"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A atuação dos jovens e das mulheres nos movimentos revolucionários do século XVIII

A prisão da Bastilha, Henry Singleton

"Foi lá [em Spa] que tive notícias, pela primeira vez, dos acontecimentos que anunciavam o aproximar-se de uma grande Revolução na América [...] O troar do primeiro canhão, disparado nesse novo hemisfério em defesa da bandeira da liberdade, repercutiu em toda a Europa com a rapidez de um raio. Recordo-me que os americanos insurgidos eram chamados bostonianos; sua corajosa audácia eletrizou todos os espíritos, provocou admiração geral, sobretudo entre os jovens, partidários das inovações e ávidos por lutas [...]. Esse movimento, embora parecendo pouco consistente, era notável prenúncio das grandes convulsões que, dentro em breve, abalaram o mundo inteiro, e eu estava longe de ser o único cujo coração palpitava ao rumor do despertar da liberdade, procurando derrubar o jugo do poder arbitrário". (Testemunho do Conde de Ségur sobre a Guerra de Independência americana)

A juventude participou com afinco da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas. Os jovens (das cidades, principalmente) representavam a geração renovadora e liberal, desejosa de destruir tudo o que significasse o Antigo Regime. Foram eles que pegaram em armas para lutar contra os exércitos estrangeiros que ameaçavam invadir a França em 1789.

Os jacobinos perceberam a força política da juventude e procuraram utilizá-la na Revolução. Durante a ditadura jacobina (1793-1794), milhares de rapazes de toda a França, entre 16 e 17 anos, foram enviados a Paris, onde, durante algumas semanas, receberam treinamento militar e lições de patriotismo para se tornarem republicanos autênticos. Os que não atenderam ao chamado dos jacobinos sofreram perseguições e humilhações, como a de serem chamados de hermafroditas. Após a queda de Robespierre, grupos de rapazes favoráveis aos girondinos foram à desforra e espancaram os jacobinos.

A convocação de jovens foi ainda maior nas guerras napoleônicas. Só na França. quase 4 milhões foram chamados às armas. O exemplo estendeu-se ao continente. A partir do início do século XIX, com o argumento de amor à pátria, o recrutamento obrigatório passou a ser adotado em todos os países europeus (exceto na Inglaterra). Difundiu-se a ideia de que todos os cidadãos aptos tinham o direito e o dever de defender a pátria. Nascia uma nova e poderosa arma: o nacionalismo.


Carnot na Batalha de Wattignies, Georges Moreau de Tours

Servir o exército também significava prova de virilidade e porta de entrada no mundo adulto. Vestir o uniforme militar era atingir a maturidade, deixar de ser criança, mostrar coragem e potência sexual. Após o serviço militar, os rapazes estavam prontos para o casamento.

Nem todos, porém queriam servir o exército e usavam de vários meios para fugir dele. Alguns casavam com mulheres velhas, para logo depois abandoná-las em troca de alguma ajuda material. Outros fingiam-se doentes, feridos ou inventavam deficiências físicas, como surdez e dificuldade de visão. Havia ainda os que simplesmente fugiam.

A Revolução Francesa contou também com a atuação das mulheres no papel de agitadoras, ou de "bota-fogo", como se dizia na época. Muitas vezes, foram elas as iniciadoras das manifestações populares. Tocavam os sinos chamando a população, rufavam os tambores nas ruas da cidade, zombava, das autoridades e dos soldados, arrastavam os transeuntes, entravam nas lojas, oficinas e casas forçando os indecisos, incitavam os homens à ação, chamando-os de covardes. Um deputado jacobino chegou a afirmar, em 1793: "As mulheres iniciarão o movimento, [...] os homens virão em apoio às mulheres".


Clube Patriótico das Mulheres, Jean-Baptiste Lesueur e Pierre-Etienne Lesueur

Mas a Declaração de Direitos de 1789 não levou em consideração a luta feminina. Em seu título e artigos, aparece o termo "homens", que na época não se referia à humanidade em geral, mas ao ser humano do sexo masculino. As mulheres foram deixadas de lado. Isso não passou despercebido. Em setembro de 1791, a escritora francesa Olympe de Gouges redigiu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã exigindo o direito das mulheres à participação política. Pregava a libertação feminina contra a tirania dos homens. Afirmava que a exploração da mulher pelo homem é a origem de todas as formas de desigualdade.

Olympe de Gouges acabou guilhotinada em 1793, e suas ideias foram rejeitadas pelo governo revolucionário. As mulheres estavam excluídas das decisões das assembleias, das milícias armadas e das comissões locais. Mesmo assim, não ficaram caladas nem ausentes dos acontecimentos políticos. Como cidadãs sem cidadania assistiam às discussões nas tribunas abertas ao público. E como espectadoras continuaram participando: seus gritos, aplausos ou vaias influenciavam os deputados reunidos. Dessa forma controlavam também a atuação política deles.

