"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A guerra total

O senador estadunidense Alben W. Barkley, membro do comitê que investigava os crimes nazistas, ao lado de corpos de prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha. 24 de abril de 1945. Fotógrafo desconhecido.

Mais ainda que a Grande Guerra, a Segunda Guerra Mundial foi travada até o fim, sem ideias sérias de acordo em nenhum dos lados [...]. Era, de ambos os lados, uma guerra de religião, ou, em termos modernos, de ideologias. Foi também, e demonstravelmente, uma luta de vida ou morte para a maioria dos países envolvidos. O preço da derrota frente ao regime nacional-socialista alemão, como foi demonstrado na Polônia e nas partes ocupadas da URSS, e pelo extermínio dos judeus [...] era a escravização e a morte. Daí a guerra ser travada sem limites. A Segunda Guerra Mundial ampliou a guerra maciça em guerra total.

Suas perdas são literalmente incalculáveis, e mesmo estimativas aproximadas se mostram impossíveis, pois a guerra matou tão prontamente civis quanto pessoas de uniforme, e grande parte da pior matança se deu em regiões, ou momentos, em que não havia ninguém a postos para contar, ou se importar. [...] De qualquer modo, que significa exatidão estatística com ordens de grandeza tão astronômicas? Seria menor o horror do holocausto se os historiadores concluíssem que exterminou não 6 milhões mas 5 ou mesmo 4 milhões? [...] Que significa para o leitor médio desta página que, de 5,7 milhões de prisioneiros de guerra russos na Alemanha, 3,3 milhões morreram? A única coisa certa sobre as baixas da guerra é que levaram mais homens que mulheres. [...] Os prédios podiam ser mais facilmente reconstruídos após essa guerra do que as vidas dos sobreviventes. [...]

Tanto a totalidade dos esforços de guerra quanto a determinação de ambos os lados de travá-la sem limites e a qualquer custo deixaram a sua marca. Sem isso, é difícil explicar a crescente brutalidade e desumanidade do século XX. [...] O aumento da brutalização deveu-se não tanto à liberação do potencial latente de crueldade e violência do ser humano, que a guerra naturalmente legitima [...]. Outro motivo era a nova impessoalidade da guerra [...] A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis, diferente de guerras anteriores com as pessoas evisceradas por baionetas ou vistas pelas miras das armas de fogo. Diante dos canhões permanentemente fixos da Frente Ocidental estavam não homens, mas estatísticas. [...] Lá embaixo dos bombardeios aéreos estavam não as pessoas que iam ser queimadas e evisceradas, mas somente alvos. Rapazes educados, que certamente não teriam desejado enfiar uma baioneta na barriga de uma jovem aldeã grávida, podiam com muito mais facilidade jogar altos explosivos sobre Londres ou Berlim ou bombas atômicas em Nagasaki. [...] As maiores crueldades de nosso século foram as crueldades impessoais decididas a distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais.

Assim o mundo acostumou-se à expulsão e matança compulsórias sem escala astronômica. [...] Em resumo, a catástrofe humana desencadeada pela Segunda Guerra Mundial é quase certamente a maior da história humana. O aspecto não menos importante dessa catástrofe é que a humanidade aprendeu a viver num mundo em que a matança, a tortura e o exílio em massa se tornaram experiências do dia-a-dia que não mais notamos.

HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos. O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 50, 56-8.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Moralidade, direitos humanos, genocídio e justiça

As duas guerras mundiais deram atenção aos extremos do comportamento humano e seus valores e às diferentes interpretações dos "direitos humanos" que as culturas e os governos construíram para promover interesses domésticos ou internacionais. Após a Segunda Guerra Mundial, as organizações dedicadas à paz e à ordem internacional começaram a discutir direitos humanos universais - as necessidades humanas básicas, a dignidade, os direitos de participação e as liberdades. Poderiam as pessoas de perspectivas culturais e políticas vastamente diferentes concordar em uma convenção básica de direitos humanos?

No campo, Felix Nussbaum 

Na onda de extermínio nazista dos judeus, homossexuais, dos ciganos e de outros, uma campanha foi lançada em prol da aceitação universal das leis internacionais que definiam e proibiam o genocídio. Isso foi alcançado em 1948, com a promulgação da Convenção sobre a prevenção e punição do crime de genocídio. Infelizmente, isso não evitou genocídios posteriores, definidos como uma variedade de crimes contra a humanidade, cometidos contra certo grupo alvo nacional, étnico, racial ou religioso. O antigo Estado da Iugoslávia, a Bósnia (local de limpeza étnica, estupros e massacres durante os tempos de guerra); o Camboja (onde o Khmer Vermelho assassinou mais de 1 milhão de compatriotas entre 1975 e 1979); Ruanda (onde pelo menos 1 milhão de tursis foram massacrados, de abril a julho de 1994), e Dafur (um conflito que se iniciou em 2003 e que matou ou ameaçou a sobrevivência de mais de 5 milhões de africanos), são vários dos locais mais recentes de genocídios modernos, desde 1948. Os historiadores também descobriram exemplos históricos dos campos de concentração e de massacres, como os ocorridos na colônia britânica do Quênia, no Congo Belga.


