"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Alimentação nas sociedades contemporâneas

Os dois últimos séculos trouxeram para a alimentação os efeitos combinados da Revolução Industrial, agrícola e dos transportes, provocando a maior globalização da história alimentar com o intercâmbio de produtos e a difusão de tecnologias de refrigeração, conservação, cozimento a gás e elétrico.

Consolidou-se também o intercâmbio que fez os produtos americanos como o milho, a batata, o tomate, o pimentão e muitos outros incorporarem-se à agricultura e à culinária europeia, africana e asiática, de onde, da mesma forma, vieram produtos como o trigo, o centeio, o arroz e tantos outros que se espalharam pelo mundo, integrando-se às tradições culinárias locais.

Esse processo dividiu a economia global em países produtores de matérias-primas, que foram submetidos a regimes de exploração colonial para sua especialização em monoculturas de exportação para os países centrais. Assim o açúcar, o café, o chá, o cacau, a carne e outros alimentos foram concentrados em regiões produtoras periféricas, embora o consumo maior se realizasse nas metrópoles europeias.

A invenção da lata, em 1804, também foi uma conseqüência imediata das guerras napoleônicas e da necessidade militar de garantir abastecimento. Depois disso, a invenção da indústria de refrigeração permitiu, a partir do final do século XIX, o transporte internacional de carne em navios frigoríficos. Isso fez países como a Argentina e a Nova Zelândia passarem a economias de intensa especialização pecuária, começando uma criação de animais em grande escala. Mais tarde, a pasteurização e as técnicas de higiene e assepsia também aumentaram a qualidade e a integridade dos alimentos.


Campbells.
 Imagem: Balougador

No século XX, a expansão da eletricidade e do gás na vida doméstica fez com que a cozinha das casas se tornasse o local de maior influência da Revolução Industrial na vida cotidiana do lar. Primeiro fogões e geladeiras e, depois, especialmente no segundo pós-guerra, eletrodomésticos se tornaram bens de consumo de massa.

A descoberta dos fertilizantes artificiais, no início do século XX, após o uso de insumos como o guano e o nitrato, e a utilização maciça de agrotóxicos ampliaram enormemente o volume de grãos produzidos, mas não conseguiram acabar com a fome no mundo, pois as estruturas de renda desiguais entre os países e em seu interior não permitiam o acesso dos famintos aos alimentos.

As conseqüências socioambientais do modelo agroindustrial baseado em grandes unidades de produção extensiva de monocultura com uso intensivo de insumos técnicos são cada vez mais preocupantes. A eutrofização (causada pelos fertilizantes nitrogenados) das águas, a expansão de doenças devido à criação animal intensiva em confinamento (como a vaca louca e, mais recentemente, as gripes aviária e suína) e o uso de terras para a produção maciça de forragem animal como a soja, por exemplo, trazem graves problemas sociais e ambientais. A expansão de um modelo de alimentação excessivamente rico em gorduras animais, açúcares e carboidratos, com o aumento exponencial da obesidade, também é uma característica marcante de um modelo agroindustrial e cultural cujos efeitos são catastróficos para o equilíbrio ambiental do planeta, devido à busca da produtividade máxima a qualquer custo. O consumismo voraz e perdulário nos países centrais é associado a pólos crescentes de miséria e fome nas grandes cidades e nos países periféricos. A alimentação contemporânea faz parte, assim, de um modelo insustentável que compromete os recursos naturais e humanos em contradição com as grandes conquistas tecnológicas que ampliaram a capacidade produtiva.

Henrique Carneiro. Alimentação. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 4: Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 8-9.

NOTA: O texto "Alimentação nas sociedades contemporâneas" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Globalizações: da "pax" romana à internet

Há uma linha mais ou menos contínua de perseverança da globalização como futuro da história. Essa tendência é estimulada pelo progresso das técnicas e dos instrumentos de comunicação. Na Antiguidade, foram as estradas romanas; da Idade Média ao século XIX, foi a navegação marítima. Nos séculos XIX e XX, foram os barcos a vapor, o telefone, o telégrafo, o avião. Hoje em dia, é a internet.

Fernand Braudel ressaltou que a globalização capitalista modela o espaço político-geográfico. Ao redor de um centro, de uma cidade, sede de um organismo de impulsão, da Bolsa, funcionam "satélites" mais ou menos afastados. A relação centro-periferia domina esse sistema espacialmente hierarquizado. Foram os casos sucessivamente de Antuérpia, Amsterdã, Londres e Nova York. [...] Na Antiguidade, foi a Roma mediterrânea, da Idade Média ao século XIX, a Europa, hoje em dia, os Estados Unidos. Quase sempre surge uma saudável e racional resistência a essas hegemonias centrais.

Essa resistência pode degenerar e assumir formas extremas e condenáveis, sobretudo no caso da globalização atual, em que certos extremistas podem colocar-se como vítimas e responder com a arma do terrorismo. [...]

[...] No fenômeno da globalização há uma ideia de resultado, de produzir qualquer coisa; mas, se há um progresso, há simultaneamente males que estão ligados às globalizações históricas e colocam em pauta os perigos da globalização atual. O que Roma ofereceu às regiões que ela dominou por séculos? Ela trouxe a paz. A pax romana é um elemento ligado à dominação romana. Por conseguinte, o espaço da globalização pode e deve ser considerado um espaço pacífico. Evidentemente, há que se perguntar o que significa essa pacificação, como ela foi obtida e o que representa a dominação mesmo pacífica que ela ofereceu. Por outro lado, a globalização romana promoveu um sentimento entre os habitantes ou, ao menos, entre a camada superior dos habitantes desse espaço mundial, de uma cidadania universal, ­ cidadãos do mundo. O exemplo mais conhecido é o de Paulo de Tarso, São Paulo, esse judeu em via de se tornar cristão que afirmava com toda a força, como proteção e orgulho, "civis romanus sum", "sou cidadão romano". Em 212, o imperador Caracala proclamou um edito atribuindo a cidadania romana a todos os sujeitos livres do império, não importando a origem étnica ou cultural. Ademais, a globalização romana resultou na formação de um espaço jurídico em que existiam, portanto, noções e práticas de direito que eram ligadas a essa pacificação e que a acompanhavam. Daí provém ainda hoje a noção de Estado de direito. [...]

Em compensação, o que se deve apontar como débito dessa globalização? Pode-se resumir afirmando que, ao termo de um longo período de vários séculos, a globalização romana se mostrou incapaz de integrar ou assimilar novos cidadãos, aqueles que ela denominou de "bárbaros" e que, não podendo ser integrados no espaço e no sistema romano, sublevaram-se contra esse espaço. A globalização provoca, em maior ou menor tempo, a revolta daqueles aos quais ela se tornou não um benefício, mas uma exploração e mesmo uma exclusão.

Quanto à colonização ligada à expansão da Europa e que acabará sob as formas do capitalismo, ela começa nos séculos XV e XVI e atinge sobretudo a África e a América. [...]

