"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 1 de abril de 2017

Manuelas

Todos homens. Mas era uma mulher, Manuela Cañizares, quem os recrutava e os reunia para conspirar na casa dela.

Retrato de Manuela Cañizares. Antonio Andrade

Na noite de 9 de agosto de 1809, os homens passaram horas e horas discutindo, e sim, e não, e quem sabe?, e não se decidiam a proclamar, de uma vez por todas, a independência do Equador. E uma vez mais estavam adiando a questão para outra ocasião mais propícia, quando Manuela os encarou e gritou covardes medrosos, nascidos para servir. E ao amanhecer do dia, abriu-se a porta do novo tempo.

Outra Manuela, Manuela Espejo, também precursora da independência americana, foi a primeira jornalista do Equador. E como esse era um ofício impróprio para as damas, publicava com pseudônimo seus audazes artigos contra a mentalidade servil que humilhava a sua terra.

Retrato de Manuela Sáenz. Autor desconhecido.

E outra Manuela, Manuela Sáenz, ganhou fama perpétua por ser amante de Simón Bolívar, mas além disso ela foi ela: a mulher que combateu contra o poder colonial e contra o poder macho e seus puritanismos hipócritas.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 256.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A política: a Cidade proibida

Suffragettes: Annie Kenney (esquerda) e Christabel Pankhurst. 1908. Fotógrafo desconhecido

De todas as fronteiras, a da política foi, em todos os países, a mais difícil de transpor. Como a política é o centro da decisão e do poder, era considerada o apanágio e o negócio dos homens, A polis grega exclui as mulheres, tal como os escravos e os bárbaros, mas de maneira diferente. As mulheres podem intervir em caso de crise aguda na qual a existência da polis é posta em risco. Essa stasis (sedição) é, segundo Nicole Loraux, considerada uma catástrofe.

A sacralização do poder dos clérigos, na Idade Média, não é favorável. A Idade Média é "máscula". A aristocracia efetua a troca dos bens e das mulheres segundo o interesse das linhagens e pelo viés dos casamentos abençoados pela Igreja. Em casos excepcionais, admite o poder das damas e confia a regência às rainhas: parênteses a que o Renascimento dá novos matizes pelo retorno a um neoplatonismo, prelúdio da "querela dos sexos". Catarina de Médici se dispõe a contribuir, pelo seu "coração elevado" e sua "suavidade", por suas qualidades propriamente femininas, para a consolidação do absolutismo real, mais másculo do que nunca.

A Revolução Francesa prossegue, nesse ponto, o que fazia o Antigo Regime, pois reconduz a lei sálica, que exclui as mulheres da linha de sucessão, e acrescenta suas razões, todas romanas, para a exclusão política das mulheres. "Cidadãs passivas", as mulheres têm direito à proteção de sua pessoa e de seus bens, elas são feitas para serem protegidas. São quase inimputáveis, por serem desprovidas de responsabilidade e de estatuto jurídico. Para sair dessa situação de assistidas, as mulheres devem passar por provas, mostrar que são indivíduos responsáveis. Nesse sentido, a democracia representa uma potencialidade, a possibilidade de uma inclusão, uma promessa de universalidade. A lógica democrática termina por dissolver os grupos, inclusive a família, e diz respeito a todos os indivíduos: é preciso então ser reconhecido como tal. Era esse o problema das mulheres.

Para resolvê-lo, foi necessária a modernização dos espíritos, a evolução dos costumes, a reivindicação das mulheres (no caso, o sufragismo, inglês, francês, europeu, ocidental) e a ocorrência de comoções, como as guerras. Depois da Primeira Guerra Mundial, muitos países concedem o direito de voto às mulheres. Mas não a França, que esperará o final da Segunda Guerra: a Assembleia consultiva de Argel, pelo ofício de 21 de abril de 1944 (artigo 17), declara: "As mulheres são eleitoras e elegíveis nas mesmas condições que os homens". Enfim. Fora preciso varrer as últimas objeções dos radicais: na ausência dos maridos, prisioneiros, o voto das mulheres, privadas de "seus educadores naturais", não era arriscado? Temiam que, manipuladas pela Igreja da democracia cristã, elas desviassem o voto para a direita. Em 1945, as francesas votam pela primeira vez, com efeito, um pouco mais à direita do que os homens, de quem não deixarão de se aproximar politicamente, constituindo, nos últimos tempos, uma barreira mais forte contra a Frente Nacional.

Porque essa "singularidade" francesa? Foram aventadas várias razões. Primeiramente, a lei sálica, que exclui as mulheres do trono: a rainha, na França, é apenas a "mulher do rei", como foi mostrado por Fanny Cosandey, o que não é o caso em outros países europeus. A Inglaterra (Elisabet I), a Rússia (Catarina, a Grande), a Suécia (a rainha Cristina) e até mesmo a Áustria (Maria Tereza, tão atenta com relação às atitudes de Maria Antonieta, sua filha, na corte da França) têm rainhas soberanas. A construção das relações entre os sexos sob o modo da cortesia e da galanteria, própria à nossa civilidade, colocaria as mulheres fora da arena conflituosa do campo político: com elas, o que se quer é o amor, não a guerra. Mas por que o movimento operário "esqueceu" as mulheres em 1848, quando elas eram tão enfáticas ao pedir o direito de voto? A persistência do holismo familiar, que faz da família a célula elementar da sociedade, representada por seu chefe, foi, segundo Anne Verjus, o principal obstáculo ao estabelecimento do sufrágio "universal". Influem também considerações políticas: p temor do poder oculto da Igreja pela mediação das mulheres influenciadas por ela. É a obsessão de Michelet, que teme o sussurro do confessionário e, mais tarde, a dos radicais.

