"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 17 de março de 2014

A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento

A arqueologia é uma disciplina que não pode ser desvencilhada de muitas outras com as quais está relacionada. O estudo da cultura material, de todo o imenso arsenal de artefatos que fazem parte do cotidiano do ser humano depende, em muitos casos, da interação da arqueologia com outras áreas.


Escavação em Pompeia, Lello Capaldo

A sua relação com a história é particularmente importante, quando mais não fosse porque, para alguns arqueólogos, a sua disciplina nada mais seria do que uma complementação da história [...]. Além disso, na tradição europeia, da qual somos também tributários, a arqueologia surgiu no seio da história. Assim, qualquer que seja o ponto de vista, a relação com a história constitui aspecto central da disciplina [...].

A cultura material estudada pelo arqueólogo insere-se, sempre, em um contexto histórico muito preciso e, portanto, o conhecimento da história constitui aspecto inelutável da pesquisa arqueológica. Assim, só se pode compreender a cerâmica grega se conhecermos a história da sociedade grega, as diferenças entre as cidades antigas, as transformações por que passaram. A história, contudo, não é tampouco uma descrição do passado tal qual aconteceu, é uma interpretação e, por isso, tanto mais será importante conhecer as controvérsias historiográficas sobre o período histórico tratado.

Não se trata, assim, de usar a história como fonte segura de informações, mas de conhecer as discussões dos historiadores e relacionar tais questões à cultura material estudada. As ciências não são apenas auxiliares umas das outras, elas mantém relações entre si. Os dados materiais, analisados pela arqueologia, podem tanto confirmar, como complementar e mesmo contradizer as informações das fontes históricas. Esses dois últimos aspectos são os mais importantes, pois permitem ao arqueólogo ir além daquilo que está nas fontes escritas.

[...]

No século XIX, quando surgiu a antropologia, o contato das potências imperialistas, como Inglaterra, França e Estados Unidos, com povos periféricos, a exemplo dos africanos, asiáticos e latino-americanos, fez com que essa disciplina se desenvolvesse, como uma maneira de conhecer de que modo viviam os chamados "primitivos". Nos Estados Unidos, a oposição entre "nós" (os americanos) e "eles" (os primitivos) dividiu as disciplinas história e antropologia, que se constitui de quatro áreas: etnologia, lingüística, antropologia física e arqueologia.

Todas essas disciplinas ligavam-se ao estudo dos indígenas, vivos ou mortos. Para o conhecimento dos índios mortos, por meio dos vestígios materiais, desenvolveu-se a arqueologia. Com o decorrer do tempo, contudo, a antropologia passou a tratar do conhecimento dos ritos, costumes e características de quaisquer sociedades, em qualquer época, inclusive as nossas contemporâneas. Se a história se preocupa com a transformação e a mudança, a antropologia procura explicar a transmissão de valores culturais, de normas de conduta.

[...]

Mas não é apenas no estudo dos artefatos que a antropologia é importante. A antropologia pode fornecer modelos de funcionamento da sociedade que permitem ao arqueólogo melhor entender o que ele estuda. [...]

[...] a antropologia física pode ser decisiva para o trabalho arqueológico. Para tanto, é necessária a preservação de vestígios esqueletais, algo que nem sempre é fácil, já que solos ácidos consomem os ossos em poucos anos. Quando preservados, sua análise permite que possamos estudar uma infinidade de aspectos da vida daqueles seres humanos. Assim, podemos saber quais as idades aproximadas em que as pessoas morriam e suas condições físicas no final da vida. Com isso, depreendemos que, em muitas sociedades antigas, a maioria das pessoas morria relativamente jovem.

Podemos, ainda, identificar algumas das doenças que afligiam populações antigas, assim como, pelo desgaste dos dentes, sabemos o que comiam ou mesmo se usavam os dentes para trabalhos de cestaria, como era o caso de tribos indígenas brasileiras. Em Herculano, cidade soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., encontraram-se corpos que mostram até mesmo as deficiências alimentares e os maus tratos sofridos pelos escravos romanos.

Mais recentemente, arqueólogos em colaboração com antropólogos físicos, escavaram e identificaram corpos de pessoas assassinadas pelas ditaduras latino-americanas, os chamados "desparecidos". Na medida em que não há registros das pessoas assassinadas pelas ditaduras, a identificação dos mortos assim como da maneira como morreram pode ser muito importante para os familiares das vítimas e para a sociedade como um todo.

[...]

Da antropologia física, passemos à biologia, seja em termos de teorias, seja das técnicas. O evolucionismo, surgido com as teorias de Charles Darwin para explicar as transformações da vida, tem sido aplicado ao estudo arqueológico, em especial o estudo das mudanças nas espécies de primatas e às plantas e animais ligados ao homem. [...]

O estudo do DNA dos animais e das plantas tem sido também muito difundido, trazendo relevantes informações para os arqueólogos. [...] O estudo genético dos indígenas americanos tem indicado, por sua parte, que todos têm origem asiática e que a sua migração nas Américas deu-se do Alaska para o sul.

Já a geografia, tanto física como humana, relaciona-se de maneira estreita com a arqueologia, pois os homens sempre viveram em interação com o meio ambiente. O conhecimento das condições fisiográficas e climáticas, em determinado momento do passado, é importante para se entender, por exemplo, o surgimento da civilização egípcia. [...]

[...]

As diversas histórias da arte e da arquitetura também são áreas importantes para o estudo arqueológico das sociedades históricas, nas quais os estilos artísticos e arquitetônicos marcam as diversas civilizações desde, ao menos, cinco mil anos. Todos vivemos tanto no espaço externo, geográfico, como no espaço construído dos edifícios. A arqueologia da arquitetura tem mostrado como as plantas dos edifícios podem nos dizer muito sobre a maneira como as pessoas viviam, fundamentado no princípio da facilidade ou dificuldade de acesso ao interior e aos aposentos.

[...]

O controle e a vigilância da sociedade capitalista foi incorporado na arquitetura, a partir de fins do século XVIII, tema que foi abordado por estudiosos de outra área do conhecimento: a filosofia. [...] Segundo Foulcaut, a sociedade, a partir do século XIX, tornou-se cada vez mais controladora e vigilante do comportamento das pessoas, o que afetou inclusive a cultura material e não apenas os edifícios [...].

[...]

O marxismo, por sua vez, é tão variado que se poderia citar uma pletora de influências na arqueologia, com destaque para o papel chave da filosofia marxista tal como entendida por Vere Gordon Childe, já no início do século XX, e para os marxismos da Escola de Frankfurt e sua teoria crítica [...].

[...]

Segundo alguns estudiosos marxistas, a arqueologia voltada para o divertimento, à la Indiana Jones, seria mero entretenimento. Seria como se a arqueologia servisse apenas para as pessoas sonharem com as antigas civilizações, "viajarem" como o fazem ao folhear as belas imagens da revista National Geographic. [...]

A arqueologia liga-se a outra ciência humana: a lingüística. Em termos históricos, tanto a arqueologia europeia como americana surgiram no bojo do estudo das línguas. A filologia histórica europeia estabeleceu a existência de troncos lingüísticos e, por analogia, procurou-se identificar, na cultura material, tais transformações e origens. [...]

[...]

A arqueologia não pode ser pensada, ainda, sem a referência à museologia, aos estudos de gestão do patrimônio, ao seu aspecto público. [...]

[...]