Um problema muito importante no que toca à globalização diz respeito à saúde, ao estado biológico das populações. Aqui também a balança não encontra um equilíbrio. Na América, o resultado foi globalmente catastrófico. Os colonizadores trouxeram involuntariamente, salvo talvez indiretamente pela difusão do álcool, suas doenças, micróbios, bacilos, que perturbaram profundamente o equilíbrio biológico dos povos globalizados. Mas também há que se observar que essa colonização promoveu um progresso na higiene e na medicina [...]. No entanto, não estou cedendo ao mito dos colonizadores franceses [...] ao dizer que a globalização deve proporcionar, e freqüentemente proporciona, a difusão da escola, do saber, do uso da escrita e da leitura. É certo que no outro prato da balança dois grandes males se apresentam: o primeiro é o que eu chamo de violação das culturas anteriores dos povos por meio de uma verdadeira destruição dessas culturas, e aqui entra em cena um componente da globalização que é a religião. O terreno não é apenas aquele da civilização, mas também aquele da religião. É um problema enorme em que a posição de cada um e sua sensibilidade podem levar a posições particulares, mas prefiro falar – não sou o primeiro a fazê-lo, mas não estou certo de que o faço de maneira aprofundada – do que se pode denominar, com risco de chocar certo número de meus leitores, de perigos do monoteísmo. A globalização adquiriu um caráter monoteísta. A história comprova que não raro o monoteísmo desliza para a intolerância e mesmo para a perseguição. O Deus único não se contenta apenas em caçar os deuses anteriores, ele também destrói toda a civilização que está relacionada a eles e impõe à sociedade globalizada um modelo de sociedade dominado por um poder absoluto. Em seu mais alto nível, a globalização acarreta o maior dos males que pode sofrer uma sociedade: a recusa da tolerância. Por outro lado, e aqui se trata de ordem social, para retomar um termo de Braudel, percebe-se que, depois que o aspecto econômico se torna primordial, a globalização desenvolve, cria ou até mesmo exacerba as oposições entre pobres e ricos ou dominadores. A pauperização é um mal até hoje praticamente inevitável das globalizações. Para voltar ao papel das culturas, quero sublinhar de uma vez que as globalizações não violaram apenas as culturas, mas a história. Tal questão está no cerne de minha reflexão. A expressão inventada, geralmente pelos colonizadores, "povos sem história", e retomada pelos etnólogos imersos nas próprias culturas, dizimou populações que de fato tinham uma história, geralmente uma história oral, uma história particular e que foi sem dúvida destruída. A destruição da memória, da história, do passado é algo terrível para uma sociedade. A globalização deve assumir as histórias particulares anteriores, não as eliminar.



Charge de Angeli

Minha conclusão é simples e talvez banal: deve-se supervisionar, controlar e combater os perigos da globalização e fazer frutificar as potenciais contribuições positivas. Os principais perigos são, a meu ver, a dominação do econômico, o desenvolvimento da desigualdade e da injustiça social e a uniformização, a qual nunca é aceitável. Que existam compromissos sociais e políticos que façam o conjunto funcionar é admissível, mas a uniformização não é um ideal a ser proposto para a humanidade. Deve-se, portanto, desenvolver as instituições, os movimentos, os ideais que possam fazer triunfar com a globalização a partilha, a paz no respeito das diversidades. Uma globalização assassina das diversidades é nociva e catastrófica.

LE GOFF, Jacques. Vamos construir a globalização que nos convém. In: Revista Veja, ano 34, n. 51, dez. 2001. p. 158-160.

sábado, 27 de julho de 2013

O surgimento dos idiomas globais

As línguas vivas foram influenciadas pela migração do campo para a cidade. Idiomas falados em determinadas regiões rurais e por apenas alguns milhares de pessoas, corriam perigo quando estas se mudavam para zonas urbanas. Tais línguas regionais também sofriam quando a cultura citadina - através dos novos meios de comunicação - chegava ao campo. Da mesma forma, estavam em risco se a invasão de algum idioma mais popular - o inglês ou o russo, por exemplo - oferecesse mais esperanças de emprego, melhor educação ou acesso a entretenimento.

Fora da Europa, centenas de línguas nativas, vivas e vigorosas em 1900, passaram a ser faladas por apenas alguns milhares de pessoas. Quando um idioma sofria tal decadência, a maioria dos falantes o usava somente em parte de seu cotidiano, muitas vezes sem explorar todos os seus recursos e suas complexidades, pois os ouvintes de tal língua, especialmente os jovens, não a conheciam por completo. Das mais de 6 mil línguas do mundo, a maioria tinha, relativamente, poucos falantes no final do século. Elas estavam sob ameaça, uma vez que o rádio, a televisão, os jornais e os livros davam preferência àquelas faladas pela maioria.

O idíche possui hoje cerca de um terço dos falantes que tinha em 1900, quando era usado nas regiões central e leste da Europa, O íngrio e outros dois idiomas falados nas proximidades do Mar Báltico reuniam, em 1970, somente algumas poucas centenas de falantes cada um. A língua dálmata, usada no litoral leste do Mar Adriático, sumiu em 1898. O manx, que se falava na Ilha de Man, no Mar da Irlanda, foi extinto em 1974.

Na Austrália, vários idiomas se perderam. Um erudito estudou cinco línguas vivas de aborígenes, da região tropical de Queensland, e revelou com tristeza, em 1992, que três estavam extintas, uma tinha apenas dez falantes e a última continuava viva apenas na mente de um falante solitário. Não eram línguas simples, que morreram por falta de flexibilidade e vocabulário. A maioria possuía uma gramática complexa e um impressionante léxico de cerca de 10 mil palavras. Entre as numerosas línguas em risco pelo mundo, a maioria não sobreviveu.

Em 1900, o francês era, por estreita margem, a língua preferida para discursos internacionais e a favorita da alta sociedade em uma dúzia de países, incluindo a Rússia. No currículo de escolas secundárias do mundo anglófono, competia com o latim como língua estrangeira mais popular. De acordo com a edição de 1920 da enciclopédia inglesa Chamber's, o francês era "a literatura mais uniformemente legível de todas". Raros eram os ramos do aprendizado e da cultura aos quais o francês não se aplicasse. "Na França, mais do que em qualquer outro país, a capacidade mental está acompanhada pela faculdade literária", dizia a enciclopédia. O idioma parecia andar de mãos dadas com o que havia de melhor da civilização. Mas não conseguiu competir com o inglês como língua do comércio  - Londres e Nova York, em 1900, eram as capitais comerciais do mundo, e a libra esterlina, a princesa das moedas -, de modo que as pessoas de negócios da maioria dos países, da Suécia ao Japão, acabaram optando por aprender inglês.

A derrota militar da França em 1940 foi um golpe na reputação do eloquente idioma francês, mas nas suas colônias nada se alterou. A ajuda econômica francesa à África estava em seu ponto mais generoso e os africanos não viam problema algum em dizer merci e usar o francês para escrever seus pedidos de subsídio. O avanço do comunismo foi outro choque na popularidade da língua francesa, que então perdeu para o russo o lugar de segunda língua favorita na China, na Mongólia e em países comunistas do Leste Europeu.

O inglês estava então muito à frente graças, em parte, à influência dos Estados Unidos. Também continuava a ser um idioma importante na Índia, por causa dos conflitos entre falantes do hindi e de outras línguas. Durante a década de 1940, ultrapassou o alemão como língua da ciência e da engenharia e, uma década mais tarde, tornou-se o idioma dos controladores do tráfego aéreo. No emergente mundo da cultura pop, Elvis Presley, os Beatles e a maior parte das estrelas cantavam em inglês. O que mais um idioma poderia querer?


