"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Realismo e crítica social

O realismo, movimento dominante na arte e na literatura em meados do século XIX, opunha-se ao sentimentalismo e à veneração da vida interior que caracterizavam o romantismo. Os românticos exaltavam a paixão e a intuição, deixavam-se conduzir por sua imaginação a um passado medieval pretensamente idílico e buscavam a solidão interna em meio às maravilhas da natureza. Os realistas, por sua vez, concentravam-se no mundo real: nas condições sociais, no modo de vida contemporâneo e nos detalhes conhecidos da vida cotidiana. Com um distanciamento clínico e um zelo meticuloso, analisavam a visão, o trabalho e o comportamento das pessoas.

Mulher pobre da aldeia, Gustave Courbert

Tal como os cientistas, os escritores e artistas realistas investigavam minuciosamente o mundo empírico. Gustave Courbert (1819-1877), por exemplo, representante do realismo na pintura, buscou pôr em prática o que ele denominava "arte viva". Assim, dedicou-se a pintar pessoas comuns e cenas corriqueiras: trabalhadores quebrando pedras, camponeses lavrando o solo ou voltando de uma feira, um funeral no campo, lutadores, banhistas, grupos familiares. Em estilo prosaico, sem nenhuma tentativa de glorificação, os artistas do realismo também representaram limpadores de chão, trapeiros, prostitutas e mendigos.

Procurando retratar a vida tal como ela é, os escritores realistas frequentemente abordam os ultrajes sociais e os aspectos sórdidos do comportamento humano e da sociedade. Em seus romances, Honoré de Balzac (1799-1850) descreveu de que maneira os fatores econômicos e sociais afetavam o comportamento das pessoas. Esboços (1852), de Ivan Turguéniev, retratou as condições rurais na Rússia e expressou compaixão pela vida brutalmente difícil dos servos. Em Guerra e paz (1863-1869), Leon Tolstói descreveu com detalhes os costumes e a visão de mundo da nobreza russa, bem como as tragédias que se seguiram à invasão da Rússia por Napoleão. Em Anna Karenina (1873-1877), abordou a realidade das divisões de classe e a complexidade das relações conjugais. Os romances de Charles Dickens - Bleak House (1853), Hard Times (1854) e vários outros - descreviam a vileza da vida, a hipocrisia da sociedade e a massacrante rotina de trabalho nas cidades industriais inglesas.

Muitos consideram Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, o romance realista por excelência; narra a história de uma esposa egocêntrica que, mostrando sua aversão ao marido - um homem devotado e diligente, mas fraco -, comete adultério. Ao comentar o realismo da obra, um crítico observou que ela "reflete uma obsessão com a descrição. Os detalhes são relatados um a um, dando-se a todos a mesma importância, cada rua, cada casa, cada livro, cada folha de grama, tudo é descrito em pormenor".

O realismo literário evoluiu para o naturalismo quando os escritores tentaram demonstrar a existência de uma relação causal entre o caráter humano e o ambiente social: de que certas condições de vida produziam traços de caráter previsíveis nos seres humanos. A crença de que a lei de causa e efeito regia o comportamento humano refletia o enorme prestígio atribuído à ciência nas últimas décadas do século XIX. Émile Zola (1840-1902), o principal romancista do naturalismo, sondou cortiços, bordéis, vilas de mineradores e cabarés da França, examinando de que maneira as pessoas eram condicionadas pela sordidez do ambiente em que viviam. O norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), o mais destacado dramaturgo naturalista, estudou com precisão clínica as classes comerciais e profissionais, suas ambições pessoais e relações familiares. Em Pilares da sociedade (1877), vasculhou as pretensões sociais e a hipocrisia burguesas. O tema de sua Casa de bonecas (1879) chocou a platéia burguesa do final do século XIX: a mulher que deixa seu marido em busca de uma vida mais gratificante.

No esforço de oferecer um retrato real do comportamento humano e do ambiente social, o realismo e o naturalismo reproduziram as atitudes moldadas pela ciência, pelo industrialismo e pelo secularismo, que enfatizavam a importância do mundo externo. A mesma perspectiva também deu origem, na filosofia, ao positivismo.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 421-423.

sábado, 23 de novembro de 2013

Corpo, objeto político

Historicamente, o termo “corpo” (do latim, corpus) era utilizado pelas ciências biomédicas e exatas para explicar organismos vivos e esquemas matemáticos. Epistemologicamente, esteve ligado às áreas da biologia e da medicina, sempre analisado do ponto de vista fisiológico e funcional. A historiografia francesa foi pioneira, na década de 1970, ao investigar o corpo como sujeito, com complexos significados. O estudo da história do corpo necessita muitas vezes do diálogo com outras disciplinas, e ela pode ser estudada em associação à religião, à sexualidade, ao Estado, à disciplina, à saúde, mas também aos gestos, ao prazer, à alimentação, às vestimentas, e assim por diante. Daí a dificuldade em criar uma definição absoluta para o termo.


Descansando, Adolf Hölzel

Já na Grécia e Roma antigas existia o culto ao corpo. Esculturas de mármore, à semelhança dos deuses, torneavam o “corpo ideal”, no qual se inspiravam homens e mulheres. Já na Idade Média, o corpo se tornou sagrado, associado à castidade e à religião. Suspenso e exposto, o corpo seminu de Cristo representou o foco de inflexão da sociedade cristã, que contrapôs ao corpo sagrado o profano, vendo-o como infiel (descrente). Isso não quer dizer que a sexualidade, por exemplo, desapareceu naquela época. A diferença é que o prazer não estava mais no corpo, mas sim na exaltação da fé religiosa e, por conseqüência, na defesa da castidade.

Em um retorno conceitual ao classicismo, os renascentistas colocaram o corpo humano no centro do universo (antropocentrismo) e tentaram entendê-lo como uma máquina. A partir da criação dos Estados nacionais, com o Iluminismo dos séculos XVII e XVIII, surgiu o corpo laico, objetivo, material. De caráter coletivo, o progresso de uma nação só poderia ser atingido com um corpo social forte, baseado em preceitos científicos e inspirados pelo cartesianismo da época. É possível dizer que a ideia do bipoder (poder sobre o corpo) nasceu nesse momento, com o crescimento das populações nos centros urbanos.

Na Era Contemporânea, com a ascensão do capitalismo e o nascimento do proletariado, a ameaça de revolta da população insatisfeita vivendo em lugares insalubres conduziu as discussões sobre o corpo para o âmbito da disciplinarização e da medicalização social. Em ambos os casos, as normas e as políticas públicas, voltaram-se para sanar as doenças sociais: loucura, alcoolismo, prostituição e as epidemias, tendo em vista controlar o corpo coletivo para a eficiência no trabalho e o fortalecimento do Estado. O corpo tornou-se então objeto de estudo da medicina, de onde não sairia mais.

Foi somente após o final da Segunda Guerra Mundial que houve uma reorientação dos paradigmas ligados ao corpo. Resultado da somatória de todas as temporalidades, a formulação de um conceito sobre corpo atualmente continua desarticulada. A todos esses entendimentos são somados os desafios impostos no tempo presente: o direito à identidade, o individualismo, a obsessão pelo corpo perfeito, as descobertas genéticas e o corpo cibernético.

