"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 5 - Lazer e entretenimento]

As vilas e cidades da colônia concentravam os recursos econômicos e humanos, além de sediarem as instituições civis e religiosas, os tribunais, o tesouro, a burocracia civil e militar. Nelas também moravam os comerciantes, advogados, escrivães e artesãos.

A praça desempenhava importante papel na vida cotidiana, pois era local de encontro e servia de mercado. Em seus tabuleiros, mulheres livres e cativas vendiam produtos perecíveis; e escravos de ganho ofereciam seus serviços. Era também o lugar onde se realizavam as cerimônias públicas, as "festas reais", a comemoração de uma coroação ou o nascimento de um herdeiro do trono, e as festas religiosas. Nela se erguiam o pelourinho e a forca, símbolos do poder do Estado.


Uma família brasileira, Henry Chamberlain

As cidades eram divididas em freguesias - jurisdições eclesiais centradas nas igrejas paroquiais, marcos da vida civil e religiosa. A igreja era ponto de encontro, onde se celebrava a missa, procedia-se aos rituais de vida e morte, às festas do santo padroeiro e onde tinham espaço ainda outras atividades. As paróquias também eram encarregadas de serviços sociais, tais como o cuidado dos doentes e dos pobres, além de outros aspectos da vida cotidiana.

O chafariz era outro ponto importante das vilas e cidades. Lá, ao abastecer-se de água, escravos, criados e homens livres pobres encontravam-se para trocar informações de todo tipo. E a população pobre - tanto livre quanto escrava - também se reunia nas tabernas, onde se vendia cachaça. Em 1650, havia mais de duzentas delas em Salvador.

A vida dos colonos era pacata. Não havia grandes diversões, além da chegada de alguma embarcação, trazendo notícias do reino, ou da celebração de festividades religiosas. As missas eram a principal recreação da população urbana. E a Igreja também era responsável pela divulgação de notícias. Naquela época, por causa da inexistência de jornais, as informações eram obtidas por intermédio dos padres ou dos funcionários metropolitanos. Não é de estranhar que os colonizadores dedicassem tanta energia e dinheiro à construção de igrejas. Nas vilas mais prósperas, as igrejas eram ricamente decoradas.

As mulheres dos senhores não participavam da escassa vida social que havia na colônia. Viviam fechadas dentro de casa e só saíam para frequentar a missa. Calcula-se que, nas minas, apenas 5% das mulheres eram chamadas de "donas" ou "senhoras".

"Por mais enfadonha que fosse a vida das senhoras brancas, ainda assim era, sob a maior parte dos aspectos, mais digna de inveja do que a de seus escravos. [...] Um despacho régio de 1º de março de 1700. denunciando a barbaridade com a qual muitos dos senhores e senhoras de escravos os tratavam, declarava que tais atrocidades se tinham iniciado nas plantações do interior, mas ultimamente se estavam espalhando pelas cidades e vilas. A Coroa condenava particularmente a vergonhosa prática de viverem as senhoras dos ganhos imorais de suas escravas, que não só eram encorajadas, mas compelidas a entregar-se à prostituição. Tal prática mostrava-se censurável extensão do hábito mais comum pelo qual as mulheres escravas tinham permissão para trabalhar por sua própria conta como cozinheiras, costureiras ou vendedoras ambulantes, contanto que pagassem aos seus donos uma quantia fixa sobre ganhos diários ou semanais."

Nas camadas inferiores da população, muitas mulheres livres trabalhavam para garantir a sobrevivência e o sustento de suas famílias: eram cabeças da casa. A prostituição era meio de vida comum para as mulheres pobres. O casamento não era comum entre a população livre, pois, entre outras razões, a Igreja cobrava muito para formalizá-lo. As pessoas viviam juntas, mas não casavam. Enfim, a colônia não oferecia outras possibilidades de suprir as necessidades básicas dessa camada da população.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 236-7.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mudanças na paisagem urbana e no cotidiano de São Paulo na década de 1920

São Paulo, 1924, Tarsila do Amaral

São Paulo dos primeiros anos da década de 1920 guardava inúmeras manifestações características de uma cidade onde os homens ainda podiam reconhecer-se, isto é, a metropolização que carrega a ideia de um espaço quantitativo e diluidor do indivíduo não havia se imposto totalmente. Um bairro, por exemplo, era sentido como um microlugar de uma cidade com história relativamente descentralizada, onde o tempo era marcado pelos ritos, pelos desfiles de uma banda como a de "Ettore Fieramosca (que) dá uma volta triunfal pelo Bom Retiro com a gurizada atrás". Uma cidade que permitia a existência de espaços para a prática do footing...