Inglês: idioma da internet

No último terço do século, nenhum rival da língua inglesa ganhou terreno. A libertação do Leste Europeu e a desintegração da União Soviética puseram termo à possibilidade de o russo tornar-se uma potencial linguagem global. Nessa época, russo e francês possuíam, cada um, menos falantes nativos do que o espanhol, graças ao rápido crescimento populacional na América Latina. O chinês contava com mais de 1 bilhão de falantes e representou um importante facilitador do comércio na Ásia Oriental, mas foi o inglês que se tornou o idioma da internet. No ano 2000, a língua inglesa se transformara na mais influente de todos os tempos.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 287-289.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A história apenas começa

Cartaz do filme alemão Metropolis, dir. Fritz Lang, 1927. Pôster criado pelo pintor alemão Heinz Schulz-Neudamm

Ao contrário do que tanto se disse, a história não acabou; ela apenas começa. Antes o que havia era uma história de lugares, regiões, países. As histórias podiam ser, no máximo, continentais, em função dos impérios que se estabeleceram a uma escala mais ampla. O que até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes. Chegava-se a dizer de tal ou tal povo que ele era sem história.

[A humanidade como um bloco revolucionário] O ecúmeno era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta. Somente agora a humanidade pode identificar-se como um todo e reconhecer sua unidade, quando faz sua entrada na cena histórica como um bloco. É uma entrada revolucionária, graças à interdependência das economias, dos governos, dos lugares. O movimento do mundo revela uma só pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo continentes, países, lugares, valorizados pela sua forma de participação na produção dessa nova história.

Vivemos em um mundo complexo, marcado na ordem material pela multiplicação incessante do número de objetos e na ordem imaterial pela infinidade de relações que aos objetos nos unem. Nos últimos cinquenta anos criaram-se mais coisas do que nos cinquenta mil anos precedentes. [...]

[...]

Nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem pouco a pouco descobre suas novas forças. Já que o meio ambiente é cada vez menos natural, o uso do entorno imediato pode ser menos aleatório. As coisas valem pela sua constituição, isto é, pelo que podem oferecer. Os gestos valem pela adequação às coisas a que se dirigem. Ampliam-se e diversificam-se as escolhas, desde que se possam combinar adequadamente técnica e política. [...]

Um dado importante de nossa época é a coincidência entre a produção dessa história universal e a relativa liberação do homem em relação à natureza. A denominação da era da inteligência poderia ter fundamento neste fato concreto: os materiais hoje responsáveis pelas realizações preponderantes são cada vez mais objetos materiais manufaturados e não mais matérias-primas naturais. [...] Na era da ecologia triunfante, é o homem quem fabrica a natureza, ou lhe atribui valor e sentido [...]. Todos os lugares fazem parte da história. As pretensões e a cobiça povoam e valorizam territórios desertos.

[A nova consciência de ser mundo] Graças aos progressos fulminantes da informação, o mundo fica mais perto de cada um, não importa onde esteja. O outro, isto é, o resto da humanidade, parece estar próximo. Criam-se, para todos, a certeza e, logo depois, a consciência de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual. O próprio mundo se instala nos lugares, sobretudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas, que ao mesmo tempo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim, o cotidiano de cada um se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como pelas perspectivas de futuro. [...]

Funda-se, de fato, um novo mundo. Para sermos ainda mais precisos, o que, afinal, se cria é o mundo como realidade histórica unitária, ainda que ele seja extremamente diversificado. [...]

Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória. [...]

[A grande mutação contemporânea] Diante do que é o mundo atual, como disponibilidade e como possibilidade, acreditamos que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política. [...] A globalização atual não é irreversível.

Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana está, finalmente, começando. A mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.

[...]

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2010. p. 170-174.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Por que globalizar a cultura? [II- Uma revolução cultural rica e abortada]

Cena do filme Deus e o diabo na terra do Sol, dir. Glauber Rocha

Houve um momento em que se reagiu contra essa penetração ideológica estrangeira.

Foi nas décadas de 1950 e 1960 quando o Cinema Novo produziu algumas películas marcantes. Nelas, havia grande preocupação com o conteúdo social. Foram feitos filmes que alcançaram projeção internacional.

É o caso de Rio, 40 graus e Rio, Zona Norte. Ambos tratam da população mais pobre da cidade do Rio de Janeiro. Tiveram a direção de Nelson Pereira dos Santos. Como esquecer O pagador de promessas? Nele, Anselmo Duarte conta a história do caboclo Zé do Burro. É um tema nacional porque mostra o sincretismo religioso dos caboclos e a intransigência da Igreja Católica.

Na época, Glauber Rocha dizia: "Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça." Quem sabe você já assistiu a uma das suas grandes realizações, chamada Deus e o diabo na terra do sol?

Clubes de cinema, congressos e entidades como o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes, lutaram pela valorização de questões nacionais! [...]

O teatro igualmente deu sua contribuição. Multiplicaram-se os teatros de bolso, cobrando ingressos mais baratos. O Tablado, de Maria Clara Machado, o Teatro de Arena, de Gianfrancesco Guarnieri, e o Grupo Oficina valorizaram antigos e novos autores de peças nacionais. Apresentaram muitos textos políticos!

Dessa época são duas das maiores peças teatrais produzidas entre nós: Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, e Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho, o popular Vianinha.

Vianinha, com João das Neves, Augusto Boal e outros, fundou o CPC, em dezembro de 1961. Esse órgão da UNE foi um dos focos dessa revolução cultural. Peças teatrais foram levadas aos sindicatos. Fizeram-se documentários abordando questões econômicas e sociais da realidade brasileira. Distribuíram-se livros, discos e revistas tratando da dívida externa, da reforma agrária e do dia a dia do brasileiro. Editaram-se livros de poesia e de literatura de cordel. Músicas de protesto, como Subdesenvolvido e O povo canta, foram popularizadas.

Essa renovação da cultura brasileira sob uma visão nacional também se deu na revalorização do samba. Muito significativa é a crítica apresentada por Wilson Batista e Roberto Martins. Está presente no samba Pedreiro Waldemar. Veja a letra:

Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece
mas eu vou lhe apresentar.
De madrugada toma o trem da circular
faz tanta coisa e não tem casa pra morar.

Em 1960, uma autoridade da cidade do Rio de Janeiro propôs fossem as favelas pintadas. Considerando serem inevitáveis, os barracos nela existentes deveriam ser coloridos. De imediato, Jota Júnior e Oldemar Magalhães deram a resposta:

Favela amarela...
Ironia da vida.
Pintem a favela
Façam aquarela
Da miséria colorida!

Este samba, "Favela amarela", foi bastante cantado no Carnaval de 1960.

Aí veio a longa noite dos generais: a ditadura militar.

A UNE foi fechada. O CPC acabou. A censura e a repressão física chegaram. Muitos acabaram presos. Essa renovação foi sufocada.

Mesmo assim, Zé Kéti ainda conseguiu divulgar seu protesto no samba "Opinião":

Podem me prender.
Podem me bater.
Podem até deixar-me sem comer
que eu não mudo de opinião!

[...] Apesar da influência da Jovem Guarda, foi rica a produção de melodias ligadas às tradições brasileiras. Nos festivais de música popular, realizados nas emissoras de televisão, havia verdadeira guerra entre os sambas e as músicas mais ou menos politizadas. Como titular de programa da TV Record, de São Paulo, desde 1969 destacou-se a Jovem Guarda. Dela participavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia e outros. Em suas músicas, as letras eram românticas ou reproduziam as angústias da classe média. Muitas delas foram feitas para ganhar festivais, pois o grupo também participou do Festival da Música Popular Brasileira, em 1967.

Essa corrente tinha letras despolitizadas. Era um verdadeiro contraste com as músicas de protesto.

De que vale o céu azul
E o sol sempre a brilhar
Se você não vem
E eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você
me aqueça neste inverno
e que tudo mais vá pro inferno.
(Quero que vá tudo pro inferno, canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Outra linha musical "tinha como características a marca regional, o acento nordestino e a ausência de conotação urbana". Essa análise é de Martha San Juan França. [...]

