"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Vida política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vida política. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Império Bizantino e sua cultura (Parte 1): Política, economia e sociedade

A embaixada de João, o gramático em 829, entre o imperador bizantino Teófilo (à direita) e o califa Abássida Al-Ma'mun. Séc. XII-XIII.  Artista desconhecido. 

"Tratava-se de um Estado multirracial, que aceitava como cidadão todo aquele que falasse grego e seguisse o cristianismo ortodoxo".(FRANCO JR., Hilário; FILHO, Ruy de Oliveira Andrade. Atlas História Geral. São Paulo: Scipione, 1994. p. 18)


- A fundação do Império Bizantino. No século IV Constantino fundou uma nova capital para o Império Romano, no local da antiga colônia grega de Bizâncio. Quando se desintegrou a metade ocidental do Império, Bizâncio (ou Constantinopla como a cidade passou a ser comumente chamada) sobreviveu como capital de um poderoso estado que incluía as províncias dos Césares no Oriente Próximo. Aos poucos esse estado veio a ser conhecido como o Império Bizantino, embora não fosse antes do século VI, claramente reconhecida a existência de uma civilização bizantina. [...]

- A cultura bizantina. Embora a história bizantina tenha abrangido um período equivalente ao da Idade Média, o padrão cultural era bem diferente ao que dominava na Europa Ocidental. A civilização bizantina possuía um caráter muito mais pronunciadamente oriental. Não só Constantinopla entestava com o Oriente, mas também grande parte dos territórios do Império se localizava fora da Europa. Os mais importantes dentre eles eram: a Síria, a Ásia Menor, a Palestina e o Egito. Além disso, elementos gregos e helenísticos entraram na formação da cultura bizantina em porção maior do que aconteceu na Europa Ocidental. A língua predominante do estado oriental era o grego, ao mesmo tempo que se caracterizavam como profundamente helenísticas as tradições literárias, artísticas e científicas. Por último, o cristianismo do Império Bizantino diferia do da Europa Latina por ser mais místico, abstrato e pessimista, e por estar mais completamente sujeito ao controle político.

- As nacionalidades do Império Bizantino. A população dos territórios sob o governo bizantino compreendia um grande número de nacionalidades. A maioria dos habitantes eram gregos e orientais helenizados: sírios, judeus, armênios, egípcios e persas. Além disso, as partes europeias do Império incluíam numerosos bárbaros, especialmente eslavos e mongóis. Havia, também, alguns germanos, mas em geral os imperadores de Constantinopla conseguiram desviar as invasões germânicas para o Ocidente. Por outro lado, foi-lhes muito mais difícil obstar aos avanços dos eslavos e dos mongóis. A pátria original dos eslavos [...] provavelmente ficava no nordeste dos Montes Carpatos, sobretudo no que hoje constitui a região sudoeste da Rússia. Sendo um pacífico povo agrícola, raramente recorriam à invasão armada, mas aos poucos, desde que surgia uma oportunidade, expandiam-se em territórios pouco habitados. Não somente dirigiam-se para os vastos territórios despovoados da Rússia Central mas também ocuparam muitas regiões abandonadas pelos germanos e, daí, aos poucos, se infiltraram através das fronteiras do Império Oriental. No século VII formavam o mais numeroso povo de toda a península balcânica e de toda a Europa a leste dos germanos. Os habitantes mongólicos da Europa incluíam os búlgaros e os ávaros, que chegaram à Europa vindos das estepes da região que forma hoje a Rússia Asiática. Ambos esses povos eram pastoris, dotados de grande energia e dos hábitos guerreiros peculiares a esse modo de existência. Depois de penetrarem no vale do Danúbio, muitos deles forçaram a passagem para o território bizantino. Foi a fusão de alguns desses povos mongóis com os eslavos que deu nascimento às nações modernas dos búlgaros, dos sérvios e outros.

[...]

- O governo do Império Bizantino. O governo do Império Bizantino assemelhava-se ao de Roma depois de Diocleciano, exceto quanto a ser ainda mais despótico e teocrático. O imperador era soberano absoluto, com poder ilimitado sobre todos os setores da vida nacional. Seus súditos não somente se prosternavam diante dele, mas ao fazer-lhe uma petição usualmente diziam-se seus escravos. Além disso, a dignidade espiritual do imperador não era de modo algum inferior à sua força temporal. Era o vigário de Deus, com uma maturidade religiosa equiparada à dos apóstolos. Embora alguns imperadores fossem administradores capazes e dedicados, a maior parte das funções efetivas do governo era exercida por uma vasta burocracia, muitos de cujos membros se distinguiam por sua alta eficiência. Um grande exército de amanuenses, inspetores e espiões mantinham um controle minucioso sobre a vida e as posses de cada habitante do país.

