"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 15 de março de 2016

Tensões sociais na República Velha: reações à modernização

As transformações políticas e econômicas que marcaram as primeiras décadas do século XX foram acompanhadas por uma série de conflitos de vários tipos. De um lado, a urbanização crescente gerou o aumento das camadas pobres nas cidades, assim como o confronto de seus interesses com os dos novos habitantes, latifundiários, comerciantes e industriais. A preocupação em modernizar os centros urbanos e torná-los mais adequados a seu usufruto levou-os a expulsar pouco a pouco, para a periferia, a população pobre. A tensão assim gerada propiciou revoltas, como a do Rio de Janeiro, em 1904, contra a obrigatoriedade da vacina contra a varíola, aplicada truculentamente por agentes do governo.


Capa da Revista da Semana sobre a Revolta da Vacina, 1904

No campo, a modernização da economia abalou as antigas relações sociais, marginalizando uma parte significativa da população. O resultado foi o surgimento de grupos como os dos cangaceiros, que agiam no sertão nordestino, e de líderes messiânicos como o padre Cícero, no Nordeste, e José Maria, na região do Contestado - onde eclodiu uma revolta que durou de 1912 a 1915.


Cangaceiros, Aldemir Martins

Ocorreram ainda manifestações de insatisfação em outros setores, como o dos marinheiros, que se rebelaram em 1910 - na chamada Revolta da Chibata - contra os castigos físicos comuns na Marinha daquele tempo.


Marinheiros durante a Revolta da Chibata - João Cândido ao centro, 1910. Fotógrafo desconhecido

A substituição dos escravos por imigrantes, principalmente em São Paulo, onde a imigração era subvencionada pelo governo estadual, levou à entrada no país de um grande número de trabalhadores europeus. Embora a maioria dos imigrantes tenha permanecido na agricultura, muitos mudaram-se para as cidades, onde se empregaram na indústria nascente. Trazendo consigo uma experiência de relações de trabalho diferente daquela conhecida até então no Brasil, logo trataram de se organizar em torno de jornais e sindicatos operários. Buscavam lutar por melhorias nas suas condições de vida, extremamente precárias devido aos baixos salários e à falta de direitos básicos, como a definição de uma jornada diária compatível e de normas de segurança no trabalho. O resultado foi a crescente eclosão de greves, especialmente nas regiões de maior concentração industrial, paralelamente aos conflitos no campo.

CAMPOS, Flávio de; DOLHNIKOFF, Miriam. Atlas História do Brasil. São Paulo: Scipione, 1993. p. 44.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O surgimento da classe operária brasileira

Os primeiros operários brasileiros surgiram ainda em plena sociedade escravista. Muitas de nossas primeiras empresas industriais caracterizavam-se pelo trabalho conjunto de operários livres e escravos. Somente com a abolição tal quadro mudaria. Até lá, porém, essa coexistência atrapalharia muito a afirmação do operariado como classe entre nós.

Esses primeiros operários originavam-se das camadas mais pobres da população urbana, sendo muitos deles menores, retirados de asilos ou casas de caridade, diretamente para o regime das fábricas. As condições de trabalho e de vida desses aprendizes não eram melhores do que as de muitos escravos, formando um contingente significativo de trabalhadores não-especializados. Adultos e crianças chegavam a trabalhar até dezesseis horas por dia, sem folga semanal ou qualquer outro direito.


Operários diante da fábrica, São Paulo, pousando para a fotografia coletiva, fins do século XIX

Já os operários qualificados, necessários ao desenvolvimento industrial, eram contratados quase sempre na Inglaterra e sofriam muitas dificuldades de adaptação ao clima do país, além de saírem bem mais caro para os primeiros industriais, que eram obrigados a pagar-lhes salários maiores do que os que estavam acostumados a pagar.

A entrada em massa de imigrantes no Brasil, a partir de 1870/1880, começou a alterar a composição do operariado brasileiro. Os estrangeiros - italianos, portugueses, espanhóis - aos poucos tornaram-se maioria nas fábricas do Rio e de São Paulo, situação que se manteve mesmo após a abolição. Somente nos centros industriais menos dinâmicos, como aqueles situados na Bahia, Pernambuco ou Pará, predominou o emprego da mão-de-obra nacional na indústria.

O crescimento da grande indústria, verificado na virada do século XIX para o XX, pouco contribuiu para melhorar as condições de vida dos operários. A superexploração do trabalho industrial não só se manteria, como seria agravada, em função de um novo fato: a incorporação maciça de mulheres e crianças ao trabalho fabril. É bom lembrar que esses últimos recebiam salários ainda menores do que os trabalhadores adultos.


Saudades de Nápoles, Bertha Worms
[A obra retrata um menino italiano engraxate, figura bastante comum nas ruas de São Paulo na época]

Outro fator que favorecia a superexploração era a ameaça do desemprego ou da diminuição temporária de frentes de trabalho. Com a chegada de novos imigrantes às cidades, a oferta de mão-de-obra aumentava, provocando demissões e desvalorização dos salários.

MENDONÇA, Sônia. A industrialização brasileira. São Paulo: Moderna, 1996. p. 20-22. (Coleção Polêmica)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Experiências anarquistas: a Colônia Cecília

Colônia Cecília

Na segunda metade do século XIX cresceu a imigração européia para o Brasil e outros países americanos. Os problemas socioeconômicos e políticos, existentes em diversas sociedades européias, funcionaram como fatores para a saída de milhares de cidadãos buscando melhores condições de vida em terras americanas.

A maioria desses imigrantes era constituída de camponeses e operários. Mas também havia profissionais liberais, artesãos...

Muitos dos imigrantes nasceram na Itália, um dos países onde o anarquismo levava seus adeptos a sonhar com a criação de uma nova sociedade. Uma sociedade sem propriedade privada, sem patrões, sem limitações à liberdade e onde a justiça fosse igual para todos.

Foi assim sonhando que imigrantes italianos fundaram a Colônia Cecília, nos campos de Guarapuava, no sul do estado do Paraná. Era o mês de abril do ano de 1890. Em janeiro de 1891 chegou uma segunda leva de imigrantes. A comunidade reunia, então, cerca de 300 pessoas, que acreditavam tornar realidade o que existia apenas nos livros e nas cabeças dos homens. Muitas experiências sociais vinham sendo realizadas no Novo Mundo. Além do mais, no Velho Mundo não existiam mais terras sem proprietários.

Fora D. Pedro II quem doara 300 alqueires de terras para a instalação da colônia de italianos. A monarquia, no entanto, fora suprimida no Brasil, mas a doação representava uma extensão de terras que servia como atrativo para os imigrantes.

O idealizador do projeto e responsável pela obtenção da concessão fora o agrônomo Giovanni Rossi, líder anarquista. Ele também sugerira a denominação de Colônia Cecília, inspirada em personagem de um romance que escrevera.

