"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Cinema e História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema e História. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Os inconfidentes

Estudo para prisão de Tiradentes, Antônio Parreiras

O filme [produção brasileira de 1972, direção de Joaquim Pedro de Andrade] representa os acontecimentos da Inconfidência Mineira. O movimento é visto aqui através do comportamento e da narrativa dos idealizadores do movimento. Os diálogos do filme foram baseados no Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, e dos Autos da Devassa, documento oficial do inquérito sobre a Inconfidência.

Na trama, é evidenciada a força da Coroa portuguesa, a hipocrisia e a covardia dos inconfidentes. Apenas a figura de Tiradentes é preservada. De todos os patriotas engajados no movimento, Joaquim José da Silva Xavier é o que está mais disposto a levar às últimas consequências a revolução e conseguir a tão sonhada independência. Retratado como um jovem revolucionário muito ativo, Tiradentes encarna o ideal de liberdade, o ativismo político e o amor a uma causa em que se acredita. Nesse sentido, Tiradentes parece ser a síntese do movimento do qual participou. Seus companheiros, no entanto, são a síntese dos intelectuais que formulam críticas, mas não atuam. Quando traídos e presos, além de denunciarem seus próprios companheiros, negam envolvimento no levante e juram lealdade a Portugal para salvar suas vidas.

Jornada dos Mártires, Antônio Parreiras

O filme mostra, assim, a ideologia da Ilustração presente no Brasil do século XVIII. De forma pragmática e utilitarista, o tema da liberdade é central, mas, como expresso nas falas dos inconfidentes, o conceito que os inconfidentes utilizavam é restrito. Trata-se da liberdade econômica, nos moldes liberais, e não da liberdade em geral. Vale notar a opinião deles acerca da escravidão: os inconfidentes eram favoráveis à manutenção da instituição, pois não admitiam a ideia de ter de realizar o trabalho dos escravos.

Toda obra, toda produção humana é filha de seu tempo. Assim, podemos identificar no filme vários elementos da realidade social e política brasileira de 1972 (quando o filme foi feito), momento muito significativo na história do país. Desde a escolha do tema e da documentação em que se baseou, até a ênfase dada a cada personagem e seu papel na trama, todo o filme foi fortemente influenciado pelo contexto. No período da produção, o Brasil vivia sob uma ditadura militar, e muitos setores da sociedade já haviam formado grupos de resistência contra essa forma autoritária de governo.


Resposta de Tiradentes, Leopoldino de Faria

O cenário da trama é Ouro Preto, mas o filme faz claras referências ao que ocorria em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro no período militar, em particular no governo do general Médici, e à posição de alguns setores da esquerda, que lutavam desvinculados das expectativas do conjunto da população. A utilização de documentos históricos foi a forma encontrada para burlar a censura do governo militar brasileiro. A obra cinematográfica é uma alegoria por meio da qual estão representados os dois momentos históricos.

Dessa forma, Tiradentes, caracterizado como jovem revolucionário, pode simbolizar os jovens que enfrentaram a ditadura militar. Como Tiradentes, pronto para chegar às últimas consequências na luta contra a opressão metropolitana, alguns jovens no período de produção do filme estavam engajados na luta contra o regime vigente. O filme elogia a coragem desses Tiradentes contemporâneos.

Podemos ver representados neste filme também outros segmentos que constituíam a oposição ditadura no Brasil. Um segmento mais elitizado era constituído por setores da Igreja católica, por militares que não estavam no poder, por políticos alinhados com a ditadura, mas que queriam cargos mais importantes, e por intelectuais de diversas áreas.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 268-9.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Xica da Silva

Festival do rei, Rio de Janeiro, ca. 1770. Ao pintar o Brasil à época da mineração, Carlos Julião acabou criando referências sobre a moda e condições sociais dos escravos 

O filme [produção brasileira de 1976] narra a história de Xica da Silva, uma escrava que foi amante do contratador de diamantes João Fernandes. Suas aventuras desenvolvem-se no século XVIII, no momento em que o Arraial do Tijuco (atual Diamantina) era palco da exploração mineradora. O filme trata, nesse cenário, dos contrastes e contradições do sistema colonial.