- O controle estatal do sistema econômico. O sistema econômico era tão estritamente regulamentado quanto o do Egito faraônico. O Império Bizantino foi descrito, mesmo, como o "paraíso do monopólio, do privilégio e do paternalismo". O estado exercia controle absoluto sobre quase todos os gêneros de atividade. O salário de cada trabalhador e o preço de cada produto eram fixados por decreto governamental. Em muitos casos não podia o indivíduo nem sequer escolher sua própria ocupação, uma vez que ainda se mantinha o sistema de corporações estabelecido no extinto Império Romano. Cada trabalhador herdava sua condição de membro desta ou daquela corporação, e as muralhas que cercavam cada organização eram hermeticamente fechadas. Também o produtor não gozava de maior liberdade. Não podia fixar por si mesmo a quantidade ou a qualidade da matéria-prima que desejava comprar, nem lhe era permitido adquiri-la diretamente. Não podia determinar o total da produção, nem em que condições venderia o produto. Todos esses assuntos eram regulamentados pela associação comercial a que pertencia, sendo esta, por sua vez, submetida à supervisão do governo. A fim de tornar menos dispendiosa a administração do sistema, os imperadores encorajavam negociantes rivais e trabalhadores a fazerem-se delatores uns dos outros. O governo possuía e movimentava certo número de grandes empresas industriais. Entre as principais contavam-se a da pesca da púrpura ou múrice, as minas, as fábricas de armamentos e os estabelecimentos têxteis. Em certa época tentou-se estender o monopólio à indústria da seda, mas as fábricas do governo foram incapazes de atender aos pedidos e foi preciso permitir que as manufaturas particulares reiniciassem a produção.

[...]

- Condições sociais no Império Bizantino. As condições sociais do Império Bizantino apresentavam contraste notável com as da Europa Ocidental na primeira fase da Idade Média. Enquanto grandes zonas da Itália e do sul da França haviam baixado quase completamente ao nível primitivo do ruralismo, a sociedade bizantina continuava a manter seu caráter essencialmente urbano e suntuário. Só na cidade de Constantinopla vivia cerca de um milhão de pessoas, sem falar nos milhares que residiam em Tarso, Nicéia, Edessa, Tessalonica e outros grandes centros urbanos. Os mercadores, banqueiros e industriais igualavam-se aos grandes proprietários de terras como membros da aristocracia, pois não havia a tendência, que existira em Roma, de desprezar o homem que auferia seus rendimentos da indústria ou do comércio. Os ricos viviam elegante e comodamente, cultivando como arte superior a satisfação de gostos opulentos. Uma grande parte da atividade industrial da nação era absorvida na produção de artigos de luxo para atender às necessidades das classes mais ricas. A seguinte lista compreende apenas alguns poucos artigos da produção suntuária das fábricas e oficinas, tanto públicas como particulares: magníficas vestimentas de lã e de seda entrelaçada de fio de ouro e prata, tapeçarias de brocado e damasco esplendidamente coloridas, primorosos artefatos de vidro e porcelana, evangelhos com iluminuras e raros e caríssimos adereços.

- As classes inferiores. A vida das classes inferiores era, em comparação, pobre e mesquinha, mas apesar disso é bem provável que o homem comum do Império Bizantino estivesse em melhores condições que o cidadão médio de muitas das outras partes do mundo cristão desse tempo. O largo desenvolvimento industrial e comercial e o alto grau de estabilidade econômica ofereciam oportunidade ao emprego de milhares de trabalhadores urbanos, exceto no período das invasões dos muçulmanos, quando Constantinopla se viu abarrotada de refugiados que não podiam ser absorvidos pelo sistema econômico. Mesmo a sorte dos servos adscritos às terras de alguns grandes proprietários seculares era possivelmente superior à dos camponeses da Europa Ocidental, pois que o poder de exploração dos senhorios ao menos era regulamentado por lei. Não obstante, a condição dos servos era bastante má, pois estavam condenados a uma vida de ignorância e estúpida rotina, limitada ao horizonte estreito em que nasciam. Sua condição era inalteradamente determinada pelo simples acidente de nascerem de pais servos. A população bizantina compunha-se também de uma percentagem considerável de escravos, mas grande parte deles eram empregados em serviços domésticos e gozavam, sem dúvida, duma existência mais ou menos confortável.

- Extremos de ascetismo e de sensualidade. O nível de moralidade do Império mostrava certos contrastes um tanto chocantes. O povo bizantino, a despeito de seus antecedentes gregos, não tinha na aparência nenhuma aptidão para as virtudes tipicamente helênicas do equilíbrio e da moderação. Em lugar do meio termo, parecia preferir sempre os extremos. Por conseguinte, encontravam-se frequentemente, lado a lado com a mais extravagante intemperança, a mais humilde anto-negação e até a laceração da carne. As qualidades contraditórias de sensualidade e de piedade, de caridade e de crueldade, eram comumente encontradas na mesma camada social ou até nos mesmos indivíduos. Por exemplo, o grande imperador reformista Leo III tentou abolir a servidão, mas também introduziu a mutilação como pena judiciária. A vida na corte imperial e entre alguns membros do mais alto clero parece ter-se caracterizado pela indolência, pelos vícios elegantes, pelas maneiras efeminadas e pela intriga. Em razão disso, a própria palavra "bizantino" veio a sugerir sensualidade elegante e refinamento de crueldade.