Ao se instalarem em terras paranaenses, os imigrantes logo ergueram um mastro, onde foi colocada a bandeira preta e vermelha. Essas cores eram o símbolo dos anarquistas e também atuariam como fator de propaganda.

A seguir, construíram suas habitações. Eram de madeira e podiam ser de dois tipos: barracões grandes, servindo de moradia coletiva, ou, então, casas menores para famílias reunindo pai, mãe e filhos.

O objetivo de todos era criar uma comunidade agrícola, fundamentada na autogestão econômica. As decisões deveriam ser aprovadas nas assembléias gerais, onde homens e mulheres teriam liberdade de expressão e de voto. Caso algum problema exigisse solução individual, esta deveria ser discutida posteriormente pela coletividade. Nas assembléias também procurava-se aprofundar o conhecimento da ideologia anarquista.

O cultivo do milho era prioritário e até construíram um moinho para produzir fubá. Plantaram árvores frutíferas, um pomar e um vinhedo. Criavam galinhas, porcos e marrecos. Compraram vacas leiteiras. E tudo faziam sem ter patrão, feitor, gerente, superintendente, chefe, guia ou qualquer regulamento estabelecendo regras fixas. Era a vontade coletiva de tornar realidade o que era considerado utopia.

Enquanto a terra plantada não produzia, uma parte dos colonos iniciou a feitura de barricas. Feitas com madeira dos pinheiros abundantes da região, eram vendidas na cidade de Palmeira, onde serviam para guardar erva-mate.

Outra parte dos colonos aceitou trabalhar na construção de uma rodovia ligando Serrinha a Santa Bárbara.

O pagamento recebido por essas atividades garantia recursos para comprar o que fosse necessário para todos: alimentos, roupas, remédios, calçados, instrumentos de trabalho...

O trabalho coletivo ergueu silos para guardar a colheita. Também represou as águas do rio das Pedras, construindo um tanque para criação de peixes.

A produção era para o consumo coletivo, e os excedentes eram vendidos para a cidade de Palmeira. A importância apurada devia ser guardada em caixa comum, de acesso a qualquer um.

Na Colônia Cecília havia uma escola, e na casa comunal, além das assembléias para orientação das tarefas e discussões políticas, realizavam-se festas e debates sobre questões gerais. Apesar das dificuldades, a colônia se desenvolveu.

Sua desintegração ocorreu por várias razões. Uma delas foi a epidemia de crupe que vitimou vários colonos. Outro fator da desagregação foi a fuga à vida comunitária, seja porque muitas pessoas não se adaptaram ao trabalho rural, seja porque preferiram se afirmar profissionalmente nas cidades.

Igualmente importante foi o fato de um dos colonos ter se apropriado do dinheiro apurado com a venda dos excedentes da produção de 1893.

Em meio ao desânimo geral, a Colônia Cecília sofreu os efeitos da conjuntura de lutas e violências que marcaram o governo Floriano Peixoto, principalmente com a Revolução Federalista (1892-1895). A existência do Batalhão Ítalo-Brasileiro, formado em Curitiba para lutar contra o governo federal, acabou resultando na invasão da Colônia Cecília pelas tropas legalistas. Quando os soldados se retiraram, o moinho estava quebrado, os instrumentos de trabalho haviam sido destruídos, muitas casas e o tanque arrasados, o milho colhido e as sementes jogados no rio das Pedras... Além do mais, os governistas invasores carregaram os alimentos armazenados e os animais de criação.

Foi o fim. Os sobreviventes se dispersaram. Estávamos nos primeiros meses de 1894. Terminara o sonho da Colônia Cecília, baseado no trabalho livre, na vida livre, no amor livre. Terminava uma experiência diferente da estrutura agrária dominante na economia brasileira.


AQUINO, Rubim Santos Leão de [et al]. Sociedade brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neoliberalismo. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 134-136.

NOTA: O texto "Experiências anarquistas: a colônia Cecília" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

El Diablo es extranjero

Imigração, Fabrício Dom

El culpómetro indica que el immigrante viene a robamos el empleo y el peligrosimetro lo señala con luz roja.

Si es pobre, joven y no es blanco, el intruso, el que vino de afuera, está condenado a primera vista por indigencia, inclinación al caos o portación de piel. Y en cualquer caso, si no es pobre, ni joven, ni oscuro, de todos modos merece la malvenida, porque llega dispuesto a trabajar el doble a cambio de la mitad.

El pánico a la pérdida del empleo es uno de los miedos más poderosos entre todos los miedos que nos gobiernan en estos tiempos del miedo, y el immigrante está situado siempre a mano a la hora de acusar a los responsables del desempleo, la caida del salario, la inseguridad pública y otras terribles desgracias.

Antes, Europa derramaba sobre el sur del mundo soldados, presos y campesinos muertos de hambre. Esos protagonistas de las aventuras coloniales han pasado a la historia como agentes viajeros de Dios. Era de Civilización lanzada al rescate de la barbarie.

Ahoram el viaje ocurre al revés. Los que llegan, o intentan llegar, desde el sur al nortem son protagonistas de las desventuras coloniales, que pasarán a la historia como mensajeros del Diablo. Es la barbarie lanzada al asalto de la Civilización.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.116-117.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Imigrantes 5: Vivendo a América

Mulher e criança japonesa na limpeza do cafezal. Interior do Estado de São Paulo. Museu Histórico da Imigração Japonesa

Texto 1. Do lado esquerdo, toda a parte em que havia varanda foi monopolizada pelos italianos; habitavam cinco a cinco, seis a seis no mesmo quarto, e notava-se que nesse ponto a estalagem estava já muito mais suja que nos outros [...]

Era uma comuna ruidosa e porca a dos demônios dos mascates! Quase que se não podia passar lá, tal a acumulação de tabuleiros, de louça e objetos de vidro, caixas de quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de folha-de-flandres, o diabo! E tudo isso no meio de um fedor nauseabundo de coisas podres que empesteava o cortiço. (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Abril Cultural, s.d. p. 203-204.)

Texto 2. "Dadas as condições de trabalho, e emigração para as fazendas pode convir só quando o camponês tem uma família numerosa, isto é, quando pode dispor de muitos braços e três ou quatro crianças que o ajudem na colheita, mas sobretudo quando tem uma mulher ativa e inteligente que saiba usufruir das vantagens que a fazenda lhe oferece: a horta, a lenha dos bosques, o pasto, que saiba fazer sabão, a charcuteria (linguiça, salame, etc.), criar porcos e galinhas; que saiba, ainda, sozinha educar, vestir e lavar a pequena família [...]". (G. Lombroso, 1908)

Entre quatro e meia e cinco horas da manhã começavam a trabalhar; às nove e trinta, a mulher do colono ou alguma criança levava o almoço, no qual se gastava meia-hora, pois às dez horas retornava-se ao trabalho. Ao meio-dia novamente um dos membros da família levava um pouco de café com pão e parava-se por mais quinze minutos. Em seguida, trabalhava-se até as dezessete e trinta sem nenhum descanso, para recomeçar tudo de novo no dia seguinte.

