"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 28 de abril de 2017

A civilização neolítica

Imagem 1 - Estatueta feminina. Pré-cerâmica neolítica, com gesso, betume e incrustações de pedra. Ca. 9000-7000 a.C.

É que há nos invasores neolíticos um elemento de estabilidade: eles domesticaram animais e criam rebanhos.

Seus animais demoram-se nas terras boas, e voltam para a erva fresca de outra estação. O instinto do boi e do carneiro em busca de pasto e água leva atrás deles os homens; o movimento do rebanho alarga-lhes o domínio, mas torna lenta sua marcha: a captura da caça vai-se tornando menos indispensável. O clã se imobiliza e essa estabilidade relativa lhe permite melhorar seus utensílios. O homem se entrega a polir a pedra, a cinzelar os arpões, a cavar o solo para dele arrancar materiais.

Quando as pastagens se esgotam, é preciso partir: o gado dita a vida social. Esses nômades que vivem de seus animais só param quando a terra é bastante fértil para aliemntá-los sem sacrifício. Então o clã luta para nela se manter e pela posse das fontes indispensáveis aos rebanhos. O vencedor se tornará sedentário.

Depois de haver queimado a vegetação primitiva, ele semeia os grãos que viu germinar e espera a colheita. Coze tubérculos e planta árvores frutíferas. Cultiva os cereais, que ceifa, espiga por espiga, parte os grãos entre pedras chatas e os conserva em vasos de madeira, que produz em vime. Tece a lã e as fibras vegetais. Constrói cabanas de taipa e grupadas em acampamentos protegidos por paliçadas [...].

Imagem 2 - Estatueta masculina. Pré-cerâmica neolítica, com gesso, betume e incrustações de pedra. Ca. 9000-7000 a.C.

O clã se crê sob a proteção sagrada de um ser tutelar, senhor absoluto dos homens e dos bens e o poder divino desse animal faz dele a insígnia do clã, o totem, que dispõe de toda fonte de vida. Pela dança e pelo canto, o feiticeiro evoca suas energias sobrenaturais. O clã prossegue sua meditação do mistério. As planícies abertas liberam a imaginação humana e o céu ensina a noção da lei natural; as florestas concentram o espírito da observação. O culto dos mortos se desenvolve e também o da fertilidade. Para suas sepulturas, o clã levanta monumentos de pedra, dolmens, menires, ou cava abrigos artificiais; os costumes variam segundo os diversos focos de cultura neolítica.

Na mesma época coexistem já vários estágios de civilização e tais diferenças contribuem para acelerar as trocas entre os clãs, logo que o crescimento das forças produtivas lhes assegura um excedente de produção.

O objeto produzido torna-se objeto de troca: desde então, ele participa de relações sociais de uma natureza nova que sua função, por outro lado, vai modificar. É preciso primeiro produzir para depois trocar.

Imagem 3 - Cerâmica neolítica. Ca. 6200 a.C.

Os vencidos é que fornecerão o suplemento de trabalho que isso exige.

Outrora, abatiam-se os prisioneiros feitos nos combates pelo vencedor. Postos a serviço do clã vitorioso, seu trabalho contribuirá para enriquecê-lo. Não são as tarefas cada vez mais diversas? Com essa divisão constante do trabalho o encargo feminino passa a segundo plano.

A autoridade do dono dos rebanhos aumenta: ele submete a mulher e as noções de ligação de sangue cedem às de propriedade. Um duplo antagonismo dissolve a comunidade primitiva em proveito dos chefes de família e cinde a sociedade, ao mesmo tempo que a permuta regular de tribo para tribo cria diferenças de riqueza no interior do clã, onde desaparece o matriarcado.

Imagem 4 - Cerâmica do Neolítico. Ca. 6200 a.C.

À propriedade coletiva do clã tende a se sobrepor uma nova forma de propriedade: a desigualdade introduziu-se entre os homens. Depressa ela levará à propriedade individual que os chefes vigorosos reivindicarão, atribuindo-se mais prisioneiros e mais despojos.

[...] Com o crescimento numérico das populações humanas e de suas necessidades, a escravatura - essa domesticação de uma parte da humanidade pela outra - não deixará mais de se desenvolver.

[...]

Os detentores de escravos vão rapidamente beneficiar-se de uma situação privilegiada que procurarão estabilizar ajudando-se mutuamente para reforçar sua supremacia: uma classe dominante se constitui, saída diretamente das novas condições da produção.

[...]

No bem-estar em que melhoraram as condições de sua alimentação, os homens aperfeiçoaram suas técnicas. A tecelagem se torna hábil. Eles fabricam arcos e flechas, manobram suas pirogas a remo e - frágil símbolo dos sedentários - substituem os vasos de vime por uma louça de argila feita no tôrno, cozida e pintada com senso de simetria, em seus desenhos geométricos que reproduzem as fibras trançadas. [...]

Imagem 5 - A grande mãe do Neolítico. 

A reputação de seus trabalhos ganha o Mediterrâneo oriental, e encontra outras influências, que, do Golfo Pérsico, irradiam sobre o Oriente, o pé do planalto do Irã tardiamente liberto dos gelos. Também aí as inundações regulares dos rios asseguram abundantes colheitas aos nômades chegados da Ásia Central à Mesopotâmia. A cevada e o trigo aí nascem independentemente de cultivo. O solo argiloso permite construir casas de tijolos secos ao sol e de trançados de canas. [...]

Assim desabrocharam duas opulentas sociedades agrícolas, semelhantes pelos aperfeiçoamentos técnicos e pela qualidade humana: a tatuagem desapareceu no Egito e na Mesopotâmia, enquanto o resto da humanidade estava ainda na barbárie.

[...]

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. p. 10-3.

sábado, 16 de julho de 2016

Os celtas: as origens

Guerreiros celtas, Antoine Glédel

Gauleses? O termo, imposto pela tradição, não é claro. César, quando da conquista, restringe-o a uma parte dos habitantes da Gália independente: entre o Sena e o Marne, de um lado, o Garona e o Ródano de outro. Estes, diz ele, “chamam-se celtas em sua língua e gauleses na nossa”. O que, aliás, não impedia os romanos de atribuir à palavra “Gália” uma extensão muito mais considerável [...] E os gregos empregavam o nome de “celtas” e, mais tarde, na época helenística, também o de “gálatas”, para distinguir homens que viviam em regiões bem diversas, desde a Península Ibérica até o coração da Ásia Menor.

[...] A Arqueologia e a lingüística fornecem dados mais sólidos [...]

