tudo sensíveis, entre as duas civilizações, isto é, limitar-nos-emos às novidades que constituem a contribuição dos Aqueus. Esses, com efeito, não as devem à região onde viveram. Entre a Grécia meridional e Creta, a natureza apenas introduz matizes, dos quais o mais importante provém dos rigores ocasionalmente mais acentuados do inverno: nada que pudesse modificar seriamente as condições de existência. Além disso, as civilizações que se haviam manifestado na Grécia até o momento de sua chegada transmitiram-lhes pouca coisa e não dispunham, aliás, senão de muito pouco para legar-lhes: nada que pudesse rivalizar com a civilização cretense. Se, nessas condições, eles se recusaram a calcar inteiramente sua organização e sua vida na dos cretenses, foi porque trouxeram consigo ideias, costumes e hábitos, ao mesmo tempo próprios aos indo-europeus e a homens que viveram longamente em outras áreas, sobretudo, nesse caso especial, nas regiões setentrionais.


Afresco de carruagem, ca. 1200 a.C., Tirinto. Artistas desconhecidos

* Os princípios belicosos. A novidade transparece, de início, na organização política e social, pois os vestígios materiais deixados pelos grandes deste mundo em nada se assemelham aos de Creta.

Os palácios e as grandes tumbas põem-nos em presença de uma pluralidade de príncipes. Esses existiam em Micenas e Tirinto, dois pontos da Argólia, pouco distantes entre si. Mas sua celebridade não deve permitir que esqueçamos a existência de outros, em lugares diversos: na própria Argólida, no oeste e no sul do Peloponeso, na Acrópole de Atenas, na Beócia. A esses estabelecimentos dispersos faltava um Cnossos, incontestavelmente superior a todos. A excepcional riqueza de Micenas em ouro talvez se deva apenas ao acaso dos achados arqueológicos, atestada somente pelos objetos, não é acompanhada de qualquer proeminência na arquitetura e na decoração; mesmo nos poemas homéricos, onde a lembrança da realidade é ampliada pela imaginação, Agamenon, rei de Argos, ou seja, de Micenas, é apenas temporariamente "rei dos reis", em vista de determinada expedição.

O contraste surge ainda mais nítido quando consideramos os palácios em si mesmos. Antes de tudo, são fortalezas, edificadas numa posição cuja defesa é facilitada pela natureza, mais frequentemente numa eminência que se eleva acima da planície local. O acesso é proporcionado por meio de rampas cortadas em ziguezague, portas, escadas cavadas na rocha e poternas secretas. Em parte alguma poupou-se a pedra para a construção desses muros que os gregos denominarão "ciclópicos", tão formidáveis lhes parecerão os blocos que os compunham: na Beócia, numa ilha (Gla) do Lago Copais, a muralha mede 3 quilômetros de periferia; em Tirinto, nos muros de 6 metros de espessura, abrem-se casamatas.

Impossível, em tais condições, pensarmos numa realeza única, ainda que essa concedesse a vassalos poderosos - senhores "feudais", diz-se frequentemente, porque as fortalezas evocam os burgos medievais - certas partes de seu território. Tanto em princípio como de fato, trata-se de príncipes independentes, entre os quais devemos imaginar rivalidades e, portanto, guerras. A hipótese de uma preponderância honorífica, reconhecida a um deles e que justificasse o seu comando nos empreendimentos coletivos, apóia-se apenas na Ilíada. É possível que a Argólida acabasse por predominar; mas Micenas e Tirinto subsistiram lado a lado, e sua coexistência duradoura, em tal proximidade, coloca um problema insolúvel.

Vemos, na realidade, que esses príncipes amam e praticam com frequência a guerra. Fazem-se sepultar com suas armas, capacetes, pesadas espadas que feriam de ponta e de gume, adagas e piques; pelas representações figuradas, conhecemos também suas couraças e escudos, a princípio muito grandes, abrigando o homem como numa torre, e depois, mais manejáveis, arredondados e de menores proporções. Nos intervalos dos combates, exercitavam, assiduamente, a força física na caça, da qual bem mais do que a arte cretense, que já não as ignorava, a arte micênica da época nos transmitiu cenas de violenta energia. Seu ouro, ao menos em parte, provém de rapinagens. Tudo indica que esses indo-europeus, chegando ao sul da Grécia após mil aventuras desconhecidas, abrindo caminho entre povos há muito sedentários, conservam suas predileções belicosas, combinando-as apenas com o sentido de beleza luxuosa, adquirido no contato com os cretenses. Entre eles, o poder ostenta e usa a força, e das mais brutais.


Fragmento de mural representando guerreiros com capacetes de presa de javali, século XIII a.C., Orcomeno. Artistas deconhecidos

* A aristocracia e as classes trabalhadoras. A sociedade sofreu o contragolpe desse estado de coisas.

Apesar da manifesta vontade de imitação, as menos nas representações figuradas que podiam lançar mão de temas anacrônicos, a vida da Corte foi menos brilhante do que em Creta. As mulheres adotam, para suas vestes, penteados e enfeites, as modas de Cnossos e, em Micenas, um afresco mostra-nos algumas exibindo-se no teatro, no primeiro plano de seus camarotes. Mas abandonam as acrobacias e cabe pensar que diminuiu sua liberdade de atitudes exteriores. Na realidade, a vida no coração dos redutos fortificados que constituíam os palácios - menos de 150 metros de comprimento por menos de 50, em Tirinto - não devia ser alegrada por cerimônias muito galantes. Na realidade, também por causa de seu papel militar, o homem, isto é, o guerreiro, devia impor-se sem dificuldade na vida social. Por analogia com outras sociedades indo-europeias e guerreiras, transpondo-se igualmente alguns traços tomados às sociedades homéricas, imaginaríamos, de bom grado, a existência de grupos de "companheiros" ligados ao príncipe por amizade pessoal, quando não por juramento. Mas isso já seria ultrapassar os limites da nossa documentação direta.