BURNS, Edward McNall. História da Civilização Ocidental. Porto Alegre: Globo, 1964. p. 283-285, 287-288, 291-292. [Volume 1]

domingo, 12 de abril de 2015

A sociedade fenícia

Cavaleiro. Terracota do século VIII a.C.

"A antiga Fenícia correspondia mais ou menos ao território do Líbano atual. A comunicação por via terrestre era difícil devido ao terreno montanhoso, mas as cidades fenícias tinham fácil comunicação marítima. O litoral tinha bons portos naturais e nas montanhas podia-se encontrar madeira apropriada para a construção de navios. Além do mais, as cidades fenícias estavam localizadas entre a Mesopotâmia e o Egito [...]." (PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20)

* O comércio era seu principal meio de vida. Como agricultores, os fenícios plantavam nos vales existentes no litoral, cereais, a videira e a oliveira, com os quais produziam farinhas, vinho e azeite.

Essa produção agrícola era lucrativa, porém frequentemente se perdia, porque a região onde se localizavam as cidades fenícias sofria constantes invasões de povos vindos dos desertos ou de exércitos de Estados fortes (como o Egito). O que deveriam fazer os dirigentes fenícios, diante da periódica destruição da sua produção agrícola? É evidente que teriam de buscar outra atividade econômica mais estável. Escolheram o comércio, que também poderia oferecer lucrativos rendimentos.

Aproveitando-se das madeiras existentes nas regiões montanhosas do interior, construíram numerosas embarcações e se expandiram pelo Mediterrâneo, fundando inúmeras colônias [...].

Em seus navios, movidos a remo e a vela, os comerciantes fenícios transportavam mercadorias produzidas em suas cidades ou compradas nos países com os quais mantinham relações comerciais.

Conhecidos como navegadores audazes e por venderem variados produtos de luxo, os comerciantes fenícios também eram vistos como negociantes desonestos. Essa opinião era comum entre os autores do Mundo Antigo, como se verifica em certa passagem da Odisseia, de Homero, poeta grego do século X a.C. [...]:

"Um dia, os fenícios, povo famoso na marinha, mas sutil e trapaceiro, abordaram as praias da nossa ilha com um barco carregado de tecidos e de bijuterias raras e brilhantes. Havia no palácio de meu pai uma escrava, notável pela beleza e pelos trabalhos que saíam de suas mãos. Aqueles estrangeiros astuciosos trataram de seduzi-la [...] e enviaram [...] um homem manhoso, que apareceu no palácio a pretexto de oferecer à venda um colar de ouro, [...] Enquanto minha mãe e as suas criadas tinham os olhos postos no colar [...] o velhaco levou a escrava para o seu barco [...]"

Segundo informações chegadas até nós, as pequenas embarcações fenícias navegavam inclusive fora do Mediterrâneo, atingindo a Inglaterra ou contornando o continente africano, como nos relata Heródoto:

"Saindo, pois, os fenícios do Mar Eritreo [Mar Vermelho], navegaram  pelo Mar do Noto [Oceano Índico], durante sua viagem. cada vez que chegava o outono, colocavam seus barcos na praia de qualquer litoral da Líbia [África], semeavam a região e esperavam a colheita. Recolhida a colheita, continuavam a viagem. Agindo assim durante dois anos, dobraram as Colunas de Hércules [Estreito de Gibraltar] e, no terceiro ano, chegaram ao Egito."

* O alfabeto foi sua principal realização cultural. A realização desses empreendimentos comerciais e marítimos obrigava os comerciantes e empresários fenícios a registrar suas transações, o que apresentava dificuldades, porque os sistemas de escritas conhecidos eram complicados. As escritas egípcias e mesopotâmicas, amplamente utilizadas pelas sociedades do Oriente Próximo, com seus numerosos e complexos sinais, revelavam-se inadequadas à feitura de recibos de compra e venda, listas de preços de mercadorias, relações de gastos com o transporte e o armazenamento dos produtos.

Foi, então, por motivos utilitaristas, que se criou um sistema de escrita simplificado, capaz de ser empregado por qualquer indivíduo. O novo sistema compreendia 22 letras, todas consoantes, e a denominação de alfabeto origina-se dos nomes das duas primeiras letras fenícias, chamadas aleph (touro) e beth (casa).

Inventado por volta de 2000 a.C., o alfabeto fenício veio depois a ser modificado pelos gregos e romanos, dando origem aos alfabetos atualmente utilizados no Mundo Ocidental.

Pouco sabemos das contribuições da sociedade fenícia nas Artes, na Literatura e nas Ciências porque a maior parte de suas realizações foi destruída pela ação do tempo. Escavações arqueológicas revelaram, contudo, que a produção artística e literária fenícia refletia profunda influência de modelos egípcios e mesopotâmicos.