Nada se permitia além do trabalho, porque qualquer centavo dispendido a mais significava menos economia. (ALVIM, Zuleika M. F. Brava Gente! Os italianos em São Paulo (1870-1920). São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 17 e 100)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Imigrantes 4: Fazendo a América

Imigrantes na colheita da laranja. Limeira, São Paulo. Museu da Imigração

Originário de tradicional família salernitana, à qual pertenceram homens ilustres nas letras e nas profissões liberais, Francesco Matarazzo não viera ao Brasil como simples emigrante. Embarcado num navio a vela, em 1881, chegou ao Rio de Janeiro depois de setenta dias de viagem, com uma carga de vinhos e queijos italianos que deveria constituir a base para o início de suas atividades comerciais no Brasil. Enquanto estava tratando das práticas alfandegárias, porém uma violenta tempestade provocou o naufrágio do navio e a perda total da carga. [...]

Com seu espírito eminentemente prático e uma exata visão da realidade, aliados àquele otimismo que sempre constituiu uma de suas características principais, Matarazzo, após ter observado as modestas possibilidades econômicas da então pequena e sonolenta cidade de São Paulo, resolveu estabelecer-se em Sorocaba, centro de negócios das prósperas zonas agrícolas do interior paulista. [...]

Foi naquele ambiente favorável ao comércio, que Matarazzo iniciou suas atividades, abrindo uma pequena loja de artigos rurais. Entre os produtos mais importantes da região estavam os suínos e, trocando mercadorias por animais, Matarazzo iniciou suas atividades industriais, com a fundação de uma rudimentar fábrica de banha. [...]

Seu profundo senso de equilíbrio e sua admirável visão dos negócios, faziam com que ele construísse por graus cada novo edifício, sobre bases graníticas que poderiam definitivamente resistir a qualquer peso e desafiar qualquer circunstância. [...]

Do artigo publicado em 1930 pelo Diário de São Paulo sob o título "O estado Matarazzo", extraímos este trecho:

"Existe um novo estado brasileiro. Entre as vinte unidades da Federação, e mais o Distrito Federal e o Território do Acre, existe um estado economicamente rico como São Paulo e mais rico, como volume da riqueza, do que o erário do Distrito Federal ou de Minas ou do Rio Grande do Sul. Referimo-nos ao "Estado Matarazzo" que afortunadamente não se localiza apenas no País de Piratininga, pois abraça a geografia econômica do inteiro Brasil. Enquanto São Paulo tem uma renda bruta de 400 mil contos, Minas de 140 mil, Rio Grande do Sul de 130 mil e a prefeitura carioca de 270 mil, o parque industrial Matarazzo encaixa 350 mil contos. Não há dúvida, portanto, que o conde Francisco Matarazzo financeiramente e economicamente constitui o segundo Estado do Brasil."

CENNI, Franco. Italianos no Brasil. São Paulo: Martins, 1975. p. 207-209.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Imigrantes 3: Como imigravam?

No último dia de permanência no porto britânico, o mesmo oficial de recrutamento veio pela terceira vez a bordo do navio, quando o imediato chamou quatro ou cinco passageiros pelo nome e disse-lhes na presença do capitão, que eles deviam ser soldados e que deveriam ir com o oficial. Eles responderam que não tinham a intenção de ser soldados, que desejavam tão-somente ir para a América. Em consequência, o capitão e o imediato agarraram um dos "passageiros", de nome Samuel Vogel, e o arremessaram dentro do bote pertencente ao oficial de recrutamento, o qual estava ao lado do navio. Entretanto, Vogel retornou para bordo do navio, desceu (às cabinas) e escondeu-se, mas foi de novo compelido a voltar atrás com suas roupas, quando o oficial de recrutamento viu-o corar, declarou que ele não precisaria vir com ele e deixou o navio, comentando que não teria vindo a bordo se o capitão não o tivesse pressionado, no dia anterior. O capitão ficou muito alterado com esses homens que rejeitaram o recrutamento e declarou que eles não teriam nada para comer a bordo, que podiam morrer de fome e ordenou que um deles fosse açoitado pela recusa, o que foi executado da maneira mais cruel.


Imigrante italiana. Foto de passaporte. Itália, década de 1920. Museu da Imigração.

[...] a totalidade dos passageiros, ainda no porto inglês, acusou o capitão de que o tratamento que os homens haviam sofrido não estava de acordo com o combinado (no porto de saída) em Tönningen. O capitão respondeu que eles não estavam mais em Tönningen nem na América, mas na Inglaterra.

Reiniciaram a viagem e depois de quatorze dias o capitão informou que nada mais havia para comer exceto pão e carne. Depois disso, cada pessoa recebeu dois biscoitos, uma caneca de água e a oitava parte de uma libra de carne por dia (aproximadamente 50 g). Essas normas continuaram por duas ou três semanas, quando os passageiros declararam que não poderiam subsistir por mais tempo com a quantidade ínfima que recebiam. Com isso, sem dúvida iriam definhar. A fome e a sede até aquele momento eram grandes, e as crianças choravam continuamente por pão e água. Ante tal situação, alguns homens decidiram procurar pão e arrombaram a despensa, de onde tiraram um pouco. Descobertos pelo capitão e como entre eles estavam alguns daqueles que haviam se recusado a recrutar-se e haviam desobedecido às ordens, foram amarrados e receberam vigorosas chicotadas nas costas. Todos os passageiros foram punidos. Os homens deixaram de receber pão, e as mulheres passaram a receber apenas um biscoito.

Essa punição continuou por nove dias, quando os homens tiveram novamente permissão para receber um biscoito por dia. Entretanto o capitão rapidamente anunciou um dia de jejum compulsório. As condições tornaram-se terríveis, tanto que aquelas cinco pessoas e mais vinte (homens, mulheres e crianças) padeciam extremamente pela necessidade do mínimo para viver, que seria, em último caso, pão. Em pouco tempo, ficaram reduzidos a dez. As crianças remanescentes ficavam estáticas junto ao seio de suas mães. A fome era tão grande a bordo que sofregamente procuravam ossos, estilhaçavam-nos com um martelo e comiam-nos. Porém o mais lamentável era que algumas pessoas já próximas da morte arrastavam-se até o capitão e imploravam pelo "amor de Deus" que lhes desse um pedacinho de pão e um gole de água para que ao menos se mantivessem em inanição. Mas suas súplicas eram em vão, o capitão mais obstinadamente negava e, assim, eles morriam. O choro das crianças por pão era, como foi informado, tão grande, que seria impossível a um homem descrevê-lo

GEYER JR., Andreas. "Letter to the German Society of Philadelphia". In: RAPP, Friedrich. Immigration and the Comissioners of Immigration. New York, 1870. p. 183-5. Apud HANDLIN, Oscar. Immigration as a factor in American History. New Jersey: Prentice Hall, inc. Englewood Cliffs, 1959.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Imigrantes 2: Por que imigravam?