O mesmo de verifica com as relações entre as classes dirigentes e as classes trabalhadoras. Encastelados nas elevações, os palácios lembram-nos abrigos de onde os senhores vigiam e exploram o trabalho de seus servos na planície. Tanto mais quanto surge o problema das relações com mas populações anteriores, cuja conquista não poderia determinar o seu total desaparecimento físico: somos tentados a representar seus sobreviventes e sua posteridade submetidos a um estatuto de estrita dependência. Mas a nossa única certeza é a de que uma muralha externa cerca ao mesmo tempo o palácio e a cidade. Ora, essa muralha possui, muitas vezes, um comprimento restrito (750 metros, em Tirinto; um pouco mais de 1200 em Micenas), o que reduz a pouco a superfície da cidade. Nessas condições, o restante da população dispersava-se pelo campo, ou antes, instalava-se no sopé da colina, correndo para trás dos muros em caso de alerta a fim de se refugiar.

A decifração das tabuinhas escritas em linear B veio ressaltar e completar uma imagem sobre a qual, em dúvida, haviam sido projetadas as recordações de Homero. Elas fazem aparecer uma sociedade hierarquizada, tendo a seu comando um Rei (wa-na-ha = anax em grego clássico e não basileus, que designa "funcionários" locais de escalão inferior) e um "comandante de tropas", mestres de impostos, altos dignitários e responsáveis locais, sacerdotes e sacerdotisas ligados aos santuários e, sem dúvida, comunidades aldeãs (damos). Detalham as tarefas dos escravos e as atividades das profissões (têxtil e couro, madeira e metais, armas e cerâmica, além de ungüentos e perfumes). Mostram os lugares de criação de gado ovino e uma agricultura cuja distribuição de tarefas é ainda discutida, mas que assegura aos chefes e ao clero importantes entregas de trigo e azeite.

* O comércio e a riqueza. O acúmulo desses produtos agrícolas e artesanais nos palácios explica como tais Estados e tal sociedade conheceram a riqueza e a expansão. Lentamente, é verdade, e segundo o exemplo de Creta, que acabaram por suplantar após cerca de dois séculos de aprendizado. Mas sua atividade econômica tomou grande impulso depois da destruição de Cnossos.

Construíram-se estradas e mesmo portos. Os habitantes das fortalezas, todas situadas a certa distância do litoral, não se encontravam tão afastados da costa que não pudessem vigiar a vida marítima e, até mesmo, dela participar. A princípio, praticaram a pirataria e, em seguida, dominaram o mar, passando as expedições comerciais a substituir as incursões de pilhagem. Viagens longínquas, por vezes, somado ao que provinha do Cáucaso e chegando em maiores quantidades, o estanho ocidental facilitou a fabricação do bronze; continuaram a importar - por intermédio de quem? - o âmbar do Báltico, ignorado pelos cretenses, mas cujo pálido e misterioso reflexo os indo-europeus aprenderam a apreciar no decorrer de suas permanências nórdicas. Mas os navios micênicos também singraram os mares próximos; os achados de objetos característicos, que nos fornecem informações seguras, atestam a importância e a ampla dispersão da produção metalúrgica e da cerâmica. Vindos do norte, de um clima mais rude, levaram à Grécia a fíbula metálica que lhes permitia prender as mais pesadas vestimentas: os mediterrâneos adotaram-na. Seus bronzes, suas jóias, suas pedras gravadas e, sobretudo, sua cerâmica com uma decoração cada vez mais estilizada, tendendo ao geometrismo, são encontrados em numerosos lugares: na Sicília e na Itália do Sul, nas Cíclades, na costa da Ásia Menor, em Chipre e, por fim, na Fenícia, onde Minet el-Beida, o porto de Ugarit-Ras Chamra, lhes servia de entreposto tão ativo, que nos é lícito considerá-lo uma espécie de colônia de onde a exportação atinge certos pontos do vale do Eufrates.

Espólio de guerra e pirataria, tributos, indústria e comércio: o resultado foi a riqueza. No mundo grego, nenhum lugar forneceu aos arqueólogos tanto ouro quanto Micenas (14 quilos antes dos achados de 1952). Os gregos guardaram a lembrança desse fausto: nos poemas homéricos, "rica em ouro" é o epíteto de Micenas, despojada com o tempo, transformada num simples povoado do território de Argos. De fato, só com o período helenístico e com o lançamento em circulação dos tesouros persas, verificar-se-á, numa região que o produz, um afluxo análogo do mais precioso dos metais.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 42, 45-9. (História geral das civilizações, v. 2)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Vida privada em Roma

Os textos literários e os registros arqueológicos, notadamente os descobertos em Pompeia e Herculano*, revelam aspectos interessantes e peculiares da cultura popular e da vida cotidiana da Roma antiga.

Casal nu na cama. Afresco na Casa del ristorante, Pompeia, ca. 62-79 AD. Artistas desconhecidos.

A ideia, tradicionalmente aceita, de que a cultura romana clássica pode ser considerada fundamento da cultura ocidental atual não se sustentaria se considerados os aspectos mais expressivos da vida privada. Desse ponto de vista, a sociedade romana era tão diferente das atuais sociedades ocidentais quanto o foram as sociedades ameríndias ou as extremo orientais.

