"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 13 de março de 2017

O Extremo Oriente na Antiguidade: Religiões

Figuras pintadas em uma telha cerâmica de um túmulo da dinastia Han Oriental, Luoyang, província de Henan. Artista desconhecido. 

Nas sociedades extremo-orientais, a religião era profundamente ligada à filosofia. Dessa interligação, e a partir de elementos comuns originários das religiões primitivas - como o culto aos mortos e aos antepassados, culto e sacralização (às vezes divinização) de forças da natureza, principalmente as ligadas à fertilidade da terra, e deuses astrais ou celestiais -, surgiram importantes sistemas religiosos e filosóficos que perduram até hoje.

* Bramanismo-hinduísmo. Religião que se compôs pelo sincretismo entre as formas praticadas pelas populações indianas aborígenes e as que foram introduzidas pelos dominadores arianos. O bramanismo é a expressão e a fundamentação ideológica do sistema que divide a sociedade em castas.

* Budismo. Doutrina criada por um princípe do clã Sakya Muni, chamado Sidharta Gautama, que se tornou o Buda (o Desperto ou o Iluminado). Ele nasceu na segunda metade do século VI a.C. e viveu até quase o final do século V a.C. Sua doutrina expandiu-se na Índia a partir da época do rei Açoka (273-232 a.C.) e atingiu todo o Extremo Oriente, graças ao trabalho de missionários hindus e de peregrinos estrangeiros, sobretudo chineses que buscavam os ensinamentos do Mestre. O budismo prega a plena realização da natureza humana e a criação de uma sociedade perfeita e justa. Aberto a todos os grupos sociais e culturais e a diferentes nacionalidades, hoje se faz presente também no Ocidente.

* Taoísmo. Religião popular na China antiga, baseada em uma fusão de cultos aos espíritos da natureza e aos ancestrais e nas doutrinas de Lao-tsé (570-490 a.C.), sobre o qual as informações existentes são carregadas de componentes lendários. Sua doutrina pregava uma moral de salvação individual, sem preocupação social, como forma de cada um integrar-se ao Tao, concebido como o Elã Cósmico e a Energia Universal.

* Confucionismo. Confúcio (Kung-fu-tzu, Mestre Kung), que viveu entre 551 a.C. e 479 a.C., não foi um líder religioso, mas suas ideias exerceram profunda influência sobre a religião chinesa. Para ele, a realização de uma existência desenvolvida sob o signo de Tao só seria possível numa sociedade justa e civilizada.

* Xintoísmo. De xintó, palavra de origem chinesa, que significa caminho ou via dos deuses. Era a religião original do Japão, anterior à penetração do budismo. Preservou-se como crença popular nas divindades locais, em oposição à crença em Buda, de origem estrangeira. 

O pensamento religioso e filosófico produziu, no Extremo Oriente, uma vasta e rica literatura.

Uma das obras mais importantes é o conjunto de textos hindus, conhecido como Veda, que significa o saber. É o principal fundamento para o bramanismo e expressa a dominação ariana.

Na China, a literatura religiosa, tal como a religião propriamente dita, assumiu um acentuado teor filosófico.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. Sâo Paulo: Saraiva, 2002. p. 88-9.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O Islamismo

