"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 3 de junho de 2013

África Negra 3: A expansão do islã. Zimbábue. Oyo e Benin. Rozvi. Bunioro. Buganda. Chwezi. Masai

Mercado masai, Martin Bulinya, Quênia

A expansão muçulmana, que envolvia inicialmente a conquista e, mais tarde, a conversão de povos africanos ao islã, teve início no século VII, com a conquista do Egito e da Cirenaica pelo Califado Árabe. Cem anos depois, todo o litoral africano do Mediterrâneo (e a Espanha) fazia parte do mundo islâmico. Gradativamente eles avançaram para o sul, através do Deserto do Saara, convertendo os tuaregues. Do século XI ao XII, a parte ocidental e a central do Sahel e os litorais do Mar Vermelho e da Somália já haviam sido dominados ou convertidos, enquanto as cidades comerciais árabes do Oceano Índico, desde o norte de Moçambique, já constituíam baluartes islâmicos. Posteriormente, ao longo dos séculos seguintes, a religião muçulmana ganhou terreno no hinterland do Golfo da Guiné (numa linha paralela à costa que parte do sul do Senegal até o centro da Nigéria e Tchad), no Vale do Nilo (centro do Sudão), no litoral do Mar Vermelho (Eritréia) e do Oceano Índico, atingindo parte do norte de Moçambique e de Madagascar.

A importância desse processo é tanto de ordem civilizacional como internacional, pois afetou profundamente as formas de organização social e econômica, bem como a inserção política e econômica dessas regiões. A Europa deixou de ser a única referência, como o Oriente se tornando um polo de atração. Além das peregrinações a Meca e da universalização da língua e da cultura árabes, formaram-se novos vínculos identitários e fluxos internacionais que abarcaram boa parte da África Negra.


A dança, Martin Bulinya, Quênia


No tocante à grande migração africana, por volta do ano 400, os primeiros agricultores da Idade do Ferro que falavam línguas bantas ocuparam grande parte da África Oriental e da Meridional de forma esparsa e irregular. Esses povos preferiam zonas abundantes em água, sugerindo que sua economia se baseava essencialmente no cultivo de inhame e sorgo, na pesca, na caça e na criação de pequenos animais domésticos.

Foi a partir do século X que os comerciantes árabes estabeleceram-se na África Oriental, aprenderam as línguas locais e tornaram-se intermediários, comprando mercadorias dos africanos e repassando-as aos comerciantes marítimos. No século XI, as guerras na Pérsia e na Arábia forçaram muitos árabes a ocuparem definitivamente áreas da África Oriental. A miscigenação cultural e o casamento desses árabes com mulheres africanas locais geraram, algum tempo depois, uma nova língua, o suaíli, basicamente uma língua banta, intercalada com muitas palavras árabes, que ainda hoje é falada em partes da África Oriental, sendo língua oficial da Tanzânia e do Quênia.


Três adultos e duas crianças masai, Moisés Wanyuki

Enquanto os árabes ocupavam Kilwa, na costa oriental, outra cidade banta estava em construção na parte sudeste africana. O Grande Zimbábue tornou-se forte ponto de comércio no Oceano Índico devido, em parte, ao ouro e ao marfim do interior africano, mas também do cobre no Congo (Katanga) e da Zâmbia, em um tráfico tipicamente intra-africano. Os povos de língua banta começaram a se estabelecer em torno do planalto do Zimbábue.

Por volta de 1300, já havia uma muralha, com aproximadamente dez metros de altura, erguida como proteção a toda a área. Aproximadamente 10 mil pessoas viviam fora da muralha de pedra da Grande Zimbábue. Alguns eram pastores, outros artesãos e também escultores e tecelões, pois a matéria-prima (algodão, ouro, cobre, madeira e pedra) era abundante. No entanto, os comerciantes eram fundamentais nessa dinâmica, pois levavam ouro, cobre e marfim para a costa oriental. O ouro era obtido dos povos que viviam ao sul, e o cobre, dos povos ao norte da Grande Zimbábue. Foi justamente esse comércio que tornou a região um dos reinos mais poderosos no século XIV. Contudo, sem explicação plausível, em meados do século XV o Grande Zimbábue foi incendiado e abandonado.


