"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 20 de julho de 2014

Prisioneiros em obras de arte

Visita de prisão, Theodor Leopold Weller

Nomeação de um prisioneiro com sua família, Vasily Petrovich Vereshchagin

Reféns, Jean-Paul Laurens

A condução das raparigas de alegria ao Salpêtrière, Étienne Jeaurat

Sansão aprisionado, Annibale Carracci

Casa de loucos, Francisco Goya

Vitória da fé, George Hare

Prisioneiros turcos, Nicolae Grigorescu

Rodada dos prisioneiros, Vincent van Gogh

O rapto das sabinas, Christoph Fesel

Cativos em Roma, Charles W. Bartlett

À espera de venda de escravos, Richmond, Virginia, Eyre Crowe

A escrava branca, Ernest Normand

Vendendo uma criança escrava [Um rico homem turco examina um menino nu, antes de comprá-lo], Vasily Vereshchagin

Cláudio e Isabella, William Holman Hunt

A prisioneira, Evelyn De Morgan

Cave canem, Jean-Léon Gérôme

Boyarina Morozova, Vasily Surikov

O rapto de Helena, Giovanni Francesco Romanelli

O condenado, Makovsky

Prisioneiros do front, Winslow Homer

As virgens cristãs sendo expostas ao povo, Félix Resurrección Hidalgo

Stella na prisão, François Marius Granet

O rapto de uma mulher herzegoveniana, Jaroslav Čermák

Oficiais alemães prestam homenagem aos prisioneiros franceses feridos, Édouard Detaille

Estupro das filhas de Leucipo, Peter Paul Rubens

Um detento na prisão, Heinrich Modersohn

Sultão Bayezid aprisionado por Timur, Stanisław Chlebowski

O prisioneiro de Chillon, Eugene Delacroix

Bandoleiro e cativa, Johann Georg Volmar

Criminosos, Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

O rapto das sabinas, Francisco Pradilla

Ricardo II supervisiona o massacre dos prisioneiros islâmicos, Sébastien Mamerot e Jean Colombe – século XV

A amarga corrente de ar da escravidão, Ernest Normand

O resgate, John Everett Millais

Aprisionada, Henry Justice Ford

São João Batista no cárcere, Victor Meirelles

Luisa Sanfelice no cárcere, Gioacchino Toma

Maria Antonieta na prisão, Oscar Rex

Nas correntes, Ernest Normand

A tortura de Cuauthémoc, Leandro Izaguirre

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A "pax romana"

Coreógrafos e atores. Mosaico romano. Casa do poeta trágico, Pompéia. 

A brilhante habilidade política de Augusto deu início à maior era romana. Nos duzentos anos seguintes o mundo mediterrâneo desfrutou as bênçãos da pax romana. O mundo antigo nunca vivera um período tão prolongado de paz, ordem, administração eficiente e prosperidade. Embora a Augusto se tivessem seguido governantes tanto eficientes quanto ineptos, as características essenciais da pax romana persistiram.

[...]

Os romanos chamaram a pax romana de "era da felicidade". Esse foi o período em que Roma cumpriu sua missão - a criação de um Estado mundial que proporcionou paz, segurança, civilização ordenada e o governo da lei. As legiões romanas defenderam as fronteiras dos rios Reno e Danúbio das incursões das tribos germânicas, contiveram os partos do Oriente e sufocaram os raros levantes que ocorreram. O sistema de adoção para a escolha de imperadores propiciou a Roma estabilidade interna e uma série de imperadores de excepcional capacidade. Esses imperadores não usaram a força militar desnecessariamente e lutaram por objetivos políticos sensatos. Os generais não combatiam de maneira imprudente, preferindo conter as baixas, evitar riscos e desencorajar os conflitos mediante a exibição de força.

O domínio construtivo. Foi construtivo o domínio de Roma. Eles construíram estradas, melhoraram portos, desbravaram florestas, drenaram pântanos, irrigaram desertos e cultivaram terras ociosas. Os aquedutos que fizeram levavam água fresca para grandes parcelas da população, e o sistema de esgoto eficaz melhorou a qualidade de vida. As mercadorias eram transportadas por estradas que os soldados romanos tornavam seguras e pelo mar Mediterrâneo, então livre de piratas. Circulava pelo Império uma grande variedade de mercadorias. Contribuía para o bem-estar do mundo mediterrâneo a moeda estável, não sujeita a depreciação.

Fundaram-se muitas cidades novas e as antigas tornaram-se maiores e mais ricas. Embora essas municipalidades houvessem perdido o poder de mover guerras e tivessem de se curvar à vontade dos imperadores, conservaram considerável liberdade de ação nos negócios locais. As tropas imperiais impediam as guerras civis tanto dentro das cidades como entre elas - dois pontos tradicionais dentro da vida urbana no mundo antigo. As municipalidades eram centros da civilização greco-romana, que se estendeu até os mais longínquos recantos do Mediterrâneo, dando continuidade a um processo iniciado na idade helenística. A cidadania, generosamente conferida, foi finalmente estendida a quase todos os homens livres, através de um decreto em 212 d.C.

