"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador História global. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História global. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O homem do século XVI: o regime biológico do homem

A ação do homem sobre a natureza corresponde a que ele possui sobre o seu corpo. Evidentemente, a alimentação é o melhor meio de sustentar e de fortalecer os corpos. É quase o único que, então, se conhecia, dotado de algum valor. No começo do século XVI, o emprego de estimulantes é muito mal regrado. A medicina e a educação física, em absoluto, nada têm de racional.

- Alimentos e estimulantes. Os tipos de alimentação são menos mesclados do que em nossos dias. O meio geográfico comanda. Pão, cozidos de arroz e de milho reinam sobre domínios completamente isolados. Juntam-se a isso as prescrições religiosas (sem vinho, porco e álcool; a Índia bramânica, sem carne nem peixe de mar). Enfim, a tradição resiste à introdução de alimentos novos e de receitas novas.

Decorre disso, em cada região, uma grande monotonia do regime alimentar. Imaginemos a mesa do europeu desprovida de batatas, arroz, cozido de milho, perus, açúcar, álcool, chocolate, chá, café e a ausência do tabaco. Contudo, não se deveria encarecer tal monotonia uma vez que, a partir do século XVI, o europeu renunciou ao consumo de numerosos produtos naturais: bagas silvestres, “ervas”, caças diversas. Existem, além disso, segundo as estações, diferenças de regimes alimentares de que o europeu perdeu o hábito.

Esta monotonia é quebrada pela irregularidade das quantidades consumidas. Fome e penúria não poupam nenhuma região do globo. Todavia, seus efeitos se atenuaram momentaneamente, na Europa, em conseqüência da diminuição da população consecutiva à Peste Negra. Isso é também verdadeiro nos países onde é praticada a pesca marítima, pois a pesca não está submetida aos mesmos imperativos meteorológicos do cultivo. Acrescentemos ainda a importância dos jejuns e das abstinências (153 dias por ano na Europa anterior à Reforma). Se a alimentação cotidiana é modesta, as festas são acompanhadas de comezainas. Mesmo entre os poderosos, é-se mais sensível à quantidade e à consistência dos pratos do que à sua qualidade.

Por apegados que os homens sejam à sua alimentação tradicional, esta evolui. Vêm as inovações menos da necessidade que da ainda limitada curiosidade dos poderosos do momento (F. Braudel). Mas quando um alimento ou um condimento é difundido, perde seu valor. É este o caso das especiarias cuja busca constituiu um dos aguilhões das Grandes Descobertas e das quais se desviarão os gourmets do século XVIII.

A grande maioria da humanidade tem uma alimentação essencial ou exclusivamente vegetariana. O arroz não presta, então, os mesmos serviços de hoje em dia, pois a segunda colheita, parece, não é ainda praticada. O milho é uma planta “milagrosa”. Cresce em cinco meses, requer apenas cinqüenta dias de trabalho anuais e pode alcançar um rendimento da ordem de 100 por 1.

O pão apresenta inúmeras vantagens. Pode ser conservado. É também o alimento que se torna menos caro. Quase em toda parte, a moagem é um empreendimento industrial, mas os particulares, mui frequentemente, fazem o seu pão. Cozem-no quer em seus próprios fornos, quer num forno banal mediante compromissos. Do mesmo modo, há nas cidades padeiros estabelecidos que fabricam pães feitos de misturas de cereais, de diferentes qualidades: escuro, para os mais humildes; “entre branco e escuro”... O pão branco constitui um luxo, menos raro talvez no século XVI do que no XVIII.

A padaria de panqueca, Pieter Aertsen

A Europa distingue-se das demais regiões do mundo por uma alimentação de carne, por vezes exuberante, mesmo, ao que parece, entre os pobres, antes da metade do século XVI (F. Braudel). Em contrapartida, a carne é bem pouco difundida alhures.

O leite e os ovos são consumidos em toda parte. O queijo é a maneira mais propagada do laticínio. Em toda parte é consumido fresco. Porém, sob sua forma seca, é um meio de conservação dos produtos do leite. É a providência dos marujos.

A dança do ovo, Pieter Aertsen

O peixe das lagoas ou dos rios é pescado onde quer que o possa ser. A Europa cristã multiplica mesmo as lagoas de barragem a fim de a conseguir. O peixe do mar, contrariamente, é negligenciado por grande porção da humanidade. A Europa busca o peixe em todos os lugares, sobretudo nos mares setentrionais: Mancha, Mar do Norte, Báltico e, outra vez, Atlântico norte. Desde a Idade Média fora estabelecida a moda do harenque. O embarricamento começou a efetuar-se no século XV, pelo menos. Nos fins do mesmo século o harenque abandona as costas da Europa. Vai-se procurá-lo mais distante; de onde o aperfeiçoamento de diversos processos de conservação, da organização de transportes. Mas, atingida a Terra Nova, produz-se uma corrida dos marinheiros bascos, franceses, holandeses, ingleses aos bancos de bacalhau.