O Islamismo, a mais moderna das religiões universais, surgiu na Arábia no século VII em circunstâncias mal conhecidas. Maomé nascera em Meca ao redor do ano 570 de nossa era e havia pregado um monoteísmo, em muitos aspectos, próximo do judaísmo e do cristianismo – que eram conhecidos em seu meio – enfrentando o politeísmo de seu próprio povo. Órfão desde pequeno, foi criado pelo tio Abu Talib que se dedicava ao comércio de caravanas, tendo viajado com ele até 25 anos de idade, quando casou-se com Khadidja, uma viúva rica de 40 anos. Foi ao redor de 611, em meio a uma vida tranqüila e feliz que, uma noite, apareceu-lhe o arcanjo Gabriel e lhe disse: “Lê”. Ele respondeu que não sabia ler e o anjo insistiu: “Lê em nome do criador”, e lhe anunciou que havia sido escolhido para ser o mensageiro de Deus. Sua esposa foi a primeira a converter-se, ao mesmo tempo que seu primo Ali, que casou-se com Fátima, filha de Maomé. Os habitantes de Meca inquietaram-se com esta nova fé monoteísta, que ameaçava as peregrinações aos santuários locais, tornando a situação perigosa para o profeta que, em 16 de julho de 622, fugiu para instalar-se em Medina. Esta viagem, a hégira, é o acontecimento que marca o início da era muçulmana. Foi, então que Muhammad se converteu em um profeta armado e dedicou-se à expansão do Islamismo pela Arábia, até sua morte no ano 632 (ano 10 da hégira).

Alcorão de Al-Andalus (século XIII)

Se, inicialmente, Maomé estava próximo aos judeus que viviam na Arábia, separou-se gradualmente deles, que haviam se aliado com seus inimigos, ao mesmo tempo que se apropriava de suas origens. Abraão foi considerado o fundador de um monoteísmo que havia estabelecido um santuário em Meca (a Ka’Ba, construída por Adão, destruída pelo dilúvio e restabelecida por Abraão) sendo que Jesus era visto como um grande profeta, filho de mãe virgem.

O grande problema do Islamismo, ao morrer Maomé, foi sua sucessão. Muitos eram partidários de que lhe sucedesse Ali, seu primo e genro. Outros queriam que o sucessor, ou califa fosse eleito. Um acordo entre as partes levou à nomeação, como primeiro sucessor, de Abu Bekr, velho companheiro e um de seus sogros (depois da morte de Khadidja, em 619, Maomé chegou a ter 10 mulheres).

O califa já não era um profeta, mas simplesmente um conservador da mensagem de Maomé e o encarregado de expandi-la pelo mundo. Abu Bekr criou um exército e prosseguiu a expansão. Seu sucessor, Omar (634-644), outro sogro de Maomé, conquistou a Síria e concluiu a conquista do Egito. Nos países que conquistavam, os muçulmanos apropriavam-se das terras do Estado e daqueles que não reconheciam a sua autoridade, permitindo, porém, que cristãos, judeus e zoroastrianos continuassem conservando seus bens, sempre que pagassem tributo e não fizessem proselitismo religioso.

Omar foi assassinado por um escravo cristão e um conselho de sábios escolheu, então, como seu sucessor, Othaman (644-656), que fora casado com duas filhas de Maomé e que realizou a compilação do Corão, recolhendo as recordações e testemunhos de todos os companheiros do profeta. Após doze anos de reinado, Othaman morreu, também assassinado. E o quarto califa, e último dos “califas patriarcais”, foi Ali, o mais próximo dos parentes de Maomé (os shariffs ou descendentes do profeta procedem de seus dois filhos) que morreria, por sua vez, assassinado pelo homem que o substituiria, Moaviá, que deu início ao califado hereditário, instalado em Damasco e criou um estado de estilo novo, que já era de um povo em armas, mas que contava com uma administração e um exército profissional.

Enquanto isso, as reivindicações da família de Ali, que se considerava perseguida, iniciaram a divisão do mundo islâmico entre “sunitas” e “xiitas”, que eram os que não aceitavam o califado hereditário e sustentavam a legitimidade da sucessão de Ali através de uma série de imanes (sacerdotes) ou chefes religiosos ocultos. Os xiitas promoveram diversas insurreições e deram lugar a ramos extremistas, como os ismaelitas.