A religião fenícia era politeísta e cada cidade-Estado possuía suas próprias divindades. Estas divindades sempre formavam um casal identificado com a chuva e com a terra, o que reflete o primitivo caráter agrícola da sociedade fenícia. O casal divino também era venerado como protetor da navegação e respeitosamente tratado de Baal (Senhor) e Baalat (Senhora). Assim, Adônis era o Baal e Astarté, a Baalat de Tiro. O culto incluía, no seu ritual, sacrifícios humanos de crianças, talvez uma prática religiosa para limitar o crescimento das populações urbanas.


Fenício representado em mural do Antigo Egito. 
Ca. 1500-1450 a.C.

* O governo era dos ricos comerciantes. A sociedade fenícia, ao contrário do que ocorreu em outras sociedades do Oriente Próximo, foi incapaz de organizar-se em Estado único, politicamente centralizado, como o Egito dos Faraós. Na realidade, não houve uma História Fenícia, mas, sim, das cidades-Estados fenícias que se desenvolveram independentes entre si. As mais importantes foram Sídon, Ugarit e Biblos. Cada uma delas possuía seus próprios dirigentes.

"A primeira cidade a exercer sua hegemonia foi Biblos (ca. 2500 a.C.), que comerciou intensamente com Chipre, Creta e Egito. No Egito trocava a madeira pelo papiro, material utilizado na escrita. Daí a denominação de biblos dada pelos gregos ao rolo de papiro e, por extensão, ao próprio livro.

Em seguida predominou Sídon (ca. 1500-1300 a.C.), que estendeu o comércio por todo o Mar Egeu e pelo Mar Negro, fundando colônias e comerciando com os gregos ainda semi-bárbaros.

Depois a supremacia passou a Tiro (séculos IX-VI a.C.); os fenícios estenderam-se até o norte da África - onde fundaram colônias, entre as quais Cartago (século IX a.C.) - o sul da Itália, as ilhas do Mar Tirreno, a Espanha, chegando até as atuais França e Grã-Bretanha. A partir do século VI a.C. Tiro entrou em declínio, passando a sofrer a concorrência dos etruscos, dos gregos e de sua própria colônia Cartago, a qual acabou dominando as colônias fenícias da África, da Sicília e da Espanha." (HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43.)

A forma habitual de governo foi a Monarquia, geralmente com poderes limitados pelo Conselho dos Anciãos, cujos integrantes pertenciam às famílias ricas. A hereditariedade da Monarquia, contudo, não satisfazia aos interesses da poderosa classe de comerciantes, de proprietários de navios e de oficinas artesanais. O resultado foi a substituição das Monarquias hereditárias pelos Sufetas, em número de dois e escolhidos pelo Conselho dos Anciãos para exercer o poder temporariamente. 

Essas modificações políticas também foram apoiadas pela classe sacerdotal, proprietária de templos, de terras e de outras riquezas. Os sacerdotes fenícios integravam a aristocracia dirigente e eram recrutados entre algumas das famílias mais ricas da sociedade.

Nas cidades fenícias, a escravidão praticamente não existia, pois os escravos eram mais utilizados como mercadoria de comércio do que como mão-de-obra produtora.

A maioria da sociedade compreendia artesãos. portuários. trabalhadores domésticos e marinheiros, além de pequeno número de camponeses que, em servidão coletiva, cultivavam as terras vizinhas às cidades-Estados.

Por vezes, as cidades fenícias foram atacadas e pilhadas por exércitos de outras sociedades do Oriente Próximo. Algumas vezes, chegavam a ser conquistadas, mas acabavam recuperando a independência. Finalmente, foram integradas ao Império Persa e, posteriormente, a outros Impérios, como o de Alexandre, o Grande, e o Romano.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 42-5.
HOLANDA, Sérgio Buarque de [et alli]. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 43
PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 20

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O tenentismo: as rebeliões

Mas a insatisfação e a rebeldia de um grupo significativo de jovens capitães e tenentes do Exército (e também alguns da Marinha) resultariam numa ação mais radical. O fechamento, por ordem do Governo, do Clube Militar e a prisão de seu presidente, o marechal Hermes, acusado de interferir indevidamente na política pernambucana, fizeram explodir a revolta. Na madrugada de 5 de julho, um grupo de oficiais, sob o comando do capitão Euclides da Fonseca, filho do marechal, tomou o Forte de Copacabana, de onde atacou o quartel-general do Exército, enquanto outras unidades na Vila Militar do Rio, em Niterói e em Mato Grosso também se rebelavam.

No dia seguinte, o Congresso, com a concordância dos membros da Reação Republicana, aprovou a decretação do estado de sítio. Depois de inúmeras desistências, um grupo menor (teriam sido 18, segundo o oficial Nilton Prado, e 28, segundo o historiador Hélio Silva) deixava o forte, iniciando a marcha heróica e romântica pela praia de Copacabana, contra as tropas do Governo, “dispostos a resistir até a morte”. No meio do caminho, alguns soldados fugiram ou foram presos. Ficaram até o combate final e suicida, na rua, apenas quatro oficiais (Siqueira Campos, Eduardo Gomes, Bilton Prado e Mário Carpenter) e quatro soldados (Manoel Antônio dos Reis, Hildebrando Silva Nunes e dois desconhecidos, um preto e um branco), além do civil Otávio Correia, que aderiu ao grupo na rua, e do soldado eletricista José Pinto de Oliveira; este, ainda no forte, ajudou a cortar a bandeira brasileira em pedaços, com os quais os revoltosos se enrolaram. No tiroteio, à altura da rua Siqueira Campos, apenas os dois primeiros escaparam – um deles, Eduardo Gomes, com um grave ferimento. O episódio ficou conhecido como “Os Dezoito do Forte”.

