"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Barão Wilhelm von Gloeden (1856-1931)

Terra do fogo.
Fotografia de Wilhelm von Gloeden

Um fotógrafo gay pioneiro, que usou jovens italianos para recriar imagens da Grécia Antiga. Viveu no exílio em Taormina, na Sicília, ajudando a cidade a se tornar um destino para homossexuais europeus e americanos.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 200. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Lorde Byron (1788-1824)

Lorde Byron em seu leito de morte.
Joseph Denis Odevaere

O maior poeta romântico e bissexual de sua época. Byron foi impelido ao exílio pela sociedade inglesa por causa de suas confissões homossexuais. Admirava profundamente o conceito de Amor Grego. Morreu pela causa da liberdade grega, em Missalonghi.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 200.

domingo, 25 de junho de 2017

Edward Carpenter (1844-1929)

Edward Carpenter e George Merrill em 1900.
Fotógrafo desconhecido

Socialista, poeta e precursor do ativismo gay. Carpenter defendia com empenho todas as formas de liberdade sexual. Seu trabalho foi de grande inspiração para que muitos outros fossem honestos quanto a sua homossexualidade.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 201. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Conde Jacques d'Adelswird Fersen (1880-1923)

Capa da Revista Akademos, publicada pelo Conde Jacques d'Adelswird Fersen em 1909.

Escritor francês que se exilou de Paris depois de ter sido preso e ter caído socialmente em desgraça por causa de um escândalo envolvendo dois garotos. Instalou-se na Ilha de Capri e viveu uma vida abertamente homossexual, atraindo, assim, para a ilha pessoas com sentimentos semelhantes.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 200-1.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teófilo de Viau (1590-1626)

Teófilo de Viau.
Artista desconhecido

Poeta francês e libertino que escreveu sobre o amor entre homens. Foi exilado para a Inglaterra por comportamento sexual em 1619, mas voltou para a França em 1622. Tornou-se uma causa célebre na Europa, após ser novamente preso e sentenciado ao exílio perpétuo.

AMBROSE, Tom. Heróis e exílios: ícones gays através dos tempos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2011. p. 199.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A sexualidade a bordo das naus lusitanas

Nu deitado, Amedeo Modigliani


Em meio a um ambiente conturbado, repleto de privações, a sexualidade a bordo das naus lusitanas era encarada como um tabu e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, com uma liberdade quase nunca observada no reino.

Enquanto em terra havia um tabu com relação à nudez do corpo, entre os homens do mar, habituados à nudez dos nativos das terras descobertas e à sua forma de encarar o sexo mais livremente, a sexualidade era quase libertina.

Nos navios. o ato sexual era quase sempre uma prática coletiva, com a ausência de parceiros fixos e o compartilhamento de objetos sexuais. Práticas consideradas mesmo em nossos dias promíscuas eram corriqueiras nas embarcações. Por vezes, as mulheres disponíveis eram duplamente penetradas, enquanto forçadas a praticar sexo oral e a manusearem, em cada uma das mãos, as genitálias de outros homens, servindo, sexualmente, cinco deles, ao mesmo tempo. Ao redor, outros se masturbavam ou praticavam sexo entre si, aguardando sua vez de participar da bacanal.

Quando não havia mulheres a bordo, os pobres grumetes terminavam servindo sexualmente à marujada, integrados ao sexo grupal. Se a Inquisição caçava os adeptos do homossexualismo em terra, no mar procurava ser mais branda, uma vez que a falta de mulheres a bordo justificava, a seus olhos, os atos de sodomia.

Em terra firme, a Inquisição em Portugal queimava os implicados em atos homossexuais, mas apenas quando reincidentes. Assim, estrangeiros diziam que a Inquisição em Portugal era muito branda se comparada com a atuante na França, na Suíça e na Alemanha, onde se queimavam sodomitas sem remissão.

De fato, muitos eclesiásticos portugueses defendiam a isenção de penas para os praticantes de sodomia, ou pelo menos, que eles não tivessem castigo tão severo. A motivação da defesa era conhecida de todos e tema de piada entre os estrangeiros: os religiosos lusitanos, mesmo os inquisidores, tinham fama de homossexuais ativos. Em certas casas eclesiásticas, onde os jovens aprendiam as ciências e a piedade, eram também iniciados em práticas sexuais homoeróticas, chamadas "relaxações", inspiradas pelo modelo grego que pregava que o verdadeiro amor só podia ser desenvolvido entre pessoas do mesmo sexo, com um homem mais velho conduzindo um jovem pelos prazeres da carne.

Parece que, atendendo aos apelos dos religiosos, sob o disfarce de benevolência que procurava ocultar a natureza homossexual da motivação da piedade, no além-mar os estatutos da Inquisição portuguesa eram mais brandos, embora não se possa negar que atendessem a uma necessidade social, ou seja, viabilizar a aventura marítima portuguesa num contexto de grande disparidade numérica entre homens e mulheres a bordo.

A Inquisição de Goa, por exemplo, recomendava que se evitasse a pena pública para a sodomia, imputando apenas uma penitência oculta, condenando secretamente os praticantes reincidentes, quando pegos em flagrante, ou degredo.

A raridade de mulheres nos navios levava a maioria dos embarcados a satisfazer seu desejo sexual com outros homens. Tais relações, muitas vezes, realizavam-se pela força bruta (posse forçada do corpo dos mais fracos) ou pelo peso das hierarquias, que obrigava os mais humildes a satisfazer as vontades dos seus superiores.

Dentro desse contexto, os grumetes, na hierarquia abaixo dos marinheiros, eram muito visados, a despeito de serem crianças entre 9 e 16 anos. Dada a fragilidade infantil, incapaz de conter os assédios, ou em troca de proteção de um adulto ou de um grupo de adultos, os grumetes eram obrigados a abandonar precocemente, a inocência infantil, entregando-se à sodomia. Quando tentavam resistir, eram estuprados com violência, e, por medo ou vergonha, dificilmente se queixavam aos oficiais, até porque, muitas vezes, eram os próprios oficiais que permitiam ou praticavam tal violência.

Em suma, imperava a lei e a moral do mais forte.

Os marujos eram gente de má fama, tidos como adúlteros, alcoviteiros, amantes de prostitutas e ladrões, capazes de acutilar e matar por dinheiro. A reputação dos soldados não era muito melhor, acrescida da impressão de que não guardavam grande respeito ou obediência com relação aos oficiais superiores. Já os passageiros eram em sua maioria miseráveis, descalços, famintos e desarmados, tendo, portanto, muito pouco a perder. Esse conjunto, nas condições precárias de vida das naus, era capaz de dar origem a criminosos da pior espécie, elementos responsáveis por inúmeras violências a bordo.

O próprio cotidiano, repetitivo, empurrava os tripulantes e passageiros de má índole para a caça de parceiros sexuais como um meio de ver o tempo passar rápido.

O mesmo tipo de sexualidade observada na Idade Média entre as corporações de ofício, quando dividir um parceiro sexual entre os companheiros simbolizava o estreitamento dos laços de amizade e camaradagem, terminou sendo adotado a bordo das embarcações portuguesas do início da Idade Moderna.

A prática sexual do estupro coletivo de uma mulher ou de um garoto por grupos de marinheiros ou soldados não era execrável na época sendo dificilmente punida pela autoridades de dentro e mesmo de fora dos navios.

[...] era comum os marinheiros embarcarem prostitutas clandestinas, enganando-as ou forçando-as a subir a bordo com ameaças e violência. A presença de meretrizes nos navios, muitas vezes, servia para acalmar os ânimos dos homens. Sabendo disso, alguns capitães optavam por fazer com que essas clandestinas pagassem sua passagem com trabalho sexual.

Entretanto, embora as prostitutas a bordo desviassem um pouco a atenção dos homens dos garotos, não impediam o assédio constante às escassas "mulheres de bem", pois, além de o número de mulheres para cada homem estar sempre longe do suficiente, o risco de contrair doenças venéreas, como em terra, criava uma certa aversão às profissionais do sexo. De fato, o contato com essas mulheres representava um grande perigo, já que raramente deixava de premiar os incautos com "lembranças de Vênus", suficientes para amargurar e causar forte arrependimento.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 104-106.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O sexo das mulheres: desejo e homossexualidade (Parte 4)

O sono, Gustave Courbet

A descoberta do prazer feminino é antiga. Os cavaleiros da Idade Média temem o leito e a mulher insaciável que não estão certos de poder satisfazer, segundo Georges Duby. O Renascimento favorece esse reconhecimento do desejo. Os médicos detectam um líquido feminino, que seria sinal de gozo e que ajuda a reprodução. A corte dos Valois era propícia às experiências de todos os tipos e mesmo às palavras para dizê-los.