O conhecimento da vida privada romana conduz à percepção de contrastes, que levam mais à descoberta do outro do que ao encontro das nossas origens. Um exemplo bem significativo é a organização da família.

Hermafrodito. Afresco, Herculano, entre 1 e 50 AD. Artistas desconhecidos.

O chefe da família - o pai - tinha autoridade absoluta. A criança, para ser integrada à família, teria que, ao nascer, ser erguida pelo pai. Com esse gesto, ele a reconhecia como filho.

A contracepção, o aborto, o enjeitamento de crianças de nascimento livre e o infanticídio do filho de uma escrava eram práticas usuais e admitidas legalmente.

A adoção era prática comum como forma de legitimação e da formação da família. O nome da família, transmitido à pessoa adotada, era considerado mais importante do que a "voz do sangue".

Ao ser aceita pelo pai e, portanto, integrar a família, a criança era entregue aos cuidados de uma nutriz que, em geral, a acompanhava pela vida toda, sendo, também encarregada de sua educação. Os meninos, na puberdade, passavam a ser educados também por um "pedagogo". A nutriz e o pedagogo tinham muito mais contato com as crianças e os jovens do que os pais, com os quais raramente se encontravam.

Aos 12 anos as meninas eram consideradas aptas ao casamento, a partir da qual elas passavam a levar uma vida reclusa no interior das casas. Aos 14 anos eram consideradas adultas, chamadas de "senhoras" e deveriam se mostrar pudicas e reservadas para serem estimáveis.

Para os meninos não havia uma idade estabelecida para a maioridade. Eles passavam a integrar o mundo dos adultos a partir do momento em que o pai ou o tutor os considerasse preparados.

Após os 12 anos, os que pertenciam às "boas famílias" - as abastadas - continuavam os estudos e formavam grupos de jovens, aos quais, em nome do "calor da juventude", era permitido praticamente tudo: frequentar prostitutas, tomar amantes, escolher favoritos (a homossexualidade entre os jovens ou entre um adulto e um jovem - pederastia - era prática recorrente e considerada natural).

A juventude encerrava-se com o casamento, mas os filhos, mesmo casados e adultos, continuavam sob a autoridade paterna até a morte do pai.

* No ano 79, uma erupção do Vesúvio soterrou as duas cidades localizadas no sopé do vulcão. No século XVIII, as escavações arqueológicas trouxeram à luz o que as cinzas haviam encoberto ao longo dos séculos. Os vestígios encontrados revelam a vida urbana como se as pessoas e objetos tivessem sido petrificados em plena ação, tais como estavam no momento da catástrofe. Por isso eles são bastante reveladores do dia-a-dia e das especificidades da vida urbana nos domínios de Roma.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 147-48.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Os manicuros de Sakara

A imagem mais antiga de um casal homossexual encontrada no túmulo de dois manicuros da V dinastia: Niankh-Khnum e Khnum-Hotep. Pintura mural numa mastaba de Sakara, datada de cerca de 2450 a.C.

Segundo parece, o incesto não era o único tabu ancestral que se desprezava nos palácios reais de Tebas ou de Mênfis. É provável que certos serviços cortesãos, como o de cabeleireiro, maquilhador ou manicuro fossem exercidos por homens homossexuais (o que explicaria o seu [...] vínculo aos ritos funerários, na delicada função de limpar os cadáveres embalsamados). Em 1964, houve um achado nas ruínas da necrópole de Sakara que contribuiu decisivamente para reforçar esta hipótese. O arqueólogo egípcio Ahmed Moussa dirigia uns trabalhos nas proximidades da pirâmide de Unas, quando descobriu uma série de passagens funerárias escavadas numa encosta escarpada. Informou da descoberta o seu superior, o professor Mounir Basta, que entrou de gatas por uma das estreitas passagens. Quase à beira de desfalecer, foi dar a uma câmara mortuária com um fresco pintado no único muro não desmoronado. A pintura mostrava dois homens jovens olhando-se de perfil, com os narizes a tocar-se, as bocas muito próximas. Um deles apoiava afectuosamente uma mão no ombro do outro, que por sua vez lhe pegava no pulso oposto. O arqueólogo-chefe decidiu chamar "Os irmãos" a tão valiosa descoberta.

Mas, quando reparavam o caminho que levava à pirâmide, os trabalhadores desenterraram uma série de placas murais com inscrições e desenhos de estilo semelhante ao de "Os irmãos". Ao terminar os trabalhos, Basta e Moussa contavam com material suficiente para reconstruir quase por completo o que era uma mastaba, um túmulo em forma de pirâmide truncada. As numerosas pinturas estavam em relativo bom estado e os frisos com hieróglifos quase intactos. Os arqueólogos puderam, assim, concluir que o sepulcro tinha sido construído por volta do ano 2450 a.C., durante a V dinastia, por ordem de um servidor do faraó Niuserré chamado Niankh-Khnum que, conforme explicava uma inscrição por baixo do revelador fresco, era "chefe dos manicuros no palácio real". A construção estava destinada a ser o seu próprio túmulo, repartido com o seu colega e amigo íntimo Khnum-Hotep, que era o outro rapaz que o olhava de perfil. Além disso, a inscrição do frontispício reunia os nomes de ambos em Niankh-Khnum-Hotep, que significa algo como "unidos na vida e na morte".

