"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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domingo, 20 de novembro de 2016

"Mais doce que o amor das mulheres"

Talvez a narração mais popular do Antigo Testamento seja a história de David e Golias, o triunfo do pequeno pastor sobre o aguerrido gigante filisteu que definiu a vitória de Israel na batalha de Terebinto. Segundo conta o Livro de Samuel, depois desta façanha, o rei Saul cumulou David de honras e convidou-o a residir no palácio. Ali, o heróico pastor e o filho primogénito do monarca estabeleceram uma íntima relação de adolescentes, que o autor bíblico anuncia sem pudor no título do capítulo 18 como "Amizade mais do que fraternal" entre David e Jónatas. E diz assim na Bíblia...

"Jónatas fez um pacto com David, porque o amava com toda a sua alma e tirou o manto que levava, e deu-o a David, assim como os seus arreios militares, o seu arco, a sua espada e o seu cinturão. David ia combater onde Saul o enviava e saía-se sempre bem." 
(1 Samuel 18: 4-5)

Os êxitos do novo capitão começaram a provocar os receios de Saul, que invejava os aplausos com que o povo aclamava David, o qual, além disso, se tinha relacionado sexualmente com o filho e brilhava em todas as batalhas como um autêntico protegido de Javé. Claro que nada era mais doloroso do que sentir-se postergado no favor do Deus de Israel. Claro que Jónatas não partilhava a opinião do pai e, sempre que podia, atirava-lhe à cara o seu ressentimento para com o belo e glorioso oficial. Porém, Saul devia ser um homem difícil e várias vezes chegou a ameaçar de morte David com a sua lança. Nessas ocasiões, o jovem tangia a harpa, imperturbável, e tocava doces melodias que acalmavam a fúria do monarca.

Saul chegou a convencer-se que David estava protegido por Javé e não se atrevia a intervir pessoalmente. Urdiu então o truque de oferecer-lhe em casamento a sua filha mais velha, Merob, para quem sendo genro do rei, pudesse comandar o exército de Israel. "Não lhe quero pôr as mãos", dizia segundo a Bíblia, "que o matem as dos Filisteus." Mas David, que pressentiu, respondeu-lhe humildemente: "Quem sou eu e o que é a minha vida ou a casa de meu pai, para que eu me torne genro do rei?" Se essa resposta provocou um suspiro de alívio no coração de Jónatas, foi porque não contava com a teimosia de seu pai. Merob acabou por se casar com outro, enquanto Saul voltava à carga oferecendo a David a mão da sua segunda filha, a princesa Micol, que, segundo parece, estava profundamente apaixonada pelo nosso herói. Então, este respondeu aos mensageiros do rei: "Parece-vos coisa fácil ser genro de rei? Eu não preciso de nada e tenho poucos bens", desculpava-se por não ter dote para oferecer à princesa. Mas também não teve em conta a persistência de Saul.

David com a cabeça de Golias e dois soldados, Valentin de Boulogne. Depois de derrotar o gigantesco Golias, o jovem David viveu um intenso romance com Jónatas, filho do rei Saul.

Sempre através de emissários, o rei fez saber a David que um herói como ele não precisava de outro dote além da prova do seu valor; por exemplo, os prepúcios de cem filisteus abatidos em combate. O texto bíblico conta assim a reacção de David: "Quando os servos disseram a David as palavras que Saul tinha dito, agradou-lhe aquela condição para ser genro do rei. E David saiu com os que estavam sob o seu comando e matou cem filisteus, tirou-lhes os prepúcios e entregou-os ao rei (1 Samuel, 18: 26-27). Não é explicado qual foi o destino do tão extravagante dote de Micol, mas o casamento desta com David não acalmou a paixão de Jónatas nem o ódio de seu pai pelo novo príncipe de Israel: "Temia-o Saul cada vez mais e toda a sua vida foi inimigo de David". Pouco depois, o monarca decidiu cortar o mal pela raiz e encarregar-se de uma vez por todas do seu genro, mas Jónatas convenceu-o a não o fazer, enquanto prevenia David, que se foi refugiar em casa de Samuel.

O resto do primeiro livro de Samuel é um enorme e animado relato das peripécias do jovem David, constantemente ameaçado e perseguido pelo seu temível sogro. Contando também sempre com a amizade "mais que fraterna" de Jónatas. Quando Saul o foi buscar a casa de Samuel em Naiote de Ramá, David foge e vai encontrar-se com o seu amigo:

"Que crime cometi eu contra o teu pai, para que me persiga até à morte?
- Não, não será assim, não morrerás. O meu pai esconder-me-ia isso? Se não me esconde nada, nem grande nem pequeno, tudo me dá sempre a saber. Por que haveria de me ocultar isto? Isso não é verdade.
- O teu pai sabe muito bem que me amas e deve ter dito: que Jónatas não fique a saber para não sofrer, mas, por Deus e pela tua vida, estou a um passo da morte." 
(Samuel, 20: 1-3)

Jónatas mostrou-se convencido com o argumento de David e, com medo de perder o seu amado, estabeleceu com ele o pacto de o manter sempre informado das intenções de seu pai. No dia seguinte, cumpriu pela primeira vez esse compromisso, salvando David de uma armadilha organizada por Saul e despediu-se do amigo com estas palavras: "Vai em paz, já que jurámos um ao outro, em nome de Javém que ele estará entre ti e mim e entre a minha e a tua descendência para sempre."

Pouco depois, David visitou o sumo sacerdote Ajimelec, no templo de Nob, a quem pediu comida e armas para se defender. Ajimelec ofereceu-lhe alojamento e entregou-lhe a espada que Golias tinha utilizado no célebre combate do vale de Terebinto. Avisaram-nos então que o rei se aproximava com as suas hostes, mas David conseguiu escapar a tempo. Saul consolou-se da sua frustração degolando o sumo sacerdote e todos os servidores do templo.

Além de excluir David da corte, Saul obrigou Micol a casar-se com outro homem, um tal Palti de Galim, de quem não existem quaisquer outros registros. É provável que Jónatas tivesse ficado feliz com aquela separação forçada, porque dadas as circunstâncias, já há muito tempo que não o via. Porém, David rapidamente esqueceu aquela perda e casou com duas mulheres em vez de uma: a bela Abigail de Nabal e Ajinoim de Jezrael. O fugitivo e os seus homens vagueavam por todo o território de Israel e de Judá, escapando ao seu infatigável perseguidor. Por duas vezes, David teve a vida de Saul nas suas mãos e de ambas as vezes impediu que os seus homens matassem o rei, por este ser "o ungido de Deus" (talvez tenha tido em conta que se tratava do pai do seu amigo). Mas os Filisteus não se preocupavam com essas coisas e, depois de derrotarem os Hebreus na batalha do monte Gelboé, executaram Jónatas e os seus dois irmãos. Quando se dispunham a fazer o mesmo com Saul, este matou-se, lançando-se sobre a lâmina da sua espada.

Quando soube da morte de Saul e de Jónatas, David cantou uma bela elegia em homenagem aos ilustres defuntos, cujos últimos versos dizem assim:

"Como sofro por ti, Jónatas, meu irmão!
Como eu te queria bem!
Para mim, o teu amor era muito doce,
Mais do que o amor das mulheres!" 
(2 Samuel: 26)

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 80-84.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Robin Hood: a rainha dos bosques de Sherwood

João Pequeno e Robin Hood, Frank Godwin

É Primavera nos bosques de Sherwood. As aves cantam e esquilos correm pelos ramos das velhas árvores. Pelo caminho aberto na floresta avança o anafado frei Tuck desfrutando o ar puro e o sol quente que espreita pela alta ramagem. De repente, ouvem-se alegres risadas e gemidos que vêm duma moita próxima. O frade levanta um pouco o seu hábito, avança em bicos dos pés e, com um gesto rápido, afasta os arbustos, que descobrem um par de robustos arqueiros regozijando-se com as calças pelos tornozelos. Robin dos Bosques e João Pequeno, literalmente surpreendidos, interrompem o seu jogo e olham frei Tuck com cara de caso.

"Então rapazes! - o clérigo repreende-os carinhosamente. - Deixem de travessuras, que daqui a bocado não têm força para puxar o arco..."