Dança tradicional masai, Quênia. 
Foto: Dmitri Markine

Na Costa da Guine, os reinos que se beneficiaram com o comércio de escravos, já no contexto da expansão europeia em direção à costa africana, foram os de Oyo e Benin. Mais para o oeste, o Reino Ashanti também se desenvolveu progressivamente durante os séculos XV e XVI. O Rei Opoku Ware organizou um sólido sistema de impostos, com uma burocracia administrativa eficiente. No final do século XIX, porém, o império começou a enfraquecer, envolvendo-se em guerras com povos do litoral e batalhas com os britânicos, entre 1807 e 1901. No final dos conflitos, os britânicos assumiram o controle do Império Ashanti.

Oba de Benin, Giulio Ferrario

O desejo britânico de acabar com o tráfico de escravos se baseava na perspectiva de reorganizar a produção e o comércio africano, com vistas a outras exportações, aumentar a atividade missionária e impor a jurisdição do governo britânico sobre propriedades que tinham pertencido a comerciantes britânicos. Essas ações levaram o Estado britânico a assumir a soberania de certos territórios africanos, considerados estratégicos por eles.


Homem masai, Steve Pastor

Já os portugueses chegaram à costa oriental africana, e, na década de 1530, enviaram grupos para subir o Rio Zambeze e descobrir de onde vinha o ouro vendido pelos suaílis. Acabaram por estabelecer ligações comerciais com o grande Império Monomotapa, no interior do continente, responsável por boa parte do comércio interno africano.

Mas os portugueses foram impedidos de continuar adentrando no continente africano por um líder chamado Dombo, rico proprietário de gado e soberano do Império Rozvi. Entre 1684 e 1696, Dombo e seu exército lutaram contra os portugueses e os expulsaram do planalto do Zimbábue. O Império Rozvi tinha sua capital em Khami e, após um período de prosperidade, chegou ao fim na década de 1830, devido a uma invasão de povos guerreiros do sul da África, os nguni. Essas guerras se espalharam por toda a África Central e Meridional, durando mais de 15 anos. Esses conflitos internos ficaram conhecidos como o Mfecane ("época da aniquilação").


Mulher masai, William Warby

Mais ao norte, os povos em torno dos lagos da África Oriental escaparam do Mfecane. Os dois reinos mais poderosos eram o Bunioro (às margens do Lago Alberto) e Buganda (Lago Vitória). Bunioro foi o primeiro reino a tornar-se independente na região. Sua principal atividade econômica era a criação de gado e havia também a produção de sal. Durante os séculos XVI e XVII, o exército bunioro fez muitos ataques contra os povos vizinhos, tomando seu gado e sua terra, além de obrigá-los a tornarem-se vassalos e a pagar tributos ao rei. Já no século XIX surgiu o primeiro opositor ao Reino dos Bunioro, com a ascensão do Reino de Buganda, de aproximadamente 500 mil habitantes. Buganda também tinha ligações com comerciantes árabes na costa oriental e deles comprava armas de fogo, munições, tecidos de algodão, contas e produtos de vidro.

Há ainda dois povos importantes. O povo chwezi chegou, no século XIV, próximo aos lagos da África Oriental vindo do norte. Eram pastores de gado e introduziram na região a ideia de centralização da autoridade em um único governante ou rei. Também incentivaram o plantio de café e seu reino durou duzentos anos. O outro grupo era o povo nômade masai, que vive ainda hoje na Tanzânia e no Quênia. No século XVI, era um grupo pequeno, mas no século XIX sua população havia crescido consideravelmente. As sociedades que se desenvolveram no continente africano tornaram-se gradativamente complexas e diversificadas, da mesma forma que as relações das diferentes regiões com o mundo exterior.