Trailer de corpos em Buchenwald

Guerras globais no século XX resultaram na morte de mais de 100 milhões de pessoas. Enquanto muitas dessas eram baixas de guerra, tanto militares como civis, algumas foram resultado das políticas deliberadas do genocídio. Do massacre de 2 milhões de armênios pelos turcos, em 1915, e dos 15 milhões de judeus, ciganos, eslavos e homossexuais assassinados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o genocídio foi praticado por governos e por pessoas que carregavam a responsabilidade de executar esses atos de assassinato institucionalizado. Embora o genocídio não tenha sido particular do século XX, a tecnologia o tornou mais eficiente, como podem testemunhar as câmaras de gás nos campos de concentração alemães. Em Auschwitz, até 12 mil vítimas eram mortas diariamente com os gases.

Os julgamentos dos crimes de guerra de Nuremberg e de Tóquio, no final da Segunda Guerra Mundial, tentaram culpar e punir aqueles que transgrediram os limites do comportamento humano civilizado na condução da guerra, como definido pela comunidade internacional em foros como o da Liga das Nações. A convenção de Genebra, por exemplo, estabeleceu regras para o tratamento humano de prisioneiros de guerra, embora ela tenha, mesmo assim, sido violada pelos beligerantes da Segunda Guerra Mundial.

O uso de duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, para causar ostensivamente uma rápida rendição do Japão, levantou questões morais pontuais. Ainda que os números de mortos no holocausto atômico ou no holocausto nazista tenham-se transformado rapidamente em estatísticas estéreis, da mesma forma que os registros fotográficos, por causa de sua própria clareza e objetividade, eles nos tornam familiarizados e confortáveis com as duras realidades da guerra e da crueldade humana. A americana, nascida na Alemanha, filósofa política, Hannah Arendt (1906-1975), escreveu sobre a "banalidade do mal", a ideia de que o mal é um lugar-comum e que tentar defini-lo como algo atípico do comportamento humano não é útil. Mesmo assim, no pós-Segunda Guerra Mundial, embora nem o genocídio nem a guerra tenham acabado em 1945, as pessoas continuaram a questionar a moralidade da guerra, a se opor a ela e a lutar para preveni-la.

[...]

No final do século XIX, o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um dos muitos europeus que fizeram previsões sobre a era que se aproximava. Escrevendo em 1888, ele alertou que as vidas no novo século seriam caracterizadas pelo conjunto de guerras catastróficas além da imaginação; pela morte de Deus; e por sentimentos de autorrepugnância, ceticismo, cobiça, ganância e cinismo. Certamente alguns sobreviventes do século XX, veriam a realização das profecias de Nietzsche nas guerras mundiais; o período negro do fascismo; e nas contradições, desigualdades e injustiças exibidas no mundo do século XX. [...]

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 365-366.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

El Diablo es gitano

Dança cigana no jardim de Alcázar, Alfred Dehodencq

Hitler creia que la plaga gitana era uma amenaza, y no estaba solo.

Desde hace siglos, muchos han credo y siguen creyendo que esta raza de origen oscuro y oscuro color lleva el crimen en la sangre: siempre malditos, vagamundos sin más casa que el camino, violadores de doncellas y cerraduras, manos brujas para la baraja y el cuchillo.

En una sola noche de agosto de 1944, dos mil ochocientos noventa y siete gitanos, mujeres, niños, hombres, se hicieron humo en las câmaras de gas de Auschwitz.

Una cuarta parte de los gitanos de Europa fue aniquilada en esos años.

Por ellos, ¿ quién preguntó?

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.118.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

El Diablo es homosexual

O banho turco, Charles Demuth

En la Europa del Renacimiento, el fuego era el destino que merecian los hijos del inferno, que del fuego venian. Inglaterra castigaba con muerte horrorosa e quienes hubiesen tenido relaciones sexuales con animales, judios e personas de su mismo sexo.

Salvo en los reinos de los aztecas y de los incas, los homosexuales eran libres en América. El conquistador Vasco Nuñez de Balboa arrojó a los perros hambrientos a los indios que practicaban esta anormalidad con toda normalidad. Él creia que la homosexualidad era contagiosa. Cinco siglos después, escuché decir lo mismo al arzobispo de Montevideo.

El historiador Richard Nixon sabia que este vicio era fatal para la Civilización:

¿ Ustedes saben lo que pasó con los griegos? La homosexualidad los destrujó! Seguro. Aristóteles era homo. Todos los sabemos. Y también Sócrates. ¿ Y ustedes saben lo que pasó con los romanos? Los últimos seis emperadores eran maricones…

El civilizador Adolf Hitler habia tomado drásticas medidas para salvar a Alemania de este peligro. Los degenerados cukpables de aberrante delito contra la naturaleza fueron obligados a portar un triângulo rosado. ¿ Cuántos murieron en los campos de concentración? Nunca se supo.