A arqueologia cada vez mais deve voltar-se para as disciplinas que refletem sobre o destino da cultura material que ela estuda e o caminho que se tem proposto é a colaboração da população em geral de maneira que esta possa ajudar a definir os usos desse material e mesmo sua interpretação. Também mostra-se relevante a tendência de interação dos arqueólogos com grupos de interesse, como os movimentos de mulheres ou de minorias étnicas (como os indígenas, os afro-descendentes etc.), sempre objetivando uma arqueologia que não seja excludente, mas que propicie a participação das pessoas no acesso ao conhecimento.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 85-98.

NOTA: O texto "A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

As fontes da história pré-cabralina

[...] todas as fontes da história do território hoje conhecido como Brasil, antes da chegada dos europeus, são arqueológicas - ou seja, compostas de registros materiais deixados pelos homens e parcialmente preservados dos processos naturais de degradação. Os ossos humanos informam sobre idade, sexo, características físicas tanto individuais quanto diagnósticas do tipo de população (evita-se o termo raça), posturas frequentes e tipos de esforços mecânicos, doenças e alimentação. Os restos de animais pequenos fornecem dados sobre o ambiente local (umidade, temperatura); os de animais caçados, sobre as escolhas e os hábitos de preparo alimentar. Os vegetais (raramente preservados) evidenciam as técnicas de coleta e/ou de cultivo, e as modificações genéticas sob domesticação.

Cerâmica marajoara: urna funerária. Ca. 400-1400.

Os instrumentos de pedra (mais facilmente preservados, mas nem por isso os mais comuns na época pré-histórica), de osso, de cerâmica ou artefatos vegetais informam sobre as tecnologias conhecidas pelo grupo que os fabricou, mas também as marcas específicas que diferenciavam a produção de um grupo com referência aos vizinhos (por vezes até se pode reconhecer o "jeito" de um indivíduo). Os vestígios de uso nos artefatos (estudados no microscópio ou a partir de análises químicas) podem indicar os produtos fabricados ou preparados. Os grafismos (pinturas, gravuras) deixados em paredões (a chamada arte rupestre) ou em pequenos objetos, assim como as esculturas e modelagens, permitem abordar a esfera do pensamento simbólico por meio de temas, formas e ritmos privilegiados pelas populações.


Pintura rupestre: Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí

Por outro lado, além dos vestígios "culturais", importam os vestígios "naturais" que informam sobre o paleo-ambiente: clima, vegetação, fauna e topografia, que mudam ao longo do tempo, influenciando as coletividades humanas. Além disso, não é somente a presença de vestígios que deve ser verificada, mas também a ausência de outros elementos: por exemplo, a exclusão de determinado animal da dieta é tão significativa quanto a presença de outro; a ausência sistemática de ossos de criança num cemitério pode ser tão importante quanto a presença de esqueletos adultos.

Mas a arqueologia não se faz apenas da coleta de objetos isolados. Somente a relação dos vestígios contemporâneos entre si permite reconhecer as estruturas arqueológicas e arriscar uma interpretação da vida quotidiana. Os vestígios encontram-se em conjuntos que denominamos sítios arqueológicos. Estes podem conter vestígios de apenas uma ocupação ou de várias delas. No segundo caso, é necessário tentar separar os restos de cada ocupação (seja esta breve momento ou um período de vários anos), o que se faz com escavações estratigráficas, procurando-se distinguir os estratos sedimentares uns dos outros. Trata-se de um método de aplicação delicada que permite separar objetos mais recentes dos mais antigos, sem tornar possível calcular a idade exata dos estratos considerados. Para se obter uma cronologia mais precisa, devem-se obter datações por métodos físico-químicos. Destacam-se o do radiocarbono (que possibilita, em certas condições, calcular a idade da morte dos seres vivos a partir da radioatividade residual do carbono preservado em carvões vegetais, em ossos ou em conchas) e o da termoluminescência residual em torrões de barro queimado e cacos de cerâmica.

Os sítios arqueológicos não são entidades isoladas, mas elementos dentro da ocupação de um território por uma população. Alguns deles refletem ocupações sazonais, enquanto outros correspondem a habitações de longa duração. Alguns mostram apenas atividades precisas e limitadas (cemitérios, locais de extração de matéria-prima, ateliês de fabricação de instrumentos, locais de preservação de alimentos etc.), enquanto outros guardam vestígios de atividades diversificadas. Uns evidenciam a exploração de zonas baixas (por exemplo, para agricultura ou pesca), enquanto outros correspondem a um uso casual (tal como caça, coleta de determinadas plantas ou realização de rituais). Cada sítio deve ser abordado de uma maneira específica, e nenhum deles apresenta uma visão completa da ocupação do território.

Dessa forma, a prática da arqueologia é extremamente complexa, e o arqueólogo depende da colaboração de vários especialistas (biólogos, geomorfólogos, físicos etc.). Por outro lado, ele dispõe apenas de fragmentos da realidade do passado - sobretudo o lixo, e ainda por cima selecionado pelos agentes de degradação natural. Enfim, o processo de identificação e coleta em campo, bem como a interpretação dos resultados de análise, deve ser submetido a inúmeras críticas: serão os sítios estudados representativos das atividades da população em pauta? Os vestígios apresentados são significativos o bastante para sustentar as interpretações? Será que alguns dos supostos instrumentos podem ter sido produzidos pela natureza? Os carvões encontrados são de origem antrópica ou não? Os vestígios vegetais e ósseos são restos de alimentação humana ou animal? Ou seriam restos de algum animal morto acidentalmente no lugar onde morava? Será que a escavação foi realizada segundo o procedimento correto? Teria havido perturbações estratigráficas não reconhecidas pelo arqueólogo? Ou contaminação das amostras datadas?

Essas dúvidas costumam ser levantadas em função dos argumentos apresentados pelos arqueólogos (sobretudo quando os resultados são inesperados) e da sua credibilidade em geral. Explicam por que vários especialistas têm opiniões divergentes a partir dos mesmos dados presentes numa publicação. A crítica esperada dos pesquisadores por seus pares é a melhor garantia da qualidade das pesquisas futuras. Nas discussões aparecem os limites do trabalho realizado e surgem novas propostas para responder aos questionamentos.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. p. 13-17.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A História dos índios da América

Chac Mool. Templo Mayor, México. 
Foto: Adriel A. Macedo Arroyo

"Hoje estamos começando a sonhar do fundo dos 500 anos que passamos mergulhados no túnel do tempo. Durante o longo caminho desse túnel, foram exterminadas muitas culturas... Só agora é que estamos com direito de ter comunicação, através da escrita na nossa própria língua, e recuperar nossas tradições. Mas este túnel do tempo mostra que somos capazes de realizar sonhos que sempre tivemos como povos diferentes e valorizados dentro de nós mesmos."
(João Mana, Kaxinauá, 1997)

Índios iaunauás
 Foto: Cecon/Agência de Notícias do Acre

Muitos povos indígenas foram atingidos pela conquista. Os conquistadores desejavam se apossar de tudo e subjugar a todos.

Que estranha é essa raça humana!

Nos primeiros tempos, era somente a conquista, a depredação, o espanto. Depois, os conquistadores foram criando os mecanismos da colonização; enviaram pessoas para administrar, cumprindo as ordens da coroa. Dividiram as terras e escolheram as estratégias para produzir o maior lucro possível.