Na independência dos Estados Unidos, as mulheres americanas atuaram diferentemente das francesas. Elas não foram às ruas e nem assistiram às assembleias políticas. Como mães e donas-de-casa, participaram dos acontecimentos declarando boicote geral aos ingleses. Pararam de comprar os produtos oferecidos pelos comerciantes da Metrópole, desconsiderando até suas ofertas tentadoras de vestidos e chapéus. Deixaram de usar e consumir até os produtos ingleses que tinham estocado em casa e convenceram seus filhos e maridos a fazerem o mesmo. Ofereceram-se como cozinheiras ou lavadeiras para as tropas americanas. Organizaram-se para recolher fundos em favor da causa da independência.

A brutalidade da guerra de independência afetou profundamente as famílias americanas. As mulheres se viram sozinhas para garantir a sobrevivência dos filhos. Tomaram consciência de sua força, de seu valor e capacidade individual. No após-guerra, criaram associações, frequentemente ligadas às Igrejas, destinadas a socorrer as viúvas e os órfãos. Esses grupos consolidaram uma nova forma de atuação social: o trabalho coletivo em benefício da comunidade.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 98-100.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Independências na América hispânica: liberdade para quê?

O libertador Simón Bolívar em traje de campanha, Arturo Michelena

Os homens que, descontentes com o sistema colonial, lideraram o processo de independência política estavam imbuídos das ideias liberais burguesas "descobertas" nos estudos realizados na Europa ou em livros dos "franceses" entrados clandestinamente no continente. Julgavam-se absolutamente bem preparados para alcançar seus objetivos e acreditavam esperançosamente no futuro. As ideias de liberdade, de igualdade jurídica, da legitimidade da propriedade privada, da educação como remédio para os grandes males, da necessidade do império da lei, do progresso e da felicidade geral do povo estavam todas presentes nos projetos desses líderes liberais.

Na América espanhola, homens como Bolívar, San Martín, Mariano Moreno, Bernardo de Monteagudo, José Cecílio del Valle e frei Tereza Servando de Miler apontavam oposições bastante claras. O mundo novo que surgia era para eles o lugar da liberdade, que se opunha à Espanha, reino do despotismo, da opressão e do arbítrio. A América era o espaço do novo, da esperança, do futuro.


Batalha de Rancagua em 1814, Giulio Nanetti

Entre os anos de 1810 e 1820 os objetivos fundamentais da luta desses grupos eram os mesmos e o inimigo comum era a Espanha. Todos os esforços concentravam-se para acabar com o domínio da Espanha e a tônica dos discursos era a liberdade.

Liberdade, entretanto, não é um conceito entendido de forma única; tem significados diversos, apropriados também de formas particulares pelos diversos segmentos da sociedade. Para Simón Bolívar, um representante das classes proprietárias venezuelanas, liberdade era sinônimo de rompimento com a Espanha, para a criação de fulgurantes nações livres, que seriam exemplos para o resto do universo. Mas principalmente nações livres para comerciar com todos os países, livres para produzir - única possibilidade, segundo sua visão, do desabrochar do Novo Mundo.


Encontro de San Martín e Belgrano em Posta de Yatasto, Augusto Ballerini

Já para Dessalines, um dos líderes da revolução escrava do Haiti, que alcançou a independência da França em 1804, liberdade queria dizer antes de tudo o fim da escravidão; mas carregava também um conteúdo radical de ódio aos opressores franceses. Seu discurso manifestava esses sentimentos. Dizia Dessalines ao povo do Haiti:


Generais intrépidos, que insensíveis às próprias desgraças haveis restaurado a liberdade prodigando-lhes todo vosso sangue, saibam que nada haveis feito se não derdes às nações um exemplo terrível, mas justo, da vingança que deve exercer um povo orgulhoso de ter recobrado sua liberdade e zeloso de mantê-la; amedrontemos os que tentam nos arrebatá-la: comecemos pelos franceses [...] Que tremam ao abordar nossas costas, se não pela lembrança das crueldades que eles exerceram, ao menos pela nossa terrível resolução de condenar à morte todo francês que ouse pisar com seus pés sacrílegos o território da liberdade.


Dessalines, Artista desconhecido

Para outros dominados e oprimidos, como os índios mexicanos, a liberdade passava distante da Espanha e muito próxima da questão da terra. Na década de 1810, Hidalgo e Morelos, os líderes da rebelião camponesa mexicana, curas pobres de pequenos povoados, clamavam por terra para os deserdados. Seus exércitos, que levavam à frente os estandartes da Virgem de Guadalupe e do rei espanhol Fernando VII, lutavam para que a terra, inclusive a da Igreja, fosse dividida entre os pobres. Morelos afirmava que os inimigos da nação eram os ricos, os nobres, os altos funcionários. Determinou que, quando se ocupasse uma povoação grande ou pequena, devia-se informar sobre os ricos, os nobres e os funcionários que nela houvesse "para despojá-los no momento de todo o dinheiro e bens raízes ou móveis que tenham, para repartir a metade de seu produto entre os vizinhos pobres do mesmo povoado [...] reservando a outra metade para a caixa militar". Hidalgo, em dezembro de 1810, decretava, nas terras livres do jugo espanhol, a abolição da escravidão e do tributo indígena e determinava que essa disposição fosse cumprida em dez dias, sob pena de morte para os infratores.


