"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 5 de maio de 2017

As Parcas

A Golden Thread, John Melhuish Strudwick

[...] as Parcas eram três: Cloto, Láquesis e Átropos. Sua ocupação consistia em tecer o fio do destino humano e, com suas tesouras, cortavam-no, quando muito bem entendiam. Eram filhas de Têmis (a Lei), que Jove fez sentar em seu próprio trono, para aconselhá-lo.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 19.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Hero e Leandro

Hero acendendo a tocha para Leandro, Edward Burne-Jones

Leandro era um jovem de Ábidos, cidade situada na margem asiática do estreito que separa a Ásia da Europa. Na margem oposta do estreito, na cidade de Sestos, vivia a donzela Hero, sacerdotisa de Vênus. Leandro a amava e costumava atravessar o estreito a nado, todas as noites, para gozar a companhia da amante, guiado por uma tocha, que ela acendia na torre, para esse fim.

Hero achando Leandro, Ferdinand Keller

Mas, numa noite de tempestade, em que o mar estava muito agitado, o jovem perdeu as forças, e afogou-se. As ondas levaram o corpo à margem europeia, onde Hero tomou conhecimento de sua morte e, desesperada, atirou-se da torre ao mar e pereceu.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 111.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Eco e Narciso

Eco e Narciso, John William Waterhouse

Ó Eco, doce ninfa que, invisível,
Vives nas verdes margens do Meandro
E no vale coberto de violetas,
Onde ao luar o rouxinol te embala,
Com seu canto nostálgico e suave,
Dois jovens tu não viste, por acaso,
Bem semelhantes, Eco, ao teu Narciso?
Se, em alguma gruta os escondeste,
Dize-me, ó ninfa, onde essa gruta está
E, em recompensa, subirás ao céu.
E mais graça darás, ó bela ninfa,
À Celeste harmonia em seu conjunto!

Milton

Narciso, Gyula Benczúr

sábado, 22 de abril de 2017

Cupido e Psiquê

Cupido e Psiquê, Jacques-Louis David

Quanta lenda tão bela, outrora, nesse dia
Longínquo em que a razão tomava à fantasia
A asa multicor e, entre areias de ouro,
O rio carregava um líquido tesouro!
Quando a mulher sem par, beleza peregrina,
Que de sofrer e amar e lutar teve a sina.
A terra percorreu, exausta, noite e dia,
Em procura do Amor, que só no céu vivia!

T. K. Harvey

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Vênus e Adônis

Vênus e Adônis, Francois Lemoyne

Comus

Entre moitas de rosas e jacintos,
Muitas vezes repousa o jovem Adônis
Amortecida a dor, e a seu lado
Jaz a trsite rainha dos assírios...

Milton

Vênus e Adônis, Christiaen van Couwenbergh

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Apolo e Jacinto

Apolo amava apaixonadamente um jovem chamado Jacinto. Acompanhava-o em suas diversões, levava a rede quando ele pescava, conduzia os cães quando ele caçava. Certo dia, os dois divertiram-se com um jogo e Apolo, impulsionando o disco, com força e agilidade, lançou-o muito alto no ar. Jacinto contemplou o disco e, excitado com o jogo, correu a apanhá-lo, ansioso por fazer a sua jogada, mas o disco saltou na terra e atingiu-o na testa. O jovem caiu desmaiado. O deus, pálido como Jacinto, ergueu-o e tratou de aplicar toda a sua arte para estancar o sangue e conservar a vida que se esvanecia, mas tudo em vão: o ferimento estava além dos poderes da medicina. Como um lírio, cujo haste quebrou-se num jardim, curva-se e volta para a terra suas flores, assim a cabeça do jovem moribundo, como se tivesse se tornado muito pesada para o pescoço, pendeu sobre o ombro.


A morte de Jacinto, Merry-Joseph Blondel

- Morreste, Jacinto - exclamou Apolo -, roubado por mim de tua juventude. O sofrimento é teu, e meu o crime. Pudesse eu morrer por ti! Como, porém, isso é impossível, viverás comigo, na memória e no canto. Minha lira há de celebrar-te, meu canto contará teu destino e tu te transformarás numa flor gravada com minha saudade.