O diretor do filme [Cacá Diegues] deu um tratamento especial ao tema. Utilizando-se do humor e de uma fina ironia, representou a sociedade escravocrata da época servindo-se da relação desses amantes. Xica é uma escrava, uma bela mulher negra, que conseguiu seduzir um nobre português, e recebeu dele inúmeros presentes: um belo casarão, roupas, jóias e até um lago e um navio. Viveu como uma rainha. Tece bens e exerceu o poder, ao contrário de todas as outras mulheres negras da época, escravizadas, e das mulheres brancas, ricas e pobres. João Fernandes, por sua vez, perdeu tudo, em consequência dessa "desastrosa" paixão.

O cenário em que se desenvolve a trama é a representação dos aspectos básicos da vida colonial, plena de contradições. A primeira delas é entre a cidade e o campo. O arraial, formado em consequência da exploração de diamantes, é uma vila da arquitetura barroca, com seus casarões e igrejas. Produto da riqueza propiciada pela mineração, é também lugar de contrastes, pois ao lado dos casarões dos mineradores e funcionários da Coroa, havia as casas simples dos homens livres, em ruelas estreitas e pobres.


Escravos negros lavrando diamantes. Ilustração do século XIX, artista desconhecido

Nesse cenário urbano, as mulheres cuidavam das casas e frequentavam a igreja, e os homens dedicavam-se ao trabalho produtivo e à administração. Toda essa riqueza resultava da exploração das minas de diamantes, distantes do centro administrativo. Lá, um grande número de escravos trabalhava e produzia a riqueza apropriada pelos portugueses.

Outros contrastes estão na base da sociedade colonial: a oposição entre brancos e negros, entre senhores e escravos e entre homens e mulheres. O casal de amantes rompe com essa ordem e a inverte. A trama apresenta Xica da Silva como aquela que pode pelos seus atributos femininos, subverter essa "ordem", desnaturalizando as relações de dominação quando escraviza homens e mulheres, brancos e negros. Mas termina com o retorno de João Fernandes a Portugal e de Xica à condição primordial, ou seja, de escrava.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 222-3.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik

O consumo musical, nas décadas anteriores ao surgimento do rock' n' roll, dividia-se de maneira compartimentalizada no mercado: música para brancos [...] e música para negros [...]. Grande parte da população urbana branca consumia música erudita e/ou música popular romântica [...], ou, então, músicas mais rápidas no balanço diluído das grandes orquestras brancas de swing [...]. Até então, os filhos dessa classe média branca não diferiam grandemente dos pais quanto ao gosto musical e ao estilo de vida. Só a partir do surgimento do rock' n' roll é que, efetivamente, se nota a caracterização de uma cultura jovem.

Por volta de 1950, as pequenas gravadoras exploravam dois importantes mercados específicos: o rhythm and blues negro e a música dos brancos rurais - country-and-western -, também tão marginalizada quanto a música negra, pois era a música dos brancos pobres. Da união desses dois tipos de música surgiria o estilo chamado rock' n' roll, transformando todos os esquemas das grandes gravadoras [...] e, num sentido mais amplo, a própria cultura norte-americana e mundial.

Por ser um estilo composto de elementos de origem diversa - "música negra" e "música branca" -, o rock' n' roll também seria encarado, na racista sociedade norte-americana de então, como race music (música de negro). E, exatamente por essa qualidade, ele foi incorporado por outro grupo que começava a se manifestar no cenário dessa sociedade: a juventude.

[...] o rock' n' roll funcionou como uma inversão psicológica na relação entre dominador (branco) e dominado (negro) que prevalecia na sociedade norte-americana. A cultura promovida pela juventude, a partir do rock' n' roll, seria uma forma de os jovens de classe média branca se colocarem em relação à sociedade estabelecida por seus pais, assumindo, mesmo que inconscientemente, certos valores da cultura negra como bandeira.