O desejo das mulheres se expressa em certos textos da Idade Média e mais ainda do Renascimento, como as poesias eróticas de Pernette du Guillet. As mulheres galantes, cuja vida é evocada por Brantôme, sabem gozar do sexo. Segundo Pierre Camporesi, Catherine Sforza vangloriava-se de tomar posições favoráveis ao orgasmo, palavra não utilizada, embora não se ignorasse a coisa, que é preciso buscar no eufemismo e nas expressões da linguagem poética.

O século XVII da Contrarreforma e do jansenismo é cheio de pudores. A libertinagem do século XVIII é sobretudo masculina, como o erotismo do século XIX. [...]

Fala-se ainda menos da homossexualidade feminina, em razão dos tabus que a dissimulam. A tal ponto que Marie-Jo Bonnet, uma de suas primeiras historiadoras, quase renunciou à tarefa de estudá-la, tendo encontrado tão somente raros testemunhos literários (como Lélia de George Sand, que causou escândalo ao ser publicado), recorrendo mais tarde à imagem para decifrá-la. As meninas, entretanto, não ignoram a excitação do coração e do corpo, sobretudo nos pensionatos ingleses, mais livres, que foram estudados por Caroll Smith-Rosenberg.

O beijo, Henri de Toulose-Lautrec

Tudo muda por volta de 1900. "Naquele tempo, Safo ressucitou em Paris", escreve Arsêne Houssaye. As "Amazonas de Paris" - Natalie Clifford Barney, Renée Vivien, Colette e muitas outras - reencontram os caminhos de Lesbos e animam, na rive gauche, círculos literários livres e refinados. É o tempo das "raparigas em flor", que atormentam o narrador proustiano.

A guerra separa e fere os casais. Ela autoriza inúmeras descobertas sexuais, não raro dramáticas. Radclyfe Hall evoca esses sofrimentos identitários em The Well of Loneliness (1928). Os "Anos Loucos" marcam, nas grandes capitais europeias, a explosão de uma homossexualidade muito mais alegre e liberada, na qual as lésbicas estão muito presentes. Virgínia Woolf, Violette Trefusis e seus amigos do grupo de Bloomsburry, Gertrude Stein, Romaine Brooks, Adrienne Monnier e Sylvia Beach são as personalidades mais conhecidas. Sabemos que elas se amavam, que tinham prazer em estar juntas, que aliavam gozo e criação. Não muito mais que isso.

Na cama, Henri de Toulose-Lautrec

A expressão de um erotismo feminino, ou mesmo de uma pornografia, é, em suma, um fenômeno recente, que atingiu o romance (Virginie Despentes, Catherine Millet) e principalmente o cinema (Catherine Breillat).

Rosa ou negro, rosa e negro, o continente da sexualidade feminina continua uma terra desconhecida, um universo por explorar.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 67-8.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 3)

Parte 3: Final cor-de-rosa

Depois deste episódio, a influência política do padre Claret aumentou consideravelmente, acompanhado por dois pitorescos agentes do Vaticano: Soror Maria dos Patrocínios, "a freira das chagas", que tinha inventado um falso milagre infligindo a si própria os estigmas de Cristo, e uma estrambólica personagem chamada padre Fulgêncio. Sob o conselho deste trio de religiosos fundamentalistas, Isabel começou a tomar medidas cada vez mais reacionárias, desde que as suas escapadelas adúlteras não chegassem aos ouvidos do papa. O povo começou a expressar abertamente a sua rejeição e os liberais dedicaram-se a plantar conjuras para destronar a rainha. Francisco, que se limitava a fazer a sua vida com os amigos e amantes sem intervir nos assuntos do reino, viu chegada a hora do divórcio. Participou abertamente nas conspirações opositoras, às quais ofereceu apoio institucional e celebrou alvoroçado a revolução de 1868, que obrigou Isabel II a exilar-se em França, embora também tenha seguido o mesmo caminho. Dois anos mais tarde, Isabel abdicou em Paris a favor de Afonso XII, enquanto Francisco, feliz e contente, se dedicou a desfrutar a vida e as suas alegrias durante longos anos. Morreu, já octogenário, nas sua quinta como uma personagem secundária, mas sem lhe negar o mérito de ter sido, desde os tempos do infante dom Jaime, o primeiro a ostentar sem sentimento de culpa a sua condição de gay.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 210.

Galeria de imagens: "Los borbones em pelota", aquarelas atribuídas a Valeriano Domínguez Bécquer & Gustavo Adolfo Bécquer, século XIX.

A la izquierda: Francisco de Asís sosteniendo una pelela; Isabel II en la cama siendo fornicada por el Padre Antonio María Claret; a la derecha, Carlos Marfori. Texto: ¡Oh viejo que estás jodiendo! / al infierno vas cayendo!

Francisco de Asis de Borbon. Texto: "El rey consorte, primer pajillero de la Corte."


Carlos Marfori con una botella de vino; Sor Patrocinio recibiendo el galanteo de González Bravo; Francisco de Asís requiriendo a González Bravo mientras es sodomizado por el Padre Antonio María Claret; en el suelo, dos perritos copulando (no se puede apreciar de qué sexo son los dichos perritos)


Isabel II con su intendente Carlos Marfori. Fco de Asís. A la derecha espera un batallón de guardia.
Leyenda de la acuarela:
Isabel —Espérate a que acabe mi intendente.
Paquita —¡Aguardemos la vez, como en la fuente!


Isabel II fornicando con Carlos Marfori. Texto: "¡Carlos, Carlos, yo lo espero / de tu hidalgo corazón / mételo sin dilación / que ya por joder me muero!"


Viñeta de la saga satírica Los Borbones en Pelota con el pareado "Sentada está en su poltrona, con cetro, chulo y corona"


(Reproducción o ilustración del álbum de láminas satíricas "Los Borbones en pelota")

domingo, 9 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 2)

Parte 2: A rainha dissoluta e o seu marido gay


Retrato do rei Francisco de Bourbon, rei consorte de Espanha por seu matrimônio com a rainha Isabel II de Espanha. Artista desconhecido 

A cerimônia nupcial celebrou-se com grande pompa e circunstância no dia 10 de Outubro de 1846, com Francisco de Assis adornado e enfeitado com as suas melhores vestes e a rainha resplandecendo, vaidosa, nos seus corpulentos dezasseis anos acabados de completar, ambos com um ar de resignação no olhar húmido. O povo de Madrid celebrou como convinha o primeiro casamento de uma rainha desde o de Isabel com Fernando, em 1496, que, para cúmulo, se tinha celebrado em segredo. Nessa noite, depois de terminados os festejos, ouvia-se pelas ruas uma cantoria desafinada e jocosa que descrevia assim o casal real: "Isabelona, tão frescalhona e dom Paquito, tão 'mariquito'".

Dentro do palácio, os protagonistas confirmavam a cançoneta. Francisco de Assis apresentou-se na alcova real com uma camisa tão carregada de bordados e rendas, que provocou o sarcástico comentário que abre a Parte 1. A noite não deu para muito mais e, na manhã seguinte, saíram ambos com forçados sorrisos de circunstância. O passar das semanas, que se transformou em meses, não trouxe qualquer novidade ao ventre da rainha e pela corte começou a correr o rumor que Francisco, para além das suas particulares tendências, também era impotente. Uma criada de quarto ventilou a confidência de o real esposo não ter força no seu... e que o tinha visto a urinar sentado na sanita. O engenho popular não tardou a inventar uma nova rima a esse respeito:

"Paquito adocicado,
De creme parece ser;
Até urina sentado
Tal como uma mulher..."

Apesar de continuar a enfeitar-se, Francisco de Assis tentou manter uma atitude prudente e formal no desempenho do papel de marido real. Também é provável que, de vez em quando, tentasse uma cópula, cujo fruto teria contentado a corte, o povo e talvez a própria interessada. Mas Isabel não tinha nascido para piloto de ensaios e as suas hormonas, em pleno desenvolvimento, pediam-lhe outro tipo de guerra. Lançou-se numa vida cada vez mais libertina, oferecendo o seu corpo adolescente e robusto às alegrias que não encontrava com Francisco. Talvez ele tivesse suportado com alívio esta situação se a rainha tivesse mantido a compostura em público. Contudo, Isabel não só não dissimulava a sua conduta adúltera, como também se permitia censurar o marido, gozando com os seus cornos, a sua impotência e os seus gostos afectados.