O corpo, portanto, é o objeto de estudo da história cultural, e, apesar de ser entendido equivocadamente como uma faceta da vida privada, sobre ele sempre agiram – e agem – micropoderes que pontuaram relações, negociações e resistências. Dessa forma, o corpo não pode ser entendido como um objeto historicamente passivo, mas sim político. (Pietra Diwan é historiadora, mestre pela PUC-SP)


In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 4: Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 10.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cerveja, vinho, destilados, café, chá e coca: a história do mundo em 6 copos

Artesãos produzindo cerveja no Egito antigo. Um escriba contabiliza a produção. Modelo de madeira encontrado em tumba do Reino Médio

"Rápido, me traga uma taça de vinho para eu poder molhar minha mente e dizer algo inteligente."
Aristófanes, poeta cômico grego (c. 450-385 a.C.)

A sede é mais mortal do que a fome. Sem comida, você poderia sobreviver por algumas semanas, mas sem bebida teria sorte se durasse alguns dias. Somente o ato de respirar é mais importante. Há dezenas de milhares de anos, os primeiros homens, que circulavam em pequenos bandos, tinham de ficar perto de rios, correntes e lagos a fim de garantir um suprimento adequado de água fresca, já que não havia um modo prático de armazenar ou carregar a água. A sua disponibilidade restringiu e determinou o progresso da humanidade. Desde então, as bebidas continuaram a moldar nossa história.

Somente nos últimos dez mil anos outras bebidas surgiram para desafiar a primazia da água. Nenhuma delas está disponível na natureza em qualquer quantidade, e todas têm de ser produzidas deliberadamente. Além de oferecer alternativas mais seguras para suprimentos de água contaminada por doenças em agrupamentos humanos, elas assumiram funções variadas. Muitas têm sido usadas como moeda, em rituais religiosos, como símbolos políticos ou como fonte de inspiração filosófica e artística. Algumas têm servido para ressaltar o poder e o posicionamento da elite ou para subjugar e apaziguar os oprimidos. As bebidas têm sido usadas para celebrar nascimentos, homenagear mortos e estabelecer e fortalecer relacionamentos sociais; para fechar transações comerciais e tratados; para aguçar os sentidos ou entorpecer a mente; para conter remédios salvadores ou venenos mortais.

Assim como as marés da história mostram fluxos e refluxos, bebidas diferentes atingiram alguma proeminência em momentos, lugares e culturas diversos, desde as aldeias da Idade da Pedra, até os salões de festas na Grécia antiga ou os cafés públicos no Iluminismo. Cada uma delas tornou-se popular quando atendeu a uma necessidade específica ou se alinhou com alguma tendência histórica. Em alguns casos, a bebida veio mesmo a influenciar o curso da história de formas inesperadas. Assim como os arqueólogos estabelecem períodos históricos com base no uso de materiais diferentes - Idade da Pedra, Idade do Bronze, Idade do Ferro e assim por diante -, também é possível dividir a história do mundo em períodos dominados por certas bebidas. Especificamente, seis bebidas - cerveja, vinho, destilados, café, chá e cola - definem o fluxo da história mundial. Três delas contêm álcool e três contêm cafeína, mas o que todas têm em comum é o fato de que cada uma delas foi a bebida definitiva durante determinado período histórico, desde a Antiguidade até os dias de hoje.

O evento que colocou a humanidade no caminho em direção à modernidade foi o início da atividade agrícola, começando com a produção doméstica de cereais, que ocorreu primeiramente no Oriente Próximo há cerca de dez mil anos e foi acompanhada pelo aparecimento de uma forma rudimentar de cerveja. As primeiras civilizações surgiram cerca de cinco mil anos depois, na Mesopotâmia e no Egito - dua culturas paralelas fundadas a partir de um excedente de cereais produzidos por uma agricultura organizada em larga escala. Isso liberou uma pequena parcela da população da necessidade de trabalhar nos campos e possibilitou o surgimento de padres, administradores, escribas e artesãos especializados. Não só a cerveja alimentava os habitantes das primeiras cidades e os autores dos primeiros documentos escritos, mas também os salários e gratificações eram pagos com pão e cerveja, já que os cereais eram a base da economia.

A próspera cultura que se desenvolveu dentro das cidades-Estados na Grécia antiga no primeiro milênio a.C. gerou avanços em filosofia, política, ciência e literatura que ainda servem de base para o pensamento ocidental moderno. O vinho foi a fonte essencial dessa civilização mediterrânea e a base de um vasto comércio marítimo que ajudou a espalhar as ideias dos gregos por toda parte. A política, a poesia e a filosofia eram discutidas em festas formais com bebidas - os simpósios (symposia) -, nas quais os participantes partilhavam uma grande taça de vinho diluído. O costume de beber vinho prosseguiu com os romanos, cuja sociedade hierarquizada tinha uma estrutura que se refletia numa ordenação social de vinhos e estilos de vinhos detalhadamente regulada. Duas das principais religiões do mundo emitiram veredictos opostos sobre a bebida: o ritual cristão da eucaristia tem o vinho como núcleo central, mas, depois do colapso do Império Romano e do crescimento do Islã, o vinho foi banido da própria região em que nasceu.

O renascimento do pensamento ocidental que ocorreu um milênio após a queda de Roma foi estimulado pela redescoberta do conhecimento grego e romano, sendo que boa parte deste tinha sido guardada e ampliada por estudiosos no mundo árabe. Ao mesmo tempo, os exploradores europeus, motivados pelo desejo de driblar o monopólio árabe sobre o comércio com o Oriente, navegaram rumo ao oeste para as Américas e ao leste para a Índia e a China. Foram estabelecidas rotas marítimas globais, e as nações europeias rivalizavam umas com as outras no intuito de retalhar o globo. Durante essa era das explorações, um novo grupo de bebidas tomou a frente, o que só foi possível pela destilação, um processo alquímico já conhecido no mundo antigo, mas bastante aperfeiçoado pelos estudiosos árabes. As bebidas destiladas ofereciam o álcool de forma compacta e durável, ideal para o transporte marítimo. Bebidas tais como conhaque, rum e uísque eram usadas como moeda para comprar escravos e tornaram-se particularmente populares nas colônias norte-americanas, nas quais se mostraram tão controversas politicamente que desempenharam um papel importante na criação dos Estados Unidos.

Seguindo-se a essa expansão geográfica veio seu equivalente intelectual à medida que os pensadores ocidentais passaram a olhar além das crenças existentes herdadas dos gregos e desenvolveram novas teorias científicas, políticas e econômicas. A bebida dominante dessa Idade da Razão era o café, uma infusão misteriosa e elegante introduzida na Europa a partir do Oriente Médio. Os estabelecimentos que surgiram para servir café tinham características nitidamente diferentes das tavernas que vendiam bebidas alcoólicas, e tornaram-se centros de permutas comerciais, políticas e intelectuais. O café ajudava a clareza do pensamento, o que o transformava na bebida ideal para cientistas, homens de negócios e filósofos. Discussões em cafés públicos levaram à fundação de sociedades científicas, jornais e instituições financeiras, e propiciaram um terreno fértil para o pensamento revolucionário, sobretudo na França.

Em algumas nações europeias, em especial na Grã-Bretanha, o café foi desafiado pelo chá importado da China. A popularidade do chá na Europa ajudou a abrir rotas comerciais lucrativas com o Oriente que serviram como base para o imperialismo e a industrialização numa escala sem precedentes, capacitando a Grã-Bretanha a tornar-se a primeira superpotência global. Uma vez que o chá firmou-se como sua bebida nacional, o desejo de manter seu suprimento teve consequências de longo alcance na política externa britânica, contribuindo para a independência dos Estados Unidos, o enfraquecimento da antiga civilização chinesa e o estabelecimento da produção do chá na Índia em escala industrial.

