"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 26 de novembro de 2016

Os libertinos. Os povos exóticos e a religião natural (Parte 3)

O banquete do amor, Jean-Antoine Watteau

As descobertas geográficas forneciam novas armas. Os selvagens da América haviam permitido que Montaigne escarnecesse da razão, dos costumes da religião, dos povos cristãos. A China proporcionou os meios de uma operação idêntica aos libertinos do século XVII. La Mothe Le Vayer, em 1642, no seu tratado Da Virtude dos Pagãos, afirmava que se, de acordo com a Igreja, os filósofos pagãos que de fato viveram confortavelmente à lei natural, antes da lei de Moisés, puderam salvar-se, era mister admitir o mesmo em relação aos sábios das nações em cujo meio os apóstolos não pregaram o cristianismo. Ora, a pregação de Cristo não chegara à China. Entretanto, a religião chinesa é mais pura que a dos gregos, dos romanos ou dos egípcios, pois não recorre aos prodígios e, desde tempos imemoriais, os chineses adoraram um só Deus. Confúcio, o Sócrates da China, acreditava na existência de um Deus único e adotara como princípio o próprio princípio da lei natural: jamais fazer a outrem o que não gostaríamos que nos fizessem. Portanto, é possível a salvação de Confúcio e dos chineses. A ideia central era a da bondade da natureza que tende a destruir a crença no pecado original, na necessidade da Redenção através de Cristo, na necessidade da Graça, fundamentos do cristianismo.

Propagou-se também a ideia de que todos os povos da América, da Ásia, das terras austrais, não descendiam de Adão, que a Bíblia continha, pois, apenas a história de um povo, o povo judeu. A Bíblia não tinha o valor eminente que a Igreja lhe atribuía.

[...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 339-340. (História geral das civilizações, 9).

domingo, 20 de novembro de 2016

"Mais doce que o amor das mulheres"

Talvez a narração mais popular do Antigo Testamento seja a história de David e Golias, o triunfo do pequeno pastor sobre o aguerrido gigante filisteu que definiu a vitória de Israel na batalha de Terebinto. Segundo conta o Livro de Samuel, depois desta façanha, o rei Saul cumulou David de honras e convidou-o a residir no palácio. Ali, o heróico pastor e o filho primogénito do monarca estabeleceram uma íntima relação de adolescentes, que o autor bíblico anuncia sem pudor no título do capítulo 18 como "Amizade mais do que fraternal" entre David e Jónatas. E diz assim na Bíblia...

"Jónatas fez um pacto com David, porque o amava com toda a sua alma e tirou o manto que levava, e deu-o a David, assim como os seus arreios militares, o seu arco, a sua espada e o seu cinturão. David ia combater onde Saul o enviava e saía-se sempre bem." 
(1 Samuel 18: 4-5)

Os êxitos do novo capitão começaram a provocar os receios de Saul, que invejava os aplausos com que o povo aclamava David, o qual, além disso, se tinha relacionado sexualmente com o filho e brilhava em todas as batalhas como um autêntico protegido de Javé. Claro que nada era mais doloroso do que sentir-se postergado no favor do Deus de Israel. Claro que Jónatas não partilhava a opinião do pai e, sempre que podia, atirava-lhe à cara o seu ressentimento para com o belo e glorioso oficial. Porém, Saul devia ser um homem difícil e várias vezes chegou a ameaçar de morte David com a sua lança. Nessas ocasiões, o jovem tangia a harpa, imperturbável, e tocava doces melodias que acalmavam a fúria do monarca.

Saul chegou a convencer-se que David estava protegido por Javé e não se atrevia a intervir pessoalmente. Urdiu então o truque de oferecer-lhe em casamento a sua filha mais velha, Merob, para quem sendo genro do rei, pudesse comandar o exército de Israel. "Não lhe quero pôr as mãos", dizia segundo a Bíblia, "que o matem as dos Filisteus." Mas David, que pressentiu, respondeu-lhe humildemente: "Quem sou eu e o que é a minha vida ou a casa de meu pai, para que eu me torne genro do rei?" Se essa resposta provocou um suspiro de alívio no coração de Jónatas, foi porque não contava com a teimosia de seu pai. Merob acabou por se casar com outro, enquanto Saul voltava à carga oferecendo a David a mão da sua segunda filha, a princesa Micol, que, segundo parece, estava profundamente apaixonada pelo nosso herói. Então, este respondeu aos mensageiros do rei: "Parece-vos coisa fácil ser genro de rei? Eu não preciso de nada e tenho poucos bens", desculpava-se por não ter dote para oferecer à princesa. Mas também não teve em conta a persistência de Saul.

David com a cabeça de Golias e dois soldados, Valentin de Boulogne. Depois de derrotar o gigantesco Golias, o jovem David viveu um intenso romance com Jónatas, filho do rei Saul.

Sempre através de emissários, o rei fez saber a David que um herói como ele não precisava de outro dote além da prova do seu valor; por exemplo, os prepúcios de cem filisteus abatidos em combate. O texto bíblico conta assim a reacção de David: "Quando os servos disseram a David as palavras que Saul tinha dito, agradou-lhe aquela condição para ser genro do rei. E David saiu com os que estavam sob o seu comando e matou cem filisteus, tirou-lhes os prepúcios e entregou-os ao rei (1 Samuel, 18: 26-27). Não é explicado qual foi o destino do tão extravagante dote de Micol, mas o casamento desta com David não acalmou a paixão de Jónatas nem o ódio de seu pai pelo novo príncipe de Israel: "Temia-o Saul cada vez mais e toda a sua vida foi inimigo de David". Pouco depois, o monarca decidiu cortar o mal pela raiz e encarregar-se de uma vez por todas do seu genro, mas Jónatas convenceu-o a não o fazer, enquanto prevenia David, que se foi refugiar em casa de Samuel.

O resto do primeiro livro de Samuel é um enorme e animado relato das peripécias do jovem David, constantemente ameaçado e perseguido pelo seu temível sogro. Contando também sempre com a amizade "mais que fraterna" de Jónatas. Quando Saul o foi buscar a casa de Samuel em Naiote de Ramá, David foge e vai encontrar-se com o seu amigo:

"Que crime cometi eu contra o teu pai, para que me persiga até à morte?
- Não, não será assim, não morrerás. O meu pai esconder-me-ia isso? Se não me esconde nada, nem grande nem pequeno, tudo me dá sempre a saber. Por que haveria de me ocultar isto? Isso não é verdade.
- O teu pai sabe muito bem que me amas e deve ter dito: que Jónatas não fique a saber para não sofrer, mas, por Deus e pela tua vida, estou a um passo da morte." 
(Samuel, 20: 1-3)

Jónatas mostrou-se convencido com o argumento de David e, com medo de perder o seu amado, estabeleceu com ele o pacto de o manter sempre informado das intenções de seu pai. No dia seguinte, cumpriu pela primeira vez esse compromisso, salvando David de uma armadilha organizada por Saul e despediu-se do amigo com estas palavras: "Vai em paz, já que jurámos um ao outro, em nome de Javém que ele estará entre ti e mim e entre a minha e a tua descendência para sempre."

Pouco depois, David visitou o sumo sacerdote Ajimelec, no templo de Nob, a quem pediu comida e armas para se defender. Ajimelec ofereceu-lhe alojamento e entregou-lhe a espada que Golias tinha utilizado no célebre combate do vale de Terebinto. Avisaram-nos então que o rei se aproximava com as suas hostes, mas David conseguiu escapar a tempo. Saul consolou-se da sua frustração degolando o sumo sacerdote e todos os servidores do templo.

Além de excluir David da corte, Saul obrigou Micol a casar-se com outro homem, um tal Palti de Galim, de quem não existem quaisquer outros registros. É provável que Jónatas tivesse ficado feliz com aquela separação forçada, porque dadas as circunstâncias, já há muito tempo que não o via. Porém, David rapidamente esqueceu aquela perda e casou com duas mulheres em vez de uma: a bela Abigail de Nabal e Ajinoim de Jezrael. O fugitivo e os seus homens vagueavam por todo o território de Israel e de Judá, escapando ao seu infatigável perseguidor. Por duas vezes, David teve a vida de Saul nas suas mãos e de ambas as vezes impediu que os seus homens matassem o rei, por este ser "o ungido de Deus" (talvez tenha tido em conta que se tratava do pai do seu amigo). Mas os Filisteus não se preocupavam com essas coisas e, depois de derrotarem os Hebreus na batalha do monte Gelboé, executaram Jónatas e os seus dois irmãos. Quando se dispunham a fazer o mesmo com Saul, este matou-se, lançando-se sobre a lâmina da sua espada.

Quando soube da morte de Saul e de Jónatas, David cantou uma bela elegia em homenagem aos ilustres defuntos, cujos últimos versos dizem assim:

"Como sofro por ti, Jónatas, meu irmão!
Como eu te queria bem!
Para mim, o teu amor era muito doce,
Mais do que o amor das mulheres!" 
(2 Samuel: 26)

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 80-84.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A Bíblia

Epístolas paulinas, século III

"Mas o Senhor está assentado perpetuamente, já preparou o seu tribunal para julgar. Ele mesmo julgará o mundo com a justiça; julgará os povos com retidão. O Senhor será também um alto refúgio para o oprimido, um alto refúgio em tempos de angústia. E em ti confiarão os que conhecem o teu nome; porque tu, Senhor, nunca desamparaste os que te buscam".
 (Salmos, 9: 8, 9, 10)

[...]


