"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Os mitos dos povos primitivos

Pajé, E. Goodall

Os mitos, a religião, foram, em princípio, a forma que o homem encontrou para tentar explicar a origem da terra, sua própria origem. É através das crenças e mitos que o homem primitivo passa a sua cultura para seus descendentes, além de utilizá-los como uma forma de manter o grupo unido, fiel a suas tradições. [...] na medida em que todos os membros de uma sociedade se sentiam fiéis ao mesmo ancestral, entendiam que todos tinham uma origem comum, aumentava seu sentimento de unidade.

Além disso, o respeito às tradições deixadas pelos antepassados permitem que a tribo organize o comportamento do grupo, fazendo com que todos respeitem as regras básicas, para que a tribo possa sobreviver. Por exemplo: para o homem Tonga (tribo africana do sul de Moçambique), alguma coisa de ruim pode lhe acontecer, caso não tenha cumprido devidamente os ritos determinados pela tradição com relação aos seus antepassados. Se procurar um feiticeiro para aconselhá-lo, este certamente dirá: "Teu antepassado reclama o rito que não foi cumprido". Para este homem, a importância do seu antepassado é tão grande, é tão presente em sua mente, que muito provavelmente o rito cumprido solucionará o seu problema. Ele se sentirá melhor, pois seu antepassado o perdoou. Ele agora está integrado ao seu grupo novamente.

Os mitos dos povos primitivos estão cheios de sabedoria.

Alguns deles nos dão hoje a explicação correta sobre o tipo de plantas que podem ser usadas para a alimentação, quais podem ser usadas na medicina, além de nos relatar a origem de vários grupos, suas tradições e sua história.

Durante muito tempo, os homens modernos desprezaram os mitos e as religiões do povo primitivo. Achavam que todo homem que não vivesse dentro de uma sociedade moderna não devia ser levado "a sério".

Entendiam sua religião, seus ritos, apenas como uma maneira primitiva de "botar para fora" as suas angústias e medos diante de uma natureza desconhecida e, por isso, ameaçadora.

Demorou muito para que os historiadores e outros pesquisadores de nossa época percebessem que o homem primitivo, associando os seus conhecimentos práticos, culto aos antepassados e magia, exprimiam um conhecimento sobre a sua realidade, os homens e a natureza.

Foi muito difícil para o homem moderno entender que podia aprender muito com as crenças e mitos do homem primitivo. Foi difícil perceber que, para entender como viviam, era preciso entender a fundo sua religião. Esta tarefa foi muito dificultada pelos países que exploravam os povos que viviam em uma organização social igualitária, seja na América, seja na África. Estes justificavam sua dominação, dizendo que todas as manifestações destes grupos eram selvagens, primitivos, ignorantes, incapazes de construírem por si só o seu caminho. Por outro lado, os pesquisadores e outros cientistas, que não aceitavam a dominação e exploração exercida contra estes grupos, na tentativa de denunciar os "civilizados" e mostrar que estes não passavam de exploradores, e que seu único interesse em relação a estas comunidades era utilizá-las para se enriquecer cada vez mais, acabavam por cair em outro extremo: analisavam a vida social e política destes grupos como sendo um verdadeiro paraíso! Sem problemas, conflitos ou injustiças, e que tudo de errado, que quebrava a harmonia perfeita dos povos primitivos, tinha sido trazido pelo invasor.

Ora, jamais existiu uma sociedade assim, sem conflitos!

É importante lembrar que se, por um lado, as crenças representavam conhecimentos sobre a realidade que permitiam ao homem relacionar-se com a natureza e entre, por outro lado, algumas crenças e ritos, por estarem ligados a contradições sociais profundas, ou a alguns fenômenos naturais que atemorizavam aos homens, ao invés de permitir que o homem cada vez mais ultrapassasse os desafios que surgiam, o impediam, colocando regras respeitadas muitas vezes pelo medo, que o homem aceitava sem jamais questioná-las.