Para as coroas europeias, as colônias precisavam ser muito lucrativas para compensar os gastos investidos. Dessa forma, era necessário cercar-se de todos os cuidados para garantir a produção. Principalmente nas regiões onde os impérios indígenas possuíam riquezas fabulosas e conhecimentos para produzir ainda mais, os colonizadores espanhóis, rapidamente, puseram em prática os esquemas armados pela coroa espanhola.

Mas, na verdade, tanto Portugal quanto a Espanha tiveram que se preocupar com os índios. Era uma realidade da qual não podiam fugir.

Para o colonizador, não era bom ter índios fortes. Era importante apossar-se de suas riquezas, de seus saberes, de seus segredos, mas não havia interesse em tê-los como amigos.

Aos olhos dos europeus, os índios eram inferiores. Nem sempre eram reconhecidos como gente. Na maioria das vezes, referiam-se a eles como seres estranhos e exóticos. Chegaram a levar alguns deles para ser expostos nas cidades europeias.

Foi um imenso choque cultural. De um lado, os europeus com sua cultura, seu grau de desenvolvimento, suas formas de vida. Do outro, a América, com uma variedade imensa de grupos indígenas, possuindo uma História completamente diferente.


Tipis  
Foto: Edward Curtis

Sem dúvida, foi um choque doloroso para os povos americanos, mas mexeu também com a cabeça dos europeus. Muitos valores foram derrubados, muitas ideias foram colocadas de lado e, em seus lugares, apareceram novos conhecimentos do mundo, dos homens e da vida. Se o Velho Mundo conhecido já não era mais o único, suas crenças e saberes também não eram mais.

Hoje, estudando aquele momento da História, nós somos capazes de enxergar os dois lados da cultura, mas naquela época era muito difícil para a maioria dos europeus tratar principalmente os índios americanos e os negros africanos como seus iguais. Para os europeus do século XVI, vivendo um nível de vida cultural muito diferente, os outros eram inferiores.


Petróglifo: guerreiro comanche. 
Foto: Jerry Willis

Enquanto os homens da Europa viviam a época do Renascimento - na arte, na ciência, na técnica, na literatura -, os homens da América, da África negra e das ilhas da Oceania viviam outro momento de sua História, que em nada lembrava a forma de viver dos europeus.

Os conquistadores não foram capazes de entender as diferenças e respeitá-las. Os reis, em sua política de colonização, não estavam preocupados em respeitar o modo de vida de povos tão diferentes, mas em trazer para as colônias o seu próprio modo de pensar, administrar, construir etc. Assim, por exemplo, nasceu nas colônias uma arquitetura - igrejas, palácios, residências - dentro do estilo de suas metrópoles. As colônias passaram a ser lugares onde as metrópoles expandiam os seus interesses econômicos e políticos, onde demonstravam o seu grau de cultura e religiosidade.

Na forma de pensar dos europeus, as culturas indígenas não tinham valor. Nem mesmo as dos incas, astecas e maias, que eram muito mais sofisticadas do que, por exemplo, as culturas dos índios do Brasil.¹

¹ Cada civilização americana desenvolveu processos históricos específicos e originais. [...]

A atividade econômica predominante era a agricultura de subsistência, destacando-se, na América Central, a cultura do milho.

As técnicas de irrigação e fertilização do solo eram suficientemente desenvolvidas para possibilitar o atendimento das necessidades de populações bastante densas. Utilizava-se o guano, adubo produzido com as fezes de um pássaro que, por isso, não podia ser morto.

A propriedade da terra era coletiva. Cada grupo familiar ou clã tinha direito a receber e utilizar uma área que suprisse suas necessidades. As terras não distribuídas eram consideradas propriedades do Sol. O povo era obrigado a cultivá-las também para o sustento de sacerdotes, governantes e suas famílias. A produção excedente das terras do Sol era armazenada e distribuída para a população quando as colheitas eram insuficientes.

Entre maias, astecas e incas havia atividades manufatureiras bem desenvolvidas, por meio dos quais se produziam utensílios domésticos, objetos de ornamentação e de culto e tecidos.


Arte erótica chimu em madeira e tecido.
Museu de Artes Walters

Os três grupos manipulavam metais. Os astecas utilizavam o cobre, e os incas dominavam a técnica de obtenção do bronze. O ouro, a prata e as pedras preciosas eram largamente empregados em uma sofisticada produção de jóias e objetos ornamentais que maravilharam os europeus e aguçaram sua cobiça. Contudo, não utilizavam o ferro, por isso não tinham desenvolvido uma atividade industrial mais complexa. Esses povos eram também excelentes ceramistas. Produziam obras magníficas, com os quais enfeitavam grandes construções arquitetônicas.


Estatueta de cerâmica representando um cacique.
Foto: Michel Wall

[...] Sua arquitetura era grandiosa. Os maias e astecas construíram grandes pirâmides. Os templos, palácios e as residências dos ricos eram construções monumentais, nas quais se usavam pedras. As casas pobres, por sua vez, eram de adobe (tijolo feito com argila crua, seco ao Sol).


Pirâmide do adivinho.
Uxmal

O comércio era bastante evoluído. Feito, de modo geral, em espécie (os astecas usavam cacau como moeda), foi responsável pelo surgimento de um grupo de comerciantes socialmente muito forte.


Reconstituição do mercado de Tlatelolco.
Joe Ravi

As civilizações americanas tornaram-se, apesar da importância da atividade agrária, predominantemente urbanas. Grandes cidades surgiram tanto na América Central como nos Andes.


Reconstituição de Tenochtitlán
México

As cidades possuíam sistema de esgoto e canalização de água, as ruas eram calçadas e havia jardins bem construídos. As estradas interligavam as cidades de cada império.

Em diversos aspectos da cultura e dos conhecimentos científicos, destacando-se a medicina e astronomia, os variados registros das civilizações centro-americanas e andinas indicam níveis elevados e complexos de elaboração.


Tiahauanaco, Bolívia. 
Foto Silvio Martins

Conheciam as propriedades medicinais de diversas plantas. Estudavam os movimentos dos astros, previam os eclipses e elaboravam calendários lunares precisos. Os maias possuíam um calendário, adaptado depois pelos astecas, com ano de 365 dias, dividido em 18 meses de 20 dias e um mês complementar de 5 dias, que a cada quatro anos tinha um dia a mais, resultando em um ano bissexto. Os cálculos astronômicos promoviam e valiam-se de bons conhecimentos matemáticos.

Os maias e astecas possuíam uma escrita ideográfica, há bem pouco tempo decifrada, em fase de evolução para a fonética, e os incas utilizavam um sistema de nos atados em pequenos cordéis coloridos - os quipos.

[...]

A organização social expressava a estrutura econômica e a organização religiosa. A grande importância da religião tornou muito poderoso o grupo sacerdotal, que se identificava com o dos governantes, também considerados ligados aos deuses. Em seguida, na escala social, havia o grupo dos guerreiros, muito prestigiados por seu papel na defesa da sociedade e na expansão do império. A base social era formada pelos trabalhadores que cultivavam a terra e desenvolviam as atividades manufatureiras. [...] Os escravos eram prisioneiros de guerra, incumbidos dos serviços mais pesados. Contudo, a escravidão não era hereditária. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 277-279)


Representação do deus Jaguar do lírio aquático. Período Clássico da cultura maia.
Foto: Simon Burchell

Hoje é difícil estudar a vida dos índios daquele tempo. Destruíram-se quase todos os documentos, as cidades indígenas foram transformadas em cidades espanholas, foram queimados muitos conjuntos de escrita, chamados de códices, milhares de peças de arte confeccionadas em ouro e prata foram fundidas e transformadas em barras.