O professor Basta começou a pensar que talvez se tivesse equivocado ao atribuir o abraço dos jovens ao afecto fraternal. Confirmou a sua suspeita comparando o desenho com as figuras que apareciam no próprio túmulo e com outras da mesma época. Em todas elas, a atitude carinhosa que os manicuros demonstravam correspondia à dos casais unidos pelo casamento, cujos membros eram também os únicos que se olhavam tão próximos um do outro. As figuras masculinas que representavam irmãos ou companheiros nem sequer se tocavam e mantinham o estilo hierático próprio da arte egípcia: o tronco de frente e a cabeça e as pernas de perfil, orientadas no mesmo sentido.

A imagem de Niankh-Khnum e Khnum-Hotep percorreu o mundo como a mais antiga representação artística de um casal homossexual e, desde então, a mastaba de Sakara tem sido visitada por milhares de turistas das mais variadas procedências e tendências.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 27-8.

sábado, 16 de julho de 2016

Os celtas: as origens

Guerreiros celtas, Antoine Glédel

Gauleses? O termo, imposto pela tradição, não é claro. César, quando da conquista, restringe-o a uma parte dos habitantes da Gália independente: entre o Sena e o Marne, de um lado, o Garona e o Ródano de outro. Estes, diz ele, “chamam-se celtas em sua língua e gauleses na nossa”. O que, aliás, não impedia os romanos de atribuir à palavra “Gália” uma extensão muito mais considerável [...] E os gregos empregavam o nome de “celtas” e, mais tarde, na época helenística, também o de “gálatas”, para distinguir homens que viviam em regiões bem diversas, desde a Península Ibérica até o coração da Ásia Menor.

[...] A Arqueologia e a lingüística fornecem dados mais sólidos [...]

[...] A idade do bronze corresponde mais ou menos, na Europa Ocidental, ao II milênio a.C. [...] As antigas civilizações dos megálitos (menires, dolmens, aléias cobertas) e das palafitas (cabanas sobre estacas das aldeias lacustres), não só sobrevivem, como também ganham terreno. [...] Ao mesmo tempo surgem outras civilizações, particularmente a dos tumuli, que sepulta os mortos, com objetos familiares, sob montículos de terra e pedra [...] Depois, nos fins da idade do bronze e do II milênio a.C., verifica-se a propagação [...] da civilização Urnenfelder (“compos de urnas”), que pratica a incineração e constrói cemitérios de tumbas planas.

Desaparece, assim, durante a idade do bronze, o isolamento geográfico das civilizações neolíticas. Os contactos, certamente, multiplicam-se e as crenças misturam-se, ao mesmo tempo que as técnicas. [...] Quanto à antropologia, embora consiga distinguir os tipos humanos dominantes, na maioria das vezes isso permite-lhe apenas comprovar a existência de mestiçagens, aliás, muito antigas.

A situação só começa a clarear um pouco no princípio do I milênio a.C., com o aparecimento do ferro. Parecem ter sido as da Alta Áustria as primeiras jazidas exploráveis deste minério. A região, além disso, estava apta a sofrer, por intermédio da Ilíria, certas influências provenientes do Mediterrâneo Oriental. Em todo caso, a mais antiga civilização do ferro recebeu a designação de Hallstatt [...] Constitui-se ela entre 900 e 800 a.C. e estende-se por um território muito vasto. Com facies diferentes, dispersa seus tumuli de inumação ou incineração e seu armamento, cuja peça mais característica é uma espada amolada e afiada. [...]

Na realidade, nada em seus progressos, tais como a arqueologia os revela, nos indica que esses fossem realizados de maneira brutal, por conquistas, chacinas e destruições. [...] devem ter correspondido a deslocamentos humanos, mas sob a forma de infiltrações lentas e sucessivas ao longo dos vales fluviais, deixando subsistir os estabelecimentos anteriores que sofreram apenas absorção progressiva.

O mesmo verificou-se [...] com a civilização que, a partir do fim do século V a.C., sucedeu à de Hallstatt. Atribu-se-lhe o nome de La Tène, estação suíça situada perto da extremidade setentrional do lago Neuchâtel. Ela ocupa pouco a pouco o território da civilização precedente, substituindo imediatamente a espada por um sabre feito para talhar e, mais lentamente, os tumuli por sepulturas subterrâneas. Suas joias e seu mobiliário são mais ricos, com coral, esmaltes, contribuições estrangeiras mais numerosas e vindas de mais longe. Evolui, aliás, no sentido do aperfeiçoamento técnico e do enriquecimento, e o fim de seu terceiro e último período coincide com o seu desaparecimento, na Gália, em face da civilização romana implantada pela conquista.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma e seu império. O Ocidente e a formação da unidade mediterrânica. São Paulo: Difel, 1974. p. 59-61. (História geral das civilizações, 3)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Ferreiros e agricultores dispersos nas savanas e florestas da África Central Ocidental

Lunda, 1854, Artista desconhecido

O primeiro problema nos estudos sobre África Central Ocidental é a questão da difusão da metalurgia e a grande expansão das línguas bantu. Sobre essas duas questões, têm-se construído grandes equívocos. Primeiro, as explicações são dadas como se a expansão dos povos de língua bantu fosse responsável pela propagação do uso de instrumentos de ferro e, somente a partir daí, esses povos tiveram condições de enfrentar a Floresta Tropical. Segundo, há uma tendência de se identificar o termo bantu como característica etimológica no estudo dos povos. Como se fosse uma etnia.