Alguns meses depois do casamento, Isabel II tomou por amante o general Francisco Serrano, duque da Torre, ministro da Guerra e herói da guerra carlista. Numa recepção do palácio, Serrano soltou um comentário ofensivo sobre a situação conjugal de Francisco, que não perdoou a Isabel tê-lo aplaudido ruidosamente. A partir deste incidente, quebrou-se a trégua entre ambos, que passaram a ocupar quartos separados. A rainha aproveitou a ocasião para aumentar escandalosamente a lista de amantes, incluindo o seu professor de canto, o compositor de zarzuelas Emilio Arrieta; o sedutor profissional Emilio Marfiori, a quem nomeou conselheiro do reino e ministro do Ultramar; o aristocrático duque de Bedmar e, entre muitos outros, o oficial de engenharia catalão Puig i Moltó, presumível pai de Afonso XII.

A conduta libertina de Isabel trouxe-lhe inevitavelmente problemas com o Vaticano, que chegou a ameaçá-la veladamente com a excomunhão. O assunto sanou-se graças aos bons ofícios do padre Antonio María Claret, confessor da rainha e futuro santo, que utilizou toda a sua influência junto de Pio IX. Isabel  prometeu emendar-se e devolveu à Igreja uma série de propriedades e prerrogativas perdidas com os governos liberais. A Santa Sé estabeleceu uma concordata com Espanha, em 1851, e diz-se que, quando um cardeal recordou ao pontífice a fama da rainha, este concordou sorridente e suspirou enquanto assinava. "Si, puttana; má pia".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 208-9.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 1)

Parte 1: Matrimônio por impotência

Por amor de Deus, Francisco, usas mais rendas que eu!
(Isabel II, na sua noite de núpcias)

 Retrato de Francisco de Assis Bourbon, Federico de Madrazo y Kuntz

Francisco de Assis de Bourbon era o secundogénito desta nobre casa, que teve a sorte de se casar com uma rainha e o azar de esta ser sua prima Isabel II de Espanha. Muito mulher, em todos os sentidos, para que um marido homossexual e bastante efeminado pudesse levar com alguma dignidade um matrimônio de aparência por razões de Estado. O pobre Francisco, Paquito como todos lhes chamavam, tentou honestamente no início, mas sem conseguir dissimular de todo os seus adornos. Mas Isabel também não perdeu tempo. Pouco depois do casamento, lançou-se numa vida imprópria de qualquer senhora e muito menos de uma rainha. Os seus coquetismos públicos, a sua enorme colecção de amantes, as suas piadas cortantes sobre o seu efeminado marido, que o faziam corar de vergonha e o indignavam ao mesmo tempo, deterioravam tanto a sua imagem pública como a paciência do forçado cônjuge. O confronto levou a uma ruptura, nem se dando ao trabalho de manterem as aparências, e Francisco começou a tramar uma elaborada vingança.

Quando, em 1822, Francisco de Assis de Bourbon nasceu no palácio de Aranjuez, foi para fazer parte de uma família complicada.

O pai, o infante Francisco de Paula, tinha sido oficialmente o herdeiro da coroa, embora nunca tivesse chegado a reinar. A revolta de Aranjuez de 1808, que motivou a abdicação de Carlos IV, destituiu o seu primogénito a favor do irmão mais novo, que subiu ao trono como Fernando VII. A razão evocada pelos amotinados e referendada pelas Cortes de Cádis foi a de Francisco de Paula não ser, na verdade, filho de Carlos IV, mas do odiado favorito Godoy e da rainha Maria Luísa. O presumido bastardo ficou na incómoda posição de infante despeitado e ressentido, com o título de consolação de duque de Cádis. Francisco cresceu nesse ambiente paterno de rancor surdo, refugiado no amor e nos excessivos mimos de sua mãe, Luísa Carlota de Nápoles. Ao chegar à puberdade, era um menino muito bonito, baixo e gordo, de maneiras efeminadas e uma constante obsessão pela roupa requintada, pelos perfumes e adornos extravagantes. Algum tempo depois, os mexericos da corte já lhe atribuíam o seu primeiro amante na figura do duque de Baños, com quem Francisco exibia a sua afetada elegância em locais de diversão frequentados pela aristocracia e pela nova classe política.

Entretanto, sobreveio a restauração de Fernando VII, que não honrou o seu cognome de O Desejado ao derrogar a constituição liberal de 1812 (a famosa "Pepa") e provocar com isso uma série de revoltas que o obrigaram a estabelecê-la e a admitir um governo liberal. O triénio progressista terminou abruptamente com a invasão dos "Cem mil filhos de São Luís", uma tropa francesa enviada pela Santa Aliança para repor o regime absolutista. Em 1829, Fernando VII casava-se com Maria Cristina de Bourbon, que lhe deu uma filha chamada Isabel. Para que ela pudesse herdar o trono, o rei aboliu a tradicional Lei Sálica, que excluía as mulheres da sucessão, o que causou a indignação dos sectores conservadores ultracatólicos, que começaram a plantar a candidatura do infante Carlos, irmão de Fernando e, até então, legítimo herdeiro. O soberano faleceu em 1833 e Maria Cristina apressou-se a coroar a filha e a assumir a regência.

Isabel II tinha três anos de idade quando foi proclamada rainha de Espanha, com o desacordo dos ultramontanos que desencadearam a chamada primeira guerra carlista. Em 1840, as tropas reais obtém uma difícil vitória, comandadas pelo hábil e ambicioso general Baldomero Fernández Espartero. A rainha-mãe cede-lhe então a regência, que termina três anos depois com a declaração da maioridade de Isabel. Por volta dos treze anos, a rainha era uma menina gorda e caprichosa e, ao mesmo tempo, um tentador partido político para todos os grupos internos e numerosos governos europeus. Todos começaram a procurar-lhe um noivo, atendendo aos vários interesses em causa.

Entre os aspirantes com mais possibilidades estavam Leopoldo de Saxe-Coburgo, favorito da rainha-mãe; Carlos Luís Bourbon, conde de Montemolín, proposto pelos franceses, e Pedro de Bragança, filho do rei de Portugal, que na altura teria apenas oito anos. Mas os reinos patrocinadores vêem os seus candidatos recusados uns atrás dos outros. Surge então a ideia de organizar o duplo matrimónio de Isabel II e de sua irmã, a infanta Maria Luísa, com dois noivos que compensassem as diferenças políticas e dinásticas no teatro europeu. O rei de França, Luís Filipe de Orleães, aproveita e monta um maquiavélico plano. Os seus agentes em Espanha asseguraram-lhe que Francisco de Assis era homossexual e diz-se que a própria Luísa Carlota confirmou em segredo esta condição do seu filho, com a esperança de o rapaz se esforçar e lhe dar um neto que pudesse reinar. Luís Filipe, mais céptico, acredita ser pouco provável que isso ocorra e concretiza a sua proposta: Isabel casar-se-á com Francisco, que é um Bourbon, e a infanta Maria Luísa, com António de Orléans. Se, como era de esperar, a rainha e o seu cônjuge não tivessem descendência, a Casa de Orléans passaria a deter a coroa de Espanha.

Maria Cristina aceitou esta opção para consolidar as suas delicadas relações com a França e o matrimônio recebeu a aprovação do governo e das cortes. A única que se opôs frontalmente ao casamento foi a própria noiva que, de acordo com as crónicas, caiu num histérico ataque de choro e ameaçou abdicar, gritando: "Com Paquito não! Com Paquito não!".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 204-8.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

“Entre homens”: homossexualidade e virilidade em 1968

Pátroclo, Jacques-Louis David

Se falar em sexo publicamente ainda era complicado nos anos 1968, era prudente que os homossexuais se reservassem ao espaço privado. Embora causassem polêmica, determinados comportamentos que confrontavam a noção de masculinidade criada pela sociedade não eram debatidos abertamente, como recorda Ricardo:

A gente supunha que algum rapaz que não falava em mulher, não jogava futebol e não bebia, pudesse ser uma mocinha. Mas, os homossexuais eram muito caricaturizados, discriminados, agredidos e era muito natural que não se expusessem.

A caracterização do homossexual atingia direto o estereótipo do "macho" e o preconceito era o preço mais alto a ser pago:

Eu fui criado numa sociedade onde ser homossexual era ser criminoso, era ser pecaminoso, uma coisa feia que não se conta, uma coisa vergonhosa. Então, o meu desejo foi levado... meu desejo ele foi ensinado a se manifestar somente em situações ligadas à marginalidade: Noite! A palavra noite é feminina já notaram? Dia é masculino: claro, luz, razão, precisão! Noite é feminina: escura, obscura, indefinida, marginal!... Então, meu desejo foi educado para ser ativado em locais tipo barzinhos à noite, becos escuros, saunas... Os tipos de caras que me atraem são caras assim, mais ou menos, que lembram esse ambiente, submundo de coisa assim.