Mulher e criança masai, Jack-z

VISENTINI, Paulo Fagundes. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 36-40.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Ifé

Há milhares de anos, na área ao sul, a sudeste e sudoeste dos rios Níger e Benué, habitavam povos de línguas edo, idoma, iorubano, ibo, ijó, igala, nupe, entre outras, originárias da família linguística níger-congo. Esses povos agricultores, produtores de sorgo, milhete, quiabo, feijão, inhame, dendê, organizavam-se fundamentados na linhagem , constituída pela família extensa com um antepassado comum. O conjunto de várias linhagens formava a aldeia, que tinha um chefe como representante político, eleito entre os mais velhos ou por ser descendente do fundador da comunidade. A união das pequenas aldeias compunha, assim, uma espécie de miniestado, inexistindo um poder centralizado.

As decisões referentes à vida coletiva no miniestado eram tomadas em conjunto pelos chefes das linhagens e pelos representantes dos grupos de idade e das associações de titulados. Os homens dividiam-se socialmente em grupos de idade (jovens, adultos e idosos). Os idosos eram os mais respeitados e responsáveis pelas questões políticas, judiciárias e religiosas. Por sua vez, nas associações de titulados, os homens que possuíam uma quantidade maior de bens ligados à terra, como produtos agrícolas e animais, recebiam títulos que apresentavam a sua riqueza e o seu poder na sociedade.

Cada miniestado tinha um chefe (oba, onu, ovie, etsu, oche, nas diferentes línguas faladas na região), escolhido entre aqueles que já haviam percorrido vários estágios nos grupos de idade e nas associações de titulados e pertenciam às linhagens mais importantes. Com o passar do tempo, esses miniestados expandiram o comércio, novos grupos foram fixados, proporcionando o aumento do poder do seu chefe, dando origem a uma cidade-estado.

Os principais reinos nessa região teriam se formado pela pressão de povos imigrantes e fortes militarmente, objetivando a expansão de seus domínios, invadiram e se impuseram aos miniestados, introduzindo instituições políticas novas centralizadas na figura de um rei.

Há indícios  arqueológicos de que Ifé foi formada desde o século VI, por pequenas aldeias agrícolas de modesto comércio. Somente mais tarde tornou-se um centro importante, em razão do desenvolvimento da metalurgia do ferro e também da sua localização geográfica na rota entre o alto Níger e Cotonu, passando a se configurar um entreposto comercial entre a savana, a floresta e o litoral. De Ifé para Gaô (ao norte), para as cidades hauçás e para os povos de Ijebu (ao sul) eram levados ouro, marfim, dendê, sal, pimentas, noz-de-cola, inhame, escravos, contas de pedra e vidro, peixe seco e gomas.

Ifé também era, além de uma cidade-estado, um centro religioso que recebia tributos e congregava outros miniestados, que acreditavam na existência de um ancestral comum - o rei Odudua. De acordo com uma das várias versões para a origem de Ifé, o rei Odudua teria sido filho de um dos reis de Meca e o grande fundador do reino de Ifé, depois de perseguido e expulso da sua cidade natal por rejeitar o islamismo. Outra versão revela que Odudua era líder de um grupo em expansão vindo da Hauçalândia, Bornu, Nupe ou Canem e que conseguiu centralizar o poder em suas mãos e fundar Ifé.

As imagens em bronze, cobre e, sobretudo, terracota produzidas em Ifé, datadas por volta dos séculos XI ao XV, tornaram-se referências da arte subsaariana. Essas esculturas sofreram a influência da cultura Nok, datada do primeiro milênio a.C. As figuras humanas, que, provavelmente, representavam reis e cortesãos, possuíam traços perfeitos, harmoniosos, e eram adornadas com contas e panos em partes do corpo. Algumas esculturas traziam na face sinais, como se fossem linhas, que ligavam os cabelos ao queixo.

