"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 12 de fevereiro de 2017

Queremos outro tempo

Cenas de julho de 1830, Léon Cogniet

Ao longo de três dias, em 1830, seis mil barricadas transformaram a cidade de Paris em campo de batalha, e derrotaram os soldados do rei.

E quando esse dia virou noite, a multidão crivou, a pedradas e a bala, os relógios: os grandes relógios das igrejas e de outros templos do poder.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 241. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Janeiro, 1, Hoje

Janeiro. Très Riches Heures du duc de Berry, 
ca. 1412-1416, Irmãos Limbourg

▬╡ஐ Janeiro, I, Hoje ╞▬


Hoje não é o primeiro dia do ano para os maias, os judeus, os árabes, os chineses e outros muitos habitantes desde mundo.

A data foi inventada em Roma, a Roma imperial, e abençoada pela Roma vaticana, e acaba sendo um exagero dizer que a humanidade inteira celebra esse cruzar da fronteira dos anos.

Mas uma coisa, sim, é preciso reconhecer: o tempo é bastante amável com a gente, seus passageiros fugazes, e nos dá permissão para crer que hoje pode ser o primeiro dos dias, e para querer que seja alegre como as cores de uma quitanda.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 15.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A viagem do Sol


Jesus não podia festejar seu aniversário, porque não tinha dia de nascimento.

No ano de 354, os cristãos de Roma decidiram que ele havia nascido no dia 25 de dezembro.

Nesse dia, os pagãos do norte do mundo celebravam o fim da noite mais longa do ano e a chegada do deus Sol, que vinha para romper as sombras.

O deus Sol tinha chegado a Roma vindo da Pérsia.

Era chamado de Mitra.

Passou a se chamar Jesus.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 403.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O homem do século XVI: o conhecimento

A quermesse de São Jorge com a dança ao redor do poste, Pieter Brueghel, o Jovem

A um nível diferente do psiquismo, o homem do século XVI não possui exatamente as mesmas faculdades naturais de conhecer o mundo exterior, nem mesmo a aparelhagem mental do homem do século XX. Entretanto, sua necessidade de certeza é, talvez, ainda maior do que a nossa. Porém, por um exemplo, o da França, esclarecido por trabalhos recentes, quantos outros permanecem de nós desconhecidos.

- Os sentidos. Eles são, provavelmente, mais aguçados do que os nossos num universo em que o homem se situa, mais amiúde, num estado de alerta. A hierarquia não é a mesma de hoje (L. Febvre).

A vista, que é o nosso sentido primordial, não vem, então, senão após o ouvido e o tato. Antes da propagação do livro impresso, a leitura constitui um meio de informação menos utilizado do que a audição. Os conselheiros dos soberanos são chamados auditores e as relações quase sempre são orais. A Palavra de Deus é comunicada muito mais pelo sermão ou pela prédica do que pela leitura. Entendimento significa compreensão. O tato é o órgão da certeza. Fornece ao homem a confirmação do que ele vê. As práticas religiosas ratificaram tal confiança (imposição das mãos, toque das relíquias). Todavia, no século XVI, desenvolve-se a função da vista, época em que o uso dos vidros brancos e dos óculos dão um prolongamento à atividade do homem.

- A influência do meio natural sobre o pensamento. Devido à falta de confiança na vista, o órgão do conhecimento científico, o homem permanece orientado para o qualitativo. Nem o espaço, nem o tempo são medidos com exatidão.

As medidas do espaço são tomadas de empréstimo ao corpo humano: polegada, pé, passo, cúbito, ou ao deslocamento do homem: dia de marcha. A jornada de carruagem é a unidade de superfície mais difundida. Todas estas medidas têm um valor variável. Não existe nenhuma possibilidade de avaliar as grandes distâncias.

Depara-se a mesma imprecisão para a expressão do tempo. A duração é o tempo vivido. Não se conta em horas, mas em preces: o tempo de uma ave, de dois padres-nossos. O tempo-instante é fixado pelos incidentes metereológicos contemporâneos. A data é expressa segundo um acontecimento e com relação às festas.

A divisão do tempo é baseada na alternância do dia e da noite. A relojoaria já produziu obras estimáveis a serviços das municipalidades, mas frágeis e pouco numerosas. O começo da jornada não estava fixado com uniformidade. Situa-se, na Itália, no começo da noite. Ocorre o mesmo com o início do ano. É somente no decorrer do século XVI que se introduz a ordem na questão da data.