No Islamismo atual, o grupo mais numeroso é o dos “sunitas” ortodoxos, cujo nome procede de sunnah ou costume, representando mais de 85% dos muçulmanos. Há quatro escolas de pensamento sunita que dominam em diversas zonas do mundo islâmico, reconhecendo-se todas entre si, porém, como ortodoxas. Opostas a elas, estão os “xiitas”, correspondendo a 10% dos muçulmanos (entre eles os do Irã e boa parte do Iraque) que se dividem em três escolas – a dos doze sacerdotes (imanes), a dos cinco imanes e a dos ismaelitas ou dos sete imanes – que divergem na estimativa de quem são os imanes herdeiros secretos e legítimos de Ali. Uma das diferenças mais evidentes entre xiitas e sunitas é que os primeiros admitem a autoridade religiosa de um clero, os mujtabids, cujos membros mais importantes são chamados de aiatolás.

Além destes dois, há outros grupos menores no Islamismo. Os coraixitas são uma seita puritana que descende dos que, na disputa sucessória, não estavam nem como Moaviá nem com os descendentes de Ali, porque pensavam que o califado deveria ser eletivo. Há, também, diversas seitas saídas do xiismo que seguem os ensinamentos de profetas próprios, como os bahai, que têm seiscentos mil seguidores, ou a seita ortodoxa de Ahmadiya, na Índia, que afirma que Jesus Cristo morreu na cruz aos 120 anos, na Índia. O fundador deste grupo, que morreu em 1908, proclamava que ele era o mahdhi, o imã esperado, ao mesmo tempo que era, também, o segundo retorno de Jesus Cristo. Uma das duas correntes em que este grupo se dividiu imita os procedimentos das missões cristãs (ainda que seja violentamente hostil ao cristianismo) e tem meio milhão de seguidores, principalmente na África ocidental: na Nigéria (onde contribuiu para a islamização das tribos yoruba), Guana e Burkina Faso.

Há também dois fenômenos associados, que são demasiado complexos para serem sintetizados brevemente. O “sufismo” é uma forma de misticismo que vai além da simples observação da lei islâmica (a “shariah” ou caminho largo) para buscar a união com Deus através do ascetismo, da prece e da meditação, tendo em Ibn Arabi um dos seus maiores representantes, autor de uma imensa obra escrita, que nasceu em Murcia, em 1165, e percorreu todo o mundo islâmico. As confrarias (turuk) seguem as doutrinas de um líder sufi, de um marabut, que ensinam o “modo de aquiescer a Deus, através de determinados ritos, práticas, exercícios e conhecimentos esotéricos”; reúnem-se junto às tumbas dos santos, fazem jejum e vigílias, praticam a dança (como os “derviches girantes”), recitam “recordações” e alguns consomem haxixe ou ópio para facilitar a chegada ao êxtase. Proibidas na Arábia, as confrarias se expandem por todo o mundo islâmico, incluindo Bósnia e Kosovo, e entre os imigrantes muçulmanos da Europa ocidental.

Os sunitas, o grupo majoritário dos muçulmanos, não têm Igreja nem clero. O fiel tem contato direto com Deus, já que o imane (sacerdote) não faz outra coisa do que dirigir a oração coletiva, não sendo um intermediário entre a divindade e o crente. O Corão é a mensagem de Deus através do qual o arcanjo Gabriel, recordado de memória pelos contemporâneos do profeta e escrito em diversas etapas em um texto de 114 surates ou capítulos, compostos de um número variável de versículos. Não é um texto apenas religioso, mas contém, também, normas jurídicas, morais, políticas ou sociais.

A suna (tradição ou costume) é a segunda fonte de lei e se compõe principalmente dos hadits, os dizeres do profeta quando respondia a perguntas sobre a interprestação de seus ensinamentos, transmitidos oralmente por seus companheiros às gerações seguintes. No século IX, foram compilados e discutidos, atribuindo-se-lhes um grau de veracidade. Há seis recompilações fundamentais dos hadits que são fonte do conhecimento ao lado do Corão.