O Emigrante, José Malhoa

Este trecho é extraído da canção Italia bella, mostrati gentile, provavelmente datada de 1899. Esta canção foi encontrada em Porciano, cidadezinha da província de Arezzo, na Toscana, de onde saíram muitos imigrantes para a América, desde o final do século XIX até o início do século XX:

Itália bela, mostre-se gentil
e os filhos não a abandonarão,
senão vamos todos para o Brasil,
e não se lembrarão de retornar.
Aqui mesmo ter-se-ia no que trabalhar
sem ser preciso para a América emigrar.

O século presente já nos deixa,
o mil e novecentos se aproxima.
A fome está estampada em nossa cara
e para curá-la remédio não há.
A todo momento se ouve dizer:
eu vou lá, onde existe a colheita do café.

ALVIM, Zuleica M. F. Brava gente. Os italianos em São Paulo - 1870-1920. São Paulo: Brasiliense, 1986.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Imigrantes 1: Quem imigrava?

Imigrantes, Antonio Rocco

Por volta de 1870 a Itália, oitavo país da Europa em extensão e quinto em população, com cerca de vinte e cinco milhões de habitantes, era bastante pobre. O Estado, a partir da unificação, tinha feito esforços no sentido de promover o comércio e a indústria: as duanas internas foram extintas, os túneis internacionais se encontravam em construção e os portos vinham sendo melhorados. Em 1878 já havia 8.208 quilômetros de vias férreas que até 1873 não passavam de 6.882 quilômetros. A indústria começou a tomar maior vulto em fins da década de 70; no entanto, a produção nacional permanecia essencialmente agrícola, e salvo nos vales do Pó e da Campânia, a agricultura, baseada numa técnica insuficiente, produzia um rendimento medíocre. Uma economia apoiada em grandes latifúndios subsistia na Sicília, no sul da Itália e no vale do Pó.

O progressivo aumento da população e o pauperismo decorrente da falta de trabalho existente devido à má situação da agricultura e da indústria acarretavam uma enorme desproporção entre a oferta e a procura da mão-de-obra. Outro fator negativo era o salário dos trabalhadores, o qual, muitas vezes, não era proporcional ao custo dos gêneros indispensáveis à existência. Na Itália havia grande dificuldade para se encontrar ocupação, que era quase impossível em algumas estações do ano. Os que trabalhavam na lavoura, nessas ocasiões, seguiam para as cidades à procura de emprego e de um melhor salário, provocando um excesso de mão-de-obra nas regiões urbanas, piorando, não raro, a situação de desemprego.

Existia um número considerável de indivíduos que viviam com muitas dificuldades como o demonstra o caso transcrito pelo Correio Paulistano, de 3 de janeiro de 1880: a um anúncio, requisitando mil trabalhadores para a estrada de ferro da Alta-Itália, a cada um dos quais se pagaria 720 réis (em moeda brasileira) diários, responderam 58 mil candidatos.

De 1873 até mais ou menos 1900 o país apresentava-se numa situação de intranquilidade: seu estado político, sua posição europeia, bem como o seu estado econômico não estavam estabilizados.

Tal situação constrangia o italiano menos afortunado a migrar para outros recantos, frequentemente longínquos, em busca de uma vida melhor e uma posição econômica mais estável.

Se encararmos a emigração dos italianos em geral, isto é, daqueles que partiram da Itália para os diversos países imigratórios, quer da Europa, África, Ásia ou das Américas, verificamos que, na Itália, a emigração permanente contava com um alto contingente de agricultores; porém, estes não constituíam a totalidade. Em 1876 a média foi de 55% a 65%, sendo que por volta de 1895 o máximo atingido foi de 70%. O contingente de artesãos e operários, na emigração permanente, até 1886, manteve uma proporção de 10 a 18%, reduzindo-se em seguida, para 8 e 6%. A porcentagem destes era maior na emigração temporária do que na permanente.

Os indigentes também constituíam uma porcentagem no contingente emigratório, tanto no temporário como no permanente, representando 1% em média.

A média anual de comerciantes e industriais era de cerca de 2% para a emigração permanente e 1,5% para a temporária. Ainda mais restrita era a emigração de pessoas que exerciam profissões liberais e de artistas de teatro.

HUTHER, Lucy Maffei. Imigração Italiana em São Paulo (1880-1889). São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo nº 22, 1972. p. 15-17.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Imigração, abolição e industrialização no Império

Estrada de Ferro Mauá, a primeira ferrovia do Brasil

Na segunda metade do século XIX ocorrem alguns fenômenos importantes que irão introduzir algumas modificações na estrutura econômica e social do país, contribuindo para o desenvolvimento relativo do mercado interno e estimulando o processo de urbanização. Primeiro, a transição do trabalho escravo para o trabalho livre: a cessação do tráfico em 1850 e a entrada de numerosos imigrantes no sul do país. Em segundo lugar, a instalação da rede ferroviária, iniciada em 1852 e que no final do século atingiria a mais de 9.000 km construídos e 15.000 em construção. Finalmente, as tentativas, bem-sucedidas, de industrialização e o desenvolvimento do sistema de crédito.

A partir de 1850, com a cessação do tráfico e o aumento crescente dos preços de escravos, o problema era tanto mais grave quanto a diminuição da oferta de mão de obra escrava coincidia com a expansão das lavouras cafeeiras no sul do país. As dificuldades de obtenção da mão de obra escrava estimulariam as tentativas de substituição do escravo pelo imigrante e provocariam o deslocamento de parte dos escravos das regiões decadentes do nordeste para as prósperas regiões cafeeiras. Simultaneamente se processaria a transferência da mão de obra escrava dos centros urbanos para as zonas rurais. O crescimento do setor assalariado ampliaria o mercado interno, criando uma base para o futuro desenvolvimento industrial.

O aperfeiçoamento do sistema de transportes (substituição do transporte em lombo de burro e carro de boi pelas ferrovias, a generalização do uso do navio a vapor, na segunda metade do século XIX) coincide com a demanda crescente de café pelo mercado internacional, acarretando uma especialização crescente da produção cafeeira. [...]

Desde os meados do século, imigrantes europeus começaram a entrar em número crescente no Brasil, principalmente entre 1870 e 1900, sendo que o período de maior imigração situa-se nos anos que se seguem à abolição. Só o Estado de São Paulo recebeu em pouco mais de um decênio, isto é, entre 1890 e 1901, cerca de 700.000 colonos: italianos, portugueses, espanhóis e austríacos, não contando os de outras nacionalidades. [...]

No estado de São Paulo, os imigrantes, assim que puderam, abandonaram as lavouras de café onde viviam em precárias condições. Muitos, desiludidos, voltaram à sua pátria de origem ou imigraram para outras áreas. Outros localizaram-se em núcleos urbanos, onde se dedicaram ao comércio ou artesanato, às manufaturas e aos pequenos serviços. Outros, ainda que originalmente se destinavam à lavoura, preferiram, logo ao chegar, localizar-se nas cidades. Alguns já vieram com o objetivo de se fixarem nos núcleos urbanos, como os artesãos e comerciantes ingleses e franceses que se estabeleceram na cidade do Rio de Janeiro durante o século XIX. [...]

COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Ciências Humanas, 1979. p. 193-195.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Habitações populares em São Paulo no início do século XX

Crianças engraxando sapatos, foto de Vincenzo Pastore

Sabemos que muito antes dos técnicos realizarem suas pesquisas como forma de qualificar o baixo padrão de vida dos operários e de propor a construção de moradias econômicas em São Paulo, estes já haviam se cansado de reivindicar o direito a melhores condições de vida na cidade. Lembramos que muitos operários e trabalhadores moravam em cortiços porque seus salários reduzidos não pagavam o alto aluguel exigido pelos proprietários da cidade. [...]

Na década de 1920, o Brás, a Mooca, o Bom Retiro, Belém, Belenzinho, Pari, Barra Funda, Água Branca, Cambuci, Ipiranga, Penha e Pinheiros constituíam os principais bairros operários de São Paulo. Neles, ao lado dos operários, habitavam outras categorias de trabalhadores, entre eles, os vendedores de leite de vaca e cabra, de lenha, de castanha, batata-doce, vassoura, amendoins, os tripeiros, pizzaiolos, alfaiates, amoladores de faca, pipoqueiros, compradores de ferro-velho, garrafas, sacos vazios, chumbo, metal e cobre.

Com os operários e os vendedores ambulantes viviam também os comerciantes, isto é, os donos de cantinas, padarias, sapatarias e chapelarias. Alguns comerciantes moravam com suas famílias em sobrados cuja parte térrea era utilizada para fins comerciais, tais como padaria, armazéns e lojas. A parte superior era utilizada como moradia para a própria família. Contudo, não eram os comerciantes a categoria que mais sofria com os altos aluguéis, dado que, muitos deles conseguiram comprar suas casas logo no início da formação dos bairros. O Brás foi um dos bairros populares que atraía vários imigrantes pela facilidade dos transportes, pelas oportunidades de trabalho e, sobretudo, pelo baixo preço dos terrenos, considerados insalubres devido às inundações. Mesmo sendo bairros novos, não estavam contudo isentos dos porões e cortiços. No Bexiga, até as décadas de 30 e 40, as famílias usavam o mesmo pátio, compartilhavam do mesmo vaso sanitário, a alimentação era feita nos seus próprios aposentos. Muitos cortiços possuíam: "... um corredor central onde se abriam as portas e janelas dos quartos que se alinhavam de ambos os lados".

Ao retratar as condições insalubres dos cortiços, seus moradores não esqueciam de enfatizar a existência de redes de solidariedade como forma de suportar a miséria em que viviam.

"Naquele tempo, o Bexiga já era o bairro dos cortiços. Num dos quartos dormíamos os seis irmãos, era apertado, havia ratos e baratas, mas não sentíamos a miséria, éramos no bairro uma grande família, onde todos se ajudavam. [...]"

CARPINTEIRO, Marisa Varanda Teixeira. Imagens do conforto: a casa operária nas primeiras décadas do século XX em São Paulo. In: BRESCIANI, Stella (org.). Imagens da cidade - séculos XIX e XX. São Paulo: ANPUH/Marco Zero/Fapesp, 1994. p. 141-142.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Brasil dos imigrantes

Navio de Emigrantes, Lasar Segall

Eis um país forjado por exilados. Foram, de fato, "povos transplantados" - para usar a expressão de Darcy Ribeiro - aqueles que construíram esta nação. Após quase 30 anos de abandono, apenas em 1532, com a criação das capitanias hereditárias, Portugal começou a fincar as raízes da primeira civilização europeia a se estabelecer nos trópicos - região que os próprios europeus imaginavam, e até descreviam, ora como paraíso ora como inferno. Massacrados os indígenas, miscigenados os portugueses, procriados os mamelucos e cafuzos, o país seria erguido pelo braço escravo: cerca de 4,5 milhões de negros foram trazidos da África para o Brasil ao longo de quatro séculos de tráfico. Com o fim da escravatura - ou, pouco antes, com a efervescência da campanha abolicionista - o país deu início a "importação em massa" de imigrantes europeus.


Emigrantes III, Lasar Segall

De 1886 a 1914, quase três milhões de estrangeiros vieram para o Brasil na tentativa de "fazer a América": foram, mais exatamente, 2,71 milhões os imigrantes que chegaram ao país em 28 anos. Eles fizeram do Brasil uma das três nações do mundo que mais se abriram para o fluxo migratório - EUA e Canadá são as outras duas. As causas dessa vertiginosa transmigração de povos são várias e suas consequências, duradouras e complexas. Embora seja, em seu fundamento, uma nação luso-africana, o Brasil se tornaria também, em especial no Sul, um país altamente europeizado. Imigrantes japoneses, árabes e judeus viriam a seguir, dando uma contribuição igualmente notável.


Tarantella, Henrique Bernardelli

O caldeirão de raças forjou uma nova nação. Mas não foi um processo tranquilo e orgânico. Pelo contrário: os conflitos inerentes da adaptação desses povos ao "novo mundo dos trópicos" acabaram por constituir a própria alma do Brasil. "A tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, senão adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. [...] O certo é que todo fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem", anotou Sérgio Buarque de Hollanda na abertura de seu clássico Raízes do Brasil.

No cafezal, Georgina de Albuquerque

Depois de portugueses e africanos, foram os italianos aqueles que chegaram em maior número ao Brasil: 1,6 milhão em mais de cem anos (921 mil apenas entre 1886 e 1900). O segundo maior contingente de imigrantes veio da Espanha: 694 mil em um século. Os alemães vêm a seguir, com 250 mil. Os japoneses ocupam o quarto lugar, com 229 mil imigrantes. Esses povos não modificaram apenas os hábitos, a língua, as formas de pensar, de agir e de se alimentar: mudaram a própria imagem que o país fazia de si mesmo. E, se não puderam mudar "o clima", transformaram profundamente "a paisagem": especialmente no Sul, o "imperialismo ecológico" dos "povos transplantados" fez brotar um Brasil europeizado, com outras árvores, outros animais, outras raízes. E, é claro, outras gentes: afinal, se na planície litorânea os povos Tupi foram massacrados para dar lugar aos colonos lusitanos, nas serranias do Sul, os Kaingang seriam exterminados para "liberar" a terra para os imigrantes teuto-italianos. No caldeirão brasileiro, algumas raças são mais iguais que outras.

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2003. p. 264.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Rebeliões nas províncias na época da Regência e no Império

Batalha dos Farroupilhas, de José W. Rodrigues.

Texto 1
A proliferação de rebeliões nas províncias na época da Regência refletiu um desejo de autonomia em relação ao governo central. Este nomeava os presidentes de província, cobrava impostos e nem sempre aplicava os recursos financeiros na própria província que havia sido tributada.

