"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 30 de abril de 2016

Os cangaceiros

Cangaceiros, Portinari

1938

Sertão do Nordeste brasileiro

Os cangaceiros atuam sempre modestamente e nunca sem motivo: não roubam aldeias de mais de duas igrejas e matam somente por encomenda ou por vingança jurada frente a punhal beijado. Atuam nas terras queimadas do deserto, longe do mar e do hálito salgado de seus dragões. A torto e a direito, atravessam as solidões do nordeste do Brasil, a cavalo e a pé, com seus chapéus de meia-lua jorrando enfeites. Raras vezes param. Não criam seus filhos nem enterram seus pais. Pactuando, com o céu e com o inferno, fecharam seus corpos aos tiros e às punhaladas, para morrer de morte morrida e não de morte matada, mas cedo ou tarde acabam mal suas vidas que já não valem nada, mil vezes cantadas nas cantigas de cordel dos cantadores cegos: Deus dirá, Deus dará, légua vem, légua vai, epopeia dos bandidos errantes que de briga em briga andam sem dar tempo para que o suor seque.

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: O século do vento. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 662.

terça-feira, 27 de março de 2012

O coronel e o cangaceiro

As ideias do coronel Chico Heráclio, o Leão das Varjadas [O coronel foi entrevistado na varanda de sua casa, pelo repórter José Hamilton Ribeiro, a serviço da Revista Realidade, em 1966. Entrevista adaptada]

Família do coronel Chico Heráclio

P - O Sr. é rico, coronel?
R - Meu filho, você viu a minha casa. Tem geladeira? Televisão? Até o rádio anda enguiçado... O que tenho construí com meu trabalho aqui na fazenda, pois nunca fui dado às letras. Comecei a estudar no Recife, mas uma epidemia me trouxe de volta, ainda menino.

P - Não concluiu nem o primário?
R - Já tive inimigo querendo cassar meu título de eleitor por analfabetismo, ora veja! Mas, minha pouca ilustração não me atrapalhou no governo das nossas 13 fazendas e dois engenhos.

P - Sua família é muito grande, coronel?
R - Sou viúvo três vezes. Aquela mocinha que você viu lá dentro, bulindo comigo, não é esposa não! É minha afilhada e arrumadeira. Tenho quatro filhos, o menor é esse ximbute de 13 anos. Mas filho meu só é de maior quando eu morrer. Ninguém fuma nem bebe na minha frente. Nem o Francisco e o Heraclinho, que são deputados. Aliás, esse é o único diploma que dei para eles, o de deputado. O José não tem porque não quer.

P - Desculpe, coronel Chico, mas corre por aí que o Sr. tem mais de 40 filhos naturais...
R - Calúnia dos adversários, meu filho. Devo ter só uns 20 ou 30. E não desamparo nenhum. Aqui na Fazenda das Varjadas eu faço de tudo: dou injeção, distribui pílulas, empresto dinheiro, até já casei e batizei, no tempo em que existia união em Limoeiro e todos viviam bem.

P - Mas afilhados são muitos, não?
R - Mais de dez mil, menino. E compadres e comadres muito fiéis. Graças a eles nunca perdi eleição para prefeito, desde 1922.

P - Então o Sr. é muito querido...
R - Olha, a maior riqueza do mundo são as amizades, e nisso eu estou bem servido, graças a Deus. A Maria das Flores, que eu lhe apresentei há pouco, trabalha demais nas eleições. Não sei se você viu, mas ela me trouxe uma lista de 1.500 novos eleitores. Quer maior prova de amizade? Teve até um caso engraçado: ela alistou duas irmãs, de 16 e 17 anos, aumentando a idade das moças pra 18. Quer dizer, a Maria fez as duas irmãs ficar gêmeas...