Os princípios do Islamismo são cinco. A profissão de fé: só Deus é Deus e Muhammad é seu enviado. Esta profissão, dita com sinceridade ante testemunhas, basta para que seja considerado muçulmano. A oração (pregaria) que se faz cinco vezes ao dia, só ou acompanhado, sob a direção de um imane ou sacerdote e na direção de Meca, é um ato supremo e purificador. O zakat o imposto-esmola é obrigatório e se destina a atender aos necessitados. O quarto princípio é o jejum de Ramadan e o quinto, o hadj ou peregrinação a Meca.

O califado fragmentou-se como poder político, porém o grande paradoxo foi que, ao romper-se sua unidade, a homogeneidade cultural do mundo islâmico cresceu (é necessário recordar que a comunidade dos muçulmanos, a umma, não reconhece diferenças de tribo, nação, nem de raça) e sua capacidade de expansão e de integração se multiplicou. Os censos religiosos são sempre discutíveis, mas calcula-se que seu número cresce com rapidez, não só porque os países muçulmanos têm, em geral, natalidades elevadas, mas porque sua religião se expande fortemente no mundo subdesenvolvido.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 309-314.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

As grandes religiões do Oriente

O hinduísmo é uma das grandes religiões antigas que chegaram até o presente, sendo, também, uma das que apresentam maior diversidade interior. Seus textos sagrados mais antigos, os Veda (“saber”), contêm hinos que datam de, ao menos, mil e quinhentos anos antes de nossa era e se referem aos deuses dos indo-europeus, como o deus do céu, Dyaus Pitar, que é o Zeus dos gregos e o Júpiter dos romanos (o nome provém de uma voz que significa “luz celestial” e deu lugar, também, a nossa palavra “dia”). Porém, o hinduísmo sofreu uma grande transformação com a introdução das ideias da reencarnação, liberação e yoga entre os anos 800 e 400 a.C., numa época caracterizada por um novo conjunto de textos sagrados, os Upanixades ou “ensinamentos secretos”, complementando o corpo inicial dos Veda, escritos numa língua que havia se tornado incompreensível para os fiéis, com textos de uma grande diversidade que vão desde códigos, como as Leis de Manu, até as duas grandes epopéias do Mahabbarata e o Ramayana, ou a vasta literatura dos Puruna, dedicados geralmente a deuses concretos e a seus mitos particulares.

No hinduísmo, havia uma grande multiplicidade de deuses – diz-se que até 330 milhões -, entre os quais se distinguiam três figuras principais – Brahma (o Criador) e suas duas manifestações complementares Vishnu (o Preservador) e Shiva (o Destruidor) – com suas respectivas deusas consortes, concebidas como manifestações pessoais de força criativa (o pensamento indiano considerava a fêmea como ativa e o macho como mais passivo). Os deuses podiam receber diversos nomes (assim Vishnu seria, em diversos “avatares” ou encarnações, Rama ou Krishna) e aparecer em numerosas variações locais, de maneira que o hinduísmo poder ser interpretado como um politeísmo extremo ou como uma espécie de panteísmo que venera, mais que deuses distintos, formas diversas da divindade.


O Budismo se baseia na vida e nos ensinamentos de Siddartha Gautama (século VI a.C.), chamado Buda o Iluminado, que ensinou a forma de superar a miséria da existência e de chegar a um estado de iluminação por meio de um processo de purificação moral e intelectual. O ensinamento de Buda, transmitido de forma oral e recolhido, mais tarde, nos textos da “cesta tripla” ou “tripitaka”, não é, estritamente, uma religião – não contém a ideia de um deus ou ser supremo que controle o universo -, mas sim uma regra de vida que ensina a forma de libertar-se das baixezas e sofrimento da existência indo até à extinção ou nirvana.

