"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O Brasil dos viajantes: a viagem de Saint-Hilaire

Palácio do governo em São Paulo, Thomas Ender. Saint-Hilaire visitou uma São Paulo parada no tempo, como aquela que Thomas Ender havia retratado em 1817, dois anos antes.

Para muitos estudiosos da história das expedições científicas ao Brasil, o maior dos viajantes a percorrer o território foi o francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1774-1853). Apesar de a obra científica de Saint-Hilaire ter sido gloriosa, não foram seus estudos sobre a flora brasileira que o transformaram no mais cultuado de todos os viajantes que estiveram no Brasil no século XIX. Observador minucioso, crítico feroz dos costumes, generoso e ferino em uma só frase, iracundo e conformado na seguinte, Saint-Hilaire traçou um retrato tão vívido, tão dinâmico, tão humano do Brasil que, passados mais de um século e meio desde a sua publicação, os nove volumes nos quais ele narra sua ampla jornada pela colônia continuam sendo uma leitura apaixonante - e bastante elucidativa.

Saint-Hilaire percorreu mais de doze mil quilômetros em lombos de mula, a pé ou em frágeis pirogas indígenas, coletando plantas e observando a inexorável marcha do progresso que transformava florestas em descampados, índios em indigentes e negociantes desonestos em poderosos oligarcas. Como seu conterrâneo Lévi-Strauss concluiria um século mais tarde, Saint-Hilaire percebeu que esses eram tristes trópicos. [...]

Saint-Hilaire nasceu em Orléans, na França, em outubro de 1774. Filho da pequena nobreza rural, foi levado para a Alemanha durante a revolução de 1789. Lá, conheceu Aimé Bompland, amigo e íntimo colaborador de Humboldt, um apaixonado pelo Brasil. Convencido por ele, Saint-Hilaire juntou-se à missão francesa que veio ao Brasil com o duque de Luxemburgo, partindo de Brest em abril de 1816. Depois de alguns meses no Rio, Saint-Hilaire iniciou seu périplo pelo Brasil: primeiro percorreu a região de Minas Gerais [...]. A seguir, penetrou no Distrito Diamantino [...], passando logo depois para o Espírito Santo [...], onde ficou até 1818. Em janeiro de 1819, partiu do Rio rumo a Goiás [...], retornando para São Paulo pelo caminho dos boiadeiros [...]. Percorreu essa província, mais o Paraná e Santa Catarina [...], entrando no Rio Grande do Sul em junho de 1820 [...], seguindo pelas Missões até Montevidéu, daí retornando ao Rio e, a seguir, para Paris. Saint-Hilaire levou dez anos para publicar sua obra [...].

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2005. p. 155.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Brasil dos viajantes: a obra de Rugendas

Derrubada de uma floresta, Rugendas

A magnitude do trabalho de Johann Moritz Rugendas só encontra paralelo, no Brasil, na obra de Jean-Baptiste Debret. As semelhanças não são apenas históricas, mas estéticas: há grande similaridade estilísticas e conceitual entre o suntuoso registro visual que Rugendas e Debret legaram ao Brasil. Eles estiveram na colônia na mesma época, conheceram-se e trocaram ideias e desenhos. Rugendas, filho de artistas, nasceu na Alemanha em 20 de março de 1802. Veio para o Brasil com Langsdorff em 1822. Brigou com o barão, desligou-se da expedição e foi substituído por Adrien Taunay e Hercule Florence. Mas Rugendas ficou no Brasil até 1825, quando encontrou Debret. Seu esplêndido livro, lançado em francês e alemão, intitulado Voyage pittoresque dans le Brésil ou Malerish reise in Brasilien, saiu entre 1827 e 1835. Não era um livro como o dos demais viajantes: o texto (que não foi escrito por Rugendas, mas pelo jornalista V. H. Huber) é mero comentário sobre cem pranchas selecionadas. Os desenhos de Rugendas falam por si: sua visão da natureza do Brasil, seus índios e suas cidades compõem um conjunto orgânico, cosmogênico e transcendente que revela o nascimento de uma nação. Rugendas voltou à América do Sul entre 1831 e 1847, visitando novamente o Brasil. Morreu na Baviera, em maio de 1858.