Na verdade, os trabalhos da arqueologia e da linguística têm informado que bantu significa um tronco linguístico, e não uma etnia propriamente. Porém, tem-se feito identificação de bantu como grupo cultural e etnológico, e não como povos que falavam línguas de origem comum. No Brasil, a confusão por conta disso tem sido grande. Quando os africanos chegaram ao Brasil, aqueles que vieram da região abaixo da Floresta Tropical passaram a ser designados de bantu. Pela dimensão dos diversificados agrupamentos humanos existentes na região abaixo da floresta, o termo não identifica esse africano. Ele pode ser luba, lunda, kongo, mbundo, ovumbundo, etc. Bantu designa povos falantes de uma língua, e não uma etnia. [...]

Para que não se mantenha a ideia de uma África como um grande caldeirão, em que todos que de lá saíam tinham uma única identidade, de um lugar difuso e distante, será necessário saber o que é ser um bantu. A maioria da população abaixo da região dos Camarões pertence aos povos de língua bantu, mas, apesar de hoje serem majoritários, os bantu, quando chegaram à região, encontraram outros povos, os koisans-sans ou bosquímanos. São caçadores, muitos dos quais, no encontro com agricultores e metalúrgicos, passaram pelo processo de integração ou tiveram que migrar para regiões inóspitas, como o deserto do Kalaari e onde vivem até hoje.

No início do segundo milênio, surgiram as chefias políticas de caráter mais centralizado nas regiões das savanas, onde hoje seria o sudoeste de Angola e Congo. Provavelmente oriundos de comunidades de caçadores e coletores, obtiveram instrumentos de ferro por meio de seus vizinhos. Os agricultores se fixaram nas terras férteis junto aos vales dos rios.

A descoberta, o uso e a expansão do ferro marcaram uma importante fase na história de todas as populações da África Central. O metal era mais versátil e eficiente para a agricultura e foi se expandindo, substituindo os instrumentos de pedra e madeira.

As migrações bantu integravam na sua civilização traços culturais provenientes dos autóctones. O fenômeno característico da primeira metade de nosso milênio foi a diferenciação étnica. Dois fatores contribuíram para isso: os povos autóctones assimilados linguisticamente e a fraca intensidade de comunicação entre as populações. Para o historiador Jean-Luc Vellut, o maior exemplo disso foi a trajetória dos imbangala, população com elementos da cultura lunda, luba, ovimbundo e mbundo, que  formou um conjunto étnico por volta do ano de 1600.

É possível que os diversos grupos cultivassem as diferenças linguísticas para traduzir uma maneira visível de sua vontade e individualização. Em zonas onde a vegetação e o relevo montanhoso tornavam a comunicação difícil, encontramos um só grupo regional com marcadas diferenças étnicas. Entretanto, onde o mapa linguístico obedeceu seguidos padrões, os traçados dos rios e da costa favoreciam as ligações laterais, constituindo grupos mais homogêneos. Na zona de savana, por conta da densidade populacional, foi preciso maior esforço para o isolamento.

Após transformações, como o crescimento da população e a eclosão das técnicas artesanais e do comércio, a sociedade tornou-se mais complexa. Os agricultores de língua bantu, em geral, organizavam-se em grupos matrilineares. O vínculo de parentesco de uma pessoa conta-se a partir da família da mãe. Naquela região da África, muitas vezes o parentesco era dessa maneira. Em outras sociedades, contava-se pelo pai e havia comunidades que contavam o parentesco por ambos os lados. Em matéria de descendência, predominava, portanto, o regime matrilinear. Assim, há uma influência grande desse regime nas questões de sucessão, herança, casamento e residência. Matrilinearidade e matriarcado são coisas distintas.

A matrilinearidade bantu era acompanhada, em geral, do princípio de que os homens tinham maior autoridade sobre as mulheres. A linhagem matrilinear ficou débil, enquanto a estrutura da aldeia achava-se reforçada. Essa autoridade da aldeia se fundamentava nos princípios territoriais e políticos.

PANTOJA, Selma. Uma antiga civilização africana: história da África Central Ocidental. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2011. p. 23-27.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Investigações paleontológicas e arqueológicas no século XIX

Na primeira metade do século XIX, a febre da arqueologia leva a escavações que desenterraram pirâmides, tumbas e cidades inteiras, como Nínive ou Troia. Antigas linguagens são decifradas, nomes como os de Lepsius ou Champollion tornam-se populares no meio científico internacional. Simultaneamente, pesquisas paleontológicas alcançam resultados inesperados: gigantescos répteis do Jurássico dão as caras como fósseis e os seres humanos descobrem terem tido uma autêntica pré-história, repartida em Idades, até Darwin dar o golpe de misericórdia com as suas teorias.


Viagem do HMS Beagle nas costas da América do Sul, Conrad Martens. Darwin teorizou sobre a geologia e a extinção de mamíferos gigantes

Há ainda alguém que pense que somos o centro do universo?  

Datas
Paleontólogos e arqueólogos

1818
A entrada da pirâmide de Quéfren, no Egito, é encontrada por Giovanni Battista Bolzoni, explorador e arqueólogo italiano, que nos anos anteriores redescobriria, sob as areias do deserto, tumbas, templos e cidades do Antigo Egito.

1822
O britânico Gideon Mantell encontra na floresta Tilgate, no sul da Inglaterra, dentes fossilizados de um enorme réptil herbívoro, que batizará de Iguanodonte (dente de iguana) três anos depois. Era o primeiro dinossauro identificado.

1824
* Outro pesquisador britânico, o geólogo William Buckland, identifica um fóssil de maxilar de réptil carnívoro extinto, e denomina o animal de Megalosaurus.