[...]

Foi nesse contexto que explodiu uma reação de grande impacto: o Tropicalismo. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e outros artistas, muitos deles baianos, provocaram verdadeiro escândalo. Por vezes, apresentavam-se acompanhados de conjuntos tocando guitarras elétricas.

Na História social da música popular brasileira, o crítico José Ramos Tinhorão afirma que os tropicalistas renunciaram a qualquer questionamento político-ideológico. Textualmente declara que os tropicalistas "acabaram chegando à tese que repetia no plano cultural a do governo militar no plano político-econômico. Ou seja, a tese da conquista da modernidade pelo simples alinhamento às características do modelo importador de pacotes tecnológicos prontos para serem montados no palco".

[...]

Mesmo assim, Alegria, alegria, de Caetano, e Domingo no parque, de Gil, foram bastante populares na época, principalmente entre os jovens. Para algumas pessoas, aquela música de Caetano era uma crítica à alienação.

Apesar da feroz censura, a resistência à ditadura militar e aos estrangeirismos produziu melodias de grande sensibilidade e beleza. As críticas não deixavam dúvidas da posição política dos autores.

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente, olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo o troco...
(Pesadelo, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós)

Mas as expressões máximas desse período foram certamente Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda, Torquato Neto, Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, Ivan Lins, Taiguara e Jards Macalé. Esses artistas chegaram a ser considerados malditos. Tiveram músicas censuradas. Alguns partiram para o exílio.

[...]

Vandré compôs uma melodia cheia de frases-denúncias e de estímulo à luta: Caminhando - Pra não dizer que não falei de flores. Foi uma loucura em um dos festivais da canção. Centenas de pessoas logo repetiam a letra, entoando a melodia.

Caminhando e cantando
E seguindo a canção.
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos,
De armas na mão.
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição.
De morrer pela pátria
E viver sem razão [...]

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer.

Militares até pediram a prisão de Vandré.

Felizmente, a sensibilidade e a coragem de um punhado de artistas resgatavam os valores e a riqueza da cultura nacional. Eles e muitos outros continuaram a resistir. A denunciar a violência existente.

[...]

Quase ao findar a década de 1970, a censura deixou passar uma canção marcante. Melodia belíssima. Notável interpretação de Elis Regina. Letra de alegorias, mal disfarçando as denúncias e críticas à ditadura existente. Às atrocidades cometidas. Às mulheres viúvas de opositores assassinados. Uma mensagem plena de esperança no amanhã. Na volta da democracia. No retorno daqueles que partiram. Exilados ou banidos.

O bêbado e o equilibrista, canção de Aldir Blanc e João Bosco, em 1979, tornou-se verdadeiro hino do Movimento pela Anistia.

E nuvens
lá no mata-borrão do céu
chupavam manchas torturadas,
que sufoco!
[...] Chora
a nossa pátria-mãe gentil
[...] com a volta do irmão do Henfil
com tanta gente que partiu
num rabo de foguete.
[...] Azar,
a esperança é equilibrista,
sabe que o show de todo artista
tem que continuar.

É fundamental multiplicarmos o número de artistas cada vez mais conscientizados da necessidade de lutar. Lutar contra a globalização da cultura e da sociedade brasileira.

Globalização que, na realidade, é a nova face do imperialismo.

[...]

Não podemos contar com a grande maioria das autoridades. Ela está preocupada em subvencionar os Rock' in Rio, Hollywood Rock, Free Jazz. O domínio da opinião pública pelos meios de comunicação e gravadoras multinacionais busca impor sons musicais contaminados pelo popularesco.

As emissoras de rádio e televisão inundam o país com os sons de conjuntos impregnados por esses sons. [...]

[...] a política dos meios de comunicação não visa apenas a compor gostos, modas. Criar sucessos. Seu objetivo real é alienar. [...]

[...]

Apesar dessa massificação o rap tem invadido as cidades, descendo do morro ou da periferia, com músicas de duvidosa qualidade. Algumas delas, no entanto, constituem verdadeiros protestos políticos e sociais.

Felizmente um Zeca Pagodinho, um Bezerra da Silva, uma Beth Carvalho, um Renato Russo, um Paulinho da Viola, um Nelson Sargento ainda sustentam a bandeira da genuína MPB. Sem perder a beleza da melodia, nem a malemolência do ritmo, suas músicas contêm frases-denúncia da realidade brasileira.

A injustiça impera na face
da Terra
A miséria sempre gera guerra
Por isso existem os conflitos
sociais
E as nossas crianças nas ruas
estão desamparadas
(Juiz de toda humanidade, samba de Bicalho e Capri. Canta Bezerra da Silva)

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 166-175.

domingo, 4 de novembro de 2012

Por que globalizar a cultura? [I - Pra inglês ver]

Forget not me
Of...
I love you!
Abacaxi... whisky
off chuchu...
malacacheta; independence day
no street-flesh me estrepei...
Elixir de inhame
reclame de andaime
mon Paris je t'aime
sorvete de creme...
My girl good night...
oi!
double fight.
Isso parece uma canção de Oeste
coisas horríveis lá no far west.


Coisa mais louca você acabou de ler, não lhe parece?

Verdadeira salada de palavras! Muitas em português! Muitas em inglês! E até em francês!

Esses versos absurdos são de uma música de Lamartine Babo chamada Canção para inglês ver. Composta em 1934, representava uma crítica ao crescente emprego de palavras e expressões estrangeiras no falar do brasileiro.

Era uma denúncia à penetração de uma cultura vinda de fora que superava cada vez mais nossos valores culturais.

O linguajar do brasileiro foi mudando, sendo os filmes feitos em Hollywood um dos meios que contribuíram para essas mudanças.

Noel Rosa, talentoso compositor e observador dos costumes de sua época, registrava a mania do brasileiro de falar inglês por influência do cinema. Assim foi no samba "Não tem tradução", que é de 1933.

O cinema falado
É o grande culpado da transformação
[...] A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou.
Mais tarde o malandro deixou de sambar
Dando pinote
E só querendo dançar o fox-trot!

Como verdadeira pororoca, as palavras inglesas invadiram o nosso Brasil, que muitos já escrevem Brazil! E essa invasão de palavras foi paralela à invasão do capitalismo norte-americano! [...]

Atualmente ninguém mais pede lâmina de barbear! Tudo é gilete, marca de produto norte-americano. Máquina de costura virou singer. Corretor agora é liquid paper!

O antigo rabo-de-galo se americanizou e se chama cocktail. Futebol de praia se transformou em beach soccer. Não se pede uma bebida leve, mas sim um drink.

Nos dias atuais, com os progressos da tecnologia, tem aumentado o uso de palavras escritas em inglês. Muitas nem constam de dicionários. É um tal de designer, site, chip, hardware, software, on-line, hackers! Já se fala até em plugar e deletar. São duas palavras aportuguesadas do inglês plug e delete.

Com a televisão então o consumismo de produtos e palavras inglesas mais aumentou. Como aponta Júlia Falivene Alves [...]: "Certos alimentos habituais nos USA, de tanto se tornarem presentes em nossas refeições diárias, foram aos poucos adquirindo aos nossos olhos ares de verdadeiras 'instituições nacionais', comparáveis até ao feijão com arroz e ao café com leite. O consumo de Coca-Cola e de outros refrigerantes, sucos artificiais, catchup, milk-shake, sundaes e outros comes e bebes desse gênero já passou a fazer parte da 'rotina digestiva' de milhões de brasileiros, sobretudo dos que vivem no eixo centro-sul do país."