Além do mais, um número altíssimo de índios morreu durante a conquista e a colonização. Foram mortos em combates, por doenças e pelo excesso de trabalho imposto pelo colonizador. Tribos inteiras tiveram suas vidas completamente desorganizadas, pois as famílias, muitas vezes, foram esfaceladas, os grupos desmembrados e as imagens dos deuses destruídas.

Considerando-se, também, que em todos os impérios e tribos indígenas a cultura era passada de uma geração a outra pela tradição oral², com a morte de centenas de sábios, morreram também muitas experiências e conhecimentos.


²  Oração para pedir paz e sabedoria (Prece sioux)


Ó grande espírito de nossos antepassados,
A ti levanto meu cachimbo!
Levanto-o também aos teus mensageiros,
Os quatro ventos, e à nossa mãe terra,
Que sustenta nossos filhos.
Dá-nos a sabedoria para ensinar nossas crianças
A amar, a respeitar os outros,
Para que sejam boas entre elas,
E para que cresçam com a paz na mente.
Ensina-nos a dividir todas as boas coisas
Que tu enviaste para nós nesta terra...
(Povo sioux*)

* Texto de autor desconhecido. Este povo vivia na região central das planícies dos Estados Unidos e resistiu bravamente ao avanço europeu, autodenominando-se Dakota, que significa "povo".

Xamã da Amazônia 
Foto: Veton Picq

Pouca coisa restou produzida inteiramente pelos índios daquele tempo. Alguns religiosos que chegaram no período da conquista ou depois, com os colonizadores, foram os responsáveis pela preservação da obra indígena. Não somente recolheram e guardaram documentos, como também ouviram os índios e registraram as suas histórias.

Entre os diários de viagem, os relatórios e as crônicas dos primeiros tempos dos europeus na América, estão também as obras escritas pelos missionários. Frei Bartolomeu de Las Casas foi um que escreveu bastante, denunciando o tratamento que o colonizador espanhol dispensava aos índios. Outro, o padre Bernardino de Sahagún, pôs-se a ouvir os índios e foi registrando as histórias, as lendas, as canções, as experiências e, assim, chegou até nós um pouquinho daqueles tempos.


Guerreiros astecas
Códice florentino. Artista indígena desconhecido.

Somente através de documentos pode-se conseguir reconstruir a História de um povo. Onde não há documentos, o passado nada mais pode ser além de silêncio.

Mas, quando há documento verdadeiro, não há silêncio. Os livros, os diários, os relatos falam, como falam também as artes, as lendas, as crônicas, os mitos, as ruínas das cidades...

GARCIA, Ledonias Franco. Estudos de história: sociedades dos tempos modernos. Goiânia: UFG, 1998. p. 115-118.
GUARANI, Emerson; PREZIA, Benedito (orgs,). A criação do mundo e outras belas histórias indígenas. São Paulo: Formato Editorial, 2011. p. 5 e 50.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 277-279.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Arqueologia e poder


Pesquisa arqueológica em Bet Shemesh, Jerusalém, Israel

O poeta alemão Goethe descreveu, em 1788, com as seguintes palavras, os sentimentos que experimentara quando da sua primeira visita à Roma:

Também as antiguidades romanas começaram a me agradar. História, inscrições, museus, dos quais antes nada queria saber, tudo se abria diante de mim. O que se passara comigo quanto à história natural, aconteceu também aqui, pois neste lugar condensava-se toda a história do mundo e, desde o dia que fui para Roma, contei um segundo nascimento, um verdadeiro renascimento.

As impressões de Goethe ressaltam que a constituição de uma identidade depende da preservação de lugares com suas evocações à nossa memória, sendo o caso de Roma muito claro, com seus tantos monumentos de fama internacional: diante de tais monumentos o poeta acabou desenvolvendo uma admiração por aquela antiga civilização e reconhecendo-se, como ser humano, herdeiro das realizações daqueles antepassados. [...]

Embora os documentos escritos se prestem a essa reconstrução histórica, sua pouca acessibilidade confere-lhes uma significação consideravelmente menor do que a cultura material, cuja presença física atinge diretamente os membros da sociedade. Na concepção do arqueólogo [...] Karl-Heinz Otto, a arqueologia - ao resgatar os vestígios materiais das pessoas comuns, não apenas das elites, que monopolizaram os documentos escritos por milênios - permite ao cidadão "avaliar o papel dos homens comuns, o papel das massas populares, como agentes e forjadores da história".

O reconhecimento da significação político-ideológica da arqueologia não se restringe a apenas alguns grupos ou tendências. Em fins da década de 1970, um arqueólogo britânico [...], Grahame Clark, considerava que a arqueologia "apresenta questões mais radicais do que aquelas comumente posta pela ciência política ou pela sociologia, pois elas são colocadas numa perspectiva mais ampla", ao tratar das pessoas comuns, dos indígenas, sob uma perspectiva menos enviesada do que a prevalecente nas fontes escritas. Essa abordagem mais ampla da arqueologia engloba toda a história da humanidade [...] assim como permite um acesso ao conhecimento da vida e da história da imensa maioria de analfabetos de todos os tempos.

Qual a relação entre arqueologia, em geral percebida como uma ciência neutra, e a política, ou seja, a esfera das relações de poder? A arqueologia é sempre política, responde a necessidades político-ideológicas dos grupos em conflito nas sociedades contemporâneas. Como afirmou o arqueólogo britânico Clive Gable:

A arqueologia surgiu, de forma gradual, nos últimos duzentos anos como o estudo sistemático do passado. [...] A força motora foi a nova ordem política, social e econômica da Revolução Industrial, primeiro na Europa e depois na América do Norte. Uma reação à arqueologia imperialista foi a fundação do Congresso Mundial de arqueologia, em 1986 e a inovadora série de livros One World Archeology. [...]

[...]

A ligação entre arqueologia e política apresenta-se, contudo, sempre mediatizada. Não se trata apenas de justificar certas relações de poder, ou de fortalecer certas ideologias, mas de legitimá-las pela presença de testemunhos materiais que dêem sustentação científica a essas pretensões. [...]

A criação e a valorização de uma identidade nacional ou cultural relacionam-se, muitas vezes, com a arqueologia. Neste caso, predominam com frequência os interesses dos grupos dominantes mediados pela ação do Estado. Assim, por exemplo, a importância ideológica da arqueologia em Israel, bem como a grande participação de voluntários nas escavações e na preservação e exibição do material arqueológico, explica-se pela busca de identidade entre o atual Estado judeu e a antiga ocupação hebraica da Palestina.

A primazia cronológica da entrada dos judeus na região em relação aos filisteus serve como potente justificativa de sua reocupação pelos primeiros. [...]

[...]

A exploração e a valorização dos territórios nacionais implicam, também, um relacionamento particular entre a arqueologia, a sociedade e os grupos no poder. Trata-se, em geral, da incorporação de monumentos e objetos numa prática de valorização e transformação econômica da paisagem. [...]

[...]

[...] Um dos objetivos da New Archeology americana era, explicitamente, estudar modos de domínio da natureza por parte dos antigos habitantes indígenas, para permitir a utilização desse conhecimento no planejamento da futura exploração econômica das regiões estudadas pelos arqueólogos, na forma da implantação de indústria ou agricultura mecanizada capitalista.