Enquanto Apolo falava, o sangue que escorrera para o chão e manchara a erva deixou de ser sangue; uma flor de colorido mais belo que a púrpura tíria nasceu, semelhante ao lírio, com a diferença de que é roxo, ao passo que o lírio é de uma brancura argêntea. E isso não foi bastante para Febo. Para conferir ainda maior honra, deixou seu pesar marcado nas pétalas, e nelas escreveu "Ai! Ai!", como até hoje se vê. A flor tem o nome de jacinto e, sempre que a primavera volta, revive a memória do jovem e lembra o seu destino.

Conta-se que Zéfiro (o vento oeste), que também amava Jacinto e tinha ciúme da preferência de Apolo, desviou o disco de seu rumo para fazê-lo atingir o jovem. Keats faz alusão a isso no "Endimião", quando descreve os espectadores do jogo de argolas:

Contemplam os jogadores dos dois lados
Lembrando, ao mesmo tempo,
A sorte de Jacinto, quando o sopro,
De Zéfiro o matou;
De Zéfiro que, agora, penitente,
Quando Febo se eleva
No céu, as pétalas da florzinha beija.

Também no "Lycidas", de Milton, há uma alusão ao jacinto:

A roxa flor que traz a dor impressa.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 75-76.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Religião na Grécia Antiga

A carruagem de Zeus. Projeto Gutenberg

A religião grega foi politeísta. Através dos tempos, o povo grego criou estórias e lendas a respeito de vários deuses e de sua origem. A essas estórias e lendas, cheias de imaginação e de fantasia, chamamos mitos, e ao conjunto de mitos, mitologia.

Interpretando os mitos, poetas e artistas foram sucessivamente esboçando características peculiares a cada um dos deuses, fixando sua imagem em pinturas e esculturas.

Os deuses gregos, comparados aos deuses de outros povos da Antiguidade que os precederam, não eram distantes, misteriosos; assemelhavam-se aos homens e viviam entre eles. Como os homens, tinham virtudes e defeitos, franquezas e paixões; eram, porém, mais fortes, e imortais; embora invisíveis, podiam aparecer aos mortais sob forma humana. Por isso a mitologia grega não pode ser considerada religião no sentido que nós lhe emprestamos.

Os deuses estavam por toda parte: no céu, no mar, sobre a terra e nas profundezas do solo.

No céu os deuses se agrupavam em torno de Zeus, principal deus, soberano do mundo, que reinava no monte Olimpo, a mais alta montanha da Grécia. Senhor dos fenômenos atmosféricos, dos rios, da chuva, tudo via, tudo sabia, controlando as ações humanas e vigiando as dos demais deuses. Era protetor de toda a Grécia, embora cada cidade tivesse seu deus especial.

Zeus. Pintura romana em Pompeia, Casa dei Dioscuri. Artistas desconhecidos

Junto a Zeus encontrava-se Hera, sua esposa, deusa do casamento, da maternidade, das crianças e dos lares; seus filhos: Apolo - também chamado Febo - deus da luz solar, das profecias e das artes; Ártemis, inicialmente deusa da claridade lunar, mais tarde protetora das florestas e da caça; Hermes, mensageiro dos deuses, protetor dos pastores, dos viajantes, dos comerciantes, dos ladrões, oradores e atletas; e Héstia, que zelava pela chama sagrada que devia arder em todas as casas, em todas as cidades.

No mar reinava todo-poderoso um irmão de Zeus, Posseidon, a quem os navegantes temiam e pediam proteção.

Posseidon segurando um tridente. Placa coríntia. Artistas desconhecidos

Na terra a natureza obedecia à deusa Deméter, protetora dos agricultores, das colheitas de cereais e frutas; zelava pelos vinhedos outro filho de Zeus, o alegre e expansivo Dionísio.

Nas profundezas subterrâneas dominava, como senhor absoluto e sempre invisível, Hades (também chamado Plutão), que atendia ao misterioso reino dos mortos.