A cena anterior é imaginária, mas o cenário e as personagens pertencem à conhecida lenda inglesa de Robin dos Bosques. E até pode ser credível a circunstância narrada, de acordo com os últimos documentos encontrados sobre a figura e as façanhas do pitoresco herói. Como todos lemos em criança ou vimos nos inúmeros filmes dedicados às suas aventuras, Robin dos Bosques era um jovem nobre da Inglaterra do século XII, corajoso protector dos desprotegidos, leal súbdito do nosso conhecido Ricardo Coração de Leão e ardente amante de uma jovem chamada maid (donzela) Mariana. Sabemos já que, quando o rei teve de partir para a Terceira Cruzada, ficou como regente o seu irmão João Sem Terra que, por necessidade da lenda, é pintado como um tirano cruel sem escrúpulos, opressor do povo e presumível usurpador do trono. Robin refugia-se no bosque de Sherwood com um punhado de arqueiros determinados a dedicar-se a atacar os odiados cobradores de impostos, a roubar os ricos para dar aos pobres, a expor ao ridículo João e a seduzir a bela Mariana com as suas proezas. Em suma, um puro protótipo de líder viril, modelo de galã fantasiado por muitas gerações de jovens românticas.

Já se disse que os historiadores britânicos gostam de demolir mitos da sua própria história, sobretudo quando a derrocada é consequência de assuntos menos santos, que escandalizam o seu rígido establishment. Robin dos Bosques teve o azar de cair nas mãos de Stephen Knight, professor de história da literatura na Universidade de Cardiff. Este senhor realizou um profundo estudo das antigas canções e narrativas sobre o popular arqueiro emplumado e chegou à conclusão que a este interessavam muito mais os músculos atraentes dos seus companheiros João Pequeno ou Will Scarlet, que os encantos femininos da donzela Mariana. ão inquietante afirmação, expressada recentemente numa douta e controversa conferência do autor na Universidade de Glamergan é apoiada por várias baladas do século XIV, primeiros registros escritos da história de Robin dos Bosques. Encontrou versos tão sugestivos como estes:

"Tinha Robin dos Bosques cerca de vinte anos
Quando conheceu João Pequeno;
Um agradável companheiro de viagem
Porque era um jovem alegre e robusto."

A balada não diz expressamente que ambos os jovens eram homossexuais, mas Knight vê nesses documentos claros indícios e ressonâncias homossexuais. "Robin dos Bosques e os seus companheiros viviam isolados numa comunidade exclusivamente masculina, sem participação feminina", explica o estudioso. "A balada contém abundante simbologia erótica e, se não chega a dizer abertamente que o herói era gay, deve-se ao clima moral da época." Segundo Knight, as árvores do bosque são um evidente símbolo fálico, assim como as flechas e as espadas. A isto poderíamos juntar a famosa cena em que João Pequeno e frei Tuck lutam empunhando compridas varas rígidas, em equilíbrio sobre... um grosso tronco que atravessa o rio!

Há também outros aspectos da lenda de Robin dos Bosques que Knight contradiz, baseando-se nas mesmas baladas. Descobriu, por exemplo, que a personagem não tinha origem na nobreza, mas em estratos sociais bastante mais baixos. Filho de um simples alabardeiro de origem campesina, o jovem Robin vagueava pelos bosques de Nottingham e do condado de Yorkshire, comandando uma pandilha de bandoleiros que assaltavam quem se arriscasse a passar por ali. Nunca lhe passou pela cabeça repartir os seus despojos de guerrilha com os pobres, embora tenha ficado famoso pela astúcia e truques para enganar a autoridade.

Tão-pouco parece ser certo que Robin utilizasse a sua astúcia para visitar às escondidas a donzela Mariana, porque nem essa nem qualquer outra donzela são mencionadas nessas fontes como eventuais noivas do herói. Knight sugere que esta personagem feminina foi adicionada no século XVI para dotar a lenda de romantismo heterossexual. O investigador também questiona a relação histórica entre o arqueiro e os reis Ricardo e João, já que se situa a existência de Robin dos Bosques entre um e dois séculos mais tarde. O seu colega Barry Dobson, professor de história medieval em Cambridge, concorda com Knight acerca de as baladas revelarem um Robin dos Bosques pelo menos ambíguo e acrescenta que entre os séculos XII e XIII se fez sentir em Inglaterra maior opressão sobre os homossexuais, muitos dos quais passaram a viver fora da lei em bandos clandestinos.

Apesar de tudo, os investigadores revisionistas não questionaram a existência do ladrão dos bosques, embora assinalem que as baladas sobre as suas aventuras foram enriquecidas por histórias aproveitadas de outras personagens semelhantes ou da própria imaginação dos trovadores, como no caso da inexistente donzela Mariana.

As afirmações de Knight e Dobson não foram muito bem recebidas por quem está actualmente relacionado com a personagem. A secretária da Robin Hood Society, Mary Chamberlain, acusou os investigadores de prejudicarem uma figura admirada em todo o mundo. "As crianças adoram brincar ao Robin dos Bosques", manifestou, "e essas declarações podem provocar muito dano".

Por sua partem o dirigente gay Peter Tatchell afirmou que Robin dos Bosques já estava há demasiado tempo "no armário". "Já é altura", disse, "de as lições escolares reconhecerem a contribuição dos homossexuais na história."

Ainda que o senhor Tatchell tenha muita razão, a contribuição de Robin dos Bosques para a história, independentemente de ser gay ou não, parece discutível. Se João Sem Terra não chegou a usurpar o trono, não foi por causa dos bandos de ladrões dos bosques, mas do ineficaz apoio de Filipe Augusto, da negação do imperador alemão em exigir a abdicação de Ricardo e de outras circunstâncias, entre elas a atitude decidida da rainha-mãe.

O certo é que, se a virilidade de Robin dos Bosques tivesse sido colocada em causa desde o início, esta personagem não teria protagonizado a lenda folclórica inglesa mais emblemática depois da saga de Artur nem reforçado a mítica aura de Ricardo Coração de Leão. Ambos são duas faces, uma guerreira e outra galante, da tradição nacionalista britânica. Esse sentimento de superioridade foi fundamental para justificar a impunidade que se outorgou a si mesma a "pérfida Albion" nas suas correrias e rapinas por todo o mundo.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 110-114.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: amigos para sempre (Parte 3)

Funeral de Alexandre. Artista desconhecido

Nenhum destes episódios, nem outros que se sucederam durante os onze anos que durou a epopeia de Alexandre, conseguiram separar aqueles dois homens que tinham crescido e brincado juntos no palácio real da Macedônia. Heféstion continuou sempre a acompanhar o seu amigo, foi padrinho do casamento com Roxana, aconselhou-o o melhor que pôde e participou nas gloriosas batalhas, mas sempre vigiado por um chefe mais capaz. Esta posição de privilégio provocou muitas vezes a inveja e o ressentimento de pessoas próximas de Alexandre, como era o caso do excelente general Crátero, com quem Heféstion partilhou funções sem nunca chegarem ao entendimento. De acordo com algumas fontes, a diferença consistia em que Crátero era um philobasileus, ou seja, amante do rei e Heféstion um philoalexandrus, ou seja, amante de Alexandre.

Pouco depois, Alexandre nomeou o seu amigo como vizir, alto cargo dos reinos persas que equivalia a algo como primeiro-ministro. Seguindo a tradição da corte aquemênida, Heféstion passou a usar, a partir daquele dia, o báculo engastado de pedras preciosas para admiração da soldadesca e inveja do secretário imperial, Êumenes, cuja birra de zelo teve de ser firmemente reprimida por Magno.

Heféstion e Alexandre cavalgaram juntos, pela última vez, no Verão de 324, num passeio pacífico pelo Elão e pelo Sul da Babilônia para explorar os grandes rios da Mesopotâmia. O itinerário terminou em Ecbátana, capital da satrapia de Média. O sátrapa Atropates ofereceu aos ilustres visitantes um colossal banquete de boas-vindas, em consequência do qual Heféstion ficou gravemente doente. O vizir das argolas de ouro morreu em Outubro desse ano, proporcionando a inconsolável imagem de Alexandre e Dripetis, que choraram abraçados a sua perda. Êumenes, que procurava agradar ao imperador, propôs que o malogrado herói macedônio fosse homenageado como um deus (deve-se dizer que os Gregos nunca tiveram muito clara a ténue linha que separa os homens dos deuses). Comivido, Alexandre aceitou a ideia - quem sabe também a pensar na sua divinização - e Heféstion recebeu as honras sagradas bum funeral solene na Babilônia, até ao seu sumptuoso túmulo protegido por um enorme leão de pedra. O cadáver foi colocado no sarcófago, com o seu precioso báculo e os seus brincos de ouro e o cargo de vizir jamais voltou a ser ocupado por ordem de Alexandre.

A morte de Heféstion provocou mudanças no carácter de Alexandre, acentuando os seus devaneios de melómano e a sua instabilidade emocional. Comparou-se publicamente a Dioniso e a Héracles e exigiu aos seus vassalos o reconhecimento de sua divindade. [...]