Pesa, mais ainda, a maneira, o processo segundo o qual a República foi estabelecida na França: o sacrifício sangrento da morte do rei dá à "sagração do cidadão" um aspecto viril e religioso que se combina mal com a fraqueza e a frivolidade das mulheres, indignas de um tal sacerdócio. Enfim, a promoção de uma cidadania universalista e individualista criou para as mulheres uma situação inextricável. Tanto por sua natureza quanto por suas funções, as mulheres não são reconhecidas como indivíduos. [...]

Na França, a política é uma conquista de homem, uma profissão de homem, que os organizadores da democracia, Guizot, por exemplo, sempre evocando a síndrome Maria Antonieta, procuram subtrair aos salões, à palavra e à nefasta influência das mulheres. Ser uma mulher na política, ou ainda, ser uma "mulher política", parece a antítese da feminilidade, a negação da sedução, ou ao contrário, parece dever tudo a ela. Daí os bloqueios, as resistências, que atingem, ao mesmo tempo, o governo e a representação. Apesar da aprovação da lei sobre a paridade (2001), as mulheres são apenas 12% na Assembleia Nacional, um pouco mais no Senado; e pouco numerosas no executivo. É no nível local que elas mais progridem. Entretanto, a perspectiva de uma mulher presidente da República não mais assusta os franceses, que a consideram mesmo com simpatia.

E a Europa, onde nasceu a ideia de paridade, rica de experiências de uma grande diversidade, deve contribuir para a evolução desse aspecto.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 151-3.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O Conde Maurício de Nassau e suas amantes

Retrato do Conde Maurício de Nassau, Jan de Baen

Um curioso aspecto da presença holandesa no Brasil foi revelado pelo historiador pernambucano Leonardo Dantas Silva: o tratamento que davam às mulheres. Os holandeses comportavam-se de forma mais liberal que os portugueses "no trato da vida do lar e de suas relações em sociedade".

As mulheres holandesas revelavam jovialidade pouco comum às nativas. Baseando-se em escrito do frei Manuel Calado, datado do Recife em abril de 1641, quando o Duque de Bragança, João IV, ascendeu ao trono de Portugal, é ainda Dantas quem mostra que nas festas "se achavam as mais lindas damas e as mais graves mulheres, holandesas, francesas e inglesas, que em Pernambuco havia, e bebiam alegremente melhor que os homens [...]".

Quanto ao adultério, embora punível (holandesas chegaram a ser vergastadas no pelourinho, em público), não era incomum. Dessa prática não escapou o conde João Maurício de Nassau. Segundo o historiador, ele manteve relacionamentos afetivos com várias mulheres, incluindo Dona Anna Paes, mulher de forte personalidade e proprietária do Engenho Casa Forte, que o tratava "de vossa excelência e muito obediente cativa", segundo fórmula da época.

Quando da invasão holandesa, Dona Anna Paes (1612-1678) fora casada com o capitão Pedro Correia da Silva, morto em combate defendendo o Forte São Jorge. Viúva, a jovem Anna, mulher instruída, casou-se com o capitão holandês Charles de Tourlon, oficial da guarda pessoal do Conde de Nassau, mas continuou a viver em seu engenho em Casa Forte. Ainda segundo Dantas Silva, "em 1643, acusado por Nassau de crime de traição, foi Charles de Tourlon preso e remetido de volta à Holanda, tendo falecido na Zelândia em 18 de fevereiro de 1644. Novamente viúva, Anna Paes torna a casar com o conselheiro Gisbert de Wirth, do Conselho de Justiça, em companhia de quem se transfere para a Holanda e aonde vem a falecer em 1672.

O conde de Nassau manteve relações com outras mulheres, como Margarita Soler, jovem senhora "casada com um senhor de engenho, que abandonara o marido, segundo o seu próprio pai, em razão de sua frieza [impotência] e de suas ausências com os seus compromissos matrimoniais". Ela era filha de um espanhol de Valência, o reverendo calvinista Vicente Soler, que fora frade agostiniano e, tendo migrado para a França, adotou o calvinismo.

Das aventuras amorosas de Nassau, Dantas Silva (baseado no historiador José Van den Besselaar), evoca suas ligações com Inês Gertrudes Van Byland, esposa do seu mordomo em Cleve, da qual existe um retrato pintado por Jan de Baen (o mesmo que pintou o retrato de Nassau) no museu daquela cidade da Alemanha: "A vida amorosa de Maurício está por se escrever ainda, e talvez seja impossível reconstruí-la [...]. Maurício, ao contrário de muitos outros príncipes da sua época, não deixou bastardos conhecidos como tais".

Além de mulheres, o conde apreciava também cavalos, com disciplina de colecionador. Na verdade, o conde recebia e estimulava "gentilezas" de moradores, "gentilezas" essas que hoje teriam o nome de propinas...

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 117-8.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

As mulheres embarcadas nas naus lusitanas

Nu feminino, Amedeo Modigliani


Em meio a uma população quase que exclusivamente masculina, quando imperava uma proporção de mais de cinquenta homens para cada mulher, o gênero feminino se tornava um foco de tensão a bordo. A ideia de violentar as órfãs, esposas e noivas em viagem instigava a imaginação dos marujos, que sempre que possível chegavam às vias de fato.

Percebendo isso, a Coroa tentou não só desencorajar a ida de portuguesas para a Índia como também legislou especificamente contra o embarque de raparigas solteiras e de mulheres desacompanhadas de um membro masculino da família. No entanto, não conseguiu impedir a presença de mulheres a bordo, pois a lei era contornada com facilidade e muita frequência.

Além disso, nada obstava que um chefe de família e a esposa pudessem levar consigo não só filhas como também sobrinhas e primas. Havia ainda moças que, buscando marido nas colônias, faziam-se passar por familiar ou criada de um chefe de família complacente.