[...] A idade do bronze corresponde mais ou menos, na Europa Ocidental, ao II milênio a.C. [...] As antigas civilizações dos megálitos (menires, dolmens, aléias cobertas) e das palafitas (cabanas sobre estacas das aldeias lacustres), não só sobrevivem, como também ganham terreno. [...] Ao mesmo tempo surgem outras civilizações, particularmente a dos tumuli, que sepulta os mortos, com objetos familiares, sob montículos de terra e pedra [...] Depois, nos fins da idade do bronze e do II milênio a.C., verifica-se a propagação [...] da civilização Urnenfelder (“compos de urnas”), que pratica a incineração e constrói cemitérios de tumbas planas.

Desaparece, assim, durante a idade do bronze, o isolamento geográfico das civilizações neolíticas. Os contactos, certamente, multiplicam-se e as crenças misturam-se, ao mesmo tempo que as técnicas. [...] Quanto à antropologia, embora consiga distinguir os tipos humanos dominantes, na maioria das vezes isso permite-lhe apenas comprovar a existência de mestiçagens, aliás, muito antigas.

A situação só começa a clarear um pouco no princípio do I milênio a.C., com o aparecimento do ferro. Parecem ter sido as da Alta Áustria as primeiras jazidas exploráveis deste minério. A região, além disso, estava apta a sofrer, por intermédio da Ilíria, certas influências provenientes do Mediterrâneo Oriental. Em todo caso, a mais antiga civilização do ferro recebeu a designação de Hallstatt [...] Constitui-se ela entre 900 e 800 a.C. e estende-se por um território muito vasto. Com facies diferentes, dispersa seus tumuli de inumação ou incineração e seu armamento, cuja peça mais característica é uma espada amolada e afiada. [...]

Na realidade, nada em seus progressos, tais como a arqueologia os revela, nos indica que esses fossem realizados de maneira brutal, por conquistas, chacinas e destruições. [...] devem ter correspondido a deslocamentos humanos, mas sob a forma de infiltrações lentas e sucessivas ao longo dos vales fluviais, deixando subsistir os estabelecimentos anteriores que sofreram apenas absorção progressiva.

O mesmo verificou-se [...] com a civilização que, a partir do fim do século V a.C., sucedeu à de Hallstatt. Atribu-se-lhe o nome de La Tène, estação suíça situada perto da extremidade setentrional do lago Neuchâtel. Ela ocupa pouco a pouco o território da civilização precedente, substituindo imediatamente a espada por um sabre feito para talhar e, mais lentamente, os tumuli por sepulturas subterrâneas. Suas joias e seu mobiliário são mais ricos, com coral, esmaltes, contribuições estrangeiras mais numerosas e vindas de mais longe. Evolui, aliás, no sentido do aperfeiçoamento técnico e do enriquecimento, e o fim de seu terceiro e último período coincide com o seu desaparecimento, na Gália, em face da civilização romana implantada pela conquista.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma e seu império. O Ocidente e a formação da unidade mediterrânica. São Paulo: Difel, 1974. p. 59-61. (História geral das civilizações, 3)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios

Tohunga sendo alimentado no tapu (sagrado/proibido), Gottfried Lindauer. 

Os melanésios encontravam-se num estágio de civilização que recordava o período neolítico adiantado. Fisicamente mais evoluídos, de barba rala, o nariz mais reto, as arcadas supraciliares raramente proeminentes, usavam enfeites mais rebuscados: tatuagens para as mulheres, pinturas no corpo para os homens, deformação da cabeça ou da cintura, descoloração dos cabelos, ou pintura com ocre, colares e braceletes feitos de dentes e de conchas, plumas ou flores nos cabelos.

Seus utensílios eram mais aperfeiçoados: achas de pedra polida, facas de conchas, limas em pele de raia, sovelas de ouro, armas variadas, compreendendo arcos e fundas. Eram principalmente excelentes marinheiros que sabiam construir e dirigir grandes pirogas e também hábeis agricultores que, com um simples pau para revolver a terra, cultivavam inhame e taro. Conheciam o sistema monetário, baseado em plumas ou em dentes, eram ávidos de lucro e alguns faziam belas fortunas, emprestando a um juro de 100%.

Sua sociedade era matriarcal. Eram os tios quem mandavam nos filhos da irmã. Os homens comiam e dormiam numa espécie de clube da aldeia e os dois sexos viviam quase sempre separados. O casamento fazia-se por compra e os ricos eram polígamos.

O Estado político era democrático, mas as sociedades secretas desempenhavam grande papel e nestas só os ricos, que podiam despender grandes somas e dar festas, ascendiam aos graus superiores. Estas sociedades aterrorizavam os não-iniciados por meio de agressões, multas e até a morte.

Suas crenças religiosas eram vivas, embora, ao mesmo tempo, de um nível inferior às dos outros povos precedentes, menos civilizados. Acreditavam no mana, virtude sobrenatural transmissível. Um bom pescador possuía o mana. Para triunfar em qualquer coisa era preciso mana, e este podia conseguir-se através da magia. Algumas formas de mana eram perigosas. Nessa altura o tabu (interdição) era lançado sobre as pessoas, os objetos ou os lugares que o possuíam. Todos eram animistas, isto é, acreditavam na existência de espíritos difundidos nas pedras, nas árvores, nas serpentes, em toda parte. Mas não se elevavam ao politeísmo; acreditavam na sobrevivência dos espíritos dos mortos. Entregavam-se a preces, sacrifícios, cantos ritmados e talhavam na madeira a figura do antepassado que participaria na vida de seus descendentes.

Os micronésios assemelhavam-se-lhes muito, embora num grau um pouco mais elevado. Navegadores notáveis, os seus comerciantes realizavam longas viagens em pirogas de balancim, servindo-se de mapas feitos de canos de bambu. Tinham uma nobreza e servos. Os navegadores mais peritos eram recompensados com a concessão de feudos. Certas ilhas haviam atingido o politeísmo e possuíam um rico panteão, dominado por um Deus.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 376-377 (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Agricultores e pastores

Durante o período Paleolítico, ou Idade da Pedra Lascada, os homens praticavam uma economia coletora de alimentos. À medida que começaram a cultivar plantas e a domesticar animais, tornaram-se produtores de alimentos, ou seja, passaram a ter o controle sobre o abastecimento de sua alimentação. Esse fato representou uma profunda transformação econômica, com importantíssimas consequências para a sobrevivência da espécie: é chamado de Revolução Neolítica ou Revolução Agrícola. Na realidade, não foram evidentemente todos os homens que se tornaram produtores, mas tão-somente algumas comunidades humanas. E tampouco a Revolução Neolítica ou Agrícola deu-se de um dia para outro. Foi o lento processo de desenvolvimento das forças produtivas, verificado em certas comunidades, sob determinadas condições históricas, que fez com que se desse esse salto na economia da sociedade "primitiva".