Com a palavra Volta-Seca, ex-cangaceiro do bando de Lampião [A entrevista com o ex-cangaceiro foi feita em 1974, pelo jornal Pasquim, em sua casa na zona rural do Rio de Janeiro. Texto adaptado]

Bando de Lampião. Volta-Seca, ainda menino, é o primeiro da direita para a esquerda, na fila da frente

P - Quando você entrou para o cangaço?
R - Saí de casa aos nove anos, não aturava minha madrasta. Vendi doces pra poder comer, vendi água num animal, saí pelo mundo sem destino, sem ninguém por mim, só Deus.

P - Aí você virou cangaceiro?
R - Um sujeito abusou da minha irmã e eu fui lá saber. Reclamei com o juiz, ele não fez nada, aí eu pensei: "a justiça aqui quem faz sou eu mesmo". Enterrei a faca no umbigo dele. E me joguei no mundo. Sozinho, sem bando ainda.

P - Com nove anos?
R - É. Um cara que queria ser meu cunhado veio em meu encalço, ele era soldado, matei ele também. Pensei: quem tá perdido pelo caminho não vai pra casa. Eu num tenho mais liberdade na vida, num tenho mais sorte na vida. A minha vida é essa mesmo. No mundo: Bom Conselho, Antas, Jair Mulato, Santa Brisa...

P - Sozinho o tempo todo?
R - Em Goloso, Lampião chegou com uns nove companheiros e me pediu pra dar banho nos cavalos deles. Com sabão eucalói, vidro de loção! Até eu tomei banho, uai! O capitão gostou de mim, mas eu não queria ir. "Você quer ir ou quer morrer? Escolhe um dos dois". "Eu vou, capitão!" Tinha 11 anos.

P - Como você foi recebido no grupo?
R - Muito bem. O capitão disse: "olha esses homens que você tá vendo aqui, é todos por um e um por todos. Se você tomar um tiro ali, eles estão aqui pra lhe acudir; se um tomar também, você tá aí pra acudir. Então num tem ás nem reis. Eu sou o chefe. Mas, aqui, também vocês tudo manda".

P - E os choques com a polícia, com as volantes do governo?
R - Eles eram 500, 600; nós 90, 100, mas sempre a gente vencia. Teve caso dos "macacos" se pegarem entre eles mesmos, de tão apavorados. Iam atirando, sem saber em quem. E depois que eles tinha gastado bem a munição a gente encostava.

P - E como vocês faziam com os feridos?
R - Quando não tinha socorro em sítio ou fazenda perto, a gente mesmo se curava. Com a tesoura, a frio, nóis extraía as balas.

P - Muito inimigo foi morto depois de preso?
R - Quando alguns se entregavam, o capitão mandava dar água e depois matava, que era pro cabra não morrer com sede... Chamava o prisioneiro e gritava, com a espingarda na mão: "arrepare o que vai sair daqui de dentro!"

P - Então o homem era mau mesmo...
R - Ele explicava. Dizia: "se prende nóis, mata aos pouquinhos. Foi o que fizeram com meu pai, com a minha mãe. Então eu faço com eles também. Eu queria viver na paz com todo mundo. Agora, tem uma coisa: morro mas num me entrego!"

P - O que você achava do Lampião?
R - Briguei com ele, saí do bando, mas sempre achei ele um boa praça, um homem atencioso, respeitador. Matou dois do grupo que tinham tentado violar uma moça.

Chico Heráclio e Volta-Seca, o coronel e o cangaceiro. Os dois viveram no mesmo mundo rural do sertão: Limoeiro, Santa brisa, Goloso... O Nordeste produziu tipos tão diferentes!

Diferentes mesmo? Ou apenas duas faces da mesma moeda?

Essas vidas carregavam muitas mortes. O coronel mandava, o cangaceiro também. O coronel era temido, o cangaceiro também. Mas um tinha a proteção das autoridades, era a própria "autoridade"! O outro era perseguido... Os coronéis duraram muitos anos - ainda há muitos hoje modernizados - e existiram em todo o país [...].

ALENCAR, Chico et alli. Brasil Vivo 2: a República. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 11-13.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Lampião, bandido ou herói do sertão?