Muitas vezes sem poder (e nem querer) frequentar os mesmos lugares que rapazes heterossexuais, a vivência homoerótica levava à prática de uma subcultura masculina, marginalizada. Os espaços de sociabilidade, caracterizados em sua grande maioria pela escuridão e seus sinônimos, eram restritos, e cabia ao jovem descobrir os mesmos. Os cinemas, desde décadas anteriores, eram espaços privilegiados para isso. Armando Antunes relembrou sua primeira experiência num cinema da capital mineira:

A primeira vez que eu fui num cinema e que aconteceu alguma coisa comigo foi no cine Piratininga. Eu sentei lá e de repente eu percebi que sentou alguém do meu lado, mas eu não me toquei, eu não estava ali para caçar. Eu era novo ainda. Quando eu percebi alguém me pegou. Eu senti uma mão me pegar. Mas eu dei um berro que o cara fugiu para um lado e eu fugi para o outro.

O grito instintivo não foi entendido por ele como uma agressão. Na verdade, foi o momento em que se deu conta de que não estava sozinho no mundo ao se interessar por um homem: "Eu não era a aberração da humanidade. Existia um núcleo, mas era um núcleo tão escondido que eu teria que procurar quem era". Armando relembra como começava um namoro na penumbra do cinema:

Você encostava a perna no rapaz e sentia se ele queria. Bom, se encostou e ele não tirou, é porque não se sentiu incomodado. Mas houve uma época em que o lanterninha pegava você no flagra. Ele jogava a lanterna em cima de você e chamava a polícia.

Se as condições permitissem, os contatos sexuais anônimos podiam terminar em masturbação mútua, em sexo ou em um hotel barato fora do cinema, como revelou o historiador americano James Green.

O Rio de Janeiro desde os anos de 1950 passou a atrair homens (que gostavam de homens) vindos de outros estados do país onde se sentiam pressionados, ou ainda hostilizados, pela família e pela sociedade em que viviam. Mudar-se para a cidade maravilhosa significava "livrar-se da supervisão e do controle familiar e da pressão para o casamento e filhos". Além do já consagrado local do centro da cidade nos arredores da Lapa, da Cinelândia e da Praça Tiradentes, os anos 1968 viram o bairro de Copacabana como o lugar de vida noturna mais vibrante não somente para a classe média em geral, mas também para os homossexuais. Este ainda é o momento em que estabelecimentos começam a atrair um público majoritariamente gay sem serem hostilizados pelos empresários locais. Algumas casas noturnas, como o Alfredão, o Alcatraz e o Stop, passaram a abrigar uma clientela composta por rapazes homossexuais. Entretanto, o grande charme de Copa era o mar e o desfile dos corpos seminus, que podiam ser observados sem pudor algum. E, em frente ao luxuoso hotel Copacabana Palace, local reservado ao jet set nacional e internacional, as bichas, como já eram chamadas desde os anos de 1930, fizeram do espaço o seu "posto", que passou a ser conhecido como a Bolsa de Valores: "lugar onde você pode mostrar-se aos holofotes e virar notícia tinha data e local marcado. O concurso de Miss Brasil era ponto de "bonecas", como também eram chamados os homossexuais mais afeminados, do Rio de Janeiro, como apresentou uma reportagem da revista Realidade:

Às oito da noite, 40 mil pessoas já estão no Marcanãzinho lotado, pois nada mais importante existe para elas que um concurso de Miss Brasil. O ginásio está explodindo em gritaria e aplausos, a cada "miss" que dá a paradinha, o rodopio e manda dois beijos para o público. De repente a polícia resolve entrar na "passarela". As "misses" assustadas saem correndo e dando gritinhos desesperados. Levantadas no ar, indefesas, pequeninhas diante do tamanho dos guardas. são levadas para algum canto misterioso. É o fim tradicional do desfile dos bonecas, ou transviados sexuais, que todo ano, em algum pedaço vazio da arquibancada, precede o desfile de verdade.

Entretanto, boa parte dos homossexuais se resignava a um universo privado, pessoal, muitas vezes relutando contra suas próprias vontades em nome do preconceito que lhes atingia. Mesmo nos círculos mais "avançados", como as organizações de esquerda que resistiram à ditadura militar, o homossexualismo era visto com muita reserva. Herbert Daniel, militante de organizações guerrilheiras, como a Polop (Política Operária) e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), foi um desses que, em nome da aceitação no grupo e das práticas revolucionárias, negou sua sexualidade durante anos. Em seu livro, Meu corpo daria um romance, Herbert desabafa sua vida duplamente clandestina:

Quis extirpar o sexo antigo. Aos poucos, adotei um sexo futuro. novo, que naquele instante se tornava pura abstinência. A última vez que trepei com alguém deve ter sido em meados de 67. Abstinente passei toda a clandestinidade. Sete anos. (Não posso deixar de escrever o prometido elogio à punheta, senão dificilmente poderei fazer alguém compreender a minha clandestinidade. Porque creio que se tivesse apagado meu sexo nunca teria acreditado na militância. Um militante sem sexo é um totalitário perigoso. Um punheteiro é apenas um confuso ingênuo e esperançoso.)

As noites solitárias foram o preço a ser pago em nome de um "ideal" cujo "ideal de homem" era o guerrilheiro, viril e másculo. Os revolucionários dos anos 1968 carregavam muito do traço mais tradicional da cultura patriarcal desde a época colonial: a supremacia masculina. Nesta hegemonia, o importante era parecer "macho", mesmo não sendo.

James Green indicou que muitos homossexuais saíam em busca de homens "verdadeiros": uma reversão dos papéis tradicionais onde o sujeito "passivo" torna-se ativamente aquele que procura uma relação sexual. Segundo o brasilianista, essa dinâmica sexual, na qual o homossexual tinha de tomar a iniciativa, contribuiu para a formação de uma identidade imbuída de autoconfiança e que se contrapunha aos estereótipos sociais do bicha patético e passivo. É interessante ressaltar, com essa constatação. o quanto dos valores viris também foram apregoados por homossexuais. Uma reversão do entendimento, que vem desde o início da era cristã, de que o homem homossexual não era viril (lembrando que as relações homoeróticas entre gregos e romanos eram entendidas sobretudo como viris, expressando a potência masculina em detrimento do elemento feminino). Esta autoridade de si, juntamente com a evolução política dos anos 1968, permitiu o questionamento dos papéis sociais e sexuais rígidos assumidos pelas "bonecas", ou seja, de que para ser homossexual era preciso necessariamente ser efeminado. Certamente esses fatores contribuíram para formação de uma consciência que em fins dos anos 1970 passou a ser expressa pelo movimento gay no Brasil.

Angélica Müller. Não se nasce viril, torna-se: juventude e virilidade nos "anos 1968". In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Marcia. (Orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: UNESP, 2013. p. 319-323.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Prazer antigo: Taça de Warren

Há dois mil anos, membros da elite de grandes impérios como o de Roma não se preocupavam apenas com poder e conquista. Como todas as elites, também encontravam tempo para o prazer e para a arte. Este objeto incorpora as duas coisas. É uma taça de prata feita na Palestina, por volta de 10 d.C. [...]

A Taça de Warren mostra cenas de união sexual entre homens adultos e rapazes adolescentes. Esta peça de prataria romana, de dois mil anos de idade, é um cálice que parece capaz de comportar o conteúdo de uma taça muito grande de vinho. [...] Deve ter sido usada em festas particulares, e, levando em conta o tema, certamente atraía a atenção e despertava a admiração de todos os presentes.

Comer e beber abundantemente eram rituais importantes do mundo romano. Em todo o império, funcionários romanos e mandachuvas locais usavam banquetes para azeitar as engrenagens da política e dos negócios e para ostentar riqueza e status. As mulheres romanas costumavam ser excluídas de eventos como as bebedeiras das quais nossa taça faria parte, e talvez seja lícito supor que nosso objeto se destinava a festas com listas de convidados compostas apenas por pessoas do sexo masculino.