O fato em si de que o Budismo não tenha um dogma nem uma autoridade religiosa – Buda não deixou nenhum sucessor pessoal -, ocasionou que sua expansão tenha se produzido de acordo com modalidades diferentes. No Sri Lanka, manteve-se em sua maior pureza o Budismo Theravada, que estabeleceu o que se chamou de um “misticismo sem deus”, no qual se utilizam técnicas de lavagem cerebral semelhantes às dos contemplativos islâmicos ou cristãos para chegar a um estado de libertação pessoal. Na Índia, ao contrário, desenvolveu-se, a partir do século VII de nossa era, o chamado Budismo Vajrayana ou Mantrayana, que poria a ênfase em ritos mágicos e sacramentais e na recitação de “mantras” ou fórmulas sagradas. Esta modalidade, que na Índia foi assimilada gradualmente pelo hinduísmo (o que explica que o Budismo acabou ali), foi a que se difundiu no Nepal e no Tibete, onde após o enfrentamento armado entre duas facções religiosas, acabou constituindo uma teocracia que destituiu a monarquia, dando o poder político e religioso aos 14 Dalai Lamas que foram se sucedendo, desde Gedun Truppa (1391-1475) até Tenzin Gyatso (nascido em 1935). A expansão pela China, Vietnã, Coréia e Japão fez com que o Budismo se associasse, nesses países, a outras tradições religiosas, dando origem a correntes originais, como o zen japonês.

A China é descrita, geralmente, como “a terra das três religiões”, referindo-se ao confucionismo, ao Taoísmo e ao Budismo. Entretanto, o confucionismo não é propriamente uma religião, mas uma norma social e de conduta, ainda que inclua manifestações de culto, especialmente aos antepassados. Não tem dogmas, nem clero, nem templos, nem monastérios, o que explica que seja confundido com a cultura tradicional chinesa. O Taoísmo religioso, que não deve ser confundido com o filosófico, é uma religião popular com uma hierarquia clerical, liturgia, textos sagrados e um panteão de deuses santos. Não tem uma organização nem um credo unificados, mas apresenta uma espécie de federação de comunidades, em sua maior parte laicas, que tem especial importância em Taiwan e em Hong Kong. O Budismo, que se difundiu na China a partir do século II de nossa era, o fez através de variantes ecléticas, próximas da prática do Taoísmo. A religião popular, o que melhor se pode qualificar como “religião chinesa”, formou-se com um conjunto de ideias e de práticas provenientes tanto do Taoísmo, como do Budismo e da “religião do Estado”, convencionalmente denominada de confucionismo (uma combinação normal seria, por exemplo, a de tomar as normas do confucionismo como guia da vida cotidiana, recorrer ao Taoísmo para os ritos de purificação e dos exorcismos, e ao Budismo, para a celebração dos funerais).

Resta, ainda, o xintoísmo japonês, que não é outra coisa do que um amálgama de religiões tradicionais anteriores à chegada do Budismo, tendo vivido longamente associado a este, já que a doutrina e o culto xintoísta eram compatíveis. A restauração Meiji de 1868 quis convertê-lo em uma religião nacional, unida ao culto do imperador, porém teve que acabar aceitando a coexistência das “três religiões” (xintoísmo, Budismo e cristianismo) e perseguindo as seitas extremistas e as novas religiões. Apesar do imperador ter sido “desdivinizado” em 1945, como conseqüência de sua derrota na Segunda Guerra Mundial, os japoneses continuam participando das festas e dos ritos xintoístas, como se fossem atos de uma cultura que lhes é própria.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusc, 2000. p. 295-298.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Bênção da moradia (Prece cheroqui)

Tipi Crow, George Catlin

Que os ventos suaves do céu soprem
Docemente sobre esta casa
E que o grande espírito
Abençoe a todos que entram aqui

Povo cheroqui

(Texto de autor desconhecido. Este povo vivia na bacia do Mississipi, no Leste dos Estados Unidos. Foi removido, em 1830, para o oeste, numa marcha forçada, conhecida como Caminhada das Lágrimas. Tradução para o português de Patrick Clarke.)