Apesar do estilo contestatório do rock' n' roll, essa criação de base negra (blues e rhythm and blues) foi uma mercadoria estilizada pelas grandes gravadoras e vendida ao público branco a partir de meados da década de 1950. Na grande maioria dos casos, trata-se de cópias (covers) que cantores brancos fazem, "cobrindo" material originalmente de músicos negros [...]. São óbvias, portanto, as razões por que o primeiro rock de sucesso, "Rock around the clock" (1954), era de um simpático branco de cabelos louros chamado Bill Halley, o mesmo acontecendo com a superestrela do rock' n' roll, Elvis Presley. [...] Cantando com a voz rouca e sensual de um negro, abriu caminho para a aparição, em âmbito nacional, de rock' n' rollers negros como Chuck Berry, Little Richard e Fats Domino. O rock' n' roll branco, além de Elvis, apresentou também algumas figuras brilhantes como Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly, entre outros.


Elvis Presley

A partir de então, a indústria cultural norte-americana desenvolveu-se a mil por hora. Gravadoras, rádios, cinema e televisão, percebendo o mercado que se abria com o rock' n roll e seu estilo de vida, voltaram-se para essa emergente cultura jovem, estimulando cada vez mais o seu consumo.

[...]

Apesar de chocar os padrões morais da época, o rock' n' roll dos anos 50 não era uma música politicamente engajada. Muito pelo contrário, entre seus temas principais figurava a exaltação à dança e ao ritmo da música, às histórias de colégio, além da descrição de carros e relacionamentos amorosos com as garotas. [...]

Diante de tais incompreensões, alguns grupos de jovens optavam pela delinquência juvenil, fazendo disparar as estatísticas de crime e violência. Nascidos antes do ataque, pelos japoneses, à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, [...] que provocou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, eles cresceram em meio ao conflito e, de certa forma, no seu prolongamento, evidenciado no fantasma da Guerra Fria. Mesmo gozando de todos os privilégios da classe média branca norte-americana, esses jovens não podiam escapar a um sentimento de vazio existencial, produto de uma sociedade consumista e materialista; ou a um sentimento de culpa, mesmo que inconsciente, pelas desigualdades sociais e raciais dessa sociedade. Outros, oriundos de lares desajustados, reflexo da própria guerra e da vida moderna norte-americana, eram incapazes de se enquadrar no estilo de vida americano. [...]


A situação de revolta da juventude forneceu farta matéria para o cinema da época, que criou uma galeria de tipos, desde o delinquente juvenil homicida (ou suicida) até o rapaz bem-intencionado, de boa família, que por forças alheias à sua vontade, era desviado do "bom caminho". Três filmes-chave refletiram com extrema atualidade esse problema. O selvagem, de 1953, com Marlon Brando, descreve os momentos vividos por uma pequena cidade subitamente invadida por um bando de motoqueiros. É, de certa forma, uma parábola do choque entre a sociedade organizada e o potencial "selvagem" de uma juventude sem rumo. Juventude transviada, de 1955, com James Dean, revela os problemas individuais dos "rebeldes sem causa" dos anos 50. Mas é Sementes da violência, também de 1955, que expõe de modo mais didático (o tema do filme é a educação) toda a carga de hostilidade no relacionamento entre a juventude marginalizada e a sociedade. A música que anuncia o filme é "Rock around the clock", o primeiro grande hit do rock' n' roll e um verdadeiro hino de guerra dos adolescentes de então. Essa música também é utilizada como uma referência ao conflito entre professores (que representam as regras estabelecidas pela sociedade) e alunos, numa cena altamente simbólica em que os jovens rebeldes quebram toda a coleção de discos com que o bem-intencionado mestre tenta iniciá-los no jazz tradicional.

[...]