Imaginemos um homem chegando a uma grande vila perto de Jerusalém por volta do ano 10. Escravos conduzem-no por uma opulenta área de jantar, onde ele descansa com outros convidados. A mesa está servida, com bandejas de prata e taças enfeitadas. É nesse contexto que nossa taça seria passada de um convidado para outro. Nela duas cenas de sexo entre homens são ambientadas numa residência particular suntuosa. Os amantes são mostrados em sofás forrados, semelhantes àqueles em que repousariam os convidados de nosso jantar imaginário. E veem-se uma lira e flautas prontas para começarem a tocar quando os participantes se instalarem para desfrutar seus prazeres sensuais. Bettany Hughes, historiadora e apresentadora, discorre a respeito:

A taça mostra duas variedades de ato homossexual. Na frente há um homem mais velho - sabemos que é mais velho porque tem barba; sentado sobre ele, de pernas abertas, está um jovem muito bonito. É tudo muito vigoroso e viril, muito realista - não é uma visão idealizada da homossexualidade.¹ Mas se olharmos a parte de trás veremos uma representação mais tradicional. Mostra dois belos jovens - sabemos que são jovens porque cachos de cabelos lhes caem pelas costas. Um está deitado de costas, e o outro, um pouco mais velho, afasta o olhar. É muito mais lírica, uma visão bastante idealizada do que era a homossexualidade.²


¹ Lado A da Taça de Warren: um homem adulto e um jovem; um menino escravo atrás da porta espia os amantes


² Lado B da Taça de Warren: o outro lado da taça mostra dois jovens

Embora as cenas homossexuais na taça hoje nos pareçam explícitas - para alguns, chocantes e proibidas -, a homossexualidade era parte da vida romana. Mas era uma parte complicada, tolerada, e não inteiramente aceita. A linha de conduta-padrão entre os romanos, sobre o que era admissível em uniões entre pessoas do mesmo sexo foi definida com clareza pelo teatrólogo Plauto na comédia Caruncho: "Ame o que lhe aprouver, desde que fique longe de mulheres casadas, viúvas, virgens, jovens rapazes e meninos de família."

Portanto, se quiséssemos mostrar sexo entre homens e jovens que não fossem escravos, faria sentido buscar inspiração nos tempos da Grécia Clássica, em que era normal homens mais velhos ensinarem meninos sobre a vida em geral, numa relação de mentor-pupilo que incluía sexo. O império romano em seus primórdios tinha idealizado a Grécia e adotado boa parte de sua cultura, e a taça mostra o que é, sem dúvida, uma cena grega. Seria uma fantasia sexual romana sobre uma união sexual entre homens na Grécia Clássica? É possível que, situando-a em um passado grego, qualquer desconforto moral seja mantido a uma distância segura, ao mesmo tempo que dá um tempero extra à excitação do proibido e do exótico. E talvez todo mundo ache que o melhor sexo sempre acontece em outro lugar.

[...]

Não há dúvida sobre onde esses encontros ocorrem. Os instrumentos musicais, a mobília, as roupas e os penteados dos romanos - tudo aponta para o passado, a Grécia Clássica de séculos antes. Curiosamente, podemos saber, pela taça, que os dois jovens mostrados aqui não são escravos. O estilo dos penteados, com um longo cacho caindo pelas costas, é típico de meninos gregos nascidos livres. Entre os dezesseis e os dezoito anos, o cabelo é cortado e dedicado aos deuses, como parte da passagem para a idade adulta. Portanto, ambos os meninos mostrados na taça são livres e de boas famílias. Mas também podemos ver outra figura, que pode ter participado do banquete romano no qual a taça era usada. Está no fundo, espiando uma das cenas de sexo atrás de uma porta - só vemos parte de seu rosto. É, sem dúvida, um escravo, embora seja impossível saber se está apenas se entregando a um ato de voyeurismo ou se atende, muito apreensivo, a um pedido de "serviço de quarto". Seja como for, nos faz lembrar que o que ele e nós testemunhamos são atos a serem praticados apenas em particular, a portas fechadas. Bettany Hughes comenta:

Em Roma havia a noção de que os homens tinham boas esposas e não deveriam recorrer ao sexo com outros homens. Mas sabemos, pela poesia, pelas leis, por referências a relações homossexuais, que isso de fato acontecia em todo o mundo romano. A Taça de Warren é um bom fragmento de indício material que comprova isso. Ele nos diz o que de fato ocorria, nos conta que a atividade homossexual era algo que acontecia em altos círculos aristocráticos.

[...] esta tolerante peça de jantar situa seu dono firmemente nas altas camadas da sociedade, o mundo que São Paulo condenava com eloquência pela embriaguez e fornicação.

Mac GREGOR, Neil. A história do mundo em 100 objetos. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. p. 267-72.

domingo, 28 de dezembro de 2014

História de Adriano e do jovem grego

Bustos do Imperador Adriano e de Antínoo. Artistas desconhecidos. 
Foto: SanGavinoEN

De acordo com a Historia Augusta, Adriano compôs pouco antes de sua morte o seguinte poema: 

Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis iocos...

Amanhecia no Nilo, no Outono do ano 130 a.C., quando o imperador Adriano acorda bruscamente com os gritos e lamentos dos seus servos. Sai da tenda preocupado e dirige-se ao rio e fica estupefato com o que vê: uns pescadores egípcios arrastam para a margem o corpo inchado e lívido de um jovem com cerca de vinte anos. Adriano dá um grito de dor e ajoelha-se junto do cadáver, beijando entre lágrimas o rosto azulado que ainda conserva uma notável beleza.

Esta trágica cena do suicídio de Antínoo, o jovem amante do maduro imperador, manteve-se através dos séculos como exemplo emblemático do amor homossexual romântico e infeliz. Em meados do século XX, a escritora francesa Marguerite Yourcenar (lésbica) recupera a complexa figura do governante bético e do seu amor pelo adolescente grego, numas imaginárias, mas bem documentadas, Memórias de Adriano (1951). O livro foi um verdadeiro êxito de vendas e, nas suas múltiplas edições e traduções, o público tomou conhecimento da existência de um imperador romano cujo jovem amante se suicidou por amor.

“Amor, o mais sábio dos deuses... Mas o amor não era responsável por aquela negligência, por aquelas durezas, por aquela indiferença misturada com a paixão como a areia com o ouro que o rio arrasta no seu curso, por aquela rude cegueira de um homem demasiado feliz e que envelhece. Como era possível eu ter sido tão densamente satisfeito? Antínoo estava morto. Longe de amar de mais como Serviano certamente pretendia naquele momento em Roma, eu não o tinha amado bastante para forçar aquela criança a viver”. (Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano)

Públio Élio Adriano nasceu em Itálica, cidade bética, perto da actual Sevilha, a 24 de Janeiro do ano 76 da nossa era. Era patrício do futuro imperador Trajano, ainda parente do seu pai. Desde criança que se afeiçoou à cultura e à arte helênicas e, por isso, os seus companheiros de então apelidavam-no de o Grego. Adriano ficou órfão aos dez anos e a sua tutoria ficou a cargo de um amigo da família chamado Acílio Attiano, representando o parente mais próximo, que era Marcos Úlpio Trajano. Pouco tempo depois, Trajano viajou para a Hispânia como comandante das legiões romanas. A sua mulher, Plotina, afeiçoou-se ao pequeno afilhado e levou-o com eles no seu regresso a Roma.


Imperador Adriano. Artista desconhecido. Ca. 127-128 d.C.

Na capital do Império, sob a protecção de Trajano e de Plotina, Adriano seguiu integralmente as passadas que eram esperadas de um jovem ambicioso e de boa família, cujo destino manifesto era o Senado. Em 97, servia como tribuno militar na Moésia, junto ao Danúbio, quando recebeu ordem para se dirigir à Gália para informar Trajano que o imperador Nerva o tinha adoptado como afilhado. Essa adopção, que na prática equivalia a designá-lo como sucessor, correspondia às manipulações palacianas do influente Lúcio Licínio Sura, amigo íntimo e provável amante de Plotina, que, como ela, sentia um enorme afecto por Adriano. Foi ele que o escolheu para levar a boa nova a Trajano, contra a opinião de Júlio Serviano, intrigante cunhado do futuro imperador. Nerva morreu no ano seguinte e Sura teve de fazer uma nova pirueta política para se assegurar de que seria Trajano a ocupar o trono. A nova imperatriz, que não devia ser muito ciumenta, encomendou-lhe então o apoio da carreira de Adriano, tarefa que Lúcio Licínio cumpriu com entusiasmo. Alguns historiadores acreditam que essa devoção correspondia a algo mais do que uma amigável cumplicidade.