"Plutarco escreveu que Alexandre tinha declarado uma vez que, sem Heféstion, nunca teria sido nada, E é verdade. Heféstion era um guerreiro competente, mas carecia do brilho de outros generais como Parménion ou Crátero. Apesar de tudo, ele estava mais próximo do coração do rei, o que tornou a sua vida difícil: todos os oficiais da corte o invejavam, E isso fez dele um homem solitário e completamente dependente do soberano. Por outro lado, Alexandre podia confiar totalmente em Heféstion." (Jona Lendering. Hephastion)

O imperador adoptou a austeridade espartana e nesse mesmo Inverno dirigiu ferozes expedições de castigo contra os rebeldes das montanhas de Luristão. Depois exigiu que todos os reinos, cidades e satrapias do seu império enviassem embaixadores a prestar-lhe vassalagem como divindade. Continuou a enviar tropas de reconhecimento com o objectivo de continuar a expandir o seu império até a Índia e a outras regiões do Oriente. Para estimular os seus generais e cortesãos, em Junho de 323, ofereceu um prolongado e esplêndido banquete na Babilônia, na sequência do qual ficou muito doente com um presumível delirium tremens alcoólico. Faleceu no dia 13 daquele mês, depois de dez dias de agonia profunda, aos trinta e três anos de idade e doze do glorioso reinado.

É interessante assinalar que, como só sucede em casamentos duradouros, Alexandre não sobreviveu muito tempo a Heféstion. Morreu oito meses mais tarde, de uma causa semelhante e em condições muito análogas às do companheiro de toda a sua vida. E se bem que Heféstion não teria sido ninguém sem ele, também é provável que, sem o afecto e a lealdade de Heféstion, Alexandre tivesse sido menos Magno.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 49-52.

sábado, 22 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: o amante desprezado (Parte 2)

Busto de Alexandre Magno. Escultura helenística. Artista desconhecido

Ambos os amigos já tinham passado dos vinte anos, o que, segundo os costumes gregos, extinguia a licença para brincar com o mesmo sexo. Estava na hora de assentar e procurar esposa. Alexandre, para ganhar tempo, ligou-se a uma amante persa chamada Bactrina. Heféstion passou discretamente a segundo plano não só na alcova do amigo, mas também pelas inócuas tarefas diplomáticas que este lhe atribuiu para o manter afastado.

Alguns autores registram um eventual ressentimento de Heféstion por essa indiferença do seu chefe e amante, que o teria levado a protagonizar um acto suspeito de deslealdade. O seu erro consistiu em receber um enviado de Demóstenes quando Alexandre se encontrava no Egipto. O político ateniense, entre outros assuntos, era um declarado inimigo de Alexandre e forte crítico do imperialismo macedônio, que provavelmente estava ao corrente do afastamento de Heféstion. A sua intenção não podia ser outra senão convencê-lo a revoltar-se contra Alexandre, obedecendo a um plano que Demóstenes urdia com outros chefes descontentes. Pelo menos foi o que disse mais tarde o mensageiro, embora não exista qualquer registro de que Heféstion tivesse aceitado juntar-se à conspiração, nem de que Demóstenes estivesse envolvido com a verdadeira conspiração que aconteceu em 330 a.C.

Nesse ano, um grupo de oficiais revoltou-se, mas foi rapidamente reprimido pelos chefes leais a Alexandre. Contudo, dois chefes das falanges da infantaria, Crátero e Ceno, acusaram Filotas, comandante-geral da cavalaria, de conhecer as intenções dos rebeldes e de não o ter revelado ao imperador. Numa primeira fase, Alexandre não deu importância ao assunto, mas Heféstion uniu-se aos denunciantes para exigir que o acusado fosse interrogado sob tortura. E Alexandre, que não quis infligir nova humilhação ao seu velho amigo, aceitou contrariado essa exigência. O tal Filotas, filho de outro brilhante general macedônio chamado Parmênion, era o comandante mais aguerrido e a sua cavalaria tivera um papel decisivo nos combates que proporcionaram a glória e o poder a Alexandre. Não era de estranhar, por isso, que os dois comandantes de infantaria e um amante desprezado o quisessem ver humilhado, torturado e, se possível, condenado à morte.

Os cronistas não descrevem o tipo de tortura a que foi submetido Filotas, mas o pobre homem acabou por confessar que ele e o seu pai tinham organizado a revolta para ocupar o trono e o comando supremo, no lugar do imperador. O tribunal militar montado por Alexandre sentenciou a execução imediata do réu e Parmênion foi também assassinado após a sua captura pelos homens enviados para o perseguir. Independentemente da verdade desta história, o imperador decidiu que era melhor não alimentar as ambições dos seus subordinados com demasiado poder. E, por via das dúvidas, dividiu a prestigiosa cavalaria em duas partes. Uma ficou sobre o comando do eficiente general Clito e entregou a outra como prêmio a Heféstion, totalmente inexperiente no comando deste tipo de tropa.

Durante os três anos seguintes, batalhou-se pela conquista da Bactriana e da Sogdiana, onde os cavaleiros desempenharam um papel fundamental. Os correspondentes de guerra da época elogiam Clito repetidamente, mas não citam Heféstion uma única vez. Segundo parece, porque Alexandre, que nunca confiou nas aptidões guerreiras do seu amigo, entregou a outro chefe o comando efectivo dos combatentes cavaleiros. E, por fim, a sorte favoreceu Heféstion, porque durante um festim o imperador matou Clito sem qualquer motivo numa discussão de bêbados e ele acabou por comandar a cavalaria.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 47-8.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: um amor na Macedônia (Parte 1)

Alexandre e Heféstion, Andrea Camassei

Alexandre III da Macedônia, apelidado de Magno (o Grande), exemplo insuperável do herói militar da Antiguidade clássica e protótipo da beleza masculina na arte de todos os tempos, foi também um perfeito exemplo de guerreiro bissexual. Os historiadores tradicionais apresentam-no como um guerreiro incansável, obcecado pela conquista do seu império. Os mais ousados chegaram a sugerir que mal tinha tempo para pensar em sexo e que os seus casamentos com várias princesas orientais obedeceram a interesses políticos. Todos são unânimes em afirmar que ele rapidamente se desembaraçava delas para partir para as suas campanhas e raramente voltava a visitá-las. A mais afortunada foi talvez Roxana, filha de um sátrapa de Sogdiana, de quem teve o único filho que se conhece.

Paralelamente a esta imagem de conquistador omnipresente, férreo e um tanto misógino, subsistiu uma discreta e interminável polêmica sobre as verdadeiras tendências sexuais de Alexandre Magno. Se bem que o cerne da questão surgisse da ambígua relação de Alexandre com o seu amigo íntimo e colaborador Heféstion, há quem acredite que também se ligou com outro camarada de armas ou que, em caso de urgência, recorria aos prisioneiros e aos escravos que estavam ao seu serviço. Se, por um lado, parecia que as ocupações da guerra afastavam o jovem imperador das mulheres, por outro, deixaram-no muito unido aos seus homens.

Alexandre nasceu em 356 a.C., em Pela, a antiga capital da Macedônia. Era filho do rei Filipe II, que também teve as suas histórias, e da bela e dominadora Olímpia, princesa do Epiro. O pai andava sempre em guerra, um pouco por todo o lado, para unificar e expandir o seu reino e, por isso, a criança foi criada numa relação muito estreita com a sua sufocante mãe, que o amava com um fervor edipiano. Olímpia, entre beijos e abraços, não podia ter tido melhor ideia do que arranjar-lhe Aristóteles como preceptor, homem tão sábio como disposto a instruir os seus discípulos na diversidade que a vida oferece. O filósofo educou o pequeno Alexandre entre os treze e os dezesseis anos, idade certamente delicada para um jovem que já então tinha como companheiro de estudos e de brincadeiras o seu inseparável Heféstion.

Segundo Anábase, história das campanhas de Alexandre escrita por Arriano, Heféstion pertencia a uma família grega nobre, radicada na Macedônia. O pai, Amintor, fazia parte da colônia de gregos cultos contratados ao serviço do rei Filipe. Estes forasteiros notáveis recebiam tratamento de excepção, o que permitiu a Heféstion, apenas um ano mais novo do que Alexandre, ser educado com ele no palácio real. Filipe morreu em 336 a.C., depois de ter reinado durante duas décadas, e Alexandre sucedeu-lhe no trono com apenas dezanove anos. Incentivado pela sua impetuosa ambição, lançou-se numa vertiginosa campanha para submeter as cidades gregas, o que o obrigou a arrasar a emblemática Tebas. No ano seguinte, influenciados por tão impressionante exemplo, os chefes da Liga de Corinto concordaram em designá-lo comandante e estratego dos seus exércitos. Alexandre deixou como regente da Macedônia o maduro general Antípatro, que tinha sido lugar-tenente de seu pai, e empreendeu uma expedição para Oriente com o objectivo de se apoderar de tudo o que encontrasse pelo caminho.