Embora as bebidas artificialmente gaseificadas tenham se originado na Europa no final do século XVIII, o refrigerante ganhou fama com a invenção da Coca-Cola, cem anos mais tarde. Tendo sido originalmente imaginada como um remédio estimulante por um farmacêutico de Atlanta, tornou-se a bebida nacional dos Estados Unidos, um emblema do vibrante capitalismo de consumo que ajudou a transformar esse país numa superpotência. Viajando pelo mundo durante o século XX, junto com os soldados norte-americanos que lutavam nas guerras, a Coca-Cola veio a se tornar o produto mais conhecido e mais distribuído no mundo, e é atualmente um ícone do avanço controverso na direção de um único mercado global.

STANDAGE, Tom. História do mundo em 6 copos. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 9-12.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O que é a História da Civilização?

Metrópolis, Otto Dix. 
[Costumes, sociabilidades, representação: objetos de estudo da História Cultural]

"Esta é uma cidade e eu sou um dos cidadãos.
Tudo que interessa aos outros me interessa: política, guerras, mercados, jornais, escolas.
O prefeito e a câmara municipal, bancos, tributos, barcos, fábricas, reservas, armazéns, bens móveis e imóveis."
Walt Whitman, "Song of myself"

A História tradicional - História político-social [...] costumava salientar o relato das guerras, conquistas e revoluções, destacando as aventuras dos monarcas e guerreiros mais afamados pela sua vitalidade impetuosa e pelo êxito das suas empresas materiais. Relegava a um plano secundário fatos essenciais da história humana, os quais constituem o objetivo da moderna História da Civilização [...]: a vida do povo, os sistemas culturais, a economia, as artes e as ciências, os costumes, o direito [...], a concepção do mundo e sua filosofia [...].

[...]

A História da Civilização estuda os quadros culturais: tradições, instituições e valores sociais. Perquire as lutas em prol da liberdade, contra o despotismo e a escravidão; em prol da justiça, contra o privilégio. [...]

[...]

Típica ciência da mudança, a historiografia pesquisa as transformações da vida social, os acréscimos culturais e as renovadas aquisições da experiência humana [...].

[...]

Autores contemporâneos assinalam, no pensamento histórico [...] três correntes fundamentais de interpretação: a romântica (epopéia do individuo, o herói), a positivista (com pretensões de ciência exata: causa e efeito) e a dialética [...] (conflito dos opostos e fusão: tese, antítese e síntese). Todas elas marcam a sua presença na tarefa do historiador moderno.

Marc Bloch [...] é o nobre arauto da historiografia como artesanato: a História é um ofício - "o oficio do historiador". Ele possuía uma nova visão: a teoria histórica devia ser construída, e reconstruída, dentro da prática cotidiana. Lucien Febvre observou que "Bloch sabia melhor do que ninguém que o tempo não se detém e que os livros  de História, para serem úteis, devem ser discutidos, saqueados, contraditos e continuamente corrigidos e revistos. [...]"

[...]

Na visão global - ou atual - da história humana, há profetas pessimistas, que verificam a desumanização do homem e das suas circunstâncias, que afirmam a existência de perigos catastróficos na ciência atual, uma ciência poderosa a serviço do egoísmo, da estupidez e da maldade humanas. [...] Mas, muitos, como Sarton e Russell, veem - nessa mesma ciência - a grande criadora da civilização, a veemente promessa da felicidade humana. A História da Ciência seria o principal fio condutor na história da Civilização, "pista para a síntese do conhecimento, mediadora entre a ciência e a filosofia, e verdadeira pedra angular da educação". [...]

[...]

O estudo do passado [...] leva a História à análise e mediação do presente. Erguem-se, então, desafiantes, os enigmas do amanhã. [...]

[...] uma das tendências modernas da historiografia assenta, justamente, na explicação dos acontecimentos - o homem e seu destino - em termos de forças sociais. Não, já, o individuo isolado; nem mesmo o herói, o santo ou o gênio. Mas a massa. [...] Há poucos anos, um Império do Mal pretendeu fazer triunfar - mediante a força bruta e o terror - velhos preconceitos contra "raças" e povos [...]. Arrogância, violência, cupidez, assassínios, campos de concentração, câmaras de gás e de torturas, toda uma fúria cega a serviço da "raça superior". A ciência moderna, o mundo atual, amparados em velhos e novos postulados éticos, repelem tais aberrações e atrocidades.

História do homem: quantas lutas, quantos anseios, sonhos, sofrimentos, esperanças!

Mas poderá o estudo da História trazer algum proveito? Há lições - positivas ou negativas - na História? [...] Aí estão as lições da Grécia e de Roma, do seu esplendor e sua decadência. Aí está a lembrança das muitas noites de São Bartolomeu. Aí estão os exemplos elucidativos de [...] Galileu, [...] Napoleão, Tiradentes. [...] A História ensina - mas quererão os homens aprender? Apesar da tremenda lição que encerram a execução e a luminosa glória posterior do mártir da Inconfidência, não estaremos a enforcar, todos os dias, com sanha feroz, os novos Tiradentes de amanhã?

Seja como for, a historiografia [...] lança um apelo supremo à razão e ao sentimento, em prol da ideia de uma humanidade unida, justa e fraternal.

BECKER, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 13-17.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O legado do século XIX: Romantismo e Realismo

Construção de barcos perto de Flatford Mill, Constable

[Romantismo] O século XIX, período de enorme atividade no campo da ciência, das artes e da literatura, foi dominado em sua primeira metade pelo Romantismo.

Nas últimas décadas do século XVIII desenvolveu-se na Europa um movimento de reação ao predomínio da cultura iluminista, caracterizada pelo excessivo culto à razão. Esse movimento, conhecido como Romantismo, preconizava a necessidade de expressar e promover o sentimento, a intuição, a imaginação.

O Romantismo nasceu na Alemanha tendo como promulgadores os irmãos Schegel e os poetas Novallis e Hölderlin.

Como artistas, os românticos desejavam libertar-se das rígidas formas e modelos neoclássicos e reagir contra o materialismo da poderosa sociedade industrial que se vinha afirmando neste período.

Muitos foram os temas tratados pela literatura no Romantismo: a liberdade, acentuando o valor do individualismo e a revolta contra a opressão; a beleza; a natureza em seu estado selvagem e o homem em seu estado mais puro. Daí o interesse dos românticos pelos mitosm pelas lendas, pelo folclore, pelo exótico, pela revalorização da Idade Média, considerada a grande época da justiça e da aventura.

Foram expressões máximas dessas idéias os poetas alemães Schiller e Goethe; os poetas ingleses Byron, Shelley, Keat. Na França sobressaíram os escritores Victor Hugo e George Sand, os poetas Musset, Lamartine; na Rússiam Pushkin; na Itália, o romancista Manzoni e o poeta Leopardi.

A pintura, como a literatura, refletiu os ideais românticos: o francês Delacroix coloriu cenas exóticas ou se inspirou em revoluções políticas; os ingleses Constable e Turner encontraram sua expressão artística na natureza.

A arquitetura, sobretudo a arquitetura inglesa, reviveu o estilo gótico da Idade Média: edifícios públicos, casas, igrejas voltaram a exibir arcos pontiagudos, flechas e torres caracteristicamente medievais.