Durante os primeiros anos do reinado de Trajano, a imperatriz e Sura continuaram a proteger Adriano das invejosas maquinações de Serviano. O jovem bético ocupou postos importantes e, com freqüência, muito próximos do imperador, como quando o acompanhou nas vitoriosas campanhas da Dácia. No ano 100, Plotina arranjou para Adriano um casamento de conveniência com uma das netas de Trajano, Víbia Sabina, que tinha apenas treze anos. Adriano manteve o matrimônio em branco, dada a tenra idade da noiva e a sua escassa atracção pelo sexo oposto. E o certo é que nunca chegou a ter filhos dela e, pelo que se supõe, nem sequer tentou. A sua carreira política continuou como tribuno do povo, em 105, e pretor, no ano seguinte. Finalmente, em 108, o seu protector, Lúcio Sura, concedeu-lhe o consulado que tinha ocupado por três vezes consecutivas. Pouco depois, para desolação do ascendente cônsul, Sura morre inesperadamente.

O vazio deixado pela morte do hábil conselheiro provocou a brusca queda de Plotina e de Adriano e a ascensão de uma elite cortesã encabeçada por Júlio Serviano. Pouco se sabe do ostracismo a que foi votado ao afilhado do imperador durante cerca de dez anos. Algumas fontes garantem que, durante esse tempo, foi procônsul em Atenas, o que lhe permitiu aprofundar o seu amor pelo helenismo e estudar a arte e a cultura da Grécia antiga. Entretanto, Trajano empreendia as suas grandes campanhas na frente oriental, conquistando a Partia, a Mesopotâmia, a Síria e a Armênia. Nesse intervalo de tempo, a persistente Plotina recuperou o favor do imperador e, em 117, conseguiu que Adriano fosse designado comandante do exército que ocupava o estratégico enclave da Síria.

Trajano morre de apoplexia durante a sua viagem de regresso a Roma e as legiões proclamaram Adriano imperador. O recém-proclamado imperador iniciou um regresso lento, mas calculado, à capital do império, enquanto Plotina limpava a corte de adversários e os seus partidários obtinham a confirmação do Senado, graças ao antigo tutor Acílio Attiano, agora chefe dos pretorianos, que eliminou os quatro senadores mais recalcitrantes. Adriano chegou ao Palatino no meio de uma certa indiferença popular e não permaneceu muito tempo na cidade, nem nessa ocasião nem ao longo dos seus vinte e um anos de reinado. O seu antecessor deixou-lhe um enorme e caótico império, que abarcava quase todo o mundo conhecido (Roma era chamada Caput mundi), com fronteiras em permanente conflito e constantes levantamentos nas províncias mais rebeldes. O novo imperador dedicou-se a percorrer palmo a palmo o seu inabarcável território, alojando-se nos acampamentos militares e comendo e dormindo com os seus legionários. Mas só entrava em guerra se fosse imprescindível; com uma legislação tolerante e generosa e a construção de caminhos, aquedutos, templos e anfiteatros, integrou e romanizou povos orgulhosos e díspares. Foi então que todo o Império tomou o nome de Roma, que até então apenas designava a metrópole do Tibre.

Serviano continuou as suas intrigas no Senado, acusando o imperador de descurar Roma para agradar aos bárbaros, de ter reduzido as fronteiras de Augusto para não enfrentar os Germanos e de praticar o “vício grego” pelo seu decadente helenismo. Apesar de tudo, o certo é que Adriano foi um dos governantes mais sensatos, cultos e progressistas do Império Romano.

O seu reinado caracterizou-se pela consolidação das fronteiras, pela organização das províncias e pelo incentivo dos serviços e das obras públicas, pela promoção das artes e da agricultura e pela compilação do Edito perpetuo, primeiro esboço do que seria o célebre direito romano. Entre as suas obras mais notáveis contam-se o mausoléu (núcleo do actual castelo de Sant’Angelo, em frente ao Vaticano), o templo de Vênus e o de Júpiter, no local que o templo de Salomão ocupara, em Jerusalém, que reconstruiu com o nome de Aelia Capitolina. O seu enorme gosto pela cultura clássica reflectiu-se no seu empreendimento pela educação, pelas artes, pela filosofia e pela literatura. Apesar dos comentários dos seus adversários, nunca escondeu o seu escasso interesse pelas mulheres, o que o prejudicou politicamente, nem as suas preferências homossexuais, que o levaram a uma trágica experiência nos últimos anos da sua vida.

No ano 123, Adriano tinha quarenta e sete anos e tinha deixado crescer uma barba espessa e curta, que mudou a moda do rosto barbeado estabelecida por Júlio César entre os Romanos.

Nesse ano realizava uma viagem pelas províncias da Ásia Menor e, na cidade de Claudinópolis, conheceu um belo jovem grego chamado Antínoo. O imperador apaixonou-se perdidamente por aquele jovem que, nessa altura, teria entre doze e treze anos. Pouco se sabe da origem da família de Antínoo, excepto que tinha nascido na Bitínia (que, ao que parece, produzia os mais belos jovens da Antiguidade) e que desempenhava as funções de pajem na corte de Nicomedia. As crônicas também registram que, em 125, o imperador o levou consigo na sua viagem de regresso a Roma.


Busto de Antínoo, Artista desconhecido. 
Foto: Marsyas

Adriano permaneceu em Roma durante os três anos seguintes, estada pouco usual, talvez provocada pelo ingresso do seu efebo no paedagogium ou escola imperial. A sua única saída da cidade foi uma visita às Ilhas Britânicas, onde, em 127, erigiu uma muralha de 117 quilómetros, de costa a costa, para conter os aguerridos Caledônios da Escócia. Dada a pouca idade de Antínoo, é provável que a relação sexual entre ambos se tenha concretizado no ano 128, quando o jovem atingiu os dezassete anos e o imperador o levou consigo numa longa viagem pela Grécia, Ásia Menor e Norte da África. Diz-se que, ao chegar ao Egipto, no ano 130, Adriano visitou uma adivinha que lhe vaticinou a morte. Como homem racional e letrado que era, desdenhou do mau augúrio; porém, Antínoo ficou deprimido e inquieto, angustiado pela nefasta profecia.

Na época, existia no mundo romano a crença de que o cumprimento de uma profecia de morte só podia ser evitada se outra pessoa, por amor à vítima, se imolasse em seu lugar. E foi isso precisamente o que decidiu fazer o efebo enamorado: oferecer-se aos deuses para salvar o seu amado.

Adriano tinha-o brindado com o seu afecto e protecção, tinha-o educado e requintado e tinha-o ensinado a desfrutar com plenitude dos prazeres sexuais. Que mais poderia oferecer-lhe, senão a própria vida? Uma noite, pegou num dos barcos do séquito imperial e deixou-se arrastar pela corrente entre as trevas do Nilo. Não voltaria vivo à suas margens.

Alguns autores recusam esta versão romântica da morte de Antínoo. Há quem afirme que foi violado e assassinado por um bando de piratas fluviais, outros supõem que a sua inexperiência náutica levou a que a barca se virasse e que foi engolido pelas águas. Mas a verdade é que o suicídio por amor é o único motivo que oferece certos indícios colaterais, como o desânimo do jovem nos dias anteriores ou o sentimento de culpa de Adriano, que o levou a divinizar Antínoo, fundando uma cidade em sua honra e homenageando-o em templos, monumentos e moedas com a sua efígie e o seu nome. Dois séculos mais tarde, Atanásio, patriarca de Alexandria, condenaria essas sumptuosas honras, demonstrando mais uma vez a intolerância eclesiástica:

“Resoluções e actos que efectivamente tornaram público e testemunharam perante o mundo até que ponto a paixão antinatural do imperador sobrevivia ao seu amado; e em que medida o seu amor era devoto à sua memória, exaltando o seu próprio crime e condenação e deixando à Humanidade um enganoso e notório exemplo da verdadeira origem e linhagem de toda a idolatria.” (Santo Atanásio, 295-373).

É possível que esse desolado arrependimento fosse a causa dos ataques de loucura e de fúria que turvaram a mente do imperador nos últimos anos da sua vida. Animado por inesperados desejos amargos e despóticos, tomou decisões arbitrárias e injustas, que começaram a gerar intrigas e conspirações. Aquele que tinha amado cada pedaço do seu Império cometia agora atropelos despropositados nas províncias, como a repressão violenta e desnecessária da revolta judaica de 134, destruindo cerca de mil aldeias e povoações, provocando um total de 580.000 mortos. As suas legiões entraram em Jerusalém para edificar um santuário a Apolo no lugar do templo de Salomão e para refundar a cidade com um nome romano. Receoso de uma conjura, em 136 mandou assassinar o seu velho adversário Júlio Serviano, bem como o seu neto Pedânio Fusco, possível candidato da imaginária conspiração. Naquela triste etapa final, os excessos e abusos de Adriano recordaram a Roma os piores momentos do reinado de Nero. É provável que o tivessem destituído, se o extraviado imperador não tivesse morrido na em Baía (Nápoles), no dia 10 de Julho de 138, depois de uma lenta e insuportável agonia. Tinha 62 anos e os Romanos não choraram a sua morte, no mausoléu de Sant’Angelo.