Revolta dos 18 do Forte de Copacabana: da esquerda para direita, tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Nílton Prado e o civil Otávio Correia. Fotógrafo desconhecido

A segunda rebelião tenentista ocorreu dois anos depois. A crise internacional de 1929-21 levara o presidente Bernardes (1923-1926) a decretar a terceira operação valorizadora do café, responsável em grande parte pelo assustador aumento do custo de vida e pela elevação da dívida externa. Bernardes, governando a maior parte do tempo sob estado de sítio, reprimiu manifestações populares contra a carestia e greves dirigidas pelos anarquistas. Enquanto isso, acentuavam-se os atritos entre o governo e os tenentes, descontentes com a condenação dos implicados em 1922 e a remoção de oficiais para regiões distantes.

No dia 5 de julho de 1924, depois de meses de conspiração preparada, entre outros, pelos tenentes Joaquim Távora, Juarez Távora e Eduardo Gomes, diversas unidades militares se sublevaram em São Paulo. Sob o comando de dois generais adeptos da causa tenentista – Miguel Costa e Isidoro Dias Lopes – eles definiam num manifesto suas posições.

“O Exército não tem ambições e não quer postos. Age abnegadamente, por altruísmo brasileiro e fundamentalmente patriótico, e, nesse sentido, os chefes do movimento revolucionário querem dar o exemplo que empresta autoridade a sua crítica aos republicanos que, até agora, ocuparam os altos postos da administração do país e que, com raras exceções, não souberam servi-lo nos seus interesses gerais. [...]

O Brasil está reduzido a verdadeiras satrapias, desconhecendo-se completamente o merecimento dos homens e estabelecendo-se como condição primordial, para o acesso às posições de evidência, o servilismo contumaz que, movendo-se pela mola das ambições, cada vez mais se generaliza, constituindo fator de degradação social. O povo ficou reduzido a uma verdadeira situação de impotência, asfixiado em sua vontade pela ação compressora dos que detêm as posições políticas e administrativas.”

Os revoltosos de São Paulo queriam a formação de um governo provisório, a eleição de uma constituinte e a realização de reformas políticas de cunho liberal. Eram reformas que não se chocavam com os princípios da ordenação constitucional da República Velha, como a adoção do voto secreto e a proibição de reeleição dos presidentes do governo federal e dos estados.

Já no Amazonas, predominavam tendências radicais. Os rebeldes, favoráveis a reformas econômicas e sociais de caráter socialista, constituíram um conselho governativo chefiado pelo tenente Ribeiro Júnior, propondo-se “a varrer o capitalismo do Brasil”. Criaram o Tributo da Redenção (imposto dos ricos para socorrer os pobres), prenderam os especuladores de gêneros e expropriaram matadouros de capitalistas ingleses, entregando-os à Comuna de Manaus. Depois de trinta dias de governo, foram derrotados pelas forças legalistas.

Em São Paulo, os combates estenderam-se por diversos bairros, obrigando o presidente do Estado a abandonar o Palácio dos Campos Elíseos. Depois de 22 dias de lutas, os revoltosos seguiram para o Paraná onde, em abril de 1925, juntaram-se a uma Coluna vinda do Sul, sob o comando do tenente Luiz Carlos Prestes. Ali, os dois grupos se juntaram e decidiram estender a campanha antigoverno a todo o país. Iniciava-se, assim, sob o comando do general Miguel Costa e de Luiz Carlos Prestes (o “Cavaleiro da Esperança”) a Coluna Prestes – na época, “a mais importante demonstração de guerrilha do continente”, segundo o historiador Hélio Silva.

Comando da Coluna Prestes: Luís Carlos Prestes é o terceiro sentado, da esquerda para a direita. Fotógrafo desconhecido

Entre abril de 1925 e fevereiro de 1927, os rebeldes, com 800 a 1.500 civis e militares percorrem cerca de 24.000 quilômetros, sem perder qualquer dos 53 combates travados contra as forças governamentais e a jagunçada de muitos coronéis.

“Em suas andanças, a Coluna palmilha o sertão e foge às áreas mais povoadas, atacando apenas uma vez uma cidade maior, Teresina, na esperança de apoio de revolucionários locais... É verdade que a população rural do Piauí e do Maranhão trata bem a coluna, ajudando e fornecendo víveres e informações. Mas a propaganda, acrescida de estragos e requisições, leva a hostilizar homens cujos objetivos essas populações não entendiam e não podiam entender.... no Ceará a população atacou os revolucionários porque pensavam – como dizia a propaganda bernardista – que eram ateus e iam prostituir as mulheres.”