Também a música romântica representou uma ruptura com a tradição, tanto na técnica como nas formas: o piano substituiu o cravo, a orquestra incluiu vários outros instrumentos, e a sinfonia tornou-se mais complexa e mais longa. Essas mudanças são patentes nas composições de grandes músicos românticos como Beethoven, Schubert, Chopin e Liszt.

[Realismo] Em meados do século XIX iniciou-se a reação contra os exageros do Romantismo, cujos princípios não mais satisfaziam aos anseios da época; embora não desaparecendo, o Romantismo deixou de ser a estética dominante de um mundo em rápida transformação.

Em literatura afirmou-se o Realismo, consciente dos males da sociedade de seu tempo, que retratava cruamente, desejoso de alertar o leitor sobre os inúmeros problemas sociais que afligiam este período.

Destacaram-se como grandes representantes desta nova estética: Dickens, Thackeray, Eliot, na Inglaterra; Balzac, Flaubert, Zola, na França; Verga, na Itália; Mark Twain, nos EUA; Dostoievski e Tolstoi, na Rússia; Ibsen, na Noriega.

Na pintura o realismo teve seu representante no francês Coubert; inspirando outros artistas a romper com a tradição romântica, estimulou um novo movimento conhecido como Impressionismo, que desenvolveu novas técnicas procurando representar cenas da realidade, não distorcidas pelo sentimento. Houve famosos representantes do Impressionismo, na sua maioria franceses: Monet, Degas, Renoir, entre outros. Já um tanto destacados, com novas técnicas e novos modelos de inspiração sobressaíram os franceses Cézanne e Gauguin, o holandês Van Gogh.


Três banhistas, Cézanne

A arquitetura, como as outras artes, rompeu com a tradição romântica, abandonando as imitações góticas; também o aparecimento de novos materiais de construção (ferro, concreto armado, vidro) acelerou essa ruptura e permitiu criar estilos mais originais, dentro do princípio da funcionalidade.

Somente a música, na segunda metade do século XIX, apresentou várias tendências: romântica, seguida pelo alemão Brahms, pelo italiano Verdi e, em parte, pelo russo Tchaikovski; de tradições nacionalistas, cujo maior representante foi o alemão Wagner, folclórica, como a dos compositores russos Moussorgski e Rimski-Korsakov; impressionista, na qual tendência sobressaíram os compositores franceses Claude Debussy e Maurice Ravel.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 244-247.

terça-feira, 26 de julho de 2011

O que devemos à Idade Moderna: Renascimento, Barroco e Iluminsimo

Jovem mulher com um jarro de água, Johannes Vermeer

[O Renascimento] Na segunda metade do século XIV, as ideias de que todos os aspectos da vida bem como todos os fatos da história eram reflexo da vontade suprema de Deus – ideias essas que haviam norteado os homens da Idade Média – começaram a modificar-se profundamente, prenunciando e preparando a Idade Moderna.

No século XV, paralelamente à formação dos diversos estados nacionais, começou também a surgir um homem novo, o qual, analisando a concreta realidade da vida terrena, readquiriu importância como protagonista de acontecimentos determinados por seus propósitos e percebeu as infinitas possibilidades de escolha sugeridas por sua personalidade, em um mundo que não era mais apenas expressão dos desígnios divinos. A esse homem novo, considerado uma entidade individual autônoma e completa em si mesma, coube decifrar e dominar as forças da natureza.

Renovou-se a cultura, reestudando-se a antiguidade greco-romana; essa renovação, Renascimento, desenvolveu-se a partir da segunda metade do século XV, alcançando seu maior brilho no século XVI, inicialmente na Itália e, pouco a pouco, em toda a Europa. A assimilação dos modelos clássicos latinos e gregos, e o interesse pelo saber levaram os homens do Renascimento a grandes conquistas no campo da Filosofia, das Artes, da Literatura e das Ciências.

Na filosofia, pensadores como os italianos Giovanni Pico della Mirandola, Giordano Bruno, Tomasso Campanella e o holandês Erasmo de Roterdã sondaram e exaltaram a dignidade e o valor do homem, estudando profundamente o elo entre Deus e a humanidade, à luz da renovada cultura clássica.

Em arquitetura quiseram os artistas seguir os modelos greco-latinos, exemplos de equilíbrio e de harmonia; sobretudo os italianos Brunelleschi e Bramante. Nos outros países europeus, embora ainda se notassem manifestações de gótico tardio, começou a fazer-se sentir a influência italiana.

Na pintura, destacaram-se grandes nomes, tanto na Itália (Raffaello, Tiziano, Leonardo da Vinci), como na Alemanha (Dürer, Holbein) e na França (Fouquet).

A escultura viu surgir na Itália Donatello e Michelangelo, o maior escultor do Renascimento.

Foi na literatura que o estudo dos clássicos deu melhores frutos: Machiavelli, Ariosto, Tasso, na Itália; Spencer, Marlowe, Bem Johnson, e William Shakespeare, na Inglaterra; Garcilaso de La Veja, na Espanha; Ronsard, Montaigne, na França.

As ciências iniciaram um lento progresso e algumas grandes invenções e descobertas marcaram o período: Nicolau Copérnico enunciou a teoria heliocêntrica do sistema solar; Paracelso iniciou o estudo experimental da anatomia; Ticho Brahe construiu o primeiro observatório astronômico; Gutenberg inventou a imprensa, abrindo assim novas possibilidades de informação, instrução e cultura.

[O Barroco] Não existe uma cisão entre o gosto do século XVI, equilibrado, gracioso, harmonioso, e o gosto do século XVII, extravagante, artificioso, empolado. O gosto do século XVII, a que se chamou Barroco, e que se caracterizou pelas tendências ao maravilhoso, nada mais foi do que a extrema manifestação do classicismo, saturado, esgotado, e que consistiu no desejo de renovar, dar novas formas a todas as expressões artísticas do engenho humano.

Convencionou-se chamar o século XVII de “Idade do Barroco” embora não coexistisse em todos os países europeus. Nasceu na Itália, como o Renascimento, difundiu-se primeiramente no sul da Europa e na Holanda, para depois tornar-se um estilo com valor universal.

Inicialmente sóbrio, dentro do espírito da Contra-reforma, o Barroco entregou-se na segunda metade do século XVII a uma grande liberdade de imaginação.

Encontramos importantes exemplos de Barroco em arquitetura: as igrejas são monumentais, com muitos detalhes, contrastes de luz e sombra, grande quantidade de afrescos, esculturas, colunas; os palácios são suntuosos, com imponentes escadarias, cercados de imensos parques geometricamente traçados. Alguns arquitetos se destacaram nesta época: Bernini e Borromini (Itália), Neumann (Alemanha), Jones e Wren (Inglaterra).

Os traços dramáticos do barroco são encontrados também na escultura e na pintura (Caravaggio, italiano; El Greco, Velásquez, Murillo, espanhóis; Poussin, Claude Lorain, franceses).

Na literatura os grandes representantes do século foram: na Espanha, Cervantes; na França, Boileau, Corneille, Racine, Molière, La Fontaine; na Itália, Marino; na Alemanha, Opitz, Grimmelshausen.

A música procurou desenvolver novas formas; entre essas, o oratório e o melodrama (início da ópera). Importantes artistas surgiram no século XVII: Corelli, Vivaldi, Monteverdi, Scarlatti, na Itália; Sully e Rameau, na França; Johann Sebastian Bach, na Alemanha; Haendel, na Inglaterra.