En el año 2001, el gobierno alemán resolvió rectificar la exclusión de los homosexuales entre las víctimas del Holocausto. Más de medio siglo demoró en corregir la omisión.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.117-118.

sábado, 19 de outubro de 2013

Estigmatizados e perseguidos pelos nazistas: ciganos, judeus, homossexuais, eslavos, comunistas...

Os condenados, Felix Nussbaum
 

Os ciganos, outro alvo do nazismo, por serem vistos como constituintes de uma raça bastarda, de marginais e parasitas, também foram estigmatizados, levando na roupa um triângulo negro com o objetivo de se fazerem reconhecidos. Em 1939 havia em torno de 750 mil ciganos na Europa; cerca de 260 mil deles foram exterminados durante a guerra. [...]

A implantação do processo de aborto e esterilização permitiu que os médicos ficassem mais acostumados a intervir no corpo humano, mas nem por isso as mortes eram menos comuns. Depois de experimentos químicos e com o uso de raios X, os métodos abortivos foram aprimorados; criou-se, por exemplo, a injeção uterina, que diminuía os riscos de hemorragia e evitava outras complicações. Experiências dessa natureza eram feitas em mulheres judias e ciganas até que fossem devidamente testados os mecanismos de contracepção e de eugenia. [...]

Fileiras de cadáveres no campo de concentração de Nordhausende, Alemanha, 1945

Para uma visão de mundo que considera o diferente uma anomalia, não era difícil classificar o homossexual como culpado e dispensar-lhe o mesmo tratamento dado aos outros grupos perseguidos. [...] Em 1940, Himmler radicalizaria seu discurso: "É preciso abater esta peste pela morte". Os homossexuais eram obrigados a usar um triângulo rosa que os distinguia, classificava, isolava, estigmatizava, tornando-os presa fácil do racismo que crescia a cada dia.

Os eslavos, por sua vez, também eram vistos como subumanos pelos nazistas. Entre eles, os poloneses sofreram particularmente. As elites foram neutralizadas; a população, subjugada. Na verdade, durante todo o século XIX, a Polônia permaneceu dividida entre as grandes potências da região (Áustria, Rússia e Prússia), o que muito deve ter colaborado para a formação de um conceito depreciativo desse povo por parte dos nazistas. Provavelmente a fragilidade tão à mostra desse país muito contribuiu para que os nazistas, cujo pensamento considera as mudanças e os acasos da história como incompetência de sujeitos sociais incapazes de serem vencedores, formassem um conceito extremamente negativo dos poloneses. Hitler e seus seguidores tinham uma repulsa doentia pelo que consideravam fraqueza nas pessoas, grupos ou povos - "fraqueza" que, na realidade, é apenas sinal de vida. [...]

Os soviéticos sofriam duplo preconceito, por serem eslavos e por serem comunistas. Em relação a eles também o objetivo era a destruição completa. A invasão da União Soviética pela Alemanha, em junho de 1941, reforçou a arrogância dos alemães, e o massacre impetrado a civis e militares deu-lhes a ilusão de que o objetivo seria atingido. Entre 1941 e 1945, 60% dos 5 milhões e 700 mil prisioneiros de guerra soviéticos foram mortos pelos alemães. [...]

Os campos de concentração e extermínio, locais onde se eliminavam os que eram considerados dissonantes do todo homogêneo e coerente imaginado pelos nazistas, foram a materialização perfeita da visão de mundo totalitária. Ali a humanidade seria depurada, e a produção da morte em massa possibilitaria a emergência de uma nova raça, idêntica a si mesma, ou seja, mais "pura" e pronta para o domínio universal. Nos campos estava condensada a essência do regime nazista.

CAPELATO, Maria Helena; D'ALESSIO, Márcia Mansor. Nazismo: política, cultura e holocausto. São Paulo: Atual, 2004. p. 32, 92-95. (Coleção Discutindo a história)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

El Diablo es judío

Gassing, David Olère

Hitler no inventó nada. Desde hace dos mil años, los judíos son los imperdonables asesinos de Jesús y los culpables de todas las culpas.

¿Cómo? ¿Qué Jesús era judío? ¿Y judíos eran también los doce apóstoles y los cuatro evangelistas? ¿Cómo dice? No puede ser. Las verdades reveladas están más aliá de la duda: en las sinagogas el Diablo dicta clase, y los judíos se dedican desde siempre a profanar hostias, a envenenar aguas benditas, a provocar bancarrotas y a sembrar pestes.

Inglaterra los expulsó, sin dejar ni uno, en el año 1290, pero eso no impidió que Marlowe y Shakespeare, que quizá no habian visto un judío en su vida, crearan personajes obedientes a la caricatura del parásito chupasangre y el avaro usurero.

