"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Memórias do cárcere

Olga Benário Prestes, 1926. Fotógrafo desconhecido

"Uma noite chegaram-nos gritos medonhos do Pavilhão dos Primários, informações confusas de vozes numerosas. Aplicando o ouvido, percebemos que Olga Prestes e Elisa Berger iam ser entregues à Gestapo: àquela hora tentavam arrancá-las da sala 4. As mulheres resistiam, e perto os homens se desmandavam terrível barulho. Tinham recebido aviso, e daí o furioso protesto, embora a polícia jurasse que haveria apenas mudança de prisão.

- Mudança de prisão para a Alemanha, bandidos. [...]

Apesar da manifestação ruidosa, inclinava-me a recusar a notícia: inadmissível. Sentado na cama, pensei com horror em campos de concentração, fornos crematórios, câmaras de gases. Iriam a semelhante miséria? A exaltação dominava os espíritos em redor de mim. Brados lamentosos, gestos desvairados, raiva impotente, desespero, rostos convulsos na indignação. Um pequeno tenente soluçava, em tremura espasmódica:

- Vão levar Olga Prestes. [...]

Em duro silêncio, fumando sem descontinuar, sentia na alma um frio desalento. Mas por que, na horrível ignomínia, haviam dado preferência a duas criaturas débeis? Elisa Berger, presa, era tão inofensiva quanto o marido, preso também. Contudo iam oferecê-lo aos carrascos alemães, e Harry Berger permanecia aqui, ensandecido na tortura. O nazismo não exigia restos humanos, deixava que eles se acabassem devagar no cárcere úmido e estreito. [...] Olga Prestes, casada com brasileiro, estava grávida. Teria filho entre inimigos, numa cadeia. Ou talvez morresse antes do parto. A subserviência das autoridades reles a um despotismo longínquo enchia-me de tristeza e vergonha. Almas de escravos, infames; adulação torpe à ditadura ignóbil. Nasceria longe uma criança, envolta nas brumas do Norte; ventos gelados lhe magoariam a carne trêmula e roxa. Miséria - e nessa miséria abatimento profundo. [...]

Ideias fúnebres iam, vinham, engrossavam-me o coração. Miseráveis. O campo sórdido, o opróbrio, a dor. E depois os fornos crematórios, as câmaras de gases. Outras figuras em roda permaneciam inertes como eu, cabisbaixo, olhos no chão. Carlos Prestes, isolado, estaria assim, mas ignorava as ameaças à companheira. Chega-lhe-ia aos ouvidos um som confuso do imenso clamor. [...] Passaria meses sem poder inteirar-se da enorme desgraça. [...]

- Para que isso? perguntava a mim mesmo impacientando-me. Ignoram tudo, e a imprensa, vendida, nos enegrece. [...]

Olga Prestes e Elisa Berger nunca mais foram vistas. Soubemos depois que tinham sido assassinadas num campo de concentração na Alemanha."

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Record, 1982. v. 2. p. 274-8.

domingo, 20 de julho de 2014

Prisioneiros em obras de arte

Visita de prisão, Theodor Leopold Weller

Nomeação de um prisioneiro com sua família, Vasily Petrovich Vereshchagin

Reféns, Jean-Paul Laurens

A condução das raparigas de alegria ao Salpêtrière, Étienne Jeaurat

Sansão aprisionado, Annibale Carracci

Casa de loucos, Francisco Goya

Vitória da fé, George Hare

Prisioneiros turcos, Nicolae Grigorescu

Rodada dos prisioneiros, Vincent van Gogh

O rapto das sabinas, Christoph Fesel

Cativos em Roma, Charles W. Bartlett

À espera de venda de escravos, Richmond, Virginia, Eyre Crowe

A escrava branca, Ernest Normand

Vendendo uma criança escrava [Um rico homem turco examina um menino nu, antes de comprá-lo], Vasily Vereshchagin

Cláudio e Isabella, William Holman Hunt

A prisioneira, Evelyn De Morgan

Cave canem, Jean-Léon Gérôme

Boyarina Morozova, Vasily Surikov

O rapto de Helena, Giovanni Francesco Romanelli

O condenado, Makovsky

Prisioneiros do front, Winslow Homer

As virgens cristãs sendo expostas ao povo, Félix Resurrección Hidalgo

Stella na prisão, François Marius Granet

O rapto de uma mulher herzegoveniana, Jaroslav Čermák

Oficiais alemães prestam homenagem aos prisioneiros franceses feridos, Édouard Detaille

Estupro das filhas de Leucipo, Peter Paul Rubens

Um detento na prisão, Heinrich Modersohn

Sultão Bayezid aprisionado por Timur, Stanisław Chlebowski

O prisioneiro de Chillon, Eugene Delacroix

Bandoleiro e cativa, Johann Georg Volmar

Criminosos, Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

O rapto das sabinas, Francisco Pradilla

Ricardo II supervisiona o massacre dos prisioneiros islâmicos, Sébastien Mamerot e Jean Colombe – século XV

A amarga corrente de ar da escravidão, Ernest Normand

O resgate, John Everett Millais

Aprisionada, Henry Justice Ford

São João Batista no cárcere, Victor Meirelles

Luisa Sanfelice no cárcere, Gioacchino Toma

Maria Antonieta na prisão, Oscar Rex

Nas correntes, Ernest Normand

A tortura de Cuauthémoc, Leandro Izaguirre