Apesar da preocupação da Coroa em "preservar a honra" das moças solteiras, não se criou qualquer legislação para proteger as mulheres casadas ou as celibatárias (viúvas ou freiras) das investidas masculinas. Tampouco existia qualquer tipo de proteção oficial à honra das órfãs do rei, originárias de Porto e Lisboa, enviadas para as colônias pela própria Coroa para casar-se com homens da baixa nobreza em além-mar.

As únicas proteções efetivas contra o assédio sexual eram a alta condição social da passageira ou sua faixa etária. Em concordância com o costume observado na Idade Média, a menos que a vítima fosse menor de 14 anos, o estupro de mulheres de baixa extração nunca era punido por lei. Além de os violadores não serem castigados, as vítimas acabavam depreciadas no mercado matrimonial e várias delas, entregues pelas autoridades a um bordel público, já que, acreditava-se, não encontrariam mais quem as quisesse como esposa. Quando as vítimas pertenciam a um estamento mais elevado, apesar de sujeitas a igual depreciação social, os violadores, quando identificados, recebiam punição exemplar. Portanto, o simples fato de uma mulher pertencer à nobreza inibia o assédio dos que temiam os castigos da justiça.

No pesadelo dos navios, as ciganas, por serem as mais indefesas, eram as vítimas preferenciais, embora, de fato, e conforme aumentavam as privações, os marinheiros iletrados não guardavam respeito por mulher alguma.

A cobiça pelo corpo feminino não poupava nem mesmo as religiosas embarcadas. Em certa ocasião. uma freira precisou ser vestida de rapaz para evitar atrair atenções indesejáveis. Mulheres acompanhadas pelo marido tampouco estavam isentas. Em 1601. mulher e filhos de Ventura da Mota, meirinho-geral da frota da Índia, foram confinados para sua própria segurança em uma câmara trancada a cadeado pelo capitão, que ordenou que ninguém se aproximasse mais de cinco palmos da porta.

As órfãs do rei eram vítimas constantes de violações coletivas nos navios. Eram garotas entre 14 e 17 anos. e atraíam a atenção dos homens do mar com o frescor de sua tenra idade. Grupos de marinheiros mal-intencionados espreitavam essas meninas por algum tempo, até que surgisse a oportunidade ideal de burlar a vigilância dos religiosos que as guardavam para, então, atacá-las. À vítima só restava calar. Queixando-se, a pobre coitada poderia ser repudiada pelo futuro marido assim que chegasse à colônia e enviada de volta ao reino para ser metida em um bordel.

O fato de os estupros serem comumente praticados não por indivíduos isolados, mas, sim, por grupos de homens tornava muito difícil a identificação dos responsáveis. Se isso era verdade em terra, mais ainda nos navios, onde o anonimato da violência somava-se à "lei do silêncio" ou à cumplicidade entre marujos e soldados, criando a certeza de impunidade, que, por sua vez, perpetuava a prática.

Os marinheiros pareciam ter uma libido insaciável. Os estupros tornaram-se tão habituais que alguns capitães chegaram a proibir a presença de mulheres a bordo. Em certa ocasião, após aprisionar uma embarcação pirata que carregava donzelas para serem vendidas como escravas, em vez de fazê-las passar ao seu navio e, em seguida, queimar o dos piratas, como era usual, o capitão optou por deixar as mulheres no barco inimigo. junto com dois padres e alguns soldados de confiança, forçando um pequeno grupo de marinheiros a conduzi-lo até um porto, onde pudesse fazê-las desembarcar.

PESTANA, Fábio. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 106-107.

sábado, 5 de novembro de 2016

A condição da mulher no mundo antigo

Duas mulheres romanas. Afresco, século I AD, Artistas desconhecidos

* Grécia. A condição da mulher na Grécia variava de uma cidade a outra e de acordo com a época. Na época homérica, a mulher, apesar de submissa ao poder do homem (pai, marido, irmão ou tutor), gozava de certa liberdade de movimento e grande consideração social. Sua condição mudou quando o regime da cidade se afirmou.

Na época clássica, em Atenas, as mulheres não participavam da vida social, exceto dos funerais e cultos públicos. As jovens se casavam, aos 14 anos, com o escolhido pelo pai, e este tinha poderes para romper a união. O papel da mulher limitava-se essencialmente a procriar, e a educação dos filhos, passada a infância, era assunto para os homens.

Do ponto de vista patrimonial,a inferioridade da mulher era evidente: ela só recebia parte do patrimônio paterno como dote (que ficava com o marido) e não tinha direito à herança do pai. No mundo dório (Esparta, Gortina), a mulher tinha mais liberdade. Dispunha de certa autoridade sobre os filhos e sua condição jurídica não era objeto de discriminação. (Eva Cantarella)

* Roma. O direito romano considerava as mulheres em relação a sua filiação e ao direito de sucessão dos cidadãos. Do ponto de vista patrimonial, as mulheres tinham direitos importantes: filhas e irmãs podiam herdar tanto quanto filhos e irmãos, exceto quando existisse um testamento decidindo de outra forma.

Desde a República, mas sobretudo a partir de Augusto, duas categorias de mulheres foram distinguidas, segundo uma demarcação ao mesmo tempo social e moral. As que eram destinadas a um casamento legítimo ou concubinato honroso (escravas alforriadas com seus patrões) e as que eram acessíveis a todos os homens. (Joëlle Beaucamp)

* Egito. A mitologia é a melhor demonstração do equilíbrio masculino-feminino no pensamento egípcio, com seus deuses e deusas. No mundo real, o máximo de status que uma mulher podia atingir era a realeza. O rei era rodeado por mulheres: amas-de-leite, escançãs [funcionários que serviam vinho ao rei] ou concubinas.