Acusados de servir al Maligno, estos malditos anduvieron los siglos de expulsión en expulsión y de matanza en matanza. Después de Inglaterra, fueron sucesivamente echados de Francia, Austria, España, Portugal y numerosas ciudades suizas, alemanas y italianas. En España habian vivido durante trece siglos. Se llevaron las llaves de sus casas. Hay quienes las tienen todavía.

La colosal carnicería organizada por Hitler culminó una larga historia.

La caza de judíos ha sido siempre un deporte europeo.

Ahora los palestinos, que jamás lo practicaron, pagan la cuenta.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p.114.

domingo, 26 de agosto de 2012

Reflexão sobre o choque de épocas no século XX


No vagão, Joel Kass

Desde os tempos mais recuados, os homens mostraram-se capazes de criações admiráveis. Mas cometeram os crimes mais odiosos. Os mais fortes dominaram os mais fracos. Homens reduziram à escravatura e massacravam outros homens, mulheres e crianças. E para mais, há só dois séculos que se impôs pouco a pouco a ideia de que todos os seres humanos, não importa a sua origem, a cor do rosto ou as suas crenças, têm o mesmo direito à vida, à justiça e ao respeito.

No entanto, no século XX, as guerras tornaram-se mundiais, milhões de pessoas foram e continuam a ser assassinadas através de terríveis genocídios. A tentativa de Hitler de exterminar de um modo organizado e industrial todos os judeus da Europa é como que um auge do Mal na História.

Pode-se tentar compreender como forças más, vindas de todas as épocas, se reuniram na Shoah, e como estas continuam a circular entre nós.

Massacre, Joel Kass

[O que é um ser humano?] Durante milhares de anos, para o membro de uma tribo, de uma aldeia, o "homem", o ser humano, era aquele que vivia como ele próprio, a seu lado, e que tinha a mesma língua e os mesmos hábitos. Em muitas tribos a palavra "homem" designava os membros do grupo. Aos das outras tribos, ou das aldeias longínquas, não chamavam "homens", mas "malvados", "maus", ou ainda "macacos de terra", "ovos de piolhos"...! O estrangeiro era também um "fantasma", uma "aparição".

Para os gregos, os "bárbaros" (barbaroi) eram os estrangeiros. Aqueles cuja língua se não percebia. E o filósofo Aristóteles escrevia que os bárbaros tinham nascido para ser escravos.

A entrada para o forno, Joel Kass 

[A divisão dos homens] Durante a Antiguidade, os que eram ricos, os que tinham o poder, os que conheciam a escrita e eram instruídos foram, por todo o lado, apenas um pequeno número de homens (quase não houve mulheres) entre a multidão de pessoas. Na Europa, a cristandade tinha-se organizado em torno das "ordens": os homens da Igreja, os senhores e os trabalhadores.

Os "instruídos" ignoravam ou desprezavam aqueles que designavam como "vilões", ou seja, os que trabalhavam com as mãos. No entanto, era esse mesmo trabalho que alimentava os instruídos, que os vestia, e esses trabalhos manuais também exigiam saber. Mas, na cabeça dos poderosos, havia, contudo, o alto e o baixo, os homens que acreditavam ser superiores e os inferiores.

Na Índia, a sociedade também estava dividida em castas. Nas cidades do mundo muçulmano havia pobres e ricos, letrados e mendigos. Mas não havia "ordens" como na cristandade.

Em frente do forno, Joel Kass

[A rejeição dos homens "selvagens"] Na Idade Moderna, depois da "descoberta" da América e dos "índios" a que os europeus chamaram "selvagens", os espanhóis enviaram comissões de inquérito às Antilhas para se certificarem se os habitantes possuíam, ou não, uma alma. Quanto aos antilhanos, estes observavam os cadáveres dos brancos para verem se estes apodreciam como os seus. O cristianismo tinha afirmado que todos os homens descendiam de Adão, logo de Noé, após o Dilúvio. Os cristãos podiam pensar, assim, que os homens formavam uma única grande "família". Mas eles justificaram a escravatura dos negros dizendo que estes descendiam de Cham, o filho maldito de Noé.

Carregando o morto, Joel Kass

[Diferentes, logo inferiores] Durante a grande rearrumação de ideias nos princípios da Idade Moderna, pôs-se o problema de saber se os índios da América também descendiam de Adão e a que filho de Noé ligar a sua ascendência. Alguns de entre os homens das Luzes punham em questão a autoridade da Bíblia. Mas todos estavam preocupados com o problema dos negros. Muitos pensavam que os "negros" (palavra inventada no século XVI) eram inferiores aos brancos. Na sua discussão, utilizavam também uma palavra nova, raça. Eles deram-lhe então, mais ou menos o mesmo sentido que nação, tal como esta era compreendida na Antiguidade, dado que aplicavam a noção de raça a todos aqueles que descendiam de uma mesma família, de um mesmo povo. A ideia dos direitos do homem foi contrariada pelo racismo e pelo anti-semitismo, quando estes apareceram na Europa do século XIX, entre certos escritores franceses, alemães e austríacos.