Os quatro elementos: água. Um mercado de peixes. Joachim Beuckelaer

Manteiga, banha e óleo desempenham ainda um papel limitado no preparo dos alimentos. Propaga-se o uso do sal para a conservação da carne e para relevar a insipidez dos cozidos e das sopas. Do mesmo modo, são como que o desfile na monotonia da nutrição e das receitas. Utilizam-se as mais variadas hortaliças. As especiarias constituem os únicos produtos exóticos utilizados na cozinha. Triunfam com as Grandes Descobertas. O mel não foi ainda destronado pelo açúcar.

Mulher vendendo vegetais, Joachim Beuckelaer

[...] assinalemos que, na Europa, mal começa a difundir-se entre as pessoas mais abastadas o prato, a colher, o garfo, o copo individuais, mais frequentemente a partir de Veneza.

A água não é apenas a bebida do pobre. O problema da água potável não está resolvido em toda parte de maneira satisfatória. Há que se contentar com a que se tem ao alcance nas fontes, nos poços, nas cisternas. Nas cidades os aguadeiros multiplicam-se. Se a Europa Central tem o privilégio de contar com boas fontes, em inúmeros países a água só pode ser consumida depois de fervida. Para a tornar aceitável, a China pratica a infusão do chá.

O vinho é conhecido na Europa inteira. Ele é tanto mais caro na Europa não vinícola quanto menos se sabe conservá-lo. E conquanto ainda não seja objeto de consumição de massa, a embriaguez aumenta. Ao lado da cerveja fraca, geralmente fabricada em casa, a Europa do Norte começa a conhecer cervejas de luxo. Mas esta bebida apresenta o inconveniente de, para a sua fabricação, concorre com o pão, uma vez que ambos os produtos são feitos de cereais. É esta concorrência que explica o êxito da sidra no fim do século XV e no princípio do XVI? É por esta época que, vindo da Biscaia, ela se instala na baixa Normandia. Há muitas outras bebidas fermentadas, mesmo na Europa, onde se utilizam frutos e folhas de árvores silvestres (freixo, seiva de bétula). É o caso, em especial, fora da Europa, das bebidas feitas de sumo de Acer (Canadá), do vinho de palma e do de arroz. A América conhece uma cerveja de milho geminado.

Em princípios do século XVI, a aguardente deixa de ser do domínio exclusivo dos médicos e dos boticários. Da França, ganha a Europa do Norte, depois a do Sul. Fora da Europa, ignora-se amiúde o álcool. Em compensação, a Europa ignora os estupefacientes, o haxixe da Ásia, a coca da América tropical e o tabaco antes de sua introdução em Lisboa, em 1558.

É na Europa que a alimentação parece menos precária e mais energética pois a carne dá a impressão de ser aí difundida, inclusive na mesa do pobre, até o advento da crise econômica da metade do século XVI. Teria isso dado uma superioridade física ao homem europeu? Explicaria seu dinamismo no início dos Tempos Modernos?


O dentista, Johann Liss, e/ou Lucas van Leyden

- Doenças e fraqueza da profilaxia. A saúde pública está frequentemente afetada pelas epidemias. Na verdade, esses flagelos golpeiam sobretudo os pobres devido à subalimentação e a promiscuidade em que vivem.


Pode-se distinguir as doenças de carência causadas pelas fomes e as demais doenças, notadamente infecciosas, encorajadas por aquelas. Mais que os gelos hibernais, que destroem os cereais de inverno nos deixam a esperança de uma colheita de cereais de primavera, os estios úmidos, que reduzem as colheitas, provocam irremediavelmente a penúria. Duas más colheitas, e eis a fome. A catástrofe, as mais das vezes, é local; a impossibilidade dos transportes em massa à grande distância fazem-na considerar como geral. Os pobres, então, não mais encontram pão, tornado demasiado caro, a não ser pelas distribuições feitas nas cidades. O trigo desaparece. O camponês tem, em geral, poucas reservas. Indubitavelmente, é possível incorporar às sopas e aos cozidos toda sorte de coisas. Os mais poderosos e os mais ricos sobrevivem, bem como os mais robustos. Não obstante, em tempos de fome, os ímpetos da mortalidade podem adquirir proporções cruéis, atingindo localmente o terço ou o quarto da população.

Na verdade, as doenças de carência caracterizadas grassam sobretudo quando a alimentação é demasiado rara ou baseada quase exclusivamente num só gênero. Em relação às demais doenças, não se sabe infelizmente o que elas são na realidade. As descrições fornecidas pelos contemporâneos parecem confundir entre elas numerosas espécies de febres e numerosas espécies de doenças que marcam a epiderme. Os médicos hesitam no tocante à interpretação dos sintomas que nos foram relatados. De resto, é possível que as doenças não sejam, hoje, mais as mesmas dos começos dos Tempos Modernos ou não apresentem mais as mesmas formas. Que pensar das febres terçá, quartá, das brotoejas? Difteria, tifóide, varíolas, sarampo talvez constituíssem o seu fundo. Deve-se ajuntar a isso as febres intermitentes. A malária castiga as regiões quentes e úmidas. A Europa não é mais atingida que as outras partes do mundo.