No mundo sacerdotal, as mulheres exerciam diversas funções. Muitos centros de culto possuíam um clero feminino importante (da simples cantora à superior do harém divino), como em Karnak. (Agnès Cabrol)

* Mesopotâmia. Mesmo nascendo livre, a mulher tinha sempre um proprietário. Primeiro, o pai. Depois, o marido ou seu deus, se entrasse para a religião. Algumas rainhas tiveram um papel político importante, assumindo o poder interinamente quando o rei partia em campanhas militares, ou assegurando a sucessão do trono no caso de morte do soberano. A mulher tinha acesso à cultura, e chegaram a existir mulheres médicas ou escribas. Mesmo ocupando a mais baixa escala social, a mulher escrava podia escapar da servidão caso se tornasse concubina. (André Finet)

In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 1: antiguidade. Rio de Janeiro, Duetto, 2009. p. 23.

sábado, 3 de setembro de 2016

Vida privada no século XIX

O bebedor de Absinto, Édouard Manet

O aburguesamento do mundo, no século XIX, consolidou-se na construção de novos valores e padrões de concepções e comportamentos, que passaram a condicionar o dia a dia das pessoas, desde as atitudes sociais até os aspectos mais íntimos da vida privada.

O aburguesamento foi, nesse contexto, o estabelecimento de uma moral burguesa como modo final de contestação da dissolução dos costumes aristocráticos que, até certo ponto, caracterizaram o século XVIII. O núcleo desse processo foi a família, cuja constituição dependia da normatização e do controle do casamento. O casamento e a família representavam os espaços de definição dos papéis masculino e feminino. Ao homem, chefe da família, responsável por seu sustento e manutenção, correspondia o espaço público do trabalho, da rua e das atividades políticas. A mulher devia ser do lar. A ela correspondia o espaço privado, local de confinamento, do controle social e da proteção.

No café, Édouard Manet

* Moral burguesa e papel da mulher. O casamento burguês era rigorosamente monogâmico. Mas só se exigia fidelidade da mulher. As experiências extraconjugais eram não só consideradas normais como até estimuladas... para os homens! Os direitos de marido e pai não eram contestados e incluíam a violência. Castigos físicos (surras) nas crianças e nas esposas eram comuns. Quando muito, condenavam-se os excessos, que não eram raros.

A dupla moral burguesa, que admitia a liberdade masculina e impunha a reclusão das moças e senhoras de família, praticamente determinava a existência generalizada da prostituição.

As mulheres que se atreviam a contestar a ordenação burguesa e machista do mundo eram tratadas como prostitutas ou loucas. A mulher que permanecia solteira e não se tornava religiosa era alvo de estereótipos negativos. Muitas eram internadas pelas próprias famílias em conventos ou asilos para alienados mentais quando seu comportamento fugia dos padrões de moralidade vigente a ponto de "envergonhar" o grupo doméstico a que pertenciam.

Tempos difíceis, Hubert von Herkomer

* Opressão dos pobres. Para a moral burguesa, o principal desvio e contestação era representado pela pobreza. Para o pensamento burguês dominante, ser moral era ser rico. O pobre, portanto, era "imoral", ao qual se reservava a conversão ou a punição. Foram criadas instituições evangélicas (religiosas e leigas) cujo propósito era "converter", moralizando, os pobres. Caso não se convertesse, o pobre era punido, inclusive com a prisão.

A condenação da pobreza representava mais um estigma contra a mulher. Se fosse casada com homem pobre, era obrigada a trabalhar fora, não podendo exercer plenamente sua condição de "mulher do lar".

O aburguesamento do mundo, em especial do europeu, engendrou reações contrárias: mulheres e pobres se calaram. A oposição dos pobres estava presente principalmente nas lutas dos trabalhadores. As mulheres reagiram tanto individual quanto social e politicamente, em instituições e movimentos organizados para enfrentar o poder masculino, dando origem ao feminismo.

* Reação das mulheres. O feminismo, ou luta pelos direitos das mulheres, foi fenômeno típico da segunda metade do século XX. No entanto, suas origens recuam ao final do século XVIII. O movimento pelos direitos das mulheres ganhou expressão política na luta pela conquista do direito de voto, que nas revoluções liberais havia sido universalizado... para os homens!

A luta feminina estendeu-se por todo o século XIX. Em 1882, as várias sociedades feministas formaram a União Nacional das Sociedades em defesa do sufrágio feminino. Muitos homens integraram a luta em prol do voto feminino.

O movimento feminista foi interrompido em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Em 1918, o voto feminino foi concedido às mulheres casadas, às chefes de família e às universitárias com mais de 30 anos. Só em 1928 o direito de voto foi estendido a todas as mulheres maiores de 21 anos, tal como acontecia com os homens.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 370-372.

domingo, 19 de junho de 2016

As classes sociais e os costumes no Egito Antigo

Poder: ostentando coroa e cetro, símbolos do poder, o faraó ouvia o relatório transmitido por seus ministros sobre os acontecimentos do Império. Faraó Horemheb. Relevo. Artista desconhecido

* O faraó. O faraó ocupava a posição mais elevada na hierarquia social egípcia. Era considerado um deus, filho de Amon-Rá e encarnação de Hórus. O povo adorava-o em vida, submetendo-se a sua autoridade sem resistência, e cultuava-o após sua morte.

"No Antigo Império apareceu a ideia de que o rei, ou faraó, era o senhor absoluto, logo venerado como um deus. A justiça é "aquilo que o faraó ama", o mal "aquilo que o faraó odeia"; ele possui onisciência divina e portanto não necessita de um código de leis para guiá-lo. Mais tarde, no Novo Império, os faraós seriam representados com a estatura heroica dos grandes guerreiros: aparecem em seus carros como poderosos guerreiros, esmagando os inimigos e corajosamente matando animais em sacrifício. Porém, a realeza egípcia permanecia sagrada e temível. "Ele é um deus a quem devemos a vida, pai e mãe de todos os homens, único e sem igual", escreveu um egípcio, funcionário civil do faraó, por volta de 1500 a.C." ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100.