Os mitos e crenças de que falamos, são formas que o homem primitivo encontrou para explicar, regular e manter o seu mundo. O mundo do homem primitivo. Neste tipo de sociedade, onde não há a exploração do homem pelo homem, e a divisão do trabalho está pouco desenvolvida, as explicações que os homens fazem do seu mundo estão ligadas à sua vida. Não há separação entre o trabalho e a cultura, o trabalho e o prazer etc. Mas todos os homens procuram explicar o mundo em que vivem. E a maneira pela qual constroem esta explicação vai variar de época para época. As ideias que os homens produzem, as explicações do mundo que elaboram, estão ligadas à sua atividade material, à sua maneira pela qual o homem se organiza para sobreviver na sua relação com outros homens.

Com o surgimento da sociedade de classes, e a divisão entre os que produzem e os que não produzem, a unidade entre o pensar/saber e fazer vai aos poucos desaparecendo.

"A produção de ideias, de representações e da consciência está em primeiro lugar, direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real".

"As ideias da classe dominante são ideias dominantes em cada época; em outros termos, a classe que exerce o poder material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe com isso, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual".

A classe dominante tem de "representar" os seus interesses como os interesses de todos os membros da sociedade - tem de dar às suas ideias a forma de universalidade e representá-las como as únicas racionais e válidas.

Às ideias, à moral, à religião, aos costumes etc chamamos de ideologia.

A ideologia faz com que as ideias expliquem as relações sociais e políticas, tornando impossível perceber que tais ideias só são explicáveis pela própria forma de sociedade e da política.

BARBOSA, Leila Maria Alvarenga; MANGABEIRA, Wilma Colonia. A incrível história dos homens e suas relações sociais. Petrópolis: Vozes, 1989. p. 52-5.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Os índios da América do Norte

Os Natchez, Eugène Delacroix

[...] Os índios estavam divididos. Havia 56 grupos linguísticos por vezes com numerosos dialetos [...]. Sioux, Algonquinos são nomes que recobrem uma multidão de tribos, falando línguas aparentadas, mas de gêneros de vida às vezes muito diferentes e que, amiúde, moviam guerras atrozes e prolongadas umas contra as outras.

Havia confederações, como a de Powhatan, na atual Virgínia, ou a dos Creeks, que se estendiam desde o baixo Mississípi até a Flórida oriental. [...] A mais poderosa era a liga dos Iroqueses. Um conselho de 50 sachens, eleitos pelas tribos, tomava as decisões. Exigia-se a unanimidade e cada tribo dispunha de um voto. Dois chefes de guerra de igual categoria comandavam os guerreiros. O Conselho não tinha possibilidade alguma de impor-se às tribos. [...]


Índios Tchaktas matachez, 1732. Alexandre de Batz

A unidade é a tribo. Esta possui um Conselho composto de chefes de clãs ou de chefes de bandos, mas não de poder executivo de suas decisões. A tribo é, efetivamente, uma espécie de federação, federação de clãs a leste, de bandos a oeste, em que os indivíduos gozam de muita independência. Cada clã pode partir sozinho para a guerra, cada guerreiro pode recrutar companheiros e lançar-se à uma expedição, mesmo se a tribo concluiu um tratado de paz. O estado de guerra, assim, é perpétuo [...].

[...] Na Califórnia e nos planaltos vizinhos viviam índios caçadores e coletores de frutos e raízes, munidos de arcos e flechas [...] e que conheciam a arte de fazer fogo pela rotação rápida de um pedaço de madeira dura num pedaço de madeira mole. Ao norte, nos planaltos e nas montanhas do que é atualmente o Oregon, as tribos, embora não negligenciassem a caça e a coleta, viviam principalmente da pesca do salmão.


Caça ao búfalo, Lavene Nelson Black

Nas planícies a oeste do Mississípi, viviam os caçadores, entre os quais predominavam os Sioux. Era particularmente visado o bisonte, A carne do bisonte, cortada em nacos, seca ao sol e misturada à gordura, fornecia o pemicã. Os ossos e os chifres eram a matéria-prima para as armas e instrumentos. Do couro, os índios retiravam seus utensílios domésticos, suas vestes, suas tendas cônicas, muito pontudas, montadas sobre uma armação de longas varas. As tribos deslocavam-se continuamente, segundo os rebanhos, mas cada uma permanecia sempre num determinado território de percurso.