Cabeça de homem, provavelmente um servo do rei. Escultura em terracota da civilização Ifé, séculos XII-XIV (Nigéria)

Existiam também cabeças de animais com uma roseta saliente na testa, simbolizando a realeza, feitas em tampas para recipientes de barro utilizados em rituais religiosos. Esses potes eram enterrados, em homenagem a um determinado deus, nos palácios e nas casas, em pátios cobertos por piso de cerâmicas e com altares circulares.

Ifé sofreu um declínio econômico e talvez tenha sido substituída, a partir do século XVI, por Oió nos contatos comerciais entre a savana e a floresta e, por Benin e Ijebu no comércio com o sul. Contudo, continuou a figurar como um importante centro religioso.

MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 36-38.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O reino de Monomotapa

Ainda entre povos bantos, um outro reino que merece ser mencionado é o de Monomotapa. Nele estiveram alguns portugueses e árabes, que contaram sobre o que viram e viveram lá. Os povos que o formaram tinham ligação com uma outra sociedade, que existiu mais ao sul, da qual o pouco que restou impressiona. São enormes muralhas de pedra, chegando a 5 metros de altura por mais de 2 de largura, sem nada a uni-las, a não ser a sobreposição de uma a outra. Esses muros de pedra, circulares, são chamados de zimbabués. Datam de entre os séculos XIII e XVI, e mercadores do início do século XVI ouviram falar deles. O planalto em que foram construídos é fértil e lá habitavam povos xonas, também chamados de carangas pelos portugueses, que viviam basicamente da agricultura e da criação de gado. Também comerciavam com os habitantes da costa, que por vez mercadejavam com os povos que a frequentavam, vindos de lugares mais distantes, de além dos mares. Em escavações próximas aos zimbabués foram encontrados porcelanas da China e contas da Índia, provando que mercadorias passavam de mão em mão continente adentro.

Na região do rio Zambéze há dezenas de grandes muralhas de pedras conhecidas como zimbabués, que foram construídas de cerca de 900 até 1600. Esta, chamada de Grande Zimbabué, se destaca pelas suas enormes dimensões, tendo sido provavelmente um importante centro religioso.

O produto que esses povos tinham, que os ligavam a rotas comerciais de tão longas distâncias, era o ouro. Extraído nos intervalos dos trabalhos com o gado e com o cultivo da terra - que era como os xonas garantiam o seu sustento -, o ouro alcançava alto valor nos portos do Índico, onde comerciantes árabes e indianos faziam trocas havia séculos com os povos costeiros.

Os xonas também comerciavam sal, cobre e gado com os seus vizinhos do interior. Vivendo em terras férteis e envolvidos em intercâmbios comerciais, desenvolveram uma sociedade muito pouco conhecida, mas provavelmente com uma chefia centralizada, que combinava poderes administrativos e religiosos. Os indícios arqueológicos mostram que dentro das muralhas havia casas de barro cobertas de palha, tais como as encontradas do lado de fora das muralhas, mas revelam também uma hierarquização na sociedade, com a elite morando dentro dos muros.

Quando os portugueses passaram a frequentar a costa africana oriental, no início do século XVI, tomaram conhecimento dos zimbabués. Por meio dos comerciantes árabes e dos primeiros exploradores lusitanos, também souberam que havia um grande reino a noroeste do rio Zambéze, governado por um chefe muito poderoso, a quem chamavam de monomotapa ou mwene mutapwa. O ouro que viam chegar aos portos de Sofala, Angoche e Quelimane vinha desse reino, e não mais da região dos zimbabués. Mas a grandeza do que ficou conhecido nos textos portugueses antigos como o reino do Monomotapa é fruto da vontade que tinham de encontrar ali um estado poderoso ao qual se aliar, ou mesmo dominar.