Em 1929, os principais líderes da Coluna exilaram-se na Bolívia e Prestes, seu maior estrategista, afirmou que a luta não tinha mais sentido pois Bernardes já não governava. A justificativa, contrastando com o esforço feito, revelava uma das limitações do movimento: era em parte dirigida à pessoa do presidente, o que esvaziava o seu caráter político.

O tenentismo nunca teve uma unidade nem chegou a elaborar um programa político claro, embora evoluísse com o tempo. Em 1922, predominava já a ideologia liberal, mas a visão romântica era forte em oficiais dispostos a atos isolados de heroísmo e preocupados com a reação das “moças brasileiras”. A partir de 1924, duas tendências se diferenciavam cada vez mais: uma radical e minoritária – com os rebeldes do Amazonas e os que no final da década seguiriam Luiz Carlos Prestes – queria reformas sociais e econômicas, reformas de estrutura; outra, predominante, contentava-se com reformas políticos de cunho liberal, o que facilitaria sua aproximação com as oligarquias dissidentes, como veio a ocorrer em 1930.

As duas correntes, além do mais, eram elitistas e militaristas. Em nenhuma das revoltas pensaram em mobilizar o povo e, por mais de uma vez, renegaram o apoio popular, como foi o caso do general Isidoro Dias Lopez, que não aceitou a adesão dos operários anarquistas de São Paulo. Como notou Edgard Carone: “A pequena-burguesia é espectadora; o operariado não encara o movimento como seu.”


ALENCAR, Francisco [et alli]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 293- 296.

NOTA: O texto "O tenentismo: as rebeliões" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O tenentismo: o contexto histórico

“... moças brasileiras... voltai o rosto ao Exército que passa! Estes não merecem vossos olhares...”
 (Tenente Siqueira Campos)

 Revolta dos 18 do Forte de Copacabana: tenentes vão de encontro às forças legalistas, na Avenida Atlântica, Rio de Janeiro, 6/7/1922 Fotógrafo desconhecido 

A hegemonia da oligarquia paulista (habilmente repartida com a oligarquia mineira, a “carneirada”, cuja força advinha de sua participação majoritária no Congresso) atravessara incólume os trinta primeiros anos da República. A explicação estava no eficiente funcionamento de um sistema de dominação alicerçado em pelo menos três elementos: o mandonismo dos coronéis, a política dos governadores e o emprego da força do Estado nas inúmeras vezes em que isso pareceu necessário.

Crises resultantes das disputas sucessórias, como a de 1910, em que São Paulo e Minas apresentaram candidatos opostos, eram logo contornadas pelas próprias oligarquias estaduais. Elas evitavam sempre o enfrentamento armado, no plano nacional, pois isso poderia enfraquecer o sistema de dominação.

A liderança paulista era reconhecida pelas oligarquias estaduais dominantes, pelos industriais (em particular o grupo de São Paulo) e ainda por um significativo setor da sociedade brasileira, as camadas médias urbanas mais favorecidas, cujos membros ocupavam altos cargos na administração pública. Estas camadas se originaram, em parte, de aristocráticas famílias imperiais decadentes, destacando-se muitos bacharéis dispostos a colaborar na direção do país, em troca do que podiam manter seu antigo status social. Acreditando nos mesmos valores liberais-conservadores das classes proprietárias, contribuíam, com o seu trabalho intelectual, para a consolidação do sistema oligárquico.

As parcelas empobrecidas das camadas médias – funcionários públicos, empregados de escritório, comerciários, bancários etc. – assim como as classes trabalhadoras do campo e da cidade estavam inteiramente excluídas do sistema de poder. Os indivíduos mestiços, assim como os negros, continuavam sofrendo o peso da discriminação racial e da desqualificação profissional, mal se integrando no mercado capitalista de trabalho. Por muitos anos ainda, negros e mestiços continuariam engrossando a grande massa de subempregados (ambulantes, biscateiros e empregados domésticos) e de desempregados.

A única oposição tida como legítima pelos que controlavam o sistema e por isso tolerada, era a das oligarquias dissidentes. Elas brigavam apenas pelo poder, jamais tendo a intenção de destruir os fundamentos materiais (a grande propriedade, o poder oligárquico etc.) e ideológicos (o pensamento liberal-conservador) do regime.

O regime era oligárquico, antidemocrático, afastado da “obra apenas doutrinariamente bela”, segundo Oliveira Viana, a Constituição de 1891. O desabafo de um republicano histórico – “Não é esta a República dos meus sonhos” – exprimia o sentimento de todas as forças sociais de oposição, muito embora cada uma delas imaginasse alternativas bem diferentes de república.

No início dos anos 20, a insatisfação dominava também boa parte dos oficiais jovens do Exército, instituição que, desde o governo Floriano, mantivera-se subordinada aos interesses oligárquicos.