A palavra documento vem do latim, a língua falada pelos antigos romanos. Eles chamavam de documentum o objeto que transmitia uma informação ou que ensinava alguma coisa. Hoje, consideramos documento tudo o que é registrado pelo ser humano por escrito ou por meio de sons ou imagens. Assim, um texto, uma escultura, uma música, uma fotografia, um filme, um objeto de uso doméstico, uma ferramenta são documentos. Eles revelam os costumes, os valores e os acontecimentos da história do ser humano.

A Bíblia é um dos documentos escritos mais antigos que existe. E o mais divulgado e conhecido pela humanidade ocidental, pois é a base da religião judaica e da cristã. Mas, como todo documento histórico, precisa ser investigado. A parte mais antiga da Bíblia chama-se Velho Testamento. Nele encontramos a história da criação do mundo e da humanidade por Deus (no Gênesis), a saída dos hebreus do Egito e sua longa viagem até a Palestina (no Êxodo), a história dos reis hebreus (em Reis) e outras tantas.

[...]

Os textos do Velho Testamento não foram escritos como um único livro e nem em uma única época. Eles são uma coletânea de textos de diversos autores que viveram e escreveram em diferentes momentos entre os séculos X e II a.C. Não se conhecem as datas exatas, pois nenhum dos livros traz o ano em que foi escrito e poucos trazem o nome de seus autores.

Durante séculos, a Bíblia não tinha o formato que hoje conhecemos, com todos os seus livros reunidos e encadernados. Seus textos eram copiados em rolos de papiro, pergaminho ou couro, cada um com um trecho do texto original. Para que coubesse todo o texto, era precisa emendar o papiro ou o pergaminho. Alguns chegavam a ficar com seis a oito metros de comprimento. Eram guardados enrolados e seu transporte devia ser muito incômodo.

[...]

No espaço de oitocentos anos de sua criação, os textos originais do Velho Testamento sofreram perdas, alterações, acréscimos e supressões. Passaram pelas mãos de muitos autores, copistas e tradutores. Essas modificações eram feitas de acordo com o público ao qual o texto se dirigia. A Bíblia é um documento religioso e repleto de exemplos morais e de normas de conduta. Muitas vezes, para reforçar essas lições, o copista ou o tradutor retocava a linguagem original. Por exemplo, foi assim que apareceu em uma versão grega a palavra pecado, que não existia em nenhum texto hebraico.

O Velho Testamento foi escrito originalmente, em sua maior parte, em hebraico antigo e alguns poucos trechos em aramaico. Depois foi traduzido para o grego e daí para as línguas atuais. Nesse caminho de tantas traduções, será que o tradutor usou as palavras corretas? Observe estes exemplos:

"E Deus criou uma criatura terrestre".
"E Deus criou o ser humano".
"E Deus criou o homem".

As três frases trazem mensagens diferentes. Tanto os judeus quanto os católicos e os protestantes estão sempre procurando estudar a Bíblia e descobrir cada vez mais o sentido de sua mensagem.

[...]

A Bíblia registrou relatos feitos oralmente e passados de geração para geração durante séculos. Sua linguagem está recheada de palavras da vida cotidiana, com todos os seus exageros, imprecisões e simbolismos. Assim, por exemplo, quando descreve o dilúvio, o autor afirma que ele foi "universal". Na linguagem de hoje, universal significa todo o cosmo, isto é, o nosso planeta, os astros e as galáxias. Seria difícil imaginar uma enchente nessas proporções. Então, a Bíblia mentiu? Não. Na visão dos homens daquela época, o lugar onde eles viviam era o seu universo: o restante, eles não conheciam e, portanto, não existia para eles.

As palavras da Bíblia são empregadas com sentido aproximado, muitas vezes simbólico. No dia-a-dia nós também usamos muitas metáforas e hipérboles. Por exemplo, quando você fala "todo o mundo estava na festa de fulano", ninguém vai entender literalmente que "todos os habitantes do planeta estavam na festa..." (que festa, hein!). Para nós, é claro que "todo o mundo" significa "muita gente". Agora, imagine essa linguagem lida daqui a alguns séculos. Como ela será compreendida?

Por isso, os textos bíblicos precisam ser interpretados, para serem bem compreendidos. E isso ocorre com qualquer documento escrito. É necessário analisá-lo de acordo com a linguagem da época, com o público ao qual era destinado e com a situação histórica em que ele foi produzido.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 130-3.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Os arameus

Atrás da faixa litorânea do território fenício, a Síria, encruzilhada de rotas, é também uma encruzilhada de povos. Muitos aí se instalaram e dominaram alternadamente, deixando no local elementos étnicos que se fundiram pouco a pouco num todo mesclado, deixando também vestígios arqueológicos, que os eruditos modernos se esforçam por classificar. [...]


Estela de funeral de Si' Gabbor, sacerdote do Deus da lua. Basalto, início do século VII a.C., encontrado em Neirab (Síria). Tem uma inscrição em aramaico.

A vida política. Também eram semitas, saídos não se sabe de que região do deserto sírio-árabe. Nômades organizados em tribos, tinham vagueado até a Alta Mesopotâmia, em Harrã, onde os encontramos, de início, muito densos e estáveis [...]. Em seguida, a partir do século XIV a.C., espalharam-se pela Síria, onde formaram grupos sedentários. Não expulsaram e jamais fizeram desaparecer inteiramente as antigas populações. Jamais criaram um Estado único mas, ao contrário, uma pluralidade de reinos, por vezes em guerra uns contra os outros. O mais importante foi, segundo parece, o do grande oásis situado ao pé do Antilíbano, Damasco, o reino dos Benhadads, equivalente hebraico do aramaico Bar-hadad, isto é, “filho de Haddad”, e de Hazael, isto é, “El observa”. [...] O apogeu dos arameus verifica-se entre os séculos XI e X a.C.: barravam então, aos assírios, as rotas do Noroeste e do Ocidente. Mas, a partir do século X, os reis assírios empenharam-se em lutas contra os arameus, que tiveram de enfrentar ao mesmo tempo os hebreus. No fim do século VIII findara a sua independência para sempre, depois dessa data, os arameus se tornaram súditos de Estados estrangeiros.

Cada um de seus reinos possuía sua cidade-capital, seu rei, sua dinastia e também seus usurpadores. A um ou a outro, os assírios impuseram um tributo, uma homenagem, tentando transformar em semivassalo e em semifuncionário um pequeno rei que aproveitava a primeira oportunidade para declarar-se independente. [...]


Estela funerária de basalto com uma inscrição aramaica, ca. século VII a.C., Neirab (Síria)

O papel comercial. [...] A posição geográfica da Alta Mesopotâmia e da Síria, destinadas ao tráfico entre a costa fenícia e a Ásia Menor, de um lado, e as regiões do Eufrates inferior e do Tigre, de outro, permitiu-lhes desenvolver intensa atividade como intermediários. Foram eles, em terra, numa parte do Oriente Próximo, o que os fenícios foram no mar. Pouco a pouco, a agricultura e a indústria síria, aperfeiçoando suas técnicas, adquiriram grande renome e contribuíram para a fortuna de Damasco. [...] o deslocamento dos arameus antes de sua fixação como sedentários, as deportações dos reis assírios, a emigração voluntária de seus comerciantes nos vastos impérios que lhes haviam imposto o seu domínio, todas essas causas conduziram a disseminação em numerosas cidades, por vezes bem distantes, de grupos entregues aos negócios, grandes ou pequenos. Aumentando incessantemente, essa ubiqüidade lhes foi proveitosa, mesmo sob o domínio grego e, no tempo do Império Romano, quase por toda parte no mundo antigo, os comerciantes por excelência.

O aramaico, língua do Oriente. O resultado mais imediato disso foi a expansão de sua língua, cujos múltiplos dialetos se difundiram num aramaico comum. Em vez de escrever em caracteres cuneiformes, adaptaram ao seu idioma um alfabeto derivado do fenício. A comodidade conseqüente desse arranjo e sua dispersão levaram os reis assírios a contratar, para seus scriptoria, escribas arameus que escreviam em papiros. Avançando ainda mais, os Aquemênidas adotaram o aramaico como idioma administrativo de seu império. A atividade comercial dos arameus realizou o resto, e sua língua ganhou à custa de muitas outras. Seus progressos explicam a morte dos velhos idiomas mesopotâmicos. O uso do hebraico perdeu-se, mesmo na Palestina: a Bíblia ainda conserva passagens em aramaico [...]; Jesus e seus discípulos não pregaram em hebraico, mas em aramaico. O siríaco, que foi durante muito tempo o idioma dos cristãos da Síria e da Mesopotâmia, derivava do aramaico. Apenas a conquista árabe, no século VII d.C., deteve sua difusão, provocando o seu posterior desaparecimento. Mas, então, o aramaico já desempenhava enorme papel em todo o Oriente Próximo, exceto na Ásia Menor e no Egito: papel comercial, intelectual e mais ainda – como instrumento de unificação -, papel moral e político. 