[...]

A Ponte Grande [...] estava situada sobre o rio Tietê, na região do próprio bairro do Bom Retiro, próximo ao local onde hoje está localizada a Ponte das Bandeiras. Quase embaixo da velha Ponte Grande existia um porto onde barcos vindos de Mogi das Cruzes ancoravam para descarregar telhas e tijolos.

Os barqueiros descarregavam produtos que chegavam a São Paulo através de um meio de transporte relativamente lento, se for comparado com o trem, cujos trilhos corriam quase paralelamente ao rio. A navegação e os produtos (telhas e tijolos) eram resultados de uma atividade mais criadora, típica de uma cidade menor com um espaço qualitativo que sobrevivia a pressões do espaço quantitativo típico da metrópole que começava a crescer.

Os bairros possuíam restos de uma vida própria resistindo à tendência centralizadora da metrópole.

[...]

Uma profissão arcaica como a de um vendedor de tripas, atividades lúdicas como o balanço do Parque Antártica, as retretas do Jardim da Luz parecem reforçar os contornos de uma cidade descentralizada, com os bairros mantendo uma relativa vida própria. Autonomia que imprimia uma divisão entre espaço e classes sociais: se em Higienópolis podiam viver os enriquecidos de fresca data, formados de uma plutocracia imigrante que sugeria o trabalho como via de ascensão, os imigrantes pobres que exerciam profissões de tripeiro ou condutor da Light só poderiam viver no Bom Retiro [...] ou no Brás, Bixiga e Barra Funda [...]

Os espaços físicos intermediários entre os bairros pobres e o centro da cidade chegaram a ser ocupados por camadas médias ligadas ao comércio e burocracia.

O lazer de parte considerável da população paulista era desfrutar as grandes áreas da mata da Cantareira para fazer piqueniques e namorar. Ou ainda, organizar pescarias com a família e amigos na represa próxima da serra do Mar no caminho para Santos. A atividade lúdica urbana, que havia sido, até um determinado momento, bastante valorizada, sofre um processo de reversão: o espaço urbano encolhe-se diante do crescimento populacional, daí a procura do bucólico e da quietude dos arredores da cidade. [...]

[...]

Confirma-se [...] a tendência à metropolização a organização do lazer, da "felicidade" dominical e da paisagem idílica, em outras palavras, a organização do ócio aumenta na mesma medida em que a cidade perde suas características descentralizadoras e crescem as tendências centralizadoras de um espaço quantitativo. Neste momento é que se dá a liquidação das referências individuais, as mutações são bruscas e as mudanças são eternas. Este era o paradoxo de São Paulo na década de 1920.

A cidade via seu espaço se transformar para que a economia de mercado pudesse escoar seus produtos mais facilmente. O próprio rio Tietê de se falou foi, em parte, canalizado para dar lugar a ruas, por onde passavam caminhões, automóveis, bondes. Viadutos e túneis tornavam as comunicações mais fáceis, anunciando um novo tempo. Os tentáculos viários da metrópole centralizadora avançavam vorazmente sobre os bairros, retirando-lhes o que restava de vida própria.

Os anos 20 conheceram um crescimento nas exportações de café, e entre 1922 e 1923 o produto valorizou. O peso político e econômico do Estado de São Paulo era cada vez maior. Os impostos provindos das exportações produziam uma situação financeira relativamente estável. Esta estabilidade impulsionava a cidade, dinamizando-a. O aparecimento da radiodifusão era parte desde impulso modernizador.

TOTA, Antonio Pedro. A locomotiva no ar. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura/PW, 1990. p. 24-26.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

O Estado monárquico e a cultura popular

Chegada da Família Real Portuguesa à Bahia, Portinari

A monarquia absoluta era a grande promotora de festas públicas por ocasião do aniversário do governante, de casamentos ou nascimentos na família real, de celebração de eventos políticos. Esses festejos incluíam geralmente luminárias, fogos de artifício, cavalhadas, corridas de touros, cortejos e desfiles, arrumação de tropas. Durante o período em que Portugal era a sede da monarquia competia aos governos de cada capitania incentivar essas celebrações. Depois de a Corte se ter transferido para o Brasil e ficado sediada no Rio de Janeiro ficou a cargo do intendente da Polícia organizar tais festas públicas. No tempo de Paulo Fernandes Viana ocorreram festejos por ocasião do casamento da princesa D. Leopoldina, mulher do Príncipe Real D. Pedro. Como escrevia o intendente, "era um dever da polícia entrar nestes objectos, não só pela utilidade que se tira em trazer o povo alegre e entretido, como provendo ao mesmo tempo o amor e respeito dos vassalos para com o soberano e sua real dinastia".