A partir dos personagens desses filmes, o cinema conseguiu retratar os dilemas de uma geração, ao mesmo tempo que ofereceu um modelo visual e ideológico para a juventude dos anos 50.

O ídolo da época foi James Dean, que fez os jovens do mundo todo imitarem suas caretas, trejeitos, roupas e corte de cabelo. [...]

O mito cinematográfico James Dean simbolizava tudo o que era jovem, moderno, norte-americano e diferente. Ele inspirava o traje (uniforme) dos jovens, que, com seu jeans apertado e sua jaqueta de couro preta, adotavam uma atitude de rebeldia contra a sociedade consumista, de resistência contra as rígidas convenções sociais do universo adulto, e se entregavam à violência, às bolinhas, ao rock' n' roll e às experiências sexuais.

Não é coincidência o fato de James Dean e o rock' n' roll terem invadido a imaginação do jovem dos anos 50. Esses dois elementos expressavam uma mudança no universo de valores da juventude, algo que esse público não entendia completamente, mas a que intuitivamente aderia, e que a indústria cultural da época começava a explorar na forma de mercadoria. [...]

Mas nem só de jovens transviados e rock' n' roll viveram os anos 50. A Guerra Fria e a cultura de consumo não contribuíram apenas para um sentimento de inquietação em relação aos adolescentes; elas também favoreceram o surgimento de um pequeno grupo de jovens universitários que, através de um movimento literário, tentavam oferecer um estilo de vida alternativo ao mundo materialista da sociedade norte-americana.

Em 1957, com a publicação de On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac, eclodiu no mundo burguês da América de Eisenhower um perturbador fenômeno que Kerouac chamou de beat. Esse termo podia sugerir a busca de uma "purificação do espírito" (beatitude), com influência das religiões orientais (budismo, zen-budismo etc.). Também se referia a um estilo de vida aventureiro adotado pelos que, sem eira nem beira, andavam à deriva pelas estradas da América, em busca de aventura, aproveitando-se da opulência material do estilo de vida americano. Por último, tinha ainda conotações musicais referentes ao be-bop e ao cool jazz.

Ser beat, por extensão, significava fluência, improviso, ausência de normas preestabelecidas na vida e na arte. Significava também a busca de um envolvimento profundo que traz música, balanço, liberdade e prazer, na procura da realidade marginal das minorias raciais e culturais no interior da sociedade norte-americana.

Dessa forma, o termo "geração beat" (beat generation), assim como a cultura produzida por ela, não designa um movimento estético-literário organizado em torno de um programa de objetivos preestabelecidos, mas refere-se a poetas e escritores (Jack Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Gary Snyder etc.) que, em constante deslocamento, viviam a América dos anos 50.

[...]

Aparentemente afastados do rock (os beats nunca esconderam sua aversão pelo rock' n' roll adolescente dos anos 50), os autores beats seriam de grande importância para o rock dos anos 60, influenciando músicos como Bob Dylan, John Lennon e Jim Morrison, dados aos temas críticos do estilo de vida americano: drogas, bebedeiras, sexo livre, visões cósmicas, utopias e o cotidiano. Pode-se dizer que os poetas e escritores beats tentaram fazer a ligação direta entre a arte e a vida no mundo moderno, antecipando um dos princípios básicos dos movimentos jovens dos anos 60, que era obedecer aos instintos de uma cultura alternativa ligada ao cotidiano, independentemente do reconhecimento da cultura oficializada pela sociedade.


BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 26-34.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Por que globalizar a cultura? [II- Uma revolução cultural rica e abortada]

Cena do filme Deus e o diabo na terra do Sol, dir. Glauber Rocha

Houve um momento em que se reagiu contra essa penetração ideológica estrangeira.

Foi nas décadas de 1950 e 1960 quando o Cinema Novo produziu algumas películas marcantes. Nelas, havia grande preocupação com o conteúdo social. Foram feitos filmes que alcançaram projeção internacional.