Vista de Chimney Rock com vila Sioux em primeiro plano, Albert Bierstad

Na orla das planícies, na direção do Mississípi e dos grandes lagos, nos confins da floresta, os habitantes combinavam a caça ao bisonte com a cultura do milho. Viviam nas tendas e deslocavam-se nas estações de caça, na primavera e no outono. No inverno para se abrigarem, no verão para a colheita do milho, regressavam às suas aldeias permanentes.

[...]

No mar das florestas que cobria a parte oriental da América do Norte, a cultura do milho, proveniente da América Central, desempenhava um papel essencial. As aldeias eram estabelecimentos permanentes, cercados de paliçadas, constituídas de casas de madeira. Cada aldeia tinha seus campos cultivados. Os frutos, nozes, ameixas [...], eram apreciáveis complementos alimentares. [...] O cobre do Lago Superior começa a ser empregado, mas modelado tal como sai da mina, com o auxílio de martelo de pedra. [...] Regularmente, em épocas determinadas, os homens partiam para as grandes caçadas. As mulheres acompanhavam-nos, levando nas costas os utensílios de cozinha e o material das tendas. O gamo e o cabrito montês forneciam a carne e o couro para o vestuário e as mocassinas. Os animais de pele proporcionavam os trajes de inverno. Cada tribo tinha o território de caça indispensável à sua vida e que constituía o prêmio de guerras ferozes. [...]


Índio com pote de cerâmica, ca. 1915. Gerald Cassidy

Todos estes índios encontravam-se ainda no primeiro estágio do pensamento humano. Para eles o mundo era uma imensa magia, onde tudo, em princípio, podia agir sobre tudo, mediante semelhanças e contatos misteriosos. Havia comunhão, participação de todos os objetos em forças misteriosas, esparsas no universo, imperceptíveis aos sentidos e, não obstante, reais. [...] Antes de caçar, os Sioux entregavam-se à "dança do urso". Os dançarinos imitavam exatamente o urso, dirigiam-se através de cânticos ao espírito do urso, para torná-lo favorável ao seu empreendimento. Os caçadores jejuavam antes de partir, abstinham-se de relações sexuais, purificavam-se, ornavam-se de pinturas especiais, invocavam os manes dos animais mortos nas caçadas precedentes. Assim, pensavam criar entre eles e os espíritos dos ursos um laço mítico, devendo os animais, por conseguinte, apresentar-se e oferecer-se aos golpes. Os índios consideravam sua alimentação como um presente voluntário dos espíritos dos animais e vegetais. Noutros casos os dançarinos representavam a morte do animal acuado. Revestindo a pele e a máscara do animal, o dançarino fatigado era ferido com uma flecha sem ponta e tombava, imitando a presa. Então, era retirado do círculo. Sobre seu corpo, um caçador representava o corte e o trinchamento. [...] Tais práticas eram consideradas mais importantes do que a perseguição efetiva. Após a caçada, atos rituais deviam impedir a vingança do animal e do espírito de sua espécie. [...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 77-80. [História geral das civilizações, v. 10]

sábado, 11 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os polinésios

Um retrato de Heeni Hirini (também conhecido como Ana Rupene) e a criança, Gottfried Lindauer

[...] Ramo secundário dos europóides, com elementos mongolóides e negróides, eram de estatura elevada, com facies europeu, nariz fino, cabeleira lisa, tez morena, com a vista e o ouvido mais aguçados do que os europeus mas com olfato e gosto diferentes.

Navegadores incomparáveis, eram capazes de percorrer, sem escala, 2.500 quilômetros. Sabiam calcular a posição utilizando cabaças nas quais praticavam orifícios. Nas Samoas e no arquipélago Tonga, as pirogas duplas, com 30 metros de comprimento, chegavam a levar 140 remadores. Cada ilha possuía uma frota. Cook contou 220 unidades em Taiti, cuja população, segundo cálculos, atingia 200.000 habitantes.