De maneira geral, a arqueologia tem privilegiado os artefatos dos segmentos dominantes das sociedades estudadas como objetos admiráveis, justamente, pelo seu caráter elitista. [...] Pode-se, contudo, estudar a cultura material tanto de exploradores como de explorados, os objetos únicos e aqueles feitos em série.

[...]

[...] A partir da descolonização, a apropriação dos vestígios arqueológicos passou a ocorrer por mecanismos econômicos. Assim, com a expansão dos mercados de peças arqueológicas, a saída - em geral ilegal - de objetos da "periferia", países subdesenvolvidos, para o "centro", países desenvolvidos, efetua-se, primordialmente, pela venda das peças no mercado internacional. Isso significa que, à expropriação do período colonial, seguiu-se uma nova fase na qual a transferência do patrimônio arqueológico adquiriu, via mercado, uma capa de legalidade.

A arqueologia pode, contudo, ser usada por grupos subalternos na luta por seus direitos ou para criticar as injustiças e opressões sociais. Dois exemplos vêm logo à mente: a arqueologia preocupada com as relações de gênero e a que trata das relações étnicas e raciais com propostas claramente anti-racistas. [...]

Assim, por exemplo, estudos têm permitido mostrar como a cultura material ligada às mulheres, no mundo industrializado, foi usada para a liberação feminina. A pletora de máquinas domésticas, da lava-roupas à batedeira, nessa concepção, foi imprescindível para que as mulheres pudessem entrar no mercado de trabalho e adquirir, em poucas décadas, destaque e, mais importante, independência econômica. A relação entre homens e mulheres [...] foi, portanto, resultado, em parte ao menos, da cultura material voltada à satisfação das mulheres.

[...]

Outro bom exemplo de uso político do estudo da cultura material relaciona-se à luta contra o racismo e a opressão étnica. Assim, por exemplo, a defesa dos direitos de indígenas e afro-descendentes, nos Estados Unidos e alhures, tem contado com a concorrência da arqueologia preocupada com a valorização desses grupos étnicos. A arqueologia, também, tem mostrado como todas as sociedades do passado foram [...] resultado de fusão cultural, com mistura biológica e de costumes, desmistificando a própria noção de "pureza étnica". Enfim, todos somos beneficiários dessa arqueologia humanista, que visa combater as opressões.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 99-106.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Inscrições rupestres nas Ilhas de Santa Catarina

Inscrições rupestres ou petroglifos são expressões gráficas produzidas em superfícies rochosas. Nas ilhas de Santa Catarina, do Campeche, do Arvoredo, das Aranhas e do Coral, as inscrições estão situadas em paredões, penhascos e rochas isoladas ou agrupadas em campos abertos.


De acordo com estudos arqueológicos, duas técnicas foram utilizadas na confecção dos desenhos: percussão (picoteamento) e abrasão (polimento), em geral sobre diabásio, cujas pedras datam de mais ou menos 130 milhões de anos.

Há quem afirme que o uso dessas técnicas sugere que, em determinadas situações, as inscrições eram previamente esboçadas para depois passarem por um processo de acabamento final. [...] Existem, por exemplo, opiniões divergentes quanto aos possíveis significados das inscrições, a partir das formas e da própria localização das mesmas.

Em boa parte das inscrições as formas acabam se repetindo, com predominância de círculos concêntricos, conjunto de retas, conjuntos de linhas onduladas, linhas quebradas ou ziguezagues, além de triângulos, quadriláteros e figuras de homens e animais. O fato de as figuras possuírem traços em comum leva alguns estudiosos a levantar a hipótese de que uma única cultura, das três que habitaram a região - Pescadores, Caçadores e Coletores, Itararé e Guarani -, tenha sido responsável pelas inscrições.

[...]

[...] Muitos moradores de localidades tradicionais da Ilha de Santa Catarina relacionam as inscrições à pesca, principalmente pelo fato de algumas lembrarem o formato de uma rede.

É esse tipo de mistério que acaba por alimentar o imaginário popular em torno da existência ou não de significados nas inscrições rupestres. Fala-se muito que as inscrições conteriam significados de cunho místico, religioso. Segundo a arqueóloga Maria Madalena do Amaral, a dificuldade em apontar com exatidão os significados das inscrições é fruto da própria natureza do trabalho desenvolvido pelos arqueólogos. "Ao estudar os grupos pré-coloniais, a Arqueologia nem sempre pode trabalhar com o nível ideológico, pois é muito difícil deduzir o significado de determinados vestígios somente através da cultura material. Diferentemente do antropólogo, o arqueólogo não trabalha com o simbólico, como é o caso das inscrições rupestres", explica Maria Madalena. [...]

De qualquer forma, como afirma o arqueólogo André Prous [...] as inscrições rupestres são um dos temas mais populares entre os leigos interessados em Arqueologia. E a razão disso, segundo Prous, é "tanto pelo fato de que a civilização moderna ocidental desenvolveu nossa sensibilidade para as formas 'exóticas' de gosto esotérico, quanto pelo impacto que nossa sensibilidade sofre por receber, pelas figuras desenhadas nos paredões, uma mensagem direta de seus primitivos autores". [...]

[...]

Desenhadas em paredões verticais, as inscrições têm no máximo três milímetros de profundidade por 30 milímetros de largura [...]. No total, na Ilha de Santa Catarina e adjacentes, existem 32 sítios, totalizando 564 inscrições rupestres.

Inscrição rupestre na Praia do Santinho. Foto: Orides Maurer Jr., jan/2012


Na Ilha, a Praia do Santinho destaca-se pela quantidade de inscrições que existem nos seus costões. No costão norte, há dois sítios rupestres. [...]

[...]

Por causa do acesso nem sempre facilitado, conhecer de perto as inscrições rupestres pode se transformar numa verdadeira aventura arqueológica. Na Praia da Galheta, por exemplo, antes de chegar ao  costão norte, onde estão as inscrições, é preciso enfrentar uma trilha a pé de 30 minutos. [...]

Trilha Praia da Galheta. Foto: Orides Maurer Jr., jan/2013


No Pântano do Sul, a 300 metros da praia,  na ponta leste, estão duas sinalizações e uma inscrição isolada. [...] Ali perto, na Praia da Armação, o único petroglifo encontrado foi retirado da localidade e levado pelo padre Rohr para o Museu do Homem do Sambaqui, onde permanece até hoje. [...] També há registros de inscrições na Praia dos Ingleses, Barra da Lagoa, Praia Mole, Ponta das Canas, Joaquina e Solidão.

Além das inscrições na Ilha de Santa Catarina, outras se localizam em ilhas próximas, que também possuem sítios rupestres bastante representativos, a começar pela Ilha do Campeche, reconhecida como Patrimônio Arqueológico e Paisagístico Nacional. [...]

Situada a oito quilômetros do extremo sul da Ilha de Santa Catarina, a Ilha do Coral também conta com um importante sítio rupestre e que também foi objeto de estudo por parte do padre Rohr. No local, do total de 132 inscrições, 78 são variações de círculos. O sítio possui um painel com um letreiro com 43 símbolos (que lembram figuras humanas), triângulos, linhas onduladas e em zigue-zague.

Já a Ilha do Arvoredo [...] possui um sítio com um grande painel, que os pescadores chamam de "letreiros", em que as inscrições são facilmente avistadas do mar. [...]