Não existe notícia histórica de qual foi o papel de Heféstion nessa etapa, mas os cronistas voltam a mencioná-lo na Primavera de 334, quando Alexandre conquista a cidade de Tróia. Apenas o seu nome é citado, como se os contemporâneos já soubessem que era amigo de infância do rei da Macedônia, na época um de seus generais e, por assim dizer, o mais íntimo dos seus camaradas. Dizem as crônicas que Alexandre respeitou a lendária cidade homérica e que ofereceu um sacrifício no túmulo de Aquiles, enquanto Heféstion oferecia o seu próprio no de Pátrocles. Estas homenagens tiveram um curioso simbolismo, pois Homero já sugeria na Ilíada que os heróis troianos tinham sido amantes.

O nome de Heféstion volta a perder-se, enquanto a história registra o avanço de Alexandre na conquista das cidades costeiras da Ásia Menor, e reaparece na decisiva batalha de Issos, em Novembro de 333.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 43-44 e 46.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

“Entre homens”: homossexualidade e virilidade em 1968

Pátroclo, Jacques-Louis David

Se falar em sexo publicamente ainda era complicado nos anos 1968, era prudente que os homossexuais se reservassem ao espaço privado. Embora causassem polêmica, determinados comportamentos que confrontavam a noção de masculinidade criada pela sociedade não eram debatidos abertamente, como recorda Ricardo:

A gente supunha que algum rapaz que não falava em mulher, não jogava futebol e não bebia, pudesse ser uma mocinha. Mas, os homossexuais eram muito caricaturizados, discriminados, agredidos e era muito natural que não se expusessem.

A caracterização do homossexual atingia direto o estereótipo do "macho" e o preconceito era o preço mais alto a ser pago:

Eu fui criado numa sociedade onde ser homossexual era ser criminoso, era ser pecaminoso, uma coisa feia que não se conta, uma coisa vergonhosa. Então, o meu desejo foi levado... meu desejo ele foi ensinado a se manifestar somente em situações ligadas à marginalidade: Noite! A palavra noite é feminina já notaram? Dia é masculino: claro, luz, razão, precisão! Noite é feminina: escura, obscura, indefinida, marginal!... Então, meu desejo foi educado para ser ativado em locais tipo barzinhos à noite, becos escuros, saunas... Os tipos de caras que me atraem são caras assim, mais ou menos, que lembram esse ambiente, submundo de coisa assim.

Muitas vezes sem poder (e nem querer) frequentar os mesmos lugares que rapazes heterossexuais, a vivência homoerótica levava à prática de uma subcultura masculina, marginalizada. Os espaços de sociabilidade, caracterizados em sua grande maioria pela escuridão e seus sinônimos, eram restritos, e cabia ao jovem descobrir os mesmos. Os cinemas, desde décadas anteriores, eram espaços privilegiados para isso. Armando Antunes relembrou sua primeira experiência num cinema da capital mineira:

A primeira vez que eu fui num cinema e que aconteceu alguma coisa comigo foi no cine Piratininga. Eu sentei lá e de repente eu percebi que sentou alguém do meu lado, mas eu não me toquei, eu não estava ali para caçar. Eu era novo ainda. Quando eu percebi alguém me pegou. Eu senti uma mão me pegar. Mas eu dei um berro que o cara fugiu para um lado e eu fugi para o outro.

O grito instintivo não foi entendido por ele como uma agressão. Na verdade, foi o momento em que se deu conta de que não estava sozinho no mundo ao se interessar por um homem: "Eu não era a aberração da humanidade. Existia um núcleo, mas era um núcleo tão escondido que eu teria que procurar quem era". Armando relembra como começava um namoro na penumbra do cinema:

Você encostava a perna no rapaz e sentia se ele queria. Bom, se encostou e ele não tirou, é porque não se sentiu incomodado. Mas houve uma época em que o lanterninha pegava você no flagra. Ele jogava a lanterna em cima de você e chamava a polícia.

Se as condições permitissem, os contatos sexuais anônimos podiam terminar em masturbação mútua, em sexo ou em um hotel barato fora do cinema, como revelou o historiador americano James Green.

O Rio de Janeiro desde os anos de 1950 passou a atrair homens (que gostavam de homens) vindos de outros estados do país onde se sentiam pressionados, ou ainda hostilizados, pela família e pela sociedade em que viviam. Mudar-se para a cidade maravilhosa significava "livrar-se da supervisão e do controle familiar e da pressão para o casamento e filhos". Além do já consagrado local do centro da cidade nos arredores da Lapa, da Cinelândia e da Praça Tiradentes, os anos 1968 viram o bairro de Copacabana como o lugar de vida noturna mais vibrante não somente para a classe média em geral, mas também para os homossexuais. Este ainda é o momento em que estabelecimentos começam a atrair um público majoritariamente gay sem serem hostilizados pelos empresários locais. Algumas casas noturnas, como o Alfredão, o Alcatraz e o Stop, passaram a abrigar uma clientela composta por rapazes homossexuais. Entretanto, o grande charme de Copa era o mar e o desfile dos corpos seminus, que podiam ser observados sem pudor algum. E, em frente ao luxuoso hotel Copacabana Palace, local reservado ao jet set nacional e internacional, as bichas, como já eram chamadas desde os anos de 1930, fizeram do espaço o seu "posto", que passou a ser conhecido como a Bolsa de Valores: "lugar onde você pode mostrar-se aos holofotes e virar notícia tinha data e local marcado. O concurso de Miss Brasil era ponto de "bonecas", como também eram chamados os homossexuais mais afeminados, do Rio de Janeiro, como apresentou uma reportagem da revista Realidade:

Às oito da noite, 40 mil pessoas já estão no Marcanãzinho lotado, pois nada mais importante existe para elas que um concurso de Miss Brasil. O ginásio está explodindo em gritaria e aplausos, a cada "miss" que dá a paradinha, o rodopio e manda dois beijos para o público. De repente a polícia resolve entrar na "passarela". As "misses" assustadas saem correndo e dando gritinhos desesperados. Levantadas no ar, indefesas, pequeninhas diante do tamanho dos guardas. são levadas para algum canto misterioso. É o fim tradicional do desfile dos bonecas, ou transviados sexuais, que todo ano, em algum pedaço vazio da arquibancada, precede o desfile de verdade.

Entretanto, boa parte dos homossexuais se resignava a um universo privado, pessoal, muitas vezes relutando contra suas próprias vontades em nome do preconceito que lhes atingia. Mesmo nos círculos mais "avançados", como as organizações de esquerda que resistiram à ditadura militar, o homossexualismo era visto com muita reserva. Herbert Daniel, militante de organizações guerrilheiras, como a Polop (Política Operária) e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), foi um desses que, em nome da aceitação no grupo e das práticas revolucionárias, negou sua sexualidade durante anos. Em seu livro, Meu corpo daria um romance, Herbert desabafa sua vida duplamente clandestina:

Quis extirpar o sexo antigo. Aos poucos, adotei um sexo futuro. novo, que naquele instante se tornava pura abstinência. A última vez que trepei com alguém deve ter sido em meados de 67. Abstinente passei toda a clandestinidade. Sete anos. (Não posso deixar de escrever o prometido elogio à punheta, senão dificilmente poderei fazer alguém compreender a minha clandestinidade. Porque creio que se tivesse apagado meu sexo nunca teria acreditado na militância. Um militante sem sexo é um totalitário perigoso. Um punheteiro é apenas um confuso ingênuo e esperançoso.)

As noites solitárias foram o preço a ser pago em nome de um "ideal" cujo "ideal de homem" era o guerrilheiro, viril e másculo. Os revolucionários dos anos 1968 carregavam muito do traço mais tradicional da cultura patriarcal desde a época colonial: a supremacia masculina. Nesta hegemonia, o importante era parecer "macho", mesmo não sendo.

James Green indicou que muitos homossexuais saíam em busca de homens "verdadeiros": uma reversão dos papéis tradicionais onde o sujeito "passivo" torna-se ativamente aquele que procura uma relação sexual. Segundo o brasilianista, essa dinâmica sexual, na qual o homossexual tinha de tomar a iniciativa, contribuiu para a formação de uma identidade imbuída de autoconfiança e que se contrapunha aos estereótipos sociais do bicha patético e passivo. É interessante ressaltar, com essa constatação. o quanto dos valores viris também foram apregoados por homossexuais. Uma reversão do entendimento, que vem desde o início da era cristã, de que o homem homossexual não era viril (lembrando que as relações homoeróticas entre gregos e romanos eram entendidas sobretudo como viris, expressando a potência masculina em detrimento do elemento feminino). Esta autoridade de si, juntamente com a evolução política dos anos 1968, permitiu o questionamento dos papéis sociais e sexuais rígidos assumidos pelas "bonecas", ou seja, de que para ser homossexual era preciso necessariamente ser efeminado. Certamente esses fatores contribuíram para formação de uma consciência que em fins dos anos 1970 passou a ser expressa pelo movimento gay no Brasil.