O Iluminismo conduziu às afirmações dos revolucionários americanos, depois às dos revolucionários franceses sobre a igualdade entre os homens. No entanto, foi na Época das Luzes que começou a espalhar-se a ideia de desigualdade entre as raças, totalmente contrária aos direitos do homem, e os europeus afirmaram a sua pretendida superioridade sobre os outros.

Crucificado, Joel Kass

[Ciência, raça e racismo] Durante todo o século XIX, utilizou-se muito a palavra "raça" dando-lhe um sentido novo, um sentido "biológico". A ciência tinha-se desenvolvido. Alguns sábios tinham-se lançado em cálculos, mediam os crânios dos humanos para daí deduzirem a inteligência de cada um e comparavam as cores da pele. Outros estudavam as línguas. O francês Ernest Renan, que tinha muita influência, afirmava que, entre os brancos, havia dois grandes grupos de línguas, logo, de "raças": os arianos (os germanos e os celtas) e os semitas (os árabes e, sobretudo, os judeus). A "raça ariana" dizia ele, seria o futuro da humanidade, enquanto a "raça semita" - ele também falava de "raça judaica" - tinha o cérebro atrofiado.

Na Antiguidade, os cristãos tinham perseguido os judeus porque estes eram "infiéis". Na Idade Moderna, o anti-semitismo entroncou no antijudaísmo cristão. O anti-semitismo tornou-se algo de diferente porque se misturou com o racismo e com certas formas de nacionalismo.

Velhas memórias, Joel Kass

[Como o racismo e o anti-semitismo se misturaram com o nacionalismo] Depois da Revolução Francesa, os judeus tornaram-se cidadãos como os outros. Participavam nas eleições e no grande desenvolvimento da indústria. O anti-semitismo apoiava-se nos sábios que pretendiam que as raças não eram iguais. Os anti-semitas diziam que os judeus eram uma "raça" diferente das outras, má e prejudicial.

O nacionalismo era uma espécie de nova religião. Era acreditar não somente que a nação era superior a tudo, mas que esta deveria ser pura, e que estava "manchada" pela presença dos judeus e dos estrangeiros. Na França, os manuais de história, que asseguravam que todos os franceses descendiam dos gauleses, desenvolveram assim o nacionalismo através da ideia falsa de que os verdadeiros franceses, os franceses de cepa, descendiam apenas dos "gauleses".

[...]

[...] Desde o século XIX até a Segunda Guerra Mundial, muitos estrangeiros tinham imigrado para França. Alguns tinham vindo para trabalhar, outros, nomeadamente os judeus da Europa central, tinham fugido a perseguições nos seus países. Entre as duas guerras, alguns jornais franceses estavam cheios de insultos anti-semitas e xenófobos (contra os estrangeiros). Foram esses jornais e essas pessoas que, mais tarde, "colaboraram" com Hitler durante a Ocupação e aprovaram as suas acções contra os judeus.

O anti-semitismo conduzira Hitler e os nazis a essa loucura criminosa de que Auschwitz é bem o símbolo.

[...]

Desde o Paleolítico que os homens foram migrantes. As migrações continuarão e acelerar-se-ão no século XXI porque o mundo, na Idade Electrónica, é uma aldeia planetária onde toda a gente comunica, mesmo que as fronteiras existam e mesmo que continuem absurdas guerras para a defesa de algumas delas.

[...]

CITRON, Suzanne. A História dos Homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 321-325, 328, 331.

domingo, 27 de maio de 2012

Passado Presente: 2ª Guerra Mundial, revisionismo e neonazismo

"Cada homem, cada criança é hoje um sujeito social que, para se posicionar no universo, tem necessidade de se entender como resultado insubstituível de sequências e de misturas, de continuidades, de recuos e de avanços, de dominâncias e de fraternidades, de vida e de morte."
(Suzanne Citron, historiadora)

Pichação neonazista no muro do hospital Emílio Ribas (São Paulo)

Texto 1.  


"Quando certa manhã Gregor Samsa 
acordou de sonhos intranquilos, 
encontrou-se em sua cama
metamorfoseado em
um inseto monstruoso." 
(Franz Kafka, A metamorfose)

O escritor judeu-tcheco Franz Kafka morreu em 1924. Bem antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Mas seu livro A metamorfose parece uma impressionante intuição do que estava por ocorrer. O mundo, como o personagem Gregor Samsa, despertou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) transformado numa gigantesca e horrível barata, depois de duas décadas de sonhos intranquilos. Em seis anos, o fogo da guerra exterminou 45 milhões de pessoas e destruiu a falsa imagem de paz criada após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Os traumas não resolvidos da Primeira Guerra Mundial permitiram que o nazismo, um movimento que parecia ridículo em seu nascimento, chegasse ao poder com mão de ferro na Alemanha, o país mais desenvolvido da Europa. E daí, valendo-se da falta de audácia das potências democráticas, incendiasse o mundo. No final de doze anos de regime nazista e seis anos de guerra, povos e grupos inteiros - judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais - haviam sido quase dizimados, pelo simples crime de terem nascido. Milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morreram de fome em campos de concentração alemães. A Alemanha estava destroçada. O Japão via seus sonhos de tornar-se o senhor da Ásia sumirem na fumaça de duas bombas atômicas lançadas por aviões americanos. E o mundo redesenhado pelas duas superpotências vencedoras - a União Soviética e os Estados Unidos - duraria até a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o "suicídio" da União Soviética, dois anos depois.