Hidalgo, Antonio Fabres

Mas no oceano das propostas político-ideológicas patrocinadas pelos diversos setores das classes proprietárias, poucas são as manifestações concretas que nos chegam por parte dos dominados. No México, o Acordo de Iguala, estabelecido entre Itúrbide, general repressor dos exércitos camponeses recém-convertido à causa da independência, e Guerrero, líder remanescente dos grupos guerrilheiros e populares, marcava a submissão do segundo ao primeiro: independência política agora, reformas sociais depois.


Proclamação e juramento da Independência do Chile em 1818, Pedro Subercaseaux

A independência se fez em nome das ideias liberais, justificando os interesses dos setores dominantes criollos que mantiveram a direção política do processo na América espanhola. Caíam os monopólios reais, abriam-se as linhas de comércio, a economia devia se reger sem a intervenção da antiga metrópole. Algumas concessões aos dominados também foram aceitas, mesmo no período de luta: Bolívar, por exemplo, acedeu em oferecer alforria aos escravos que se ligassem aos exércitos patrióticos.

O Estado, que começava a se organizar depois de atingida a independência, assumiu como tarefa destruir a velha ordem colonial. Em primeiro lugar, tendo em vista os interesses criollos dominantes e também as pressões dos comerciantes ingleses, havia de derrubar todo o regime de monopólios, privilégios e restrições ao comércio e outros ramos da produção em geral. Essa foi uma iniciativa realizada com êxito, ainda que isso não tenha significado, como esperavam os criollos, um grande crescimento econômico imediato.


Francisco de Miranda, Martin Tovar y Tovar

Outro objetivo do Estado que surgia era a destruição dos foros especiais do Exército e da Igreja. Essa luta desenvolveu-se com muitas particularidades nacionais, sendo a mais encarniçada aquela desencadeada contra a Igreja e que em alguns países cindiu a sociedade entre defensores e acusadores da instituição toda-poderosa. Essa luta terminou, em geral, já no fim do século - em alguns países no século XX -, com a separação total entre o Estado e a Igreja e com a subordinação desta ao poder maior do Estado laico.

Os privilégios dos espanhóis foram, na verdade, rapidamente suplantados nessa batalha, já que terminaram por perder seus favores políticos e econômicos, chegando mesmo a ser expulsos de alguns países.

Esse Estado esteve sempre preocupado com a manutenção da ordem social; os setores mesmo divergentes das classes dirigentes sempre se aliaram, sustentando o Estado, em momentos em que a ordem instituída foi ameaçada pelos de abajo. As constantes revoltas de índios, de camponeses e de escravos contribuíram para o fechamento autoritário do Estado. Entretanto, algumas concessões foram feitas. Aboliu-se o tributo indígena e acabaram-se, ou melhor, aplainaram-se as distinções de castas. A escravidão negra foi abolida, mais cedo ou mais tarde, nos países independentes, tendo permanecido apenas (além do Brasil) nas ilhas de Cuba e Porto Rico, ainda sob o domínio espanhol.

PRADO, Maria Ligia. A formação das nações latino-americanas. São Paulo: Atual, 2008. p. 13-8. (Discutindo a história)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Independência... para quem?

José Bonifácio, a fundação da Pátria, Eduardo de Sá
[Obra idealizando as "três raças" na formação do Brasil]

D. João VI retornou a Portugal mas deixou para governar o Reino do Brasil um príncipe-regente. Era seu filho, um jovem português de 21 anos, D. Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon.

Uma das missões de D. Pedro era evitar que o Brasil se separasse de Portugal. Pouco a pouco, no entanto, D. Pedro foi se ligando aos fazendeiros do Sudeste, que tinham progredido com a vinda da Corte e com a abertura dos portos.

Estes fazendeiros, mais alguns funcionários do Reino do Brasil e grupos influentes do Rio de Janeiro e de São Paulo - padres, doutores, jornalistas e oficiais - organizaram um movimento para lutar contra a recolonização do Brasil: era o Partido Brasileiro. Não era um Partido como os de hoje, com ideias colocadas no papel, pessoas filiadas e dirigentes eleitos. Era mais um grupo de pressão que, com o tempo, foi se agarrando a um desejo maior: a independência.

Dentro do Partido Brasileiro havia dois grupos. O mais forte, formado por fazendeiros do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais: era chamado de grupo aristocrata. Seu líder era José Bonifácio. O outro grupo, com menos influência, era o dos democratas. Para esses, a independência só seria completa se o povo pudesse participar no novo governo. Um dos seus maiores líderes era Gonçalves Ledo.