Baal. Acrópole de Ugarit. 

A religião. No tocante a essa época antiga, a arte dos arameus é negligenciável. E não fosse o futuro que alguns de seus cultos desfrutarão no Império Romano, a religião também não ofereceria maior interesse.

Tratava-se, de fato, de uma religião sem originalidade, muito misturada, com um fundo sobretudo cananeu, mesclado de influências mitânicas, hititas e fenícias: tais influências estrangeiras eram tanto mais facilmente assimiláveis, quanto os cultos por eles refletidos tiveram, por sua vez, origem em cultos cananeus. Assim, El é mencionado em diversos pontos, principalmente, o deus da tempestade, Hadad – em Damasco, Rammon, isto é, “o tonante” – era reconhecido quase sempre sob o nome de Baal; da mesma forma, é em Astarte que encontramos o protótipo da maioria das divindades femininas. Os deuses mesopotâmicos, que haviam penetrado em grande número, confundiam-se frequentemente com deuses cananeus; entretanto, o Baal de Harrã permaneceu firmemente o deus-lua Sin que, provindo de Ur, na Caldéia, se instalara nessa cidade desde a mais alta Antiguidade.

A Síria, em matéria religiosa, também foi uma terra de confluência. Mais tarde, por volta do início da era cristã, havendo já recebido bastante de outras religiões, transformou ou, melhor, fundiu muito do que recebera, sobretudo por sincretismo com a teologia solar. Além disso, exportou muitos elementos religiosos por intermédio de seus comerciantes, presentes em toda parte, dos soldados que forneceu a Roma e daqueles que, nascidos em outras regiões, passaram tempos em seu território. A Dea syria Atargátis, os Baals de Doliché, Heliópolis e Emesa, partiram de solo sírio para ganhar a Europa: Atargátis já se firmara amplamente em Delos no início do século I a.C.

Nesse tempo em que Roma dominava o mundo, ninguém mais se preocupava, e desde há muito, com os reis ou com a civilização da Assíria. Jamais, no entanto, a ação efetiva dos arameus se exerceu sobre tão amplo domínio. E, sem dúvida alguma, essa influência se originara da perda de sua independência política, quando Sargão II reprimira as últimas rebeliões de Hamat e Damasco; a História oferece mais de um exemplo desse aparente paradoxo.


AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 66-70. (História Geral das Civilizações, v. 2)


NOTA: O texto "Os arameus" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 5 de abril de 2014

Os anjos de Sodoma

Diz o dicionário que a sodomia é o “coito anal, sobretudo entre homens, ou seja, o acto praticado por um sodomita, que também se define como “pederasta” ou como “natural da antiga cidade de Sodoma”. De acordo com o Gênesis bíblico, Sodoma e a sua gêmea Gomorra erguiam-se no fértil vale do Jordão, rodeadas de fontes e jardins onde se envolviam os sodomitas fazendo das suas. Alguém contou tudo a Javé, que o comentou a Abraão: “O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu muito e o seu pecado agravou-se ao extremo; vou ver se as suas acções correspondem ou não ao clamor que chegou até mim contra eles.” (Gênesis, 18: 20-21)

O tremendo Deus dos Hebreus deve ter-se enfurecido de tal modo ao confirmar aqueles clamores, que tomou a decisão irrevogável de arrasar Sodoma com todos os seus descarados habitantes. Abraão pede-lhe que não paguem os justos pelos pecadores e, durante uma negociação sem tréguas, chegam a acordo para salvar o único homem justo, Lot, que por acaso era sobrinho de Abraão. O passo seguinte, Gênesis 19, tem início com a chegada a Sodoma de dois anjos de Javé, que vão avisar Lot do que se avizinha e lhe dizem para fazer os preparativos necessários. Chega a hora do crepúsculo e, como Lot já estava radicado há algum tempo em Sodoma, convida-os a pernoitar em sua casa. Oferece-lhes uma bacia para lavarem os pés e prepara as omnipresentes fogaças de pão ázimo para o jantar. No momento em que se vão deitar, apresentam-se à porta da casa os homens de Sodoma, “moços e velhos, todos sem excepção”. Entre eles e Lot estabelece-se o seguinte diálogo:

“... Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Trá-los para que os conheçamos.
- Por favor, meus irmãos, não façais semelhante maldade. Vede, tenho duas filhas virgens; vo-las darei; fazei com elas o que vos apetecer; mas a estes homens não façais nada, porque se acolheram sob o meu teto.
- Cala-te! Vem agora um estrangeiro dar-nos ordens? Vamos tratar-te pior do que a eles.” (Gênesis 19, 5-9).

Lot luta violentamente com os sodomitas para salvar a sua honra e, neste momento, os seus hóspedes puxam-no para dentro. Depois, cegam todos os homens de Sodoma, “que já não conseguiram encontrar a porta”. Fica claro quais eram as intenções que o autor lhes atribui relativamente aos anjos do senhor e ao seu corajoso protector. O verbo “conhecer” é usado com freqüência nas Escrituras para aludir ao acto sexual, como, por exemplo, na história de Adão e Eva. Neste caso, torna-se evidente esse significado, quando Lot propõe entregar as suas duas filhas “que não conheceram homem” em vez de entregar os seus hóspedes para que os sodomitas “os conheçam”.

A destruição de Sodoma e Gomorra, John Martin

O final da história já é conhecido: Javé proibiu Lot e a sua família de olharem para trás durante a sua fuga e destruiu com uma chuva de fogo e enxofre as duas cidades, todo o vale do Jordão e todos os seres vivos que nele moravam. A mulher de Lot foi a única que se voltou para ver aquele desastre e foi transformada numa estátua de sal. O facto de ser ela a cair em tentação e não Lot ou o seu genro poderia ser uma demonstração de misoginia dos autores hebraicos, que, por outro lado, impregna todo o Antigo Testamento. Também não se diz explicitamente que Sodoma havia sido castigada por praticar a homossexualidade e pode até entender-se que o que provocou a fúria de Javé foi um desvio religioso para o paganismo (talvez o mais grave pecado bíblico) ou a egoísta falta de hospitalidade dos seus habitantes, que se negavam a partilhar aquele éden terreno e maltratavam os forasteiros. O livro bíblico da Sabedoria, que os gregos atribuíram a Salomão, explica no último capítulo a razão do castigo dos sodomitas: “Os que tinham praticado tão detestável falta de hospitalidade. Porque não quiseram receber os estrangeiros que chegavam [...] E sobre o castigo então recebido, tiveram outro final por terem acolhido com tão má-vontade os estrangeiros” (Sabedoria, 19: 13-14). Em qualquer caso, a história de Sodoma não só passou ao dicionário para definir uma conduta sexual, mas também foi e é utilizada pela homofobia religiosa para provar a censura divina à sua prática.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 74-76.

NOTA: O texto "Os anjos de Sodoma" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Moisés, o egípcio

A filha do faraó encontra o bebê Moisés, Konstantin Flavitsky

Nenhuma dúvida: Moisés carregava um nome egípcio. Em sua forma hebraica, Moshè, ou grega, Môsès, ele provinha do original Masi, abreviação corrente na época raméssida de nomes próprios tipicamente egípcios, tais como Ri'amassi (Rá nasceu), ou Harmassi (Hórus nasceu). Portanto, o componente do nome do deus desapareceu pura e simplesmente. Um contramestre chamado Moisés tornou-se conhecido por haver organizado a primeira greve da história na aldeia de Deir el-Medineh, perto do célebre Vale dos Reis. Os israelitas aproximaram esse nome nilótico do verbo hebraico mascha (tirar). A similitude de pronúncia é puramente acidental, mas isso bastou aos redatores da Bíblia para dar origem à etimologia popular "tirado das águas" para o nome do patriarca.

"Os autores bíblicos que relatam o nascimento de Moisés conhecem, aliás, muito bem a etimologia egípcia de seu nome. Durante todo o relato do Êxodo, ele é continuamente designado como 'a criança', o que corresponde em hebraico à raiz egípcia m-s-y, 'gerado por' ou 'filho de'. É a filha do faraó que chama assim, ligando-o a uma etimologia hebraica, por sinal incorreta", menciona Thomas Römer, em seu livro Moise, lui que Yahvé a connu face à face (Moisés, aquele que Yahvé conheceu face a face). Mas esse nome seria o bastante para fazer dele um egípcio?