É o caso de Rio, 40 graus e Rio, Zona Norte. Ambos tratam da população mais pobre da cidade do Rio de Janeiro. Tiveram a direção de Nelson Pereira dos Santos. Como esquecer O pagador de promessas? Nele, Anselmo Duarte conta a história do caboclo Zé do Burro. É um tema nacional porque mostra o sincretismo religioso dos caboclos e a intransigência da Igreja Católica.

Na época, Glauber Rocha dizia: "Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça." Quem sabe você já assistiu a uma das suas grandes realizações, chamada Deus e o diabo na terra do sol?

Clubes de cinema, congressos e entidades como o Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes, lutaram pela valorização de questões nacionais! [...]

O teatro igualmente deu sua contribuição. Multiplicaram-se os teatros de bolso, cobrando ingressos mais baratos. O Tablado, de Maria Clara Machado, o Teatro de Arena, de Gianfrancesco Guarnieri, e o Grupo Oficina valorizaram antigos e novos autores de peças nacionais. Apresentaram muitos textos políticos!

Dessa época são duas das maiores peças teatrais produzidas entre nós: Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, e Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho, o popular Vianinha.

Vianinha, com João das Neves, Augusto Boal e outros, fundou o CPC, em dezembro de 1961. Esse órgão da UNE foi um dos focos dessa revolução cultural. Peças teatrais foram levadas aos sindicatos. Fizeram-se documentários abordando questões econômicas e sociais da realidade brasileira. Distribuíram-se livros, discos e revistas tratando da dívida externa, da reforma agrária e do dia a dia do brasileiro. Editaram-se livros de poesia e de literatura de cordel. Músicas de protesto, como Subdesenvolvido e O povo canta, foram popularizadas.

Essa renovação da cultura brasileira sob uma visão nacional também se deu na revalorização do samba. Muito significativa é a crítica apresentada por Wilson Batista e Roberto Martins. Está presente no samba Pedreiro Waldemar. Veja a letra:

Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece
mas eu vou lhe apresentar.
De madrugada toma o trem da circular
faz tanta coisa e não tem casa pra morar.

Em 1960, uma autoridade da cidade do Rio de Janeiro propôs fossem as favelas pintadas. Considerando serem inevitáveis, os barracos nela existentes deveriam ser coloridos. De imediato, Jota Júnior e Oldemar Magalhães deram a resposta:

Favela amarela...
Ironia da vida.
Pintem a favela
Façam aquarela
Da miséria colorida!

Este samba, "Favela amarela", foi bastante cantado no Carnaval de 1960.

Aí veio a longa noite dos generais: a ditadura militar.

A UNE foi fechada. O CPC acabou. A censura e a repressão física chegaram. Muitos acabaram presos. Essa renovação foi sufocada.

Mesmo assim, Zé Kéti ainda conseguiu divulgar seu protesto no samba "Opinião":

Podem me prender.
Podem me bater.
Podem até deixar-me sem comer
que eu não mudo de opinião!

[...] Apesar da influência da Jovem Guarda, foi rica a produção de melodias ligadas às tradições brasileiras. Nos festivais de música popular, realizados nas emissoras de televisão, havia verdadeira guerra entre os sambas e as músicas mais ou menos politizadas. Como titular de programa da TV Record, de São Paulo, desde 1969 destacou-se a Jovem Guarda. Dela participavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia e outros. Em suas músicas, as letras eram românticas ou reproduziam as angústias da classe média. Muitas delas foram feitas para ganhar festivais, pois o grupo também participou do Festival da Música Popular Brasileira, em 1967.

Essa corrente tinha letras despolitizadas. Era um verdadeiro contraste com as músicas de protesto.

De que vale o céu azul
E o sol sempre a brilhar
Se você não vem
E eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você
me aqueça neste inverno
e que tudo mais vá pro inferno.
(Quero que vá tudo pro inferno, canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Outra linha musical "tinha como características a marca regional, o acento nordestino e a ausência de conotação urbana". Essa análise é de Martha San Juan França. [...]