Lampião e Maria Bonita, c. 1936/1937. 
Fotógrafo: Benjamin Abrahão Botto

"O bandido social é, em geral, membro de uma sociedade rural e, por razões várias, encarado como proscrito ou criminoso pelo Estado e pelos grandes proprietários. Apesar disso, continua a fazer parte da sociedade camponesa de que é originário e é considerado herói por sua gente, seja ele um justiceiro, um vingador ou alguém que rouba dos ricos". 
(Carlos Alberto Dória)

Anúncio de jornal do governo da Bahia oferecendo recompensa pela captura de Lampião, 1930.

[O cangaço] O cangaço é o fenômeno de formação de bandos de sertanejos que assolaram o sertão nordestino e viveram escondidos pela caatinga, roubando, matando e fugindo. Alguns desses bandos tornaram-se tão organizados e poderosos que chegaram a assustar não só os ricos da região como também o governo (...)


Cangaceiros, Carybé 

(...) Os bandos de cangaceiros começaram a se destacar ainda no Império, durante o governo de D. Pedro II (1840-1889), quando os conflitos entre as famílias pertencentes a partidos políticos que disputavam o poder se transformaram em longas lutas. Essas lutas entre famílias, chamadas de vendetas, estavam diretamente relacionadas à posse das terras, pois disputavam-se os melhores pastos e os terrenos que tivessem água, fundamental nesta zona de seca. Um grande proprietário era aquele que possuía não apenas maior quantidade de terra, mas, principalmente, terras de melhor qualidade, irrigadas naturalmente, pois para esta sociedade a terra significava poder.

Contudo, foi somente no inicio do século XX, quando as lutas das famílias pelo poder continuavam e a situação política nacional favorecia essas disputas locais, que se observou a formação dos bandos mais importantes e organizados, como os de Antônio Silvino e Lampião. Percebe-se, nesse momento, o aumento dos conflitos, na tentativa de fazer crescer a autoridade de cada chefe local, os “coronéis”, que eram um dos grupos característicos dessa sociedade sertaneja na virada do século XIX para o XX (...). ROITMAN, Valter. Cangaceiros – Crime e aventura no sertão. São Paulo: FTD, 1997.


Indumentária dos cangaceiros

[Os cangaceiros] Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, foi chefe do mais famoso e duradouro bando de cangaceiros. [...]

Muitos ingressavam no cangaço por estar desempregados ou mesmo passando fome. Faziam dele um meio de vida. Outros, por não se submeter mais aos trabalhos penosos das fazendas, passaram a viver de assaltos aos senhores de terras, pilhagens de armazéns, sequestros de pessoas ricas e opressoras. Rebelavam-se contra uma ordem social injusta e opressiva, buscando a justiça pelas próprias mãos.

Na literatura de cordel, o povo cantava as histórias do cangaço, depositando nele suas esperanças de um mundo melhor.

"Pra havê paz no sertão
E a gente pudê drumi
Cumê, bebê e vesti
Pulas festa vadiá 
Sem nunca se atrapaiá
É perciso Lampião
Fazê do seu bataião
a Polícia Militá."

O cangaço era um movimento independente. Consciente ou não, o cangaceiro rebelava-se contra os latifundiários, os poderosos. Diferia dos capangas - os jagunços - que eram assalariados do crime, lutando a serviço dos coronéis que pagassem mais.

O tamanho dos bandos variava de acordo com a época (aumentando nos períodos de seca e de fome) ou segundo o prestígio do líder. O bando de Lampião, o Rei do Cangaço, foi o maior de todos, chegando a ter, em algumas épocas, 100 homens. Durante 20 anos, 1918 a 1938, ele percorreu todo o Nordeste. Atacava de preferência os grandes proprietários, dos quais exigia dinheiro, alimentos e às vezes abrigo contra a polícia. Em troca, prometia que o latifundiário não seria molestado, nem mesmo por outros bandos.