Angélica Müller. Não se nasce viril, torna-se: juventude e virilidade nos "anos 1968". In: PRIORE, Mary del; AMANTINO, Marcia. (Orgs.). História dos homens no Brasil. São Paulo: UNESP, 2013. p. 319-323.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Os manicuros de Sakara

A imagem mais antiga de um casal homossexual encontrada no túmulo de dois manicuros da V dinastia: Niankh-Khnum e Khnum-Hotep. Pintura mural numa mastaba de Sakara, datada de cerca de 2450 a.C.

Segundo parece, o incesto não era o único tabu ancestral que se desprezava nos palácios reais de Tebas ou de Mênfis. É provável que certos serviços cortesãos, como o de cabeleireiro, maquilhador ou manicuro fossem exercidos por homens homossexuais (o que explicaria o seu [...] vínculo aos ritos funerários, na delicada função de limpar os cadáveres embalsamados). Em 1964, houve um achado nas ruínas da necrópole de Sakara que contribuiu decisivamente para reforçar esta hipótese. O arqueólogo egípcio Ahmed Moussa dirigia uns trabalhos nas proximidades da pirâmide de Unas, quando descobriu uma série de passagens funerárias escavadas numa encosta escarpada. Informou da descoberta o seu superior, o professor Mounir Basta, que entrou de gatas por uma das estreitas passagens. Quase à beira de desfalecer, foi dar a uma câmara mortuária com um fresco pintado no único muro não desmoronado. A pintura mostrava dois homens jovens olhando-se de perfil, com os narizes a tocar-se, as bocas muito próximas. Um deles apoiava afectuosamente uma mão no ombro do outro, que por sua vez lhe pegava no pulso oposto. O arqueólogo-chefe decidiu chamar "Os irmãos" a tão valiosa descoberta.

Mas, quando reparavam o caminho que levava à pirâmide, os trabalhadores desenterraram uma série de placas murais com inscrições e desenhos de estilo semelhante ao de "Os irmãos". Ao terminar os trabalhos, Basta e Moussa contavam com material suficiente para reconstruir quase por completo o que era uma mastaba, um túmulo em forma de pirâmide truncada. As numerosas pinturas estavam em relativo bom estado e os frisos com hieróglifos quase intactos. Os arqueólogos puderam, assim, concluir que o sepulcro tinha sido construído por volta do ano 2450 a.C., durante a V dinastia, por ordem de um servidor do faraó Niuserré chamado Niankh-Khnum que, conforme explicava uma inscrição por baixo do revelador fresco, era "chefe dos manicuros no palácio real". A construção estava destinada a ser o seu próprio túmulo, repartido com o seu colega e amigo íntimo Khnum-Hotep, que era o outro rapaz que o olhava de perfil. Além disso, a inscrição do frontispício reunia os nomes de ambos em Niankh-Khnum-Hotep, que significa algo como "unidos na vida e na morte".

O professor Basta começou a pensar que talvez se tivesse equivocado ao atribuir o abraço dos jovens ao afecto fraternal. Confirmou a sua suspeita comparando o desenho com as figuras que apareciam no próprio túmulo e com outras da mesma época. Em todas elas, a atitude carinhosa que os manicuros demonstravam correspondia à dos casais unidos pelo casamento, cujos membros eram também os únicos que se olhavam tão próximos um do outro. As figuras masculinas que representavam irmãos ou companheiros nem sequer se tocavam e mantinham o estilo hierático próprio da arte egípcia: o tronco de frente e a cabeça e as pernas de perfil, orientadas no mesmo sentido.

A imagem de Niankh-Khnum e Khnum-Hotep percorreu o mundo como a mais antiga representação artística de um casal homossexual e, desde então, a mastaba de Sakara tem sido visitada por milhares de turistas das mais variadas procedências e tendências.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 27-8.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Apolo e Jacinto

Apolo amava apaixonadamente um jovem chamado Jacinto. Acompanhava-o em suas diversões, levava a rede quando ele pescava, conduzia os cães quando ele caçava. Certo dia, os dois divertiram-se com um jogo e Apolo, impulsionando o disco, com força e agilidade, lançou-o muito alto no ar. Jacinto contemplou o disco e, excitado com o jogo, correu a apanhá-lo, ansioso por fazer a sua jogada, mas o disco saltou na terra e atingiu-o na testa. O jovem caiu desmaiado. O deus, pálido como Jacinto, ergueu-o e tratou de aplicar toda a sua arte para estancar o sangue e conservar a vida que se esvanecia, mas tudo em vão: o ferimento estava além dos poderes da medicina. Como um lírio, cujo haste quebrou-se num jardim, curva-se e volta para a terra suas flores, assim a cabeça do jovem moribundo, como se tivesse se tornado muito pesada para o pescoço, pendeu sobre o ombro.


A morte de Jacinto, Merry-Joseph Blondel

- Morreste, Jacinto - exclamou Apolo -, roubado por mim de tua juventude. O sofrimento é teu, e meu o crime. Pudesse eu morrer por ti! Como, porém, isso é impossível, viverás comigo, na memória e no canto. Minha lira há de celebrar-te, meu canto contará teu destino e tu te transformarás numa flor gravada com minha saudade.

Enquanto Apolo falava, o sangue que escorrera para o chão e manchara a erva deixou de ser sangue; uma flor de colorido mais belo que a púrpura tíria nasceu, semelhante ao lírio, com a diferença de que é roxo, ao passo que o lírio é de uma brancura argêntea. E isso não foi bastante para Febo. Para conferir ainda maior honra, deixou seu pesar marcado nas pétalas, e nelas escreveu "Ai! Ai!", como até hoje se vê. A flor tem o nome de jacinto e, sempre que a primavera volta, revive a memória do jovem e lembra o seu destino.

Conta-se que Zéfiro (o vento oeste), que também amava Jacinto e tinha ciúme da preferência de Apolo, desviou o disco de seu rumo para fazê-lo atingir o jovem. Keats faz alusão a isso no "Endimião", quando descreve os espectadores do jogo de argolas:

Contemplam os jogadores dos dois lados
Lembrando, ao mesmo tempo,
A sorte de Jacinto, quando o sopro,
De Zéfiro o matou;
De Zéfiro que, agora, penitente,
Quando Febo se eleva
No céu, as pétalas da florzinha beija.

Também no "Lycidas", de Milton, há uma alusão ao jacinto:

A roxa flor que traz a dor impressa.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 75-76.

domingo, 2 de agosto de 2015

O baptismo do eunuco etíope

O baptismo do eunuco, Rembrandt

[...] o termo que se costuma traduzir por "eunuco" pode ter vários significados nos escritos arcaicos. Em português e noutras línguas modernas significa "homem castrado que se destinava à guarda das mulheres nos haréns", correspondendo à sua raiz grega que significa "guardião dos leitos". Na Antiguidade também se chamava assim ao secretário ou favorito de um rei, talvez porque também lhe podia vigiar o leito. Podemos então supor que nas versões actuais de textos milenares, como é o caso da Bíblia, o termo "eunuco" refere em geral o homem que copula com outros homens, quer seja hermafrodita, castrado ou tenha características sexuais normais. O próprio Jesus Cristo dá aos seus discípulos uma explicação um tanto ou quanto enigmática sobre este assunto:

"Disseram-lhe os discípulos: se tal é a condição do homem com a mulher, é preferível não se casar. Ele respondeu-lhes: nem todos podem entender assim, a não ser aqueles a quem é concedido. Porque existem eunucos que nasceram assim, eunucos que foram feitos pelos homens e eunucos que se fizeram a si próprios por amor ao reino dos céus. Quem puder entender, que entenda."

A explicação anterior é perfeita para entender uma história dos Actos dos Apóstolos, que ocorreu quando o fundamentalista judaico Paulo de Tarso devastava a comunidade cristã de Jerusalém. Um anjo do Senhor apareceu ao apóstolo Filipe dizendo-lhe para se dirigir para sul, pelo caminho que levava a Gaza. "Pôs-se logo a caminho", diz o texto bíblico, "e encontrou-se com um homem etíope, eunuco, ministro de Candace, rainha dos Etíopes, intendente de todos os seus tesouros.". O forasteiro regressava de uma peregrinação a Jerusalém no seu carro e lia um texto de Isaías em voz alta. Filipe aproximou-se e perguntou se o compreendia. "Ele respondeu-lhe: como vou compreendê-lo se ninguém me conduzir? E pediu a Filipe para subir e se sentar a seu lado" (Actos, 8: 27-31). Enquanto lhe explicava uma passagem bíblica, Filipe aproveitou para levar a água ao seu moinho e anunciou-lhe a boa nova trazida por Jesus.