Essa questão permite entender especificamente a Revolução Farroupilha, que não foi, sob nenhum aspecto, um movimento popular.

No caso das rebeliões ocorridas no Norte e no Nordeste, outros fatores ainda interferiram: a existência de massas pobres e livres, os deserdados do sistema; a escravidão. o declínio das principais exportações como algodão, fumo e açúcar; a estagnação econômico-social da região.

Nessas regiões, além de reivindicações políticas por mais autonomia provincial, somaram-se os graves problemas sociais. É o caso da Cabanagem e da Balaiada.

Normalmente, as elites locais se mobilizavam contra o governo central em defesa de certos ideais políticos liberais e convocavam as massas populares para participarem dos movimentos. Num segundo momento, perdiam o controle sobre essas camadas populares, pois estas tinham suas próprias reivindicações, como melhor distribuição da terra e abolição da escravidão.

A Cabanagem é bem um exemplo disso. Os liberais que queriam mais autonomia convocavam o povo para a luta contra o governo central e o povo pobre e oprimido (os 'cabanos') deu à luta um caráter social que dividiu o movimento como um todo.

A violência social também marcou a Balaiada, 'pacificada' pelo futuro Duque de Caxias, que comandou as tropas do governo central na violenta repressão ao movimento.

No aspecto social, houve a participação ampla de sertanejos, que o declínio da exportação de algodão atirava na miséria, e de escravos. O papel dos escravos no levante do Maranhão pode ser avaliado pela luta do Quilombo de Cumbe e de vultos como o preto Cosme, o 'Cara Preta', e o negro 'Balaio' (Manuel dos Anjos Ferreira).

Desmentindo a lenda que fala da 'índole pacífica e acomodada' do povo brasileiro, as grandes massas brasileiras de despossuídos lutaram sempre, durante séculos. (LOPEZ, Luiz Roberto. História do Brasil Imperial. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. p. 54-56.)

Texto 2
[...] a Revolta dos Malês, organizada por escravos africanos islamizados na cidade de Salvador em 1835 [...] refletiu uma luta histórica e secular dos escravos contra sua indigna situação.

Referindo-se à Revolta dos Malês o historiador João José Reis [...], em entrevista concedida em julho de 2004, "observou que ela foi executada por africanos muçulmanos, os malês, o que a torna única na história da escravidão nas Américas". Houve outras rebeliões como esta na Bahia, mas a de 1835 teve mais visibilidade e provocou uma comoção maior por ocorrer na capital e já no Império.

Ainda segundo o historiador, "foram centenas de rebeldes percorrendo as ruas de Salvador durante mais de três horas brigando com soldados e civis". A repressão foi intensa: morreram cerca de oitenta malês e centenas foram presos, torturados e deportados, sendo que quatro foram executados em praça pública. (BERUTTI, Flávio. Caminhos do Homem. Curitiba: Base, 2010. p. 216-217.)

Texto 3
Em Olinda e Recife, respirava-se o que um autor anônimo, adversário das revoluções, chamara muitos anos antes de 'maligno vapor pernambucano'. O vapor se compunha agora também de crítica social e ideias socialistas.

Um exemplo de crítico social contundente é Antônio Pedro de Figueiredo, apelidado por seus adversários de Cousin Fusco, por ser mulato (fusco) e ter traduzido para o português uma História da Filosofia do escritor francês Victor Cousin. Nas páginas de sua revista O Progresso, publicada entre 1846 e 1848, Figueiredo apontou como grandes males sociais da província a estrutura agrária, com a concentração da terra nas mãos de uns poucos proprietários, e o monopólio do comércio pelos estrangeiros.

A tradição revolucionária em Pernambuco que já havia se manifestado em 1817 e 1824 se fez presente novamente em 1848, com a Praieira, movimento cujo nome está associado à Rua da Praia, na qual ficava a tipografia do jornal O Diário Novo, que divulgava ideias liberais. Na imagem, pode-se ver um detalhe da cidade do Recife no final do século XIX. 
(Caes da Rua do Trapiche, de Luis Schlappriz.)

Não imaginemos, porém, que a Praieira tenha sido uma revolução socialista. Precedida por manifestações contra os portugueses, com várias mortes, no Recife, ela teve como base, no campo, senhores de engenho ligados ao Partido Liberal.

O núcleo urbano dos praieiros sustentou um programa favorável ao federalismo, à abolição do Poder Moderador, à expulsão dos portugueses e à nacionalização do comércio a varejo, controlado em grande parte por eles.

Como novidade, aparece a defesa do sufrágio universal, ou seja, do direito de voto para todos os brasileiros." (FAUSTO, Bóris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995. p. 178-179.)

Texto 4
A imposição de um Estado nacional a um conjunto muito heterogêneo de grupos sociais originou uma série de revoltas na primeira metade do século XIX. Além do problema representado pela unidade artificial de regiões distintas, tais grupos tinham seus interesses negligenciados ou diretamente combatidos pelo governo central. As reivindicações e os resultados obtidos variavam conforme os agentes de cada uma dessas revoltas.

Algumas foram realizadas exclusivamente por grandes proprietários e comerciantes, descontentes com sua reduzida participação nas decisões políticas de caráter nacional. Em outras, essencialmente urbanas, a população e as tropas do Exército regular, pressionadas pela miséria, rebelaram-se em torno das bandeiras republicanas. Mas foi a maioria da população livre, constituída de camponeses pobres, índios aldeados, trabalhadores mal pagos e mestiços desempregados, a responsável por grande parte dos movimentos ocorridos no período. Alguns deles foram iniciados por setores da aristocracia regional, que no decorrer dos acontecimentos muitas vezes perdiam o controle do movimento. Um exemplo foi a Balaiada, da qual escravos e trabalhadores livres pobres assumiram a liderança. Violentamente reprimidas por tropas do governo central, essas revoltas acabavam servindo como um argumento para fortalecê-lo ainda mais.

As rebeliões realizadas exclusivamente por grandes proprietários, como a Praieira e a Farroupilha, obtiveram importantes concessões do governo, enquanto, de um modo geral, os movimentos de caráter popular não conseguiram superar sua fragmentação, permanecendo isolados em suas províncias. (CAMPOS, Flávio de; DOLHNIKOFF, Miriam. Atlas História do Brasil. São Paulo: Scipione, 1993. p. 28.)

Texto 5
Não é apenas o gaúcho típico – termo inicialmente pejorativo, designando o descendente de índios, espanhóis ou portugueses – o habitante do Rio Grande do Sul na época da Revolução Farroupilha. Durante todo o século XIX se dirigiram àquela parte do país, em especial sua parte norte, região montanhosa e pouco favorável à criação de gado, os primeiros imigrantes europeus alemães, italianos, eslavos. Eles abandonavam uma Europa convulsionada pela profunda transformação econômica gerada pela Revolução Industrial e por violentos conflitos armados, em especial as lutas pela unificação na Alemanha e na Itália.