As preocupações com os rumos do Brasil cresciam em Portugal. Afinal de contas, a rebeldia tomava conta do próprio representante do governo português aqui, o príncipe-regente D. Pedro...

- D. Pedro está se perdendo! Ele precisava vir a ilustrar na Europa, pois tem nome comprido e ideias curtas! Está se envolvendo com aventureiros, Majestade!

Corria o ano de 1822: os conflitos cresciam. De um lado, D. Pedro e o Partido Brasileiro. De outro, D. João VI e as Cortes de Lisboa, que desejavam a recolonização do Brasil.

As Cortes não davam sossego ao príncipe-regente: queriam seu retorno imediato, mandaram tropas para cá, substituíram os governos das províncias que não eram fiéis a Portugal. Fizeram de tudo para submeter o Brasil.

Na tarde do dia 7 de setembro essa luta teve o seu desfecho. Quando descansava de uma viagem às margens do riacho Ipiranga, perto da cidade de São Paulo, o príncipe recebeu um ultimato das Cortes. Elas exigiam, mais uma vez, o seu regresso. Influenciado pelo Partido Brasileiro de José Bonifácio, D. Pedro desobedeceu e preferiu romper de vez com o governo de sua terra natal:

- Laços fora, soldados! As Cortes perseguem-me, chamam-me com desprezo de "rapazinho" e "brasileiro". Pois verão agora quanto vale o "rapazinho"! De agora em diante, nossa divisa será: "Independência ou Morte"!

Independência e mortes, que fique bem claro. Depois do grito do príncipe, algumas de nossas províncias transformaram-se em sangrentos campos de batalha. No Grão-Pará, Maranhão, Piauí, Bahia e Província Cisplatina (atual Uruguai) as tropas brasileiras, com a ajuda de muita gente do povo, tiveram que expulsar, com armas na mão, as forças portuguesas que não aceitavam a independência.

Ao príncipe, porém, não interessava que o rompimento fosse total. Afinal, quem governava Portugal era seu pai... E era preciso ter cuidado com os republicanos, que queriam a independência e a cabeça do rei! Era necessário, pois, formar um governo moderado, que confirmasse a separação, mas garantisse a "ordem" e a autoridade.

O homem forte do país que nascia era José Bonifácio, mas ele não tinha as mesmas ideias de Tiradentes, nem dos revolucionários baianos:

- Nunca fui nem serei realista puro, mas nem por isso irei me abrigar debaixo das esfarrapadas bandeiras da suja e caótica democracia.

Assim nascia o país Brasil. De um lado, homens como José Bonifácio, ligado aos "aristocratas". Eles formavam o grupo de maior influência no governo do imperador D. Pedro I, pois tinham conseguido enfraquecer mais ainda os democratas, muitos dos quais foram presos ou expulsos do país. De outro, a numerosa massa de trabalhadores escravos e livres, sem voz nem vez. A independência não mudou a vida desses milhões de brasileiros!

A independência também não acabou com o domínio inglês por aqui. Maria Grahan, uma inglesa que visitou a nova nação, comentou em seu livro sobre o Brasil: "Os habitantes em geral, mas especialmente os comerciantes estrangeiros, estão bem satisfeitos por verem as tropas de Lisboa despedidas".

As mercadorias chegavam do Reino Britânico em grande quantidade. Em cada porta de loja, o anúncio:

SUPER FINO DE LONDRES:
algodão estampado, panos largos,
louças de barro, ferragens de Birmingham.

Assim nascia o Brasil independente...

E a escravidão acabou? Os governantes seriam eleitos pelo povo, como já acontecia nos regimes republicanos? Terminaram os latifúndios, que deixavam muita terra nas mãos de uns poucos donos? A produção aumentou, alimentando melhor o povo ao invés de ficar no açúcar e ouro para exportação? Surgiram fábricas e manufaturas? A vida cultural se dinamizou, com o surgimento de artistas nossos, que levassem para todos a arte popular?

Ou ficava tudo como dantes no quartel de Abrantes?

ALENCAR, Chico et alli. Brasil Vivo 1: uma nova história da nossa gente. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 83-84.

sábado, 15 de outubro de 2011

A Guerra do Paraguai (1864-1870)

Malditas todas las propriedades privadas
que nos privam de vivir y de amar!
(D. Pedro Casaldáliga, Tierra Nuestra, Libertad)

A paraguaia, Juan Manuel Blanes 

Quando o Paraguai se libertou do domínio espanhol, em 1811, Buenos Aires já era a sede dos interesses comerciais ingleses, que ditavam as normas para o comércio internacional na região do Prata. Com a Independência, assumiu o poder José Gaspar de Rodriguez de Francia, El Supremo. Exercendo um poder ditatorial contra os ricos oligarcas ainda ligados aos interesses da Espanha, o governo de El Supremo estabeleceu uma República Popular, que chamou de Ditadura Perpétua, de características bem próprias. Foi criada uma nova ordem econômica baseada em um cooperativismo, isto é, um regime de produção comunitária administrado pelo Estado. Liquidou-se "a impropriedade da propriedade privada, tornando-a propriedade coletiva". O governo promoveu a primeira grande reforma agrária da América Latina e deu-lhe infra-estrutura, fornecendo, além de terra, sementes, implementos agrícolas e gado aos camponeses. Criaram-se as Estâncias da Pátria, onde os camponeses produziam ajudados pelo Estado e dispunham de parte da produção como homens livres.