Nas descrições portuguesas, tentou-se por algum tempo fazer crer que essas aldeias constituíam um império poderoso, montado em jazidas de ouro, que afinal eram bem menos ricas do que o sonhado. Tudo indica que o que realmente existiu foram chefias unidas por laços de parentesco, casamento ou identidade religiosa, subordinadas à autoridade ritual de um chefe, o mwene mutapwa, e frequentemente entrando em conflito com chefias vizinhas. Alianças eram feitas e desfeitas. Confederações cresciam e desapareciam. E a presença de comerciantes árabes e portugueses no interior do continente querendo controlar o comércio de ouro e marfim aumentou os conflitos e as tensões existentes entre os diferentes grupos. Mesmo sem encontrar as riquezas esperadas, portugueses se instalaram naquelas terras, mantendo relações amistosas com os chefes locais. Muitas vezes se casavam com as filhas destes, fortalecendo os laços que os uniam a eles. Assim se formou um grupo que juntava contribuições dos povos daquelas regiões com os portugueses, ocupando um lugar privilegiado no comércio por trocarem o ouro e o marfim vindos do interior por tecidos, contas, objetos de metal trabalhados, barras de cobre e sal, oriundos da costa.

Quando ficou evidente que as minas não eram tão ricas como se havia pensado, os investimentos de Portugal na região quase desapareceram e os filhos dos portugueses nascidos em terras da Zambézia foram se tornando cada vez mais africanos.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil Africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 40-41.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O reino do Congo

Mais ao sul, na margem meridional do baixo rio Congo, existiu um reino que se tornou conhecido não só em razão da influência que teve sobre os povos da região, mas porque sobre ele foram deixados relatos, feitos por europeus que o conheceram e nele moraram. Estes, além de suas observações, registraram a história oral dos povos locais. Os textos que escreveram são a base para reconstituirmos a história dessa sociedade, que se formou a partir da chegada de grupos vindos do noroeste, da outra margem do rio Congo.

Os membros desse grupo de estrangeiros, que seguiam a liderança de Nimi a Lukeni, passaram a ser chamados de muchicongos e ocuparam terras já habitadas por outros povos bantos, como eles. Por meio de casamentos e alianças, os recém-chegados se misturaram aos antigos moradores dessas áreas, mas guardaram para si as posições de maior autoridade e poder. Sob a liderança dos muchicongos, radicados na capital (Banza Congo), se formou uma federação de províncias às quais pertenciam conjuntos de aldeias. Nestas continuaram em vigor os poderes tradicionais das famílias, as candas, que as haviam fundado. Nas aldeias, um chefe e seu conselho tratavam de todos os assuntos referentes à vida da comunidade. Já um conjunto delas estava submetido à autoridade de um chefe regional, que fazia a ligação delas com a capital, de onde o ntotila, ou mani Congo, governava todo o reino.


Banza Congo, ou São Salvador, como a capital do reino do Congo passou a ser chamada depois de seus chefes adotarem o catolicismo, em gravura do século XVII

Nas aldeias foram mantidas as chefias existentes antes da chegada dos muchicongos. Nas províncias, como os europeus passaram a chamar os conjuntos de várias aldeias, elas foram divididas entre chefes das candas tradicionais e chefes indicados pelo mani Congo entre os descendentes dos muchicongos. O reino do Congo se formou a partir da mistura, por meio de casamentos, de uma elite tradicional com uma elite nova, descendente dos estrangeiros que vieram do outro lado do rio. Isso ocorreu no início do século XV, e quando os portugueses a ele chegaram (o primeiro contato se deu em 1483), encontraram uma sociedade hierarquizada, com aglomerados populacionais que funcionavam como capitais regionais e uma capital central, na qual o mani Congo, como o obá do Benin e muitos outros chefes de grupos diversos, vivia em construções grandiosas, cercado de suas mulheres e filhos, conselheiros, escravos e ritos.