[...]

Quando a geração de nossos pais e avós acabou de comemorar o fim do mais terrível conflito da História, restavam duas perguntas no ar: Quem pagaria pelos crimes de uma guerra em que morreram 45 milhões de pessoas - vinte milhões de soviéticos, seis milhões de judeus, seis milhões de poloneses e 4,5 milhões de alemães? E o que seria feito para impedir uma nova guerra, ainda mais mortífera?

Os nazi-fascistas, é claro, foram considerados os grandes responsáveis pela guerra. Em 1946, os Aliados organizaram um grande julgamento em Nuremberg. Hitler e Goebbels e o comandante das SS, Heinrich Himmler, haviam se suicidado. Mas o tribunal julgou líderes de importância, como Hermann Goering. Condenado à morte, ele se suicidou pouco antes de ser enforcado. Outras 25 personalidades do regime, igualmente condenados, foram executadas. Julgamentos realizados em Varsóvia e Praga também condenaram antigas autoridades de ocupação.


Julgamento de Nuremberg

Milhares de oficiais e burocratas do nazismo, que haviam sido presos pelos Aliados, foram inocentados. Os vencedores da guerra tinham pressa em reconstruir os países da Europa como democracias capitalistas, evitando o avanço do comunismo pró-soviético. Quem assumiria os novos postos de importância, senão os sobreviventes do regime destruído?

Empresas alemãs que utilizaram o trabalho escravo de mais de sete milhões de estrangeiros - na maioria vindos do Leste europeu - continuam ganhando dinheiro até hoje. Quanto ao Japão, nunca passaram pelos tribunais aqueles que ordenaram e executaram o extermínio de milhares de chineses, malaios e birmaneses durante a ocupação.

Se tantos crimes dos perdedores da guerra sumiram como fumaça no processo de reconstrução após a guerra, que dizer das barbaridades cometidas pelos Aliados? Não aconteceu como nos filmes que mostram bandidos alemães e japoneses lutando contra os mocinhos aliados. Em um conflito - ainda mais desse porte - a fronteira entre mocinhos e bandidos às vezes é difícil de definir. Os americanos utilizaram bombas incendiárias nos bombardeios às cidades japonesas, aproveitando o fato de que a maioria das casas eram construídas de madeira. Quantos civis morreram nesses ataques? E nos grandes bombardeios aliados às cidades de Dresden e Colônia (esta sem nenhum objetivo militar)? E como esquecer o lançamento das bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki?


90% do centro da cidade de Dresden foi destruído

Há quem diga que guerra é guerra, vale tudo. Outros afirmarão que cometeram crimes horrorosos apenas porque seus chefes ordenaram. Afinal, homens normais, que adoravam seus filhos, cuidavam de animais e davam dinheiro a campanhas de caridade transformaram-se em verdadeiros monstros. Resta saber se as horríveis condições da guerra criaram esses monstros, ou apenas os libertaram de dentro da fachada "civilizada" do homem.

[...]

O fim dos regimes socialistas de partido único parecia consolidar de vez a democracia. Nazismo e fascismo soavam como sombra de um passado esquecido. Mas as aparências enganam. O fim do comunismo fez vir à tona grupos neonazistas, em especial nos antigos países socialistas, como a Rússia, a Romênia e a Alemanha Oriental. Esses grupos defendiam a volta à "era de ouro de Hitler", para populações desesperadas com a perda do emprego garantido e das expectativas de futuro, após o colapso do comunismo. O alvo dos porretes e coquetéis molotov dessa nova extrema direita não eram tanto os judeus e sim os imigrantes de países como o Marrocos e a Turquia. O argumento dos racistas era que esses "sub-homens" roubaram empregos dos europeus. Bobagem, porque em geral os estrangeiros aceitam submeter-se a trabalhos pesados, aos quais os "nacionais" não se sujeitam. Mas em tempo de crise, essa arenga racista convenceu muita gente.

Na Iugoslávia, onde o fim do comunismo deu origem a uma sangrenta guerra civil, generalizou-se a "limpeza étnica". Os sérvios, majoritários na Bósnia-Herzegovina, passaram a tentar eliminar os bósnios muçulmanos dessa república. Nada mais parecido com a "solução final" dos nazistas.

Na esteira da falência do comunismo e de outras propostas de esquerda, também ganharam força os escritores revisionistas, que negam os crimes de Hitler e seus comparsas. Aqui no Brasil, o gaúcho S. E. Castan, em seu livro Holocausto, judeu ou alemão?, nega o morticínio de judeus. Auschwitz e Treblinka, em suas palavras, transformaram-se quase em campos de veraneio.