Entre os líderes do cangaço, contam-se ainda Antônio Silvino, que dominou o sertão nordestino de 1896 a 1914, Calango, Moçoró e Corisco, sendo que os dois últimos aderiram ao bando de Lampião.

Em quase todos os bandos, as mulheres participavam em pé de igualdade com os homens: Maria Bonita, mulher de Lampião; Enedina, que morreu em combate ao lado de Maria Bonita; Inacinha, companheira de Gato; Sebastiana, mulher de Moita Brava; Dadá, companheira de Corisco.

Dadá e Corisco, 1938. 
Fotógrafo: Benjamin Abrahão Botto

Como fenômeno social, o cangaço foi uma manifestação da revolta não-organizada em termos políticos dos oprimidos contra os opressores. Por isso, conquistava a simpatia da população pobre.

"Pra havê paz no sertão
E as moças pudê prosá
E os rapaz pudê casá
E o povo pudê se ri
E os menino diverti
É preciso uma inleição
Pra fazê de Lampião
Gunvernador do Brasil."

ALENCAR, Chico et al. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1994.

Cangaceiros, Carybé


[O cangaço na literatura de cordel] A literatura de cordel — tipo de literatura popular presente no mundo inteiro, através de cantorias, improvisos, desafios: os poetas populares dizem suas mágoas, alegrias, esperanças e desespero de cada dia — cantou inúmeras vezes os feitos de Lampião, o Rei do Cangaço, pois seu bando era apenas um dos que perambulavam pelo sertão. Leia o que se cantou e contou sobre Lampião.

"Canção do cangaceiro"

Adeus, adeus, minha mãe
Me dê sua benção.
Vou acertá minha vida
No grupo de Lampião.
[...]
Querendo andá no cangaço,
Inté sou bom cangaceiro,
Que isso de matá gente
É o serviço mais maneiro.
[...]
Se o cabra não tem corage,
Que mude de profissão,
Vai prô cabo da enxada
Aprantá fava e argudão.

ROCHA, Melquíades da. Bandoleiros das caatingas.  In: Coletânea de documentos históricos para o 1º grau. São Paulo: SE/Cenp, 1980.

O bando de Lampião, ca. 1936/1937. 
Fotógrafo: Benjamin Abrahão Botto

"Os cabras de Lampião"

O Clementino Furtado,
fazendeiro do sertão,
sentou praça na polícia
para pegar Lampião
recebeu logo as divisas
de sargento, o valentão.
O sargento um certo dia
deitou a mão num coiteiro
ameaçando matá-lo
na boca do granadeiro
para que ele revelasse
onde estava o cangaceiro.
[...]
O sargento fez o cerco,
preparou os seus soldados,
depois mandou chover balas,
quase por todos os lados,
os cabras surpreendidos
acordaram atordoados.
[...]
O fuzil de Lampião
na luta não tinha falha,
da boca saía fogo
parecendo uma fornalha
ou uma metralhadora
descarregando a metralha.
[...]
Durava já duas horas
essa luta sem cessar,
Lampião foi dar um salto
mas no pulo deu azar
pois recebeu uma bala
no esquerdo calcanhar.
[...]
Alguns meses Lampião
tratando o seu calcanhar,
na serra de Baixa Verde,
com o grupo a descansar
perto da Vila de Patos
pôde se recuperar.
Corria até a notícia
que ele havia morrido
enquanto isso saía
com um grupo decidido
a atacar, encontrando
o povo desprevenido.
Manoel D’Almeida Filho

Referências: 

ALENCAR, Chico et al. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1994.
MEYER, Marlyse. Autores de cordel: literatura comentada. São Paulo: Abril, 1980. 
ROCHA, Melquíades da. Bandoleiros das caatingas.  In: Coletânea de documentos históricos para o 1º grau. São Paulo: SE/Cenp, 1980. 
ROITMAN, Valter. Cangaceiros – Crime e aventura no sertão. São Paulo: FTD, 1997.