Não é importante, historicamente, saber se a agricultura precedeu a criação de animais, ou vice-versa. Possivelmente, em algumas comunidades, a caça ensejou a criação de animais; em outras, a agricultura é que teria possibilitado a posterior domesticação dos animais. O que importa reconhecer é que, com a agricultura e a pecuária, aumentou consideravelmente o domínio do Homem sobre a Natureza, embora, durante muito tempo ainda, a caça continuasse completando o abastecimento fornecido pela agricultura.

Na bacia do Mediterrâneo, na Ásia Menor e na Índia, os principais produtos cultivados foram o trigo e a cevada. Mas cultivavam-se também o arroz (Extremo Oriente), o milho (na América) etc. [...]

O início da agricultura implicou a reorganização econômica da sociedade. Conquanto o nível da economia permanecesse de subsistência, já era possível produzirem-se excedentes, embora raros e ocasionais, que eram ou trocados ou consumidos nas festas religiosas, ou ainda armazenados. Numa economia produtora, podem-se fazer previsões da produção - o que diferencia basicamente da economia coletora.

O aumento da população, provocada pela nova economia produtora, foi bastante significativo, como a provam os numerosos esqueletos humanos e túmulos encontrados nas aldeias neolíticas. No entanto, o cultivo da terra não acarretou, de imediato, uma sedentarização da população. O método primitivo de cultivo - cultura de enxada - exauria rapidamente o solo, obrigando a constantes mudanças. Os homens do Neolítico, porém, já se encontravam organizados em tribos, e não mais em bandos, e viviam em aldeias, em cabanas de madeira, barro e tijolo, e não mais em cavernas.

Nos vales aluvionais, os homens dependiam das cheias dos rios, que irrigavam as plantações e revitalizavam o solo, depositando uma camada de húmus fertilizador. Nessas regiões, o agricultor não precisava  ser nômade, podendo cultivar permanentemente a mesma área. Ao que parece, a cultura de enxada ou de horta precedeu a irrigação natural, que teria surgido bem mais tarde.

Dois meninos pastores. Afeganistão. Efren Lopez


Nas aldeias neolíticas predominava uma agricultura mista, ou seja, ao lado do cultivo de cereais havia criação de animais, tais como bois, carneiros, cabras, porcos. A princípio, apenas se utilizavam a carne o o couro desses animais, mais tarde, descobriram-se outras utilidades: o leite, a lã etc. Em algumas comunidades neolíticas de agricultura mista, a economia pastoril era dominante e o cultivo de plantas teve um papel pouco significativo: é o caso dos beduínos da Arábia e dos mongóis da Ásia Central. A agricultura mista teria sido o produto da fusão entre as atividades agrícola e pastoril. De início, a coleta de alimentos - sobretudo a caça - tinha tanta importância quanto o cultivo da terra, complementando a economia.

Dois homens hadza retornando da caçada. Tanzânia, África. Andreas Lederer


O rendimento de uma economia produtora é maior do que o de uma economia coletora, sujeita aos azares da caça. Os homens podem produzir mais do que o necessário ao consumo imediato da comunidade, embora não sejam estimulados a isso. No entanto, a produção de excedentes só foi possível a longo prazo, quando a agricultura se tornou independente e dominante.

A existência de tribos pastoras e agricultoras deu origem às trocas e aos contatos mais frequentes entre esses produtores, devido à possibilidade de acumulação de excedentes.

Da possibilidade de fazer reservas derivou a necessidade de fabricar potes para armazená-las. O artesanato de potes e vasilhas, obra das mulheres, foi uma das características das comunidades neolíticas. Embora a cerâmica pudesse ter surgido antes da economia produtora, somente no Neolítico houve fabricação de potes em grande quantidade. O ofício de ceramista era complexo: o ceramista moldava a argila à sua vontade, dando-lhe forma e volume, e decorando-a.

Além da cerâmica, desenvolveu-se, também por iniciativa da mulher, a fabricação de tecidos, usando-se o linho, a lã e o algodão. Inventou-se o tear, que representou novo avanço nas forças produtivas. As habilidades técnicas para cozer a cerâmica e fiar e tecer só podiam ser adquiridas com a prática: era um trabalho praticado principalmente pelas mulheres. Devido à divisão do trabalho entre os sexos na comunidade primitiva, os homens caçavam, pescavam, cuidavam dos rebanhos, preparavam os campos de cultivo, faziam suas ferramentas, enquanto as mulheres cultivavam as plantas, além de dedicar-se à cerâmica e à fiação e tecelagem. Houve, entretanto, comunidades em que a tecelagem estava a cargo dos homens.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 108-110.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Culturas do Neolítico (10.000 a.C.)

Arte rupestre: homens do Neolítico em Tassili n' Agger


O Neolítico (pedra nova, polida) inicia-se em torno de 10.000 a.C., no Médio e no Próximo Oriente, prolongando-se até a Idade dos Metais, a chamada Proto-história (cerca de 4.500 a.C.). Estende-se pela Europa, Leste e Sudeste da Ásia, África, Américas e Austrália.

Caracteriza-se por uma série de transformações iniciadas nos períodos anteriores e que tornaram possível a sua ocorrência:

a) coleta sistemática de vegetais: associada ao aproveitamento de animais reunidos e à consequente fixação do homem às regiões favoráveis;
b) produção de alimentos: de predador, o homem se torna produtor de alimentos, criando seus próprios recursos;
c) polimento: inaugura-se nova técnica na fabricação dos instrumentos líticos que, além da estética, tornam-se mais eficientes, porque são mais aperfeiçoados;
d) domesticação: de animais (ovelhas, cabras) e de plantas (trigo, cevada) que levou ao surgimento do pastoreio, da agricultura incipiente (cultura da enxada) e à sedentarização do homem;
e) aglomerados humanos: formação de aldeias sedentárias que serviam como centros comerciais e religiosos e que mais tarde se transformaram em vilas e cidades (urbanização);
f) cerâmica: 7.000 ou 8.000 anos a.C. registra-se o aparecimento da cerâmica.

Grandes mudanças ocorreram nos modos de pensar e agir do homem neolítico que, a partir de então, tinha sua auto-suficiência assegurada. Desenvolve-se o culto à fecundidade e a mulher ganha status na sociedade, por plantar e reproduzir. [...]