[...]

Foi nesse contexto que explodiu uma reação de grande impacto: o Tropicalismo. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e outros artistas, muitos deles baianos, provocaram verdadeiro escândalo. Por vezes, apresentavam-se acompanhados de conjuntos tocando guitarras elétricas.

Na História social da música popular brasileira, o crítico José Ramos Tinhorão afirma que os tropicalistas renunciaram a qualquer questionamento político-ideológico. Textualmente declara que os tropicalistas "acabaram chegando à tese que repetia no plano cultural a do governo militar no plano político-econômico. Ou seja, a tese da conquista da modernidade pelo simples alinhamento às características do modelo importador de pacotes tecnológicos prontos para serem montados no palco".

[...]

Mesmo assim, Alegria, alegria, de Caetano, e Domingo no parque, de Gil, foram bastante populares na época, principalmente entre os jovens. Para algumas pessoas, aquela música de Caetano era uma crítica à alienação.

Apesar da feroz censura, a resistência à ditadura militar e aos estrangeirismos produziu melodias de grande sensibilidade e beleza. As críticas não deixavam dúvidas da posição política dos autores.

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente, olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo o troco...
(Pesadelo, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós)

Mas as expressões máximas desse período foram certamente Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda, Torquato Neto, Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, Ivan Lins, Taiguara e Jards Macalé. Esses artistas chegaram a ser considerados malditos. Tiveram músicas censuradas. Alguns partiram para o exílio.

[...]

Vandré compôs uma melodia cheia de frases-denúncias e de estímulo à luta: Caminhando - Pra não dizer que não falei de flores. Foi uma loucura em um dos festivais da canção. Centenas de pessoas logo repetiam a letra, entoando a melodia.

Caminhando e cantando
E seguindo a canção.
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos,
De armas na mão.
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição.
De morrer pela pátria
E viver sem razão [...]

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer.

Militares até pediram a prisão de Vandré.

Felizmente, a sensibilidade e a coragem de um punhado de artistas resgatavam os valores e a riqueza da cultura nacional. Eles e muitos outros continuaram a resistir. A denunciar a violência existente.

[...]

Quase ao findar a década de 1970, a censura deixou passar uma canção marcante. Melodia belíssima. Notável interpretação de Elis Regina. Letra de alegorias, mal disfarçando as denúncias e críticas à ditadura existente. Às atrocidades cometidas. Às mulheres viúvas de opositores assassinados. Uma mensagem plena de esperança no amanhã. Na volta da democracia. No retorno daqueles que partiram. Exilados ou banidos.

O bêbado e o equilibrista, canção de Aldir Blanc e João Bosco, em 1979, tornou-se verdadeiro hino do Movimento pela Anistia.

E nuvens
lá no mata-borrão do céu
chupavam manchas torturadas,
que sufoco!
[...] Chora
a nossa pátria-mãe gentil
[...] com a volta do irmão do Henfil
com tanta gente que partiu
num rabo de foguete.
[...] Azar,
a esperança é equilibrista,
sabe que o show de todo artista
tem que continuar.

É fundamental multiplicarmos o número de artistas cada vez mais conscientizados da necessidade de lutar. Lutar contra a globalização da cultura e da sociedade brasileira.

Globalização que, na realidade, é a nova face do imperialismo.

[...]

Não podemos contar com a grande maioria das autoridades. Ela está preocupada em subvencionar os Rock' in Rio, Hollywood Rock, Free Jazz. O domínio da opinião pública pelos meios de comunicação e gravadoras multinacionais busca impor sons musicais contaminados pelo popularesco.

As emissoras de rádio e televisão inundam o país com os sons de conjuntos impregnados por esses sons. [...]

[...] a política dos meios de comunicação não visa apenas a compor gostos, modas. Criar sucessos. Seu objetivo real é alienar. [...]

[...]