Pouco depois, chegam a um lugar onde havia água e o eunuco perguntou-lhe se podia ser baptizado como cristão. E continua o texto do Novo Testamento: "Filipe disse: se acreditas de todo o coração, claro que podes. E (o outro), respondendo, disse: acredito que Jesus Cristo é o Filho de Deus. Mandou parar o carro e desceram ambos até à água, Filipe e o eunuco, e baptizou-o. Quando ambos regressavam, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe e o eunuco nunca mais o viu, continuando alegre o seu caminho" (ibid, 37-39).

A inclusão nas Escrituras desse episódio do eunuco "alegre" é utilizada pelos movimentos gay cristãos como prova de a Igreja primitiva ter aceitado sem quaisquer problemas o baptismo dos homossexuais. Na nossa opinião e na de vários estudiosos mais autorizados, a questão é muito mais simples. A reviravolta doutrinal que o gesto de Filipe produziu em Jerusalém não se deveu tanto ao facto de o convertido se tratar de um eunuco, mas ao facto de ser um gentio, ou seja, um estrangeiro. O evangelista Lucas, autor dos Actos dos Apóstolos, não parece interessar-se especialmente pela tendência sexual do viajante, que menciona apenas para apresentar a personagem, nem na sua nacionalidade ou no seu cargo de intendente. Por outro lado, o apóstolo de Betsaida, ao dar o baptismo a um etíope, toma uma posição activa numa das principais controvérsias que ocupava na época os pais do cristianismo: seria a mensagem de Jesus Cristo apenas uma variante renovadora da tradição mosaica ou uma nova religião independente e ecuménica, que transcendia o âmbito do judaísmo? A resposta estava nas mãos do santo que, nessa altura, se dedicava a prejudicar os cristãos.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 86-89.

domingo, 28 de dezembro de 2014

História de Adriano e do jovem grego

Bustos do Imperador Adriano e de Antínoo. Artistas desconhecidos. 
Foto: SanGavinoEN

De acordo com a Historia Augusta, Adriano compôs pouco antes de sua morte o seguinte poema: 

Animula, vagula, blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
Pallidula, rigida, nudula,
Nec, ut soles, dabis iocos...

Amanhecia no Nilo, no Outono do ano 130 a.C., quando o imperador Adriano acorda bruscamente com os gritos e lamentos dos seus servos. Sai da tenda preocupado e dirige-se ao rio e fica estupefato com o que vê: uns pescadores egípcios arrastam para a margem o corpo inchado e lívido de um jovem com cerca de vinte anos. Adriano dá um grito de dor e ajoelha-se junto do cadáver, beijando entre lágrimas o rosto azulado que ainda conserva uma notável beleza.

Esta trágica cena do suicídio de Antínoo, o jovem amante do maduro imperador, manteve-se através dos séculos como exemplo emblemático do amor homossexual romântico e infeliz. Em meados do século XX, a escritora francesa Marguerite Yourcenar (lésbica) recupera a complexa figura do governante bético e do seu amor pelo adolescente grego, numas imaginárias, mas bem documentadas, Memórias de Adriano (1951). O livro foi um verdadeiro êxito de vendas e, nas suas múltiplas edições e traduções, o público tomou conhecimento da existência de um imperador romano cujo jovem amante se suicidou por amor.

“Amor, o mais sábio dos deuses... Mas o amor não era responsável por aquela negligência, por aquelas durezas, por aquela indiferença misturada com a paixão como a areia com o ouro que o rio arrasta no seu curso, por aquela rude cegueira de um homem demasiado feliz e que envelhece. Como era possível eu ter sido tão densamente satisfeito? Antínoo estava morto. Longe de amar de mais como Serviano certamente pretendia naquele momento em Roma, eu não o tinha amado bastante para forçar aquela criança a viver”. (Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano)

Públio Élio Adriano nasceu em Itálica, cidade bética, perto da actual Sevilha, a 24 de Janeiro do ano 76 da nossa era. Era patrício do futuro imperador Trajano, ainda parente do seu pai. Desde criança que se afeiçoou à cultura e à arte helênicas e, por isso, os seus companheiros de então apelidavam-no de o Grego. Adriano ficou órfão aos dez anos e a sua tutoria ficou a cargo de um amigo da família chamado Acílio Attiano, representando o parente mais próximo, que era Marcos Úlpio Trajano. Pouco tempo depois, Trajano viajou para a Hispânia como comandante das legiões romanas. A sua mulher, Plotina, afeiçoou-se ao pequeno afilhado e levou-o com eles no seu regresso a Roma.


Imperador Adriano. Artista desconhecido. Ca. 127-128 d.C.

Na capital do Império, sob a protecção de Trajano e de Plotina, Adriano seguiu integralmente as passadas que eram esperadas de um jovem ambicioso e de boa família, cujo destino manifesto era o Senado. Em 97, servia como tribuno militar na Moésia, junto ao Danúbio, quando recebeu ordem para se dirigir à Gália para informar Trajano que o imperador Nerva o tinha adoptado como afilhado. Essa adopção, que na prática equivalia a designá-lo como sucessor, correspondia às manipulações palacianas do influente Lúcio Licínio Sura, amigo íntimo e provável amante de Plotina, que, como ela, sentia um enorme afecto por Adriano. Foi ele que o escolheu para levar a boa nova a Trajano, contra a opinião de Júlio Serviano, intrigante cunhado do futuro imperador. Nerva morreu no ano seguinte e Sura teve de fazer uma nova pirueta política para se assegurar de que seria Trajano a ocupar o trono. A nova imperatriz, que não devia ser muito ciumenta, encomendou-lhe então o apoio da carreira de Adriano, tarefa que Lúcio Licínio cumpriu com entusiasmo. Alguns historiadores acreditam que essa devoção correspondia a algo mais do que uma amigável cumplicidade.

Durante os primeiros anos do reinado de Trajano, a imperatriz e Sura continuaram a proteger Adriano das invejosas maquinações de Serviano. O jovem bético ocupou postos importantes e, com freqüência, muito próximos do imperador, como quando o acompanhou nas vitoriosas campanhas da Dácia. No ano 100, Plotina arranjou para Adriano um casamento de conveniência com uma das netas de Trajano, Víbia Sabina, que tinha apenas treze anos. Adriano manteve o matrimônio em branco, dada a tenra idade da noiva e a sua escassa atracção pelo sexo oposto. E o certo é que nunca chegou a ter filhos dela e, pelo que se supõe, nem sequer tentou. A sua carreira política continuou como tribuno do povo, em 105, e pretor, no ano seguinte. Finalmente, em 108, o seu protector, Lúcio Sura, concedeu-lhe o consulado que tinha ocupado por três vezes consecutivas. Pouco depois, para desolação do ascendente cônsul, Sura morre inesperadamente.

O vazio deixado pela morte do hábil conselheiro provocou a brusca queda de Plotina e de Adriano e a ascensão de uma elite cortesã encabeçada por Júlio Serviano. Pouco se sabe do ostracismo a que foi votado ao afilhado do imperador durante cerca de dez anos. Algumas fontes garantem que, durante esse tempo, foi procônsul em Atenas, o que lhe permitiu aprofundar o seu amor pelo helenismo e estudar a arte e a cultura da Grécia antiga. Entretanto, Trajano empreendia as suas grandes campanhas na frente oriental, conquistando a Partia, a Mesopotâmia, a Síria e a Armênia. Nesse intervalo de tempo, a persistente Plotina recuperou o favor do imperador e, em 117, conseguiu que Adriano fosse designado comandante do exército que ocupava o estratégico enclave da Síria.

Trajano morre de apoplexia durante a sua viagem de regresso a Roma e as legiões proclamaram Adriano imperador. O recém-proclamado imperador iniciou um regresso lento, mas calculado, à capital do império, enquanto Plotina limpava a corte de adversários e os seus partidários obtinham a confirmação do Senado, graças ao antigo tutor Acílio Attiano, agora chefe dos pretorianos, que eliminou os quatro senadores mais recalcitrantes. Adriano chegou ao Palatino no meio de uma certa indiferença popular e não permaneceu muito tempo na cidade, nem nessa ocasião nem ao longo dos seus vinte e um anos de reinado. O seu antecessor deixou-lhe um enorme e caótico império, que abarcava quase todo o mundo conhecido (Roma era chamada Caput mundi), com fronteiras em permanente conflito e constantes levantamentos nas províncias mais rebeldes. O novo imperador dedicou-se a percorrer palmo a palmo o seu inabarcável território, alojando-se nos acampamentos militares e comendo e dormindo com os seus legionários. Mas só entrava em guerra se fosse imprescindível; com uma legislação tolerante e generosa e a construção de caminhos, aquedutos, templos e anfiteatros, integrou e romanizou povos orgulhosos e díspares. Foi então que todo o Império tomou o nome de Roma, que até então apenas designava a metrópole do Tibre.