Melhorias das condições dos escravos e das mulheres. Melhoraram também as condições daqueles que se encontravam na base da sociedade, os escravos. Na época de Augusto, podia-se estimar a quantidade de escravos em um quarto da população italiana. No entanto, esse número declinava à medida que Roma movia menos guerras de conquista. Além disso, durante o Império tornou-se comum a libertação de escravos. Os libertos tornavam-se cidadãos, com quase todos os direitos e privilégios dos demais: seus filhos não sofriam quaisquer discriminações jurídicas. Durante a República, os escravos haviam sido terrivelmente mal-tratados, muitas vezes eram mutilados, atirados às feras, crucificados ou queimados vivos. Vários imperadores promulgaram decretos protegendo-os contra senhores cruéis.

A posição da mulher melhorou pouco a pouco durante a República. A princípio, viviam sob a autoridade absoluta do marido. No tempo do Império, elas podiam ter bens e, se divorciadas, conservar o dote. Os pais já não podiam forçar as filhas a casarem contra a vontade. As mulheres podiam realizar negócios e dispor em testamento sem o consentimento dos maridos. Ao contrário das gregas, as romanas não ficavam reclusas em casa, mas podiam ir e vir à vontade. As mais ricas tinham mais oportunidade de educação que as mulheres da elite grega. A história do Império, na verdade toda a história romana, está cheia de mulheres talentosas e influentes: Cornélia, mãe de Tibério e Caio Graco, influenciou a política romana através de seus filhos. Lívia, a dinâmica mulher de Augusto, muitas vezes era consultada sobre importantes assuntos do governo; e, no século III, houve ocasiões em que mulheres controlaram o trono.

A comunidade mundial. Desde a Britânia até o deserto da Arábia, desde o Danúbio até as areias do Saara, quase 70 milhões de pessoas com diferentes línguas, costumes e histórias estavam ligadas pelo governo de Roma numa comunidade mundial. Ao contrário da República, quando eram notórias a corrupção e a exploração das províncias, os representantes do Império tinham um alto senso de respeitabilidade na preservação da paz, na instituição da justiça e na difusão da civilização romana.

Ao criar uma comunidade política estável e bem-organizada, com uma concepção ampla de cidadania, Roma resolveu os problemas causados pelas limitações da cidade-estado grega: guerras civis, guerras entre cidades e uma atitude provinciana que dividia os homens em gregos e não-gregos. Roma também fez frutificar um ideal da cidade-estado grega: a promoção e a proteção da vida civilizada. Ao construir uma comunidade mundial que rompeu as barreiras entre as nações, ao preservar e difundir a civilização greco-romana e desenvolver um sistema racional de direito que se ampliava a toda a humanidade, Roma concretizou a tendência ao universalismo e cosmopolitismo que surgira na idade helenística.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 104, 107-108.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Os marginalizados no Império brasileiro: mulheres, negros, índios e camadas populares

Família Pobre em Casa, Jean Baptiste Debret. A viúva desvalida, sua filha e a única escrava velha que restou da ruína da família, encontram-se num interior modesto. Esteiras e redes são os únicos móveis de descanso a vista. No segundo plano a cozinha, com as "três pedras que servem de fogão".

Se você está pensando que iremos estudar os bandidos, ladrões e criminosos em geral, no Império, enganou-se completamente!

O título acima refere-se aos indivíduos ou grupos sociais que viveram à margem do poder, afastados do direito de tomar decisões políticas.

Como hoje, os marginalizados eram os indivíduos pobres, fossem brancos, mestiços, índios ou negros, constituindo a maioria da sociedade brasileira. Contudo, não precisava ser pobre para não ter direito ao poder político (não esqueça que o voto era censitário): a discriminação não afetava apenas as classes dominadas, mas levava em conta, por exemplo, também a raça ou sexo. Isso mesmo! Havia o racismo contra os não-brancos e a segregação da mulher.

Mendiga, Almeida Junior

Saiba que a palavra segregação significa separação, discriminação.

Como a mulher, rica ou pobre, era segregada na sociedade brasileira do século XIX?

"A reclusão das mulheres, tradicional na família portuguesa, tornou-se muito mais rigorosa no Brasil pela escassez de mulheres brancas, dissolução dos costumes e dispersão geográfica da população [...]; sua função era dirigir a casa, principalmente a cozinha, e gerar filho [...] As mulheres brancas não saíam de dia, a não ser para ir à igreja; tinham de andar em fila, de olhos baixos."

Então? Você acha que a mulher, mesmo sendo branca, tinha alguma expressão política? Claro que não! A situação das mulheres nos dias de hoje de certa forma melhorou devido à luta que vem sendo travada a favor de uma sociedade igual para todos.

Se a mulher branca era tão marginalizada, pior ainda era a situação das mestiças, negras e índias. Os filhos dos senhores de terras, por exemplo, iniciavam seu aprendizado sexual com as escravas. As mulheres pobres muitas vezes eram levadas ao caminho da prostituição.