Apesar dessa massificação o rap tem invadido as cidades, descendo do morro ou da periferia, com músicas de duvidosa qualidade. Algumas delas, no entanto, constituem verdadeiros protestos políticos e sociais.

Felizmente um Zeca Pagodinho, um Bezerra da Silva, uma Beth Carvalho, um Renato Russo, um Paulinho da Viola, um Nelson Sargento ainda sustentam a bandeira da genuína MPB. Sem perder a beleza da melodia, nem a malemolência do ritmo, suas músicas contêm frases-denúncia da realidade brasileira.

A injustiça impera na face
da Terra
A miséria sempre gera guerra
Por isso existem os conflitos
sociais
E as nossas crianças nas ruas
estão desamparadas
(Juiz de toda humanidade, samba de Bicalho e Capri. Canta Bezerra da Silva)

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 166-175.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Cinema e História: "1492: a conquista do paraíso"

Cena do filme "1492: a conquista do paraíso" [Direção: Ridley Scott; produção: França, Espanha, Inglaterra; Duração: 155 minutos]

O filme narra os preparativos e as viagens empreendidas pelo navegador Cristóvão Colombo que resultaram no descobrimento, na conquista e na colonização da América. Produzido em 1992, é um épico que comemora os 500 anos da chegada dos europeus ao continente americano, quando se discutiu o caráter desse fato: "descoberta" ou "conquista"?

Como toda obra cinematográfica com temática histórica, há duas dimensões importantes a considerar: o fato histórico representado (o contexto europeu da descoberta e da colonização da América) e o momento da produção de sua representação. O título do filme indica a opção do diretor, que desenvolveu a narrativa enfatizando as diferenças - sociais, econômicas e culturais - e as relações que se estabeleceram, por um lado, entre o velho continente europeu, as expectativas e necessidades de uma sociedade em transformação e, por outro, o Novo Mundo, conjunto de terras e povos cuja história foi radicalmente modificada em função desse contato. O tema principal do filme é de fato o encontro e o choque entre culturas.

A narrativa foi construída com base em dados e documentos históricos: os diários de Colombo, parte da obra de frei Bartolomé de Las Casas (História das Índias) e um texto do filho de Colombo, Fernando. Os dados que esses documentos apresentam foram interpretados pelo diretor à luz da perspectiva que assumiu na discussão do significado do fato histórico. O narrador é Fernando, e a história pode ser dividida em três grandes etapas: a preparação da viagem, a viagem propriamente dita e o regresso e novas viagens.

O cenário é constituído de paisagens europeias, pelo oceano e por paisagens americanas e enfatiza o clima de aventura. Os diálogos entre as personagens mostram as dificuldades e as expectativas dos homens do final do século XV. A ligação entre esses mundos é estabelecida pelo personagem principal, que realiza uma viagem, "descobre" novas terras e retorna para contar o seu feito. A "descoberta" aparece como uma aventura; Colombo, como um homem de grandes feitos (um herói); seus patrocinadores, como benfeitores (embora tenham seus interesses particulares); e os habitantes do Novo Mundo, chamados por ele de índios, como criaturas puras e dóceis. Depois dessa primeira viagem, a da "descoberta" e do "encontro", vieram outras, que representam os primórdios da conquista e da colonização.

Em toda a primeira parte, Colombo aparece como um navegador que crê na possibilidade de atingir "el levante por el poniente", isto é, chegar ao Oriente navegando para o Ocidente. É um homem de ciência e técnica, um homem moderno, que conhece as teorias dos antigos sobre a forma esférica da Terra e luta para conseguir convencer os homens poderosos de seu tempo - os reis católicos (Fernando de Aragão e Isabel de Castela), os clérigos e universitários, os grandes comerciantes - de que esses conhecimentos permitiriam atingir as Índias, terra das valiosas especiarias. Isso atenderia às necessidades de ampliação dos mercados europeus afetados pela crise do século XIV. Atenderia principalmente às necessidades da Espanha, recém-saída do processo de Reconquista. Colombo percorre diversos ambientes - o mosteiro, a cidade, a universidade - e defende suas teses. É um homem determinado. Mas esses mesmos episódios indicam que ele é um homem medieval, pois crê na existência de um paraíso terrestre e entende que possui, como cristão, a missão de propagar o Cristianismo. Assim, Colombo dá continuidade ao espírito de cruzada que presidia à Reconquista.