Outros deuses do Olimpo, filhos de Zeus, davam especial atenção a certas atividades humanas: Afrodite, deusa do amor; Palas Atena (nascida da própria cabeça de Zeus), deusa da inteligência, da razão, da sabedoria e da paz; Hefésto, deus do fogo, das forjas e dos ferreiros.

Palas Atena. Detalhe de cerâmica grega. Onésimos

Havia ainda divindades menores: as Musas, acompanhantes de Apolo, inspiravam as diferentes criações artísticas e a investigação científica: Clio, a história; Euterpe, a música; Talia, a comédia; Melpômene, a tragédia; Terpsícore, a dança; Érato, a poesia lírica; Polímnia, a mímica; Urânia, a astronomia; Calíope, a poesia épica e a eloquência. As Horas assistiam o desenrolar das quatro estações; as Graças (Cáritas em grego) - auxiliares de Afrodite - dispensavam cuidados especiais ao reino vegetal; as Parcas (Moiras em grego) fiavam, teciam e cortavam o destino dos homens.

Entre os deuses e os homens os gregos criaram ainda os semideuses, os heróis, tidos como seus antepassados, realizadores de proezas e feitos maravilhosos: Héracles (Hércules em latim), Perseu, Jasão, Teseu, Édipo, Orfeu, inspiraram desde a Antiguidade até os dias de hoje a obra de poetas, escritores, pintores, escultores, compositores.


Perseu transformando Fineu e seus seguidores em pedra, Luca Giordano

A religião era o elo da família, dos habitantes de uma cidade, de todos os gregos, pois o culto religioso desenvolvia-se nas casas, nos templos e nos santuários pan-helênicos, isto é, comuns a todos os helenos. Os gregos pediam favores aos deuses ofertando-lhes alimentos e bebidas (leite, mel, vinho) ou sacrifícios de animais. O sacrifício mais solene era a hecatombe (de hecatón = cem, e bous = boi).

Os gregos buscavam sempre conhecer a vontade dos deuses e, para isso, ora interpretavam sinais vários da natureza (presságios), ora consultavam nos santuários os próprios deuses, que por vezes davam sua resposta (oráculo) por meio de uma sacerdotisa. Um dos mais famosos centros de oráculos foi Delfos, onde uma sacerdotisa do deus Apolo, a Pítia (de Pythón = serpente), transmitia aos homens a resposta divina.

Havia grandes festas religiosas que abrangiam jogos e competições artísticas, procissões, espetáculos musicais e teatrais. Algumas eram anuais, características de certas regiões, como as Panatenéias (em honra de Atena) e as Dionisíacas (em honra de Dionísio), celebradas em Atenas. Outras festas, organizadas em certos santuários pan-helênicos, realizavam-se de dois em dois anos (Neméia, Jogos nemeus; Corinto, Jogos ístmicos), ou de quatro em quatro anos (Delfos, Jogos píticos; Olímpia (Jogos olímpicos). Desses jogos os mais famosos foram os olímpicos, em honra de Zeus, e marcavam o início do calendário grego.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 67-69.

sábado, 24 de outubro de 2015

Teseu Θησεύς

Θησεύς

Teseu mata o Minotauro. Casa de Gavius Rufus, Pompeia.

[...]


Androgeu, filho de Minos, de Creta, tendo ido a Atenas para assistir às Panatenéias [jogos de caráter sagrado], tomou parte nos combates, e com tanta galhardia se houve que arrebatou todos os prêmios. Os moços de Atenas, ressentidos, mataram-no.

[...]

Por esse assassinato, Minos armou poderosa expedição, sitiou Atenas e Mégara, apoderou-se das duas cidades e impôs--lhes um tributo pagável cada nove anos, constituído de sete moços e sete moças, que seriam lançados ao monstro Minotauro. O tributo já fora pago três vezes quando Teseu, ao se aproximar o prazo para a nova entrega de jovens, se ofereceu para seguir como um deles.

[...]