Um retrato do Sr. Paramena, Gottfried Lindauer.

Os utensílios de que dispunham pertenciam à idade da pedra polida mas os seus objetos, principalmente os dos Maoris da Noza Zelândia, imitavam, segundo parece, os de metal. Seus antepassados haviam conhecido, ao que se julga, o metal e a cerâmica. Em todo o caso, estas artes haviam sido esquecidas, na Polinésia, quando os europeus chegaram, e é certo que os seus utensílios já haviam sido melhores, antes do século XVIII.

Seu vestuário era de Phormium tenax (linho) na Nova Zelândia. Entretanto, nas ilhas quentes haviam abandonado o tear de seus antepassados pelo trabalho com cascas de árvores, de que faziam saias enfeitadas com galões e triângulos. Usavam plumas brilhantes, folhas lanceoladas e finas tatuagens.

Um retrato da Sra. Paramena, Gottfried Landauer

Suas casas tinham como base plataformas de pedra, cobertas de esteiras. Nas Ilhas Marquesas atingiam um comprimento entre 20 a 100 metros, e tinham mosquiteiros e travesseiros de bambu. Os maoris possuíam fortes que podiam conter vários milhares de pessoas, com fossos, parapeito, paliçadas e plataformas mais elevadas para os defensores.

Estes povos encontravam-se no estágio da grande família de várias centenas de pessoas análogas à gens romana e aos genos gregos. A sociedade estava dividida em classes hierarquizadas, reis, nobres, homens livres e escravos. O rei, hereditário em linha masculina, por ordem de primogenitura, era uma encarnação da divindade e, por conseqüência, sagrada. Os nobres possuíam feudos e dominavam as assembléias deliberativas. Dispunham de toda a terra. Suas ossadas eram depositadas nos lugares sagrados e só eles tinham direito à sobrevivência. Escolhiam chefes locais que decidiam, com poder absoluto, sobre todas as empresas comuns e que eram substituídos se demonstravam indecisão ou má capacidade de julgamento. Os homens, teoricamente livres, eram, de fato, passíveis, segundo a vontade dos senhores, de talhas e corvéias.

Um retrato de Kewene Te Haho, Gottfried Landauer

A sua religião parecia conter elementos bramânicos, talvez persas ou babilônicos. Os maoris, por exemplo, acreditavam num Deus supremo, eterno, onipotente, justo, que habitava no duodécimo céu. Mas era tão sagrado que a maioria dos maoris morria sem saber que esta parte da sua religião existia. Tinham depois, todos, um panteão de grandes deuses do céu e de deuses locais, das florestas, das colheitas, da guerra, do mar, do mal, com toda uma mitologia explicativa do universo. Adoravam, além disso, uma multidão de espíritos espalhados por toda a natureza e os espíritos dos antepassados. A classe sacerdotal, recrutada entre os nobres, conservava as narrativas míticas e presidia às cerimônias, que compreendiam sacrifícios humanos. A Ilha Caiatia era a sede de sacrifícios comuns a toda a Polinésia. Empregava-se a magia. A religião provocara o aparecimento de uma poesia de grande beleza e de uma escultura de valor que muitas vezes visava apenas proporcionar prazer.

Um retrato de Taraia Ngakuti Te Tumuhia, Gottfried Lindauer

Havia continuamente guerras entre estes povos. As aldeias e as plantações eram incendiadas; comiam-se os vencidos, sendo o coração reservado aos chefes.

[...]

Nos séculos seguintes, em contato com os europeus, os oceaninos declinaram muito.

MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 377-379. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os polinésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios

Tohunga sendo alimentado no tapu (sagrado/proibido), Gottfried Lindauer. 