No início do século, esses oficiais – originários principalmente das camadas médias – constituíam uma corrente formada na recém-criada Escola do Realengo, situada na Vila Militar do Rio de Janeiro, e manifestavam um duplo descontentamento. Formados na concepção de que a missão do Exército era sobretudo “servir à nação” e desenvolver trabalhos meramente profissionais (doutrina diferente da positivista, que predominava na antiga Escola da Praia vermelha e no Sul, estimulando a politização dos militares), muitos deles, na maioria tenentes e capitães, insurgiram-se contra a cúpula do Exército que acusavam de “servilismo contumaz” e contra as próprias oligarquias dominantes. Em contato maior com a tropa, que mais sofria os efeitos da crônica inflação, sensibilizaram-se pelos protestos das camadas médias contra o regime oligárquico. Desagradava-lhes, também, a maior atenção dada às forças públicas estaduais – melhor equipadas que o Exército e sob o controle dos grupos dominantes -, e, acima de tudo, o fato de terem de se submeter ao papel de preservar um regime que consideravam corrupto.

Em 1918, Rodrigues Alves foi eleito presidente pela segunda vez. Morrendo logo depois, as oligarquias paulista e mineira elegeram o paraibano Epitácio Pessoa. O seu governo (1919-1922), excessivamente conservador e tendo de enfrentar os efeitos da crise internacional de 1920-21, acabou sendo combatido por diversos setores das classes dominantes, contrariada por sua negação de continuar subsidiando o café e de favorecer a indústria.

A disputa pela sucessão de Epitácio Pessoa, em meio a forte crise política, marcaria o início de uma série de novas crises que abalariam o regime. As duas oligarquias dominantes indicariam o mineiro Artur Bernardes, pois era a “vez” de Minas. Pretendendo chegar ao poder nacional, o Partido Republicano Rio-Grandense, sob o comando de Borges de Medeiros, opôs-se à candidatura de Bernardes e, com o apoio de militares hermistas e a participação das oligarquias dominantes da Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, formou a Reação Republicana, lançando para presidente o fluminenses Nilo Peçanha.

A oposição preparou uma “campanha à americana”, com muitos comícios, faixas e desfiles, além de um programa liberal e moralizante: contra a falsificação eleitoral, suborno e as máquinas públicas. Era, porém, um liberalismo de fachada, destinado a conquistar o apoio das camadas urbanas, cujo peso eleitoral aumentava. Como esperar, afinal, que as reformas apregoadas fossem realizadas por dissidentes “liberais”, que diziam condenar procedimentos por eles mesmos praticados e dos quais dependiam para vencer?

As forças ditas “liberais” e “regeneradoras” da “Reação Republicana” ainda tentaram impedir a posse de Artur Bernardes, o candidato vitorioso, publicando no Correio da Manhã, jornal de oposição do Rio, uma carta falsa a ele atribuída e contendo insultos ao Exército. A carta provocou a sublevação de várias unidades militares, porém sem maiores consequências.

ALENCAR, Francisco [et alli]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 291-293.

NOTAS:
1) O texto "O tenentismo: o contexto histórico" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.
2) Continue lendo no próximo post - "O tenentismo: as rebeliões" - a ser publicado dia 7 de novembro.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Os arameus

Atrás da faixa litorânea do território fenício, a Síria, encruzilhada de rotas, é também uma encruzilhada de povos. Muitos aí se instalaram e dominaram alternadamente, deixando no local elementos étnicos que se fundiram pouco a pouco num todo mesclado, deixando também vestígios arqueológicos, que os eruditos modernos se esforçam por classificar. [...]


Estela de funeral de Si' Gabbor, sacerdote do Deus da lua. Basalto, início do século VII a.C., encontrado em Neirab (Síria). Tem uma inscrição em aramaico.

A vida política. Também eram semitas, saídos não se sabe de que região do deserto sírio-árabe. Nômades organizados em tribos, tinham vagueado até a Alta Mesopotâmia, em Harrã, onde os encontramos, de início, muito densos e estáveis [...]. Em seguida, a partir do século XIV a.C., espalharam-se pela Síria, onde formaram grupos sedentários. Não expulsaram e jamais fizeram desaparecer inteiramente as antigas populações. Jamais criaram um Estado único mas, ao contrário, uma pluralidade de reinos, por vezes em guerra uns contra os outros. O mais importante foi, segundo parece, o do grande oásis situado ao pé do Antilíbano, Damasco, o reino dos Benhadads, equivalente hebraico do aramaico Bar-hadad, isto é, “filho de Haddad”, e de Hazael, isto é, “El observa”. [...] O apogeu dos arameus verifica-se entre os séculos XI e X a.C.: barravam então, aos assírios, as rotas do Noroeste e do Ocidente. Mas, a partir do século X, os reis assírios empenharam-se em lutas contra os arameus, que tiveram de enfrentar ao mesmo tempo os hebreus. No fim do século VIII findara a sua independência para sempre, depois dessa data, os arameus se tornaram súditos de Estados estrangeiros.

Cada um de seus reinos possuía sua cidade-capital, seu rei, sua dinastia e também seus usurpadores. A um ou a outro, os assírios impuseram um tributo, uma homenagem, tentando transformar em semivassalo e em semifuncionário um pequeno rei que aproveitava a primeira oportunidade para declarar-se independente. [...]