Egeu [pai de Teseu e rei de Atenas, embora o mito fale que o verdadeiro pai de Teseu é Posidon, deus dos mares] dera-lhe dois jogos de velas, um preto e outro branco, recomendando-lhe que se voltasse vitorioso, mandasse hastear as velas brancas; se o navio voltasse com velas negras, era sinal de que os jovens enviados tinham morrido. Chegados a Creta, Teseu e seus companheiros foram encerrados no Labirinto, morada do Minotauro, complicada edificação construída por Dédalo, com tantas voltas e corredores, e retorcidos caminhos que quem ali entrasse não atinaria com a saída. No entanto, quando chegaram, Ariadne, uma das filhas de Minos, enamorou-se perdidamente do belo Teseu. Para que encontrasse o caminho de volta, deu-lhe um novelo de fio, que ele deveria amarrar, na entrada, e ir desenrolando. Ariadne pôs uma condição para o seu auxílio. Que ele a desposasse e que a levasse consigo para Atenas. Teseu empenhou-se em luta com o Minotauro, matando-o a punhaladas, e saiu do Labirinto levando os companheiros.

[...]

Com todas as peripécias da viagem, Teseu esqueceu de mandar trocar por velas brancas as pesadas velas negras do navio. Egeu, que, de longe, sobre um promontório, avistara a embarcação de velas escuras, acreditando morto o filho bem-amado, atirou-se ao mar, que desde então passou a se chamar Egeu.

[...]

Teseu, pela morte do pai, subiu ao trono. Seu priemiro ato foi realizar o sinecismo, isto é, reunir numa cidade única os cidadãos disseminados pela região. Atenas foi a capital do Estado constituído. [...] adotou [Teseu] o uso da moeda, dividiu a sociedade em três classes: a dos nobres, a dos artesãos e a dos agricultores. [...]

GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da mitologia grega. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 289-294.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

As epopeias do Ramayana e do Mahabharata रामायण और महाभारत के महाकाव्य

रामायण और महाभारत के महाकाव्य

Rama sentado com Sita , abanado por Lakshmana, enquanto Hanumam faz reverência. Artista desconhecido

Composta entre 400 a.C. e 400 d.C., as duas epopeias se tornaram rapidamente os relatos literários mais populares da Índia, e isso apesar de sua extensão monumental: o Ramayana (As Gestas de Rama), conta com 24 mil versículos, enquanto o Mahabharata (A Grande Gesta de Bharata), é, com quase 100 mil versículos, a maior epopeia de todas as literaturas. As condições de elaboração desses gigantescos poemas não gozam sempre de unanimidade entre os indianistas: para alguns, elas devem ser atribuídas a um único autor, para outros resultam de adições e remanejamentos sucessivos. Seja como for, sua transmissão, pela recitação, pela canção, pelo teatro ou pela dança, nunca foi interrompida até nossos dias.


Krishna e Arjun na carruagem. Artista desconhecido

Pela riqueza de seu conteúdo, de inspiração religiosa e filosófica, essa literatura se dirige a todos. As crianças se entusiasmam com as façanhas maravilhosas do "deus macaco", Hanumam, que ajuda o príncipe Rama a libertar a bela Sita. Os letrados encontram no Bhagavad Gita (Canto do Senhor), que constitui o episódio mais famoso do Mahabharata, do que alimentar sua reflexão sobre os deveres das diferentes castas e a conformidade necessária de sua ação com o Dharma, a ordem cósmica.

Se as duas epopeias são inesgotáveis em matéria de mitologia, é difícil extrair delas fatos de valor histórico. Ainda que certos especialistas tenham visto no Mahabharata  um reflexo dos enfrentamentos que ocorreram entre os árias (ou arianos) e as populações autóctones, no 2º milênio a.C., o significado histórico dessa obra reside sobretudo no fato de que é uma resposta - ou, melhor, uma réplica - dos brâmanes diante da expansão do budismo.

SALLES, Catherine (dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 251.