[...]

Podemos avaliar o peso destas festas na sociedade colonial pelo cuidado em elaborar relatos dos seus vários momentos e também em publicar tais descrições em folhetos, ou nas páginas das gazetas do Rio de Janeiro e Baía. Lembremos, entre outras, a "Relação das festas que se fizeram no Rio de Janeiro, quando o Príncipe Regente N. S. e toda a sua real família chegaram pela primeira vez àquela capital. Ajuntando-se algumas particularidades igualmente curiosas, e que diziam respeito ao mesmo objecto", publicada pela impressão Régia do Rio de Janeiro em 1810.

Nesta relação, o narrador, sob forma de carta, conta que a cidade celebrou com nove dias de luminárias a chegada de S. A. R., tendo já havido antes outros seis dias de luminárias quando chegara a princesa viúva. Este elemento essencial do festejo público era mais complexo do que se poderia supor. Não bastava iluminar as casas e edifícios mais importantes da cidade; era necessário ainda criar ornamentos adequados, arquitecturas efêmeras logo destruídas quando a festa acabava.

[...]

Nas festas públicas todos os grupos étnicos participavam, senão como actores, pelo menos como espectadores. Resta saber contudo se, no espaço urbano ou rural, havia lugar para a festa própria de cada etnia.

Deixar ou não os negros fazer os seus batuques e as suas danças dependia da maior ou menor flexibilidade dos governadores nas vilas e centros urbanos e dos senhores nas suas fazendas e engenhos. Essas actividades de lazer da gente de cor (das quais por vezes participavam os próprios brancos), por provocarem ajuntamentos perigosos, eram mal vistas pela população branca em épocas de crise e encaradas como demonstrações de uma sexualidade desenfreada pelos representantes da Igreja.

Batuque, Rugendas

Em 1779, na Capitania de Pernambuco, foi denunciada ao Santo Ofício a demasiada condescendência do então governador com os divertimentos dos negros: "Alguns governadores proibiram estas danças, e outras, que se fazem na terra, pelos naturais chamadas foffa, ou batuque entre homens, e mulheres que consiste em representar um acto torpe de fornicação, acompanhada de instrumentos, estrépitos de pés, e mãos, com ditos inhonestos e para maior desgraça nos tempos presentes com ditos blasfêmicos, como 'Oh meu Deus, ora vamos para o Céu'". Estes gestos e palavras constituíam "incentivos para desonestidade ainda nos mais tementes a Deus, quanto mais nos miseráveis pecadores".


Negros dançando fandango (jongo) no Campo de Santana, Rio de Janeiro, Augustus Earle

Também no início do séc. XIX, na Baía, Luís dos Santos Vilhena condenava a excessiva tolerância com as diversões dos negros: "Não parece ser de muito acerto em política, o tolerar que pelas ruas e terreiros da cidade façam multidões de negros de um e outro sexo, os seus batuques bárbaros a toque de muitos e horrorosos atabaques, dançando desonestamente canções gentílicas, falando línguas diversas, e isto com alaridos tão horrendos e dissonantes que causam medo e estranheza, ainda mais aos mais afeitos, na ponderação de consequências que dali podem provir, atendendo ao já referido número de escravos que há na Baía".


Negros tocando cabaça e pandeiro, Johan Nieuhof

O que perpassa nestes textos é a rejeição da cultura negra e a sua condenação, tendo como justificativa a "desonestidade" das suas danças ou a "barbaridade" dos sons produzidos pelos seus instrumentos. Além disso, sendo os cantares em línguas africanas, o branco não as podia entender e portanto temia-as. A estranheza perante o diferente levava ao medo, acentuado este quadro, em 1814, um levante de negros na Baía levou os brancos a exigir medidas repressivas mais severas do que aquelas que tinham sido tomadas pelo governador, conde dos Arcos. Este, se por um lado proibira totalmente "as danças que os negros costumam fazer ao som de instrumentos estrepitosos, e desentoados nas ruas e largos desta cidade", por outro não impedira que os escravos se juntassem nos dois largos da Graça e do Barbalho, podendo aí dançar "até o toque das Avé-Marias". Esta permissão levava em conta o facto de que "muitos senhores reconhecem a necessidade, e vantagem de diminuir os horrores de cativeiro, permitindo que seus escravos se divirtam, e que de dias em dias se esqueçam por algumas horas do seu triste estado".