"Os vírus colonizam mais rápido que os homens as regiões novas para eles". A sífilis, que talvez já existisse no Antigo Mundo, sob uma outra forma, triunfa em Barcelona desde as festas que assinalam o regresso de Cristóvão Colombo. Em quatro ou cinco anos conquistou a Europa. Em 1506-1507, atinge a China. A lepra se mantém na Ásia, mas recua bem nitidamente na Europa onde, em princípios do século XVII, terá quase desaparecido. Por causa do uso de roupas brancas ou devido à concorrência de outros vírus?

A doença mais temível continua a ser a peste, então invencível. Ela é o símbolo de todas as doenças do mundo cristão. De fato, existem duas espécies de pestes: a peste pulmonar, pandemia que nada detém (Peste Negra de 1348), e a peste bubônica, transmitida pela pulga do rato. Esta segunda é endêmica no sul da China, na Índia, na África do Norte e durante quase dois séculos, ainda, na Europa onde ressurge sem cessar localmente sob uma forma mais ou menos violenta. Entre os mais atingidos estão os recém-nascidos e as mulheres grávidas.

Na luta contra a peste e outras doenças, a medicina é impotente, quando não prescreve remédios, vomitórios, sangrias que enfraquecem o doente. O empirismo popular é talvez mais eficaz. Mas, provavelmente, é ele que inspirará , com o fito de deter sífilis, a desaparição dos banhos públicos. Leva os doentes a recorrer aos curandeiros. Os reis da França e da Inglaterra tocam as escrófulas (= adenites tuberculosas).

A melhor salvaguarda contra a peste é o isolamento. As autoridades municipais começam a organizar, seriamente, quarentenas, cordões sanitários, redes de informação externa. Mas a luta não ultrapassa o plano local. Todos os que podem abandonam a cidade infectada e se retiram para as habitações rurais. A par de admiráveis devotamentos, a peste suscita abandonos de posto. Mais do que qualquer outro flagelo, ela age sobre os espíritos, exasperando não somente os egoísmos das pessoas, mas também os dos grupos e das classes da sociedade. Suscita verdadeiras loucuras coletivas. Os pobres, em geral, permanecem encerrados nas cidades infectadas. Aí saqueiam e aí morrem. Por onde passa, a peste inspira, igualmente, uma arte mórbida (danças macabras). Desarmado assim diante da morte, o homem pode oscilar do fatalismo à raiva de viver, da prostração à ação. É necessário ainda que suas capacidades físicas lhe permitam esta última.


Triunfo da morte em Clusone, Val Seriana, Itália. Giacomo Borlone de Buschis

- As capacidades físicas. O homem mudou no talhe e na estatura. Podemos compreendê-lo ao estudar as armaduras. Para algumas exceções, como a de Francisco I, quantas outras chocam pela pequenez do talhe, pela estreiteza das espáduas e pelo tórax dos guerreiros.

A uma aristocracia bem nutrida e afeita a um treinamento esportivo opõem-se as classes populares menos bem ou insuficientemente prematuro da musculatura ameaça frenar o crescimento do esqueleto.

Só possuímos características assaz precisas dos indivíduos relacionados com o fim do século XVII e, unicamente, relativas aos soldados da Europa. Essas características deixam adivinhar inúmeras malformações congênitas, deformações devidas a doenças. Todo ferimento deixa traços; o tronco e os membros amiúde ficam tortos. A humanidade do princípio dos Tempos Modernos não apresenta, provavelmente, um melhor espetáculo. Os quadros dos realistas flamengos não ilustram casos muito raros.

Inversamente, esses homens revelam, possivelmente, uma resistência que já não possuímos. Resistência à dor, não embotada pelo emprego de anestésicos; ao calor, ao frio, às mudanças de temperatura, à fadiga. Do mesmo modo, os corpos são rapidamente gastos. Muitos homens de quarenta anos mostram-se decrépitos e são considerados como anciãos. A diminuição da visão é irremediável. As pessoas abastadas se retiram da vida ativa bem mais cedo do que hoje. As mulheres já não podem dar à luz muito antes de atingir a menopausa.