No reino do Congo, ou no que assim foi chamado pelos europeus que o descreveram, moravam povos agricultores que, quando convocados pelo mani Congo, partiam em sua defesa contra inimigos de fora ou para controlar rebeliões de aldeias que queriam se desligar do reino. Aldeias (lubatas) e cidades (banzas) pagavam tributos ao mani Congo, geralmente com o que produziam: alimentos, tecidos de ráfia vindos do nordeste, sal vindo da costa, cobre vindo do sudeste e zimbos (pequenos búzios afunilados colhidos na região de Luanda que serviam de moeda). Nos mercados regionais, geralmente nas capitais das províncias, eram trocados produtos de diferentes zonas, e a capital do reino, Banza Congo, se situava na confluência de várias rotas comerciais. Ali o mani Congo, cercado de seus conselheiros, controlava o comércio, o trânsito de pessoas, recebia os impostos, exercia a justiça, buscava garantir a harmonia da vida do reino e das pessoas que viviam nele. Os limites do reino eram traçados pelo conjunto de aldeias que pagavam tributos ao poder central, devendo fidelidade a ele e recebendo proteção, tanto para os assuntos desde mundo como para os assuntos do além, pois o mani Congo também era responsável pelas boas relações com os espíritos e os ancestrais.

Banza Congo, assim como a capital do Benin, era uma cidade do tamanho das capitais europeias da época. O mani Congo vivia em construções que se destacavam das outras pelo tamanho, pelos muros que a cercavam, pelo labirinto de passagens que levavam de um edifício a outro e pelos aposentos reais que ficavam no centro desse conjunto e eram decorados de tapetes e tecidos de ráfia. Ali o mani vivia com suas mulheres, filhos, parentes, conselheiros, escravos, e só recebia os que tivessem nobreza suficiente para gozar desse privilégio. Na praça é que participava das cerimônias públicas e fazia contato com seu povo. Além do mani Congo e sua corte, moravam na cidade artesãos, comerciantes, soldados, agricultores e cativos.

Imagem do Atlas da viagem ao Congo e ao interior da África Equinocial, Jean Baptiste Douville

Quando os portugueses conheceram esse reino, logo viram que seria um bom parceiro comercial, e trataram de manter relações amistosas com ele. O mani Congo e os chefes que o cercavam também perceberam que poderiam lucrar com a aproximação com os portugueses e a eles se associaram. Por mais de três séculos congoleses e portugueses mantiveram relações comerciais e políticas pautadas pela independência dos dois reinos, mas os portugueses acabaram pro controlar a região, que hoje corresponde ao norte de Angola.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil Africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 38-40.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Os reinos iorubás e daomeanos

Quando não existem textos escritos que dêem informações detalhadas de como viviam povos do passado, são os vestígios arqueológicos e as histórias contadas pelos mais velhos, principalmente na forma de mitos, que nos falam de sociedades, como algumas que existiram nas regiões do rio Volta e do baixo Níger. Elas eram menos imponentes do que as que contaram com centros como Tombuctu, Gaô e Jefé, mas também tinham sua grandeza.

Vestígios de caminhos calçados e muros de pedra dão uma noção de como eram os centros dessas civilizações. Alguns eram cercados de muros de pedra e deviam abrigar agricultores, artesãos, grupos de famílias submetidas a um chefe e seu conselho. Comerciantes circulavam em canoas pelos rios e assim os produtos da floresta chegavam, depois de passarem por muitas mãos, aos mercados ligados às cidades do médio Níger e ao comércio saariano.

Alguns dos vestígios arqueológicos mais importantes dessa região estão em Ifé, terra de iorubás e ponto de ligação da zona da floresta com a bacia do rio Níger. Conforme relatos orais, um líder divinizado chamado Odudua foi o responsável pela prosperidade de Ifé Ifé, cidade onde vigorou um sistema político-religioso adotado depois por várias outras cidades e reinos dessa área. Acredita-se que Odudua tenha vivido em algum momento entre os séculos VIII e XIII de nossa era, mas a veracidade de sua existência não pode ser confirmada.