Os melanésios encontravam-se num estágio de civilização que recordava o período neolítico adiantado. Fisicamente mais evoluídos, de barba rala, o nariz mais reto, as arcadas supraciliares raramente proeminentes, usavam enfeites mais rebuscados: tatuagens para as mulheres, pinturas no corpo para os homens, deformação da cabeça ou da cintura, descoloração dos cabelos, ou pintura com ocre, colares e braceletes feitos de dentes e de conchas, plumas ou flores nos cabelos.

Seus utensílios eram mais aperfeiçoados: achas de pedra polida, facas de conchas, limas em pele de raia, sovelas de ouro, armas variadas, compreendendo arcos e fundas. Eram principalmente excelentes marinheiros que sabiam construir e dirigir grandes pirogas e também hábeis agricultores que, com um simples pau para revolver a terra, cultivavam inhame e taro. Conheciam o sistema monetário, baseado em plumas ou em dentes, eram ávidos de lucro e alguns faziam belas fortunas, emprestando a um juro de 100%.

Sua sociedade era matriarcal. Eram os tios quem mandavam nos filhos da irmã. Os homens comiam e dormiam numa espécie de clube da aldeia e os dois sexos viviam quase sempre separados. O casamento fazia-se por compra e os ricos eram polígamos.

O Estado político era democrático, mas as sociedades secretas desempenhavam grande papel e nestas só os ricos, que podiam despender grandes somas e dar festas, ascendiam aos graus superiores. Estas sociedades aterrorizavam os não-iniciados por meio de agressões, multas e até a morte.

Suas crenças religiosas eram vivas, embora, ao mesmo tempo, de um nível inferior às dos outros povos precedentes, menos civilizados. Acreditavam no mana, virtude sobrenatural transmissível. Um bom pescador possuía o mana. Para triunfar em qualquer coisa era preciso mana, e este podia conseguir-se através da magia. Algumas formas de mana eram perigosas. Nessa altura o tabu (interdição) era lançado sobre as pessoas, os objetos ou os lugares que o possuíam. Todos eram animistas, isto é, acreditavam na existência de espíritos difundidos nas pedras, nas árvores, nas serpentes, em toda parte. Mas não se elevavam ao politeísmo; acreditavam na sobrevivência dos espíritos dos mortos. Entregavam-se a preces, sacrifícios, cantos ritmados e talhavam na madeira a figura do antepassado que participaria na vida de seus descendentes.

Os micronésios assemelhavam-se-lhes muito, embora num grau um pouco mais elevado. Navegadores notáveis, os seus comerciantes realizavam longas viagens em pirogas de balancim, servindo-se de mapas feitos de canos de bambu. Tinham uma nobreza e servos. Os navegadores mais peritos eram recompensados com a concessão de feudos. Certas ilhas haviam atingido o politeísmo e possuíam um rico panteão, dominado por um Deus.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 376-377 (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 4 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os australianos

Pōtatau Te Wherowhero, chefe Waikato, Giles e Merrett

Os australianos, que pertenciam a um nível um pouco superior, raça formada por uma mistura de elementos europóides e negróides, encontravam-se no estádio paleolítico europeu do Moustier. De pele morena, ou cor de chocolate, com o corpo coberto de pêlos, as arcadas supraciliares enormes, a testa deprimida e fugidia, os maxilares salientes, a boca grossa, o nariz largo, tinham um cérebro nitidamente inferior em peso e desenvolvimento ao dos brancos.

Vestidos sumariamente, sabiam, entretanto, construir cabanas de ramos, fazer fogo por meio da rotação rápida de um furador numa tábua. Dispunham de armas de pedra, desde o coup-de-poing lascado do Moustier com a lança neolítica, a azagaia e o famoso boomerang, mas ignoravam o arco e a flecha, assim como a cerâmica, aliás. Viviam da coleta e principalmente da caça: caracóis, ameijoas de água doce, lagartas, aves, cangurus, lagartos, opossuns e uma espécie de avestruz, a ema. Aliás, sabiam obrigar um canguru a correr e descobrir a pista da caça, farejando a terra.