Os indivíduos reagem diferentemente a tais provas impostas a seus corpos. Alguns homens desistem frente às provas, outros lutam. Prostração e displicência, às quais crenças fatalistas podem fornecer uma justificação a posteriori, parecem imperar sobre a grande maior parte do mundo e conservam a fraqueza física e fisiológica. Contrariamente, quase sob todos os climas e em quase todos os universos religiosos, encontram-se homens em maior ou menor número que exigem muito de seus corpos, não só porque podem fazê-lo, como porque são a isso constrangidos. O esforço cotidiano do coolie chinês adulto exige desde a tenra idade a mobilização de toda a energia do homem. Há, igualmente, inúmeras atividades especializadas. O tecelão adapta o corpo à sua profissão, como o cavaleiro ao seu cavalo. Adquirem atitudes bastante particularistas que fazem com que seus corpos então se diferenciem muito mais do que nas sociedades evoluídas atuais.

Para se libertar da natureza, deve o homem impor-se esforços físicos. Deve considerar seu corpo como um instrumento e como um motor. Deve moldá-lo em tal objetivo e aceitar em consequência a deterioração e o desgaste. Assim, para explicar a maneira de ser e as atitudes do homem, é necessário fazer com que intervenham fatores afetivos e morais.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 15-19.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: o regime biológico do homem" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O homem do século XVI: o homem face à natureza

- O homem face ao clima. A geografia física do globo não mudou em suas grandes linhas. 

Se as modificações das margens e dos cursos de água resultam, desde o século XVI, mais da ação dos homens ou de sua deserção que dos fenômenos naturais, as variações do clima quase não podem ser negadas. Uma certa concordância entre diversos índices (crônicas dos contemporâneos, flutuações das geleiras, exame dos anéis de crescimento das árvores) autoriza a reconhecer que, depois de longuíssimo período de temperaturas médias relativamente brandas, a Europa conhece, na segunda metade do século XVI, uma tendência ao resfriamento que se prolonga até o meio do século XIX (“pequena idade glacial”).

O homem é, certamente, mais afetado do que nós pela alternância das estações que ritma o jogo dos elementos naturais, sobre os quais ele tem muito menos poder de ação do que hoje.


Primavera, Pieter Brueghel, o Jovem

Na maior parte dos países temperados, no inverno, a atividade se restringe às horas que escapam às trevas exteriores perigosas, e mesmo interiores paralisantes. No verão, ao contrário, as longas jornadas são consagradas aos trabalhos dos campos, cujo resultado condiciona a subsistência do ano todo, e aos da oficina. Mas igualmente importantes são as meias-estações, a primavera que prepara a colheita e o outono durante o qual se põe em ordem o quadro de frutos silvestres, produtos de caça, lenha para aquecimento, vimes...


A colheita do feno, Pieter Brueghel, o Jovem

Sob outros céus, a alternância das estações toma outras formas: estação seca e estação chuvosa nos países de monções ou mesmo nos países mediterrâneos.

- O quadro de vida. A habitação mudou muito menos do que parece pois, hoje, apenas subsistem da época as casas mais sólidas, sobretudo as construídas de pedra ou de tijolos. Mas estes materiais são, de maneira geral, empregados tardiamente e, no século XVI. Paris continua a ser ainda uma cidade de madeira. Ou melhor, somente o rés-do-chão é de pedra. O incêndio de Londres em 1666 recorda que o emprego da madeira era aí ainda bastante difundido no século XVII. Apenas as igrejas, os conventos, as municipalidades são construídas de materiais duros. Mesmo nas cidades, a cobertura é feita amiúde de sarrafos ou de colmo.

Nas regiões em que é abundante, a madeira constitui a totalidade do edifício (Escandinávia, Rússia). Alhures, o modo de construção mais propagado associa a madeira e o adobe, ou seja, com tabique ou armação de madeira na Europa Ocidental e com adobe e bambu no Extremo Oriente. Uma estrita regulamentação da construção existe em cidade. Subsiste, todavia, certa fluidez no agrupamento da casa. A aldeia Lorena fechada não datará senão do século XVII. No interior dos quarteirões urbanos conservam-se jardins.

Nas cidades, a casa pobre, baixa, compõe-se, em geral, de duas peças, o “cômodo da frente” e o “cômodo traseiro”. A casa burguesa, que permanecera estreita, aumentou verticalmente e aloja inúmeras famílias. A divisão dos níveis sociais se propaga em altura: loja ou oficina no rés-do-chão, residência do mestre no andar de cima e, no alto, quartos dos operários, sótão habitados. No campo, o habitat associa estreitamente homens e animais.


Hora da refeição no campo, Pieter Brueghel, o Jovem

A terra batida que, salvo exceção, constitui o piso das habitações rurais, recua, nas cidades, diante do ladrilhamento. O parquete só timidamente aparece nas casas dos mais ricos e não se difundirá senão no século XVII. Em Paris continua-se ainda a juncar de palha o piso dos aposentos, no inverno, e de ervas recém-cortadas, no verão. A Europa conhece uma inovação com o vidro branco que se propaga nas janelas no século XVI. O taipal maciço é encontrado ainda, especialmente nos campos.