A livre imaginação, o maravilhoso e o artifício deste período tiveram sua contrapartida e foram de certo modo contidos pelo marcado racionalismo das teorias filosóficas e políticas, as quais contribuíram para difundir o espírito de crítica, isto é, o espírito da livre indagação e da livre discussão. São filósofos do racionalismo: Francis Bacon e John Locke (ingleses), René Descartes (francês), Baruch Spinoza (holandês) e G. W. Leibniz (alemão). Por outro lado, no campo da teoria política, Hugo Grotius (holandês) partindo do direito natural, racionalmente concebido, baseia o Estado em um contato livre de homens que se associam para sua segurança.

O século XVII (como também o século XVIII) foi muito importante para a história das ciências. Três grandes nomes se destacaram: Galileu, Kepler e Newton.

O Barroco foi, portanto, um período dilacerado, complexo, dividido entre o “maravilhoso” das artes e da literatura, e o “racional” da filosofia e das ciências. Caberá ao século XVIII recompor o equilíbrio, desenvolvendo novas ideias filosóficas que trouxeram para o mundo amplas e profundas transformações.

[O Iluminismo] As raízes mais remotas do Iluminismo, já podem ser encontradas no Renascimento, no relevo dado por esse período à liberdade individual e à luta contra o fanatismo. As raízes mais próximas encontram-se na cultura filosófica e científica do século XVII, através da exaltação da pesquisa empírica e o entusiasmo pela técnica em desenvolvimento.

Nascido na Inglaterra, difundido pela França, o Iluminismo pregava a razão, a liberdade do espírito, a livre crítica e a tolerância religiosa, contrapondo-se, assim, ao peso da tradição, do dogmatismo religioso e filosófico, do absolutismo eclesiástico e monárquico e, em geral, a todos os preconceitos do passado. O Iluminismo estimulou o culto do progresso, baseado na educação dos homens: uma formação racional e uma educação conduzida para o humanitarismo garantem o progresso, promovem a fraternidade do gênero humano (cosmopolitismo), a paz eterna, a felicidade individual e a prosperidade geral.

Grande importância tiveram os filósofos desta época; os iluministas acreditavam que, derrotadas as convenções, triunfaria, nas ciências e na vida prática, a mais valiosa das qualidades da mente humana, a razão. Sonhavam eles com um mundo perfeito, regido pelos princípios da razão, um mundo sem guerras, sem injustiças sociais, sem cerceamento da liberdade de expressão; sonhavam ainda com uma real colaboração entre os homens para alcançar a felicidade comum.

Defensores dessas ideias foram David Hume (na Inglaterra), Voltaire, Rousseau, Montesquieu (na França). Lessing e Kant (na Alemanha), Vico (na Itália). Para recolher todos os conhecimentos, dentro do espírito do Iluminismo, e para que a cultura pudesse ter maior difusão, foi compilada a Enciclopédia pelos franceses D’Alambert e Diderot.

Também as artes figurativas sentiram a necessidade de uma renovação do gosto. O século XVIII passou dos grandes espaços e das amplas superfícies da arte barroca para realizações em que tudo é minúsculo, gracioso, elegante.

Neste século em que, pouco a pouco, a cidade prevaleceu sobre o campo e grandes massas humanas começaram a concentrar-se nos centros urbanos, a arte, escultura e pintura sobretudo, tratou frequentemente da volta à natureza. Foram mestres na pintura da natureza o italiano Canaletto, o inglês Gainsborough e os franceses Watteau e Fragonard.

A arquitetura revelou as qualidades racionais que presidiram à sua realização: todo edifício devia preencher a finalidade para a qual foi construído, dentro de um renovado equilíbrio de forma e espaço.

Também a literatura do século XVIII, como as artes figurativas, relfete – tendo por meta a instrução social e o melhoramento moral dos homens – a elegância dos costumes, o prazer da intimidade, o amor pela vida; Parini, Goldoni, Alfieri (italianos); Lessing, Goethe e Schiller (alemães) são os principais escritores da época.

A música, por sua vez, soube também traduzir o novo gosto do século: a partir de 1750 desenvolveu-se em Viena o período clássico da sonata, com Haydn; da ópera, com Gluck; da sinfonia, com Mozart, síntese entre a vivacidade da tradição italiana e a força dramática da tradição alemã.

O impulso renovador das ideias iluministas provocou em toda a Europa um grande interesse pelos problemas da vida civil, conduzindo a novas transformações nas teorias econômicas enunciadas através do liberalismo econômico do inglês Adam Smith e da fisiocracia (domínio da natureza) do francês Quesnay.

Esse espírito renovador conduziu outrossim a um profundo estudo das ciências, onde o progresso foi enorme, e ao espírito aventureiro, mas também científico, da exploração de terras desconhecidas.

Nascia assim uma nova civilização, destinada a desenvolver-se plenamente no século XIX, quando novas ideias, nova renovação do gosto levarão a humanidade a novos rumos.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 217-221.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Humanismo e o Renascimento

"O nascimento de Vênus", Sandro Botticelli

"Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio, tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo, no entendimento é como um Deus; a beleza do mundo; o exemplo dos animais". 
(William Shakespeare. Hamlet.)

Texto 1
[...] Hoje, qual o pensamento predominante na sociedade capitalista? 

Seria o mesmo de Shakespeare?

De certa forma sim, a valorização do homem persiste. Hoje, o homem sabe que é capaz de dominar a Natureza. Mas sua beleza, sua inteligência, suas destrezas são vistas como coisas muito naturais. 

Nossa sociedade não pensa como Shakespeare. Hoje, não o homem, mas sim suas realizações são vistas como obras de grande engenho e arte: suas máquinas, seu progresso científico... Poderíamos exclamar: que obras de arte faz o homem!

Essa pequena inversão na frase de Shakespeare é fundamental para explicar as mudanças ocorridas no plano das ideias. [...]

[...]

[...] tal ideia representava uma verdadeira ruptura, quando pronunciada. E foram as mudanças nas bases materiais das diversas formações da Europa que condicionaram essa ruptura. Emergia uma nova visão do mundo, em que o Homem, o indivíduo, no sentido mais genérico, passou a ser o centro das atenções intelectuais. O rígido  teocentrismo medieval, que centrava suas atenções na relação Deus-Homem, foi substituído pela glorificação do Humano, pela preocupação da relação Homem-Natureza.

As pessoas interessadas nessa ruptura com as ideias medievais buscaram inspiração nas obras greco-romanas para representar seu próprio mundo. Era o Renascimento, que revelou ao mundo muitos pensadores e artistas. [...]

[...]

* Humanismo. "Desde o fim do século XIV, na Itália, um certo número de homens cultos, os humanistas [...], apaixonou-se pela recordação da Antiguidade Greco-Latina. Esforçaram-se por reencontrar e reunir as obras dos autores antigos, quase todas dispersas nos conventos e mosteiros onde os monges as haviam conservado e copiado ao longo da Idade Média". (GIRARDET, R.; JAILLET, P. Histoire: XVI, XVII et XVIII Siècles. Paris: Fernand Nathan Editeur, 1957. p. 38.)

"Em um sentido estrito, os Humanistas são os letrados profissionais, geralmente provenientes da burguesia, eclesiásticos, professores universitários, médicos, funcionários, por vezes publicistas, a serviço de uma casa editora, que exprimem a tendência da sociedade e lhe fornecem suas ferramentas intelectuais." (MOUSNIER, R. Os séculos XVI e XVII. In: História Geral das Civilizações. São Paulo: Difel, 1957. p. 24.)