E tem mais americanice nos bang bang, bad boy, playboy, jeans, beer, disk jockey, care free, long play, compact disk ou CD.

Você liga o rádio e quase que só ouve música norte-americana: rock' n' roll, bebop, jazz, blues, soul, funk, swing. [...]


Elvis Presley, anos 1950


Uma das razões está no fato de as gravadoras serem multinacionais, predominantemente norte-americanas: EMI, Capitol, RCA Victor, CBS, Philips, WEA...

O mais grave é que são tornadas populares músicas que apelam para o breganejo e a breganagem. Nesta, se exaltam o tcham, a dança da garrafa...

[...]

Quem sabe, preocupado com o que está abrindo seus olhos, você não vai acender um cigarro? Não é mais o velho cigarrinho de palha, preparado com suas próprias mãos. Agora o cigarro-veneno que você põe à boca tem um nome estranho! Chama-se Pall Mall, Charm, Free, Hollywood, Marlboro, Carlton!

Essa penetração consumista, nem sempre visível e sempre alienante, representa uma hábil manobra do imperialismo para consolidar a dominação econômica.

Já na década de 1930, essa mundialização do americanismo no Brasil e no mundo, além do cinema falado, começava pela base da própria sociedade: as crianças!

Como pôde isso ocorrer?

Através de histórias em quadrinhos! Nestas, os super-heróis eram identificados com o bem, a justiça, a coragem, a proteção aos mais fracos, o combate ao crime.

E, não por acaso, na sua imensa maioria, esses personagens eram nascidos nos Estados Unidos. [...] Popeye, Batman, Super-Homem, Capitão Marvel, Mandrake, Capitão América eram norte-americanos.

[...]

Você deve estar pensando que havia histórias em quadrinhos bem diferentes. Sem propaganda camuflada. Logo se lembra do Pato Donald, do Mickey, do Tio Patinhas...

Pois bem, esses personagens foram criados por Walt Disney. Este trabalhou para o governo dos Estados Unidos! Suas historinhas não são inocentes! O Tio Patinhas, com seu amor ao dinheiro, no fundo, exalta o capitalismo. Já o Mickey é todo certinho e amigo do chefe de polícia. Identifica-se com a ordem existente e a necessidade de buscar apoio das autoridades. O Pato Donald, solteiro e namorado da Margarida, tem três sobrinhos de pais que nunca apareceram. Parece até que nasceram por geração espontânea, sem relacionamento sexual.

[...]

Em um desenho animado chamado O rei leão pelos estúdios Walt Disney, o leão bom tem pêlo claro. O mau, tem juba negra e pêlo escuro. Seus amigos são hienas, também escuras. E nós, adultos e crianças, achando que desenho animado é coisa inocente!

Antes era o cinema. Isso aumentou com a televisão e o vídeo. Nos programas, nos filmes e até nos desenhos animados. Os Simpsons e os Flinstones são famílias norte-americanas. Passam os valores da sociedade norte-americana. E que valores! Basta ver quanta violência nos filmes! Melhor ainda: reparem a quantidade de filmes norte-americanos mostrados em nossas emissoras de televisão. Ou à disposição em vídeo.

E fica a pergunta no ar: mundialização, globalização da cultura não constituem uma subordinação aos Estados Unidos?

A sociedade brasileira está cada vez mais mcdonaldizada! Qualquer dia, na marcha de aceleramento americanizado, o campo, o sertão, a floresta terão McDonald's para vender hamburger, cheeseburger, McFish, McChicken, com Coca-Cola!

Para Júlia Falivene Alves, "essa espécie de 'segunda pele' que nós brasileiros vestimos tem tornado cada vez mais difícil a procura, a determinação, o reencontro ou a elaboração da nossa própria identidade cultural". [...]

Até que ponto continuaremos a consumir falas, maneiras de vestir, hábitos alimentares, a agir como se norte-americanos fôssemos?

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 157-164.

terça-feira, 29 de maio de 2012

"A Aliança das Civilizações"


As correntes do Bósforo são conhecidas por sua força e por terem o sentido inverso na superfície e na profundidade. No entanto, há séculos o povo turco aprendeu a negociar entre estas correntes, na fronteira entre a Europa e a Ásia e entre o mundo islâmico e o Ocidente, o que contribuiu para a sua prosperidade. O relatório "A Aliança das Civilizações" ressalta justamente que a fusão das diferenças, sejam de opinião, de cultura, de credo ou de modo de vida, foi desde sempre o motor do progresso humano. Na época em que a Europa atravessava a idade das trevas, a Península Ibérica construiu seu progresso sob a interação entre as tradições muçulmanas, cristãs e judaicas. Mais tarde o Império Otomano prosperaria graças, sem dúvida, ao seu exército, mas também porque, neste império de ideias, a arte e as técnicas muçulmanas foram enriquecidas pelas contribuições judaicas e cristãs.

Infelizmente, muitos séculos mais tarde, é o crescimento da intolerância, do extremismo e da violência que marca nossa era de mundialização. Longe de semear a compreensão e a amizade mútuas, o estreitamento das distâncias e a melhora nas comunicações têm frequentemente engendrado tensão e desconfiança. Muitos são os que chegam a temer, especialmente nos países em via de desenvolvimento, a existência da comunidade planetária - sinônimo, a seus olhos, de agressão cultural e de sangria econômica. A globalização ameaça tanto seus valores quanto seu bolso.

Os ataques terroristas do 11 de setembro, a guerra e os conflitos no Oriente Médio, as propostas e os projetos mal-inspirados só servem para reforçar este sentimento e provocar tensão entre os povos e as culturas. As relações entre os fiéis das três grandes religiões monoteístas foram fortemente postas a prova. [...] 

No momento em que as migrações internacionais levam um número sem precedentes de pessoas das mais diversas religiões e culturas a viver lado a lado, os radicalismos e estereótipos que sustentam a ideia de "choque das civilizações" são cada vez mais propagados. Alguns grupos parecem impacientes para fomentar uma nova guerra de religiões, desta vez em escala mundial. E indiferença ou até mesmo desprezo que os outros manifestam em relação a suas crenças ou símbolos apenas lhes facilita a tarefa.

Em suma, a ideia de uma aliança das civilizações não poderia chegar em melhor hora, visto que não vivemos em mundos diferentes, como acontecia com nossos ancestrais. As migrações, a integração e a técnica têm aproximado as diferentes comunidades, culturas e etnias, fazendo cair velhas barreiras e desvendando novas realidades. Nós vivemos como jamais seria possível antigamente, lado a lado, submetidos a várias influências e ideias diferentes.

A demonização do "outro" revelou-se o caminho mais fácil. Neste século 21, continuamos reféns de nossa própria percepção da injustiça e de nossos direitos. Nosso discurso tornou-se a nossa prisão. Para muitas pessoas ao redor do mundo, em particular os muçulmanos, o Ocidente é uma ameaça a suas crenças e valores, interesses econômicos e aspirações políticas. Qualquer prova em contrário está condenada ao desdém e ao descrédito. Do mesmo modo, muitos ocidentais consideram o Islã como uma religião de extremismo e violência, mesmo sabendo que os dois mundos mantêm há muito tempo relações nos quais o comércio, a cooperação e as trocas culturais têm ocupado no mínimo tão importante quanto o dos conflitos. [...]