NOTA: O texto "As epopéias do Ramayana e do Mahabharata रामायण और महाभारत के महाकाव्य" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Quetzalcoatl

Qual é a mensagem de Quetzalcoatl? Sua história é a busca incansável da realização humana. Quetzalcoatl não é um deus que desce à terra para salvar os homens nem um deus que outorga favores. Quetzalcoatl é um fim, o fim do aperfeiçoamento interior, é um homem que se transforma em deus após conseguir libertar-se do condicionamento da matéria. Ao transformar-se, mostra aos demais homens o caminho dessa transfiguração.


Quetzalcoatl

Seu pensamento considera imprescindível escapar da determinação da matéria. Como? Libertando as faculdades criadoras do homem e não as destrutivas. A libertação se efetua sobre a natureza, considerada objeto do trabalho humano, trabalho criativo que a transforma em cerâmicas, esculturas, murais, etc. A cerâmica teotihuacana é caracterizada por uma infinidade de pequenas estátuas de homens em suas atividades transformadoras da natureza. De igual forma, os conjuntos arquitetônicos da cidade tinham essa mesma finalidade. Quanto aos sacerdotes de Quetzalcoatl, estavam submetidos a uma severa austeridade, possuindo um ritual que implicava uma espécie de "comunhão", "confissão dos pecados" e cremação dos corpos para alcançar a imortalidade, parecido ao ritual cristão.

PEREGALLI, Enrique. A América que os europeus encontraram. São Paulo: Atual, 2011. p. 20-21.

NOTA: O texto "Quetzalcoatl" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Vida espiritual: mitologia no mundo greco-romano

Afrodite (Vênus, em Roma) era a deusa do amor, da beleza e da fertilidade. Casada com Hefesto, ela se apaixona por Ares.

Hefesto (Vulcano, pela mitologia romana) era o deus do fogo e das artes da fundição. Feio e manco, quando nasceu foi jogado do alto do monte Olimpo pela mãe, Hera.

Ártemis (Diana, em Roma). Deusa da caça, cuidava da natureza. Protegia a castidade das meninas contra Afrodite.

Zeus (Júpiter, em Roma), era filho de Crono e Reia, ao mesmo tempo mestre dos deuses e dos homens. Seu poder era simbolizado pelo raio. Marido infiel, teve muitos filhos.

Ares (Marte, em Roma) filho único de Zeus e Hera, era o deus da guerra. Apesar de briguento, não vencia os combates.

Atenas (Minerva, em Roma), deusa da guerra, surgiu, armada, da cabeça de seu pai, Zeus. Era também a deusa tutelar de Atenas e, consequentemente, da cidade.

Poseidon (Netuno, em Roma). Irmão de Zeus, reinava sobre o mar. Seu tridente era capaz de provocar tempestades e terremotos.

Hera (Juno, em Roma), irmã e esposa de Zeus, era a deusa do casamento. Ciumenta, ela foi ultrajada por inúmeras infidelidades de seu cônjuge.


Afresco. Concurso entre Vênus e Hesperus, Apolo sentado como juiz. Casa di Gavius Rufus, Pompéia, século I d.C. Artistas desconhecidos.

Apolo (também Apolo em Roma) encarnava a beleza perfeita, a força e a virtude. Deus da luz, às vezes identificado ao Sol, era associado à música e à poesia.

Hermes (Mercúrio, em Roma). Mensageiro dos deuses, reinava nas estradas. Era também o deus do sono e dos sonhos.

BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 1: antiguidade. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 80-81.

NOTA: O texto "Vida espiritual: mitologia no mundo greco-romano" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 30 de novembro de 2013

Os druidas

Os druidas trazendo o azevinho, G. Henry E. Horned

Os druidas eram os sacerdotes entre as antigas nações célticas da Gália, Bretanha e Germânia. O que sabemos a respeito deles é tirado dos escritores gregos e romanos, comparado com o que ainda resta da poesia gaélica.

Os druidas combinavam suas funções de sacerdotes com as de magistrados, sábios e médicos. Colocavam-se, em relação ao povo das tribos célticas, de maneira bem semelhante à que os brâmanes da Índia, os magos da Pérsia e os sacerdotes do Egito se colocavam diante de seus respectivos povos.