O aquecimento só existe, na verdade, nos países onde o inverno é rigoroso. Na China do Norte, na Rússia, o camponês deita com a família sobre o fogão de tijolo. A Europa do Noroeste conhece a chaminé de certa dimensão, que se torna um elemento decorativo entre os ricos. Em Paris, os pobres se aquecem com o “braseiro” de tijolo utilizado na cozinha. Os países mediterrâneos conhecem apenas a braseira. Na Europa Central e na Oriental, o fogareiro de tijolo, depois de faiança, é posto no cômodo comum. O aquecimento é o privilégio de um único aposento, o que implica, no inverno, uma vida concentrada num pequeno espaço.

O mobiliário, em geral, não é menos rudimentar. O uso da mesa alta distingue a Europa da maioria das demais partes do mundo onde as pessoas se acomodam em redor da mesa baixa, sentadas ou deitadas no chão. Na Europa Ocidental, o luxo do mobiliário consiste em cortinados, cobertas de cama, tapeçarias, almofadas, e, a um nível mais elevado, em móveis como leites com dossel, cofres esculpidos, mais tarde incrustados e, “gabinetes”, ancestrais das secretárias. Mas, a não ser nos castelos de alguma importância, este mobiliário se concentra no cômodo comum e, amiúde, único. A intimidade e a comodidade são quase ignoradas. As privadas são desconhecidas. A iluminação, durante muito tempo, é uma necessidade de Estado ou um luxo. Não obstante, o lustre ou o modesto castiçal se difundem. Esta “vitória sobre a noite” se colocaria na Europa no século XVI (F. Braudel).

O vestuário da grande maioria da humanidade permanece invariável no que concerne ao tecido e à forma empregados, como seja o quimono no Japão ou o poncho no Peru. Também quase não varia entre os países da Europa, homens ou mulheres, antes do século XVIII. A escolha do tecido é fixada segundo os recursos do país, o hábito da vestimenta e a categoria social.

A uniformidade constitui a regra, não apenas nas roupas de trabalho, mas também nos trajes de função. Destarte, na Europa Ocidental e na Central, o traje continua a ser o signo que distingue os letrados: eclesiásticos, agentes da Universidade (nisto compreendidos os médicos) e os juízes. O uso da vestimenta longa impõe um comportamento grave e comedido a homens ainda próximos da natureza.

Entretanto, o traje de corte, que imita bem o traje da cidade, torna-se a presa da moda. Isto a tal ponto, que tudo que se pretende permanente – Igreja – monarquia – se aferra ao uso de vestes anacrônicas cuja forma no conjunto, está fixada, no século XVI. Esta vitória da moda, não é ela o sinal de uma vitória sobre os imperativos do modo de vestir?

- Meios de ação do homem sobre a natureza. Localmente, o homem já possui forte domínio sobre a natureza. Mas o estado de seus conhecimentos biológicos e de sua técnica, a energia motriz de que pode dispor não lhe permitem tentar outra coisa senão uma ordenação prudente e limitada das condições naturais.

O universo fitológico difere sensivelmente do nosso. Salvo em algumas regiões da Ásia, da África e da América, o homem cultiva, no início do século XVI, um espaço bem menor do que o fará no século XIX. Na Europa, um lugar apreciável é deixado ou incult. Pelo menos a metade está ocupada pelas florestas, matas de corte, charnecas, baldios, terras ingratas que o homem, à falta de meios, não pode arrotear nem manter cultivadas, que ele utiliza como terrenos de percurso (inclusive as florestas) ou das quais retira recursos indispensáveis: lenha, forragem, turfa, frutos silvestres, caça etc. Ocorre o mesmo no Extremo Oriente onde os homens mais evoluídos se concentram nas únicas terras que permitem uma cultura permanente e abandonam o restante, colinas e montanhas, a populações primitivas.

O homem entrega-se à clemência do céu. Entretanto, às vezes, ele assume encargos. Na cristandade, cultiva-se a vinha até na Inglaterra e na Noruega para se ter vinho de missa, apesar de não haver colheita todos os anos. Este desafio à natureza, é ele assim tão excepcional?

O homem pouco atua sobre a fertilidade do solo. As terras, em todos os países de cultivo manual, são estrumadas, o mais frequentemente, como na China, pelo adubo humano. Além disso, as lavras são pouco profundas. Os próprios animais as estrumam quando permanecem sobre os restolhos. Para reconstituir a fertilidade do solo, o homem deixa a terra em repouso. Ao incult permanente acrescenta-se um incult temporário, não sempre periódico. Quando aumentam as necessidades alimentares, arroteia-se.

A permuta das espécies já foi considerável entre as diversas partes do Antigo Mundo, mas não se realizou nada comparável em rapidez às transformações produzidas pela descoberta do Novo Mundo. Imaginemos uma Europa onde faltem batatas, milho...