Estela funerária de basalto com uma inscrição aramaica, ca. século VII a.C., Neirab (Síria)

O papel comercial. [...] A posição geográfica da Alta Mesopotâmia e da Síria, destinadas ao tráfico entre a costa fenícia e a Ásia Menor, de um lado, e as regiões do Eufrates inferior e do Tigre, de outro, permitiu-lhes desenvolver intensa atividade como intermediários. Foram eles, em terra, numa parte do Oriente Próximo, o que os fenícios foram no mar. Pouco a pouco, a agricultura e a indústria síria, aperfeiçoando suas técnicas, adquiriram grande renome e contribuíram para a fortuna de Damasco. [...] o deslocamento dos arameus antes de sua fixação como sedentários, as deportações dos reis assírios, a emigração voluntária de seus comerciantes nos vastos impérios que lhes haviam imposto o seu domínio, todas essas causas conduziram a disseminação em numerosas cidades, por vezes bem distantes, de grupos entregues aos negócios, grandes ou pequenos. Aumentando incessantemente, essa ubiqüidade lhes foi proveitosa, mesmo sob o domínio grego e, no tempo do Império Romano, quase por toda parte no mundo antigo, os comerciantes por excelência.

O aramaico, língua do Oriente. O resultado mais imediato disso foi a expansão de sua língua, cujos múltiplos dialetos se difundiram num aramaico comum. Em vez de escrever em caracteres cuneiformes, adaptaram ao seu idioma um alfabeto derivado do fenício. A comodidade conseqüente desse arranjo e sua dispersão levaram os reis assírios a contratar, para seus scriptoria, escribas arameus que escreviam em papiros. Avançando ainda mais, os Aquemênidas adotaram o aramaico como idioma administrativo de seu império. A atividade comercial dos arameus realizou o resto, e sua língua ganhou à custa de muitas outras. Seus progressos explicam a morte dos velhos idiomas mesopotâmicos. O uso do hebraico perdeu-se, mesmo na Palestina: a Bíblia ainda conserva passagens em aramaico [...]; Jesus e seus discípulos não pregaram em hebraico, mas em aramaico. O siríaco, que foi durante muito tempo o idioma dos cristãos da Síria e da Mesopotâmia, derivava do aramaico. Apenas a conquista árabe, no século VII d.C., deteve sua difusão, provocando o seu posterior desaparecimento. Mas, então, o aramaico já desempenhava enorme papel em todo o Oriente Próximo, exceto na Ásia Menor e no Egito: papel comercial, intelectual e mais ainda – como instrumento de unificação -, papel moral e político. 


Baal. Acrópole de Ugarit. 

A religião. No tocante a essa época antiga, a arte dos arameus é negligenciável. E não fosse o futuro que alguns de seus cultos desfrutarão no Império Romano, a religião também não ofereceria maior interesse.

Tratava-se, de fato, de uma religião sem originalidade, muito misturada, com um fundo sobretudo cananeu, mesclado de influências mitânicas, hititas e fenícias: tais influências estrangeiras eram tanto mais facilmente assimiláveis, quanto os cultos por eles refletidos tiveram, por sua vez, origem em cultos cananeus. Assim, El é mencionado em diversos pontos, principalmente, o deus da tempestade, Hadad – em Damasco, Rammon, isto é, “o tonante” – era reconhecido quase sempre sob o nome de Baal; da mesma forma, é em Astarte que encontramos o protótipo da maioria das divindades femininas. Os deuses mesopotâmicos, que haviam penetrado em grande número, confundiam-se frequentemente com deuses cananeus; entretanto, o Baal de Harrã permaneceu firmemente o deus-lua Sin que, provindo de Ur, na Caldéia, se instalara nessa cidade desde a mais alta Antiguidade.

A Síria, em matéria religiosa, também foi uma terra de confluência. Mais tarde, por volta do início da era cristã, havendo já recebido bastante de outras religiões, transformou ou, melhor, fundiu muito do que recebera, sobretudo por sincretismo com a teologia solar. Além disso, exportou muitos elementos religiosos por intermédio de seus comerciantes, presentes em toda parte, dos soldados que forneceu a Roma e daqueles que, nascidos em outras regiões, passaram tempos em seu território. A Dea syria Atargátis, os Baals de Doliché, Heliópolis e Emesa, partiram de solo sírio para ganhar a Europa: Atargátis já se firmara amplamente em Delos no início do século I a.C.

Nesse tempo em que Roma dominava o mundo, ninguém mais se preocupava, e desde há muito, com os reis ou com a civilização da Assíria. Jamais, no entanto, a ação efetiva dos arameus se exerceu sobre tão amplo domínio. E, sem dúvida alguma, essa influência se originara da perda de sua independência política, quando Sargão II reprimira as últimas rebeliões de Hamat e Damasco; a História oferece mais de um exemplo desse aparente paradoxo.


AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 66-70. (História Geral das Civilizações, v. 2)


NOTA: O texto "Os arameus" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.