Inspiremo-nos por uma inscrição que pode ser vista no museu de Arqueologia de Istambul. Ela contém o tratado de paz firmado entre os impérios hitita e egípcio, depois da sangrenta batalha de Kadesh, em 1229 a.C. Tendo colocado um ponto final em décadas de desconfiança e guerra, este acordo marcou uma etapa histórica: os dois campos comprometeram-se a trocar assistência mútua e a cooperar. Esta é, de fato, a representação literal de uma aliança entre duas grandes civilizações. [...]

[Parte do discurso do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em Istambul. In: Le Monde Diplomatique: Brasil, São Paulo, fev. 2007.]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Cultura e política no Brasil contemporâneo

O fenômeno da globalização tem aproximado povos das mais diferentes culturas, numa sociedade internacionalizada por uma sofisticada rede de comunicações. Não é só a economia que caminha para uma integração cada vez maior do mercado: também no campo da cultura essa integração tem acontecido. No entanto, entramos nesse processo como um país dependente, cujo poder de decisão está subordinado à vontade dos grandes organismos internacionais. Nossa dívida externa e nossa dependência de capitais externos são fortes indicadores das dificuldades de nos libertarmos dessa sujeição. Se os sinais de que o Brasil está integrado ao sistema internacional são evidentes, são também muito claros os percalços e dificuldades que isso acarreta.

O crescimento do setor de serviços, responsável por mais da metade da riqueza gerada no país, revela que o capitalismo brasileiro passa por importantes transformações. A cultura se transformou definitivamente em uma mercadoria: a famosa indústria do lazer prospera, o turismo aparece como uma das alternativas para promover o desenvolvimento do país. Embora o crescimento industrial continue sendo muito importante, a economia tornou-se um complexo campo de atividades no qual o setor financeiro desempenha papel central.

Além do mais, multiplicaram-se os shoppings centers, verdadeiras ilhas de prosperidade. São o templo da convivência social - substituindo as praças -, lugar privilegiado do consumo de mercadorias. Lá se encontram as tradicionais casas de comércio, os cinemas, as praças de alimentação. Seu sucesso entre as elites econômicas acabou estimulando investimentos em centros destinados a outros grupos sociais com menor poder aquisitivo, mas servidos por um sistema de crédito pessoal atraente.

Shopping center em Curitiba.

As grandes redes de televisão tornaram-se as principais incentivadoras da sociedade de consumo: criam novos hábitos de consumo, lançam modas fugazes, divulgam novidades estrangeiras. Suas imagens sedutoras informam sobre um mundo que não cessa de inovar. A TV Globo consolidou sua condição de líder de audiência: suas novelas e noticiários são responsáveis diretos pela formação da opinião pública. O gosto musical sobre a interferência da mídia, que divulga à exaustão as trilhas sonoras das novelas, as duplas sertanejas de plantão, os conjuntos de música baiana ou outro ritmo qualquer, supostamente representativo da preferência popular.

O aprimoramento do sistema de comunicações facilita o processo de globalização, ao mesmo tempo que este estimula novos avanços tecnológicos naquele sistema. Os telefones celulares, cuja posse era, no início, sinal de status social, popularizaram-se rapidamente, tornando-se instrumentos de uso cotidiano. Instalaram-se as redes de televisão por assinatura, que atendem aos mais diversos gostos: filmes dos mais variados gêneros, shows, documentários, noticiários. Consumir cultura é uma regra básica dos tempos atuais, e dominar uma língua estrangeira é uma necessidade para profissionais de todos os setores.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 636-637.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Quem roubou o quê? Tempo e espaço

Desde o início do século XIX, a construção da história do mundo tem sido controlada pela Europa ocidental, que registrou sua presença no resto do mundo como resultado da conquista colonial e da Revolução Industrial. Também os chineses, os indus e os árabes construíram suas histórias mundiais, por sinal com o mesmo caráter parcial [...]. De fato, poucas culturas estabelecem um vínculo entre o seu próprio passado com o passado das outras civilizações. [...] O que caracteriza a postura europeia, assim como a de sociedades mais simples, é a tendência de impor a própria história ao mundo. Essa tendência etnocêntrica é extensão de um impulso egocêntrico na base de grande parte da percepção humana e se realiza pelo domínio de fato de muitas partes do mundo. [...]

É necessário um pensamento mais crítico para combater o inevitável caráter etnocêntrico em qualquer tentativa de descrever o passado ou o presente do mundo. Isso significa, primeiramente, ser cético quanto à pretensão ocidental de ter inventado atividades e valores como democracia ou liberdade. Em segundo lugar, significa olhar para a história a partir da base e não de cima para baixo (ou do presente). Em terceiro lugar, dar o peso adequado ao passado não europeu. Em quarto, é necessária a consciência de que até mesmo a espinha dorsal da historiografia - a localização dos fatos no tempo  e espaço - é variável, objeto de construção social, por isso, sujeita a mudança. Portanto, não se trata de categorias imutáveis que emanam do mundo na forma como são apresentadas na consciência historiográfica ocidental.

As dimensões atuais de tempo e espaço foram estabelecidas pelo Ocidente. Isso porque a expansão através do mundo requereu controle temporal e mapas que emolduraram a história, tanto quanto a geografia. É claro que todas as sociedades têm alguns conceitos de espaço e tempo, em torno dos quais organizam seus cotidianos. Esses conceitos tornaram-se mais elaborados (e mais precisos) com o advento da leitura e da escrita, que proveu a capacidade para precisar ambas as dimensões. Foi a invenção da escrita na Eurásia que deu, para a maioria de suas sociedades, vantagens consideráveis, em comparação com a África oral, por exemplo, no cálculo do tempo ou na criação e desenvolvimento de mapas e não alguma verdade inerente à maneira de o mundo estar organizado em termos de espaço e tempo.

* Tempo. O tempo nas culturas orais era contado de acordo com fenômenos naturais: a progressão diária do sol, sua posição na esfera espacial, as fases da lua, o transcorrer das quatro estações. Faltava a contagem numérica da passagem dos anos. Isso requeria a noção de um ponto de partida fixo, em uma era. Essa contagem veio somente com a escrita.

O cálculo preciso do tempo, no passado e no presente, também foi apropriado no Ocidente. As datas as quais a história depende são medidas antes e depois do nascimento de Cristo (a.C. e d.C. ou a.e.c. e e.c. para sermos mais corretos). O reconhecimento de outras eras, relativas à Hégira, aos hebreus ou ao ano novo chinês, está relegado às margens da historiografia acadêmica e do uso internacional. Um aspecto desse roubo do tempo foi certamente as concepções de século e milênio propriamente ditas, de novo, concepções de culturas escritas. [...]

A monopolização do tempo não ocorre somente com a era que tudo inclui, definida pelo nascimento de Cristo, mas também com a contagem cotidiana de anos, meses e semanas. O ano, propriamente dito, é uma divisão parcialmente arbitrária. Nós usamos o ciclo sideral (calendário solar), outros usam uma sequência de 12 períodos lunares. É uma escolha mais ou menos convencional. Em ambos os sistemas, o início do ano, isto é, o Ano Novo, é absolutamente arbitrário. Não há, de fato, mais "lógica" no ano sideral, adotado pelos europeus, que na contagem lunar dos países islâmicos e budistas. O mesmo acontece com a divisão europeia dos meses. A escolha é entre anos arbitrários ou meses arbitrários. Nossos meses têm pouco a ver com a lua, enquanto os meses lunares do Islã são definitivamente mais lógicos. Há um problema para todo sistema calendárico de integrar anos estelares ou sazonais com meses lunares. No islamismo, o ano é ajustado aos meses; no cristianismo acontece o contrário. Nas culturas orais, tanto a contagem sazonal quanto a lunar podem operar independentemente, mas a escrita impõe certo compromisso.