Desse modo, o Humanismo deve ser entendido como um movimento intelectual de valorização da Antiguidade Clássica. Não se tratava, porém, de apenas copiar as realizações do Classicismo Greco-Romano; tal aspecto retiraria ao movimento sua maior amplitude. O Humanismo, embora não sendo a rigor uma filosofia, representou um movimento de glorificação do Homem, tornado centro de todas as indagações e preocupações. Constituía, em sentido amplo, uma tomada de posição antropocêntrica em reação ao teocentrismo imperante na Idade Média, época de predomínio da Igreja e da nobreza feudal e de posição social subordinada da burguesia.

Os humanistas não mais aceitavam os valores e maneiras de ser e viver da Idade Média. Por conseguinte, o interesse pela Antiguidade era um meio para atingir um fim: os humanistas viam na Antiguidade "aquilo que correspondia aos desejos que sentiam [...] Pretendem encontrar nos antigos o Homem, considerado como um ser geral, impessoal, universal, que existe, sob a mesma forma, em toda parte [...] O Humanismo é uma técnica da vida cotidiana". (MOUSNIER, R. op. cit., p. 26.)

[...]

O Humanismo teve suma importância, pois conduziu a modificações nos métodos de ensino, enriquecidos com o estudo das línguas clássicas (grego e latim) e com a maior preocupação em estudar a Natureza e desenvolver a análise e a crítica na investigação científica. Igualmente possibilitou maior conhecimento da Antiguidade, cujas realizações poderiam servir de modelos nas atividades humanas, seja nos campos literários e das artes plásticas, seja nas instituições políticas e sociais. Além do mais, gerou uma renovação cultural que influiu diretamente no desencadeamento e na evolução do Renascimento.

* Renascimento. O Renascimento foi, de certa forma, a expressão do movimento humanista nas artes, letras, filosofia, música e ciências, constituindo-se em um "prodigioso desabrochar da vida sob todas as suas formas, que teve de um modo geral suas maiores manifestações de 1490 a 1560, mas que não está preso dentro destes limites. Então, um afluxo de vitalidade fez vibrar a humanidade europeia. Toda a civilização da Europa transformou-se, em consequência." (MOUSNIER, R. op. cit., p. 17.)

[...]

Enriquecida com o comércio, a burguesia urbana procurou se firmar na sociedade, onde os valores impetrantes não eram os seus, mas sim os projetados pela Igreja e pela nobreza feudal; para contestá-los e difundir os seus valores, mercadores e banqueiros promoveram as artes, as letras e as ciências, realizadas segundo concepções racionalistas, pagãs, antropocêntricas...

[...]

Apesar da inegável influência medieval evidente na produção de muitos renascentistas [...], o Humanismo e o Renascimento representaram uma reação aos padrões culturais medievais. Ao teocentrismo opuseram o antropocentrismo, à fé contrapuseram a razão, ao espírito de associação defrontaram o individualismo, à religiosidade opuseram o paganismo, o que não pode ser confundido com ateísmo. [...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 117-121, 123.


Texto 2
Numa forma abreviada, às vezes se traduz parte deste cenário - o florescer das artes e da sabedoria entre os séculos XIV e XVI - sob o título de "Renascença", palavra de origem francesa que significa "renascimento". Em certa medida, todos os países europeus a oeste da Rússia sentiriam a influência deste movimento, para o qual a maioria contribuiu. No entanto, a Itália foi o seu verdadeiro centro e coração. Entre 1350 e 1450, muito mais sábios, artistas, cientistas e poetas viveram nas cidades da Itália do que em qualquer outro país. A Europa inteira ia estudar na Itália, ou seja, aprender a imitar as coisas belas e inteligentes que se podia encontrar ali; os italianos se reportavam ao passado clássico da Grécia e de Roma.


A Renascença tem as suas raízes na redescoberta de parte do passado da Europa que fora obscurecido pela civilização cristã durante a Idade Média. Rafael glorificou os grandes filósofos da Grécia na pintura, e os escritores humanistas imitaram o estilo do romano Cícero para escrever em latim elegante. [...] Na pintura, na escultura, na gravura, na arquitetura, na música e na poesia deixou um vasto número de belas criações que durante séculos moldaram o conceito de beleza. Essa arte chegou ao clímax no fim do século XV e início do século XVI, época de - entre outros - Michelangelo - escultor, pintor, arquiteto e poeta -, Rafael - pintor e arquiteto - e Leonardo da Vinci - pintor, engenheiro, arquiteto, escultor e cientista. Os homens da Renascença admiravam estes artistas de múltiplos talentos, que davam às pessoas uma nova ideia da excelência humana. O homem passou a ser visto como criatura de maior potencial aqui na Terra do que a Igreja ensinara. Na pintura de Michelangelo A Criação de Adão, o Pai da raça humana é uma figura heróica e gigantesca, excedendo em poder e efeito dramático até mesmo o Criador, cujo dedo lhe dá a vida.


"A criação de Adão", Michelangelo. A religião pode não ter estabelecido a verdade, mas ensejou maravilhosas obras de arte.


Os sábios da Renascença foram os primeiros a falar em "Idade Média" como algo situado entre sua época e o passado clássico e de cuja importância tinham perfeita consciência. Contudo, o fato mais importante a respeito dos europeus não mudara muito: em 1500, a civilização europeia ainda possuía um coração religioso [...]. O primeiro livro impresso na Europa fora a Bíblia, o texto sagrado desta civilização. [...]


ROBERTS, J. M. O livro de ouro da História do Mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 398, 400.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Guernica: símbolo da opressão e da violência políticas

Guernica, Pablo Picasso

Picasso foi definitivo: "Gritos das crianças, gritos das mulheres, gritos dos pássaros, gritos das flores, gritos das camas, gritos das árvores e pedras, gritos dos tijolos, dos móveis, dos carros, das cadeiras, dos cortinados, das panelas, dos gatos e do papel, gritos dos cheiros, que se propagam um após o outro, gritos do fumo, que pica nos ombros, gritos que cozem na grande caldeira, e da chuva de pássaros que inundam o ar."

(Este poema, criado pelo artista, descreve os horrores vistos no quadro. A cidade de Guernica ficou em chamas após sucessivos ataques a bombas e metralhadoras. Seu pincel não se calou diante do ocorrido. Na tela, Picasso deposita toda sua consternação. A obra, ainda atual, está presente na memória artística da humanidade.)

Localizada numa região montanhosa, Guernica era uma cidade basca cuja população não passava de 7 mil habitantes. No dia 26 de abril de 1937, a cidade foi totalmente destruída por um bombardeio da força aérea alemã, que apoiava as forças do general Franco. Para o governo nazista da Alemanha, tratava-se de um teste: seu objetivo era observar os efeitos devastadores do bombardeio. Guernica era um ensaio para os ataques aéreos da Segunda Guerra Mundial.

Indignado com essa cruel experiência que acabou com a vida de centenas de pessoas e destruiu mais de 75% das casas da pequena cidade, o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973) retratou os horrores do bombardeio num quadro que é hoje sua obra mais conhecida: Guernica.

O quadro, que mede 8 metros de largura por 3,5 metros de altura, tornou-se um símbolo contra as ditaduras e as guerras. O cavalo caído, derrotado, o guerreiro esquartejado, a mãe que clama com seu filho morto nos braços, a flor que nasce de uma mão sem vida, uma espada quebrada - são todos símbolos das vítimas da opressão e da violência política.