GONÇALVES, Alexandre et alli. Aventura arqueológica na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Lagoa Editora, 2003. p. 37-49.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Elementos materiais e culturais da civilização europeia

Cabeça de uma estatueta de Tanagra, encontrado perto da Île Tiboulen de Maire

Os europeus de hoje, ao longo dos sucessivos períodos da história, receberam certo número de heranças comuns. Vamos nos transformar em arqueólogos da Europa, primeiro sob a terra, depois nos livros, nas inscrições, nos arquivos, nos museus e na superfície do solo, em busca dos monumentos, das habitações e dos objetos pertencentes a épocas, a técnicas e a estilos diferentes. Em Paris, por exemplo, foram encontrados vestígios pré-históricos ou proto-históricos. Muitos datam da época dos celtas, ou seja, dos gauleses. Podemos vê-los no museu de Saint-Germain-en-Laye. Os gregos instalaram-se mais tarde em alguns lugares da Gália Meridional, principalmente em Marselha. As escavações feitas nos sítios arqueológicos do Velho-Porto permitiram que esse antigo estrato grego fosse descoberto. Depois os romanos conquistaram a Gália e deixaram uma camada (estrato) de monumentos e de civilização: teatros e antigos circos romanos em Nîmes, em Fréjus, em Saintes, em Paris; pontes, como o do rio Gard; locais de banho como as termas de Paris. E assim por diante. Em uma cidade como Roma, pode-se encontrar uma igreja cristã antiga sobre uma casa romana antiga.

Essa civilização europeia comum é composta de elementos materiais, monumentos e casas (encontram-se casas romanas desde a Grã-Bretanha até a Andaluzia e na Sicília), mas principalmente elementos culturais. Inúmeras palavras têm a mesma origem (o substantivo latino para rosa é encontrado em várias línguas europeias). Importantes estilos artísticos - as artes românica, gótica e barroca - espalharam-se por toda a Europa. Há igrejas góticas da Noruega a Portugal, da Escócia à Polônia. Essa civilização apóia-se principalmente em um espírito comum, maneiras de pensar e de se comportar, o sentimento de pertencer a uma mesma comunidade cultural. É o sentimento, consciente há séculos particularmente entre os europeus cultos, de que existe uma consciência europeia.

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 40-41.

sábado, 22 de outubro de 2011

Tradições asiáticas: a China imperial

Afresco da Dinastia Han

帝制時期

De todas as terras estranhas, mas não inteiramente desconhecidas, que ficavam além das fronteiras de Roma, a mais misteriosa e menos conhecida era a China. Os romanos estiveram apenas indiretamente em contato com ela por meio do comércio. De lá se originou a seda - daí o nome latino que os romanos lhe atribuíram: "Serica", ou "seda". Durante séculos, sua cultura foi protegida pelo seu isolamento. A China mantivera com os povos da Ásia Central um relacionamento próximo porém complicado; contudo, depois de unificada, durante muitos séculos não teve nas suas fronteiras nenhum grande Estado com que precisasse se relacionar. Este isolamento aumentaria quando o centro de gravidade da civilização europeia se deslocou para oeste e para o norte, e à medida que afastavam cada vez mais do leste da Ásia os herdeiros do legado helenístico: Bizâncio, a Pérsia sassânida e, depois o islamismo.

Com isto a China permaneceria distante e inacessível à maioria das correntes que mudavam outras partes das terras eurasianas, e bem distante das fontes de distúrbios de outras grandes civilizações. Até mesmo o islamismo, ao chegar lá, influiu muito menos do que em outros lugares. A China também era dotada de grande capacidade de absorver as influências estrangeiras que chegassem. Sua capacidade de assimilação se apoiava na cultura de uma elite administrativa que sobreviveu às dinastias e aos impérios e que a manteve num mesmo curso. Deve-se muito do conhecimento atual sobre a China aos escribas, que mantinham registros desde tempos muito remotos, e que fornecem incomparável documentação [...]. 

[...] A História da China, findo o período dos Estados Combatentes, tem uma espinha dorsal de várias classes alternando períodos de crescimento e decadência de dinastias.  [...]

* Os Ch'in. Os Ch'in vieram de um Estado a oeste, que até por volta do século IV a.C. os chineses ainda consideravam bárbaro. [...] Depois de absorver Sichuan, o povo Ch'in adquiriu condição de reino, em 325 a.C. O auge do sucesso Ch'in foi derrotar o seu último opositor, em 221 a.C., e unificar a China pela primeira vez como um império dirigido por uma dinastia que daria o nome ao país. Foi um grande feito. A partir disto a China pode ser considerada como a sede de uma civilização única e consciente de si mesma. [...]

* Os Han. [...] de 206 a.C. até 220 d.C., a China foi governada por imperadores de duas dinastias com o mesmo nome: os Han. [...] A escrita chinesa só fora padronizada no reinado Ch'in (pouco antes do período Han). Em grande parte do território politicamente controlado pelos Han, principalmente no sul, era normal existir uma sociedade tribal em que poucos líderes eram "achinesados", ou seja, tinham costumes chineses. [...]

Contudo, os imperadores Han estenderam as reivindicações de dominação política da China ainda mais longe do que qualquer dos seus antecessores. [...] O imperador Wu Ti. ou "Imperador Marcial", que reinou de 141 a 87 a.C., foi especialmente ganancioso: anexou ao império uma grande área da Ásia Central, a Bacia do Tarim, bem como o Sul da Manchúria - a região ao norte da Grande Muralha - e grande parte da costa sudeste da China. Os povos Tai do Vale do Mekong também foram subjugados e Annam aceitou a soberania dos Han. Mais tarde os povos mongóis chamados hsiung-nu, mais conhecidos como hunos, foram expulsos do norte do Deserto de Gobi e iniciaram uma longa marcha que os transformou numa força da História mundial.

A expansão aumentou os contatos da China com outras partes do mundo. Com o Mediterrâneo permaneceram apenas indiretos, porque grande parte do comércio da China era feito por terra. A mercadoria mais desejada da sua produção era a seda, que a partir do ano 100 a.C. era enviada por caravanas ao Ocidente, ao longo da Rota da Seda da Ásia Central. Talvez os novos contatos desta época com cavaleiros nômades dos desertos expliquem o surgimento dos belos cavalos de bronze que começaram a ser fundidos na era Han.

* A religião. Apesar desses amplos contatos, a China permaneceu notavelmente isolada e intocada por influências externas. [...] O único possível desafio à tradição foi o budismo, que parece ter aberto caminho na China durante o século I d.C., através das estradas de comércio da Ásia Central. [...] O budismo talvez tenha sido introduzido na China pelos povos Kushan, que o difundiram na Ásia Central; daí seguiu para o norte da China, principalmente na sua forma maaiana. A ideia confortadora de um Buda salvador, em cuja ajuda o fiel podia confiar, deve ter parecido muito atraente numa época de revoltas e de desintegração social. O budismo podia ser tudo para todos: superstição para os humildes, estimulador de novas ideias filosóficas para os instruídos, e o seu estilo artístico exercia um forte apelo.



Grande Buda

Aos poucos o budismo se infiltrou na sociedade. Estudantes e monges começaram a circular entre a China e a Índia em busca de instrução budista. O grande sucesso do budismo aconteceu entre os séculos VI e IX. [...] 