A sua organização social era mais elevada. A tribo tinha chefes permanentes, os anciãos; dividia-se em grupos, com a regra imperiosa do casamento fora do grupo; possuía territórios de percurso distinto das outras tribos; havia, portanto, um direito internacional.

As concepções religiosas eram desenvolvidas. A crença na sobrevivência da alma era geral. Os espíritos dos mortos podiam reencarnar-se: os primeiros europeus, seres que saíram do mar, de pele pálida, olhos brilhantes (por causa do desenvolvimento maior do sistema nervoso), encheram os australianos de um terror físico e foram tomados por fantasmas. Os australianos prestavam regularmente honras fúnebres aos mortos. Algumas tribos até comiam os cadáveres para assimilarem o seu princípio vital. Todas possuíam o seu totem, ou antepassado comum, cujos descendentes celebravam fraternalmente cerimônias mágicas. Alguns concebiam um deus imortal que subira ao céu depois de ter vivido na terra e ao qual os iniciados iam juntar-se, quando morriam. Todos conheciam a magia. Os jovens ficavam aptos a casar-se e a exercer funções sociais mediante uma iniciação complicada que compreendia a extração de um incisivo superior, a circuncisão, apresentação de desenhos e narrativas míticas mantidas em segredo para as mulheres.

Os outros povos encontravam-se em níveis nitidamente superiores. Se excetuarmos os papuas, de nariz adunco, de ponta grossa em forma de bico e que pareciam uma raça pura, julga-se, hoje, pelo estudo das línguas e de certos hábitos materiais, como a piroga da balancim, que todos estes povos, apesar das suas diferenças, participavam da mesma cultura oceânica e tinham todos a mesma origem. Seriam provindos da Malásia, donde se teriam espalhado para leste, por todo o Pacífico e talvez até a América, a oeste de Camboja para Ceilão, Madagáscar (Hovas), assim como pela costa leste da África. As migrações desses povos teriam começado entre os séculos II e V d.C., atingindo o apogeu entre 900 e 1350. Seguidamente, verificou-se o declínio dessas populações, assim como de suas aptidões para a navegação.

MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 375-376. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os australianos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Art rock made in África

"Arte rupestre da África é a herança comum de todos os africanos, mas é mais do que isso. É patrimônio comum da humanidade. "

Nelson Mandela


A pintura rupestre do continente africano constitui um valioso testemunho da mentalidade mágica dos povos pré-históricos. Suas representações transcendiam objetivos artísticos, cumprindo, primordialmente, um conjunto de funções mágicas de finalidade pragmática: a perpetuação da existência de caça abundante, o alcance do êxito nas guerras e a preservação da capacidade de reprodução da espécie humana. Seu estudo permitiu a reconstituição histórica da vida de povos caçadores, pastores e de civilizações que já haviam adotado a utilização da roda.

As sociedades africanas tradicionais assentavam-se sobre categorias de sexo, idade, relações de parentesco. As divisões baseadas no sexo abrangiam as tarefas e funções de grupo social, manifestando-se já no ritual de iniciação dos jovens e na participação em sociedades distintas e exclusivas. Em geral, cabia às mulheres a tarefa de cultivar a terra, o que as tornava responsáveis pela sobrevivência do grupo, tanto ao nível de subsistência imediata - assegurando a alimentação - como a longo prazo, pela reprodução da espécie. Aos homens pertencia o monopólio das relações com o sagrado e, portanto, a exclusividade das decisões que diziam respeito à coletividade.

Outro elemento regulador da sociedade africana tradicional foi a idade. As gerações apresentavam relações de dominação/subordinação, com preeminência dos mais velhos. Os anciãos possuíam grande prestígio. Existiam também classes de idade: a dos meninos, formada a cada sete anos na época da iniciação sexual; outra reunia os guerreiros solteiros, que só poderiam se casar quando atingissem a terceira classe de idade, por volta dos trinta anos. Todos esses grupos rigidamente estruturados, asseguravam o cumprimento das funções sociais mais significativas segundo as categorias de idade. A passagem de uma classe para outra exigia uma formação complementar, coroada pela realização de um cerimonial específico.