A primeira viagem está representada como uma saga: com apenas uma nau (Santa Maria) e duas caravelas (Pinta e Nina), o navegador partiu do porto de Palos a 3 de agosto de 1492 e fez escala nas ilhas Canárias para reparo de uma das embarcações. Enfrentou motins da tripulação e intempéries, até avistar, em 12 de outubro do mesmo ano, a ilha de Guaani (atual San Salvador, nas pequenas Antilhas), acreditando ter atingido o Oriente. Enquanto não encontrava os ricos mercados referidos por viajantes medievais, como Marco Polo, Colombo procurou interagir com os nativos e iniciou a construção de um posto comercial fortificado. Recolhia provas de seu feito - metais preciosos e indígenas - para retornar ao Velho Mundo como vencedor. O paraíso tinha sido descoberto, iniciava-se ao mesmo tempo sua invasão.

Os europeus foram considerados pelos índios como deuses, mas desde a primeira viagem ficou evidente que se tratava de homens diferentes e violentos. A morte de um índio, depois da partida de Colombo, provocou a rebelião e a destruição da fortificação espanhola. O choque de culturas quebrou o encanto do encontro. As demais viagens de Colombo representam o estabelecimento dos fundamentos da ocupação e da colonização europeias. O herói da primeira fase vai se humanizando, assumindo o papel de conquistador.

Desencantado também, Colombo lutou para garantir seus direitos sobre a descoberta. Mas morreu pobre aquele que foi um dos navegantes mais ousados de sua época. E a obra de seu filho, escrita para que Fernando pudesse reivindicar os direitos do pai como herança, acabou servindo apenas como registro do grande feito: o descobrimento e o desencantamento do mundo pelos europeus.

PEDRO, Antonio et alli. História da civilização ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p 175-176.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Cinema e História: "A Guerra do Fogo"

Cena do filme "A Guerra do Fogo" [Diretor: Jean-Jacques Annaud, produção franco-canadense de 1981, 97 minutos]

Um dos raros filmes sobre a pré-história. Como o diretor se preocupou com a veracidade das informações, o filme permite discutir uma série de temas importantes. Um deles são as condições de sobrevivência do homem pré-histórico. Nesse aspecto o filme é muito violento: ameaças constantes representadas pelos animais, por outros grupos humanos, pelo frio e pela fome.

Outra discussão importante suscitada pelo filme é a da diversidade cultural e física entre os grupos humanos retratados. Um dos grupos envolvidos na luta pela posse do fogo é muito semelhante fisicamente ao homem atual, enquanto o outro tem o corpo coberto de pêlos. Neste aspecto o filme se mostra atualizado com as pesquisas científicas, que descartaram a ideia de uma evolução linear que iria do macaco ao homem. Hoje sabemos que, por exemplo, o Homo sapiens foi contemporâneo, por milênios, do Homo neanderthalensis.

As diferenças culturais são ainda mais evidentes: aparecem os que não possuem armas, outros com bordunas e um terceiro grupo que conhece o arco e a flecha. Uns moram em cavernas, outros já constroem as suas próprias habitações.

Outro aspecto importante do filme é o das trocas culturais entre grupos diferentes, mostrando que essas relações não precisam ser necessariamente marcadas pela violência. O fogo, objeto de disputa entre eles, exemplifica bem essa troca. Simbolicamente, é uma mulher que ensina ao homem de outro grupo como acender o fogo, quando ele se apagou. É a mulher que está sempre rindo no filme, parecendo indicar que as relações humanas são marcadas também pela cooperação e pela afetividade.

PEDRO, Antonio et alli. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 15.