[...]

Ao mesmo tempo, o governo estabeleceu sua diretriz de acordo com a nova estrutura econômica. Nacionalizou a Igreja Católica, obrigando-a a romper com a Santa Sé, e transformou os conventos em quartéis para defender a soberania do país. Deste modo, eliminou o poder político e econômico da Igreja, igualando os sacerdotes aos homens do povo. Monopolizou, através do Estado, a exportação dos produtos excedentes, em prejuízo da burguesia mercantil, aplicando o lucro obtido em benefício do país. Além disso, empreendeu uma verdadeira revolução cultural, respeitando os costumes dos índios e eliminando o analfabetismo no Paraguai.

Apesar de tudo - e por tudo isso -, a fama de Francia como bárbaro e assassino espalhou-se desde o Prata até a Inglaterra. Por quê? Em síntese, porque sua violência era dirigida contra os ricos: nos cárceres políticos paraguaios da época não existiam pobres (ao contrário de hoje), mas somente ricos - exatamente os que poderiam se voltar contra seu governo.

Agora vejamos os motivos mais amplos. "Francia está organizando uma nação livre e demonstrando que é possível sobreviver sem a submissão a interesses estrangeiros e sem sustentar uma oligarquia parasita. O Paraguai passa a ser, já a partir desse momento, um exemplo péssimo para a América [...]. Por outro lado, El Supremo demonstrou que não há independência política sem independência econômica. Isso era fartamente sabido já naquele tempo: mais justamente pela sua evidência o exemplo paraguaio é mais incômodo. Tanto para os vizinhos dominados como para os dominadores." (CHIAVENATTO, J. J. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 20.)

Ao contrário do que dizem muitos historiadores, o isolamento do Paraguai durante o governo de Francia não foi escolhido, mas determinado por circunstâncias históricas: por não possuir porto marítimo para escoar seus produtos, o país dependia de Buenos Aires, cuja burguesia se ligava aos interesses imperialistas ingleses. Deste modo, o contrato firmado entre os dois governos para facilitar as exportações paraguaias nunca foi respeitado pelos portenhos, que, além disso, criaram um imposto adicional, especialmente sobre o fumo, principal produto paraguaio de exportação. Foi tentado ainda o contato direto com a Inglaterra, igualmente frustrado. Assim, entre perder a soberania do país ou mantê-la a todo custo, o governo de Francia preferiu a última: fechou as fronteiras, isolando o país contra o imperialismo inglês.

Sob os lemas Ordem e Progresso e Independência ou Morte, e apoiado nos camponeses, artesãos, pequenos comerciantes e industriais, construiu o primeiro país livre e soberano da América Latina, onde a liberdade não era um conceito abstrato, mas o direito à terra, ao trabalho e a seus frutos, traduzido na própria consciência nacional - só destruída com o extermínio de seu povo, em 1870, ao fim da Guerra do Paraguai.

"A crítica mais importante que se pode fazer, historicamente, ao ditador Francia, é ter exterminado a oligarquia econômica do seu país sem conseguir, paralelamente, criar uma classe dirigente. Isso, a longo prazo, foi fatal para o Paraguai - a falta de uma classe dirigente vinculada aos interesses nacionais foi sentida fatalmente por Carlos Antônio López e depois pelo seu filho, Solano López, nos conflitos com a Tríplice Aliança." (CHIAVENATTO, J. J. op. cit., p. 21-22.)

Com a morte de Francia, em 1840, assumiu o governo Carlos Antônio López [...]. Recebeu o Paraguai sem analfabetos, com pleno emprego e com uma estrutura sócio-econômica voltada para os interesses populares. O país estava pronto para o desenvolvimento, que era travado pelos elevados tributos impostos por Buenos Aires à exportação de seus produtos.

Para melhor entendimento do governo de Carlos Antônio López, faz-se necessária uma breve análise da conjuntura sócio-econômica dos outros países platinos naquele período. Eram sociedades dependentes da Inglaterra: alimentavam as indústrias inglesas com matérias-primas baratas e consumiam a preços altos os produtos industrializados da civilização. Aliás, civilização, progresso, ciência etc. eram conceitos muito bem aproveitados pela Coroa inglesa para justificar a ação imperialista na América Latina, sobretudo no Império do Brasil e em Buenos Aires, onde uma aristocracia rural e uma frágil burguesia, respectivamente - ligadas ao capitalismo inglês - dominavam o sistema político.