Em Ifé Ifé foi criada uma forma de monarquia divina, dirigida pelo oni, representante da divindade e também governante da comunidade, composta pelas várias aldeias, cada qual com seu chefe, que cuidava dos seus membros mas expressava obediência ao oni. Esse modelo de organização se espalhou por várias cidades da região habitada por povos iorubás, compreendida pelos rios Volta e Níger, e também entre os edos, do Benin. Neste, um conjunto de aldeias prestava obediência ao obá, título do principal chefe do reino. Todos os obás dos reinos iorubás diziam que seus antepassados haviam saído de Ifé, sendo  membros de uma mesma família real. O oni, ou obá de Ifé, tinha ascendência espiritual sobre quase todos os reinos iorubás (Oió, por exemplo, não a aceitava) e era ele quem distribuía os símbolos reais. Os adés, coroas feitas de contas de coral, com fios cobrindo o rosto do oni, foram um dos principais símbolos do poder disseminados junto com o sistema de monarquia divina. Esta se caracterizava pela estreita ligação do oni com as divindades, sendo por elas escolhido e servindo de seu intermediário com a comunidade que governava.

Obá Orhogbua, 1550-1578, Nigéria

Muito do que sabemos sobre Ifé e o reino do Benin nos foi contado por cabeças e placas esculpidas em metal, que datam dos séculos XV e XVI, época em que os portugueses chegaram a essa região da África. Não se sabe como foram desenvolvidas as técnicas empregadas na feitura desses objetos - hoje em dia considerados obras de arte de rara qualidade - nem por que eles deixaram de ser feitos.

O obá  na cidade de Benin, 1686

Além das placas, que retratam situações da vida desses povos e que decoravam os palácios reais, as histórias contadas de geração a geração falam do papel de heróis fundadores de novas cidades e reinos, a partir de uma origem comum em Ifé, com Odudua, cujos descendentes teriam fundado outras cidades. Em Ifé o oni administrava o reino de sua capital, afastada do litoral, vivendo numa cidade de ruas largas e retas, sendo sua morada uma construção enorme, fortificada, na qual morava com suas centenas de mulheres e filhos, seus conselheiros, os grandes do reino e os escravos.

No século XVI, enquanto outros reinos iorubás ascenderam, Ifé entrou em declínio. A presença de comerciantes na costa atlântica fortaleceu as cidades mais próximas dos lugares em que ancoravam, trazendo em seus navios novas mercadorias, que passaram a ser desejadas pelos chefes africanos. Mas, mesmo com a ascensão de outros reinos e o seu empobrecimento econômico, Ifé manteve a importância religiosa. Todos os chefes das várias cidades-estado que teriam sido fundadas por descendentes de Odudua iam até Ifé para terem seus poderes confirmados pelo oni.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil Africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 36-37.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Os reinos do Sudão ocidental: Mali, Gana, Songai

Antes de os europeus tomarem conhecimento da África subsaariana, ou África negra, como também se diz, existiram nela algumas sociedades que merecem ser lembradas.

As principais se localizavam na região que chamamos de delta interior do rio Níger. [...] ali o sal do deserto era trocado pelo ouro que vinha do sul, ambas mercadorias muito valiosas. Os azenegues e tuaregues armavam seus acampamentos nas áreas mais férteis próximas aos rios; deixavam seus animais descansar e armazenar novas energias; teciam seus vínculos com os povos que moravam naquelas paragens e comerciavam. Eram os intermediários entre o Mediterrâneo e o Sael. Em torno de seus acampamentos temporários formaram-se cidades, e algumas, como Tombuctu, têm hoje mais de mil anos de existência.