O Neolítico teve seu início no chamado Fértil Crescente, que abrange a região do rio Nilo e se estende pela margem oriental do Mediterrâneo até os rios Tigre e Eufrates (Oriente Médio).

Ao longo dos rios e dos grandes lagos estabeleceram-se, inicialmente, grupos de coletores e, posteriormente, de agricultores, permitindo o seu desenvolvimento. [...]

O homem do Neolítico desenvolveu atividades agrícolas, cultivando o trigo, a cevada, o linho; atividades de caça e pesca, utilizando anzóis de osso e de marfim; atividades pastoris, com a criação de ovelhas, cabras, porcos, bois etc.

Seus instrumentos eram muito aperfeiçoados, decorados e mesmo incrustados: machados de pedra polida, vasos, conchas, foices, mós, pontas de flechas etc. [...] A cerâmica (negra, cinzenta e vermelha) estava sempre presente nessas culturas. [...]

As habitações construídas com tijolos crus eram redondas, ovais e posteriormente retangulares. Entre os animais domésticos estavam o cão e a ovelha. [...]

[...]

Somente com o advento da Idade dos Metais (cobre, bronze e ferro) é que o homem deixa de usar a pedra como matéria-prima para as suas manufaturas.

MARCONI, Marina de Andrade; PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia: uma introdução. São Paulo: Atlas, 2010. p. 87-89.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O aparecimento do Estado

Afresco. Palácio de Cnossos, Creta

Junto aos grandes rios, os chefes encarregaram-se de controlar os sistemas de canais. Aí, onde a terra era fértil, os camponeses produziam uma quantidade suficiente de cereais para alimentarem dezenas de milhares de pessoas.

Todas as condições se reuniam então para que aparecesse uma nova organização na vida dos homens.

[Algumas aldeias tornaram-se cidades] As profissões multiplicaram-se e as riquezas também. Entre uma e outra aldeia começou-se a trocar objectos de artesanato e alimentos. O comércio fez assim a sua aparição. As primeiras cidades apareceram cerca de 4000 anos a.C., na Mesopotâmia. A Mesopotâmia é a região fértil situada entre os rios Tigre e Eufrates.

Depois, o vale do Indo, o do Nilo e, mais tarde, o do rio Amarelo na China, viram nascer cidades. No vale do Indo, Harapa e Mohenjo-Daro tinham 60 000 habitantes. Em Mohenjo-Daro as casas eram construídas em torno de um pátio interior. Possuíam mesmo casas de banho. Na China, a primeira cidade conhecida foi fundada cerca de 1900 a.C.

[Como surgiram os primeiros reis] Doravante, na superfície da Terra, os homens viviam de maneiras diferentes. Os caçadores-recolectores era ainda os mais numerosos, por exemplo na América. Em todos os continentes, as pessoas agruparam-se em aldeias. Na África, na Ásia, criadores de gado percorriam grandes extensões de terreno atrás dos seus rebanhos. E, nas primeiras cidades do Médio Oriente, surgem ainda novas mudanças.

Entre os caçadores-recolectores não havia propriamente ninguém que comandasse, as decisões eram tomadas pelo grupo e, por vezes, pelos homens mais velhos.

Mas nas cidades, um chefe único, descendente de uma grande família conseguiu impor a sua autoridade. Ele tornou-se rei fazendo crer aos outros que era protegido pelos deuses. Os sacerdotes, que pertenciam às famílias ricas, apoiavam-no. Os templos desempenhavam um papel muito importante. Eram ao mesmo tempo entrepostos de mercadorias e lugares de culto.

[O rei e seus funcionários] O rei, cada vez mais poderoso, rodeava-se de pessoas que executavam as suas ordens e as faziam respeitar pela população. Desde então, o poder de decidir pertencia ao rei, que governava sozinho com a ajuda de funcionários, homens que deviam obedecer às suas ordens. Tinha nascido o Estado, ou seja, um conjunto de pessoas que decide e dá instruções aos outros. Os camponeses e os artesãos apenas tinham que se submeter. A cidade tinha-se tornado numa cidade-estado governada por um rei.

[Uma praga para a humanidade: a guerra] Será que a guerra, que nunca deixou de assolar a história do homem, existiu sempre? Ou foi uma terrível invenção que acompanhou as outras grandes mudanças do Neolítico?

É uma questão muito grave e muito difícil, sobre a qual os estudiosos discutem há muito tempo. E eles nunca estiveram todos de acordo. A violência é, sem dúvida, uma característica do homem, desde o tempo dos austrolopitecos. Os caçadores do Paleolítico davam largas à sua agressividade na caça; provam-no as hecatombes de mamutes. Mas a caça servia para se sustentarem.

Os caçadores-recolectores cuja maneira de viver foi estudada por etnólogos não tinham todos a mesma atitude. Por exemplo, os esquimós ignoravam a guerra, e ainda hoje a ignoram. Por outro lado, certos grupos de índios da América praticavam-na contra outros índios. Mas essas guerras eram ataques breves, incursões de surpresa. Tinham, sobretudo, por objectivo, o prestígio do guerreiro que obtém o escalpe do inimigo que matou. As guerras não impediam as dádivas recíprocas e os hábitos de troca entre os clãs.

[Escaramuças e pilhagens através de grandes expedições armadas] Quando as riquezas aumentaram, quando os aldeãos fizeram grandes armazenamentos, a guerra começou a ter outro objectivo. A separação entre os agricultores instalados nas suas aldeias e os criadores de gado que continuavam a ser nómadas, atrás dos seus rebanhos, agravou a violência entre os homens. Clãs de criadores de gado foram tentados a pilhar os celeiros dos aldeãos.

A partir do nascimento das cidades-estados, os reis, não contentes por reinarem apenas a sua cidade, procuraram expandir os seus territórios. Graças à metalurgia do bronze, os chefes dispunham de armas novas mais eficazes. Os reis, em luta uns contra os outros, criaram exércitos, ou seja, juntaram homens cuja tarefa era combater. As guerras multiplicaram-se.

[Uma outra praga: a escravatura] Nas suas campanhas assassinas, os guerreiros começaram a fazer numerosos prisioneiros. E um terrível hábito nasceu do triunfo dos fortes sobre os fracos: a escravatura. Os prisioneiros foram deportados para as cidades-estados vitoriosas, e homens, mulheres e crianças tornaram-se os escravos do rei e das grandes famílias. Isto quer dizer que eram a propriedade de outros homens, que dispunham inteiramente das suas vidas e das suas mortes. As crianças que nasciam de pais escravos sê-lo iam, por sua vez. Angariar escravos tornou-se um outro objectivo da guerra. Os escravos eram indispensáveis para os grandes trabalhos que os reis mais poderosos tinham iniciado.