Nesse quadro, evidentemente, a soberania do Paraguai era uma contradição que precisava ser eliminada para o bem da Inglaterra e das classes dominantes platinas. [...] Quando Carlos Antônio López morreu, em 1862, foi sucedido por seu filho Francisco Solano López. Com uma indústria de base em desenvolvimento, o Paraguai já era o país mais progressista da América do Sul e sem dívida externa. Exercendo o poder também de forma ditatorial, Solano López continuou as diretrizes de seus antecessores.

A conjuntura internacional sofria mudanças que, de certa forma, precipitaram a Guerra do Paraguai. A Guerra de Secessão (1861-1865), nos EUA, refletiu na indústria têxtil inglesa na medida em que o Norte bloqueou o litoral dos Estados Confederados, impedindo as exportações sulistas de algodão para a Inglaterra. Consequentemente, muitas fábricas reduziram sua produção e a possibilidade de desemprego em massa ameaçava o próprio equilíbrio social da Inglaterra.  Se lembrarmos que o Paraguai produzia algodão de boa qualidade, poder-se-ia deduzir o óbvio: a Inglaterra compraria o algodão do Paraguai. Errado! A simples compra do algodão paraguaio era uma contradição para a expansão imperialista, pois fortalecia a economia do Paraguai, dando-lhe condições de, a longo prazo, concorrer com a própria Inglaterra nas suas exportações para o Prata. Na visão do imperialismo, o Paraguai - como seus vizinhos - deveria ser apenas um mercado consumidor tradicional de produtos industrializados e fornecedor de matérias-primas. Então, qual seria a saída para a Inglaterra? Destruir o Paraguai. Estava montado o palco para o primeiro ato da tragédia que caracterizou o aniquilamento do povo paraguaio: a Guerra do Paraguai.


Aspecto da Guerra do Paraguai, Victor Meirelles

Sob um manto de intrigas e calúnias, onde não faltaram as acusações de criminoso, ditador, bárbaro e assassino cruel ao Presidente Solano López, o Império do Brasil e a Argentina (economicamente dependentes da Inglaterra) invadiram o fraco Uruguai, então único aliado do Paraguai, e depuseram seu governo, colocando no poder Venâncio Flores, de tendência antiguaranis. Os pretextos foram vários, mas o objetivo apenas um: atrair o Paraguai em defesa do Uruguai e destruir seu modelo econômico, o que era desejado pelo empresariado inglês.

O Uruguai, por sua posição geográfica, era estrategicamente importante para a subsistência do Paraguai, o que, inclusive, havia levado os dois países a uma aliança de defesa mútua (1850). Desse modo, embora alguns historiadores apontem questões de fronteira (o que em parte era verdade, pois latifundiários brasileiros ocupavam terras uruguaias para criar gado) como causa da invasão argentino-brasileira ao Uruguai, a causa fundamental foi a já apontada: desestabilizar o governo uruguaio de Bernardo Berro e substituí-lo pelo de Venâncio Flores, o que foi feito em prejuízo, inclusive, de interesses brasileiros, representados pelo Barão de Mauá, que possuía grandes investimentos no Uruguai.

[...]

Substituindo o governo uruguaio, o Império do Brasil e a Argentina conseguiram a adesão de Venâncio Flores e firmaram o acordo que ficou conhecido como Tratado da Tríplice Aliança. Esse tratado já tinha sido sugerido pela diplomacia inglesa há pelo menos um ano, mas permaneceu secreto até pouco antes de ser assinado por seus representantes na América do Sul [...]. Segundo a Tríplice Aliança, o Paraguai deveria ser destruído e, entre outras coisas, "os troféus e presas que forem tomados ao inimigo se dividam entre aqueles dos aliados que tenham feito a captura". [...] Quer dizes, determinava-se a própria partilha do Paraguai. Esse tratado foi duramente criticado pelos governos do Peru, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e EUA.

[...]

Os aliados esperavam uma guerra rápida, pela própria superioridade militar de suas forças. Mas o Paraguai resistiu por cinco anos e a guerra só terminou com sua população quase exterminada. "Morreram 96,5% dos homens e dos sobreviventes apenas 1,08% tinha mais de 20 anos. Da população total (800 mil) morreram 75,75% (606 mil). O Paraguai foi destruído, aniquilado completamente [...]". CHIAVENATTO, J. J. O Negro no Brasil - da Senzala à Guerra do Paraguai. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 195.

Essa resistência, que ameaçou levar à morte "até o feto do ventre da mulher", como reconheceu o Duque de Caxias ao Imperador do Brasil, explica-se pela própria coesão moral do exército paraguaio, que refletia a própria estrutura sócio-econômica do país.


El ejército de la Pátria será todo el pueblo en
ropa y dignidad de ser el pueblo en armas. Sus
efectivos, los campesinos libres...
(Francia, El Supremo)

[...]