Estas medidas tolerantes do governador consternaram alguns brancos assustados com as mortes recentemente ocorridas e com as casas incendiadas. Respondendo em parte a uma frase do governador na sua ordem do dia ("em todas as cidades policiadas do mundo se permitem divertimentos públicos proporcionados até às últimas classes da nação"), diziam não se dever permitir aos negros "divertimentos tão profanos em dias de descanso, e dedicados ao culto do verdadeiro Deus" quando muitos brancos, como os soldados e caixeiros, não tinham domingos nem dias santos, "aplicados sempre nos serviços" ou em guardas e rondas.

Todos os males então ocorridos provinham não só dos batuques mas também de se ter permitido aos negros "andarem com vestimentas de rei, coroando-se com espetáculos, e aparatos, fazendo uns aos outros tais, e quais homenagens e ajuntamentos com caixas de guerra amotinando a cidade".

Passado o susto com o levante dos negros, as diversões destes continuaram a ter lugar nos espaços públicos das principais cidades.

NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. Vida privada e quotidiano no Brasil. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. p. 274-5, 278-80.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Os significados do vestuário, da moradia, da alimentação e do lazer na sociedade medieval

O vestuário designa todas as categorias sociais, é um verdadeiro uniforme. Levar vestuário de uma condição diferente da sua é cometer o pecado capital da ambição ou da degradação. O pannous (o indigente vestido de farrapos), é desprezado. [...] As regras monásticas fixam cuidadosamente o hábito dos seus membros – mais por respeito pela ordem que pela preocupação de evitar o luxo.

[...] As ordens mendicantes iriam mais longe e vestiriam burel, tecido cru. Seriam os monges pardos. Cada nova categoria social se apressa a criar o seu vestuário. Assim fazem as corporações e, em primeiro lugar, a corporação universitária. Dá-se atenção especial aos acessórios que mais particularmente determinam o grau: os chapéus e as luvas. Os doutores usam compridas luvas de camurça e boina. Os cavaleiros reservam para si as esporas. Fato curioso para nós: o armamento medieval é demasiado funcional para constituir um verdadeiro uniforme. Mas os cavaleiros, ao criar a nobreza, juntam ao elmo, ao escudo e às espadas as armarias. Nasceu o brasão.

Os ricos exibem o luxo do vestuário, que se mostra na qualidade e quantidade do tecido: panos pesados, amplos, finos, sedas  bordadas a ouro; mostra-se também nos enfeites: as cores, que mudam com a moda – o escarlate, dependente dos corantes vermelhos...

A casa é a última manifestação da diferenciação social. A casa do camponês é de adobe ou de madeira [...]. Geralmente, reduz-se a um só compartimento e tem por chaminé uma abertura no telhado. Pobremente mobiliada e apetrechada, não cativa o camponês. A sua pobreza contribui para a mobilidade dos camponeses medievais.

As cidades são ainda construídas, principalmente, de madeira. São fáceis presas para os incêndios. O fogo é um grande flagelo medieval. [...] A Igreja não tinha grande dificuldade em persuadir os homens da época de que eram peregrinos neste mundo. Mesmo sedentários, raramente tinham tempo de apegar-se às suas casas.

Já o mesmo não sucede com os ricos. O castelo é sinal de segurança, de poderio e de prestígio. No século XI erguem-se as torres e vence a preocupação da defesa. Em seguida, precisam-se os encantos da habitação. Continuando bem defendidos, castelos passam a dar mais lugar aos alojamentos e criam edifícios de habitação dentro das muralhas. Mas a vida ainda se concentra na sala grande. O mobiliário é diminuto. As mesas, em geral, são desmontáveis e, uma vez concluídas as refeições, são retiradas. O móvel normal é a araçá ou baú, onde são arrumadas as roupas ou a baixela. Esta é de um supremo luxo, resplandece e é também uma reserva econômica. [...] Outro luxo está em tapeçarias, que são, também, utilitárias: postas ao alto, fazem de biombo e separam as câmaras. São transportadas de castelo em castelo e recordam a este povo de guerreiros a sua habitação por excelência, a tenda.