No Médio Oriente, graças às suas vitórias, certos reis apoderaram-se de vastos territórios. Nasciam assim os primeiros impérios, ou seja, a reunião sob o comando de um rei e dos seus funcionários de um grande território com as suas aldeias e cidades. Os mais antigos são Acad e a Suméria a sul da Mesopotâmia. Mas o Império Egípcio é o mais conhecido.

[Grandes impérios, grandes trabalhos, grandes monumentos] À força de vitórias e de derrotas, em todo o Médio Oriente, numerosos impérios surgiram e desapareceram durante vários milhares de anos.

Do mesmo modo, quando a agricultura se tornou próspera, surgiram impérios em outras partes do mundo: na China e nos Andes, na América do Sul. Os chefes desses grandes impérios rivalizavam no orgulho. Queriam mostrar as suas riquezas aos olhos de todos e adular os sacerdotes que os apoiavam. Tinham como ponto de honra construir os maiores e os mais belos monumentos, palácios, templos ou túmulos. Ainda hoje se podem admirar alguns. As pirâmides do Egipto são os mais célebres.

Mas houve muitos outros monumentos desses. Foi necessário o trabalho de milhares de escravos. de camponeses e de artesãos para criar essas "maravilhas do mundo".

[Todas as maravilhas do mundo] Os megálitos encontram-se entre os mais antigos monumentos do mundo. Trata-se de enormes pedras que foram levantados cerca de 3000 a.C., e que serviam de túmulos. Encontramo-los dispersos em torno do oceano Atlântico e do norte da Grã-Bretanha até o sul de Espanha.

Mais ou menos na mesma altura, dois magníficos templos ornados de mosaicos, de pedras preciosas e de diamantes foram construídos em Uruk.

As pirâmides egípcias de Gizé remontam a cerca de 2500 a.C.

Ao sul da Mesopotâmia os zigurates eram enormes edifícios de tijolos. Eram construídos em terraços tendo ao alto um templo consagrado a um dos deuses da cidade. Os primeiros foram construídos cerca de 2000 a.C.

Na ilha de Creta, o palácio mais antigo, o de Cnossos, data dessa mesma época.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1998. p. 37-43.

sábado, 17 de setembro de 2011

A Pré-história: das origens até 3000 a.C.

"Por milênios o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pelos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas." (GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 151.)

Pintura rupestre do povo Sam, África do Sul
"A linguagem da arte é poderosa para as pessoas que a compreendem, e intrigante para quem não a compreende. O que sabemos é que aqui estava a mente moderna em funcionamento, gerando simbolismos e abstrações de um modo que somente o Homo sapiens é capaz de fazê-lo."
(Richard Leakey, paleontólogo)

1. Pré-história: crítica ao termo. Tradicionalmente, costuma-se dividir o processo histórico em Pré-história e História, sendo a utilização da escrita o fato que distingue uma sociedade pré-histórica ou "primitiva" de outra sociedade histórica ou "civilizada".

O estudo da Pré-história trata de aspectos da vida de povos que não tiveram escrita. Alcança um período cerca de cem vezes maior do que o abrangido pela História escrita. Os mais antigos documentos escritos do Egito ou da Mesopotâmia datam aproximadamente de 5000 anos e sabe-se hoje que os primeiros grupos humanos surgiram há mais de 600 ou 500 mil anos! Portanto, tal divisão da História limita o seu próprio campo.

As escritas constituíram-se quando apareceram os primeiros instrumentos de metal e já se encontravam bem desenvolvidas quando surgiram os instrumentos de bronze e se iniciou a vida urbana. Assim, o aparecimento da escrita pressupõe um determinado desenvolvimento das forças produtivas e da capacidade mental dos homens. Mas qual terá sido o benefício social para a massa de um povo, para a classe trabalhadora dessas sociedades onde se elaboraram sistemas gráficos? Essa grande transformação cultural foi aproveitada pela sociedade como um todo? De modo algum. Durante vários milênios, a escrita e também o metal foram privilégios apenas de uma parcela da população. A massa das sociedades permaneceu iletrada até pelo menos a Revolução Industrial dos séculos XVIII/XIX. Assim, na verdade, a cultura "Pré-histórica" coexiste com as chamadas "civilizações". Mas nem por isso se poderá dizer que as sociedades da Idade Média, por exemplo, viviam na Pré-história!

Himbas, Namíbia.
Foto: Rosier

Uma outra descoberta, por certo, foi muito mais revolucionária e muito mais significativa do que a invenção da escrita: o controle do fogo. (AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 100-101.)

2. Estudo da Pré-história. A base para os estudos pré-históricos são as escavações em sítios arqueológicos, que trazem à luz um número cada vez maior de fósseis (literalmente, tirados da terra): resíduos de seres vivos - plantas, animais, ossos etc. - petrificados ou endurecidos, depois de permanecerem por longo tempo soterrados entre as camadas de rochas. Nos sítios, é recolhido também todo e qualquer objeto produzido ou utilizado pelos seres humanos, além da investigação de registros por eles deixados, como pinturas em rochas.

Para esse estudo concorrem diversas ciências voltadas para o conhecimento histórico propriamente dito: arqueologia, antropologia, paleontologia. Além dessas, o estudo de vestígios e registros pré-históricos vale-se de pesquisas de outras áreas e  de técnicas ligadas à investigação da constituição física da Terra e ao conhecimento dos seres vivos, como geologia, geografia e biologia.

Uma das principais contribuições para os estudos da Pré-história vem da química e da radiologia, que possibilitam, por meio de medições dos isótopos radioativos de certos elementos químicos (como o carbono 14), datações cada vez mais precisas dos objetos e vestígios humanos antigos.

Outro recurso empregado pelos estudiosos do passado remoto da humanidade é o da etnologia comparada, que permite estabelecer hipóteses, e mesmo algumas interpretações, a partir do conhecimento sobre os atuais povos iletrados. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 24-25.)

3. Passado presente. Numerosos povos de caçadores atingiram o século XIX e início do século XX, tempo suficiente para serem estudados por etnólogos e antropólogos físicos e sociais. Hoje, as atividades de caça e coleta são representadas pelos bosquímanos, esquimós e aborígenes australianos. Eles abrangem apenas algumas centenas de milhares do total da população mundial, mas fornecem uma possibilidade valiosa e única de compreensão das atividades primitivas humanas.