Serviano continuou as suas intrigas no Senado, acusando o imperador de descurar Roma para agradar aos bárbaros, de ter reduzido as fronteiras de Augusto para não enfrentar os Germanos e de praticar o “vício grego” pelo seu decadente helenismo. Apesar de tudo, o certo é que Adriano foi um dos governantes mais sensatos, cultos e progressistas do Império Romano.

O seu reinado caracterizou-se pela consolidação das fronteiras, pela organização das províncias e pelo incentivo dos serviços e das obras públicas, pela promoção das artes e da agricultura e pela compilação do Edito perpetuo, primeiro esboço do que seria o célebre direito romano. Entre as suas obras mais notáveis contam-se o mausoléu (núcleo do actual castelo de Sant’Angelo, em frente ao Vaticano), o templo de Vênus e o de Júpiter, no local que o templo de Salomão ocupara, em Jerusalém, que reconstruiu com o nome de Aelia Capitolina. O seu enorme gosto pela cultura clássica reflectiu-se no seu empreendimento pela educação, pelas artes, pela filosofia e pela literatura. Apesar dos comentários dos seus adversários, nunca escondeu o seu escasso interesse pelas mulheres, o que o prejudicou politicamente, nem as suas preferências homossexuais, que o levaram a uma trágica experiência nos últimos anos da sua vida.

No ano 123, Adriano tinha quarenta e sete anos e tinha deixado crescer uma barba espessa e curta, que mudou a moda do rosto barbeado estabelecida por Júlio César entre os Romanos.

Nesse ano realizava uma viagem pelas províncias da Ásia Menor e, na cidade de Claudinópolis, conheceu um belo jovem grego chamado Antínoo. O imperador apaixonou-se perdidamente por aquele jovem que, nessa altura, teria entre doze e treze anos. Pouco se sabe da origem da família de Antínoo, excepto que tinha nascido na Bitínia (que, ao que parece, produzia os mais belos jovens da Antiguidade) e que desempenhava as funções de pajem na corte de Nicomedia. As crônicas também registram que, em 125, o imperador o levou consigo na sua viagem de regresso a Roma.


Busto de Antínoo, Artista desconhecido. 
Foto: Marsyas

Adriano permaneceu em Roma durante os três anos seguintes, estada pouco usual, talvez provocada pelo ingresso do seu efebo no paedagogium ou escola imperial. A sua única saída da cidade foi uma visita às Ilhas Britânicas, onde, em 127, erigiu uma muralha de 117 quilómetros, de costa a costa, para conter os aguerridos Caledônios da Escócia. Dada a pouca idade de Antínoo, é provável que a relação sexual entre ambos se tenha concretizado no ano 128, quando o jovem atingiu os dezassete anos e o imperador o levou consigo numa longa viagem pela Grécia, Ásia Menor e Norte da África. Diz-se que, ao chegar ao Egipto, no ano 130, Adriano visitou uma adivinha que lhe vaticinou a morte. Como homem racional e letrado que era, desdenhou do mau augúrio; porém, Antínoo ficou deprimido e inquieto, angustiado pela nefasta profecia.

Na época, existia no mundo romano a crença de que o cumprimento de uma profecia de morte só podia ser evitada se outra pessoa, por amor à vítima, se imolasse em seu lugar. E foi isso precisamente o que decidiu fazer o efebo enamorado: oferecer-se aos deuses para salvar o seu amado.

Adriano tinha-o brindado com o seu afecto e protecção, tinha-o educado e requintado e tinha-o ensinado a desfrutar com plenitude dos prazeres sexuais. Que mais poderia oferecer-lhe, senão a própria vida? Uma noite, pegou num dos barcos do séquito imperial e deixou-se arrastar pela corrente entre as trevas do Nilo. Não voltaria vivo à suas margens.

Alguns autores recusam esta versão romântica da morte de Antínoo. Há quem afirme que foi violado e assassinado por um bando de piratas fluviais, outros supõem que a sua inexperiência náutica levou a que a barca se virasse e que foi engolido pelas águas. Mas a verdade é que o suicídio por amor é o único motivo que oferece certos indícios colaterais, como o desânimo do jovem nos dias anteriores ou o sentimento de culpa de Adriano, que o levou a divinizar Antínoo, fundando uma cidade em sua honra e homenageando-o em templos, monumentos e moedas com a sua efígie e o seu nome. Dois séculos mais tarde, Atanásio, patriarca de Alexandria, condenaria essas sumptuosas honras, demonstrando mais uma vez a intolerância eclesiástica:

“Resoluções e actos que efectivamente tornaram público e testemunharam perante o mundo até que ponto a paixão antinatural do imperador sobrevivia ao seu amado; e em que medida o seu amor era devoto à sua memória, exaltando o seu próprio crime e condenação e deixando à Humanidade um enganoso e notório exemplo da verdadeira origem e linhagem de toda a idolatria.” (Santo Atanásio, 295-373).

É possível que esse desolado arrependimento fosse a causa dos ataques de loucura e de fúria que turvaram a mente do imperador nos últimos anos da sua vida. Animado por inesperados desejos amargos e despóticos, tomou decisões arbitrárias e injustas, que começaram a gerar intrigas e conspirações. Aquele que tinha amado cada pedaço do seu Império cometia agora atropelos despropositados nas províncias, como a repressão violenta e desnecessária da revolta judaica de 134, destruindo cerca de mil aldeias e povoações, provocando um total de 580.000 mortos. As suas legiões entraram em Jerusalém para edificar um santuário a Apolo no lugar do templo de Salomão e para refundar a cidade com um nome romano. Receoso de uma conjura, em 136 mandou assassinar o seu velho adversário Júlio Serviano, bem como o seu neto Pedânio Fusco, possível candidato da imaginária conspiração. Naquela triste etapa final, os excessos e abusos de Adriano recordaram a Roma os piores momentos do reinado de Nero. É provável que o tivessem destituído, se o extraviado imperador não tivesse morrido na em Baía (Nápoles), no dia 10 de Julho de 138, depois de uma lenta e insuportável agonia. Tinha 62 anos e os Romanos não choraram a sua morte, no mausoléu de Sant’Angelo.

“Perdeu Antínoo enquanto navegava no Nilo e chorou por ele como uma mulher.” (Historia Augusta)

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 64-71.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A arte homoerótica de Charles Demuth

Banho turco com autorretrato, Charles Demuth

Dois marinheiros urinando, Charles Demuth

Três marinheiros, Charles Demuth

Três marinheiros urinando, Charles Demuth

Um ar distinto, Charles Demuth [Um casal homossexual, composto por um marinheiro e um distinto cavalheiro emociona os visitantes pela "ousadia"]

Banho turco, Charles Demuth

Quatro figuras masculinas, Charles Demuth

Marinheiros dançando, Charles Demuth

A cantora de jazz, Charles Demuth

Banho turco, Charles Demuth

Quatro figuras masculinas seminuas, Charles Demuth

Dois marinheiros urinando, Charles Demuth

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

As cidades gregas e a vida privada

Entre a esperança e o medo, Sir Lawrence Alma-Tadema

A cidade mais povoada, a maior, a mais rica é Atenas, complementada a 7 quilômetros de distância por outra cidade da Ática, o Pireu. A própria Atenas tem seu cinturão de muralhas; outra fortificação, que acaba por envolver toda a península de Acté, protege o Pireu: enfim, os “longos muros”, as “pernas”, unem as duas aglomerações e Atenas ao mar. Nenhuma outra cidade da época consagrou tantos esforços, tantos cuidados e recursos à ligação íntima de seus centros vitais e à sua defesa. Atenas conseguiu corrigir sua posição continental e transformar-se numa ilha, associando sua esquadra e seu exército mais intimamente do que em qualquer outra parte, a fim de garantir sua segurança: durante todo o período clássico, capitulará apenas uma vez, cedendo ao bloqueio e à fome, após a destruição de sua marinha. A própria grandeza dessa concepção defensiva proporciona-lhe o que falta à maioria das cidades, isto é, espaço no interior das muralhas, frequentemente acanhadas, devido à falta de dinheiro, a área indispensável ao conforto da população. Mas Atenas não soube aproveitar-se desse espaço.