Diversão: cena de caça. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

Além de organizar as atividades econômicas, o faraó comandava o exército e resolvia os casos de justiça de acordo com sua vontade.

Depois da unificação do Alto e do Baixo Egito, o faraó passou a usar uma coroa dupla, que mantinha as cores (branca e vermelha) de cada uma das coroas usadas pelos soberanos dos dois reinos. Além da coroa dupla, que simbolizava a unificação dos dois Egitos sob um só comando, o faraó usava também um cetro, símbolo de seu poder.

O faraó possuía várias esposas, geralmente parentes, mas apenas a primeira mulher com quem havia se casado podia usar o título de rainha.


Cotidiano no palácio: músicos e dançarinas. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

"Os faraós e sua família viviam em meio a um tal luxo e conforto, que mesmo hoje, causam admiração. Os palácios eram equipados com móveis de cedro, de ébano, vestidos às vezes de ouro e de marfim; os utensílios de uso diário eram também de qualidade superior, demonstrando a riqueza daqueles que os possuíam, bem como a habilidade e perícia dos artesãos que os fabricavam. A presença de uma legião de servidores - criados, músicos, cantores, dançarinas e copeiros - colaborava ainda mais para tornar confortável a vida diária dos governantes do país. As caçadas e pescarias frequentes, a prática de jogos diversos, contribuíam também para que fosse agradável o dia-a-dia dos "deuses vivos" que governavam o Egito e daqueles que com eles conviviam". FERREIRA, Olavo Leonel. Egito, Terra dos Faraós. São Paulo: Moderna, 1993.


Nobreza: Príncipe Ankhhaf. Busto. Artista desconhecido

* A nobreza. Formada pelos mais importantes funcionários que administravam o Império, a nobreza constituía a alta camada da sociedade egípcia, logo abaixo do faraó. Esses importantes funcionários tanto podiam ser parentes do faraó como pertencer aos comandos do exército. Os nomarcas, que eram os chefes locais da administração, também pertenciam à nobreza.

Os nobres tinham muitos privilégios, como a posse de grandes extensões de terra cedidas pelo faraó. Apesar disso, nos momentos em que o poder real enfraquecia, os nobres transformavam-se em adversários políticos dos faraós.


Mediadores da relação dos homens com os deuses: sacerdotes vestidos com pele de leopardo realizam rituais de purificação. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

* Os sacerdotes. Devido à importância da religião na vida do Egito Antigo, os sacerdotes representavam o grupo social de maior prestígio junto à população. Por causa dos conhecimentos que possuíam e da intimidade que diziam ter com os deuses, os sacerdotes exerciam grande poder sobre o povo.

Os sacerdotes possuíam grandes propriedades, que recebiam do faraó. Os que serviam às principais divindades dispunham de riquezas enormes, pois os egípcios costumavam dar presentes valiosos aos deuses que adoravam. [...]

"[...] Eram responsáveis pela administração dos templos e de escolas nas quais os médicos, escribas e outros profissionais obtinham seus conhecimentos". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.

A carreira sacerdotal era hereditária, isto é, passava de pai para filho.


Saber: escriba. Escultura. Artista desconhecido

"Ponha a sua alma nas escritas [...]
Observe como ela se salva através do trabalho!
Veja, não há nada que supere as escritas
São um barco perfeito!...
Farei com que goste de escrever mais do que de sua própria mãe.
Farei com que sua beleza lhe seja mostrada.
É a profissão mais importante do que qualquer outra.
Não existe igual na Terra".
(Relato escrito por um antigo egípcio chamado Khety. In: MAN, John. A história do alfabeto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 54.)

* Os escribas. Os escribas eram pessoas letradas. Os jovens que iam se tornar escribas recebiam instrução nas escolas do palácio. Depois de um longo aprendizado, eles conseguiam ler e escrever os complicados caracteres da escrita egípcia - os hieróglifos.

Graças à cultura que adquiriram durante os anos de estudo, os escribas ocupavam cargos importantes no governo. Era entre eles que o faraó escolhia, por exemplo, os magistrados e os inspetores dos trabalhos e das rendas públicas.

"[...] A eles cabia estipular os impostos cobrados, em espécie, dos camponeses e artesãos. Assim, estes funcionários estavam praticamente em pé de igualdade com os sacerdotes, que também cursavam escolas anexas aos palácios e templos e exerciam funções básicas para o Estado, ao mesmo tempo de natureza religiosa e temporal". HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975, p, 44-45.

Como eram as únicas pessoas que conheciam aritmética e, portanto, sabiam fazer cálculos, os escribas ficavam responsáveis pela coleta dos impostos e pela supervisão de toda a administração do soberano egípcio. Por isso, eram considerados essenciais ao governo do faraó.

"O escriba recebia salários. [...] Os salários e impostos eram pagos em produtos - como trigo, pão, carne, frutas, gordura, sal - ou trocados por prestação de serviços. Nas guerras, os escribas acompanhavam os exércitos, encarregando-se de manter os registros em dia". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.


Força: soldados. Modelo funerário. Artesão desconhecido

* Os soldados. Ao contrário dos sacerdotes e dos escribas, os soldados não eram muito prestigiados pela população egípcia. Eles viviam dos produtos recebidos como pagamento e dos saques que podiam realizar durante as guerras de conquista.

No exército egípcio havia também soldados estrangeiros. Estes soldados, em recompensa pelos serviços prestados, recebiam um pedaço de terra.

Os soldados desempenhavam um papel muito importante no Egito Antigo, principalmente durante a fase militarista do Novo Império.