Os druidas ensinavam a existência de um deus, a quem davam o nome de “Be’al”, que segundo os entendidos, significa “a vida de tudo” ou “a fonte de todos os seres” e que parece ter afinidade com o Baal dos fenícios. O que torna essa afinidade mais notável é o fato de os druidas, do mesmo modo que os fenícios, identificarem aquela sua divindade suprema com o sol. O fogo era considerado como símbolo da divindade. Os escritores latinos afirmam que os druidas também cultuavam numerosos deuses inferiores.

Não usavam imagens para representar o objeto de seu culto, não se reuniam em templo ou construções de qualquer espécie para a realização de seus rituais sagrados. Seus santuários consistiam em um círculo de pedras (cada uma das quais, em geral, de tamanho muito grande), cercando uma área de vinte pés a trinta jardas de diâmetro. O mais célebre deles é o de Stoneheng, na planície de Salisbury, Inglaterra.

Esses círculos sagrados ficavam, em geral, perto de um rio, ou à sombra de um bosque ou de um frondoso carvalho. No centro do círculo, havia o Cronlech, ou altar, que era uma grande pedra colocada à maneira de uma mesa, sobre outras pedras. Os druidas tinham, também, seus santuários em lugares elevados, com grandes pedras ou montões de pedras no alto dos morros. Eram chamados Cairns e usados para cultuar a divindade simbolizada pelo sol.

Não pode haver dúvida de que os druidas ofereciam sacrifícios à sua divindade. Há, contudo, certa dúvida a respeito da espécie de sacrifício que ofereciam, e quase nada sabemos sobre as cerimônias relacionadas com seus serviços religiosos. Os escritores clássicos (romanos) afirmam que eles ofereciam sacrifícios humanos nas grandes ocasiões, como, por exemplo, para obterem a vitória na guerra ou livrarem-se de moléstias perigosas. César descreve minuciosamente a maneira como isso era feito: “Têm imagens imensas, cujos membros são feitos de madeira trançada e se enchem com pessoas vivas. Essas imagens são queimadas e os que dentro dela se encontram vitimados pelas chamas.” Muitas tentativas têm sido feitas pelos escritores simpáticos aos celtas para desmentir o testemunho dos historiadores romanos a esse respeito, mas sem sucesso.

Os druidas realizavam dois festivais por ano. O primeiro tinha lugar no princípio de maio e era chamado Beltane ou “fogo de Deus”. Nessa ocasião, acendia-se uma grande fogueira em algum lugar elevado, em honra ao sol, cujo benéfico regresso era saudado, depois da sombria desolação do inverno. Reminiscência desse costume perdura até hoje em algumas partes da Escócia, sob o nome de Whitsunday.

O outro grande festival dos druidas era chamado Samh’in, ou “fogo da paz”, e se realizava no princípio de novembro, costume que ainda permanece na região montanhosa da Escócia, sob o nome de Hallow-eve. Por essa ocasião, os druidas reuniam-se em assembléia solene, na parte mais central da região, para desempenhar as funções judiciais de sua classe. Todas as questões, fossem públicas ou privadas, e todos os crimes contra pessoas ou propriedade eram-lhes, então, apresentados, para apreciação e julgamento. Esses atos judiciais estavam ligados a certas práticas supersticiosas, especialmente o ato de acender o fogo sagrado, o qual serviria, por sua vez, para acender todos os fogos da região, que tinham sido, antes, escrupulosamente apagados. Esse uso de acender fogueiras no dia primeiro de novembro foi conservado nas Ilhas Britânicas, até muito depois do advento do cristianismo.