A semana de sete dias é a unidade mais arbitrária de todas. Na África, pode-se encontrar o equivalente à semana de três, quatro, cinco ou seis dias, com seus mercados correspondentes. Na China eram dez dias. As sociedades sentiram necessidade de uma divisão padrão menor do que o mês para marcar o cotidiano dos mercados locais, distintos das feiras anuais. A duração dessas unidades é completamente convencional. A noção de um dia e uma noite corresponde claramente à nossa experiência diária. Entretanto, a divisão suplementar em horas e minutos, em nossos relógios e nossas mentes, é arbitrária.

As diferentes formas de calcular o tempo nas sociedades com escrita tinham uma estrutura religiosa, usando como ponto de referência a vida do profeta, do redentor, ou a criação do mundo. Esses pontos de referência mantiveram-se relevantes, e os do cristianismo - resultado das conquistas, colonização e dominação do mundo não somente para o Ocidente, como também para o mundo -, a semana de sete dias, o domingo de descanso, os feriados de Natal, Páscoa, Dia das Bruxas, são agora internacionais. Isso aconteceu apesar de, em muitos contextos, no Ocidente, haver se propagado um conceito secular - a desmistificação do mundo, segundo Weber, a rejeição da mágica, segundo Frazer - que agora afeta grande parte do mundo globalizado.

A continuada relevância da religião na vida cotidiana é frequentemente incompreendida tanto por observadores como por participantes. Muitos europeus enxergam suas sociedades como seculares e suas instituições como não discriminatórias de um credo ou de outro. O véu muçulmano  e a quipá dos judeus podem ser permitidos ou não nas escolas; serviços religiosos livres são a regra; o estudo das religiões tenta ser comparativo. Nas ciências, nós pensamos na liberdade de questionar o mundo e tudo o que ele contém como condição de existência. Religiões como o islamismo, por outro lado, são muitas vezes criticadas por deterem as fronteiras do conhecimento, embora tenham uma tendência racionalista. Até o momento, a mais avançada economia do mundo, em termos científicos e econômicos, é fortemente marcada por uma religião fundamentalista e uma profunda ligação com o seu calendário religioso.

Modelos religiosos de construção do mundo permeiam todos os aspectos do pensamento e em tal extensão que, mesmo tendo sido abandonados, seus traços continuam a determinar nossa concepção de mundo. Categorias espaciais e temporais, originadas de narrativas religiosas, são de tal forma fundamentais e disseminadas como determinantes para nossa interação com o mundo, que nós tendemos a esquecer sua natureza convencional. [...]

Voltando às medidas do tempo, os relógios, exclusivos das sociedades letradas, foram obviamente uma contribuição importante. Eles existiam no mundo antigo na forma de relógios de sol e de água. Monges medievais usavam velas para registrar a passagem das horas. Dispositivos mecânicos complexos já haviam sido usados na China. Mas a invenção do relógio mecânico, que faz o tique-taque, foi uma descoberta europeia do século XIV. [...] Relógios mecânicos, que, para alguns filósofos, se tornaram o modelo de organização do universo, foram no final incorporados em relógios portáteis, o que facilitaria a consulta individual. Isso também levou tais filósofos a desprezar povos e culturas que obedeciam ao "tempo africano" e não conseguiam se adaptar à demanda do emprego regular em fábricas e nas organizações de larga escala. Eles não estavam preparados para a "tirania", "a escravidão ao salário" do horário comercial.

[...]

Há outro aspecto mais geral com relação a essa apropriação do tempo: a caracterização da percepção ocidental de tempo como linear e da oriental como circular. [...] na China, à parte o cálculo de eras de longa duração, há um cálculo circular de anos de curta duração a partir do qual o nome do ano ("ano do macaco") circula de modo regular. Não há nada precisamente semelhante no calendário ocidental, a não ser os meses que se repetem, e na astrologia baseada no zodíaco caldeu, que mapeia o espaço celeste, na qual esses meses adquirem significado característico como nos anos chineses. No entanto, mesmo nas culturas orais, em que a contagem do tempo é inevitavelmente mais simples, acham-se tempos lineares e circulares. A contagem linear é parte intrínseca das histórias de vida que se movem do nascimento à morte. Com o tempo "cósmico" há uma tendência maior à circularidade, uma vez que o dia segue a noite e uma lua segue outra. Qualquer ideia de cálculo exclusivo a ser feito de modo linear em vez de circular é equivocada e reflete nossa visão de que o Ocidente é avançado e voltado para o futuro e o Oriente, estático e atrasado.

* Espaço. As concepções de espaço também têm seguido definições europeias. Elas foram profundamente influenciadas pelo uso não tanto da escrita, mas das representações gráficas que se desenvolveram junto com a escrita. Claro que todos os povos têm algum conhecimento espacial do mundo em que vivem, do mundo ao redor e do céu, acima. [...]

Os continentes propriamente ditos não são noções exclusivamente ocidentais. Eles se mostram instintivamente como entidades distintas, exceto pela divisão arbitrária entre Europa e Ásia. Geograficamente, Europa e Ásia formam um continuum, a Eurásia; os gregos fizeram distinção entre as margens do Mediterrâneo no Estreito de Bósforo. Apesar de terem fundado colônias na Ásia Menor desde o período arcaico, a Ásia nunca deixou de representar o "outro histórico" na maioria dos contextos: a terra de religiões e povos estranhos. Mais tarde, religiões "mundiais" e seus seguidores, cobiçando o domínio do espaço e do tempo, tentaram definir oficialmente a nova Europa como cristã. Isso apesar do histórico de contatos com a presença de seguidores do islamismo e judaísmo no continente e apesar, também, da insistência de contemporâneos europeus (em contraste com outros povos) em adotar uma atitude leiga e secular diante do mundo. Enquanto o relógio dos anos clica para um tempo distintamente cristão, o presente e o passado da Europa são vistos como "a formação da Europa cristã" nos termos de Trevor-Roper.

Concepções de espaço, no entanto, não foram influenciadas pela religião com a mesma intensidade que as do tempo. Ainda assim, as localizações de cidades sagradas como Meca e Jerusalém determinaram não só a organização dos lugares, a direção da adoração, como as vidas de muitos povos que tinham como objetivo  peregrinar para esses lugares sagrados. O papel da peregrinação islamita, um dos cinco pilares dessa religião, é bem conhecido, e afeta muitas partes do mundo. Mas no passado, os cristãos também peregrinavam para Jerusalém e a liberdade de fazer tais viagens foi uma das razões para a invasão europeia (as Cruzadas) do Oriente Médio no século XIII. Jerusalém foi também um forte pólo de atração para o retorno de judeus durante a Idade Média, e ainda mais a partir do crescimento do sionismo e do violento anti-semitismo desde o final do século XIX. Essa questão espacial, fortemente apoiada por algumas potências ocidentais, de Israel ser o lar destinado ao retorno massivo de judeus para a Palestina, resultou em tensão, conflito e guerras, que têm varrido o Mediterrâneo oriental nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a concentração de bases ocidentais na península arábica é vista como sendo a razão da ascensão da militância islâmica nessa região. Desse modo, a religião "mapeia" o mundo para nós em parte de forma arbitrária, mas esse mapeamento adquire significados poderosos relativos a identidades, durante o processo. A motivação religiosa inicial pode desaparecer, mas a geografia interna que ela gerou permanece, é "naturalizada" e pode ser imposta aos outros como sendo de certo modo parte da ordem material das coisas. [...]