Senhoras Himba, Opuwo, Namíbia.
Foto: Hans Hillewaert

Estudos recentes revelam estreito relacionamento entre povos caçadores e seu ambiente natural, relativa simplicidade da cultura material (apenas 94 artefatos existem entre os bosquímanos kung), ausência de acúmulo de riqueza individual [...].

As unidades sociais, bandos ou hordas, são pequenas: grupos de familiares e poucos amigos que podem viver e trabalhar em conjunto. Estudos recentes contradizem a visão tradicional da vida de caça como grosseira, embrutecedora e curta, e como uma luta constante contra o ambiente hostil. Com efeito, as exigências de subsistência dos bosquímanos são satisfeitas por um pequeno esforço - talvez até de dois ou três dias de trabalho por semana, para cada adulto; não precisam se empenhar por recursos de alimentação; suas atitudes em relação à propriedade são flexíveis e seus grupos admitem recém-chegados de outros grupos. [...]

Há evidências de que a expectativa de vida nas comunidades de caça e coleta não é necessariamente curta. Doenças infecciosas são raras, já que as pessoas se estendem por diversas terras, tornando mais difícil o contágio entre grupos [...]. (BARRACLOUGH, Geoffrey (coord.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo/Times Books, 1985. p. 35)

4.  O início da vida na Terra. De acordo com os geólogos, a Terra teria tido origem, há cerca de 4 a 5 bilhões de anos, de uma bola incandescente de vapores e gases. De seu resfriamento progressivo formaram-se a atmosfera e a crosta terrestre.

A crosta terrestre chegou a seu aspecto atual no decurso de numerosas transformações que se processaram através de bilhões de anos. Essas transformações foram classificadas pelos cientistas em várias eras, acompanhando a formação física da Terra e o aparecimento da vida vegetal e animal.

* Azóica (sem vida). Formação das rochas ígneas (formadas pelo fogo) e de uma atmosfera carregada de gases.

* Arqueozóica (vida arcaica). Primeiras chuvas. Formação de oceanos, numerosos vulcões, altíssimas montanhas. Surgiram as primeiras formas de vida, seres unicelulares, algas marinhas.

* Proterozóica (vida elementar). Formação de rochas sedimentares. Aparecimento de esponjas, corais, primeiras plantas com raízes.

* Paleozóica (vida antiga). Surgiram enormes extensões cobertas por samambaias gigantescas; sua decomposição determinou a formação de grandes jazidas de hulha (carvão mineral). Essa era é também chamada primária, pois nela se iniciou a evolução da espécie animal, - moluscos, peixes, anfíbios, insetos, - favorecida por um clima quente e úmido.

* Mesozóica (vida média) ou secundária. Era de grandes erupções vulcânicas modificando o aspecto da crosta terrestre, levantando algumas das mais altas cadeias de montanhas da atualidade: Himalaia (Ásia), Andes (América do Sul), Rochosas (América do Norte). Evoluíram formas mais complexas de vida: répteis, aves, primeiros mamíferos.

* Cenozóica (vida recente) ou terciária. Nessa era ocorreu grande queda de temperatura, determinando a formação de colossais massas de gelo nos pólos. No hemisfério norte essas glaciações avançaram sobre grande parte da Europa, América e Ásia. Multiplicaram-se os mamíferos, surgindo os chamados primatas, dos quais, na era seguinte, evoluiria o homem.

* Neozóica (vida nova) ou quaternária. Nesta era alternaram-se períodos de glaciações com períodos de intenso calor. Desapareceram certos animais (o mamute, por exemplo), que conhecemos apenas pelos fósseis (restos petrificados de bichos e plantas) encontrados nas diferentes camadas de rochas do nosso planeta; outros animais (rena, alce, bisão) fixaram-se em regiões junto às zonas árticas. Quando cessaram as glaciações o homem já havia surgido e continentes e oceanos já haviam adquirido sua forma atual.

5. A evolução do homem na Terra. Os mais antigos ossos humanos até agora encontrados em várias partes do globo atestam que o homem apareceu há mais de 1.000.000 de anos. Os ossos encontrados apresentam grandes diferenças entre si, mostrando a evolução da espécie humana através dos tempos.


"O aparecimento do Homem sobre a terra é indicado pelos instrumentos que ele faz". 
(Gordon Childe, arqueólogo)

* Zinantropo e Australopiteco, descobertos, pela primeira vez, no século XX, na África. Existiram há cerca de 1,5 milhões de anos e foram considerados muito próximos dos macacos.

* Homem de Java, aí descobertos, pela primeira vez, no fim do século XIX. Existiu de 500000 a 2000000 a.C. e foi considerado o primeiro tipo de homem; conhecido por Pithecanthropus erectus (homem-macaco de pé).

* Homem de Pequim, aí descoberto, pela primeira vez, no princípio do século XX. Foi contemporâneo dos últimos pitecantropos.

* Homem de Neandertal, descoberto, pela primeira vez, na Alemanha, em meados do século XIX. Existiu de 200000 a 50000 a.C.


Representação moderna de família de Neandertais. 
Os Neandertais viveram em áreas do norte e oeste da Eurásia na última Idade do Gelo. Os Neandertais eram caçadores-coletores. Criaram armas e ferramentas de pedra. O mamute-lanoso, o veado com chifres de Bush e o gato de dentes de Sabre são os animais extintos da época do Pleistoceno. O cavalo da Eurásia, o Orix, o Lemming em faixas e o boi-almiscarado são animais que ainda existem. Ilustração: Randii Oliver


* Homem de Cro-Magnon, ou homo sapiens, isto é, homem que raciocina. Descoberto na França, em meados do século XIX, é o antepassado do homem atual.

Além dos restos humanos ainda foram encontrados, nas várias camadas da Terra, utensílios e armas usados pelos homens primitivos, permitindo-nos reconstituir pelo menos em parte o tipo de vida que levaram e acompanhar sua evolução. Conforme as técnicas que o homem foi inventando para viver e sobreviver em seu ambiente, e dele tirar proveito, dividiram-se os longos tempos de sua Pré-história em três períodos: Paleolítico, Neolítico e Idade dos metais.