Na realidade, só o ritmo das estações e a alternância do dia e da noite é que contam. Os meses são expressos pelos trabalhos do campo ou, entre as pessoas de saber, pelos símbolos do zodíaco. A divisão do dia em horas equivalentes durante todos as estações mal começa a impor-se. É verdade que, vivendo embora uma vida mais curta do que a nossa, o homem do século XVI é menos apressado que o do século XX. Dia de entrevista e tempo transcorrido num trabalho são noções muito elásticas.

Em contrapartida, o homem é muito mais sensível às concomitâncias percebidas na natureza. O animismo é alimentado por uma imaginação muito concreta: demônios, íncubos, súcubos, lêmures para as pessoas de saber, duendes, diabretes para todos, são companheiros da vida cotidiana.

- A fraqueza da expressão abstrata. As línguas vivas não permitem expressar perfeitamente os conceitos. Faltam ao francês da época muitos termos abstratos. O progresso da tipografia não permitiu ainda a codificação de Villers-Cotterêts que torna o seu emprego obrigatório nos atos jurídicos (1539). Mas ele não convém de todo à ciência. É, pois, verossímil que as outras línguas europeias não estejam melhor aparelhadas.

O latim, que apresentava a vantagem de ser compreendido pelo mundo erudito da Europa, podia enriquecer-se de neologismos, mas tendo sido "feito para exprimir as tentativas de uma civilização morta há uma dúzia de séculos... seria ele capaz de acolher ideias ainda por vir?" (L. Febvre).

A expressão do quantitativo está ainda mal dividida. O cálculo, contudo, dotou-se de usos simples, mas apenas para a contabilidade comercial. O cálculo científico está embaraçado por dificuldades de expressão. Os algarismos gobar (ditos árabes), hindus de origem, não penetraram a vida corrente onde imperam sempre os algarismos romanos cuja utilização nas contas feitas no papel é de tal modo complicado, que se empregam preferentemente o tabuleiro de xadrez, o ábaco e as fichas.

- Necessidade de certeza. Será talvez por causa de todas estas debilidades que se torna imperioso a necessidade de certeza? Prisioneiro do meio natural, o homem o conhece mal. Ele desdenha a observação metódica e não vê nela senão curiosidade, mas não faz disso um dever. O homem prefere raciocinar, sem se preocupar com o valor das bases desse raciocínio.

Consciente da fragilidade de sua ação sobre a natureza, ele considera como uma experiência miraculosa tudo quanto sabe fazer, sem ousar arriscá-lo por mudanças demasiado rápidas de método. Ele situa a idade de ouro nas origens da humanidade e apóia-se na tradição, não por preguiça de espírito ou por rotina, mas por razão. Por isso os trabalhos científicos estão atulhados de citações. Entrincheira-se atrás de autoridades e discute-se, sobretudo, os desacordos. É por aí, unicamente, que o pensamento avança.

Enfim, a necessidade de certeza sacia-se nas crenças animistas que se misturam às mais evoluídas religiões. Assim se explicam, sem se admitir a dúvida, as relações entre os seres, os seres e as coisas e entre as próprias coisas. Agir sobre a natureza é descobrir o caráter dos espíritos e forçá-los a agirem. Por isso a magia é apenas uma falsa ciência.

A magia é inocente. Não ocorre o mesmo com a feitiçaria. A feitiçaria, praticada entre os cristãos, é muito mais temível. Faz-se acompanhar de perversão ou mesmo de inversão de todos os preceitos das leis divinas e naturais. Sabemos hoje que ela revela do domínio da patologia. A feitiçaria só teria para o historiador um interesse limitado se as autoridades humanas não tivessem crido nas narrativas dos feiticeiros e na realidade do sabá. A feitiçaria constitui, portanto, um elemento negativo do conhecimento que não se deveria subestimar.

Fraco domínio sobre a natureza, força da tradição, magia e feitiçaria eram, igualmente, obstáculos aos progressos da humanidade. É na Europa Ocidental que o espírito de empreendimento suscita os maiores esforços no sentido de lhes escapar.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 21-23.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: o conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O tempo da natureza, o tempo da guerra e o tempo cristão no medievo

A vida cotidiana era marcada pelo tempo da natureza, pelo tempo da guerra e pelo tempo cristão.