“Perdeu Antínoo enquanto navegava no Nilo e chorou por ele como uma mulher.” (Historia Augusta)

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 64-71.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Proibido ter prazer: a origem do Brasil machista

Dança simbólica, Jan Ciągliński.

“Não existe pecado abaixo do Equador”, repetiam gostosamente nossos colonizadores, entusiasmados com a nudez das índias e africanas, presas fáceis de seus desejos reprimidos. Mas seria ilusão imaginar uma terra sem pecado. Ainda mais quando os próprios colonizadores traziam consigo uma tradição de forte repressão religiosa às práticas sexuais.

A sexualidade humana é sempre uma construção cultural, e a do povo brasileiro resulta da conjunção de três matrizes. O modelo sexual hegemônico dos donos do poder fundava-se na moral judaico-cristã, fortemente marcada pela “sexofobia” – uma espécie de medo dos prazeres sexuais. Do outro lado, os modelos indígena e africano caracterizavam-se pela grande permissividade sexual, nos quais os próprios deuses tribais reproduzem as práticas carnais dos humanos. Para evitar tais ameaças desestabilizadoras, diversas instâncias da Igreja no Brasil colonial se mobilizaram, impondo como modelo único a moral católica, baseada no Antigo e Novo Testamento e no Catecismo Romano publicado pelo Concílio de Trento (1545-1563).

A moral sexual católica tinha como traços fundamentais o tabu da nudez, a monogamia, a indissolubilidade do matrimônio sob o comando do patriarca, a virgindade pré-nupcial e a forte condenação da homossexualidade e do travestismo. De forma oportunista, tolerava-se o pecado mortal da prostituição, um mal necessário para garantir a pureza das donzelas casadouras. Na contramão de moral tão rígida, as culturas sexuais dos indígenas e africanos escravizados lidavam tranquilamente com a nudez, praticavam a poligamia generalizada e os tabus escandalosos do incesto para os cristãos. Além disso, conviviam pacificamente com praticantes do homoerotismo e do travestismo tanto masculino quanto feminino. “Os tupinambás são tão luxuriosos que não há pecado de luxúria que não cometam: os quais sendo de muito pouca idade têm conta com mulheres... e em conversação não sabem falar senão nestas sujidades, que cometem cada hora. São mui afeiçoados ao pecado nefando (homossexualidade), entre os quais se não tem por afronta; e o que serve de macho se tem por valente, e contam esta bestialidade por proeza”, alertava, na Bahia de 1587, o senhor de engenho português Gabriel Soares de Souza.

Em meio à diversidade cultural das centenas de etnias da diáspora negra, a sexualidade dos africanos que vieram escravizados para o Novo Mundo incluía o livre exercício da poligamia, a prática da circuncisão nos meninos e das mutilações genitais nas donzelas e a aceitação da homossexualidade.

“Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime”, escreve Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala (1933), demonstrando que a exacerbada licenciosidade erótica observada no Brasil colonial deve ser explicada não por “defeito” dos africanos e indígenas, mas pelo abuso de uma raça por outra: “ao senhor branco, e não à colonização negra, deve-se atribuir muito da lubricidade brasileira”

O machismo ibérico assumiu no Novo Mundo uma feição muito mais agressiva do que a observada em Portugal e Espanha à época das Descobertas. Nas Américas, somente com extrema violência e autoritarismo a minoria branca senhorial conseguia manter submissa a enorme massa populacional de índios, negros e mestiços. Daí ter-se desenvolvido um código de hipervirilidade, que repelia entre os machos brancos, como se repele a peste, qualquer conduta ou atitude efeminada, pois ameaçava os alicerces da manutenção dessa sociedade profundamente hierárquica. Aí está a raiz do machismo e da homofobia à brasileira, filhos bastardos da escravidão.

Com vistas a evitar que a Terra da Santa Cruz se convertesse numa filial de Sodoma, a cruz e a espada se uniram para manter o rebanho obediente à tradicional moral cristã, tudo fazendo para garantir a primazia da única expressão permitida de canalização dos desejos da carne: o leito matrimonial visando à reprodução da espécie, cumprindo assim o decreto divino “Crescei e multiplicai-vos”.

Desde os primórdios da colonização, a primeira e constante cruzada dos jesuítas, franciscanos e demais missionários era combater a nudez de índios e africanos, obrigando os senhores a providenciar roupas para tapar as vergonhas de seus cativos. Também lutaram incansavelmente para limitar os tratos ilícitos e a mancebia dos brancos com mulheres de cor, erradicar a bigamia e a poligamia, além de reprimir os praticantes do abominável pecado de sodomia. Muitas foram as estratégias utilizadas pela hierarquia eclesiástica na repressão às sexualidades desviantes, interpretadas como ciladas do demônio contra a salvação dos filhos de Deus: o catecismo ensinado nas igrejas com ênfase no sexto Mandamento, “não pecar contra a castidade”, as pregações nos púlpitos e nas santas missões ameaçando os imorais com o fogo do inferno, as devassas episcopais e as visitações do Santo Ofício que percorriam de tempos em tempos grande parte da América portuguesa, estimulando denúncias e confissões de desvios da moral sexual.

Numerosos colonos foram denunciados à Santa Inquisição, não só por adotarem comportamentos sexuais condenados como pecados mortais – incluindo supostas cópulas com o próprio Demônio – mas também por desafiarem a moral divina, defendendo, por exemplo, que não era pecado manter relação sexual com índias, desde que se lhes pagasse nem que fosse com uma camisa. Outros defendiam proposições heréticas, como a de que casar era melhor do que ser padre e fazer voto de castidade, embaralhando a hierarquia celestial na qual as virgens e os religiosos celibatários estavam mais próximos do trono de Deus do que os casados, as viúvas e as ex-prostitutas.

Todas as pessoas eram obrigadas a se confessar ao menos uma vez por ano, por ocasião da Páscoa. O pecador tinha que desfazer uniões sexuais não permitidas sob o risco de não receber a absolvição e ir direto para o inferno após a morte. Era indispensável a todo católico o “certificado de desobriga”, podendo ser multado ou até degredado para a África caso se tratasse de um desviante sexual público e notório. Enquanto os párocos e os bispos reprimiam com advertência e multa os adúlteros e amancebados, os inquisidores perseguiam os bígamos, sodomitas e padres que assediavam sexualmente suas penitentes. Mais de uma centena destes desviantes sexuais foram presos e penaram rigorosos castigos nos cárceres secretos da Inquisição de Lisboa.

Para aterrorizar os faltosos e inibir novas delinqüências, a Igreja proclamava suas sentenças condenatórias na mesma freguesia onde viviam e onde cometeram tais escândalos imorais. Além disso, abusou da pedagogia do medo, aplicando castigos públicos, como o imposto em 1591 pelo visitador do Santo Ofício em Salvador contra Felipa de Souza, 35 anos, costureira, culpada de diversos namoricos com outras mulheres, “dormindo na mesma cama, ajuntando seus vasos dianteiros e deleitando-se”. O ouvidor da Capitania levou-a do Terreiro de Jesus até a Sé da Bahia, onde vestida simplesmente com uma túnica branca, descalça, com uma vela na mão, de frente para a Mesa Inquisitorial, ouviu sua ignóbil sentença. Em seguida foi açoitada publicamente pelas principais ruas da então capital da Colônia, enquanto o ouvidor lia o pregão: “Justiça que o ordena fazer a Mesa da Santa Inquisição: manda açoitar esta mulher por fazer muitas vezes o pecado nefando de sodomia com mulheres, useira e costumeira a namorar mulheres. Que seja degredada para todo o sempre para fora desta capitania”.

O Tribunal da Santa Inquisição seria extinto apenas em 1821. Só então a Igreja perdeu o poder de prender, açoitar, seqüestrar e queimar os delinqüentes sexuais. Três séculos desta ferrenha repressão deixaram seqüelas: o Brasil é destaque mundial em casos de abuso sexual, gravidez de adolescentes, altíssimos índices de contaminação pela AIDS por relações sexuais, crimes homofóbicos. A moral cristã errou em perseguir bígamos, sodomitas, libertinos e livres pensadores. Inquisição, nunca mais.

Luiz Mott. Proibido ter prazer. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 9 / Nº 100 / Janeiro 2014. p. 40-43.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Dos almofadinhas a Tarzã: ser homem!