O universo animal é, provavelmente, mais rico do que hoje em espécies domesticadas. Até aí o homem interveio no equilíbrio destas. Entretanto, o urso frequenta, ainda, as montanhas e o lobo, os campos da Europa Ocidental; estão, contudo, em recuo. É menos assombroso ver o homem transportar seus animais domésticos de um a outro continente. Isso levará à América o cavalo, e à Europa o peru e a galinha-d’angola... Alguns animais domésticos seriam irreconhecíveis ao home do século XX. O porco permanece, em geral, pequeno (40 a 60 kg), veloso e armado de defesas. Somente as vacas, encontradas na Índia atualmente, podem dar uma ideia do que eram na Europa.

As civilizações não conservam as paisagens naturais senão nos lugares que negligenciaram. O agricultor do Extremo Oriente, do mesmo modo que o da Europa, faz impiedosa caça à arvore em seu território. Desajuizadamente, ele destrói algumas vezes certas espécies animais e vegetais. Tudo isso exige uma organização coletiva minuciosa e constrangedora para a conservação do terreno, mas raramente empreende uma modificação deliberada da paisagem. Todavia, nas margens do mar do Norte e nos deltas perigosos, a luta defensiva contra o mar tende a tornar-se uma reconquista. É necessário grande arrojo para mobilizar nesse objetivo as magras fontes de energia e as técnicas da época.

As fontes de energia motriz são fontes imediatas, emprestadas ao que se movimenta ou é movido de maneira natural.

O homem, de início, emprega a própria força. A tal respeito, não o faz melhor presentemente. Todas as máquinas elementares estão inventadas. As grandes civilizações do Antigo Mundo conhecem a alavanca, a roda, a polia, o cabrestante, o bolinete, o guindaste, os pedais, que multiplicam as forças humanas, naturalmente débeis.

A força animal é, ainda, mais frequentemente utilizada para transportar do que para puxar ou movimentar as máquinas. Ainda quanto a isso, pelo menos no Antigo Mundo, o homem não o fará muito melhor. O cavalo continua a ser um animal de preço, apanágio dos nobres, dos guerreiros ou dos agricultores de maiores posses das regiões mais fáceis de cultivar.

É graças ao cavalo e ao dromedário que o homem pode vencer a distância, multiplicando por cinco a extensão da etapa cotidiana. Ele, contudo, não venceu o peso. À falta de estradas praticáveis, o transporte permanece aleatório e limitado. Uma carroça atrelada não transporta muito mais que meia tonelada, e as despesas são enormes. Trata-se, portanto, de transportar a uma distância razoável apenas mercadorias leves, caras.

Em terra, o vento não é utilizado senão para mover moinhos. O mesmo ocorre com o motor hidráulico. Nascido das necessidades da moagem, é sempre chamado de moinho. Mas não aciona unicamente mós. Pode-se, pois, considerar que, no século XVI, ele se tornou a principal fonte de energia motriz aplicada na indústria.

A navegação se serve das únicas fontes de energia motora natural (remos, velas). Mas continua a ser um meio de comunicação quase terrestre: fluvial ou costeiro, de resto imbatível, lá onde for possível. A travessia direta dos oceanos e dos mares de alguma amplidão é sempre uma aventura. Ela só começa a ser encarada pelos europeus durante o século XV.

O homem do século XVI não pode considerar os combustíveis como uma fonte de energia. Não obstante, faz uso da madeira e, acessoriamente, na China do Norte e num ponto ou outro da Europa (região de Newcastle, de Liège), do carvão de pedra, não apenas com o fito de aquecer-se, mas para fins industriais: metalurgia, evaporação do sal... É no respeitante às fontes de energia que, provavelmente, a inferioridade das civilizações com relação às nossas é mais nítida.

Assaz paradoxalmente, a técnica é menos atrasada. O domínio da água conhece canais, irrigação, drenagem, bombas de elevação, eclusas. Sem dúvida, muitas ferramentas são feitas de madeira. Entretanto, a ferrumentária do aço, que permite furar, polir (arco de puz, serra, broca) já está sendo mais ou menos empregada. Falta-lhes somente a força. A necessidade de metais preciosos, ou mesmo simplesmente úteis, levou o homem, desde longa data, a ousar a exploração dos recursos do subsolo. Certamente, não é possível comparar a mina de carvão do século XVI com a do século XX. Todavia, tudo aí está: poços, guindastes, galerias, vagonetes, bomba d’água, ventiladores.

A técnica permitiria, pois, ao homem exercer considerável domínio sobre a natureza, se ele dispusesse da energia necessária. Para remediar esta insuficiência, ele se mostra engenhoso em multiplicar as próprias forças. A espera de poder pôr a serviço de sua técnica consideráveis fontes de energia, o homem revela, em suas relações com a natureza, uma paciência infinita. A do europeu do século XVI é, provavelmente, da mesma ordem da do chinês do século XIX. Na verdade, sua técnica e suas fontes de energia motriz não dão ainda ao europeu uma superioridade esmagadora sobre o chinês. Se ele se considera o piloto da humanidade, o é por motivos outros, especialmente espirituais.


CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 11-15.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: o homem face à natureza" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os perigos do clima e das doenças no medievo

Um período de temperaturas elevadas interveio durante a Idade Média, e os dois séculos entre os anos 1000 e 1200 foram talvez tão quentes quanto a década de 1990 veio a ser no norte da Europa. Colheitas foram feitas em terras que, por serem tão frios nos verões, um dia tinham sido vistas como inúteis para aragem. As vinhas deram frutos além do atual limite de cultivo de uvas; até o extremo norte da Inglaterra chegou a produzir vinho para beber.

A ilha da Islândia foi ocupada ao primeiro sinal de um período mais quente. Situada no contorno do Círculo Ártico, mas lucrando bastante do aquecimento vindo da Corrente do Golfo, a ilha foi ocupada por alguns religiosos da Irlanda e, depois, em 874, pelos vikings vindos da Noruega. Os vikings sacudiram o norte da Europa exatamente na mesma época em que os árabes islâmicos agitavam o Mediterrâneo, e os maoris ocupavam a Nova Zelândia. Embora os ataques belicosos dos vikings sejam famosos, seus povoamentos foram eficientes e, com o tempo, as cidades e distritos vikings se estenderam desde as cidades de comércio de Kiev e Novgorod, na Rússia, até à costa da França, Escócia, Irlanda, Ilhas Órcadas (ou Orkney), Ilha de Man e Islândia.

Até mesmo a gelada Groenlândia, a maior ilha do mundo, parecia ser um prêmio onde, nesses anos mais quentes, os vikings poderiam pastar suar ovelhas e defumar os peixes que pegavam no mar. No ano 985, pequenos navios zarpavam da Islândia para a Groenlândia com aproximadamente 400 colonizadores, bem como ovelhas, cabras, vacas, cavalos e, provavelmente, pilhas de feno. A maioria eram noruegueses, mas havia um contingente de irlandeses também. Ancorando na costa mais ao sul da Groenlândia, os colonizadores prosperaram no clima cada vez mais quente. No verão, cortavam a grama alta, deixavam-na secar em montes dispostos em fileiras e empilhavam em celeiros de feno, possibilitando alimento suficiente para o rebanho durante o inverno escuro.

A população da Groenlândia cresceu chegando a 4000 ou 5000, em menos de um século e meio. A pequena república viking chegou a ter um convento, um mosteiro, mais 16 igrejas e uma catedral presidida pelo bispo da Groenlândia. Era o tipo de povoamento movimentado do qual suas famílias fundadoras tinham orgulho: parecia provável que duraria por 10.000 anos.

A Groenlândia e a Islândia eram uma ponte de passagem pelo gelado Atlântico Norte; a América estava do outro lado da ponte. Os primeiros desembarques europeus no continente americano foram feitos por expedições vikings exatamente quando a Gronelândia estava sendo ocupada. As mulheres partiram com os colonizadores para a Terra Nova e, segundo dizem, uma das expedições composta de dois navios foi conduzida por Freydis, uma mulher que tinha no machado sua arma pessoal contra os inimigos.


Leiv Eiriksson descobre a América do Norte, Christian Krohg

Nada veio desses povoamentos; os índios americanos não tinham motivos para receber bem os vikings. A terra, com exceção das peles dos animais, não tinha nenhuma mercadoria que empolgasse os comerciantes. Se Cristóvão Colombo, cinco séculos depois, tivesse descoberto essa mesma costa em vez de pisar nos solos das perfumadas Antilhas, ele não seria mais lembrado que os vikings, que construíram cabanas e pastaram seus rebanhos nas margens da Terra Nova.

As estações quentes, após somente alguns poucos séculos, começaram a alterar-se. Até a ilha mediterrânea de Creta entrou numa fase mais fria, por volta do ano 1150. Na Alemanha e Inglaterra, o frio chegou talvez um século depois, e os anos entre 1312 e 1320 foram não só frios como também chuvosos, ao contrário do normal. Como uma boa parte dos grãos tinha de ser reservada para a semeadura do ano seguinte, uma colheita insuficiente impunha fome a muitas pessoas. Em 1316, talvez uma em cada 10 pessoas de Ypres morreu de fome ou subnutrição; em alguns lugares, a carne humana servia de alimento.

Procissões religiosas que aconteciam no oeste da França refletiam as estações ruins. Algumas traziam inúmeras pessoas esqueléticas e descalças, algumas das quais praticamente nuas. Colheitas insuficientes afetavam o abastecimento de roupas baratas, bem como de comida barata, pois os pobres faziam suas roupas da planta do linho, que também sofria com as estações ruins. Na verdade, a terra que normalmente era usada para cultivar o linho poderia ser extremamente necessária para o cultivo de grãos.


Miniatura em um livro de orações do início do século XV. Papa Gregório I (590-604) leva uma procissão em torno da proximidade de Roma, a fim de rezar pelo fim da praga. Em primeiro plano duas vítimas caíram, uma criança e um monge.