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2005. p. 153.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Brasil dos viajantes: a viagem de Langsdorff

Aquarela Quilombo, Adrien Taunay

"A imaginação mais rica, mais feliz e perfeita nem de longe pode dar conta dos tesouros desta natureza. Quem quer que anseie por motivos poéticos, que vá ao Brasil, pois ali a natureza responde aos seus pendores. Qualquer pessoa, inclusive a menos sentimental, se deseja descrever as coisas como são, ali se transforma num poeta."

O barão Georg Heinrich von Langsdorff era um apaixonado pelo Brasil e pela sua natureza exuberante. Ao descrevê-la fervorosamente, em diários e cartas, tornou-se um poeta, mas enlouqueceu. A expedição que ele convencera o czar de todas as Rússias, Alexandre I, a financiar, em 1825, estava destinada a ser uma das mais ambiciosas que já percorrera o desconhecido interior do Brasil. Três anos e meio mais tarde, ao retornar ao Rio de Janeiro, de onde partira, com apenas doze dos seus 34 integrantes, ela se tornara a mais trágica de muitas missões científicas a penetrar nas florestas e rios brasileiros. Ainda assim, embora o barão nunca mais recuperasse as faculdades mentais, o legado etnológico, botânico e iconográfico da expedição Langsdorff é um dos maiores tesouros científicos do Brasil.

Alemão de nascimento, Langsdorff era cônsul da Rússia no Brasil, onde esteve pela primeira vez em 1803, apaixonando-se pela ilha de Santa Catarina. Voltou ao país em 1820, para fixar residência no Rio, onde adquiriu a Fazenda da Mandioca, que logo se tornou reduto de altas pesquisas agrícolas. Em pleno regime escravocrata, o barão contratou colonos alemães  - e os pagava bem. Em setembro de 1825, Langsdorff partiu para sua grande expedição científica pelo interior do Brasil: a aventura custaria 350 mil rublos ao czar e estava fadada ao fracasso. Ao longo de dois anos e dezesseis mil quilômetros, os 34 homens de Langsdorff - entre os quais os pintores Hercule Florence e Adrien Taunay - percorreram a rota das monções, coletando cem mil amostras de plantas. A marcha foi marcada por doenças, febres, suicídios, paixões e lutas ardentes, delírios e descaminhos. Em abril de 1828, o barão enlouqueceu e, em outubro, doze debilitados expedicionários retornavam ao Rio. Por anos a fio, o esplendoroso legado científico da missão ficaria jogado nos porões do museu de São Petersburgo, na Rússia.

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2005. p. 152-153.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Brasil dos viajantes: a viagem de Spix e Martius

Lagoa das aves, gravura feita para ilustrar o livro de Spix e Martius

Quando a arquiduquesa Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo veio de Viena para o Rio, em novembro de 1817, já casada por procuração com D. Pedro I, trouxe consigo um grupo de quinze cientistas. Eram os integrantes da chamada Missão Austríaca. D. Leopoldina ouvira falar que D. Pedro era um amante das ciências naturais e imaginou que ele adoraria a ideia. Embora entre as várias paixões de D. Pedro não se incluíssem rochas, plantas e aves, a Missão Austríaca foi um marco na ciência no Brasil - especialmente porque, entre seus membros, estavam o zoólogo Johann Baptist von Spix e o botânico Carl Friedrich Phillip von Martius. A marcha de Spix e Martius pelo interior do Brasil se tornaria não só uma das mais longas já realizadas pelo país como também uma das mais produtivas. Homens de formação humanista, herdeiros intelectuais de Humboldt, dedicados e destemidos, Spix e Martius devotaram os melhores anos de suas vidas ao Brasil. Spix e Martius chegaram ao Rio em 15 de julho de 1817. Depois de quatro meses de deslumbramentos e descobertas numa das mais belas cidades do mundo, partiram para São Paulo no dia 8 de dezembro, dando início à jornada que os levaria a percorrer mais de vinte mil quilômetros ao longo de três anos. De São Paulo, foram para Minas (Mariana, Sabará e Vila Rica, onde realizaram várias pesquisas geológicas), cruzaram o sudoeste da Bahia até Goiás e daí, pelo vale do rio São Francisco, seguiram até Salvador. Depois de uma excursão a Ilhéus, voltaram a Salvador. Então seguiram para Juazeiro, cruzando os sertões de Pernambuco e do Piauí até o Maranhão. De São Luís, seguiram por mar até Belém, de onde subiram o Amazonas até Manaus, onde se separaram: Spix então subiu pelo Solimões até o Peru, enquanto Martius seguia pelo rio Japurá até os Andes. Em março de 1820, os dois se reencontraram em Manaus. Três meses depois, partiram do Rio para a Europa com um dos maiores acervos já reunidos no Brasil. O material botânico, zoológico e etnográfico coletado por Spix e Martius daria trabalho para uma vida inteira. E a ele ambos se dedicaram até o fim de seus dias - sem poder concluí-lo.