* Fragmento de uma estela maior, a assim chamada “Pedra de Roseta (do nome do sítio arqueológico egípcio onde foi encontrada 25 anos antes) é decifrada pelo linguista e egiptólogo francês Jean-François Champollion. A interpretação de seus dizeres (um decreto do rei Ptolomeu V, do século II a.C., sobre o culto divino do soberano) abre as portas para a compreensão dos caracteres hieroglíficos do Antigo Egito.

1830
Combatendo o catastrofismo, que ligava as modificações terrestres a repetidas catástrofes acontecidas no espaço de uma história da Terra relativamente breve, segundo uma cronologia derivada da Bíblia, o geólogo escocês Charles Lyell sustenta a teoria do uniformitarismo, pela qual os eventos geológicos resultaram, e resultam, de processos lentos e graduais, a partir de leis naturais constantes. As ciências começam assim a superar os estreitos limites da cronologia bíblica.

1836
São publicados os resultados de anos de estudos sobre artefatos humanos pré-históricos realizados pelo arqueólogo Christian Jürgensen Thomsen, diretor do Museu Nacional de Dinamarca. A ele se deve a proposta do sistema das três idades (Idade da Pedra, do Bronze e do Ferro) para a sua classificação.

1838
O orientalista britânico Henry Rawlinson interpreta e traduz a inscrição de Behistun, em persa antigo. A inscrição, de 15 metros de altura por 25 de largura, e posta a 100 metros de altura numa antiga estrada do atual Irã, traz uma declaração do rei Dario I da Pérsia, do século VI a.C. Pendurado no penhasco, foi o próprio Rawlinson quem transcreveu, três anos antes, o texto, cuja decifração será um marco na interpretação dos caracteres cuneiformes.

1842
Richard Owen, paleontólogo inglês, é o primeiro a usar o termo genérico dinossauro para a identificação destes enormes répteis pré-históricos.

1843
Cônsul em Mossul, no Império Otomano, o francês Paul Émile Botta começa a realizar escavações que lhe permitirão em breve a identificação da antiga cidade de Nínive, capital do Império assírio.

1844
A descoberta, no vale do rio Somme, na França, de utensílios em pedra no mesmo local em que se encontravam restos de animais extintos leva a aceitação definitiva da existência de seres humanos “primitivos”. A autoria do achado é do francês Jacques Boucher de Crèvecouer de Perthes.

1845
Regressa a Europa, após três anos de explorações e escavações no Egito, o lingüista e arqueólogo alemão Karl Lepsius. Os 15 mil artefatos que levou para Berlim lhe permitiram escrever uma obra em 12 volumes sobre sua viagem.

1859
O naturalista britânico Charles Darwin publica em Londres sua obra A origem das espécies: suas teorias sobre a evolução e a seleção natural oferecem uma releitura da história do homem e da natureza sem a tradicional ênfase antropocêntrica.

1873
Após anos de buscas e estudos, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann identifica, em suas escavações na região da Anatólia, a mítica cidade de Troia, celebrizada pela literatura de Homero. Entre outros vestígios, encontra também o que acredita ser o famoso tesouro do Rei Príamo.

SCORRONE, Marcello. No tempo de Peter Lund... paleontólogos e arqueólogos investigando o planeta. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 9 / nº 99 / Dezembro 2013. p. 68-69.

NOTA: O texto "Investigações paleontológicas e arqueológicas no século XIX" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Murais da sinagoga de Dura-Europos

Pintura mural da sinagoga de Dura-Europos

Pouco depois de 250 a.C., os israelitas enfrentaram os filisteus - formidáveis guerreiros que dominaram as cidades de Canaã - numa batalha nas proximidades de Afec. Os israelitas levaram a arca da aliança para o campo da luta, na esperança de que a presença de Deus os conduzisse à vitória. Mas os filisteus dizimaram os hebreus e se apoderaram da arca. Esses episódios estão descritos no I Livro dos Reis, capítulo 4. A pintura acima, encontrada numa sinagoga do século III na Síria romana, retrata a captura da arca. (PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 35.)

Galeria de imagens:

Homem santo

Moisés é retirado do rio pela filha do faraó

A Adoração do bezerro de ouro

Samuel ungi Davi

O sacrifício de Isaac

Um profeta hebreu lê um pergaminho

A batalha de Eben Ezer

A batalha de Eben Ezer

Moisés divide o Mar Vermelho


David, Rei de Israel

segunda-feira, 17 de março de 2014

A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento

A arqueologia é uma disciplina que não pode ser desvencilhada de muitas outras com as quais está relacionada. O estudo da cultura material, de todo o imenso arsenal de artefatos que fazem parte do cotidiano do ser humano depende, em muitos casos, da interação da arqueologia com outras áreas.


Escavação em Pompeia, Lello Capaldo

A sua relação com a história é particularmente importante, quando mais não fosse porque, para alguns arqueólogos, a sua disciplina nada mais seria do que uma complementação da história [...]. Além disso, na tradição europeia, da qual somos também tributários, a arqueologia surgiu no seio da história. Assim, qualquer que seja o ponto de vista, a relação com a história constitui aspecto central da disciplina [...].

A cultura material estudada pelo arqueólogo insere-se, sempre, em um contexto histórico muito preciso e, portanto, o conhecimento da história constitui aspecto inelutável da pesquisa arqueológica. Assim, só se pode compreender a cerâmica grega se conhecermos a história da sociedade grega, as diferenças entre as cidades antigas, as transformações por que passaram. A história, contudo, não é tampouco uma descrição do passado tal qual aconteceu, é uma interpretação e, por isso, tanto mais será importante conhecer as controvérsias historiográficas sobre o período histórico tratado.