Atualmente esse quadro encontra-se em Madri, mas ficou cerca de trinta anos nos Estados Unidos, pois Picasso tinha determinado que Guernica retornasse à Espanha apenas quando terminasse a ditadura de Franco.

Picasso não chegou a ver sua pintura admirada pela população espanhola, já que o fim do regime franquista ocorreu somente em 1975, dois anos após a morte do artista.

A seguir, leia o depoimento do prefeito de Guernica após sua cidade ter sido bombardeada pelos nazistas, durante a Guerra Civil Espanhola:

Em pé, diante desses microfones, quero contar o que os meus olhos viram no lugar do que já foi Guernica, e tomo Deus como testemunha:

Envergonhados pelo monstruoso crime que cometeram, os rebeldes [seguidores de Franco] apelam para a falsidade para camuflar, para negar o mais vil das proezas da história, a total e absoluta destruição da cidade de Guernica.

Aquele dia fatal, 26 de abril, era dia de mercado e a cidade estava cheia de gente. Em Guernica havia milhares de camponeses de toda a vizinhança, numa atmosfera de camaradagem basca, e ninguém suspeitaria de que uma tragédia se aproximava.

Pouco depois das 4 da tarde, aviões jogaram nove bombas no centro da cidade.Procurávamos os feridos, quando mais aviões surgiram, jogando todo tipo de bombas, incendiárias e explosivas.

As feras que pilotavam tais aviões, lovo que avistavam nas ruas ou fora da cidade uma figura humana, focalizavam nela suas metralhadoras, semeando terror e morte, entre mulheres, crianças e velhos. Tal foi a tragédia de Guernica, cuja verdade eu, prefeito da cidade, afirmo diante do mundo inteiro.

A milícia estacionada em Guernica, naquele dia, era exatamente a mesma que havia confraternizado todos esses meses com o povo de Guernica, ganhando sua afeição. Foi a primeira a prestar auxílio naqueles momentos terríveis. Não foi nossa milícia que ateou fogo a Guernica, e, se o juramento de um alcaide cristão e basco tem algum valor, juro diante de Deus e da história que aviões alemães bombardearam cruelmente nossa cidade até riscá-la do mapa.

Guernica foi ferida, mas não morrerá. Da árvore brotarão novas folhas verdes em toda a primavera: seus filhos a ela retornarão, suas casas sendo reconstruídas, suas igrejas escutando novamente seus hinos e preces [...] Guernica, o símbolo de nossas liberdades nacionais, e o símbolo da ferocidade do fascismo internacional, não pode morrer.

(Declaração do prefeito de Guernica ao povo espanhol sobre a acusação dos rebeldes franquistas de que essa cidade basca tinha sido destruída pelos próprios republicanos, 4 de maio 1937. História do século XX. São Paulo: Abril, 1974. v. IV. p. 1 942.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A Europa Ocidental no início dos Tempos Modernos


"O nascimento de Vênus", Sandro Boticelli

"Ouça os versos do poeta. Cante comigo os feitos da gente lusitana:

Cessem os sábios Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o feito ilustre Lusitano
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo que a musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

[Você que está vivendo no século XXI talvez conheça esse poema publicado em 1572. Talvez conheça a história que ali está narrada de forma heróica]

O autor deste poema viveu em minha época - a época do Renascimento.

Escrevendo Os Lusíadas, Luís de Camões procurava demonstrar o espírito de minha época. Ela está muito distante para você que vive no início do século XXI. Nesse espírito estava contida a redescoberta da Antiguidade Clássica. Ao mesmo tempo, havia a vontade não disfarçada de superá-la, exaltando as nossas realizações. Com essas realizações os homens dos Tempos Antigos jamais poderiam sequer sonhar.

Quais eram as realizações do meu tempo que o poeta destacava?

Quais as realizações de seu tempo - início do século XXI - que algum poeta já destacaou?

Camões não foi o único que marcou a época do Renascimento com o seu gênio criador. Muitos outros nomes na história das artes, das letras e das ciências caracterizaram esse período que se estendeu, em linhas gerais, de 1450 a 1600, e que eu acreditava ser o início de novos tempos: - Tempos Modernos.

O que era esse "mundo moderno" que apenas se delineava?

Era o mundo das grandes navegações e descobrimentos, um dos fatos históricos, que prenunciavam uma mudança de rumos na História das sociedades ocidentais. Um mundo que rompia com o passado medieval e buscava suas raízes na Antiguidade Clássica greco-romana. Um passado muito remoto para você que vive no século XXI, e do qual talvez só se recorde ao ver os filmes chamados "históricos" e ao ler certas expressões latinas nos manuais jurídicos ou nas pedras frias dos monumentos. Um passado muito próximo e bastante vivo, porém, para os homens mais cultos do meu tempo.

Pressentíamos, então, estar vivendo tempos novos, embora nos referíssemos com frequência à Antiguidade.

Tempos novos, horizontes novos!

No final da Idade Média, o avanço dos turcos otomanos parecia estreitar rapidamente as fronteiras orientais da Europa, deixando inseguros todos nós que habitávamos o mundo cristão. Tudo isso cessou a partir da expansão marítima. Avançamos pelo Mar Tenebroso, rumo aos "Novos Mundos", em busca de espaços novos.

Mas não apenas novos horizontes físicos. Novas ideias, novos espaços mentais, também. Os autores do meu tempo procuravam reintegrar a herança clássica, isto é, greco-romana, mas - ao mesmo tempo - buscavam a redescoberta da Natureza e do próprio Homem. A partir de agora, os temas fundamentais do conhecimento, da representação e da expressão, são a Natureza e o Homem, tanto nas ciências, quanto na filosofia e nas artes.

Tempos novos, tempos de descobrimentos e invenções.

Descobrimento de mundos que ficaram para trás, perdidos no tempo dos longos séculos - as civilizações clássicas. Descobrimento de mundos distanciados no espaço, bloqueados pelos "mares nunca dantes navegados" - o Novo Mundo.

Invenção de novas técnicas - como as Grandes Invenções, Invenção de novos espaços mentais - como o Renascimento Cultural e as Reformas religiosas.

Tempos Modernos, tempo em que as coisas são criadas pelo Homem. Este o tempo no qual eu vivi, um tempo muito diferente da Idade Média que muitos de meus companheiros costumavam designar - de maneira preconceituosa - "a longa noite dos mil anos".

Gostávamos de destacar o caráter particular de nossa época, e por isso estávamos sempre chamando a atenção para as múltiplas transformações que ocorriam.

Transformações demográficas. Após mais de um século de mortandade, a população da Europa ocidental voltou a crescer numericamente. Eu já não ouvia pelos caminhos da Europa a lamentação típica dos tempos finais da Idade Média: "Da fome, da guerra e da peste, livrai-nos, Senhor".

Transformações econômicas. Após um longo período de crise, a produção agrícola voltou a crescer. O comércio e o artesanato prosperavam. Os metais preciosos vindos da África, do oriente e da América incentivavam as trocas, enriquecendo os banqueiros e os comerciantes que traficavam com o Novo Mundo e os entrepostos afro-asiáticos.