Não há certeza. Isso porque, sob um nome tipicamente egípcio, podia-se encontrar um estrangeiro. Os faraós do Novo Império "importaram", pela força e pela violência, uma abundante mão de obra vinda de Canaã, necessária para construir seus monumentos. Os textos comprovam que essa população, móvel e inquieta em certas ocasiões, também podia atingir o topo do poder. Esses cananeus adotavam então os patronímicos e os costumes dos egípcios - hoje em dia, se falaria em integração. Foi o caso da família de Moisés? E o de José, filho de Jacó? Vendido por seus irmãos no Egito, lançado à prisão, José se tornaria vizir, o segundo personagem mais poderoso do Estado. "A história do estabelecimento de José no Egito, de sua queda simbolizava pela prisão, depois de sua elevação e, finalmente, de seu triunfo, inscreve-se muito bem, como gerações de sábios puderam mostrar, nesse Egito do Novo Império e particularmente da XVIII dinastia", constata Alain Zivie. Nem mesmo seus irmãos o reconheceram. Aos olhos deles, José era egípcio! Sua integração foi um êxito total, como foi talvez a de um homem de origem semita denominado Moisés.

Hoje em dia, está na moda escrever que Moisés era de origem egípcia e que ele foi influenciado pelo pensamento de Akhenaton. Alguns vão ainda mais longe ao fazer do "faraó herético" e de Moisés uma única e mesma pessoa. A essa hipótese, podemos objetar que o resultado de escavações empreendidas na Palestina mostrou que Israel não nasceu de um êxodo do Egito, mas da transformação de uma parte da população cananeia, que começou no final do segundo milênio antes da nossa era, portanto muito longe do Nilo.

Como imaginar um Moisés egípcio quando se comparam o judaísmo e a religião egípcia, ainda que "revista e corrigida" por Akhenaton? O laço entre essas duas personagens não implica que Aton e Yahvé estejam ligados. É surpreendente que alguns possam confundir o Deus de Moisés com uma divindade egípcia, mesmo que fosse Akhenaton. Quando este último reza a Aton, é a uma manifestação do Sol, figurado sob a forma do disco, que ele se dirige. Akhenaton tem portanto necessidade de recorrer a uma imagem de seu deus, a imagem de um disco com os raios terminados em mãos.

Ora, o segundo mandamento divino, contido no Decálogo, condena qualquer associação de um elemento do universo, qualquer que seja esse elemento, com Yahvé. Acrescentemos que, na atualidade, os especialistas - sejam eles egiptólogos, linguistas, arqueólogos ou exegetas bíblicos - descobriram que a revelação esteve longe de ser repentina, mas foi o fruto de um longo caminho aberto no século VIII e completado no século V antes de nossa era. Ao passo que a "revelação atoniana" foi imediata: não há a menor necessidade de seguir seu desenvolvimento desde a época das pirâmides até a vinda ao mundo de Akhenaton. Hoje em dia, os pesquisadores voltam os olhos para essa população semítica instalada no Egito.

Assim, "para o Novo Império, contam-se não menos de 60 estrangeiros que indubitavelmente ocuparam cargos muito elevados no clero e na administração. Para apreciar bem esse número, é preciso levar em conta, por um lado, as lacunas de nossa documentação e, por outro, o fato de que muitos funcionários de origem estrangeira não são mais reconhecíveis enquanto tais por haverem adotado nomes egípcios. Em outras palavras, tem-se todo o espaço para acreditar que essa cifra esteja bem abaixo da realidade", escreveu Pascal Vernus em sua obra Les étrangers dans la civilisation faraonique (Os estrangeiros na civilização faraônica).

Entre os altos dignitários do poder faraônico cabe mencionar os copeiros reais, encarregados do serviço de bebidas na mesa real. que eram com frequência asiáticos e semitas. Esses homens estavam muito próximos do faraó, que lhes confiava responsabilidades importantes, como as grandes construções do reino.

Em Saqquarah, as escavações revelaram um vizir de Amenófis III e de Amenófis IV chamado Aper-El, um nome semítico, pois contém o nome do deus El (retomado, por exemplo, em Isra-el). Era uma "criança do kep", título honorífico concedido àqueles que eram educados na corte real, ao lado dos príncipes e dos filhos dos reis vassalos do faraó. Antes de ser vizir, Aper-El era o general dos carros de guerra, função que ele transmitia a um de seus filhos. Ele recebeu também o título prestigioso de "pai divino" e estava entre os confidentes do rei. Mais ainda, tornou-se "responsável pela nutrição das crianças reais", atuando como preceptor dos príncipes e princesas da corte.

Sob os faraós raméssidas (de 1200 a 1050 antes da nossa era), muitos estrangeiros alcançaram posições de confiança. Alguns interessam muito aos estudiosos da Bíblia, que desenvolvem pesquisas sobre as origens de Moisés. Eles estudam documentos faraônicos que focalizam diversos grandes personagens cujo nome comporta o afixo "Moisés".

Vamos nos deter inicialmente num certo Ben-Ozen, um nome que pode ser traduzido por "Filho da audição" ou por "Filho da obediência". Ele era originado da localidade de Bashan, na Transjordânia. Sua relação com Moisés? Ele trazia um nome egípcio, Ramsesemperrê, construído sobre a raiz Mosès, como Moisés. Conta-se que ele teria servido como mediador num conflito que opôs os shasu (beduínos) sujeitos à prestação de corveias (trabalho gratuito) a funcionários egípcios. Pensa-se no famoso episódio bíblico em que Moisés assume a defesa de um escravo hebreu (Êxodo 2, 11-15). Infelizmente a documentação não registra nenhuma revolta dos shasu nem a fuga deles sob a condução de um alto dignitário egípcio. Assim, Ben-Ozen não responde às condições desejadas para especular que ele seria a fonte do Moisés bíblico. Procuremos outro.

Um novo postulante ao posto de Moisés "histórico" é o diretor do Tesouro egípcio, um homem denominado Bay (ou Beya). "Abrigando-se por trás do frágil faraó Siptah (1206-1188 antes de nossa era), um enfermo, e da regente - depois faraó - Tauseret, ele puxava, na sombra, os cordões do poder durante o período de instabilidade que se seguiu ao reinado de Seti II. Atribuindo-se poderes exorbitantes, ele procurou colocar o país sob seu controle desenvolvendo o projeto de pagar estipêndios a potentados asiáticos para reforçar o próprio domínio.

Seu empreendimento teria sido bem-sucedido não fosse a intervenção do enérgico Sethnakht, fundador da XXª dinastia. "Apesar desse insucesso, o caso de Bay permanece exemplar. Ele mostra como estrangeiros podiam conquistar para si uma posição eminente, ao conseguir conquistar a estima e a confiança do faraó por suas qualidades. Evidentemente, não se pode deixar de pensar na carreira de José no Egito", enfatiza Pascal Vernus. Mas, por que não em Moisés? Bay tem um duplo patronímico, do qual um é o egípcio Ramsès-Kha-em-neterou, "Ramsés é a manifestação dos deuses" que traz em si a raiz Mosès.

Chegou a haver suspeitas de que o manipulador Bay estivesse na origem da morte prematura de Siptah, que subiu ao trono aos 10 anos de idade e manteve nele apenas cinco, morrendo de maneira misteriosa. A morte de Siptah permitiu à rainha Tauseret tornar-se faraó, com o apoio do chanceler Bay, que na ocasião se transformou em fazedor de faraós. Mas essa ascensão feminina ao trono desencadeou uma oposição armada. Para dominá-la, Tauseret e Bay recrutaram, segundo os textos, um exército de cananeus e se apoderaram do ouro e da prata dos egípcios. Segundo Thomas Römer, esse episódio poderia evocar a tradição bíblica da "espoliação dos egípcios": "Os filhos de Israel fizeram como Moisés havia dito, e pediram aos egípcios objetos de prata, objetos de ouro e roupas" (Êxodo 12, 35).

Finalmente, o chefe da revolta triunfou e foi à caça de Bay e Tauseret. Acompanhados de alguns fiéis, eles conseguiram fugir. Mas, se Moisés escapou de seus perseguidores, que se afogaram no "mar dos Juncos", Bay foi executado e seu nome apagado onde quer que se encontrasse.

Parece difícil tomar por modelo de Moisés o chanceler Bay. "O Egito estava caótico: cada um era em si mesmo sua própria lei. Pois não tinha havido governante durante numerosos anos: o Egito estava dividido entre os notáveis e os administradores das aldeias, e cada um degolava o seu próximo, tanto os ricos quando os pobres. Depois veio uma outra linhagem durante os anos vazios. Iarsou (Bay), um sírio, ali estava associado como notável. Como administrador, ele colocou o país inteiro sob o seu controle: ele e seus cúmplices se organizaram para roubar as pessoas. E os deuses eram submetidos ao mesmo tratamento dos homens: as oferendas não eram mais consagradas nos santuários", relata o papiro Harris.

"O nome de Iarsou, que se pode compreender em egípcio como 'aquele que se fez por si mesmo', seria um modo cheio de desprezo de designar Bay e ao mesmo tempo lhe recusar a existência póstuma concedida pelo simples fato de pronunciar o verdadeiro nome de alguém. Esse procedimento é corrente nos textos políticos. os anos 'vazios' designam o tempo em que o poder é considerado vago, por ser ocupado por uma linhagem usurpadora", observa o egiptólogo Nicolas Grimal. É difícil imaginar que um homem cujo nome se apagou dos monumentos que ele construiu e cujo patronímico se trocou tenha deixado rastros na memória dos homens, até atingir as lembranças dos autores da Bíblia. Bay sai de cena. Então, pensa-se em um faraó...