É difícil para nós, acostumados a ordenar o nosso cotidiano pelo relógio, entender a vida cotidiana medieval.

A ideia de fim de mundo não atormenta os nossos espíritos. Mas, na sociedade medieval, essa preocupação aumentava de intensidade por ocasião das grandes catástrofes naturais, sociais ou políticas. O pessimismo, no entanto, era acompanhado de uma esperança no triunfo do reino de Deus.

A fronteira que separava as três ordens sociais era rígida, praticamente insuperável. No entanto, os três cotidianos, o do camponês, o do nobre e o do clérigo estavam intimamente ligados.

As tensões e os conflitos sociais podem ser deduzidos por meio das três concepções de tempo que conviveram na Idade Média.

Apesar do esforço da Igreja, os camponeses mantinham-se presos a uma maneira pré-cristã de conceber o tempo. Para o camponês o tempo era cíclico, tudo voltava ao ponto de partida, numa eterna rejeição. Era um tempo natural, biológico e, portanto, não histórico. A cristianização não conseguiu abolir o tempo cíclico do camponês. A sociedade, nessa época, era predominantemente agrária, por essa razão a referência cronológica mais evidente era o tempo agrícola. Tempo do preparo da terra, do plantio e da colheita; tempo da espera e da paciência. Um tempo lento, repetitivo, e doloroso porque era espreitado pela fome. O mundo rural medieval, por ser cíclico, não tinha necessidade de ser datado.


Tempo da natureza: Colheita. Artista desconhecido. Iluminura.

O tempo cristão, do clero, era linear. O passado não tinha retorno. O Gênese (criação do mundo por Deus) e a Encarnação (vinda de Cristo) pertenciam ao passado. Para o futuro aguardava-se o Juízo Final (o final dos tempos com a segunda vinda de Cristo e o julgamento dos homens).


Tempo cristão: Alas exteriores do Altar do Juízo Final, c. 1450. Rogier van der Weyden

Dessa forma, a história caminharia para um final já anunciado pelas Escrituras Sagradas (o Apocalipse), um final terrível, com grandes calamidades. Seria o tempo da salvação, mas também o do terrível acervo de contas. O Apocalipse era ameaçador porque não se sabia quando viria - o sinal podia ser uma calamidade natural ou social.

O tempo novo era o período que se iniciou com a vinda de Cristo. O tempo novo era o período que se iniciou com a vinda de Cristo. O tempo antigo era o anterior a essa vinda. Vivia-se, então, um tempo intermediário entre os tempos antigos e a nova era a ser inaugurada com a volta do Messias.

A liturgia cristã relembrava os eventos dessa história no seu calendário anual. O tempo que conduzia a vida cotidiana era determinado por esse calendário religioso controlado pelo clero. O tempo linear cristão convivia com o tempo cíclico tradicional do camponês. Um acabou interpenetrando o outro.

O tempo senhorial, por sua vez, era um tempo militar, marcado pelas conquistas e pela guerra. A memória do passado era constituída pelos feitos militares dos antepassados, que honravam e enobreciam o nome familiar, exemplos que deviam ser seguidos pelos seus descendentes.

Tempo da guerra: Batalha de Muret, 1213. Artista desconhecido. Manuscrito francês.

Esse tempo militar se adequou ao tempo cristão administrado pelo clero. A época das campanhas militares devia se harmonizar com o calendário litúrgico, respeitando os dias santificados pela Igreja.

O tempo da nobreza senhorial também se confrontava com o tempo camponês. Isso ocorria na exigência das obrigações, na cobrança das taxas e prestações.

Assim, na vida cotidiana, os homens da Idade Média usavam referências cronológicas variadas, as quais revelam as estruturas econômicas e sociais da época.

As medidas de tempo são instrumentos de dominação social de grande importância. Quem dominava o controle do tempo reforçava o seu poder sobre a sociedade. A variedade de tempos medievais é, portanto, uma imagem das lutas sociais da época.

PEDRO, Antonio; SOUZA LIMA, Lizânias. História sempre presente. São Paulo: FTD, 2010. p. 313-314. V. 1.