Quando o exercício do poder político é regulado por cerimônias e ritos, o fato geralmente provoca uma ativa criação artística. Tal pressuposto encontra confirmação na África, onde os mais importantes centros de manifestação artística desenvolveram-se junto aos grandes grupos tribais e reinos mais importantes: África ocidental e África central. O domínio do sagrado constitui também ambiente propício às manifestações artísticas. As representações dos ancestrais, os objetos e as máscaras utilizadas pelos membros de associações o atestam. A vida religiosa, assim como as práticas mágicas, é particularmente rica em símbolos materiais e rituais que estabelecem a relação com o sagrado.

Entre os povos primitivos é praticamente inexistente a distância entre o mundo da objetividade e o da subjetividade. Inserido em um ambiente do qual depende de maneira absoluta, o homem primitivo atribui à natureza uma força muito maior do que a sua. As doenças, a morte, os insucessos na caça ou na agricultura, a fome, a seca são acontecimentos que, a um tempo, o desafiam e o submetem. Ser pensante, o homem busca explicar, em termos religiosos, essa força que o domina. Nesse processo de adaptação entre o homem e a natureza, a realidade e a fantasia são fundidas, resultando no aparecimento dos elementos mais conhecidos das religiões primitivas: o culto aos antepassados, as práticas mágicas, o mundo dos espíritos, o animismo e o totemismo.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 31-35. Volume III.

Galeria de imagens:

Homem com arco e flecha e cão. Argélia

Gatos em combate. Líbia

Girafa e homens. Namíbia

Figura com atributos masculinos e femininos. África do Sul

Homens e girafas. Zimbábue

Cavalo e homem armado. Mauritânia

Guerreiro e girafas. Argélia

Tchitundu Hulu. Angola

Detalhe de duas pessoas copulando. Argélia

Mulher e cão. Malawi

Inscrição geométrica. Uganda

Homem lançando lança. Argélia

Figuras brancas com as mãos nos quadris. Tanzânia

Antílope. Marrocos

Homens e animais. Zimbábue

Rinocerontes. Botswana

Homem com arco. Argélia

Quatro homens correndo com equipamentos sobre os ombros. África do Sul

Vaca e animal simbólico. Somália

Camelo. Sudão

Crocodilo. Líbia

Dois homens nus com o pênis ereto. África do Sul

Guerreiro montado em cavalo. Chade

Leão, dois guerreiros com lanças e montados em cavalos. Abaixo, cães, uma mulher e um guerreiro. Nigéria

Arte rupestre. Mali

Homem sentado com as pernas cruzadas. Argélia

Camelo branco montado por guerreiro. Chade

Homem e vaca. Egito

Inscrição rupestre. Gabão

Vacas e bezerros. Etiópia

Elefante, homens e girafas. Quênia

Guerreiro. Nigéria

NOTA: O texto "Art rock made in África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico/antropológico.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A relação Mito-História

Júpiter e Tétis, Ingres

Você conhece a Mitologia grega?

E sabe o que é um mito?


O Homem, no seu enfrentamento diário com a Natureza e com os outros homens, tem necessidade de compreender os fenômenos que ocorrem à sua volta: sua atuação, tanto do ponto de vista individual quanto social, exige um conhecimento do mundo que o rodeia. Não sabemos quando, onde, como e por quem foi lançada pela primeira vez a pergunta por quê? No entanto, podemos constatar que os homens sempre procuraram respondê-la, isto é, sempre procuraram compreender os fenômenos.

Sabemos que, em contextos culturais mais primitivos, o Homem se vincula à vida através de uma percepção predominantemente sensorial. É extremamente dependente do meio ambiente: os problemas de sobrevivência lhe tomam todo o tempo; todo os seus sentidos e seu pensamento estão voltados para isso. E não poderia ser de outra forma. Por isso, o Homem primitivo apenas simboliza: criando um conjunto de símbolos para representar a realidade, ele dá respostas aos porquês; as magias, os totemismos, os mitos nada mais são do que uma expressão desse esforço de compreensão do mundo. Portanto, todo o grupo humano no seu enfrentamento com o mundo cria cultura, isto é, cria objetos, para satisfazer a suas necessidades físicas e materiais, e cria ideias, para satisfazer a suas necessidades intelectuais.