Mulher negra, Almeida Junior

Veja outro depoimento a respeito da vida das mulheres naquela época:

"As meninas não tinham adolescência; casavam-se muito cedo, a partir de 11 ou 12 anos, com homens muito mais idosos, e quase sempre rudes. Morriam, muitas, de parto. A incapacidade das meninas de amamentarem tornava obrigatória a ama-de-leite preta. Não eram raras as mulheres com 12 ou 15 filhos, sem contar os mortos."

Isso levava ao envelhecimento precoce, não só devido à quantidade de filhos, como também pela falta de qualquer exercício físico.

Observou como a mulher era dominada pelo homem, a quem servia de objeto reprodutor e de prazer sexual? Essa dominação social do homem sobre a mulher era a complementação de um poder político econômico restrito ao sexo masculino e negado às mulheres.

Caso você tenha esquecido, as mulheres não eram os únicos seres marginalizados na sociedade: lembre-se que índios e negros não tinham a mínima possibilidade de ascensão social, igualmente difícil aos mestiços.

Juridicamente, os escravos negros eram considerados como simples mercadorias e, como tal, poderiam ser propriedade de alguém. Até mesmo os sacerdotes, que, segundo a Teologia, defendiam que os negros escravos eram seres humanos, na prática, os tratavam como artigos que poderiam ser comprados ou vendidos.

"É sintomático nesse sentido fazer-se uma consulta aos livros de receitas e despesas dos conventos de então. Os escravos negros comprados ou vendidos figuram ao lado das compras e vendas de carne, peixe, sabão, farinha, cavalo e bois..."

Depois disso, resta alguma dúvida de que os escravos eram marginalizados?

E quanto aos índios?

Você deve saber dos conflitos entre índios e "civilizados". Os índios, hoje, lutam pela demarcação de suas terras, mas os interesses "superiores" da Civilização continuam a prevalecer: o resultado é a crescente redução das reservas dos índios. Esse problema é antigo, assim como a dizimação criminosa da população indígena.

A legislação indigenista no Segundo Reinado deu origem à atual visão do governo em relação ao índio: de um lado, "civilizados", de outro, "selvagens". A mentalidade paternalista das autoridades brasileiras considera que o problema do índio deve ser resolvido sem a participação dos principais interessados: os índios.

No Segundo Reinado, como nos dias atuais, sempre se achou uma brecha na legislação destinada a proteger o índio. Havia um "dispositivo da conveniência de remoção das aldeias de índios por razões econômicas." E quem decidia a conveniência ou não da remoção? O branco!

Outro dispositivo desagregador das comunidades indígenas era o que "permitia o recrutamento dos índios para as obras públicas." Essas, na maioria, eram realizadas por particulares, que escravizavam os índios durante o tempo que julgassem necessário.

Será que o índio participava das decisões políticas da sociedade? De jeito algum!

Hoje, a luta das populações indígenas continua, sobretudo, pelo direito fundamental de sobrevivência contra a agressão criminosa dos fazendeiros e das empresas nacionais e estrangeiras, agindo, em geral, com a vergonhosa complacência da maioria das autoridades.

Finalmente, englobando boa parte da população, encontrava-se a outra categoria dos marginalizados: os grupos socioeconômicos das camadas populares e a maior parcela dos setores intermediários.

Mendigo da Tabatingüera, Almeida Junior

Toda essa gente não tinha participação na direção política do Estado brasileiro, embora alguns grupos até desfrutassem de uma certa posição social e econômica confortável.

A regra geral era a alienação da sociedade: a minoria dirigente conscientemente afastava a maioria do poder de decisão. Essa alienação tornava-se mais fácil de ser aplicada por causa do elevado número de analfabetos.

Esse problema continua a existir nos dias atuais.

Por quê?

Porque há íntima relação entre educação e consciência política. Na medida em que você, como milhares de jovens brasileiros, começar a se educar, crescerá sua consciência da realidade brasileira.

Acontece que tal coisa assusta a muitos políticos!

Você acredita que estamos exagerando?

Saiba, então, que no Segundo Reinado "dentre 1.902.454 crianças livres, entre 6 e 15 anos, apenas 172.802 frequentavam as 5.267 escolas públicas subvencionadas e particulares" existentes no Império. Se você já tiver aprendido cálculos de proporção, verá que tais números correspondem a menos de um décimo do total!

"No Município Neutro (o atual Município do Rio de Janeiro), a frequência escolar era de 14.257 crianças em sua população."

Todos esses números referem-se aos anos de 1877 e 1888, quando diversos decretos-leis já haviam determinado reformas no ensino primário, secundário e superior.

As escolas existentes, no entanto, continuavam a preparar não para a vida, mas para as profissões liberais.

AQUINO, Rubim Santos Leão de; LISBOA, Ronaldo César. Fazendo a História: a Europa e as Américas do século XVIII ao início do século XX. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 174-177.