"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Os objetos arqueológicos na sociedade contemporânea

Artefato pré-colombiano. Nacoochee Mound, Georgia 

Os vestígios arqueológicos, a partir do momento em que são reintegrados num contexto cultural em funcionamento como o nosso, tornam-se novamente mediadores. Esse processo pode ocorrer por uma apropriação casual, como é comum no caso de instrumentos de sílex pré-histórico, utilizados pelas populações locais em regiões do Brasil como pederneiras (as chamadas pedras-de-fogo) ou como simples enfeites. Em geral, contudo, é o arqueólogo quem reintroduz artefatos de culturas extintas numa sociedade viva.

Boa parte dos objetos, na medida em que não possui valor material ou científico, segundo os padrões sociais vigentes no momento de sua recuperação, é novamente desativada e tratada como lixo. Mas aqueles objetos reintegrados pelo arqueólogo passam a possuir novas funções e a exercer mediações no interior das relações sociais em que foram inseridos. Esses artefatos podem adquirir funções ideológicas, tanto no sentido de fazer com que as pessoas endossem as ideias dominantes, como as que as critiquem.

Escavação no templo de Ísis em Pompéia, Pietro Fabris

As estátuas dos imperadores romanos, por exemplo, nos induzem a aceitar a importância desses personagens para a história. Esses artefatos reforçam uma ideologia dominante. Um memorial dedicado aos indígenas, uma praça dedicada à herança africana, um museu dedicado aos primatas, tudo isso pode servir para uma visão crítica. Menires ou objetos de antepassados indígenas podem ser valorizados por exposições em museus ou deixados ao relento, e a própria forma de expor os materiais em museus pode ter uma conotação ideológica, por exemplo.

Na medida em que essa reapropriação dos artefatos pelos cidadãos envolve uma relação de poder, a mediação do artefato arqueológico adquire importância crucial. Assim, discussões relativas ao quê conservar, em qual instituição, com quais condições de acessibilidade e, ainda mais, quanto à propriedade científica do material, dizem respeito a todo um conjunto de questões ligadas ao artefato. Dessa forma, a preservação nos museus exclusivamente de obras de arte - remete, nas sociedades contemporâneas, a uma valorização da vida aristocrática como momento de plenitude que o tempo desgasta e que se tenta renovar pela conservação.

Artefato pré-colombiano: cultura chimu

Não é à toa que, embora a arqueologia estude as séries, o repetir-se da ação humana refletindo nos objetos do cotidiano - sendo esse o material mas comum proveniente das escavações - predomine ainda, nas instituições e nas publicações arqueológicas, a atenção para com os objetos únicos e excepcionais. Essa é uma consequência inevitável da própria configuração das sociedades contemporâneas, nas quais atua o arqueólogo e das quais faz parte.

No entanto, o caráter específico do material arqueológico permite igualmente ao pesquisador escapar dessa perspectiva limitada, voltando-se para a prática de uma ciência que "difunda a cultura material do ambiente, das cidades e dos produtos", como parte de uma perspectiva de reflexão social e de ação social concreta. Esse é o caso da valorização da cultura material dos indígenas, em uma sociedade como a brasileira, com grande herança genética e cultural desses povos, para ficar apenas em um exemplo muito pertinente. Cerca de 30% da população brasileira tem alguma ascendência indígena e a influência indígena em nossa cultura vai da língua à culinária, passando pelos nossos costumes de asseio pessoal (os famosos banhos frequentes). Os vestígios arqueológicos indígenas adquirem, nesse contexto, grande potencial de conscientização cultural.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 34-35.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Descoberta do Mundo Antigo

Os trabalhos de erudição e as pesquisas arqueológicas resultaram em coleções de documentos e objetos que deram origem aos arquivos e museus europeus, os quais se tornaram os mais importantes depositários da cultura antiga.

Os acervos assim formados enriqueceram-se com os resultados das pesquisas arqueológicas, a partir do final do século XVIII e, particularmente, do século XIX em diante, quando às expedições científicas ou artísticas se somaram os butins.


A preservação do mundo antigo se dá, na maioria dos casos, fora deles - nos museus! Os principais museus, os que detêm a maior parte do que restou do mundo antigo, estão na Europa e nos Estados Unidos. O preço da preservação foi uma nova conquista, acompanhada de voracidade de saque. Porta de Ishtar, Museu de Pérgamo, Berlim, Alemanha.


No século XIX os locais das antigas civilizações, agora chamados Oriente Próximo, tornaram-se alvos da expansão militar e político-econômico das nações e impérios europeus. Um dos resultados disso foi um verdadeiro saque ao patrimônio cultural e artístico representado por monumentos e objetos antigos, que foram simplesmente tomados pelos conquistadores.

Os europeus que a partir do Renascimento [...] começaram a ver no passado remoto da humanidade o início da sua própria história, arvoraram-se em salvadores das culturas antigas ameaçadas. Assim, o Ocidente "moderno" apresentou-se como protetor do mundo oriental antigo, "civilizado", enquanto dominava e explorava o mundo oriental atual, "atrasado" e "bárbaro".

Mas, a partir do século XX, com a independência dos países do Oriente Próximo, há uma tendência em manter o patrimônio antigo nos seus locais de origem, seja em museus nacionais, seja nos próprios locais de sua construção. Uns e outros representam ricos espaços para estudos e pesquisas e para o turismo.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 41.

sábado, 23 de julho de 2011

Museu do Ipiranga


Tomemos o nosso caso concreto, transportando-nos ao Museu do Ipiranga, na cidade de São Paulo, num domingo à tarde. [...] Em seu próprio território, reproduzindo em seus monumentos os padrões 'obrigatórios' do modelo europeu, os setores enriquecidos e mais influentes da sociedade local reconstroem simbolicamente o seu passado, buscando legitimar-se, no presente, como protagonistas, representantes e porta-vozes da história de todos nós. Com efeito, são levados constantemente a visitas gratuitas e obrigatórias ao Museu os nossos estudantes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio que, a título de aprenderem história, devem lá prestar a sua homenagem aos 'grandes Homens da Pátria'.

Entretanto, não obstante o esforço dos educadores, parece ser pequeno o interesse da maior parte dos que efetivamente frequentam o Museu nos fins de semana pelos objetos e fragmentos que ele abriga.

Preferindo a sombra fresca das árvores e o aconchego dos arbustos, o 'povão' transforma o jardim (que ali foi construído, certamente como moldura nobre para enfatizar a monumentalidade do edifício central do Museu) em agradável e descontraído parque de esportes e diversões. [...]

Este exemplo, embora apresentado de modo esquemático, ilustra bem algumas questões que se colocam quando procuramos compreender a heterogeneidade cultural na sociedade de classes.

A discrepância flagrante entre as concepções dos idealizadores e as dos usuários do Museu e do jardim que o circunda sugere, inicialmente, que sistemas simbólicos diversos estão presentes nessa situação. [...]

Não é, evidentemente, o caso de se pensar em desinformação, deseducação ou selvageria do 'povão', diante de um espaço consagrado ao culto de relíquias dos 'ancestrais ilustres' dos dominantes.

Ocupando a seu modo esse monumento, os usuários o transformam simbolicamente, redefinindo as funções dos equipamentos existentes segundo as suas próprias necessidades e concepções.

E, ao fazerem isso, eles se apropriam, momentaneamente, de um espaço que é sagrado para os dirigentes e que, a rigor, lhes pertence, recriando nele as suas próprias formas de sociabilidade. Revela-se nesse exemplo a força transformadora do uso efetivo sobre as imposições restritivas dos regulamentos.

ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura Popular. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 47-50.