Neandertais Moustier, Charles R. Knight

6. Os grandes períodos da Pré-história. É provável que os primeiros homens se tenham servido de galhos de árvores e pedaços de pau a fim de desenterrar raízes, derrubar frutos, fisgar peixes, matar animais e para se defender. Nada, porém, restou desses instrumentos que o tempo se encarregou de destruir. Os instrumentos mais antigos encontrados em escavações são de pedra, de chifre ou de marfim. Como os objetos de pedra são mais numerosos, chamou-se ao primeiro período da Pré-história de Idade da pedra. E como os diferentes tipos de armas e utensílios eram alguns mais toscos, outros mais aperfeiçoados, dividiu-se a Idade da pedra em pedra lascada, ou Paleolítico, e pedra polida, ou Neolítico. Quando os homens descobriram como fazer uso dos metais teve início a Idade dos metais; e quando, por volta de 3000 a.C., o homem inventou a escrita, podendo assim registrar fatos significativos de sua existência, usos e costumes, teve início a História.

* Paleolítico. Durou desde o aparecimento do Pitecantropo - cerca de 600000 a.C. - até aproximadamente 10000 a.C., quando já aparecera o homem de Cro-Magnon, o homo sapiens.

No começo os homens eram nômades, vivendo em busca do alimento pela coleta de frutos, ervas e raízes, comendo insetos, peixes e pequenos animais, às vezes capturados em armadilhas rudimentares. Aos poucos aprenderam a fabricar instrumentos de pedra, sobretudo de sílex, lascando-os com outra pedra. Com os primeiros instrumentos, espécie de machados, puderam caçar animais maiores, atirando sua arma à distância, e foram fazendo novos instrumentos, de acordo com a necessidade: lanças, arpões, anzóis e, mais tarde, agulhas de osso, arcos e flechas. Com o aperfeiçoamento das armas os homens dedicaram-se à caça, e a coleta ficou a cargo das mulheres, das crianças e dos velhos. As peles dos animais mortos serviam de roupa e eram costurados com fios obtidos dos tendões da caça abatida.


Bisão, Loius Agassiz Fuertes

Conforme as regiões habitadas abrigavam-se em cavernas ou em choupanas feitas de galhos, cobertas de folhas. Aos poucos perderam o medo do fogo provocado na natureza por combustão espontânea ou por raios, descobriram sua utilidade e aprenderam a acendê-lo. Passaram a assar a carne e a cozinhar vegetais em sacos de pele. Junto ao fogo se reuniam, descansavam e se protegiam do frio e dos ataques de animais ferozes.


Diálogo de gerações - o elo constante da civilização.
As experiências vividas sempre são úteis aos novos projetos. Os mais velhos abrem frentes de meditação e explicação, sejam no campo dos bens materiais, sejam nas questões do espírito.

* Neolítico. Estende-se de cerca de 10000 até aproximadamente 4000 a.C.; denomina-se também Idade da pedra polida, pois nessa fase os homens aprimoraram os instrumentos de pedra, polindo-os e tornando-os também mais afiados. Fizeram muitos novos utensílios, tais como facas, foices, enxadas e vasilhas para guardar ou cozinhar alimentos. O homem descobriu como utilizar a argila (fim do sexto milênio a.C.), modelando recipientes que eram depois cozidos ao fogo para adquirir resistência; descobriu como tecer fibras vegetais e pelos de animais para fazer roupas mais práticas e adequadas a vários climas, a trançar cestos e balaios, a construir barcos e jangadas escavando ou unindo troncos de árvores.

Instrumentos de trabalho do período Neolítico

Entretanto, a realização mais importante, mais significativa, do homem do Neolítico foi ter dado início à agricultura (ca. 8000 a.C.). As primeiras formas de agricultura desenvolveram-se na Ásia Menor (Mesopotâmia), onde tamareiras, oliveiras, figueiras, macieiras e outras plantas cresciam espontaneamente em grande quantidade.

Observando o ciclo de crescimento das plantas aprendeu a cultivar para produzir e colher cereais, frutos e legumes. Deixou, pois, de ser apenas coletor e caçador e, como agricultor, fixou-se ao solo, tornando-se sedentário. Passou a viver em moradias de pedra, barro, tijolos ou madeira, muitas vezes sobre palafitas, à beira de lagos, agrupadas em núcleos cada vez maiores que formaram as primeiras aldeias, reunidos em tribos - grupos de famílias unidas pelos mesmos interesses e mesmos laços de sangue.

Capturando animais selvagens, para tê-los como reserva alimentícia, aprendeu a domesticá-los e a aproveitar-se do que eles ofereciam, como leite e lã. No fim do Neolítico o homem já havia domesticado o cachorro, o carneiro, a cabra, o boi, o porco, o cavalo e outros animais, segundo as regiões do globo que habitavam. Assim, além de agricultor, tornou-se também criador e desenvolveu o pastoreio.

O Neolítico assinalou grandes modificações na vida dos homens: agricultura e criação permitiram-lhes divisão de trabalho, cooperação entre grupos, uma existência mais organizada, contar com reservas de alimentos e iniciar um tipo primitivo de comércio, baseado em trocas, desenvolver o sentido de propriedade (terras, produtos, animais).

Das regiões da Ásia, onde, nesse período, houve grande aumento de população, a agricultura se irradiou gradativamente em direção à Europa, com migrações de numerosos grupos em busca de novas terras.

* Idade dos metais.  Assim como o homem descobriu, pela observação e o raciocínio, como aproveitar e trabalhar as pedras, pedaços de ossos, chifres de animais e madeira, da mesma forma aprendeu a trabalhar os metais que encontrou no solo. O primeiro metal utilizado foi o cobre (no VI milênio a.C.), de início martelado a frio, depois fundido ao fogo e moldado em forma de barro ou de pedra, para feitura de ornamentos e lâminas de facas. Sendo um metal mole, o cobre não substituiu totalmente a pedra, que continuou sendo usada para instrumentos ou armas que exigiam grande resistência. Mais tarde o homem descobriu a liga do cobre com o estanho, obtendo assim o bronze, metal mais duro, que foi largamente empregado na fabricação de lanças, espadas, capacetes e objetos de adorno. Descobrindo como utilizar o metal, o homem, além de agricultor, pastor e criador, tornou-se também artesão. Esse novo tipo de atividade exigiu nova divisão de trabalho entre os membros das tribos, uma organização social mais complexa. Nasceram, assim, os primeiros pequenos núcleos urbanos que puderam atender às necessidades de uma população em aumento, desenvolver o comércio de matérias-primas e objetos de artesanato, oferecer serviços coletivos - tais como distribuição de água e de cereais - providenciar a construção de fortificações, templos, edifícios públicos.

