quinta-feira, 5 de abril de 2012

O reino de Monomotapa

Ainda entre povos bantos, um outro reino que merece ser mencionado é o de Monomotapa. Nele estiveram alguns portugueses e árabes, que contaram sobre o que viram e viveram lá. Os povos que o formaram tinham ligação com uma outra sociedade, que existiu mais ao sul, da qual o pouco que restou impressiona. São enormes muralhas de pedra, chegando a 5 metros de altura por mais de 2 de largura, sem nada a uni-las, a não ser a sobreposição de uma a outra. Esses muros de pedra, circulares, são chamados de zimbabués. Datam de entre os séculos XIII e XVI, e mercadores do início do século XVI ouviram falar deles. O planalto em que foram construídos é fértil e lá habitavam povos xonas, também chamados de carangas pelos portugueses, que viviam basicamente da agricultura e da criação de gado. Também comerciavam com os habitantes da costa, que por vez mercadejavam com os povos que a frequentavam, vindos de lugares mais distantes, de além dos mares. Em escavações próximas aos zimbabués foram encontrados porcelanas da China e contas da Índia, provando que mercadorias passavam de mão em mão continente adentro.

Na região do rio Zambéze há dezenas de grandes muralhas de pedras conhecidas como zimbabués, que foram construídas de cerca de 900 até 1600. Esta, chamada de Grande Zimbabué, se destaca pelas suas enormes dimensões, tendo sido provavelmente um importante centro religioso.

O produto que esses povos tinham, que os ligavam a rotas comerciais de tão longas distâncias, era o ouro. Extraído nos intervalos dos trabalhos com o gado e com o cultivo da terra - que era como os xonas garantiam o seu sustento -, o ouro alcançava alto valor nos portos do Índico, onde comerciantes árabes e indianos faziam trocas havia séculos com os povos costeiros.

Os xonas também comerciavam sal, cobre e gado com os seus vizinhos do interior. Vivendo em terras férteis e envolvidos em intercâmbios comerciais, desenvolveram uma sociedade muito pouco conhecida, mas provavelmente com uma chefia centralizada, que combinava poderes administrativos e religiosos. Os indícios arqueológicos mostram que dentro das muralhas havia casas de barro cobertas de palha, tais como as encontradas do lado de fora das muralhas, mas revelam também uma hierarquização na sociedade, com a elite morando dentro dos muros.

Quando os portugueses passaram a frequentar a costa africana oriental, no início do século XVI, tomaram conhecimento dos zimbabués. Por meio dos comerciantes árabes e dos primeiros exploradores lusitanos, também souberam que havia um grande reino a noroeste do rio Zambéze, governado por um chefe muito poderoso, a quem chamavam de monomotapa ou mwene mutapwa. O ouro que viam chegar aos portos de Sofala, Angoche e Quelimane vinha desse reino, e não mais da região dos zimbabués. Mas a grandeza do que ficou conhecido nos textos portugueses antigos como o reino do Monomotapa é fruto da vontade que tinham de encontrar ali um estado poderoso ao qual se aliar, ou mesmo dominar.

Nas descrições portuguesas, tentou-se por algum tempo fazer crer que essas aldeias constituíam um império poderoso, montado em jazidas de ouro, que afinal eram bem menos ricas do que o sonhado. Tudo indica que o que realmente existiu foram chefias unidas por laços de parentesco, casamento ou identidade religiosa, subordinadas à autoridade ritual de um chefe, o mwene mutapwa, e frequentemente entrando em conflito com chefias vizinhas. Alianças eram feitas e desfeitas. Confederações cresciam e desapareciam. E a presença de comerciantes árabes e portugueses no interior do continente querendo controlar o comércio de ouro e marfim aumentou os conflitos e as tensões existentes entre os diferentes grupos. Mesmo sem encontrar as riquezas esperadas, portugueses se instalaram naquelas terras, mantendo relações amistosas com os chefes locais. Muitas vezes se casavam com as filhas destes, fortalecendo os laços que os uniam a eles. Assim se formou um grupo que juntava contribuições dos povos daquelas regiões com os portugueses, ocupando um lugar privilegiado no comércio por trocarem o ouro e o marfim vindos do interior por tecidos, contas, objetos de metal trabalhados, barras de cobre e sal, oriundos da costa.

Quando ficou evidente que as minas não eram tão ricas como se havia pensado, os investimentos de Portugal na região quase desapareceram e os filhos dos portugueses nascidos em terras da Zambézia foram se tornando cada vez mais africanos.

SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil Africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 40-41.

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