Cena de casa de banhos. Miniatura anônima do século XV

Mas talvez as grandes damas – é o mecenato das mulheres – levem mais longe o rebuscamento da ornamentação de interiores. Segundo Baudri de Bourgueil, a câmara de dormir de Adèle de Blois, filha de Guilherme, o Conquistador, tinha nas paredes tapeçarias que representavam o Antigo Testamento e as Metamorfoses, de Ovídio, e panejamentos bordados com a história de Inglaterra. As pinturas do teto representavam o céu com a Via Láctea, as constelações, o zodíaco, o Sol, a Lua e os planetas. O chão era um mosaico que representava um mapa-múndi com monstros e animais. Um leito com baldaquino era sustentado por oito estátuas [...].

O sinal do prestígio e da riqueza era a pedra, ao torres que rodeavam o castelo. O mesmo faziam na cidade, por imitação, os burgueses ricos: “casa forte e bela”, como se dizia. Mas o burguês iria ligar-se à casa e mobiliá-la. Também neste aspecto daria à evolução do gosto a sua marca característica inventando o conforto.

Cena de banquete. Miniatura do século XV. Artista desconhecido

A alimentação [...] foi uma obsessão da sociedade medieval. A massa campesina tinha de contentar-se com pouco. A base da sua alimentação eram as papas. O principal acompanhamento reduzia-se frequentemente aos produtos de apanha. Mas o [...] acompanhamento de pão espalhou-se em todas as categorias sociais nos séculos XII e XIII – e foi então que o pão tomou verdadeiramente no Ocidente a significação quase mítica que a religião lhe dá. A classe campesina tem, porém, uma festa alimentar: a matança do porco, em dezembro, cujos produtos alimentam os festins do fim do ano e as refeições do longo inverno...

A alimentação é a principal oportunidade que têm as classes dominantes da sociedade para manifestar a sua superioridade nesse essencial domínio das aparências. O luxo alimentar é o primeiro de todos. Exibe os produtos reservados: a caça das florestas senhoriais, os ingredientes preciosos, especiarias compradas por alto preço, e os pratos raros, preparados pelos cozinheiros. [...] A mesa senhorial é também uma oportunidade para exibir e fixar as regras de etiqueta. [...]

Cena de caça. Dezembro (detalhe). Livro de Horas do Duque de Berry, Irmãos Limbourg. Século XV

Uma vez satisfeitas as necessidades essenciais da subsistência e, quanto aos ricos, as exigências – não menos essenciais – do prestígio, pouco ficava aos homens da Idade Média. Sem as preocupações com o bem-estar, sacrificavam tudo às aparências quando isso estava nas suas possibilidades. As suas únicas alegrias profundas e desinteressadas eram a festa e os jogos, mas, nos grandes, a festa era também ostentação e autopropaganda.

Cena de torneio, Barthélémy d'Eyck. Século XV

O castelo, a igreja, a cidade eram cenários teatrais. É sintomático que a Idade Média não tenha tido um local especial para as representações teatrais. Os palcos e as representações eram improvisados onde houvesse um centro de vida social. Na igreja, as cerimônias religiosas eram festas, e é do drama litúrgico que sai o teatro. No castelo, os banquetes, os torneios, os espetáculos dos trovadores, dos jograis, dos bailarinos e dos domadores de ursos sucedem-se. Na cidade, os teatros de saltimbancos erguem-se nas praças [...]. Todas as classes da sociedade fazem das suas festas familiares cerimônias ruinosas: os casamentos deixam os camponeses na pobreza durante anos, e os senhores durante meses. O jogo exerce uma singular sedução sobre esta sociedade alienada. Escrava da natureza, entrega-se ao acaso: os dados rolam em todas as mesas. Prisioneira de rígidas estruturas sociais, faz da própria estrutura social um jogo: é o caso do xadrez [...]. Projeta e sublima as suas preocupações profissionais em jogos simbólicos e mágicos: os torneios e os desportos militares exprimem a essência da vida cavalheiresca e as festas folclóricas, o ser das comunidades campesinas. [...] E, em especial, a música, o canto, a dança arrastam todas as classes sociais...


LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Estampa, 1984. v. 2. p. 88-9, 91, 121-7.