Com a Idade dos metais deu-se a passagem da Pré-história à História. Através de cerca de 1 milhão de anos o homem evoluiu física e mentalmente, graças à inteligência que lhe permitiu dominar a natureza, passo a passo. Essa evolução, entretanto, não ocorreu ao mesmo tempo no mundo todo. Houve um grande desnível entre os períodos pré-históricos no Oriente e no Ocidente. Também a entrada dos homens na História deu-se em épocas diversas: enquanto a Europa ainda se encontrava na Pré-história, no Oriente já haviam surgido civilizações, precursoras da civilização ocidental.

* Os paleoíndios no continente americano. "Escavações feitas numa caverna com as paredes pintadas, próximo a Monte Alegre, na margem norte do Amazonas, trouxeram à tona descobertas tão importantes (...) que valeram a seus autores a capa da respeitada revista norte-americana Science. Foram encontrados lascas de pontas de lança e de outras ferramentas, carvão de acampamentos humanos e restos de alimentos, como frutas e animais, além de pedras pintadas que atestam a presença de culturas indígenas no local durante 1 200 anos, a partir de 11 mil anos atrás, mesma época dos primeiros vestígios humanos na América do Norte". (Trecho do artigo de Martha San Juan França publicado em O Estado de S. Paulo, 18 abr. 1996.)

"No final do período Paleolítico, o continente americano já era habitado por diversos povos, chamados paleoíndios. Esses povos, de modo geral, eram caçadores e coletores que sobreviviam praticando a caça, a pesca e a coleta de frutos e raízes.

Na região Norte do continente, os grupos de paleoíndios eram experientes na fabricação de ferramentas de pedra, e suas pontas de lança eram talhadas com grande habilidade. Eles eram especializados na caça de grandes animais, como os mamutes.


Artistas Cro-magnon pintando mamutes em Font-de-Gaume, Charles R. Knight

A América do Sul também era povoada nessa época. A região de Lagoa Santa, no atual estado de Minas Gerais, por exemplo, era habitada por paleoíndios.

[...] Viviam em bandos reunidos em torno de um líder. Dominavam o fogo e tinham técnicas rudimentares de construção de utensílios de pedra lascada, como pontas de lanças e lâminas de quartzo capazes de cortar couro e carne.

Ao contrário do que normalmente se imagina, os paleoíndios não moravam em cavernas, e sim em locais abertos onde havia água corrente disponível [...]. Nesses locais, a vegetação farta e a presença de animais silvestres garantia uma alimentação balanceada entre vegetais e carne de caça. As cavernas eram usadas como abrigos pelos caçadores e, provavelmente, para a realização de rituais religiosos e fúnebres. Embora fossem nômades, cada grupo movia-se dentro de um território próprio, que conheciam detalhadamente – o que facilitava a busca de alimentos. [...]

A arqueologia também nos mostrou, mais recentemente, que os [habitantes] do Brasil paleoíndio tinham respeito por seus mortos, depositando-os em abrigos de pedra – o que garantiu sua conservação ao longo dos milênios". [...] ROMANINI, Vinicius. “O Brasil de Luzia”. In : Os caminhos da Terra, ano 12, n. 151. São Paulo: Peixes, novembro/2004. p. 48.

7. A cultura na pré-história. O homem pré-histórico legou-nos interessantes testemunhos da sua cultura, através de gigantescos monumentos de pedra e pinturas em cavernas.

"Quase por toda parte do Mundo o homem primitivo escavou, gravou ou pintou nas paredes rochosas dos seus abrigos ou grutas: na África Meridional, Central ou Setentrional; nas regiões ocidentais dos Estados Unidos; na Oceania, na Austrália e em muitas outras regiões. Todas essas manifestações de arte rupestre não datam da mesma época; de fato, muitas vezes os arqueólogos podem emitir hipóteses sobre a sua data; todavia, em numerosos pontos do globo, essa arte primitiva apresenta caracteres comuns." (E. M. Upjohn et alii. História mundial da arte. Lisboa: Bertrand, 1965. v. 1. p. 32-33.)

Os monumentos de pedra parecem ter significado religioso, ligando-se ao culto dos mortos. São de dois tipos, conhecidos pelos nomes de menirs (pedra comprida, em língua bretã) e dólmens (mesa de pedra, também em língua bretã).


Os megálitos são os mais antigos monumentos da humanidade. Os círculos de Stonehenge [Grã-Bretanha] estão talvez ligados a um culto solar ou lunar.

O homem da Pré-história criou ritos mágicos para auxiliá-lo a vencer a natureza e o medo do desconhecido. Esses ritos buscavam favorecer a caça, trazer chuvas, estações propícias, fartura de alimentos. Foram os ritos mágicos favorecedores da caça que provavelmente deram início às primeiras manifestações artísticas, desenhadas e pintadas nas paredes e no teto de cavernas, com carvão, tintas minerais e vegetais, representando animais como o mamute, o touro, o javali, a rena, o cavalo.

Caça de búfalos, Tassili n' Ajjer, Saara - Argélia

Apareceram também estatuetas, sobretudo imagens femininas, representativas da fecundidade, da natureza fértil; gravuras em pedra, osso, marfim; cerâmicas pintadas ou decoradas com motivos geométricos.


Vênus de Laussel. Relevo em pedra calcária, datado de 20000 - 18000 a.C. e encontrado na região de Dordonha, França. Havia uma forte presença feminina na religião, uma vez que a fertilidade da terra/natureza era identificada com a fertilidade da mulher. A chamada Vênus de Laussel faz parte de uma série de representações do mito da fecundidade. Essas figuras femininas têm como características o ventre inchado, seios e nádegas grandes e quadris largos.

Na Idade dos metais multiplicaram-se os desenhos geométricos no artesanato, aperfeiçoou-se a representação das figuras humana e animal. Em certas regiões do Oriente Médio construíram-se templos em homenagem a várias divindades; e, também no Oriente, nasceu, sobre placas de argila, a escrita pictográfica.


AQUINO, Rubim Santos Leão de et alii. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 100-101.
BARRACLOUGH, Geoffrey (coord.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha de S. Paulo/Times Books, 1985. p. 35.
GINSBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 151.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de. História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 2-8.
NEVES, Joana. História Geral - a construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 24-25.
ROMANINI, Vinicius. “O Brasil de Luzia”. In : Os caminhos da Terra, ano 12, n. 151. São Paulo: Peixes, novembro/2004. p. 48.
UPJOHN, E. M. et alii. História mundial da arte. Lisboa: Bertrand, 1965. v. 1. p. 32-33.