Sem dúvida, não falta lugar no Pireu. A cidade é recente, construída em meados do século V a.C., segundo os princípios urbanísticos da época, à base de um plano geométrico. Costeia o único porto comercial da Ática e um dos três portos de guerra aparelhados com estaleiros e arsenais, em torno de Acté. Barracões, armazéns, escritórios de alfândega e de câmbio, a Bolsa encontram-se nas imediações dos cais, onde navios vindos de todos os portos do Mediterrâneo descarregam as mais variadas mercadorias. Para trás estende-se a cidade propriamente dita. A maior parte de sua população é constituída de estrangeiros de todas as nacionalidades, falando todas as línguas. Aí os marinheiros procuram e encontram os prazeres sonhados durante o isolamento e o perigo das travessias. Os habitantes vivem do porto, do tráfico de viajantes e de mercadorias. Mas as pessoas de bom-tom nunca se demoram aí por muito tempo: a multidão é muito cosmopolita; os assuntos de conversa e as preocupações giram em demasia em torno do dinheiro e do comércio. [...]

Não foi, portanto, na direção do Pireu e do mar, ao abrigo das novas fortificações onde subsistem muitos terrenos vagos, que a velha Atenas procurou estender-se. Seus subúrbios crescem principalmente para o norte, como que atraídos pela vida do campo, à qual tantos cidadãos permanecem presos por seu ideal, pelo parentesco e pelos interesses de proprietários territoriais. A cidade sufoca no espartilho de suas muralhas reconstruídas às pressas, imediatamente após as guerras médicas, antes da expansão de sua atividade política, econômica e intelectual: não se desenvolve, porém, no sentido em que sua verdadeira vocação parecia lançá-la.

Muito arcaica, não corresponde de maneira alguma à nossa concepção de uma grande urbe, apesar do esplendor dos monumentos da Acrópole e de alguns templos ou edifícios públicos construídos na cidade baixa: ruas estreitas, nas quais é proibido edificar balcões salientes, sem calçadas nem pavimentação ou esgotos, com um canal de escoamento feito de telhas no meio da rua; apenas uma grande fonte, construída pelos tiranos do século VI a.C., e numerosos poços, mas cujas águas deveriam ser bastante suspeitas; poucas praças públicas, a principal sendo a ágora ornamentada com plátanos. Ao seu redor encontra-se o mercado ou, antes, os mercados, visto tratar-se de ruas ou de conjuntos de ruas especializadas: bairro da alimentação, com subdivisões para cada categoria de produtos, desde a carne de burro até o peixe salgado; bairro dos cavalos e dos escravos; bairros da cerâmica, do vestuário e da sapataria [...].

Xenofonte fala de 10.000 casas no começo do século IV a.C. É demais para um espaço restrito, e jardins existem somente nos subúrbios, que se estendem além das portas da cidade, entre os túmulos dispostos ao longo das estradas; mas a boa sociedade só consente em habitar a cidade. Todas essas moradias, muito modestas, não têm, em geral, senão paredes de barro batido, pelas quais os ladrões facilmente abrem passagem. As primeiras residências com mais de um andar e erguidas com fins especulativos causam sensação no século IV a.C. O piso dos cômodos, quase sempre minúsculos, é de barro batido. Falta o mais rudimentar conforto. O problema das instalações sanitárias foi resolvido simplesmente porque nunca preocupou a ninguém.

A única superioridade das vivendas dos ricos reside nas suas maiores dimensões: os compartimentos, um pouco mais espaçosos, distribuem-se em volta de um pátio orlado de algumas colunas. O luxo surge apenas tardiamente, limitado às salas de recepção, cujo teto recebe lambris e cujas paredes são ornamentadas com tapeçarias e pinturas. [...] O mobiliário nunca é faustoso. [...]


Passatempo, John William Godward

Se uma casa atinge um mínimo de abastança, estabelece-se uma separação entre os cômodos reservados à vida estritamente familiar, domínio da mulher, e o andron ou setor dos homens.


Interior grego ou gineceu, Jean-León Gérôme

A mulher, que passa diretamente da casa de seu pai para a de seu marido, não sai. “O caráter desse sexo”, declara Péricles, a crermos em Tucídides, consiste em “obter, entre os homens, o mínimo possível de celebridade, tanto no bem como no mal”. Os deveres primordiais da esposa são: dirigir as questões internas da casa, zelar pelas vestes, ocupar-se dos filhos, sendo que os do sexo masculino escapam à sua autoridade ao atingir sete anos, e as meninas ficam-lhe submetidas até o casamento. [...] Na epopéia homérica, o poeta não hesitava em colocar a mãe Nausíaca na presidência dos banquetes em casa de Acínoo. Tal cena seria inadmissível na Grécia clássica. Percebemos, apenas, nas tragédias de Eurípedes, nas farsas de Aristófanes, em alguns debates filosóficos, que o progresso do individualismo principia a apresentar o problema da personalidade e da libertação da mulher. Mas trata-se de audácias ainda teóricas, cujos efeitos reais não se farão sentir antes do período seguinte.

Toda a vida externa, incluindo a compra de alimentos no mercado, depende do marido.

Sem dúvida, ele é legalmente o senhor em seu lar, mas na medida em que a preocupação com sua tranqüilidade não o faz ceder, como Sócrates, diante de uma esposa impertinente, de fala grossa. Pode repudiar sua mulher, sem precisar invocar motivos ou pretextos, sob a única condição de restituir-lhe o dote. Pode decidir “não criar” seus filhos, isto é, abandoná-los, “expô-los” na via pública nos primeiros dias de seu nascimento, prática seguida com grande freqüência, principalmente em relação às meninas, por razões econômicas, num país pobre, em que um forte crescimento demográfico seria uma catástrofe. A vida nestas moradas estreitas, em companhia de uma mulher cujo espírito, por falta de educação e de contatos sociais, é, em geral, inculto, não lhe proporciona grandes distrações. Passa, pois, boa parte do dia fora de casa, nos lugares públicos, onde encontra as pessoas de seu conhecimento, conversa, informa-se e estabelece amizades, por vezes mesmo relações mais íntimas.


Cena de simpósio: um jovem reclinado possui um aulos em uma mão e dá outro para uma dançarina.  c. 490-480 A.C. Brogos

Não faltam, na verdade, as cortesãs de todas as categorias. Algumas são ilustres, muito cultas. Tal é o caso da milésia Aspásia, a cuja inteligência Sócrates rendeu homenagem e que Péricles fez abertamente sua companheira, repudiando a esposa legítima [...].


Cena de pederastia: “erastes” (amante) tocando a genitália do “eromenos” (amado). Ca. 540 a.C. 
Foto: Haiduc

De mais a mais, o amor grego é também uma realidade resultante da camaradagem guerreira, do espetáculo quotidiano da nudez no ginásio, de um desejo – que não é totalmente impuro – de proteger e educar, por parte do “erasto”, de admirar e ser iniciado por parte do “erômeno”. Numa sociedade em que o ideal masculino é, graças aos lazeres, o de desenvolver as virtualidades individuais, de colocar corpo e espírito num equilíbrio harmonioso, de servir à pátria no conselho e no campo de batalha, numa sociedade em que os costumes, separando os sexos tanto quanto o permitem a necessidades materiais, levam os homens a frequentar apenas os homens e lhes dão o orgulho dos privilégios decorrentes de sua virilidade, a moral não pode coincidir com aquela que uma religião e costumes diferentes modelaram entre nós.


Cena de simpósio: mural da Tumba de Paestum

Os mais ricos prolongam essas relações externas, oferecendo banquetes em suas casas para os quais convidam seus amigos. No andron, onde se encontra o mais luxuoso mobiliário da casam o anfitrião, que não é assistido por sua mulher, manda servir aos seus companheiros de cenáculo político ou intelectual, de esporte ou de deboches, acepipes refinados e vinhos escolhidos. Reclinados sobre os leitos, servidos por escravos, distraídos por interlúdios de todo gênero e, principalmente, pelas tocadoras de flauta, de lira ou de cítara, cujo salário mínimo é fixado pela lei, os convivas conversam familiarmente até tarde da noite, ao sabor de sua fantasia. Na sua maioria essas reuniões vesperais degeneram, indubitavelmente, em repugnantes bebedeiras, das quais muitos não saem em boas condições. Mas nada nos impede de dar crédito, senão à autenticidade, pelo menos à verossimilhança eventual das narrativas de Xenofonte e de Platão, que colocam, no quadro jovial de um “banquete”, elevados debates sobre política, filosofia ou ciência, dos quais participa Sócrates, que se mostra, aliás, notavelmente resistente à embriaguez.


AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 199-204.  (História Geral das Civilizações, v. 2)

NOTA: O texto "As cidades gregas e a vida privada" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.