"O exército, profissionalizado, era empregado na defesa das fronteiras do país contra os inimigos externos, além de manter os camponeses e escravos sob dominação e realizar incursões ao Sinai e à Núbia, a fim de conseguir metais (cobre, ouro) e escravos". AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p.. 149


Trabalho 1: camponeses. Os camponeses colhiam o trigo com suas foices e amontoavam em feixes nos barcos, transportando-os pelo rio Nilo para todo o Egito. Cultivavam também cevada, frutas e legumes. Pintura em tumba. Artistas desconhecidos

Trabalho 2: artesão. Pintura. Artista desconhecido

Trabalho 3: transporte de ânforas. Pintura mural. Artistas desconhecidos

* Os camponeses e artesãos. Os trabalhadores braçais - camponeses e artesãos - constituíam a camada inferior da sociedade egípcia e também a mais numerosa. Os camponeses (mais numerosos que os artesãos) trabalhavam nas terras do faraó e da nobreza. Os artesãos eram marceneiros, pintores, escultores, tecelões e ourives, alguns, verdadeiros artistas. Os artesãos trabalhavam nas oficinas pertencentes ao faraó.

"Os artesãos produziam lanças, arcos e escudos para as tropas que combatiam as guerras. Também fabricavam objetos como vasos de cerâmica, cestos, sandálias, perucas, tecidos, barcos fluviais e estátuas gigantescas. Para as camadas privilegiadas, esses profissionais produziam joias, esculturas, quadros e objetos destinados a enfeitar as tumbas. Existiam também artesãs que fabricavam perfumes, óleos para o corpo, roupas e produtos de maquiagem". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.

As condições de vida desses trabalhadores eram muito duras. Como pagamento pelo seu trabalho, eles recebiam uma pequena parte do que produziam. Moravam em cabanas muito simples e se vestiam pobremente. Conformavam-se, porém, com a expectativa de uma vida melhor depois da morte. Por isso, o que conseguiam poupar era guardado para o funeral [...]. 

"Os camponeses alimentavam-se de pão, cerveja e legumes. Às vezes, peixe e fruta podem entrar no seu cardápio". KOENNING, Viviane. Às margens do Nilo, os egípcios. São Paulo: Augustus, 1990. 

"[...] Os trabalhadores, no entanto, muitas vezes se revoltaram contra seus exploradores. A desagregação do Antigo Império deveu-se, exatamente, a uma série de lutas sociais. [...] Há, até, registros de greves". NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 59.


Mercado de escravos: núbios aguardam para serem vendidos. Relevo. Artista desconhecido
* Os escravos. Os escravos eram prisioneiros de guerra e não constituíam um grupo muito numeroso. Realizavam os trabalhos pesados, como a extração de enormes pedras das pedreiras e a construção de templos, palácios e pirâmides.

Comparados a outros povos do período, os egípcios eram mais tolerantes com seus escravos e, em geral, tratavam-nos bem.

"[...] O egípcio considerava obrigação dispensar bom tratamento a seus escravos. O Livro dos mortos inclui, entre os pecados a serem negados, o excesso de trabalho imposto aos escravos e os maus-tratos infligidos aos mesmos. Segundo uma lei antiga, quem matasse voluntariamente um escravo, merecia a pena de morte. Heródoto afirma que no Delta do Nilo existia outrora um templo em que os escravos fugitivos encontravam refúgio.

A condição dos escravos utilizados nas grandes obras públicas era extremamente cruel. Nas minas, nas pedreiras, nas construções monumentais, milhares de escravos deixavam a marca de seu ingente esforço e de seu sofrimento". GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 102-3.


Mulheres: carpideiras. Afresco na tumba de Ramose. Artistas desconhecidos

* A mulher egípcia. "A família egípcia parece apresentar a marca de antigos usos que davam à mulher um lugar muito amplo, talvez mesmo de preponderância. Invocava-se frequentemente, por exemplo, a filiação materna pelo menos em pé de igualdade com a ascendência paterna. Em caso de morte de marido, se não havia um filho adulto, a mulher assumia a chefia da família, inclusive no que dizia respeito às relações com o Estado. De maneira oficial, talvez após um certo tempo, principalmente depois de se tornar mãe, era chamada 'dona de casa', e tal expressão parece ter revestido seu pleno sentido jurídico, embora a casa proviesse do marido." AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: Difel, 1977. p. 49. (História geral das civilizações, v. 1)

Jovens: filhas do faraó Amenófis IV. Afresco. Artistas desconhecidos

"Seja como for, [...] a mulher egípcia era sui juris, podendo dispor livremente de seus bens, intentar processos na justiça, tomar a iniciativa do divórcio tanto quanto o homem, desempenhar um papel ativo em diversas atividades produtivas, de serviços e eventualmente de gestão, enfim ir e vir com ampla liberdade. Havia, sem dúvida, certas limitações. [...] a direção da vida pública sempre esteve maciçamente em mãos masculinas; e tal tendência se fortaleceu com o tempo.

Na vida privada, porém, em termos gerais se mantiveram os amplos direitos da mulher, igual participação na herança paterna e materna, controle sobre os seus bens pessoais (mesmo quando geridos pelo marido, situação bastante corrente) etc. É certo, entretanto, que a mulher era encarada como tendo uma vocação essencialmente doméstica [...] ligada seja à administração da casa [...], seja à realização de tarefas no seu âmbito: fabricação de pão e cerveja, manufaturas de fios e tecidos. [...] Com maior frequência, era o homem que intervinha em transações e, em geral, na gestão do patrimônio familiar [...].