Então, o que você pode concluir?

Toda cultura tem sua forma de explicar a realidade. O que varia é a forma de apreensão dessa realidade, e isso depende das possibilidades de o Homem, em uma dada sociedade, com determinadas condições de vida, tomar consciência de si mesmo, de tudo que o cerca e de sua historicidade. Logo, o mito é uma explicação do mundo, fruto de uma apreensão sensorial-afetiva. É uma explicação que incorpora todos os fenômenos em um contexto transcendental, heróico, divino, mágico...

E, o que é mais importante: os mitos, as magias, os totemismos são explicações do mundo vividas e compartilhadas por todos os elementos de um grupo, em um estágio de comunidade primitiva onde o regime de propriedade é coletivo. Assim, a produção intelectual dessas sociedades significa um esforço de compreensão do mundo, cujo resultado é transmitido através de uma linguagem inteligível para todos no grupo... É, sem dúvida, um estágio de pensamento que ainda hoje convive conosco, mesmo nos grandes centros urbanos... Por quê?

Repare! Quando perguntamos se você conhece a Mitologia grega é porque ela representa um primeiro estágio de explicação do mundo dentro da nossa cultura. Estágio que, longe de ser superado, sobrevive simultaneamente com explicações presididas pelo logos, isto é, por uma apreensão racional.

Ora, qual o significado de uma apreensão racional? Quais as condições necessárias ao seu surgimento?

Quando o grupo humano, vivendo sob o regime da comunidade primitiva, conseguiu, através de um aperfeiçoamento técnico, produzir um excedente econômico, criou condições para maior divisão do trabalho. Evidentemente, os elementos do grupo que passaram a ter por função o controle desse excedente econômico assumiram um poder de coação sobre os demais membros do grupo. Ora, essa minoria, cujo trabalho passou a se fundamentar em tarefas de organização e administração, sentiu a exigência de um maior nível de abstração da realidade, além da necessidade de escrever para registrar os dados importantes. Daí, compreendemos que a própria racionalização começava a ser mais uma forma de exercício do poder dessa minoria em relação aos demais membros do grupo, de vez que a linguagem utilizada para expressar os resultados de seus esforços de compreensão do mundo não mais era compartilhada por todos os membros do grupo.

Percebeu, então, quanto é importante para nós, homens do século XXI, procurarmos reviver todos esses momentos de nossa cultura?

Se desejamos realmente crescer como seres humanos, amadurecer emocional e intelectualmente, precisamos superar etapas. Mas isso só será possível quando a totalidade dos homens puder viver todos os níveis de abstração de sua cultura.

O ato de conhecer, que existe no Homem como essência mesmo - na medida em que sem o conhecimento do mundo não poderia sobreviver (sem conhecer as utilidades do fogo, por exemplo, ele não poderia usá-lo) - passou a ser considerado um saber que, se tornando atributo de alguns poucos "eleitos", fez surgir as figuras do sábio, do filósofo, do cientista... Aprofundou-se a hierarquia e a dicotomia entre os que sabiam e os que não sabiam. Na verdade, a dicotomia era entre os que possuíam e os que trabalhavam...

Agora, preste atenção! Voltemos ao termo "História". Evidentemente, a História não foge à análise que fizemos até aqui. A princípio, você pode imaginar, a História esteve associada às lendas e aos mitos, revividos por todos os elementos do grupo através de rituais. Era a forma de o grupo manter viva na lembrança de todos a História - as tradições culturais transmitidas oralmente. Aos poucos, no entanto, foi-se tornando um saber: a vida vivida por todos a ser revivida por alguns através da palavra escrita. E o saber histórico, isto é, a forma de conhecimento da realidade, assumida como ofício por alguns elementos da nossa cultura, é, aqui, o objeto de nossas preocupações.

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AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 39-41.