Porém, os efeitos da colonização ocidental são evidentes. Quando a Inglaterra se tornou uma potência mundial, as coordenadas de espaço passaram a se basear no meridiano de Greenwich, em Londres; as Índias Ocidentais e grande parte das Índias Orientais foram criadas por interesses europeus, sob a orientação do colonialismo e expansionismo europeus. [...] Como Fernandez-Armesto assinala, na primeira metade do presente milênio, o Islã ocupou uma posição mais central e estava bem situado para oferecer uma visão da geografia mundial. Exemplo é o mapa-múndi de Al-Istakhi, produzido na metade do século X e visto da Pérsia. O Islã foi posicionado no centro da expansão e da comunicação, permanecendo a meio caminho entre a China e o mundo cristão. [...]

Mapa de Al-Istakhi

Mercator (1512-94) de Flandres foi um dos geógrafos premiados com a chegada em Florença de uma cópia grega da Geografia de Ptolomeu vinda de Constantinopla e escrita em Alexandria no século II e.c. O tratado foi traduzido para o latim e publicado em Vicenza, tornando-se uma referência da geografia moderna. Fornecia uma grade de coordenadas espaciais que podiam ser estendidas em um globo, com linhas numeradas a partir do equador, para latitude, e a partir das ilhas Fortunate, para longitude. Esse trabalho chegou na época da primeira circunavegação do globo e do advento da imprensa, fatores importantes para o desenvolvimento da cartografia. [...]

[...]

Cartografia e navegação envolveram o cálculo do espaço do céu e da terra. Todas as culturas têm algum modo de ver o céu. Mas seu mapeamento foi desenvolvido pelos homens de letras babilônios e mais tarde pelos gregos e romanos. Esse conhecimento desapareceu da Europa durante a Idade das Trevas mas continuou a ser impulsionado no mundo árabe, na Pérsia, Índia e China. O mundo árabe em particular, usando matemática complexa e muitas observações novas, produziu excelentes mapas estelares e ótimos instrumentos astronômicos, como o astrolábio de Muhammad Khan ben Hassan. Foi a partir dessa base que os avanços europeus nessa área foram possíveis.

Até séculos recentes, a Europa não ocupava uma posição central no mundo conhecido, apesar de tê-lo feito temporariamente com a emergência da Antiguidade clássica. Somente a partir da Renascença, com as atividades mercantis no mar Mediterrâneo e depois no Atlântico, é que a Europa começou a dominar o mundo. Primeiro com a expansão do comércio, depois pela conquista e colonização. Essa expansão levou a noção de espaço desenvolvida no curso da "Idade da Exploração" e a noção de tempo desenvolvida no contexto da Cristandade a serem impostas ao resto do mundo. [...]

* Periodização. O "roubo da história" não é somente de tempo e espaço, mas do monopólio dos períodos históricos. A maioria das sociedades parece fazer alguma tentativa de categorizar seu passado nos termos de largos e diferentes períodos de tempo mais ligados à criação da humanidade do que do mundo. Os esquimós pensam que o mundo sempre foi como se apresenta, porém, na vasta maioria das sociedades, os homens de hoje são vistos como sendo os primitivos habitantes do planeta. A ocupação do planeta começou por algo parecido com o "tempo do sonho" dos nativos australianos; entre os LoDagga do norte de Gana, os primeiros homens e mulheres habitaram a "velha terra" [...]. Com o advento da "linguagem visível", da escrita, aparentemente criamos uma periodização mais elaborada: a crença numa Era Dourada anterior ao Paraíso, quando o mundo era um lugar melhor, mas que os humanos tiveram de abandonar por causa de seu comportamento incorreto. É o oposto da ideia de progresso e modernização. Alguns imaginaram uma periodização baseada nas mudanças na natureza das principais ferramentas usadas pelos homens como pedra, cobre, bronze, ou ferro - uma progressiva periodização das Idades do Homem adotada por arqueólogos europeus do século XIX como um modelo científico.

Recentemente, a Europa se apropriou do tempo de forma mais determinada e o aplicou ao resto do mundo. Claro, a história mundial precisa ter uma estrutura cronológica única, se quiser ser unificada. Acontece que o parâmetro internacional é basicamente cristão, assim como os feriados mais importantes - Natal e Páscoa - são celebrados em órgãos internacionais como as Nações Unidas. E também é esse o caso das culturas orais do Terceiro Mundo que não foram incluídas nos parâmetros das religiões mais importantes; Alguma monopolização é necessária na construção de uma ciência universal como a astronomia. A globalização compreende uma medida de universalização. Não se pode trabalhar com conceitos puramente locais. Assim, apesar de o estudo da astronomia ter tido sua origem em outro lugar, mudanças na sociedade de informação, particularmente na tecnologia de informação na forma de livro impresso (que, como o papel, veio da Ásia), passaram a significar que o desenvolvimento da estrutura do que se chama ciência moderna é ocidental. Nesse caso, como em outros, globalização significa ocidentalização. [...] Os conceitos de história e de ciências sociais, apesar de eruditos lutarem pela "objetividade" weberiana, são mais próximos do mundo em que eles foram concebidos. Por exemplo, os termos "Antiguidade" e "Feudalismo" são definidos num puro contexto europeu, atentos ao desenvolvimento histórico particular desse continente. Os problemas surgem quando se pensa sobre a aplicação desses conceitos em outros tempos e lugares [...].

[...]

A linearidade é um constituinte da "avançada" ideia de "progresso". Alguns viram essa noção como peculiar ao Ocidente, e de certa forma o é, podendo ser atribuída à rapidez das mudanças ocorridas principalmente na Europa desde a Renascença [...].  A maioria das religiões escritas continha a ideia de Idade de Ouro, Paraíso, ou Éden, de onde a humanidade teve de se retirar. Essa noção envolveu um olhar para trás tanto quanto, em alguns casos, um olhar à frente para um novo começo. Mesmo em culturas orais foi encontrado a ideia de Paraíso. [...] Só com o advento da secularização, depois do Iluminismo, vamos encontrar um mundo regido pela ideia de progresso [...].

Uma das hipóteses básicas de uma boa parte da historiografia ocidental é que a flecha do tempo avança com um aumento equivalente em valor e proveito na organização das sociedades humanas, isto é, o progresso. A história é uma sequência de estágios, cada um proveniente de um anterior e seguindo em direção ao próximo, até, no marxismo, finalmente alcançar o estágio "superior" com o comunismo. Embora a leitura eurocêntrica da direção da história não acolha esse tipo de otimismo milenarista, para a maioria dos historiadores, o momento da escrita aproxima-se do objetivo final do desenvolvimento da espécie humana [...]. 

[...] Toda a história mundial foi concebida como uma sequência de fases constituídas por eventos ocorridos só na Europa Ocidental. Por volta de 700 a.e.c., o poeta Hesíodo imaginou as eras passadas do homem começando por uma Idade de Ouro e sendo sucedida pelas Idades de Prata e Bronze, passando por uma era de heróis, até chegar à atual Idade do Ferro. [...] No entanto, desde a Renascença, historiadores e eruditos têm adotado outra abordagem. Começando com a sociedade arcaica, a periodização das mudanças na história mundial em Antiguidade, Feudalismo e Capitalismo é virtualmente europeia. O restante da Eurásia ("Ásia") seguiu um curso diferente: com suas políticas despóticas , constituiu o "excepcionalismo asiático". Ou em termos contemporâneos, fracassou em alcançar a modernização. [...]

GOODY, Jack. O roubo da história. São Paulo: Contexto, 2008. p. 23-36.