Família: um casal egípcio sentado. Escultura. Artista desconhecido

O casamento no antigo Egito não era sancionado por qualquer ritual religioso ou ato administrativo. Tratava-se de um ato social, selado por festividades que envolviam a comunidade num nível estritamente local. Em suma, a natureza do matrimônio era secular e, em si mesmo, não tinha caráter jurídico. [...] O Estado só intervinha, eventualmente, em questões de adultério no sentido de manter a ordem pública - limitando, por exemplo, a vingança privada." CARDOSO, Ciro Flamarion. "Algumas visões da mulher na literatura do Egito faraônico (II milênio a.C.)". In: História. São Paulo: Unesp, 1999. v. 12. p. 103-5.

Costumes: senhora em sua toalete ajudada por duas servas. Pintura mural. Artistas desconhecidos


* Costumes. "A maior parte da população vivia em pequenas casas de tijolos de barro, quase sempre recobertas por um teto de palha. Seu principal alimento era pão de cevada, às vezes acompanhado de cebolas, tâmaras e figos. Do pão de cevada obtinha-se uma pasta que, fermentada e espremida, resultava numa cerveja leve, muito apreciada pelos egípcios. A carne, as aves e os peixes eram reservados às pessoas abastadas, e também o vinho produzido no país ou importado da Síria. Consumido por todas as classes, o leite constituía um alimento básico; e o único adoçante utilizado era o mel.


Costumes: moda feminina. Pintura. Artista desconhecido

Homens e mulheres usavam vestimentas de linho. A sendit masculina não passava de uma simples tanga que envolvia os quadris. Mas a roupa feminina cobria o corpo do colo aos tornozelos, sustentada por alças e, às vezes, enfeitada com bordados. Durante o Novo Império, as mulheres introduziram certos refinamentos em suas vestes, principalmente tecidos transparentes com pregas delicadas. Amuletos, flores esmaltadas, pesados peitorais metálicos, pérolas multicoloridas, anéis, brincos, braceletes e pulseiras nos tornozelos eram usados tanto pelos homens como pelas mulheres.

No Egito Antigo, praticava-se comumente a poligamia, apesar de uma das esposas ter uma posição privilegiada no lar. Na família dos faraós, supõe-se que esta honra cabia à mãe do primeiro filho do sexo masculino, o qual, geralmente, herdava o trono. Embora o homem pudesse ter quantas concubinas quisesse em sua casa, só os elementos das classes abastadas possuíam um grande harém. E, ao que tudo indica, a mulher gozava de uma posição importante na família egípcia". HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 16-7.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008.
AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: Difel, 1977. (História geral das civilizações, v. 1)
ARRUDA, José Jobson. História Total 3: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Ática, 1998. 
BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010.
CARDOSO, Ciro Flamarion. "Algumas visões da mulher na literatura do Egito faraônico (II milênio a.C.)". In: História. São Paulo: Unesp, 1999. v. 12.
FERREIRA, Olavo Leonel. Egito, Terra dos Faraós. São Paulo: Moderna, 1993.
GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. 
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
KOENNING, Viviane. Às margens do Nilo, os egípcios. São Paulo: Augustus, 1990.
MAN, John. A história do alfabeto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. 
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: o modelo burguês de família

O último baile, Aurélio de Figueiredo

A concepção burguesa de família se implantou no Brasil no decorrer do século XIX. Foi durante esse período que a sociedade brasileira assimilou, de alguma maneira, as ideias liberais europeias e os progressos tecnológicos da Revolução Industrial. Esse modelo burguês de família obrigou, pela primeira vez no país, a uma clara delimitação no meio urbano entre o espaço privado e o espaço público. Essa família burguesa tinha como uma das suas características a intimidade.

Enquanto a família patriarcal é numerosa, estendida, a família burguesa se caracteriza por um triângulo básico: a esposa, o marido e os filhos.

Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, Almeida Júnior

Aqui o modelo burguês de família encontrou uma realidade completamente diferente da europeia, na qual nasceu. No Brasil do período imperial, predominava o mundo rural, o escravismo e o latifúndio exportador. Não havia aqui uma aristocracia com hábitos mais modernos, nem uma classe burguesa, nem uma urbanização acentuada.

[...]

Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil e a posterior emancipação política, houve um incremento da vida urbana e uma assimilação de hábitos europeus pelas nossas classes dominantes. O comportamento das elites portuguesas que acompanharam a família real influenciou uma mudança de hábitos dessas classes. As famílias importantes do meio rural passaram a ter sua casa na cidade, particularmente no Rio de Janeiro. Iam para o Rio para que os filhos pudessem estudar, para tratar de negócios, participar da vida social urbana e se aproximar do centro do poder.

Esse comportamento aristocrático trazido pela elite portuguesa pode ser resumido na noção de mundanismo. Vida mundana seria aquela voltada para os prazeres do mundo, frequentando teatros, espetáculos, bailes e saraus. Admirar obras de arte, ter uma vida social intensa, praticando o jogo do amor e da conquista, faziam parte do estilo de vida mundano.


Leitura, Almeida Júnior

O mundanismo rompeu com a moralidade rígida, com o ideal de vida criado pelo cristianismo, marcado pela recusa ao prazer.

Esse novo estilo de vida arrancou esposas e filhas da clausura do lar, permitindo que elas tivessem uma vida mais livre: sair às comprar, seguir a moda europeia, frequentar teatros e cafés, ler romances de folhetim.

Se o mundanismo trouxe a mulher da família patriarcal para fora de casa, a concepção burguesa de família, à medida que tomava força, a conduziu de volta ao lar.

A concepção burguesa de família, que começou a se firmar no Brasil durante o período imperial, teve como um dos seus principais veículos as recomendações e práticas dos médicos higienistas.

[...]

Entre os diferentes temas abordados pelos higienistas, muitos estavam relacionados à mulher e à família: puberdade feminina, menstruação, relações sexuais, prostituição e higiene da primeira infância. Os papéis e os comportamentos da mulher, dentro e fora do cenário familiar, passaram a ser preocupações médicas. A influência desses especialistas aumentava quando eles tinham funções públicas ou políticas importantes, como chefes de sanatórios, diretores de hospitais, deputados e senadores.