As cidades ficavam em lugares onde as trocas se concentravam. Agricultores e pastores se instalavam perto desses mercados e abasteciam de alimentos os grupos nômades e comerciantes. Estes traziam produtos de outros lugares: do norte vinham sal, tecidos, contas, utensílios e armas de metal. Do sul vinham ouro, noz-de-cola, marfim, peles, resinas, corantes, essências, que eram levados para o norte pelos comerciantes fulas, mandingas e hauçás. Estes eram guiados por tuaregues e outros povos do deserto que se islamizaram a partir da expansão árabe do século VII e difundiram o islã em todo o Sudão.

A cidade, ao abrigar uma população dedicada a atividades diversas e com interesses variados, precisou de sistemas de governo mais complexos. Na maior parte das vezes havia centralização do poder em torno de um líder e seu corpo de auxiliares. Muito do sucesso de uma cidade ou de um reino podia estar ligado à ação de determinado governante, que expandia limites, acumulava riquezas e ampliava a sua influência sobre povos vizinhos.

O primeiro império da África subsaariana sobre o qual se tem notícias mais precisas é o Mali. Nele, Tombuctu, Jené e Gaô foram importantes cidades, centros de troca e concentração de pessoas, graças à rede de rios que fertilizava as terras e facilitava o transporte na região da curva do Níger. Vestígios arqueológicos apontam que desde cerca dos anos 800 da nossa era havia ali cidades e formas de comércio.

A grande mesquita de Jené, no atual Mali, exemplo da arquitetura sudanesa

Antes do Mali, Gana, ao norte do rio Senegal, foi um reino poderoso, no qual se davam os negócios entre os comerciantes que traziam o ouro do sul e os caravaneiros que iam para os portos do norte da África. Sua posição de destaque durou mais ou menos do ano 500 ao 1000, quando o Mali começou a se fortalecer com a mudança das rotas do deserto mais para leste, em direção ao delta interior do Níger. Em torno de 1230 Sundiata, mansa (como era chamado o chefe supremo) do Mali, estendeu o seu poderio em direção a leste e oeste, tornando o estado que comandava um verdadeiro império, com soberania sobre outros povos e vastas regiões.

Mansa  Musa. Mapa  de 1375 de Abraham Cresques de Mallorca

A população do Mali era composta de várias etnias, sendo os mandingas a principal delas. No século XIV o império era composto de povos da região do rio Senegal, como jalofos, sereres, tucolores e fulas; das cabeceiras do Níger, como bombaras e soninquês; a leste subjugou os songais e aproximou-se da terra dos hauçás. Além disso, manteve relações com os povos da floresta, por meio do comércio feito pelos mercadores uângaras, ou diulas, que viajavam até a terra dos acãs e de povos mais ao norte influenciados pelos mandingas, de onde vinha uma das mais importantes mercadorias no comércio do Saara: a noz-de-cola.

No fim do século XV Songai passou a ser o principal estado do médio Níger. O império floresceu sob a liderança de um ásquia (como era chamado o chefe supremo) que por volta de 1470 conquistou Tombuctu e, depois, Jené. Nessa época, a maioria do ouro começou a vir de minas da região do rio Volta, em terra dos acãs. Mas desde o fim do século XV ele não era mais transportado apenas pelas rotas do Níger e do deserto. Os portugueses haviam chegado à costa atlântica e comerciavam o ouro a partir de seus barcos e de entrepostos que iam criando.

Songai, que se expandia para leste e dominou algumas cidades hauçás, se manteve como o estado mais forte do Sudão ocidental até 1591, quando foi invadido por exércitos vindos do Marrocos. O que havia de mais refinado nessa região, construído ao longo de séculos, foi sufocado pelos invasores. Mesquitas, escolas e bibliotecas foram destruídas, os sábios foram deportados, as estruturas de mando e de justiça foram desmanteladas. A urbanização e o comércio cederam espaço para as atividades agrícolas e de pastoreio, as religiões tradicionais voltaram a florescer e o islã, que se alimentava das caravanas que atravessavam o deserto levando e trazendo, além de mercadorias, peregrinos e especialistas em teologia, passou para segundo plano.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil Africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 34-36.