A Guerra do Paraguai foi violenta de ambas as partes, mas deve-se assinalar que, enquanto os paraguaios se prenderam à brutalidade inerente à própria natureza do conflito, do lado brasileiro atrocidades que se caracterizaram como crime de guerra foram cometidos sob responsabilidade do Conde D'Eu, como o incêndio do hospital de Peribebuí, com todos os seus enfermos, velhos e crianças.


Trincheira de Curupayti (detalhe), Cándido López

Esta foi a Guerra do Paraguai. Quem a ganhou? Quem a perdeu?

Houve apenas um ganhador: a Inglaterra, que a financiara. O Brasil conseguiu algumas fatias de terras há muito desejadas e a Argentina anexou o Chaco Austral, igualmente cobiçado. Contudo, não se pode dizer que eles ganharam a guerra, pois a partir dela tornaram-se mais dependentes do capitalismo inglês, principalmente do Banco Rothschild, acumulando enorme dívida externa.

As condições a que ficaram reduzidos os poucos guaranis sobreviventes foram as piores possíveis.

"Para os humildes e estóicos camponeses do Paraguai, o futuro reservava agonias sem nomes [...] Os aliados foram libertar os guaranis de seu tirano e abrir de par em par as portas à civilização moderna, em forma de concessões, financiamentos e inversões estrangeiras e outras influências da Bolsa de Berlim, Londres, Nova Iorque e Buenos Aires. As bençãos do laissez-faire substituíram os males do 'paternalismo', e, como de costume, o camponês se converteu em peão explorado e sem terra." GONZALEZ, J. N. La Guerra al Paraguai - Imperialismo y Nacionalismo en el Plata. Buenos Aires: Sudestada, 1968. p. 104.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades americanas. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990. p. 170-176.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A América no século XIX: "A profecia do libertador"

Retrato eqüestre de Bolívar, 1888. Arturo Michelena.

"Peruanos! Sede pacientes, e esperai tudo de nossos invictos irmãos de armas, porque eles não contam com uma sorte cega como os espanhóis, mas sim com sua força. O campo de batalha dirá a quem pertence o Peru, se aos filhos do acaso ou aos filhos da glória." (Proclamação de Bolívar aos peruanos, 1824)

"Eu venho pôr termo a essa época de dor e humilhação: este é o voto do Exército Libertador, que tenho a glória de comandar e que me tem acompanhado sempre ao campo de batalha, ansioso de selar com seu sangue a liberdade do Novo Mundo. Confiai na minha palavra e na resolução dos bravos que me seguem, assim como eu confio nos sentimentos e na energia do povo peruano." (Discurso de San Martín aos peruanos, 1820)


As áreas colonizadas pelos espanhóis na América constituíam no final do século XVIII quatro vice-reinos e quatro capitanias gerais. Enquanto isto, a área colonizada pelos portugueses nas Américas era constituída unicamente pelo vice-reino do Brasil.

A América colonial espanhola já era muito dividida e, quando se libertou, desmembrou-se mais ainda. A América colonial portuguesa era unificada e, quando se tornou independente, assim se manteve.

A independência política não alterou imediatamente o atraso em que se encontravam as antigas colônias.

Certamente, houve na América espanhola independente pessoas que perceberam que o desmembramento não seria conveniente para as regiões que se libertavam.

Uma das pessoas que combateu a exagerada divisão política foi Simon Bolivar¹ ².

As ideias de Simón Bolívar tiveram alguns êxitos temporários. De 1821 até 1830, existiu a Grã-Colômbia, que se desmembrou na Venezuela, na Colômbia e no Equador. Em 1823, Honduras, Costa Rica, El Salvador e Nicarágua constituíram as Províncias Unidas do Centro da América, que logo se separaram. Entre 1835 e 1839, o Peru e a Bolívia tentaram unir-se.

Pouco antes de morrer, prevendo que as disputas pelo poder político nas jovens repúblicas impediriam a cooperação e a unidade tão desejadas, Simón Bolívar profetizou que - "...muitos tiranos, chefes de governo com todo o poder, pisariam o seu túmulo."

Após 1830, na América espanhola independente, o barrete seria disputado por vários tiranos: os caudilhos.

"Ainda que muitas vezes o caudilho fosse um grande fazendeiro, pela sua vida rude, pelas suas qualidades pessoais de coragem e destreza, confundia-se muito com seus seguidores, aos quais, no entanto, tratava com indiscutível autoridade. Os caudilhos representavam sempre interesses regionais e, portanto, eram, em sua grande maioria, ardorosos defensores do federalismo como forma de organização política." (PRADO, Maria Lígia. A formação das nações latino-americanas. São Paulo: Atual, 1985. p. 38)

"El caudillo" em espanhol ou castelhano quer dizer "El jefe" (o chefe), ou "el patrón" (o patrão).

Os chefes "criollos" que lutaram contra os espanhóis na América eram em geral fazendeiros (haciendeiros). Proprietários de extensas terras, usavam o seu prestígio e a sua riqueza para dominar as províncias - regiões que hoje em dia se poderiam.) chamar de Estados. A base do seu poder estava, pois, no interior do país. Não admitiam discussão de sua autoridade. Daí serem chamados de caudilhos.