Dissemos antes que a época que se abre com a morte de Ramsés II (em 1235 antes de nossa era) foi agitada. Ela chegou a ver um usurpador, Amenmeses, tomar o poder. Como os dois altos dignitários evocados acima, ele tem o nome construído sobre Mosès e poderia ter inspirado os redatores da Bíblia, já que teria sido - de acordo com o egiptólogo Rolf Krauss - um vice-rei da Núbia que partiu daquela região distante para conquistar o poder faraônico. Ora, sabe-se que certas lendas judias extrabíblicas conduzem Moisés à Núbia. Além disso, a própria Bíblia dá a Moisés uma mulher etíope (na Antiguidade, chamava-se a Etiópia de Núbia).

Amenmeses tomou o poder ao fim de uma guerra civil. Depois de ser derrubado do trono, ninguém sabe o que aconteceu com ele. Um destino que marcou a memória do Egito. Sobre as memórias hebraicas, é incerto. Diante de tudo isso, a identidade do Moisés histórico está longe de parar de intrigar os pesquisadores.

Richard Lebeau. Moisés, o egípcio. In: Revista História Viva. Grandes Temas, nº 46, p. 10-15.

NOTA: O texto "Moisés, o egípcio" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Reformas e dissidências

Em 1521, produziu-se a ruptura de Lutero com Roma. O ponto fundamental de sua reivindicação, compartilhado pelas três grandes correntes reformadoras “respeitáveis” (luteranos, calvinistas e anglicanos), era que se devia considerar a Bíblia como a autoridade máxima em matéria de fé (por isso, era necessário traduzi-la nas línguas vulgares, com o objetivo de colocá-la  ao alcance dos fiéis), sem deixar que sua mensagem se mediatizasse com tradições de qualquer tipo. Consideravam, ainda, que a graça de Deus era a única fonte de salvação, sem que as penitências, procissões e indulgências (que consistiam na “compra” do favor divino), nem as missas para os defuntos tivessem qualquer tipo de validade. Calvino iria mais além ao negar que o homem pudesse ganhar a salvação com suas obras e afirmar que Deus já havia eleito previamente quem desejava salvar: que os homens estavam predestinados.

O Muro dos Reformadores. Da esquerda à direita: Guilherme Farel, Calvino, Teodoro de Beza e John Knox

Além destas correntes da “reforma dos príncipes” – como foi denominada pela dependência estabelecida entre reformadores e poderes públicos – houve, entretanto, outra “reforma comunal”, que propunha a autonomia da comunidade local, ao menos nas questões religiosas. A fé era considerada nestes casos como uma questão pessoal, que não podia ser colocada sob o controle de uma Igreja ou de um Estado, e os fiéis exigiam o direito de nomear e destituir seus pastores. Os anabatistas, chamados assim porque consideravam que o batismo devia ser recebido – ou tornar a ser recebido – na idade adulta, com a plena consciência, liam, no evangelho, o prognóstico de uma sociedade mais fraternal e igualitária, propugnando ideias de renovação social que chegariam, inclusive, a uma proposta de comunhão de bens, como a que se quis estabelecer no “reino dos santos” de Münster, primeiramente, ou nas comunidades que tentaram reconstruir a nova Jerusalém na Moravia. Todos estes grupos foram ferozmente perseguidos tanto por católicos quanto pelas correntes reformadas “respeitáveis”, assustados, uns e outros, pela ameaça radical que representavam. O conformismo político e social das correntes da “reforma dos príncipes” levou à reação da chamada “segunda reforma”, que expressava a reação dos grupos que queriam ir mais além. O florescimento de seitas radicais – quakers, ranters, partidários de quinta monarquia, etc. – durante a revolução inglesa do século XVII seria seguido, no século XVIII e princípios do XIX, pela dos diversos grupos dissidentes que fundaram igrejas dos pobres contra a Igreja oficial do Estado e dos ricos. O mais importante destes grupos, que recolheu elementos da herança cultural dos anabatistas da Moravia, foi o metodismo de John Wesley; porém, na Inglaterra, e principalmente nos Estados Unidos, apareceu uma série de grupos no século XIX que compartiam projetos comunitários com uma visão profética que anunciava a iminente “segunda vinda” do Messias.

A Igreja de Roma, por sua parte, realizou sua própria reforma no Concílio de Trento (1545-1563), convocado para “assegurar a integridade da religião cristã, para a reforma dos costumes, a concórdia entre os príncipes e os povos cristãos, e para lutar contra as empresas dos infiéis”. A fixação das regras, iniciada com a redação de um catecismo que compreendia e explicava as “verdades da fé”, seria seguida por uma campanha de reconquista interior que se desenvolveu especialmente no século XVIII, com um número considerável de missões rurais que tentavam conseguir o enquadramento das massas camponesas numa ordem regular de vida controlada pela paróquia.

Ao mesmo tempo que retrocedia a causa da Reforma na Europa, a Igreja católica empreendia a conquista religiosa da América, onde, aliada ao poder político da monarquia espanhola, protagonizou a “conversão” forçada dos povos indígenas, num processo que foi além do terreno das crenças, já que implicou na transformação completa da vida dos novos cristãos dentro do marco político colonial, submetidos a uma autoridade que controlava a vida e a consciência com os mesmos métodos repressivos. A expansão fora da Europa permite explicar que o catolicismo romano tenha, hoje, maior número de adeptos que a soma das demais denominadas religiões cristãs.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 306-309.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Cristianismo

O cristianismo antigo tem duas etapas históricas claramente distintas. Houve uma primeira fase em que se difundiu pelas comunidades judaicas da Ásia Menor e do Egito e que “incluía uma grande variedade de vozes, um extraordinário leque de pontos de vista”. Na Síria e no Egito, convivia com seitas judias diversas, antes da fase de predomínio do gnosticismo, em que a doutrina se impregnou de traços do pensamento oriental e do paganismo greco-romano. Era lógico que as diferenças doutrinais não fossem vistas como decisivas a grupos que compartiam a crença de que o fim do mundo estava próximo. Este componente escatológico, herdado da tradição apocalíptica que florescia na Palestina nos tempos de Cristo, foi um elemento fundamental do cristianismo ao redor do ano 200 quando, não tendo chegado o fim do mundo, os cristãos voltaram à vida normal. Desde este momento, as posturas extremas sobre o ascetismo conservaram-se apenas entre os grupos mais extremados do cristianismo oriental. Na cristandade ortodoxa, a norma da castidade absoluta ficou para os “pais do deserto” – os ascetas egípcios ou os eremitas da Síria ou Capadócia -, de quem os monges a tomaram e, só gradualmente e muito mais tarde, generalizou-se no clero secular.

Folio Papiro 46 contendo 2 Corintians, 11:33-12:9 (uma das primeiras coleções do século III das epístolas paulinas)

ενσαργανηεχαλασθηνδιατουτειχουσ
καιεξεφυγοντασχειρασαυτουκαυχασ
θαιδειουσυμφερονμ[ε]νελευσομαιδε
εισοπτασιασκαιαποκαλυψεισκυοιδα
ανθρωπονενχωπροετωνδεκατεσσαρων
θιτεενσωματιουκοιδαειτεεκτοστουσω
ματοσουκοιδαοθσοιδεναρπαγεντατον
τοιουτονεωστριτουουρανουκαιοιδατον
τοιουτονανθρωπονειτεενσωματιειτε
χωριστουσωματοσουκοιδαοθσοιδενοτι
ηρπαγηεισυονπαραδεισονκαιηκουσεν
αρρηταρηματααουκεξονανθρωπωλα
λησαιυπερτουτοιουτουκαυχησομαιυπερ
δεεμαυτουουδενκαυχησομαιειμηενταις
ασθενειαισεανγαρθελωκαυχησομαι
ουκεσομαιαφρωναληθειανγαρερω
φειδομαιδεμητισεμελογισηταιυπερ
οβλεπειμεηακουειτιεξεμουκαιτη
υπερβολητωναποκαλυψεωνιναμη
υπεραιρωμαιεδοθημοισκολοψτησαρκι
αγγελοσσαταναιναμεκολαφιζηινα[μη]
υπεραιρωμαιυπερτουτουτρις[τονκυριον]
παρεκαλεσαινααποστηα[πεμουκαιει]
ρηκενμοιαρκεισοιηχα[ρισμουηγαρ]
δυναμισ[ενασθενειατελειταιηδισταουν]

A segunda etapa da história do cristianismo antigo é a de sua associação com o poder político do Império Romano, que o transformou em um “governo eclesiástico paralelo ao secular”, que com ele colaborava no cumprimento dos decretos imperiais. Seu caráter plural e comunitário desapareceu. O cristianismo transformou-se na Cristandade, que via a si mesmo como uma comunidade unitária e hierarquizada aspirava incluir todos os homens, estendendo seu controle a todas suas atividades.