Os imigrantes europeus pretendiam, assim, recomeçar a vida em terras brasileiras. Formaram pequenas propriedades no Rio Grande do Sul, introduzindo a criação de suínos, o cultivo do milho, do trigo, da uva. Desenvolveram também alguns tipos de indústria e de manufaturas: móveis, calçados, objetos de utilidade doméstica. [...]


A Revolução Farroupilha atingiu, dentre os imigrantes, principalmente os alemães. Alguns deles aderiram aos farrapos, outros se mantiveram fiéis ao governo imperial. Muitos, porém, preferiram não se envolver, marcados que estavam pelo sofrimento experimentado nas regiões de origem, mergulhadas em sérios problemas sociais e políticos. (SCLIAR, Moacyr. O Rio Grande Farroupilha. São Paulo: Ática, 1995. p. 32)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Contribuições da colonização alemã no Brasil

A ceifa alemã, Pedro Weingärtner


Em 1824, poucos anos após o governo ter introduzido os primeiros imigrantes em Nova Friburgo e no Rio de Janeiro, começou, também por incentivo do governo, a colonização de certas áreas do Rio Grande do Sul por imigrantes alemães. O motivo era povoar e desenvolver zonas ainda não colonizadas. A primeira colônia fundada foi a de São Leopoldo. Partindo de São Leopoldo, os colonos foram-se estabelecendo inicialmente nos vales dos rios Sinos, do Jacuí e do Caí. Foi esta a zona mais importante da colonização alemã.


Chegada dos alemães ao Brasil, Artista desconhecido

Ao chegarem, os colonos recebiam um lote por família: os lotes eram pequenos, mais ou menos de 220 metros de largura por 3.300 de comprimento. Nestes lotes os colonos plantavam o que precisavam para viver, e quem trabalhava nas lavouras era o próprio dono da terra e sua família. A necessidade de os colonos se adaptarem a um país inteiramente diverso de seu país de origem fez com que eles adotassem uma série de costumes novos. Aos poucos foram-se formando núcleos de colonização com traços típicos alemães ao lado de traços tipicamente brasileiros. O ajuste dos colonos ao novo meio exigiu, entre outras, modificações na alimentação, nas técnicas agrícolas, nas roupas, nas casas.

Colônia Dona Francisca (Joinville), 1866. Foto de Johann Otto Louis Niemeyer 

Assim é que o pão de milho substituiu a princípio o pão de centeio, e a mandioca, o cará, o inhame e o feijão substituíram a batata, principal alimento dos alemães. Os imigrantes passaram a preparar a terra pelo método indígena da coivara, e a trabalhar o solo com a enxada, em lugar do arado a que estavam acostumados na Europa. Vencidas as primeiras dificuldades, os colonos iniciaram o plantio da batata e do centeio, alimentos de sua preferência. Começou a produção de vários tipos de linguiças e de carnes defumadas, de leite, manteiga e queijos. A cozinha dos imigrantes acabou juntando pratos brasileiros a pratos alemães; a bebida gaúcha, o mate chimarrão, difundiu-se rapidamente entre os colonos e tornou-se tão importante quanto a bebida predileta dos alemães: a cerveja.


Imigrantes alemães e luxemburgueses na colônia Santa Leopoldina, Província do Espírito Santo, 1875. Foto de Richard Dietze

As primeiras casas foram ranchos construídos de taipa e cobertos de sapé, à moda cabocla. Depois, à medida que os colonos melhoravam de situação, iam surgindo casas de madeira e, mais tarde, de tijolos, lembrando casas típicas alemãs: chaminé do lado de fora da cozinha, telhado construído em ângulo agudo, sótão. Modificaram-se, porém, de acordo com o clima quente da região: o porão, que serve para isolar as casas da umidade, nos climas frios, foi eliminado, e em algumas casas, sobretudo nas de madeira, surgiu a varanda, que permite melhor ventilação dos cômodos.

Os trajes regionais típicos e as roupas de lã acabaram sendo abandonadas por causa do clima e por serem caros; os colonos adotaram rapidamente roupas feitas de algodão ou de brim e de chita.


Menina de Blumenbekränzte em Nova Veneza, Pedro Weingärtner 

Embora o governo brasileiro não tivesse podido ajudar os colonos como devia, por falta de recursos e por estar empenhado em sufocar a Revolução Farroupilha, a colonização alemã avançou lentamente. Em 1829 foi fundada a colônia de Mafra (Santa Catarina) e, a partir de 1835, alguns alemães começaram a penetrar o vale do Itajaí, onde mais tarde foram fundados núcleos como Blumenau e Joinville, que deram grande impulso à região.

Escola alemã em Blumenau. Fotógrafo desconhecido

A partir do governo de D. Pedro II, com a vinda de grupos maiores de imigrantes, a colonização alemã alcançou grande importância; instalou-se o progresso na indústria, representado por serrarias, moinhos, cortumes, fábricas de ferramentas, de artefatos de couro, calçados, arreios, selas, cervejarias e indústrias de laticínios, que ainda hoje contribuem de forma relevante para o progresso econômico do Brasil.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História do Brasil: da independência aos nossos dias. São Paulo: Nacional, 1980.

Contribuições da colonização italiana no Brasil

A saída dos imigrantes (detalhe), Angiolo Tommasi

As primeiras tentativas de imigração italiana, no Brasil, não foram bem sucedidas, pois faltou-lhe o necessário apoio. Foi somente quando o governo imperial tomou certas providências para incentivar a vinda de colonos que uma larga corrente migratória, oriunda do norte da Itália, começou a dirigir-se para o Estado do Rio Grande do Sul, ocupando uma extensa área de terras, entre o rio Caí, os campos de Vacaria e o município de Triunfo.

Reunião de uma família de imigrantes em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, 1928. Fotógrafo desconhecido

Estabeleceram-se em zona montanhosa, inicialmente nas colônias Dona Isabel (atual bento Gonçalves), conde d'Eu (atual Garibaldi), e na área denominada Campo dos Bugres (atual município de Caxias do Sul). De Porto Alegre, onde desembarcavam, seguiam de barco ao longo do rio Caí, até a raiz da serra. De lá subiam, a princípio a pé, mais tarde em lombo de burro até as terras que lhes eram destinadas.


Fundo de quintal com menina, Bento Gonçalves, região de colonização italiana, Pedro Weingärtner

Lutaram os italianos, persistentemente, contra condições que lhes dificultaram bastante o trabalho agrícola e a vida cotidiana, solo pouco fértil, escassez de cursos de água, falta de estradas e isolamento quase total. As propriedades consistiam em pequenos lotes de 250 metros de frente por mil metros de fundo. Nesses lotes os colonos, habituados a alimentar-se de pão, polenta e vinho, começaram a cultivar o trigo, milho e uva. Logo que obtinham lucro com as lavouras e faziam algumas economias, os chefes de família, especializados em algum ofício, dirigiam-se para os povoados, deixando o trabalho dos campos aos cuidados da família. Na vila, exerciam sua profissão, abrindo selarias, funilarias, ferrarias, moinhos, pequenos negócios de presuntos e salames, serrarias, carpintarias.