Na concepção de família proposta no trabalho desses especialistas, a mulher teria um importante papel. Ela seria um misto de ama, enfermeira, professora e administradora das despesas da casa. Nesse novo papel, ela seria a rainha do lar.

Retrato de Senhora, Henrique Bernardelli

A mãe dedicada e atenciosa era um ideal de mulher que só podia ser plenamente atingido na família burguesa, Os cuidados e a supervisão da mãe passaram a ser muito valorizados. Era louvável que as próprias mães se encarregassem da primeira educação dos filhos, não os deixando sob os cuidados de amas, principalmente de escravas negras.

Dessa forma os médicos, os educadores e a própria imprensa procuraram preparar a mulher para o papel de guardiã do lar e da família. Combatia-se duramente o ócio feminino, sugerindo que as mulheres se dedicassem de corpo e alma aos afazeres domésticos e se desdobrassem nos cuidados para com o marido e os filhos.

Fiel retrato do interior de uma casa brasileira, Joaquim Cândido Guillobel

[...]

Considerada como a base moral da sociedade, a mulher de "boa família", esposa e mãe burguesa, deveria ainda zelar pela sua castidade e pela das suas filhas.

A par dessas recomendações às mulheres das elites, o Estado desencadeou uma série de ações para controlar as camadas populares. Isso era feito em nome da saúde, da segurança e da moralidade. A ordem pública contribuiria para a preservação da honra das mulheres pertencentes às classes médias e altas da população.

Nesse modelo burguês de família, o casamento era usado como um meio de ascensão social. A mulher casada tinha também a função de contribuir para a mobilidade social da sua família. Isso podia ser feito através de um comportamento adequado quando ela aparecia em público ou quando recebia visitas. Nessas ocasiões tinha de desempenhar o papel de esposa e mãe exemplar. Suas filhas, como moças de boa família, poderiam encontrar bons casamentos, contribuindo para a ascensão social da família.

Essa mulher estava, portanto, destinada ao casamento. As que não se casavam melhor seria que fossem para um convento, preservando assim, o "bom nome" da família.

Nesse tipo de casamento, estava presente o interesse de conservar e ampliar o patrimônio econômico da família e mesmo a sua influência política. Tanto que a mulher tinha de ter um dote, o qual se confundia com a própria honra da pretendente ao casamento. Em outras palavras, a moça sem dote não podia ser honrada.

As moças candidatas ao casamento deviam aparecer sempre bem cuidadas e manter a castidade. Isso exigia rigoroso controle sobre o comportamento delas.

Família brasileira a passeio, Joaquim Cândido Guillobel

Conservar a honra da família era também zelar pelos seus interesses políticos e econômicos. A virgindade feminina era requisito fundamental para o casamento nas classes altas, independentemente de ser ou não valorizada por si mesma. Ela servia para manter a condição da noiva como objeto de valor econômico e político. A continuidade da família e a herança dos descendentes dependiam dela.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 248-251.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Família brasileira no Império: a família patriarcal

Uma família brasileira, Henry Chamberlain

 [...]

Até o começo do século XIX, a vida urbana no Brasil era desprezível. A cidade do Rio de Janeiro, que já era capital da colônia 45 anos quando chegou aqui a Família real, era uma cidadezinha de ar empesteado pelo mau cheiro das latrinas e das águas paradas. As ruas eram irregulares e na maioria delas não se sabia onde terminava a área privada e começava a pública. Não havia uma verdadeira sociedade urbana no Brasil do início do século XIX.

Escravos carregando barril de vinho, Henry Chamberlain

A caracterização da família patriarcal brasileira de raízes coloniais foi feita pelo sociólogo Gilberto Freyre, na sua clássica obra Casa-grande & Senzala, publicada em 1933. Era uma família poligâmica, cujo chefe, geralmente um homem branco, tinha um poder quase absoluto sobre os que viviam na sua propriedade, a começar por sua mulher e seus filhos e chegando aos escravos. Para ele todas as relações sexuais eram possíveis. Escravos e agregados não tinham condições de opor resistência aos seus desejos e vontades. Essa liberdade sexual dos patriarcas deu origem a numerosos filhos bastardos, os quais compunham a camada social e racial típica da nossa sociedade colonial: a dos mulatos.

As mulheres brancas, esposa e filhas do patriarca, pelo contrário, estavam submetidas a um rigoroso controle. A fidelidade da esposa e a castidade das filhas deviam ser preservadas de maneira absoluta.

[...]

Um funcionário do governo sai a passeio com a família, Jean-Baptiste Debret. A imagem mostra uma tradicional família patriarcal brasileira, embora se trate de um funcionário do governo, e não de um típico grande proprietário. Conforme nos informa o próprio Debret, era costume nessa classe a família caminhar em fila. O patriarca segue na frente seguido pelos filhos. Atrás a esposa e a sua escrava mulata, que serve de criada de quarto, a ama-de-leite e a escrava dessa ama. Depois temos o escravo doméstico do senhor, seguido de um jovem escravo que está aprendendo o serviço e de outro, comprado recentemente.

O poder do patriarca se manifestava fora do seu círculo familiar, estendendo-se para toda a sociedade. Isso se dava pelo clientelismo, ou seja, pela criação de laços pessoais de dependência e fidelidade, decorrentes da capacidade do patriarca de prestar favores, dar proteção e trabalho. Dessa forma, os homens livres, pobres ou remediados, formavam a clientela do grande proprietário.

Senhora brasileira em sua cadeira, Henry Chamberlain

A família de escravos ou a dos homens livres pobres e até mesmo a família conjugal de nossa época não escaparam da influência desse modelo patriarcal de família.

[...]

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 247-248.