Desde o primeiro momento, o imperador Constantino deu um sentido político a sua aliança com o cristianismo. A Igreja seria um dos apoios essenciais do império cristão que sobreviveria no Oriente até o século XV. No Ocidente, onde a estrutura imperial ruiu muito antes, a Igreja tentou restabelecê-la com a coroação de Carlos Magno em Roma ou com o papado imperial, que levaria os pontífices romanos a reunir o poder político e a função sacerdotal na sua pessoa, como herdeiros do império.

Nesta nova situação, criada pelo reconhecimento político do cristianismo, não podia permanecer a convivência pacífica das diversas correntes; era necessário eliminar os dissidentes: hereges e cismáticos. Os primeiros dissidentes perseguidos, os donatistas do norte da África, não discordavam na doutrina, mas se opunham à aliança do cristianismo com o poder político; consideravam-se os autênticos herdeiros da Igreja dos mártires e condenavam os que se aliavam ao império, valendo-se da força deste para impor-se nas divergências entre os cristãos. Alguns fiéis optaram por soluções pessoais que não ameaçavam a Igreja hierárquica e eram aceitos por esta, como os amacoretas, que se retiraram para o deserto, ou os monges, que se encerravam em mosteiros para levar vida em comum.

A “oficialização” do cristianismo não deve ser confundida com a cristianização do império, que se produziu a longo prazo e em uma série de etapas. O século IV foi um período de convivência pacífica em que a velha religião continuou a abrir templos, receber subsídios e regular a passagem do tempo com suas festas. Após a fugaz restauração do paganismo por Juliano, a situação começou a ser modificar com Teodósio I, que apoiou o estabelecimento da unidade religiosa através da força: fechou os templos pagãos e condenou os sacrifícios de animais como atos de alta traição.

Apesar das mediadas repressivas, entretanto, os sacrifícios continuariam a ser feitos de forma clandestina. Seriam necessárias perseguições e campanhas militares para acabar com as últimas comunidades pagãs, o que parece não ter acontecido até o século IX (os pagãos tinham, agora, mártires como Hypatia, uma professora de filosofia que foi apedrejada em Alexandria pelos seguidores do bispo). Frente a esta situação, os últimos filósofos pagãos começaram a fugir para a Mesopotâmia, onde estabeleceram uma comunidade que conservou a cultura grega e a transmitiu ao mundo islâmico.

A igreja cristã de Roma não era única. Havia, para começar, a do Oriente, quer dizer, a que seguiu associada ao império (que chamamos de bizantino) e que, depois, esteve associada aos novos poderes que os substituíram: o sultão turco ou os soberanos de cada país nas diversas igrejas nacionais. Houve também uma cristandade asiática muito importante que, no século XIII, se estendia desde o Egito até o mar da China, com núcleos relevantes na Mesopotâmia, Armênia, Cáucaso e Síria, e com conventos na Ásia Central, entre os turcos e mongóis.

A maior das igrejas cristãs asiáticas foi a nestoriana. Sua origem remonta à Igreja persa, que se tornou independente do Ocidente em 424, rompendo seus laços com Bizâncio. Seu chefe, o catholicos, residia em Ctesifonte, porém a atividade missioneira pela rota das caravanas criou comunidades cristãs desde Java até Azerbaijão. Em 1009, os kerait, o maior e mais culto dos povos mongóis da Ásia central, converteram-se ao cristianismo nestoriano. Mais tarde, seriam dominados por Genghis Khan, que respeitava as religiões dos povos que integravam seu império, não faltando, entre seus sucessores, quem mostrasse simpatia pelos cristãos.

Os mongóis foram, durante muito tempo, a grande esperança do cristianismo do Ocidente. Em 1258, organizaram uma cruzada que reconquistou Alepo e Damasco, onde as tropas vencedoras entraram em 1260 com um general nestoriano mongol na liderança, acompanhado de um príncipe armênio e de um cruzado ocidental. Porém, não encontraram apoio nem nos cruzados de Jerusalém nem no papa de Roma, que preferia a aniquilação dos hereges ao triunfo de um cristianismo plural (de forma semelhante, os cristãos do Ocidente permaneceram, mais tarde, indiferentes à tomada de Constantinopla pelos turcos).

Enquanto que se produzia o grande movimento de fechamento e de intolerância que, de 950 a 1250, converteu a Europa numa sociedade repressora (a perseguição aos judeus, a segregação dos grupos minoritários, o estabelecimento da Inquisição e o uso da tortura judicial), iniciava-se uma grande etapa de florescimento das heresias, que culminou nos séculos XII e XIII, durando até o XV. Era uma conseqüência da crise da igreja e da vontade de reforma que haviam surgido entre o clero e entre os fiéis.

Um dos pontos centrais de oposição à hierarquia da Igreja era a pretensão de impor, ao conjunto da sociedade, o monopólio da interpretação religiosa por parte dos clérigos ordenados, reduzindo o fiel à posição de receptor passivo de uma religião que lhe era transmitida exclusivamente pela via oral. Em seu afã por recuperar a pureza do cristianismo primitivo, os críticos da Igreja retomariam diretamente os textos, especialmente o das escrituras. Por mais limitada que fosse a alfabetização, parece claro que a heresia a havia estimulado com as traduções de textos bíblicos às línguas “vulgares”, como as que sabemos que foram feitas em Languedoc, na França ou na Catalunha, no século XIII.

A história destes movimentos chegou-nos na versão dos seus repressores, que ressaltaram os aspectos doutrinais e os ritos que divergiam dos “ortodoxos”, acrescentando-lhes uma carga de maldade diabólica, ao mesmo tempo que omitiam as queixas dos dissidentes contra a Igreja oficial.

Este é, por exemplo, o caso dos cátaros, que têm sua origem no movimento dos bogomilos da Bulgária, onde se podem encontrar elementos do dualismo oriental – a crença de que o mundo está dominado, ao mesmo tempo, por um princípio do bem e um princípio do mal -, mas que foram perseguidos, principalmente, porque propugnavam um retorno da Igreja à pureza e à pobreza evangélicas e porque davam apoio à resistência dos camponeses contra o feudalismo. O catarismo do Languedoc, que influiu fortemente na Catalunha, defendia uma vida simples de trabalho e abrigava crenças mais próximas do patrimônio da cultura popular do que da teologia romana. Oferecia, aos fiéis, sermões e orações na língua vulgar e, o que era mais importante, o exemplo de uma Igreja que não exigia dízimos, nem excomungava, nem matava como fazia a de Roma e que não estava comprometida com os senhores feudais que oprimiam os camponeses. Representava, por tudo isso, uma ameaça à ordem estabelecida, justificando uma cruzada e repressão feroz.

Todos estes movimentos religiosos, que se relacionaram e se entrelaçaram sutilmente até chegar a guerra dos camponeses alemães do começo do século XVI, estão estreitamente associados a levantes sociais que torna-se difícil separá-los. O movimento inglês dos lolardos de Wycliffe coincide no tempo, e em alguns de seus protagonistas, com a grande rebelião de Wat Tyler (a revolta de 1381 que propunha liquidar com o feudalismo). Apesar das perseguições que sofreram, grupos de clérigos lolardos continuaram mantendo sua fé em segredo, sobrevivendo por mais de um século até acabar fundindo-se com o protestantismo. Eram, na sua maioria, manifestações de uma religião de artesãos, pregada diretamente nos círculos que liam a Bíblia traduzida em língua vulgar, como ocorria na Itália e na França com a dos valdenses, um movimento que pode ser qualificado de religião dos laicos.

Os escritos de Wycliffe tiveram relação com o aparecimento, na Boêmia, do movimento dos hussitas, de cujas ramificações, uma, a dos taboritas, fazia propostas radicais de transformação social. Enquanto organizavam-se seis cruzadas contra os hussitas, começavam, na Alemanha, movimentos que tinham um duplo componente religioso e social e que culminaram, em 1524, com o início da guerra dos camponeses e o movimento, duplo e paralelo, da Reforma e da Contrarreforma, que não apenas tendiam à renovação do cristianismo, mas à consolidação da ordem social.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 302-306.

sábado, 15 de junho de 2013

Aurora do século XX: Os sinos das igrejas serão silenciados?

Ruínas da Mesquita do Califa Haken no Cairo, 
Prosper Marihat

Igrejas, mesquitas, templos, pagodes e sinagogas tinham importância vital para a vida cotidiana, ainda que ocasionalmente estivessem sob ataque. Praticamente a cada segundo, em algum lugar, queimavam-se incensos, acendiam-se velas ou tocavam-se sinos. Ao meio-dia ou antes do culto divino, o toque dos sinos era uma das melodias mais difundidas pela Europa - mais do que é hoje. Os ocidentais que chegavam ao Oriente achavam que os sinos dos templos, com seu toque lento e suave, criavam uma atmosfera diferente daquela que existia em suas terras. Um dos mais conhecidos poemas da época, Mandalay, em que Rudyard Kipling fala da cidade de mesmo nome, descreve o som do velho pagode birmanês: "Pois o vento sopra nas palmeiras, e os sinos do templo anunciam." Mesmo os mais austeros protestantes, que evitavam decididamente os sinos e as velas, seguiam rituais, inclusive o de agradecer a Deus antes de cada refeição.