[...]

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2005. p. 150-151.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O Brasil dos viajantes: viagem do Príncipe Maximiliano

Príncipe Maximiliano

Oficial hussardo mais afeito às plantas e aos animais do que às armas, o príncipe alemão Maximilian von Wied esteve no Brasil de junho de 1815 a maio de 1817. Embora sua jornada, terrestre e fluvial, do Rio à Bahia, não tenha sido tão duradoura nem tão ampla se comparada às de outros viajantes, a quantidade de informações que o príncipe conseguiu coletar é impressionante. [...] O príncipe viajou com o botânico Friedrich Sellow e o ornitologista Freyreiss: juntos, os três sábios fizeram a primeira expedição realmente científica ao Brasil, realizada sob a influência do barão Von Humboldt [...]. 

Maximilian Alexander Philip von Wied-Neuvied era filho, neto, bisneto, tio e irmão de soldados. General-de-divisão do Exército alemão, ganhou a Cruz de Ferro em campo de batalha e entrou em Paris, depois da derrota de Napoleão, em companhia de Frederico Guilherme III, da Prússia. Tão logo pôde, trocou as batalhas pelas viagens científicas. No Brasil, sob o pseudônimo de Max von Braunsberg, percorreu a mata costeira do litoral leste do Rio, Espírito Santo, norte de Minas e sul da Bahia. Embora o legado zoológico, botânico e linguístico da expedição de Maximiliano seja grandioso, sua maior contribuição foi etnográfica. Os estudos que o príncipe fez dos Puri, Botucudo e Pataxó foram pioneiros e inovadores. Maximiliano ligou-se aos Botucudo, que eternizou na aquarela Luta entre Botucudos. O príncipe virou grande amigo do Botucudo Quack e levou-o para a Europa. Morreu em 1867, em Neuwied, aos 85 anos, tão enamorado de borboletas, índios, áravores e plumas, fósseis e crânios como nas primeiras décadas de sua existência movimentada e intensa.

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2005. p. 149-150.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O Brasil dos viajantes: os circunavegadores

O capitão James Cook

Decididos a impedir que a exuberância dos recursos e da natureza brasileira despertassem a cobiça dos demais povos europeus, por três séculos os portugueses mantiveram o Brasil fechado aos olhos estrangeiros. Essa situação só começou a se modificar a partir de 1808, com a chegada da família real ao Rio de Janeiro e a abertura dos portos. A partir daí, um ávido enxame de sábios, cientistas e naturalistas desembarcou no Brasil. [...] Antes disso, porém, Portugal impedira que alguns cientistas de renome estudassem a natureza brasileira. Em 1768, por exemplo, ao realizar sua grande viagem de circunavegação, o capitão James Cook aportou no Rio de Janeiro - mas os botânicos, zoólogos e astrônomos que o acompanhavam foram proibidos de desembarcar. Mais grave ainda foi o fato de as autoridades portuguesas terem impedido a entrada no Brasil, em 1800, do maior de todos os sábios naturalistas, o barão alemão Alexander von Humboldt, que estava na Venezuela. [...]

Embora a "abertura" oficial do Brasil ao olhar estrangeiro tenha se dado em 1808, pouco antes Portugal já baixara a guarda - e evidentemente em favor dos ingleses. É o que explica a entrada no país, em 1802, do viajante Thomas Lindsey. Mais surpreendente ainda foi a permissão que seu compatriota John Mawe obteve para visitar a fechadíssima região das Minas Gerais, em 1807 - e escrever minuciosamente sobre elas. Três outros ingleses logo viriam ao Brasil: John Luccock, em 1808, e Henry Coster, no ano seguinte, ambos autores de relatos notáveis. O terceiro viajante era Richard Francis Burton [...]. Na esteira dos ingleses [...] chegaram alemães e austríacos como o príncipe Maximiliano, Langsdorff, Spix e Martius. Todos trouxeram grandes artistas consigo e, assim, além de publicarem textos notáveis sobre o Brasil, eles foram responsáveis pela produção de belas obras de arte.