Não se trata, assim, de usar a história como fonte segura de informações, mas de conhecer as discussões dos historiadores e relacionar tais questões à cultura material estudada. As ciências não são apenas auxiliares umas das outras, elas mantém relações entre si. Os dados materiais, analisados pela arqueologia, podem tanto confirmar, como complementar e mesmo contradizer as informações das fontes históricas. Esses dois últimos aspectos são os mais importantes, pois permitem ao arqueólogo ir além daquilo que está nas fontes escritas.

[...]

No século XIX, quando surgiu a antropologia, o contato das potências imperialistas, como Inglaterra, França e Estados Unidos, com povos periféricos, a exemplo dos africanos, asiáticos e latino-americanos, fez com que essa disciplina se desenvolvesse, como uma maneira de conhecer de que modo viviam os chamados "primitivos". Nos Estados Unidos, a oposição entre "nós" (os americanos) e "eles" (os primitivos) dividiu as disciplinas história e antropologia, que se constitui de quatro áreas: etnologia, lingüística, antropologia física e arqueologia.

Todas essas disciplinas ligavam-se ao estudo dos indígenas, vivos ou mortos. Para o conhecimento dos índios mortos, por meio dos vestígios materiais, desenvolveu-se a arqueologia. Com o decorrer do tempo, contudo, a antropologia passou a tratar do conhecimento dos ritos, costumes e características de quaisquer sociedades, em qualquer época, inclusive as nossas contemporâneas. Se a história se preocupa com a transformação e a mudança, a antropologia procura explicar a transmissão de valores culturais, de normas de conduta.

[...]

Mas não é apenas no estudo dos artefatos que a antropologia é importante. A antropologia pode fornecer modelos de funcionamento da sociedade que permitem ao arqueólogo melhor entender o que ele estuda. [...]

[...] a antropologia física pode ser decisiva para o trabalho arqueológico. Para tanto, é necessária a preservação de vestígios esqueletais, algo que nem sempre é fácil, já que solos ácidos consomem os ossos em poucos anos. Quando preservados, sua análise permite que possamos estudar uma infinidade de aspectos da vida daqueles seres humanos. Assim, podemos saber quais as idades aproximadas em que as pessoas morriam e suas condições físicas no final da vida. Com isso, depreendemos que, em muitas sociedades antigas, a maioria das pessoas morria relativamente jovem.

Podemos, ainda, identificar algumas das doenças que afligiam populações antigas, assim como, pelo desgaste dos dentes, sabemos o que comiam ou mesmo se usavam os dentes para trabalhos de cestaria, como era o caso de tribos indígenas brasileiras. Em Herculano, cidade soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., encontraram-se corpos que mostram até mesmo as deficiências alimentares e os maus tratos sofridos pelos escravos romanos.

Mais recentemente, arqueólogos em colaboração com antropólogos físicos, escavaram e identificaram corpos de pessoas assassinadas pelas ditaduras latino-americanas, os chamados "desparecidos". Na medida em que não há registros das pessoas assassinadas pelas ditaduras, a identificação dos mortos assim como da maneira como morreram pode ser muito importante para os familiares das vítimas e para a sociedade como um todo.

[...]

Da antropologia física, passemos à biologia, seja em termos de teorias, seja das técnicas. O evolucionismo, surgido com as teorias de Charles Darwin para explicar as transformações da vida, tem sido aplicado ao estudo arqueológico, em especial o estudo das mudanças nas espécies de primatas e às plantas e animais ligados ao homem. [...]

O estudo do DNA dos animais e das plantas tem sido também muito difundido, trazendo relevantes informações para os arqueólogos. [...] O estudo genético dos indígenas americanos tem indicado, por sua parte, que todos têm origem asiática e que a sua migração nas Américas deu-se do Alaska para o sul.

Já a geografia, tanto física como humana, relaciona-se de maneira estreita com a arqueologia, pois os homens sempre viveram em interação com o meio ambiente. O conhecimento das condições fisiográficas e climáticas, em determinado momento do passado, é importante para se entender, por exemplo, o surgimento da civilização egípcia. [...]

[...]

As diversas histórias da arte e da arquitetura também são áreas importantes para o estudo arqueológico das sociedades históricas, nas quais os estilos artísticos e arquitetônicos marcam as diversas civilizações desde, ao menos, cinco mil anos. Todos vivemos tanto no espaço externo, geográfico, como no espaço construído dos edifícios. A arqueologia da arquitetura tem mostrado como as plantas dos edifícios podem nos dizer muito sobre a maneira como as pessoas viviam, fundamentado no princípio da facilidade ou dificuldade de acesso ao interior e aos aposentos.

[...]

O controle e a vigilância da sociedade capitalista foi incorporado na arquitetura, a partir de fins do século XVIII, tema que foi abordado por estudiosos de outra área do conhecimento: a filosofia. [...] Segundo Foulcaut, a sociedade, a partir do século XIX, tornou-se cada vez mais controladora e vigilante do comportamento das pessoas, o que afetou inclusive a cultura material e não apenas os edifícios [...].

[...]

O marxismo, por sua vez, é tão variado que se poderia citar uma pletora de influências na arqueologia, com destaque para o papel chave da filosofia marxista tal como entendida por Vere Gordon Childe, já no início do século XX, e para os marxismos da Escola de Frankfurt e sua teoria crítica [...].

[...]

Segundo alguns estudiosos marxistas, a arqueologia voltada para o divertimento, à la Indiana Jones, seria mero entretenimento. Seria como se a arqueologia servisse apenas para as pessoas sonharem com as antigas civilizações, "viajarem" como o fazem ao folhear as belas imagens da revista National Geographic. [...]