O Estado também contribuiu para regulamentar o budismo, notadamente ao limitar o número de monges e de mosteiros (para evitar que as riquezas escapassem ao sistema de impostos), medidas de difícil execução e que provocaram explosões ocasionais de perseguição. A pior ocorreu no século IX, quando todas as religiões alienígenas foram banidas. Fontes oficiais dizem que mais de 4.600 mosteiros foram destruídos e que mais de 250 mil monges e monjas budistas perderam a isenção de impostos. Isso aconteceu quando o confucionismo recuperava sua antiga importância entre os eruditos, e marcou o começo do declínio do budismo na China [...].

[...] Sem ser muito dogmática, a tradição chinesa só enfatizava que as próprias pessoas deveriam efetuar os rituais de sacrifício e que os antepassados deveriam ser venerados. O confucionismo reforçou isto, o que resultou na notável tolerância dos chineses instruídos (algo que mais tarde os europeus admirariam). Posteriormente, no Período T'ang um imperador editou um decreto permitindo a pregação do cristianismo (que chegara à China por meio de missionários nestorianos). [...] Embora o colapso de grande parte da sociedade tradicional durante os problemas do declínio dos Han, e suas consequências, fizessem com que as pessoas procurassem novos cultos e crenças [...], os beneficiários foram os cultos populares e o desenvolvimento do taoísmo, que se tornou uma miscelânea de curas pela fé, superstições e ideias budistas.

* A civilização chinesa. Apesar das influências estrangeiras da época, os chineses instruídos do Período Han achavam fácil ver o seu país como centro do mundo e sede da verdadeira civilização. Sem dúvida esta convicção intelectual explica em grande parte a sua indiferença ao que acontecia em outros lugares. Mas outros fatores podem ter contribuído. Por exemplo, a enorme distância geográfica [...]. A China também era auto-suficiente, tanto sob o ponto de vista econômico quanto tecnológico. Possuía vastos recursos naturais, e durante o Período Han a agricultura e a tecnologia foram capazes de explorar o meio ambiente com sucesso. [...] O arroz introduzido em tempos bem primitivos, vindo do sudeste da Ásia ou da Índia, foi a última e verdadeiramente radical inovação na vida material proveniente do exterior antes dos tempos modernos.


Jardim imperial na Cidade Proibida

A era Han também trouxe outros refinamentos e invenções. Os cientistas Han criaram a primeira bússola magnética com mostrador e ponteiro [...], o primeiro sistema de cartografia [...], máquinas para registrar terremotos e calibradores com graduações decimais para artesãos. [...] de todas as inovações do período a mais surpreendente é a descoberta do fabrico do papel (anunciada nas oficinas imperiais em 105 d.C.) e que seria de enorme importância para toda a raça humana, mesmo que só tenha alcançado o Ocidente vários séculos depois. O papel era mais barato do que o papiro ou o pergaminho [...].

Os transportes, e portanto as comunicações, também melhoraram no Período Han. O leme ligado à popa do navio, em oposição ao grande remo pendurado de um dos lados, apareceu no século I a.C.; os navios europeus precisaram esperar por isso cerca de 1.200 anos. Também no tempo dos primeiros Han foi desenvolvido um arreio para cavalos [...]. Pouco depois do final da dinastia, os chineses introduziram o estribo, invenção de enorme importância na arte da guerra por proporcionar maior segurança e controle ao cavaleiro. Por outro lado, a nova balestra foi inventada durante o Período Han, o que representou uma grande realização tecnológica, mais poderosa e precisa do que os arcos dos bárbaros [...].

Estas inovações dão testemunho da riqueza da civilização Han, e em muitos aspectos é apenas o início de um período glorioso: nos mil anos seguintes, as ciências e a matemática chinesas lançariam muito mais ideias novas do que as dos europeus. Para os governantes e para os ricos, a China Han, no seu apogeu, também deve ter sido uma esplêndida sociedade. Perderam-se algumas das suas adoráveis criações em seda, madeira e pintura; quando os palácios começaram a ser destruídos, nas últimas décadas conturbadas da dinastia, foram destruídas coleções inestimáveis. Ainda assim, muitas coisas belas sobrevivem graças à prática Han de sepultar ricos e nobres com grande parte dos seus bens, ou cópias. Uma descoberta recente [...] foi a de elaborados trajes em jade com que foram sepultados um príncipe e uma princesa dos primeiros Han. Com os últimos Han, objetos de bronze, especialmente modelos de cavalos, demonstram um novo desenvolvimento de uma das mais antigas artes chinesas, a fundição do bronze, ao mesmo tempo que novos vernizes coloridos eram inventados pelos oleiros.

[...]

Grande parte da evidência da brilhante cultura Han se dissipou ou foi destruída nos séculos IV e V, quando os bárbaros voltaram a importunar nas fronteiras. Então, mais uma vez a China se dissolveu num amontoado de reinos [...].


Guerreiros de terracota

Aos poucos os bárbaros foram seduzidos pelos costumes chineses: perderam a identidade, adotaram roupas e linguagens chinesas e se tornaram simplesmente outro tipo de chineses. O prestígio desfrutado pela civilização chinesa entre os povos da Ásia Central já era muito grande. [...] Em 500, um governante tártaro chegou a impor ao seu povo, por decreto, roupas e costumes chineses.  [...]

* A burocracia. A expansão territorial requeria mais administradores. Uma burocracia maior sobreviveria a muitos períodos de desunião [...] e permaneceu até o fim como uma das instituições mais surpreendentes e características da China imperial. Foi provavelmente a chave para o surgimento do sucesso da China, a partir de uma era em que as dinastias decadentes foram substituídas por Estados locais competitivos e insignificantes, que quebraram a unidade já conseguida. A burocracia unia a China tanto pela ideologia quanto pela administração. Os funcionários civis, treinados e examinados à luz dos clássicos de Confúcio, asseguravam que a instrução e a cultura política se unissem na China como em nenhum outro lugar.

No princípio os funcionários se distinguiam do resto da sociedade apenas pela educação (eram graduados). A maioria provinha da pequena nobreza proprietária de terras, mas eram mantidos isolados dela. Uma vez selecionados para ser funcionário depois de um teste, desfrutavam de uma condição apenas inferior à da família imperial, bem como de grandes privilégios sociais e materiais. Tinham duas tarefas anuais de grande importância: compilar os resultados do censo e os registros da terra nos quais se baseava o cálculo de impostos chineses. Os seus outros deveres principais eram de julgamento e supervisão, pois os assuntos locais ficavam a cargo dos cavalheiros locais, que agiam sob a supervisão de cerca de dois mil magistrados distritais pertencentes à classe oficial. [...]

Esta estrutura tinha um enorme poder conservador. Graças ao sistema de exames, a prática de governo era exercida através de ideais reconhecidos. [...] De tempos em tempos havia casos de corrupção e compra de cargos, mas estes sinais de decadência em geral só aparecem nos registros perto do fim de um período dinástico. Na maior parte do tempo os funcionários imperiais demonstravam notável independência do seu meio de origem. Na teoria, eram os homens do imperador; não tinham permissão de possuir terras na província onde serviam, nem de servir nas suas próprias províncias, nem ter parentes no mesmo ramo de governo. Não deveriam ser representantes de uma classe, mas uma seleção dela, uma elite recrutada independentemente, renovada e promovida pela competição. [...] Para os que alcançaram o nível mais elevado da hierarquia oficial e se tornaram conselheiros imperiais, os únicos rivais em importância eram os eunucos da Corte. Estas criaturas, a quem muitas vezes os imperadores confiavam grande autoridade, porque por definição não podiam constituir família, eram a única força política que escapava às restrições do mundo oficial.