Destruir a memória é o primeiro passo para a repetição de antigos crimes, e contra isso devemos estar sempre atentos. Este texto começou com uma citação de A metamorfose, de Franz Kafka. E vai terminar com outro trecho de Kafka, do livro A colônia penal. Nele, o autor fala sobre uma prisão tropical, cujo comandante acredita na tortura e no assassinato como formas de impor a disciplina, acima de tudo - até da própria inocência do condenado. O comandante morre e, em seu túmulo, é inscrita a seguinte frase:


Meu princípio é este:
a culpa é sempre
indubitável. Crede
e esperai. O antigo
comandante retornará...

BRENER, Jaime. A Segunda Guerra Mundial: o planeta em chamas. São Paulo: Ática, 2005. p. 4, 58-59, 62-63. (Col. Retrospectiva do Século XX.)

Texto 2. 

[...] A crise e a chegada dos estrangeiros despossuídos impulsionaram os perigosos sentimentos de racismo e intolerância, que se transformam em neofascismo e neonazismo. [...]

Os governos da Comunidade Europeia endureceram suas leis de imigração, assustados com o avanço eleitoral dos partidos de direita, que insistem na tecla de uma "invasão bárbara". Ciganos, turcos, africanos, asiáticos, latinos, todos "miseráveis" e "mal-educados", estariam pondo em perigo a alta civilização europeia. [...]

Os preceitos das "tribos" do mal chegam ao Brasil em segunda mão, numa versão absolutamente perversa, como só poderia ser. E inventa-se até uma "raça" onde ela não existe, ao inserir-se no cardápio de exclusões os nordestinos que migram para o Sul em busca de trabalho. Filhos da baixa classe média ou operários, os "carecas" brasileiros, como os alemães, "atacam os que têm menos ainda". [...]

Os neonazistas podem estar mais organizados e estruturados em todo o mundo do que há uma década, mas ainda assim não passam de pequenos grupos, se comparados às demais forças políticas nos respectivos países onde atuam. Mas nem por isso são menos perigosos. Sobretudo se levarmos em conta que constituem parte de uma realidade histórica e filosófica muito mais ampla. Uma realidade de intolerância, de rejeição às diferenças [...].

SALEM, Helena. As tribos do mal: o neonazismo no Brasil e no mundo. São Paulo: Atual, 1995. p. 81-3.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Os regimes totalitários: ataque à razão e à liberdade

Guerra, Lasar Segall

A GUERRA

Um avião que surge de repente
Carregado de mísseis assassinos
As cidades em chamas ardendo

Matando meninas e meninos.

Fogem os sobreviventes
Sobre os corpos caídos por terra
Fogem do horror da guerra.

Não há tempo para velórios
Outra bomba os enterra
Mutilados em seu próprio solo
As pobres vítimas da guerra.

A GUERRA É ESTÚPIDA E INÚTIL
Massacra quem não faz guerra
É o poder e a ganância fútil
Pela terra que nos enterra.

Se eu pudesse...
Eu mataria a guerra.

Roseli Passos, poetisa e artista plástica. In: http://roselipassospoemas.blogspot.com.br/


Detalhe do triângulo rosa usado para identificar os homossexuais na Alemanha nazista. 
[Milhões de judeus, ciganos, eslavos, homossexuais, testemunhas de Jeová, liberais, democratas, socialistas, artistas, intelectuais... foram barbaramente aprisionados e executados pelos nazi-fascistas nos campos de concentração espalhados pela Europa dominada pela barbárie.]

Auschwitz

"Demoraria muitos anos para que toda a história do custo moral da guerra aparecesse, mas um sinal vivo - e do que fora conquistado - se tornou imediatamente visível e aterrorizador quando os exércitos aliados avançaram na Alemanha e na Europa Central. Descobriram-se invadindo campos onde a brutalidade sádica e a negligência desumana foram muito além do que alguém algum dia concebera. Os prisioneiros ali durante anos sofreram tortura, fome e trabalho forçado. Passaram por isso às vezes por serem opositores políticos ao nazismo, às vezes porque eram reféns ou trabalhadores escravos, às vezes simplesmente como prisioneiros de guerra. Mas isto não era o pior. A maioria dos que sofreram eram judeus, condenados a um tratamento desumano e à morte simplesmente por sua raça. Os nazistas fizeram esforços especiais para eliminar os que eles supunham ser geneticamente indesejáveis. [...] cinco ou talvez seis milhões de judeus pereceram nas câmaras de gás dos campos de extermínio ou em fábricas e pedreiras onde morreram de exaustão e fome, ou no campo, onde eram cercados e fuzilados por destacamentos especiais de extermínio. Derrubar o sistema que fez isto acontecer foi uma conquista grande e nobre, uma vitória da civilização e da decência. [...] O único guerreiro ideológico da luta do início ao fim fora Hitler, e os objetivos que buscara  eram moralmente abomináveis." [J. M. Roberts. O livro de ouro da História do Mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 727-728]