Em praticamente todos os países ocidentais, os adultos se casavam e as crianças eram batizadas - recebendo quase sempre um nome cristão - em igrejas. Na época não se imaginava que as novelas viriam a competir com a Bíblia como fonte de inspiração para a escolha dos nomes dos bebês. Os enterros - a cremação era rara na Europa - quase sempre eram acompanhados pela leitura da Bíblia ou de um livro de orações. Os cemitérios possuíam áreas separadas para que as pessoas fossem enterradas conforme a religião. Na morte, os que comungavam da mesma crença ficavam lado a lado.

O budismo e o cristianismo, religiões mundiais com maior número de adeptos, continuavam a pregar que a vida na Terra era imperfeita. A maior parte das pessoas acreditava, profunda ou superficialmente, que a morte não era o fim da vida e que a vida após a morte poderia ser, para muitos, infinitamente mais gratificante. "A crença em alguma forma de imortalidade humana é quase universal", escreveu Alfred Garvie, estudioso britânico de religiões, encarregado de escrever o verbete imortalidade para uma importante enciclopédia. Naquela época, a crença no inferno e no paraíso - embora a primeira estivesse em declínio - era vista como um dos pilares da civilização ocidental.

No início do século, o cristianismo parecia mais ávido do que o Islã por espalhar a sua mensagem - este se encontrava politicamente enfraquecido e os cristãos ocupavam a maioria das regiões islâmicas. Os Países Baixos controlavam Java e Sumatra; a Grã-Bretanha dominava as áreas muçulmanas da Índia e o estados malaios; e os cristãos russos detinham o poder nas regiões islâmicas das planícies e montanhas da Ásia Central, com exceção do Afeganistão. No norte da África, as regiões islâmicas eram, em sua maioria, colônias da França, da Grã-Bretanha ou da Espanha. Os muçulmanos mais ardorosos sentiam-se um tanto humilhados por verem sua pátria dominada pelos cristãos, o domingo ser estabelecido como dia oficial de veneração e bebidas alcoólicas serem vendidas livremente. O Império Otomano, com base em Constantinopla, permanecia como o único defensor poderoso do Islã, dominando boa parte da Ásia Menor, a Península Arábica, um pedaço modesto do norte da África e os Balcãs. A Primeira Guerra Mundial despedaçaria esse império.

Milhares de congregações cristãs da América do Norte, da Europa, da Nova Zelândia e de outros lugares financiavam pelotões de missionários - mulheres e homens - que partiam para outras terras com o objetivo de instalar, sob um governo colonial, igrejas e, talvez, um hospital e uma escola. A conversão podia atingir uma ilha inteira ou toda uma região, mas nas populosas China e Índia os convertidos, ainda que numerosos, não passavam de uma pequena parcela. [...]

As religiões mais importantes tiveram de enfrentar inimigos poderosos. Um deles foi a ciência, quase uma religião rival, capaz de empreender os próprios milagres. Alguns teólogos, usando as então mais recentes habilidades linguísticas, arqueológicas e científicas, questionavam a correção literal da Bíblia, inclusive a criação do mundo no prazo de uma semana. Muitos cristãos mais instruídos sentiam a fé vacilar. Queriam continuar crendo, mas seu intelecto dizia não. [...]

Os papas deram pouca atenção às novas bandeiras que proclamavam as virtudes da ciência, do socialismo e do livre debate teológico, e a opinião desses líderes religiosos continuou a ter bastante peso em questões internacionais. Em tempos de paz, o papa Leão XIII era provavelmente a pessoa mais influente do mundo. Quando, porém, uma guerra envolvia grandes potências, qualquer peça poderosa de artilharia influía mais do que ele, pois os países católicos tinham deixado de ser dominantes. Três grandes potências econômicas - os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Alemanha - abrigavam um número maior de protestantes do que de católicos.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 18-21.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A viagem das religiões e dos saberes

Cultura maia. Calcário com traços de tinta. Ca. 785 A.D.

Durante milhares de anos, a escrita foi apenas conhecida por um pequeno número de homens nas cidades-estados e nos impérios do Médio Oriente, no Egipto, na Índia e na China.

Depois, o facto de aprenderem a escrever mudou a maneira de pensar e de compreender o mundo. Os que tinham ideias novas puderam dá-las a conhecer, não apenas aos que lhes estavam próximos, mas, graças aos rolos ou aos livros manuscritos, às pessoas que poderiam estar mais afastadas. Sobretudo, graças à escrita, os seus conhecimentos e maneiras de ver puderam ser transmitidos àqueles que viveram depois deles e passaram de uma geração a outra.

Então, apareceram novas religiões e algumas espalharam-se por todo o mundo. Do mesmo modo, nasceram novos saberes, como a ciência e a filosofia. A poesia, até aí apenas oral e cantada, começou a ser escrita, tal como peças de teatro, narrativas e histórias. Aparecera finalmente o que hoje chamamos de literatura.

As religiões das tribos e dos grupos de homens sem escrita tinham pontos em comum. Para essas religiões muito antigas, o mundo era animado por forças misteriosas. O mundo de baixo, aquele em que se vivia, era penetrado pela acção de um outro mundo, o dos deuses, dos génios e dos demónios. Esse outro mundo era também o mundo dos antepassados, o dos "totens" e do clã. A morte e a vida misturavam-se e penetravam-se uma à outra. As potências divinas estavam presentes na natureza, nas nascentes, nas montanhas e nas árvores através das suas raízes que penetravam na terra...

[Feiticeiros, adivinhos e videntes...] O grupo reconhecia que certos homens tinham o poder de comunicar com essas forças divinas. Tratava-se dos adivinhos, dos videntes e dos feiticeiros. Entre os celtas, os druidas eram adivinhos e videntes. Entre os mongóis, ou em certas tribos de índios da América, o xamã era não só um adivinho mas também um curandeiro, um médico. Os gregos antigos tinham os seus magos que eram igualmente poetas e adivinhos. Os videntes falavam dos tempos antigos, das origens do grupo, e transmitiam os seus segredos àqueles que achavam dignos de os substituir.

Em muitas religiões antigas, havia o hábito de se fazer "sacrifícios" aos deuses. Durante certas festividades, matavam-se e queimavam-se animais. O fogo, o fumo e os odores estabeleciam uma relação mágica entre o mundo dos deuses, o dos vivos e dos mortos. [...]

[Os textos de Homero popularizaram os antigos deuses gregos] A escrita desempenhou um papel importante no que respeita às crenças dos povos e modificou religiões antigas, como a religião dos gregos.

Os primeiros helenos que chegaram à Grécia veneravam os deuses particulares das suas tribos. Os poetas, os aedos, acompanhados por um instrumento de música, a lira, cantavam e recitavam poemas e hinos sobre os deuses. Quando a escrita alfabética foi introduzida na Grécia, esses poemas foram recolhidos e escritos, formando um conjunto de "cantos": A Ilíada e A Odisseia. Os gregos chamaram então Homero ao homem que os tinha escrito sem nunca saberem bem quem era realmente esse poeta. Talvez que vários aedos tivessem composto esses poemas.

Esses poemas relatam a guerra dos aqueus (os helenos da Grécia) contra Tróia, cidade grega da Ásia Menor, e o regresso cheio de aventuras de um grego, Ulisses, à sua ilha de Ítaca. Os doze deuses dos gregos apareciam aí como seres com figuras e temperamentos humanos. [...]

Outros poetas descreveram o modo como a terra, o céu e o mar foram criados.

A Ilíada e A Odisseia foram os manuais básicos de todos os alunos gregos que então andavam na escola. Depois da conquista romana, os jovens romanos das grandes famílias tinham uma educação "grega". [...]

[Na Índia, os textos sagrados modificaram a antiga religião dos arianos] Tal como os invasores helenos na Grécia, os invasores arianos tinham trazido com eles os seus cultos e os seus deuses. Divinizavam a floresta, as árvores, o sol, o fogo...

A partir dessas crenças, foram redigidos textos na antiga língua dos arianos, o sânscrito. Estes foram coligidos sob o título de Vedas. Com base nesses livros sagrados, uma mesma religião, que os europeus chamaram de hinduísmo, espalhou-se lentamente ao longo dos séculos por toda a Índia. [...]

Os hinduístas têm toda uma série de deuses que variam segundo as regiões, mas têm como base uma mesma crença. O mundo no seu conjunto é, para eles, animado por uma força invisível, o brahman, e cada ser humano faz parte dessa força. Depois da morte, a alma viaja indefinidamente para outros seres vivos, homens ou animais, até se dissolver no brahman.

[Um só Deus, três religiões] Para o judaísmo, para o cristianismo e para o islamismo, a palavra de Deus é transmitida através de um livro santo. Sem a Bíblia não teria havido religião judaica nem cristã nem muçulmana. E o islamismo, a religião dos muçulmanos, é inseparável de um outro livro, o Corão, que reconhece as grandes personagens da Bíblia, Abraão, Moisés e Jesus.