Mas como os caudilhos alcançaram o poder?

Quando os espanhóis foram expulsos, as antigas colônias viram-se numa situação de desordem.

Vinte anos de guerra haviam matado muitos negros, índios e mestiços. Eles eram essenciais na agricultura, na pecuária e na mineração. Os ingleses e norte-americanos dominavam o comércio. Os produtos estrangeiros, mais baratos, prejudicavam a venda de produtos locais.

No ambiente de miséria, ignorância e violência que se estabeleceu, foi impossível o aparecimento de um regime democrático - isto é, do povo, pelo povo e para o povo. O poder passou, aos poucos, para aqueles que tinham mais riqueza e mais prestígio: os caudilhos. Naquela época, na América espanhola e portuguesa independentes, media-se a riqueza pela extensão e qualidade das terras e pelo número de pessoas que nelas trabalhavam.

A Igreja geralmente apoiava os caudilhos. Ela desejava a volta da tranquilidade.

Uma vez conquistado o poder e instalados na capital, os caudilhos adotavam alguns costumes da cidade. Algumas vezes trocavam o poncho pelo terno ou pela casaca. Mas continuavam com o direito de julgar o que interessava ou não ao país.

Isto tudo acontecia, geralmente, através de um regime de governo chamado ditadura, no qual todos os poderes políticos estavam sob o controle de uma só pessoa e os direitos individuais eram reduzidos.

Então a profecia do Libertador se confirmara.

Mas Simón Bolívar não teria sido também um caudilho? [...]

Retrato de Juan Manuel de Rosas, Cayetano Descalzi
[Juan Manuel de Rosas, governador de Buenos Aires, é considerado como o paradigma do caudilho]

¹ Quarenta e sete anos de existência foram-lhe suficientes. Não precisou de mais para encarnar em ação a mais formidável vontade que o continente já conheceu. Foi um meteoro, um corpo ígneo, uma inteligência multiplicada. Nos dias do Renascimento, teria sido um 'condottiere', um poeta, um homem de intensas luzes e paixões exaltadas. Não há dúvidas de que teria medido forças igualmente com papas e cardeais, com mui importantes senhoras [...]

Esse Simón Bolívar - sangue basco nas veias, talvez um pouco de africanidade - soube ser terno e feroz; poucos o superaram em elegância de espírito." (POMER, León. A jornada de Simón Bolívar. In: Folhetim. Folha de São Paulo, 24 jul. 1983. p. 8.)

² A classe dominante venezuelana apropriando-se do prestígio de que desfrutava Bolívar o elevou ao mais malto pedestal. As comparações feitas regular e continuamente entre Bolívar e os heróis da mitologia greco-romana tinham o objetivo de legitimar sua 'obra incomparável'. Criou-se o Olimpo 'criollo' no qual Simón ocupava o lugar de Júpiter. No rastro da tradição judaico-cristã, além das figuras bíblicas, era ainda comparado com Jesus Cristo. [...] Ele nascera para ser o 'libertador do continente, o criador das repúblicas americanas, o pai dos cidadãos livres'. Para tanto, 'Deus oferecera a ele todos os talentos de valor, de audácia e de perseverança incomparáveis em toda a superfície da Terra tanto no passado, como no presente e no futuro. Desse modo, o herói nacional, simples mortal, avança para o plano da deificação. Colocou-se Bolívar numa região inacessível, num alto pedestal inatingível, onde ele paira acima do bem e do mal. (PRADO, Maria Ligia Coelho. Bolívar, Bolívares. In: Folhetim. Folha de São Paulo, 24 jul. 1983. p. 11.)


"Nossa terra, vasta terra, soledades, 
Povoou-se de rumores, braços, bocas;
Uma calada sílaba ia ardendo,
Congregando a rosa clandestina, 
Até as campinas trepidarem
Recobertas de metais e galopes.

Foi dura a verdade como um arado
[...]
Pátria, nasceste dos lenhadores,
De filhos sem batizar, de carpinteiros,
Dos que deram qual uma ave estranha
Uma gota de sangue voador
E hoje duramente nascerás de novo,
Lá onde o traidor e o carcereiro
Te acreditam submersa para sempre".
"América Insurreta (1800)", Pablo Neruda


BELLOTTO, M. L.; CORRÊA, A. M. M. A América Latina de colonização espanhola. São Paulo: Hucitec-EDUSP, 1979.
MATTOS, Ilmar Rohloff de et al. Brasil, uma história dinâmica. São Paulo: Nacional, 1976.
POMER, León. A jornada de Simón Bolívar. In: Folhetim. Folha de São Paulo, 24 jul. 1983.
PRADO, Maria Ligia Coelho. Bolívar, Bolívares. In: Folhetim. Folha de São Paulo, 24 jul. 1983.
PRADO, Maria Lígia. A formação das nações latino-americanas. São Paulo: Atual, 1985.