Dois jovens descansando, Adolf Hölzel

Gilberto Freyre foi pioneiro em afirmar que, numa sociedade patriarcal, o corpo era marcado por diferenças de gênero. “Cada um como cada qual”, dizia o ditado popular. Nada de equívocos. Bordões como “a mulher que é, em tudo, o contrário do homem” sintetizavam as formas de pensar. Curvas, cabeleira comprida e adereços eram coisas femininas. Por seu lado, o homem moderno foi construir sua masculinidade. Masculinidade não mais fundada apenas na coragem e na honra, como no século anterior. Emergiam novos comportamentos: a palavra tomava o lugar do gesto, a competência se sobrepunha à dominação e a mediação substituía o confronto. Renunciava-se aos duelos, abandonava-se a faca, forjava-se um ideal novo: o homem educado, senhor de suas paixões, com hábitos burgueses deveria tomar a frente da cena, tornando-se um trabalhador útil ao país. Ele se vestiria de negro, impondo a formalidade. Acessórios? Só alfinetes de gravata, relógios, abotoaduras, chapéus e guarda-chuva. Nas mãos, a aliança. O bigode ou outras pilosidades faciais marcavam, nos rostos, a maturidade sexual. O esportista, no campo de futebol,  nas águas da piscina ou no ringue, ou o militar, em tempos de guerras, cada qual no seu uniforme, fazia suspirar as moças. Os espaços masculinos também se ampliavam. Escritórios, bares ou sindicatos alimentavam redes de sociabilidade e consumo. Jornais e revistas expandiam o espectro de possibilidades: idas ao Jockey Club ou aos estádios. Consumo de Dynamogenol ou NutrioN para aumentar as forças “nas lutas da existência”. Praias e piscinas esculpiam os corpos masculinos por meio do fisioculturismo, colorindo-os com “raios de sol”.

Levantando pesos com um braço, Eugène Fredrik Jansson 

A valorização da força física como fator de desenvolvimento da sociedade engendrava outras formas de práticas, agora também fundadas em conceitos estéticos. O corpo musculoso e forte tornava-se signo de beleza e era revelador de boa saúde. Entrava em cena halteres e pesos. Valores como resistência, autoridade e competição simbolizavam a afirmação da masculinidade.

Puxando peso com os dois braços, Eugène Fredrik Jansson 

Tais mutações escoravam-se nas mudanças econômicas. A prosperidade alimentava os sonhos de ascensão social. Junto a isso, havia a aspiração de alargar horizontes e formar melhores brasileiros. Na vida privada, a atenção crescente dada à família, aos filhos e ao casamento exige uma adequação entre a casa e a rua. Isso porque a imprensa promovia a nova masculinidade, associando-a a “caráter, trabalho duro e integridade”. O bom macho era também bom pai de família e provedor.

O trabalho, Pierre Puvis de Chavannes

Na contramão desse ideário encontravam-se os homens que fugiam às regras na conduta e na indumentária. Qualquer sugestão de feminilidade era ferozmente perseguida. Revistas como a Selecta ou a Fon-Fon, entre os anos 20 e 30, ridicularizavam as “figuras dúbias” de “almofadinhas e libélulas” com “cabelos lustrosos e rosto polvilhado”. Representantes de uma época decadente, tais homens eram vistos como doentios e indecorosos: “gostam de usar calças muito apertadas, para que lhes vejam o arredondamento das nádegas”, denunciava o médico Ernani de Irajá. Eram o oposto do “burguês bem-sucedido”.

Nu reclinado, Carlos Baca-Flor

Discussões sobre a origem ou as causas dos “estados inter-sexuais” apaixonavam médicos. Havia quem tentasse explicar os “missexuais” ou a mistura dos dois sexos em um. Mas não importavam as interpretações. A homossexualidade era considerada, além de imoral, uma anormalidade. Durante os anos 30, o médico Leonídio Ribeiro consagrou-se graças a estudos sobre endocrinologia, relacionando-a com as “anomalias do instinto sexual”. Estas seriam o reflexo de mau funcionamento das glândulas. O remédio era o transplante de testículos, inclusive de carneiros ou de grandes antropóides. Afinidades entre homossexualidade e criminalidade? Todas. O crime era uma decorrência da paixão que “invertidos” nutriam entre si. Num quadro de guerras mundiais e de reforço do nacionalismo, homossexuais transformavam-se em bodes expiatórios.

Nu masculino, Lucílio de Albuquerque

“O homossexualismo é antissocial. É a destruição da sociedade; é o enfraquecimento dos países [...] a maioria dos pederastas não se casa, não constitui família; portanto, não contribui para o engrandecimento, para o desenvolvimento da sociedade e do país. Se o homossexualismo fosse regra, o mundo acabaria em pouco tempo”, apregoava o médico Aldo Sinisgalli. A repressão e o preconceito contra a diferença só faziam aumentar.

O mundo masculino defrontava-se, assim, com novas dimensões que o obrigavam a adotar uma forma ideal. A exibição corporal incentivada pelos novos tempos deveria expressar os papéis sociais aceitos para homens e mulheres. Eles deviam demonstrar atitude, atividade, postura propositiva; elas, ao contrário, apenas leveza e suavidade. Elaborava-se a masculinidade contrastando-a com a feminilidade. E o cinema, notadamente o americano, só veio jogar água no moinho das diferenças de gênero. O espetáculo do herói e o culto ao corpo alimentavam códigos estéticos que bombardeavam os machos brasileiros com estereótipos.

Balneário naval, Eugène Fredrik Jansson

Segundo alguns autores, Hollywood ajudou a construir não só comportamentos adequados como também uma identidade nacional, no início do século X. Tratava-se da difusão de ideais e da utilização de heróis como força de expressão. Nas telas, eles encarnavam a revanche da guerra, a condenação aos desajustes da sociedade, os guerreiros virtuosos do esporte.

Atletas começam a participar de filmes como atores, entre os quais Johnny Weissmuller, ex-atleta de natação e o mais famoso Tarzã, além de alguns famosos lutadores de boxe. Encarnando a imagem de “lutadores”, ainda tinham que ser sexualmente ativos e sustentar financeiramente a família, exercendo a autoridade e o poder – quando não a força e a violência física – no meio familiar e no trabalho. Marcas corpóreas como cicatrizes, cortes, arranhões, tatuagens, mutilações comprovavam o desempenho do homem em sua trajetória de heroísmo; eram provas de uma história exibida com orgulho, impondo respeito. Eram as demonstrações concretas da valentia e da luta, base da cumplicidade entre machos e contraste com os corpos de pederastas e “missexuais”.

Nu masculino, Lucílio de Albuquerque

A questão da virilidade associada às lutas físicas ou morais expandia-se nas metáforas lingüísticas utilizadas constantemente nos conflitos: “mostrar o pau”, “meter o pau”, “botar o pau na mesa”. O órgão masculino era comumente definido como “pau”, “porrete”, “pistola”, “canhão”, “espada”.

Ginasta de anel, Eugène Fredrik Jansson

Essa ideia de virilidade surgia ainda nos esquemas maniqueístas típicos dos filmes de então. Neles, o oponente, representado como cruel, desonesto e supostamente mais bem treinado, mais forte e com mais condições de vitória, desfilava com um sem-número de mulheres retratadas como fúteis, mais interessadas em seu físico e em seu dinheiro do que em algo “sério”, como a constituição de um lar. Ao mesmo tempo, as mulheres “honestas” sabiam que seu papel era servir de apoio para a carreira do marido, um herói, e não se prestar ao papel de “pistoleiras”. Para a figura feminina, recuperava-se a velha oposição entre mães e prostitutas, dualidade característica da sociedade patriarcal.

Homem jovem nu, Eugene Frederik Jansson

Isso não foi tudo. A partir dos anos 40 e 50, revistas como O Cruzeiro apostavam nas notícias sobre esse novo homem identificado com as mudanças do tempo. Tópicos sobre concursos de fisioculturismo pipocavam: “Bonitões em desfile”, anunciava o Campeonato Nacional de Melhor Físico de 1949. A manchete “Músculos em revista” tratava do 1º Campeonato Nacional de Levantamento de Pesos e a escolha do Melhor Físico de 1950. As matérias eram ricamente ilustradas com fotos, ressaltando-se os “atletas” em diversas poses e em trajes mínimos, impressionantes até para os dias de hoje. A intenção da revista era explorar a sensualidade de corpos masculinos, algo, diga-se, definitivamente novo!

PRIORE, Mary del. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. p. 155-159