Com o passar das décadas, o clima da Groenlândia e do Atlântico Norte ficou mais frio. Os celeiros que antes estavam cheios de feno, agora tinham aberturas de ar. Só três pilhas de feno eram recolhidas, onde antes havia quatro ou cinco. Os navios que se aproximavam, vindos da Europa ou da Islândia, encontravam blocos de gelo flutuando em lugares onde o mar se apresentava aberto, ao contrário de outras épocas. Os colonizadores da Groenlândia esperavam em vão pelos antigos verões de que seus antepassados tanto falavam. As fazendas e as igrejas foram abandonadas. Os jovens eram poucos e casamentos tornaram-se uma raridade. Em 1410, os colonizadores sobreviventes embarcaram em navios que ficavam à espera e rumaram para a Islândia e Noruega. A base europeia nessa terra gelada havia durado menos de 400 anos. [...]

A fase do clima mais quente havia aumentado a taxa de crescimento da população na Europa; entre 1000 e 1250, ela cresceu rapidamente. Em seguida, vieram anos gelados, colheitas mais enxutas e um crescimento mais lento da população. Houve mais anos de fome e mais chance de epidemias. A Europa provavelmente via-se pronta para a Peste Negra.

A Peste Negra de 1348 não foi a única. É provável que tenha atingido a Ásia e a África alguns séculos antes, mas não deixou nenhum registro detalhado de sua casuística. Uma epidemia semelhante atingiu o Império Romano entre 165 e 180 d.C. e indiretamente promoveu o cristianismo, pois muitos romanos ficaram impressionados com a visão dos cristãos dando pão e água às vítimas que se achavam enfermas demais para se moverem. Aproximadamente três séculos depois, outra epidemia, a peste bubônica, veio da Índia. Atingiu Constantinopla em 542 e abriu seu caminho a golpes de foice até a Europa. A maior parte dos que morreram dessa primeira fase da "peste negra" foi condenada dentro de seis dias a partir do momento em que mostravam os primeiros sintomas - dor de cabeça, alta temperatura e o aparecimento na pele de um caroço, aproximadamente do tamanho de um ovo ou de uma laranja pequena. Curiosamente, as vítimas que apresentavam caroços maiores em sua pele tinham pais probabilidade de sobreviver. A China e o Japão também sofreram muitos casos com epidemias que talvez se parecessem com a Peste Negra. Dizem que a cidade chinesa de Kaifeng chegou a perder várias centenas de habitantes durante uma epidemia em 1232. Se a cidade ficou tão arrasada, as áreas rurais a seu redor devem ter sido devastadas de forma semelhante pela doença.


A praga, Arnold Böcklin

Uma peste é como um turista compulsivo: ela cria ânimo quando um novo caminho é aberto. A invasão dos mongóis e sua presença unificadora sobre uma imensa área da Ásia ressuscitou o comércio ao longo das antigas rotas de caravanas e também serviu de entrada para a peste bubônica mover-se para o noroeste, em direção à Europa. Nos portos europeus, os ratos e as pulgas foram os portadores da peste. Após chegar à Europa em 1348, ela se espalhou rapidamente. Algumas cidades - Paris, Hamburgo, Florença, Veneza - perderam metade de sua população ou mais. Os vilarejos tinham mais chance de escapar da infecção. Ela se espalhava lentamente no inverno e, rapidamente, no verão. No total, talvez 20 milhões de europeus tenham morrido, ou uma em cada três pessoas. O monstro das pestes, a Peste Negra foi seguida em intervalos por pestes de menor vulto.

A escassez de alimentos das primeiras décadas foi substituída pela escassez de mão-de-obra. As terras aráveis já não faltavam. Em algumas regiões da Alemanha, havia mais vilarejos abandonados do que habitados, e os campos que um dia soavam alto com trabalhadores na colheita estavam agora cobertos de mato e de silêncio.

A Idade Média na Europa é geralmente considerada como tendo ido de 500 a 1500 d.C. Diferindo-se dos mil anos anteriores e dos 500 anos seguintes, a Idade Média foi mais introspectiva e menos fascinada com as conquistas individuais. O fato de essa era ter alcançado menos que o Império Romano, em termos materiais, não foi motivo de decepção. A maioria dos cristãos provavelmente acreditava que os cidadãos romanos, em seus anos de triunfo, eram essencialmente pagãos e que, por isso, muitas de suas conquistas eram de pouquíssimo valor.

Muitos dos líderes intelectuais e políticos da Europa durante a Idade Média não se sentiam inferiores ao Império Romano; acreditavam que estavam construindo seu próprio império, unidos por uma religião em comum. Chamaram-no de Sacro Império Romano e era uma prova inicial da federação europeia das últimas décadas do século XX.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 116-119.

NOTA: O texto "Os perigos do clima e das doenças no medievo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.