[Os circunavegadores] Durante os anos de clausura, as autoridades portuguesas só permitiam que ancorassem no Brasil expedições de circunavegação - e apenas para reequiparem seus navios com a maior brevidade possível. Desde a primeira viagem ao redor do globo, realizada, sob a bandeira espanhola, pelo navegador lusitano Fernão de Magalhães, o Rio de Janeiro serviu de ponto de escala. Magalhães partiu da Espanha em 20 de setembro de 1519, com cinco navios e 250 tripulantes, e chegou ao Rio em 13 de dezembro. Sua viagem foi narrada pelo italiano Francisco de Pigafetta, um nobre que conseguiu embarcar na nau Trinidad e que seria um dos únicos dezoito sobreviventes a retornar, três anos depois, ao ponto de partida.

Pigafetta não se surpreendeu apenas com a beleza da baía de Guanabara: também as frutas, como o abacaxi, os animais, como a preguiça, e, em especial, a franqueza sexual das nativas o espantaram. Os primeiros homens a navegar em torno do globo partiram da Terra do Verzino (como Pigafetta chamou o Brasil) no dia 27 de dezembro de 1519. Cerca de um ano depois, acharam o estreito que unia o Atlântico ao Pacífico e que foi batizado com o nome de seu descobridor. A descoberta abriu caminho para os corsários ingleses Drake e Cavendish, os circunavegadores seguintes.

O temível Francis Drake passou ao largo do Brasil antes de atacar o Peru, em 1578. Treze anos depois, a colônia não teria a mesma sorte: no dia de Natal de 1591, Thomas Cavendish atacou Santos, antes de se arriscar pelo estreito de Magalhães. Impedidos de atracar no Rio, os holandeses Olivier van Noort, em 1598, e Joris van Spilbergen, em 1614, usaram Ilhabela, em São Paulo, como porto de reabastecimento antes de cruzar o amedrontador estreito e completar a volta ao mundo.

As viagens ao redor do globo iriam adquirir nova dimensão depois que o capitão James Cook partiu de Plymouth, Inglaterra, em agosto de 1768. Levando consigo botânicos, zoólogos e astrônomos - e financiado pela Royal Society -, Cook estava inaugurando a era das grandes expedições científicas. Embora seu navio tenha obtido permissão para abastecer-se de água no Rio, seus tripulantes não puderam desembarcar. O botânico Joseph Banks - um cientista genial - ficou desolado. Teve de se contentar com uma breve excursão pela ilha Rasa, onde foi capaz de recolher 320 espécies, entre as quais orquídeas e bromélias lindíssimas, logo retratadas pelo artista Sidney Parkinson.

As viagens de Cook abriram caminho e a mente do jovem cientista Charles Darwin, cuja obra estava destinada a mudar os rumos da história natural. Em 27 de dezembro de 1830, a bordo do Beagle, Darwin partiu da Inglaterra para uma viagem de cinco anos ao redor do globo. Os estudos que realizou da fauna e da flora de diversas partes do mundo lhe permitiram elaborar a inovadora teoria da evolução das espécies. Embora as ilhas Galápagos tenham tido papel mais importante na elaboração da teoria, Darwin esteve duas vezes no Brasil - em Fernando de Noronha, em Salvador e no Rio -, na ida e na volta da viagem, e impressionou-se profundamente com sua natureza. O primeiro contato com os trópicos se deu em 28 de fevereiro de 1831, quando Darwin desembarcou na Bahia. No dia seguinte, ele anotaria no diário: "O dia passou-se deliciosamente. Mas "delícia" é termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. A elegância da relva, a novidade dos parasitas, a beleza das flores, o verde luzidio das ramagens e, acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral, foram para mim motivos para uma contemplação maravilhada. Jamais poderei experimentar tanto prazer".

BUENO, Eduardo. Brasil: uma história. São Paulo: Ática, 2005. p. 146, 148-149.