[...]

* A China clássica. Em 618 a civilização chinesa entrou numa fase nova e madura, tendo a seu favor impressionantes realizações. [...] Depois dos Han, a desordem dividiu a China por mais de 350 anos. Então, um general de sangue mestiço de chinês e bárbaro reunificou o país em 581. A Dinastia Sui que ele fundou durou apenas perto de trinta anos quando outro general (também de ascendência mestiça) tomou o trono e inaugurou a Dinastia T'ang, com a qual a China foi novamente uma unidade por aproximadamente três séculos e meio. Seguiu-se outro período de desordem, mas desta vez durou apenas cinquenta anos antes que os Sung ascendessem ao trono imperial em 960. Embora perdessem o controle do norte da China para povos da Manchúria no século XII, os Sung se mantiveram no sul até 1279. Neste ano Kubilai Khan, neto de Gêngis Khan, completou a conquista mongol da China. Adotou o nome dinástico de Yuan, e os seus sucessores governaram a China até 1368, a partir da nova capital, em Pequim, quando foram substituídos por uma dinastia fundada por um plebeu chinês rebelde, a Dinastia Ming, que durou até 1644.

[...]

Assim, a desunião recorrente não impediu que governantes, sábios e artesãos conduzissem a civilização chinesa ao apogeu nos mil anos que se seguiram à posse dos T'ang. Alguns situam o período clássico bem no início do domínio T'ang, nos séculos VII e VIII, enquanto outros o distinguem no Período Sung. A cultura T'ang refletiu o estímulo de contatos com o mundo exterior, mais especialmente com a Ásia Central. Na época, a capital era Changan [...] situada no final da Rota da Seda [...]. Changan significa "paz duradoura" e a ela vieram persas, árabes e centro-asiáticos, tornando-a uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. Continha igrejas nestorianas, templos zoroástricos, mesquitas muçulmanas, e o que restou dela sugere ter sido a capital mais esplêndida e luxuosa do seu tempo. Muitos dos seus vestígios refletem o reconhecimento dos chineses a estilos diferentes dos seus - por exemplo, a imitação da prataria iraniana -, enquanto a característica de Changan como entreposto comercial está preservada nas figuras em cerâmica de cavaleiros e camelos carregados, que revelam a vida da Ásia Central circulando pelas ruas da cidade. [...] A partir das pinturas dos túmulos pode-se observar parte da vida aristocrática da Corte. Os homens se divertem caçando, acompanhados de criados centro-asiáticos; as mulheres, de expressão vaga, vestem-se com luxo, e suas criadas aparecem cuidadosamente equipadas com leques, caixas de cosméticos, buchas para as costas e outras parafernálias de toucador. As grandes damas da era T'ang também prezavam as modas da Ásia Central, que tomavam emprestadas da equipe doméstica.

[...]

A cultura Changan nunca se recuperou da destruição causada pela rebelião de 756, apenas dois anos após a fundação da Academia Imperial de Letras [...]. No entanto, a Dinastia Sung produziria mais cerâmicas. A fase primitiva, a fase norte da história Sung, foi marcada pelo trabalho ainda de estilo colorido e padronizado, enquanto que os artesãos do sul favoreceram produtos simples e monocromáticos. Significativamente, vincularam-se a outra tradição: a das formas desenvolvidas pelos grandes fundidores de bronze da China primitiva. Mas apesar de toda a beleza das suas cerâmicas, a Dinastia Sung se notabiliza mais por algumas das melhores realizações da pintura chinesa, cujo tema principal era a paisagem. [...]

[...]


A Grande Muralha

* A China mongol. No fim do século XIII toda a China fora invadida pelos mongóis e estes, como os primitivos invasores, demonstraram o contínuo poder de sedução que a China exercia sobre os seus conquistadores. O primeiro golpe foi muito duro. Algo em torno de trinta milhões de vidas podem ter sido perdidas durante a conquista, ou seja, mais de um quarto de toda a população da China em 1200. No entanto, com Kubilai Khan, o último dos grandes Khans, o Império Mongol deslocou o seu centro das estepes para Pequim. A partir dessa época a China mongol pode ser considerada chinesa e não mongol [...]. A China mudou os mongóis mais do que os mongóis mudaram a China, e o resultado foi a magnificiência relatada pelo surpreso Marco Polo.

No entanto, os mongóis procuraram se manter à parte dos nativos, por meio de uma proibição positiva: os chineses eram proibidos de aprender a língua mongol e de se casar com mongóis. Não tinham permissão de portar armas. [...]

Contudo, as realizações mongóis foram muito impressionantes. Uma vez unida, a China mais uma vez demonstraria o seu grande potencial diplomático e militar. [...]

[...]

O regime mongol não pode ser considerado um sucesso, já que a sua sobrevivência falhou. [...] O comércio exterior floresceu como nunca. Marco Polo relata que os pobres se alimentavam da liberalidade do Grande Khan e que Pequim se tratava de uma grande cidade. Por outro lado, um olhar moderno encontra algum atrativo no tratamento dispensado pelos mongóis à religião. Apenas os muçulmanos foram impedidos de pregar a sua doutrina; o taoísmo e o budismo foram positivamente encorajados, por exemplo, com a liberação de impostos aos mosteiros budistas [...]. No entanto, no século XIV os desastres naturais já se juntavam às extorsões mongóis para produzir uma nova onda de rebeliões rurais, sintoma visível de uma dinastia em declínio. [...]

* Os Ming. Como tantos outros líderes revolucionários chineses, Chu Yuan-Chang gradualmente se tornou um defensor da ordem tradicional. A dinastia que ele fundou, embora presidisse um grande florescimento cultural e conseguisse manter a unidade política da China, só confirmou o conservadorismo e o isolamento do país. No início do século XV, um decreto imperial proibia os navios chineses de se afastarem além das águas costeiras e os indivíduos de viajarem para o exterior. Logo os estaleiros chineses perderam a capacidade de construir os grandes juncos que atravessavam o oceano. Nem mesmo guardaram as especificações destas embarcações. As grandes viagens do eunuco Cheng Ho, que poderia ter sido um Vasco da Gama chinês, foram quase esquecidas. Ao mesmo tempo, os mercadores que haviam prosperado no período mongol foram molestados.


Cantina de ouro com o dragão (Dinastia Ming)

Neste meio tempo a Dinastia Ming se deteriorava, o seu declínio sendo registrado por uma sucessão de imperadores virtualmente confinados aos seus palácios enquanto favoritos e príncipes imperiais disputavam a posse das propriedades imperiais. Com exceção da Coréia, onde derrotaram os japoneses no final do século XVI, os Ming não conseguiram manter as fronteiras do império chinês. A Indochina escapou da esfera chinesa, o Tibete ficou mais ou menos fora de controle, e em 1544 os mongóis voltaram a queimar os subúrbios de Pequim. No século seguinte os Ming foram ameaçados por um povo vindo do norte da Grande Muralha, os manchus, que viviam numa província que mais tarde teria o seu nome: Manchúria. Quando intervieram nos problemas internos da China, foi o fim da Dinastia Ming. Em 1644, uma dinastia manchu, a Ch'ing, subiu ao trono, onde os seus imperadores se manteriam até o século XX.

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 306-331.