Transformações políticas. também. A Europa não está mais dividida apenas em feudos. O mapa da Europa assinala, agora, a existência dos Estados Modernos, governados pelos Príncipes, a quem geralmente chamávamos de reis. Esses príncipes eram a autoridade suprema da nação, possuindo soberania absoluta sobre todos os homens e todas as coisas situadas dentro das fronteiras de seus reinos. Era o absolutismo monárquico.

E, ainda, transformações sociais. O feudalismo estava em lenta decadência, mas persistiam numerosos aspectos senhoriais. A ascensão da burguesia, com seus interesses, valores e comportamentos, ditava características novas à sociedade. Coisas até certo ponto estranhas aconteciam: muitos nobres já se dedicavam a atividades comerciais, enquanto muitos burgueses procuravam identificar-se com a nobreza, buscando ascender socialmente e distinguir-se das camadas populares.

Eram traços novos, modernos, sem dúvida. Mas era ainda uma sociedade muito diferente desta em que você vive. Ela era uma sociedade fortemente hierarquizada, composta de estamentos e ordens, onde as camadas privilegiadas eram o clero e a nobreza. Dava-se pouca importância ao papel da fortuna, especialmente ao dinheiro. Exaltava-se a tradição, a vassalagem, a honra e o cavalheirismo.

E a população rural, como vivia?

Todas essas transformações afetaram a vida dos camponeses, possuidores ou não das terras que cultivavam. Suas obrigações se ampliaram: além das contribuições que deviam aos senhores leigos e eclesiásticos, os camponeses suportavam, agora, o peso crescente dos impostos devidos aos monarcas. Situação quase insuportável, que se traduzia em revoltas rurais.

Houve, por fim, transformações na maneira de pensar. O início dos Tempos Modernos foi caracterizado pelo Humanismo, isto é, pela tentativa de definir e afirmar o lugar do homem no Universo, assim como as relações entre ele e seu Criador. A questão do humanismo, assim, colocava em destaque o problema da fé, logo o problema da própria religião cristã. Por isso, a questão do humanismo esteve presente tanto no Renascimento cultural quanto nas Reformas religiosas.

Para os pensadores de minha época, o Humanismo era uma maneira de compreender o mundo em que viviam. Foi o Humanismo que serviu de referência às criações artísticas, literárias e científicas que compuseram o Renascimento.

Quais eram as bases desse movimento intelectual?

No Humanismo encontravam-se o paganismo - decorrente da redescoberta da mitologia clássica - e o cristianismo - pela fidelidade às crenças e aos príncípios da religião cristã. Mas o resultado desse encontro não foi uma simples soma, mas um processo de secularização. Ou seja, os pensadores de minha época procuravam compreender o mundo a partir do ponto de vista essencialmente terreno, buscando suas razões e seus fins na própria vida. Embora quase todos eles ainda admitissem que o Homem e a Natureza foram criados por Deus, achavam que ambos deveriam ser explicados a partir de si mesmos.

Tempos Modernos. Ao Homem, situado no ápice da pirâmide da criação por sua inteligência, cabia o papel mais importante do Universo.

Você poderia me perguntar: o que pretendiam os humanistas e os renascentistas?

Eles pretendiam, em primeiro lugar, recuperar a tradição clássica. Possuíam uma admiração entusiasmada e realizavam uma análise atenta das formas estéticas greco-romanas. Interessavam-se pela História e pela civilização greco-romana, tidas como exemplos a serem imitados.

Pretendiam também fazer a revisão do passado imediato, isto é, da Idade Média, que muitos consideravam um período de "trevas" e "ignorância". Descontentes com a "barbárie" e o "atraso" que viam nesse passado recente, voltavam-se para um tempo mais antigo.

Um velho preconceito dos homens, que reaparecia numa Idade Moderna: a de considerar como "bárbaro" ou atrasado" tudo aquilo que não se assemelha aos seus valores; a de considerar como "estacionárias" as culturas que parecem não se desenvolver na mesma direção da sua.

Humanistas e renascentistas pretendiam, por fim, integrar a herança oriental, representada pelas contribuições bizantina e muçulmana. Essas contribuições expressaram-se, sobretudo, através, das "Grandes Invenções", que para muitos constituiriam o verdadeiro marco iniciador dos tempos modernos.

Havia, assim, um tríplice projeto. Inspirando-se nas civilizações clássicas, no que elas tinham produzido intelectual e artisticamente, os humanistas constituíram um novo ideal de formação e de expressão da personalidade. Você já deve ter ouvido falar no ensino de "Humanidades". Para os humanistas, a formação do indivíduo estava intimamente relacionada ao conhecimento de disciplinas como o Grego, o Latim, o Hebraico, a Literatura, a Filosofia. E também a História - que para eles deveria ser o conhecimento da vida dos grandes homens, dos "varões ilustres", e de tudo aquilo que a Antiguidade Clássica produzira de melhor.

E o que pretendem os pensadores de seu tempo? Como eles entendem que deva ser a formação do indivíduo? Que disciplinas são executadas nas escolas e universidades do século XXI?

O Renascimento: o que foi esse movimento intelectual que preencheu a época em que vivi?

Esse movimento artístico, literário, filosófico e científico tem suas origens associadas às condições econômicas e sociais geradas pela prosperidade da burguesia mercantil e de certos setores da aristocracia feudal, e especialmente os monarcas absolutistas. Suas primeiras manifestações tiveram lugar na Itália: em Florença, depois em Roma, além de centros menores como Luca, Pisa, Mântua e Modena. E para isso contribuíram a riqueza, a independência, a relativa liberdade criativa existente nas cidades italianas.

Mas o Renascimento não foi o resultado, apenas, do capital mercantil e da nascente burguesia. Nas cidades flamengas, possuidoras de condições materiais semelhantes, assim como nas cidades alemãs do Reno e da Liga Hanseática, com suas poderosas burguesias, as produções renascentistas assumiram formas e características diversas daquelas que predominavam na Itália.

O modelo, porém, sempre foi a Itália, embora o movimento renascentista tenha surgido em vários lugares, adquirindo em cada um dos países seu colorido específico.

Nas regiões para além dos Alpes, o Humanismo e o Renascimento tendiam a distanciar-se cada vez mais dos ideais e dos interesses que os caracterizavam na Itália. Lá, o cristianismo, o "gótico" e a nobreza ainda impunham seu predomínio sobre os espíritos. O Humanismo adquiria uma preocupação cristã - voltada para o estudo crítico dos textos bíblicos - e o Renascimento adaptava-se a outros gostos e a outras exigências.

Assim era minha época - a época do Renascimento.

As mudanças que a sociedade atravessava tendiam a colocar o Homem no centro dos acontecimentos, individualizando-o na sociedade em que vivia. Uma época e uma sociedade que me permitiam afirmar - "Sou moderno, sou europeu!"

Um tempo e um espaço muito distintos daaqueles em que viviam os indígenas que nossos navegadores encontraram na América. Pela maneira como viviam, cada componente do grupo social só encontrava o seu lugar no conjunto de sua comunidade. Se eu tivesse comversado com um daqueles nativos, muito provavelmente ele me diria - "Somos da América".

Estávamos - indígenas e europeus - juntos no mesmo tempo cronológico. Estávamos separados, porém, no tempo da História.

Nós, europeus, éramos modernos, cantávamos nossos feitos, vivíamos na época do Renascimento e do Humanismo - mas fomos incapazes de compreender aquela separação.

E você, do século XXI?"

MATTOS, Ilmar Rohloff de et alli. História. Rio de Janeiro: Francisco Alves/Edutel, 1977. p. 52-62.