GUARANI, Emerson; PREZIA, Benedito (orgs.). A criação do mundo e outras belas histórias indígenas. São Paulo: Formato Editorial, 2011. p. 50.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Os Vedas, literatura sagrada da Índia

Críxena (à esquerda), a oitava encarnação de Vishnu, com sua consorte, Rada. Pintura do século XVII.

Os textos védicos são os primeiros monumentos literários da Índia. Considerados como "Revelação", constituem os textos fundamentais do hinduísmo. Os Vedas, palavra sânscrita que significa o "Saber" por excelência, cada uma das quatro grandes coletâneas de textos, entre os quais o Rigveda, o "Saber disposto em estrofes", que é o mais antigo. Se os Vedas só foram postos por escrito a partir de 500 a.C., concorda-se que esses escritos fixaram tradições bem anteriores.

Os primeiros textos foram compostos por volta de 1500 a.C., a seguir foram transmitidos oralmente durante gerações pelos árias (ou arianos), um povo originário da Ásia central que se estabeleceu na Índia a partir de 1000 a 800 a.C. Nada tem de surpreendente o fato de o período de transmissão oral ter sido tão longo - prosseguindo mesmo depois que a escrita entrou em uso: para os hindus, tal como foi transposto em palavras por sábios míticos, os Vedas, que são intemporais e de inspiração divina, devem ser "ouvidos". É por isso que Veda é também chamado de a "audição" e, hoje, ainda a regra é que seja aprendido de cor, da boca de um mestre.

Além dos conhecimentos relativos aos mitos e aos ritos sacrificiais, o Rigveda nos ensina que a religião védica preconiza uma sociedade ideal dividida em quatro grandes classes hierárquicas: no alto estão os brâmanes, sacerdotes depositários dos Vedas, seguidos dos guerreiros e dos produtores de bens. Vêm, por fim, os servidores, que não têm acesso aos textos sagrados. Essa estrutura sociorreligiosa está na base do sistema de castas que sobrevive até nossos dias.

SALLES, Catherine [dir.]. Larousse das civilizações antigas 1: dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 43.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os profetas hebreus

Profeta Amós, Aleijadinho. (Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, Minas Gerais)

A história hebraica caracterizou-se pelo aparecimento dos profetas, homens espiritualmente inspirados que se sentiam compelidos a agir como mensageiros de Deus. O florescimento do movimento profético - a era da profecia clássica ou literária - teve início no século VIII a.C. Entre os profetas estavam Amós, um pastor da Judéia, no sul; seu contemporâneo mais jovem, Oséias, de Israel, no norte; Isaías, de Jerusalém; e Jeremias, que testemunhou o cerco daquela cidade, no começo do século VI a.C. Os profetas não ligavam importância ao dinheiro ou aos bens materiais, não temiam pessoa alguma e pregavam sem serem convidados. Apareciam muitas vezes em períodos de miséria social e confusão moral e pleiteavam o retorno à aliança e à Lei. Exortavam as pessoas e ensinavam-lhes que, quando se esqueciam de Deus e se tornavam o centro de todas as coisas, atraíam a desgraça sobre si e sua comunidade. Para os profetas, os infortúnios que se abatiam sobre a nação eram uma oportunidade de penitência e reforma. Eles eram homens dotados de grande coragem, que não tremiam diante dos poderosos.

Ao atacar a opressão, a crueldade, a cobiça e a exploração, os profetas clássicos acrescentaram uma nova dimensão ao desenvolvimento religioso de Israel. Eles reagiam aos problemas decorrentes das mudanças na estrutura social de Israel. A fala geral de distinções de classe que caracteriza uma sociedade tribal fora alterada pelo advento de reis hebreus, pela expansão do comércio e pelo crescimento das cidades. Por volta do século VIII, havia uma disparidade significativa entre a riqueza e a pobreza. Os pequenos agricultores, em débito com os usuários, corriam o risco de perder suas terras ou mesmo de se tornarem escravos; os pobres eram frequentemente despojados pelos ricos gananciosos. Para os profetas, essas iniquidades sociais eram pecados religiosos que levariam Israel à ruína. Em nome de Deus, denunciavam os ricos desalmados e clamavam por justiça. Deus é clemente, insistiam os profetas. Ele zela por todos, especialmente o pobre, o desafortunado, o sofredor e o indefeso. Eram injunções de Deus:

[...] tirai de diante dos meus olhos a malícia dos vossos pensamentos, cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem, procurar o que é justo, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a viúva. (Isaías, 1:16.17)

Os profetas salientavam o encontro ético-espiritual entre o indivíduo e Deus. Era com o interior de cada homem e não com as formas exteriores da atividade religiosa que eles se preocupavam. Ao sustentarem que a essência da aliança era a virtude universal, os profetas criticavam os sacerdotes cujo compromisso com ritos e rituais não se fundamentava numa profunda convicção espiritual ou na preocupação com a moralidade da vida cotidiana. Para eles, o pecado ético era muito pior que a ausência de rituais. Acima de tudo, afirmavam, a virtude era uma exigência de Deus. Viver de modo injusto, maltratar o próximo, agir sem compaixão eram ações que violavam a lei de Deus e punham em perigo toda a ordem social.

Desse modo, os profetas moldaram uma consciência social que se tornou parte da tradição do Ocidente. Acenaram com a esperança de que a vida terrena podia ser melhorada, de que a pobreza e a injustiça não precisavam ser aceitas como parte de uma ordem natural e imutável e de que o indivíduo era capaz de elevar-se moralmente e respeitar a dignidade dos outros.

Duas tradições contrárias estavam presentes no pensamento hebreu: o provincianismo e o universalismo. O espírito provinciano salientava a natureza peculiar, o destino, as necessidades do povo eleito - uma nação separada das demais. Essa concepção restrita, porém, era compensada pelo universalismo, preocupação com toda a humanidade, expressa pelos profetas que anteviam a unidade de todos os povos sob o governo de Deus. Todos os povos eram igualmente valiosos para Deus.

Os profetas não eram pacifistas, sobretudo quando se tratava de guerras contra os inimigos de Javé. Alguns deles, porém, denunciavam a guerra como obscena e ansiavam pela sua eliminação. Quando as pessoas glorificam a força, sustentavam os profetas, elas desumanizam os seus oponentes, brutalizam a si próprias e desonram a Deus. Quando impera a violência, não pode haver amor a Deus nem respeito ao indivíduo.

O universalismo dos profetas acompanhou-se de uma consciência igualmente profunda do indivíduo e de seu valor intrínseco. Antes dos profetas, quase toda a tradição religiosa fora uma produção comunitária, anônima. Mas os profetas falavam como indivíduos destemidos, que, ao assinarem o que diziam, assumiram total responsabilidade por sua inspiração e convicção religiosa.

Os profetas enfatizavam a responsabilidade de cada indivíduo por suas ações. Ao passarem a considerar a lei de Deus como um mandamento à consciência, um apelo ao homem interior, aumentaram a conscientização da personalidade humana. Mostraram que não se podia conhecer a Deus simplesmente seguindo seus implacáveis editos e cumprindo ritos; cada pessoa deveria experimentar Deus. Era precisamente essa relação Eu-Vós que daria ao indivíduo plena consciência de si mesmo e poderia aprofundar e enriquecer a sua própria personalidade. Durante o Êxodo, os hebreus eram um povo tribal, que obedecia à lei movido em grande parte pelo medo e pela coação do grupo. Na época dos profetas, entretanto, afiguraram-se como indivíduos autônomos, atentos à Lei em virtude de um compromisso deliberado, consciente e íntimo.

Os ideais dos profetas ajudaram a confortar os judeus através de toda a sua longa e não raro penosa odisséia histórica. Incorporados aos ensinamentos de Jesus, esses ideais, como parte do cristianismo, impregnaram a tradição ocidental.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 38-39.