A arqueologia liga-se a outra ciência humana: a lingüística. Em termos históricos, tanto a arqueologia europeia como americana surgiram no bojo do estudo das línguas. A filologia histórica europeia estabeleceu a existência de troncos lingüísticos e, por analogia, procurou-se identificar, na cultura material, tais transformações e origens. [...]

[...]

A arqueologia não pode ser pensada, ainda, sem a referência à museologia, aos estudos de gestão do patrimônio, ao seu aspecto público. [...]

[...]

A arqueologia cada vez mais deve voltar-se para as disciplinas que refletem sobre o destino da cultura material que ela estuda e o caminho que se tem proposto é a colaboração da população em geral de maneira que esta possa ajudar a definir os usos desse material e mesmo sua interpretação. Também mostra-se relevante a tendência de interação dos arqueólogos com grupos de interesse, como os movimentos de mulheres ou de minorias étnicas (como os indígenas, os afro-descendentes etc.), sempre objetivando uma arqueologia que não seja excludente, mas que propicie a participação das pessoas no acesso ao conhecimento.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 85-98.

NOTA: O texto "A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.

sábado, 15 de março de 2014

As primeiras populações na Amazônia

Houve na Amazônia uma fase bastante seca, entre 18.000 e 12.000 anos atrás. Por isso, chegou-se a pensar que a mata tinha quase desaparecido, substituída por uma grande extensão de cerrados, no interior da qual teriam resistido "ilhas" florestais. De fato, acredita-se hoje que o recuo das matas tenha sido moderado, embora um "corredor" de vegetação mais aberta talvez tenha existido no meio da hileia, facilitando uma passagem terrestre no sentido norte-sul para os primeiros colonos.

Em todo caso, parece que a mata atual estava estabelecida no início do Holoceno, período durante o qual algumas flutuações climáticas menores, causadas por episódios do tipo El Niño, causaram em vários momentos um déficit em água. Isso determinou ou facilitou a propagação de incêndios catastróficos. Alguns arqueólogos acreditam que eles poderiam justificar êxodos de populações e sua posterior substituição por outros grupos, explicando a sucessão das tradições ceramistas na Amazônia. No entanto, trata-se de uma hipótese ainda não comprovada.

As mais antigas datações vêm de escavações realizadas no abrigo da Pedra Pintada de Monte Alegre, no Pará. Entre 10.000 e 11.200 anos atrás, encontram-se vestígios de uma densa ocupação de caçadores, pescadores e coletores que deixaram instrumentos de pedra lascada: milhares de lascas e várias pontas de dardo bifaciais, bem como lesmas unifaciais, lembrando a Tradição Itaparica do Brasil central. Pigmentos minerais preparados indicam que parte das pinturas rupestres do abrigo pode ter sido elaborada nessa época. Os restos alimentares incluem muitas espécies vegetais, inclusive a castanha-do-pará e numerosos coquinhos.


Pintura rupestre, Pedra Pintada, Pará

Na bacia do rio Guaporé, o abrigo do Sol também forneceu evidências de ocupação até cerca de 12.000 anos atrás, mas os dados sobre elas ainda não foram publicados.

Sabemos pouco sobre os milênios seguintes, por falta de prospecções e escavações sistemáticas. Mas, contrariando uma opinião tradicional de que não haveria indústrias de pedra lascada na Amazônia, as escavações recentes realizadas em Roraima e na região de Manaus mostram que, onde existiam afloramentos de rocha adequados, os homens pré-históricos produziram lascas cortantes, pontas de projétil com aletas e pedúnculo, e lâminas de machado lascadas. Dessa forma, a presença de caçadores está bem-comprovada entre 8.000 e 3.000 anos atrás em várias partes da bacia Amazônica.

Em sítios de coleta de moluscos - modestos sambaquis do baixo Amazonas e do litoral norte-maranhense - aparece uma cerâmica muito antiga, talvez a mais antiga das Américas, datada de pelo menos 5.500 anos, possivelmente 7.000 anos. As condições climáticas não permitiram a preservação dos vegetais nos sítios a céu aberto, e não se sabe quando teve início o cultivo de plantas. Deve ter sido há mais de 4.000 anos, pois nessa data a mandioca apareceu no Peru, muito provavelmente trazida da bacia Amazônica, de onde seria originária. De qualquer forma, foi preciso esperar o início da Era Cristã para que os sítios arqueológicos (reconhecidos sobretudo pela presença em superfície de vestígios cerâmicos) se multiplicassem. A maioria deles foi agrupada em duas grandes tradições, ambas reconhecíveis a partir do século IV ou V da nossa era.

A primeira, cujas mais antigas manifestações encontram-se na ilha de Marajó, é caracterizada por uma cerâmica decorada com padrões pintados complexos. Sendo por isso chamada Tradição Policroma, apresenta uma versão oriental (Subtradição Marajoara); e outra, ocidental (Subtradição Guarita). Esta parece ter-se desenvolvido no sentido leste-oeste, ao longo do rio Amazonas, a partir de sua foz, até alcançar os primeiros contrafortes dos Andes.

A segunda tradição parece oriunda das Guianas e da Venezuela, também no século IV. Ela penetra posteriormente a Amazônia brasileira, seguindo um eixo norte-sul. Chamada Tradição Incisa-Ponteada, em razão de uma decoração típica, inclui as famosas cerâmicas chamadas de Santarém ou dos Tapajós.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. p. 110-2.

NOTA: O texto "As primeiras populações na Amazônia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.