Quer para uns quer para outros, Deus falou a homens privilegiados e as suas palavras foram em seguida transmitidas através de um Livro. Essas três religiões são, deste modo, inseparáveis da escrita que nos conta o modo como Deus, um deus único, invisível e eterno, se fez conhecer ou se "revelou" aos homens.

A ideia de que Deus é invisível, mas que está presente na história do homem através dos seus "eleitos", ou seja, que transmite a sua "palavra" a pessoas escolhidas por elem estabelece uma diferença em relação a outras religiões.

Para os judeus, tal como para os cristãos e para os muçulmanos, o primeiro homem escolhido por Deus para essa Revelação foi Abraão. Esse homem pertencia a um clã nómada, o dos hebreus, que circulava pela Mesopotâmia cerca de 1750 a.C. Mas o desenvolvimento dessa Revelação não é o mesmo para as três religiões.

Os judeus são os descendentes de Abraão, do seu filho Isaac e do seu neto Jacob, cognonimado Israel. Formam assim o povo de Israel testemunhando a aliança de Deus com os homens.

A história desse povo é contada nos cinco primeiros livros da Bíblia, para os judeus a Torah [...]. 

Na Bíblia, os Profetas de Israel anunciavam a vinda de um Salvador, o Messias.

Na Palestina, no tempo do Império Romano, um judeu, Jesus, pôs-se a pregar e a ensinar. Declarava-se enviado de Deus para curar os doentes e salvar os pecadores, ou seja, os que tinham agido mal. Era seguido por uma multidão de mulheres e homens judeus. Mas os sacerdotes do templo de Jerusalém e os seus escribas pensavam que se tratava de um agitador perigoso. Prenderam-no e entregaram-no ao governador romano para que ele fosse condenado à morte. Foi pregado numa cruz entre dois ladrões. Depois da morte de Jesus, alguns dos seus discípulos afirmaram que ele tinha ressuscitado de entre os mortos e que era o Messias, em grego, o "Cristo", anunciado pelos Profetas. Eram os primeiros cristãos.

Os Apóstolos, todos judeus e discípulos de Jesus anunciaram a Boa Nova, o Evangelho da Salvação dos homens. Os novos crentes agrupavam-se para formarem uma comunidade, uma Igreja [...].

[...] Os Apóstolos redigiram em grego alguns testemunhos sobre a vida de Jesus, os Evangelhos. e Cartas ou Epístolas. A Igreja cristã chamou a esses textos de "Novo Testamento" [...].

Durante algum tempo, os imperadores romanos não fizeram diferença entre cristãos e judeus e começaram a persegui-los.

Depois da destruição do templo de Jerusalém pelo imperador Tito, em 70 d.C., os judeus revoltaram-se. Pouco a pouco, o destino dos judeus e dos cristãos separou-se. Os judeus dispersaram-se fora da Palestina. [...]

O cristianismo espalhou-se, primeiramente entre os pobres e os escravos. Pouco a pouco trouxe a si as grandes famílias do Império Romano. A liberdade de ser cristão acabou por ser reconhecida em 313 pelo imperador Constantino. Em seguida, o cristianismo foi proclamado religião oficial do império.

Os não-cristãos tornaram-se suspeitos e certos bispos começaram a acusar os judeus de terem condenado Jesus à morte.

Para os muçulmanos, o Corão é o último dos livros revelados e o único perfeito.

O Islão, que em árabe quer dizer "submissão a Deus por amor a Ele", é a religião ensinada por Moamede (Maomé). Este apresentou-se como o último dos profetas depois de Abraão, Moisés, os profetas judeus e Jesus. Com ele, dizia-se, a Revelação, que tinha começado com Abraão, estava terminada.

Moamede tinha nascido em 570 d.C. num grande centro de caravanas da Arábia, em Meca. Os nómadas beduínos misturavam-se com os cidadãos. Encontravam-se aí também judeus e cristãos. Moamede ouviu o Anjo Gabriel que lhe comunicava mensagens de Deus. Mas, perseguido pelas pessoas da sua cidade, foi com alguns dos seus companheiros para Medina.

Era em 622, e essa data, Hijra, a Hégira, a "migração", marca o começo da era muçulmana.

Em Medina os clãs e as tribos estavam em luta. Moamede impôs a sua autoridade. Até à sua morte em 632, continuou a transmitir as mensagens de Alá, o Deus único, e ditou algumas regras para restabelecer a ordem em Medina e em toda a Arábia conquistada sob a sua direcção e convertida ao islamismo.

[...] da Espanha até à Índia, os califas conquistaram um imenso império em menos de um século [...].

[...] os muçulmanos ficaram presos à ideia de uma unidade que repousava sobre os cinco "pilares" do Islão: a crença em Deus e no seu profeta, a oração quotidiana, o jejum anual do ramadão, a esmola aos pobres, e se possível, ao menos uma vez na vida, a peregrinação a Meca.

[Como foram escritos a Bíblia e o Corão] Na Bíblia encontramos os traços da poesia das antigas tribos nómadas de antes e depois de Abraão. O Dilúvio já tinha sido contado nas lendas da Mesopotâmia, o país de onde vinham os hebreus. Os textos da Torah foram redigidos de um modo muito complicado quando as tribos de Israel se fixaram em Canaã (a Palestina). Houve vários redactores, e o trabalho durou vários séculos. Moisés não foi quem escreveu os "Dez Mandamentos".

Jesus, cuja língua era o aramaico [...] lia em hebraico. Mas também nunca escreveu nada, salvo com o seu dedo na areia, uma única vez. O Novo Testamento foi redigido pelos Apóstolos depois da morte de Jesus.

Maomé contava as revelações do Anjo Gabriel acerca de Deus, Alá, aos seus discípulos. Estes anotavam esta informação em folhas de palma, em pedaços de cerâmica ou de osso. O Corão, redigido em árabe e dividido em capítulos ou "suratas", é o conjunto dessas "recitações". O Livro foi redigido após a morte do Profeta.

Deste modo, nunca saberemos, verdadeiramente, o que disseram Moisés, Jesus ou Maomé pois não possuímos nenhum texto escrito directamente por eles. Mas os Livros que comunicam as suas mensagens transformaram a história dos homens afirmando que Deus falava através deles. Milhões de homens e mulheres acreditaram e ainda hoje acreditam.

[Uma ideia nova: compreender o mundo sem os deuses] O céu, o sol, as estrelas, a mudança dos dias e das noites há muito eram um mistério para os homens. Eles explicavam tudo isso através da religião. A primeira ciência, a Astronomia, nasceu da observação dos astros. Onde as pessoas conheciam a escrita, estas observações podiam ser anotadas e transmitidas a outras pessoas. Nas cidades-estados do Médio Oriente, tal como na América central, encontrávamos personagens junto dos reis que eram ao mesmo tempo sacerdotes e astrónomos. Talvez descendessem de antigos feiticeiros ou xamãs. Para eles a religião e o conhecimento do mundo não se podiam conceber como coisas separadas.

Na Grécia, na China, na Índia, houve homens que tentaram reflectir sobre o mundo e sobre eles mesmos sem o auxílio da religião. Foram, por isso mesmo, os inventores de conhecimentos novos, aquilo a que chamamos a ciência e a filosofia.

É evidente que esses pensadores chineses, gregos e indianos não se conheciam. Mas, e é estranho, alguns dos seus achados, em tudo inseparáveis da escrita, ocorreram em momentos muito próximos da história do homem que, no entanto, era já tão longa.

Hoje em dia, algumas pessoas são "cientistas" e outras "filósofos". Mas, em tempos, os pensadores eram ao mesmo tempo filósofos, físicos e matemáticos. Ou seja, eles reflectiam ao mesmo tempo sobre o mundo, sobre a natureza [...] e sobre a maneira como o homem se deverá comportar na vida para ser um bom conhecedor [...].

Entre 600 e 300 a.C., grandes pensadores, letrados e "sábios" viveram em todos os continentes onde a escrita era já antiga. Deste modo, os seus pensamentos puderam ser transmitidos até aos nossos dias.

* Os primeiros físicos e os primeiros filósofos gregos da Ásia Menor reflectiram sobre o movimento da vida e sobre a origem do mundo;
* O matemático greco-italiano Pitágoras afirmou que os números e a aritmética estavam na base de todas as coisas;
* Sidarta Gautama, o Buda, ensinou na Índia uma filosofia da "sabedoria" sem deuses;
* Os Olmecas no México tinham elaborado um calendário solar;
* Na China, o mestre Kong, mais tarde chamado Confúcio, trouxe-nos regras práticas sobre a vida e sobre a moral [...];
* Na Grécia, Sócrates, um "sábio", e os filósofos atenienses Platão e Aristóteles foram pensadores que influenciaram bastante os países europeus, dado que ainda falamos deles e ainda os lemos hoje em dia;
* Na China, os astrónomos puderam descobrir que o ano tinha 365 dias e um quarto, e filósofos taoístas propuseram a busca de uma verdade em si mesma. Segundo estes, é necessário procurar o equilíbrio e a calma em relação com o Tao, o movimento secreto da natureza.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 103, 105-114, 117-119.