* A Europa depois da guerra. A Primeira Guerra deixou um rastro de desilusão entre as populações. Alguns valores de referência no mundo ocidental ficaram, ao seu final, profundamente abalados. Para muitos, a Europa esteve, durante o conflito, muito mais próxima de um barbarismo perverso do que dos valores propagados por sociedades civilizadas. À desilusão na capacidade humana de resolver problemas de modo racional somavam-se as dificuldades materiais. As instituições liberais sofreram fortes abalos. A reconstrução social, em seus aspectos espirituais e materiais, precisou de tempo para se realizar. A violência, experimentada nos campos de batalha e instigada pelas propagandas oficiais, colocando uma nação contra outra, tornou-se um componente habitual da vida dos jovens que voltaram da guerra.


Campo de concentração de Wobbelin. 
"Em sua luta para derrubar o Estado liberal, os líderes fascistas despertaram os impulsos primitivos, ressucitaram velhas fidelidades tribais e usaram mitos e rituais para mobilizar e manipular as massas. Organizando campanhas de propaganda com o rigor de uma operação militar, os fascistas inicitaram e dominaram as massas e confundiram e minaram a oposição democrática, desencorajando sua vontade de resistir." [MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 565-566]

Desesperados pelo difícil retorno, muitos desses jovens aderiram aos movimentos extremistas e nacionalistas, que, em vez de soluções políticas encaminhadas pela ação de instituições liberais, propunham um salvacionismo baseado na ação e no terror.

A crise iniciada nos Estados Unidos em 1929 com a queda da Bolsa de Nova Iorque estimulou ainda mais a tensão social e a adesão a movimentos radicais na Europa.

* O totalitarismo. No âmbito político, a crise do capitalismo foi acompanhada pelo enfraquecimento do Estado liberal. Os ideais democráticos burgueses passaram a ser questionados, as liberdades e os direitos individuais caíram em descrédito, e a livre manifestação do pensamento deu lugar à censura e à repressão.


Campo de concentração de Buchenwald. 
"Os instrumentos da moderna tecnologia - rádio, filmes cinematográficos, discursos públicos, telefone e teletipo - possibilitaram ao Estado doutrinar, manipular e dominar seus súditos numa escala até então inimaginável." [MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 566]

Essa inversão de valores caracterizou o totalitarismo, fenômeno bastante complexo e que ganhou matizes próprios em cada país. De modo geral, no entanto, as práticas totalitárias tiveram traços comuns em todos os lugares onde foram implantadas.

O pluripartidarismo foi substituído pelo sistema de partido único, e os órgãos legislativos, quando existiam, eram totalmente subjugados pelo poder Executivo. Os mecanismos de coerção ganharam enorme importância - o que equivale a dizer que a violência se tornou prática institucionalizada -, e a propaganda nacionalista intensiva foi o grande instrumento de mobilização das massas.


Prisioneiros do campo de Mauthausen, Áustria. 
"Universidades, escolas, restaurantes, farmácias, hospitais, teatros, museus e campos de atletismo foram gradualmente fechados aos judeus." [MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 581]

Nos regimes totalitários, a ação do Estado se deu sempre no sentido de anular a dimensão individual dos cidadãos e de procurar integrá-los em um corpo comum - a nação. Os conflitos de caráter ideológico locais, ou entre as classes, tendiam a ser totalmente diluídos por meio da pregação de um líder político carismático, que, a pretexto de conduzir a nação para o seu destino, exacerbava o sentimento nacionalista, estimulando o belicismo e, consequentemente, o confronto armado entre países.


Forno crematório do campo de Buchewald.
"Com a guerra, o genocídio tomou dimensões catastróficas. Na Alemanha e nos países ocupados, os campos de concentração, administrados pela SS, foram implementados, visando à escravização e ao extermínio daqueles que, aos olhos dos nazistas, deveriam ser eliminados do corpo social. Fábricas instaladas nas imediações das cidades exploravam o trabalho dos que ainda tinham vigor. Experimentos médicos de congelamento e a aplicação de vírus e bactérias eram realizados nos prisioneiros." [MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010. p. 196]

Sobrevivente de Auschwitz.  
"Desde a chegada, por meio de violência e ameaças, visava-se despojar todos de sua identidade. Os maus-tratos, o desnudamento total, a raspagem dos cabelos, os uniformes listrados e o número impresso na pele indicavam a tentativa de criação de uma subumanidade. Os prisioneiros recebiam identificações diferenciadas para se evitarem laços de solidariedade entre os grupos. A violência física e moral e a destruição cientificamente organizada faziam parte do cotidiano do sistema concentracionário nazista". [MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010. p. 196]

Esses regimes tiveram sucesso sobretudo em países onde a crise econômica, o atraso tecnológico e as tensões sociais eram particularmente graves. Sustentados e financiados pelos setores economicamente poderosos, contaram também com a importante colaboração dos setores empobrecidos, que buscavam uma saída para sua difícil situação.

MARVIN, Perry. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da História do Mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.