Colonos italianos expõem seus produtos, Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, ca. 1918. Fotógrafo desconhecido.

As primeiras casas foram construídas de pedras toscas, à moda das habitações camponesas italianas: paredes grossas, janelas estreitas, altos porões. À medida em que as matas iam sendo derrubadas e as serrarias começaram a surgir, as casas de pedra foram substituídas pelas de madeira, geralmente pintadas em tons de amarelo, verde ou marrom. Sendo o clima serrano frio e úmido, os colonos italianos não adotaram a varanda, tão peculiar às casas brasileiras e à zona de colonização alemã. As casas eram altas, com largos porões na parte de baixo, onde eram guardadas as carretas e as ferramentas. Quando se desenvolveu o cultivo da uva, esses porões passaram a servir de cantina, local de fabricação e conservação de vinho em pipas e barris. Pequenos pastos, paiol, estábulos, horta, pomar e jardim circundavam obrigatoriamente as casas.


Casa de pedra em Nova Veneza, marco da colonização italiana

A roupa de uso diário dos colonos manteve-se durante muito tempo semelhante à roupa usada nos campos italianos, principalmente o pano de cabeça, para as mulheres, e o lenço no pescoço, para os homens, continuou e continua sendo usado nas zonas rurais.

Também a culinária italiana conservou-se integralmente nessa zona de colonização: a polenta e o macarrão feito em casa são pratos diários. Dos gaúchos, os descendentes dos colonos italianos assimilaram o gosto pelo churrasco e dos imigrantes alemães vizinhos adotaram o hábito de comer geleias de frutas e doce em pasta.

Uma família de imigrantes italianos, ca. 1900. Fotógrafo desconhecido

A influência italiana sobre nossa cozinha é acentuada nas regiões sul do Brasil, e muito marcante no Estado de São Paulo, para onde uma segunda e numerosa corrente migratória de italianos, do sul da península, se dirigiu logo após os primeiros anos da República, e até o começo do século XX, quando o governo italiano proibiu a saída em massa de imigrantes.

No Estado de São Paulo os colonos concentraram-se, de início, na zona cafeeira, nas grandes fazendas, onde substituíram o trabalho escravo pelo trabalho renumerado. Em seguida, como ocorreu no Sul, os imigrantes especializados em algum ofício foram atraídos para os centros urbanos, aí dando início a pequenas fábricas, algumas das quais se tornaram, em pouco tempo, verdadeiras potências.


Italianos em São Paulo, ca. 1890. Foto de Guilherme Gaensly. 

Abriram assim caminho, no Rio Grande do Sul e em São Paulo, para grandes indústrias metalúrgicas, vinícolas, alimentícias, de fiação e tecelagem, que tanto contribuíram e ainda contribuem para o progresso e o desenvolvimento do país.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História do Brasil: da independência aos nossos dias. São Paulo: Nacional, 1980.

Contribuições da colonização japonesa no Brasil

Imigrantes japoneses esperando acomodações na Hospedaria dos Imigrantes (São Paulo). Fotógrafo desconhecido

Foi a expansão da lavoura cafeeira e a falta de mão-de-obra nas grandes fazendas que determinaram a vinda da primeira leva de imigrantes japoneses, em 1908, com a ajuda financeira do Estado de São Paulo. Outra leva bem maior do que a primeira, e também destinada à lavoura entrou no Brasil depois de 1925. Dessa vez a imigração contou com a ajuda financeira do próprio governo japonês, interessado em aplicar dinheiro no setor agropecuário, dadas as vantagens oferecidas pelo desenvolvimento econômico do nosso país. Uma terceira leva entrou a partir de 1953, e mais uma vez dirigiu-se para a lavoura.


Família de imigrantes japoneses, década de 1930. Museu Histórico da Imigração Japonesa. Fotógrafo desconhecido

Os japoneses concentraram-se sobretudo no Estado de São Paulo, fixando-se no vale do Ribeira, onde desenvolveram grandes plantações de chá e de banana; no oeste do Estado, onde se dedicaram à cultura do café, do arroz, do amendoim, do algodão e do rami; nos arredores da capital, onde fizeram plantações de verduras e de frutas. Estabeleceram-se também no norte do Paraná, na zona de terra roxa, cultivando principalmente café e algodão; e, em menor escala fixaram-se na Amazônia, próximos à foz do rio Amazonas, onde se dedicaram à plantação de juta e de pimenta.


Imigrantes japoneses em uma plantação de batatas, década de 1930. Museu Histórico da Imigração Japonesa. Fotógrafo desconhecido

A adaptação dos imigrantes japoneses às condições de vida no Brasil não foi nada fácil, pois havia grandes diferenças de língua, de religião, de hábitos e de costumes.

No início tiveram muitas dificuldades em acostumar-se ao tipo de alimentação comum nas zonas rurais. Adotaram alguns alimentos nossos, mas sentindo falta de certos temperos e gêneros a que estavam habituados, começaram a plantá-los. É o caso do caqui, do feijão de soja, da mandioquinha japonesa, e de outros produtos que enriqueceram nosso mercado de verduras e de frutas.

Com respeito à habitação, os imigrantes japoneses construíram casas de vários tipos: inicialmente de pau-a-pique cobertas de palha, como o rancho caboclo; depois, inteiramente de ripas de madeira; e, quando melhoravam sua situação econômica, de tijolos cobertas de telhas. Nas primeiras habitações dos imigrantes conservam-se traços das casas típicas das zonas rurais japonesas: a forma quadrada e a divisão interna. A casa dividia-se em dois cômodos, um com soalho de tábuas, outro de chão batido. A parte assoalhada destinava-se durante o dia para sala de estar da família, de noite para quarto de dormir, onde eram abertas as esteiras que os imigrantes haviam trazido consigo do Japão. A parte do chão batido servia de sala de refeições e era também o lugar onde se recebiam as visitas. A cozinha era à parte, num puxado da casa.

Comércio japonês em São Paulo, ca. 1940. Fotógrafo desconhecido

A grande contribuição dos japoneses foi no setor da nossa agricultura, introduzindo técnicas especiais de cultivo e organizando cooperativas agrícolas muito importantes, como por exemplo, a Cooperativa Agrícola de Cotia, fundada em 1927, vasta empresa que reúne a produção de vários lavradores e distribui a mercadoria aos centros de abastecimento. Contribuíram também largamente para o desenvolvimento da indústria e do comércio interno e externo do país.

O comércio japonês é dos mais ativos em São Paulo, onde há um bairro com hotéis, restaurantes, lojas tipicamente japonesas e vários cinemas que exibem filmes trazidos diretamente do Japão.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História do Brasil: da independência aos nossos dias. São Paulo: Nacional, 1980.