Além dessas duas grandes festividades anuais, os druidas tinham o hábito de comemorar a lua cheia e, especialmente, o sexto dia da lua. Nesse dia procuravam o visco que crescia em seus carvalhos favoritos e ao qual, assim como ao próprio carvalho, atribuíam peculiar virtude e santidade. Sua descoberta era uma ocasião de regozijo e culto solene. “Eles o chamam – diz Plínio – por uma palavra que, em sua língua, significa “cura-tudo” e, tendo feito solenes preparativos para as festividades e sacrifício embaixo da árvore, para ali levam dois touros inteiramente brancos, cujos chifres são, então, amarrados pela primeira vez. O sacerdote, vestido de branco, sobe à árvore e corta, com uma foice de ouro, o visco, que é recolhido em um pano branco, depois do que se processa a matança das vítimas. Ao mesmo tempo, dirigem preces a Deus, para que lhes conceda prosperidade.” Era bebida a água em que o visco fora colocado, tida como remédio para todas as enfermidades. O visco é uma planta parasita e, como não é frequentemente encontrada nos carvalhos, o seu encontro se tornava mais precioso.

A druidesa, Odilon Redon

Os druidas eram mestres de moralidade como de religião. Um valioso exemplo de seus ensinamentos éticos foi conservado nas Tríades dos bardos gaélicos, e dele podemos deduzir que a ideia que faziam da inteira moral era justa em seu conjunto, e que eles adotavam e ensinavam muitas regras de conduta nobres e valiosas. Também eram os cientistas e sábios da sua época e de seu povo. É discutível se estavam ou não familiarizados com o alfabeto, embora haja grande probabilidade de que estivessem, de certo modo. É certo, contudo, que não passaram para a escrita coisa alguma de suas doutrinas, de sua história ou de sua poesia. Seus ensinamentos eram orais e sua literatura (se a expressão pode ser usada em tal caso) preservada apenas pela tradição. Os escritores romanos, todavia, admitem que “eles prestavam muita atenção à ordem e às leis da natureza, e investigavam e ensinavam aos jovens entregues aos seus cuidados muitas coisas referentes às estrelas e seus movimentos, ao tamanho do mundo e das terras e concernente à força e ao poder dos deuses imortais”.

Sua história consistia em narrativas tradicionais, em que eram celebrados os feitos heróicos de seus antepassados. Segundo parece, essas narrativas eram em versos e constituíam, pois, parte da poesia, assim como da história dos druidas. Nos poemas de Ossian, temos, senão verdadeiras produções dos tempos dos druidas, pelo menos o que se pode considerar como fiel representação das canções dos bardos.

Os bardos constituíam parte essencial da hierarquia druídica. A propósito, observa um autor, Pennant: “Supunha-se que os bardos eram dotados de poder igual à inspiração. Eram os historiadores orais de todos os acontecimentos passados, públicos e particulares. Também eram perfeitos genealogistas” etc.

Pennant apresenta uma descrição minuciosa dos Eisteddfods, ou reuniões de bardos e menestréis, que se realizavam no País de Gales durante muitos séculos, muito depois de já terem desaparecido todos os outros setores do sacerdócio druídico. Nessas reuniões somente os bardos de valor podiam apresentar suas peças e somente podiam executá-las os menestréis realmente à altura. Eram nomeados juízes para decidir o valor dos concorrentes e conferir-lhes os graus adequados. Primitivamente os juízes eram nomeados pelos príncipes de Gales e, depois da conquista do país, por designação dos reis da Inglaterra. Conta a tradição, porém, que Eduardo I, em represália à influência exercida pelos bardos para estimular a resistência do povo ao seu jugo, perseguiu-os, com grande crueldade. Essa tradição ofereceu ao poeta Gray o assunto para a sua conhecida ode, “O Bardo”.

Ainda se realizam, ocasionalmente, reuniões dos amantes da poesia e da música gaélicas, conservando essas reuniões o seu antigo nome.

O sistema druídico estava em seu apogeu por ocasião da invasão romana comandada por Júlio César. Aqueles conquistadores do mundo dirigiram toda a sua fúria contra os druidas, considerando-os seus principais inimigos. Os druidas, perseguidos em toda parte do continente, refugiaram-se em Anglesey e Iona, onde encontraram abrigo e continuaram a prática de seus ritos, agora proibidos.

Mantiveram seu predomínio em Iona, no litoral e nas ilhas adjacentes, até que foram suplantados e suas superstições vencidas pela chegada de São Columbano, apóstolo da Escócia que converteu os habitantes ao cristianismo.


BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 333-336.